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sábado, 4 de julho de 2015

Choque de Bandeiras: Carta Aberta a Ana

Todo mundo viu que após a aprovação do casamento gay nos EUA um mar de bandeiras do arco-íris invadiu o Facebook não foi? Aproveitando o movimento, os transexuais decidiram mostrar a cara e divulgaram sua bandeira também. Reações obviamente se fizeram ouvir. E a mais chocante, na minha opinião, foi da página Conspiração dos Unicórnios Satânicos Pela Ditadura Comunista, Gay e Feminazi. O texto era assinado por ~Ana~ (e eu nunca vou entender o que significa til antes das palavras).
Ana termina o texto afirmando-se feminista radical, e critica a explicação de que transexuais se sentem mulheres como um "delírio queer". Começo o texto pelo fim porque esta é a informação mais importante do texto todo. Explica quem ela é e de onde ela fala. Feministas, principalmente as ditas radicais, nunca apoiaram os movimento gay. Podem todas se coçar de raiva agora, mas esta é a verdade. Historicamente, o movimento feminista nunca esteve preocupado com as questões gays e, principalmente, muito menos com as questões queer. Queer não é simplesmente "viado" em inglês. Queer é uma escola de pensamento que questiona as relações de gênero. E é ai que a Ana peca. Ela acha que entende o pensamento queer e se apropria de conceitos dele, sem saber, e os mastiga dentro de um machismo torto que ela ainda não conseguiu se libertar. Vejamos.
Ana afirma, com todas as letras, que ser mulher é ter uma vagina. Ela abre seu texto assim. Mas no terceiro parágrafo do seu texto ela afirma que ser mulher é ser submetida desde o nascimento a rituais violentos e limitadores. Ela diz que gênero não existe naturalmente, mas uma mulher se torna mulher ao ter uma vagina. Ana está confusa sobre o que é ser mulher porque ela está exposta ao que ela chama de feminismo radical e as propostas da teoria queer que ela não domina. Decida-se, Ana, ser mulher é natural? Então ela está relacionada a sua vagina, apenas a ela, então todo seu argumento seguinte sobre o controle do patriarcado não pode ser mais usado, e seu apelo para que as mulheres parem de apoiar transexuais faz todo sentido. Eles não são e nunca deixarão de ser mulheres.
Porém, infelizmente, para o feminismo radical, a teoria queer provou claramente que o patriarcado não "submete desde o nascimento a rituais violentos e limitadores" somente mulheres. Homens também são submetidos a rituais que os violentam e os limitam do mesmo jeito que mulheres. Ai você pode argumentar que nenhum homem é assassinado por ser homem, como mulheres de fato são, mas eu lembro a você que homens gays são assassinados todos os dias porque não querem mais viver como a norma dita que eles deveriam viver. 
Você diz, e cito, "gênero é um sistema de códigos de conduta forjado pelo patriarcado e imposto às mulheres para nos controlar, domesticar, submeter e explorar", e esse é o problema do feminismo radical e a teoria queer, porque a teoria queer afirma que não é apenas as mulheres que foram expostas a isso. Homens de classes sociais inferiores, homens negros, crianças de ambos os sexos, homossexuais, travestis e transexuais também sofrem com os mesmos códigos de conduta impostos pelo homem branco e heterossexual. Isso incomodou o movimento feminista de uma forma que praticamente impossibilitou pontos de contato entre as duas teorias.
Mas, Ana, em um único ponto você estava certa, não vou negar. Também fico curioso porque transexuais repetem padrões femininos (roupas, acessórios, transformação do corpo, gestos, emulação da voz) para dizer-se mulher. Mas ao contrário de você eu sei que são símbolos. Que se apossando destes símbolos eles conseguem comunicar algo ao grupo que eles fazem parte. Eu, obviamente, iconoclasta que eu sou, preferia que eles rompessem com estes símbolos do que reforçá-los, repetindo o código deste sistema patriarcal/homofóbico/machista que vivemos, mas eu entendo que para muitos esse enfrentamento ainda não é possível. Não é possível porque eles ainda não tem esta consciência de mudança de mundo e, porque, eles ainda precisam se afirmar muito como pessoas com direitos, como cidadãos reais, em outras palavras, eles ainda estão lutando por visibilidade, para vir a se preocupar com a desconstrução de símbolos. Este papel é nosso! Dos gays, das lésbicas e das mulheres! Eu te convido, Ana, agora, para desconstruir a sua vagina.

domingo, 7 de junho de 2015

A Nova Paternidade

, em Natal - RN, Brasil
Tem uma coisa que tem me aquecido o coração nesses últimos tempos: pais e seus filhos. Mas não pais no sentido de pai e mãe, pais, somente o pai. Lembro da minha infância, em que o único contato que eu tinha com meu pai era quando ele puxava um cinto para me dar uma surra. Não lembro de nenhuma vez sair com ele de mãos dadas, ou ir ao colo dele, ou dele brincar comigo de qualquer coisa que fosse. Meu pai não estava lá. Mas eu entendo, nenhum trauma foi construído por causa disso. Na geração do meu pai, não havia o costume de pais cuidarem dos filhos, esta tarefa era exclusiva das mães, tias, avós, as mulheres da família. 
Graças ao bom Deus o mundo mudou! Homens adultos podem ter seus filhos aos braços, beijá-los, acarinhá-los, brincar com eles, dizer que os amam. Em uma geração, os filhos de homens como meu pai decidiram que não tratariam seus próprios filhos, os seus meninos e meninas, da mesma forma como foram tratados. Vocês imaginam qual será o resultado destas crianças que cresceram com tanto amor? Sinceramente, meu coração se enche de esperança. Acho que teremos um futuro lindo nas mãos destas crianças criadas com tanto amor. Um mundo melhor se anuncia!  



Uma nova fase começa agora no blog, com postagens quinzenais. A falta de assunto na minha vida não sustenta mais um blog semanal, infelizmente. Peço desculpa também aos outros queridos blogayros porque não tenho podido lê-los. O tempo está curto! 

domingo, 26 de abril de 2015

Não Faça Isto No Primeiro Encontro (Comigo)

, em Natal - RN, Brasil
Enquanto isso, dentro da minha cabeça.

Eu pensei em escrever este texto como um conselho para todos, mas imediatamente eu pensei "quem sou eu para este papel?". Aconselhar alguém sobre como proceder em primeiros encontros? Como se eu estivesse na posição de grande conhecedor da matéria. Como se eu possuísse inúmeras experiências positivas e maravilhosas que resultaram em segundos encontros. Mas, por outro lado, quem teve mais primeiros encontros do que eu por aqui? Desafio qualquer um. Eles não deram certo, em sua maioria, é verdade!, mas por causa disso eu não extraí nenhuma experiência? Foi então que tive esta brilhante ideia: falar do que fizeram comigo (ou o que eu fiz) que nem eu suportei, logo eu que tenho uma notória paciência e dou mil chances para todo cara. Em outras palavras, aquilo que nem eu que aceito tudo, topei.

1) Sobre atrasos.

Atrasar para qualquer coisa não é legal, mas ninguém está livre de cometer esta gafe num primeiro encontro. E, se acontecer, peça milhares de desculpas. Simplesmente estar presente, ter finalmente chegado, não é o bastante para que sua companhia o perdoe. Você não é especial deste jeito!
Eu conto um causo neste momento? Conto! Era uma vez, no reino distante de Bambuluá, eu saí com um garoto, 21 anos, inteligente, não muito bonito, papo politizado e militante, era um cara interessante, cara de estudante de ciências sociais fã de Che Guevara. Era nosso primeiro encontro e ele chegou 1 hora atrasado (eu disse que aguento muita coisa, não disse?). Ele chegou no exato momento que eu havia me levantado para ir embora, e eu decidi me sentar para conversar com ele mesmo assim. Eu esperava um pedido de desculpas, uma história envolvendo abdução ou sequestro relâmpago, mas depois de um pedido de desculpas vazio, porque ele não se importava em nada de ter me feito esperar sessenta minutos (na cabela dele devia ser alguma convenção burguesa usar relógios, vai ver), mas queria sair dali para me comer na minha casa. Eu, obviamente, disse-lhe um sonoro não. 
Então, seja quinze minutos ou meia hora (e neste caso ligue para falar com a pessoa já adiantando seu pedido) ao chegar peça grandiosas desculpas. Ninguém é tão especial que sua simples presença fará o outro esquecer o tempo que ficou ali te esperando e de sua falta de consideração com ela neste tempo. Se for atrasar uma hora, nem vá, desmarque!, e ninguém espere mais que trinta minutos (só idiotas desesperados fazem isso) e só espere este tempo se houver uma ligação explicando o que aconteceu, se foi apenas uma mensagem depois de 15 minutos de atraso, vá embora!

2) Sobre celulares.

De fato, é chato estar com alguém em uma mesa que dá mais atenção às mensagens que recebe no celular do que a você. E é errado, ora! Estabeleça uma prioridade relacionada a proximidade física das pessoas que você fala, quem está conversando com você mais perto tem sempre prioridade em relação a quem está a quilômetros de distância (não, isso não é uma dica para o Grindr). É cortez, polido, chique. Combinado isso?
Mas, ao mesmo tempo, é seu primeiro encontro com o rapaz lindo, fofo, gostoso e inteligente que você conheceu sabe-se lá como. Você não sabe ainda nada sobre a família, os amigos ou o trabalho dele para se irritar se durante a conversa/jantar/copos de cerveja ele sacar o celular porque o Whatsapp chamou ou mesmo responder uma mensagem. E se for algo importante? 
Meu causo? Uma vez, no reino encantado de Bambuluá, eu e ele sentamos na mesa juntos e assim que sentei recebi uma mensagem no Whatsapp, eu, num reflexo, saco o celular para ver quem era e se era algo importante. Ele segurou meu braço e pediu, de forma enérgica, mas fingindo doçura que eu desligasse o telefone. Eu só pensei ali: "Gente do céu, quem é você para pedir que eu desligue meu celular?". Ele tentou explicar-se, dizendo que era chato e que considerava uma falta de educação, mas era tarde demais porque eu só ouvia a ordem que ele me deu. 
Eu obedeci, mas aquilo colocou um filtro sobre todo o nosso encontro. Ele era autoritário. E as ações, as histórias, o chocolate que ele me deu (e cobrou três vezes que eu comesse enquanto estávamos na mesa) só eram lidos sob este viés. Este é o risco de cometer um erro durante este primeiro contato, porque a primeira impressão é a que fica, ela coloca uma lente sobre você que limita a forma e aquilo que outro verá.


Só digo uma coisa, se nem eu que topo tudo porque sempre acho que talvez a próxima pessoa vá gostar de mim suporto isso, imagina os caras que você sai que tem outras opções. 


domingo, 12 de abril de 2015

Analfabetismo

, em Natal - RN, Brasil
Cheguei a conclusão que nosso único problema, o único mesmo, a causa de todos os nossos males sejam eles sociais, políticos, religiosos e sexuais, absolutamente tudo!, é o analfabetismo histórico. Duvidam de mim? Vejamos alguns exemplos: o racismo. Se pretende resolver este problema a partir da exposição de uma igualdade baseada na Biologia/Genética, mesmo que isto não seja verdade. É visível que não somos iguais. Brancos, negros, índios, indus, orientais, árabes, judeus tem características físicas/genéticas que os diferenciam uns dos outros. Isto é um fato! Seja a quantidade de melanina, seja a suscetibilidade a algumas doenças. Somos sim diferentes! É preciso, na verdade, parar de jogar para debaixo do tapete esta realidade e começar a aceitar que a diversidade humana começa em nossos corpos. No lugar de ensinarmos que somos todos um, precisamos ensinar que todos somos diferentes, mas nem por isso merecemos ser tratados com desrespeito. O racismo se resolve facilmente quando reconhecemos que apesar de todas as diferenças nós, humanos, compartilhamos uma História em comum. Nós, brasileiros, americanos, europeus, africanos, asiáticos dividimos este planeta desde o começo do tempo. Porém se o conhecimento histórico fosse acessível a todos saberíamos que, neste mundo de meu Deus, nós fomos explorados igualmente explorados independente de nosso código genético. O problema definitivamente não está na inferioridade de alguns corpos, como os defensores da eugenia, de tempos em tempos repetem.
Outro exemplo? Eu poderia citar o papel ridículo da classe média brasileira pedindo o retorno da Ditadura Militar ou comparando o governo petista com um governo socialista. A falta de conhecimentos sobre o nossos governos ditadoriais ou sobre o que é socialismo me fazem quase chorar. De verdade! Posso também citar como os americanos elegem inimigos mortais a cada mandato presidencial. Inimigos que eram antes aliados, devo dizer. Clínton elegeu o Iraque; Bush, o Afeganistão; Obama, Irã e agora a Venezuela. Os americanos esquecem que seus presidentes só tem reais poderes em caso de guerra, que qualquer governador pode promulgar leis em sua federação, e portanto sem um inimigo (mesmo que imaginário) ele perde toda a utilidade. Se o conhecimento histórico fosse disseminado poderiam os americanos questionar o porquê de seu antigo aliado hoje é um inimigo. Hussein, os aiatolás afegãos, os fundamentalistas iranianos e até mesmo a economia venezuelana exclusivamente baseada em vender petróleo para os EUA e consumir seus produtos foram resultado  de influência direta dos americanos.
Exemplos não se acabam. O fundamentalismo islâmico e evangélico é resultado direto também do analfabetismo histórico. Dos fiéis pelo mundo que não conhecem a verdadeira História do Alcorão e da Bíblia. Que não leem seus livros sagrados a partir do contexto histórico que os formulou. Que acreditam que porque este conhecimento fora revelado por Deus os homens que os escreveram estavam imunes ao tempo que viveram. O analfabetismo neste caso está relacionado ao desconhecimento de um dos conceitos-chave da História: historicidade. Nenhum homem é imune a seu tempo. Nem mesmo profetas, nem mesmo o messias. Ninguém pode existir neste planeta sem viver sobre as suas regras e uma delas é o tempo. Homens que vivem dentro de um mesmo tempo, educados dentro de uma mesma sociedade, socializados dentro dos mesmos conceitos, só conseguem pensar seu mundo dentro de um certo limite. Conceitos como ateísmo, amor romântico, infância, escravidão, saúde, natureza, entre outros, não são imutáveis. Eles dependem do tempo em que existiram para serem definidos e pressupor que nossos conceitos de hoje são os mesmos de autores que escreveram entre 2 mil e 1500 anos atrás é o maior crime que alguém que já teve uma aula de História pode ter: anacronismo.
O analfabetismo histórico, portanto, leva diretamente a este pecado. Leva a acreditar que o mundo sempre foi do jeito que ele é hoje. Faz todos acreditarem que as relações entre homens e mulheres são naturais. É daí que se origina o machismo, "os homens sempre dominaram as mulheres", que se origina a homofobia, "os homens de verdade sempre foram assim", que se origina as críticas ao casamento homoafetivo, "o casamento sempre foi entre homens e mulheres". Sem o estudo da História, com seriedade, como elemento de transformação social, nós estamos fadados a acreditar que o mundo nunca foi diferente do que é hoje, tanto para o bem, como para o mal. Sem esta consciência, repetiremos os mesmos erros incessantemente e não reconheceríamos sequer que aquilo é um erro porque não saberíamos que o diferente é possível. Sem aulas de História, sem aulas que ampliem a consciência de crianças e adultos para além da experiência imediata que nossos sentidos são capazes de fornecer não nos tornaremos nunca seres humanos melhores.

domingo, 5 de abril de 2015

Eclipse

, em Natal - RN, Brasil
A maior diferença entre alguém que só quer sexo com você e outra pessoa disposta a te amar é a quantidade de energia e esforço colocada numa relação. Sexo, quem deseja somente sexo, segue a lei do menor esforço. É por isso que aplicativos para celular como o Grindr ou o Hornet fazem tanto sucesso. Você abre um perfil, troca meia dúzia de palavras e tem um cara na sua cama. É tipo delivery  de pizza. Muitos devem sentir falta do refrigerante que acompanha.
Do outro lado, alguém que pretende que um relacionamento seja mais do que um único encontro dedicado ao gozo, primeiro esforça-se para conhecer o outro (o que já é difícil por si), depois esforça-se para fazer parte da vida do outro (o que é bastante complicado porque envolve conciliar agendas profissionais e conquistar os amigos do outro)e, talvez o mais difícil, tem que abrir-se para o outro e este gesto, apesar de simples, envolve abrir mão de toda a sua segurança, suas redes de proteção, deixar-se possivelmente ferir ao baixar seus escudos e lançar fora a armadura, desnuando o peito. É difícil com certeza, e se você acha que direi mais satisfatório está enganado/a.
Apesar de eu considerar pessoalmente que as relações que vão além do sexo são mais enriquecedoras, esta opinião é puramente pessoal (não estou criticando quem acha o contrário) porque eu já explorei demais as relações de puro sexo. Para minha pessoa, no atual estado de minha evolução espiritual, o sexo pelo sexo não me ensina mais nada. Já concluí essa cadeira. Mas para um jovem adolescente ou um adulto que foi muito reprimido, meu conselho é: Aproveite! Faça muito sexo! Com todos os cara que você desejar!, mas não feche a porta para o amor quando você o encontrar. Já aos que procuram relacionamentos longos, duráveis e estáveis, eu não tenho nenhum conselho a dar, não sou sábio o suficiente para isso. Eu ainda estou nas turmas para iniciantes sobre o assunto, a única informação que eu tenho sobre isso é que quando alguém quer mesmo ficar com você ela não mede esforços, mas esta era a informação que iniciou este texto, minha única pérola que espero não ter atirado aos porcos.

domingo, 22 de março de 2015

"Eu Vejo Pessoas Bonitas"

Às vezes eu me sinto o Haley Joel Osment em o Sexto Sentido.

- Eu vejo pessoas bonitas!
- Com que frequência?
- O tempo todo!

Todo mundo que eu vejo tem algo bonito. Simplesmente não sei como alguém pode olhar para outra pessoa e dizer que não há nada ali agradável ao seu olhar. Seja um suave brilho nos olhos, a bonita definição dos ombros, a bela proporção das pernas, a deliciosa curva da bunda, a macia força das coxas, a fofa simetria das orelhas. Como alguém pode olhar para outra pessoa e não encontrar ali nada de bonito?
Não que eu seja cego para os defeitos. Eu posso vê-los também e ser bastante detalhista. Eu sou capaz de reconhecer que aqueles olhos são muito juntos, que os ombros são largos demais, as pernas de fulano poderiam ser pelo menos cinco centímetros maiores, que um outro não passou na fila para receber bunda quando Deus fez-lhe o corpo, que alguém tem uma perna dividida canela-joelho-canel. E nem vamos falar com essa mania das pessoas de usarem barba de mendigo, aparem isso, por favor!, e não é raspar, é aparar de vez em quando, e uma dica é que se quando você come algo suja sua barba, ela está grande demais. E sandália com meia: não, não, não!!!
Culpo minhas habilidades com desenho por isso. "O desenho não é a forma, é maneira de ver a forma", já dizia Degas. Desenhar te deixa consciente de duas coisas: o que é um corpo perfeito e o que faz uma pessoa bonita. Perfeição é uma coisa na verdade simples de obter, mesmo ela não existindo no mundo real, basta seguir a chamada Proporção Áurea ou Número de Ouro, uma regra que foi popularizada pelo Renascimento. 7,5:2 é a chave para um corpo humano perfeito, Juntando a isto a simetria e teremos a perfeição divina.
Porém, apesar do Número de Ouro ser a chave da perfeição, ele não é a chave da beleza. Por um motivo muito simples: o belo não se encontra na perfeição. Ironicamente, apesar da indústria de cosméticos dizer-nos o contrário, é o defeito que torna alguém bonito, porque a beleza se encontra naquilo que é único e são nossos defeitos, nossas experiencias cravadas em cicatrizes, rugas e cabelos brancos, nossos olhos ligeiramente assimétricos, orelhas de tamanhos diferentes, narizes grandes demais, uma boca um pouco torta para esquerda, que tornam nosso rosto lindo e inimitável. Um ombro mais estreito, pernas mais longas, um abdômen mais largo, um quadril mais amplo, uma altura menor tornam cada um de nós especial, um indivíduo sem comparação na face da Terra e, portanto, um indivíduo lindo.
Por isso, eu olho em minha volta, aonde eu estiver, e posso encontrar alguém bonito. Porque minha definição de beleza não encontra eco na perfeição. Aqueles perfeitos no máximo arrancam de mim uma admiração técnica, como se eu observasse um desenho perfeitamente executado, mas que falta emoção. Haverá um elogio sim, mas em seguida darei de ombros e farei um beicinho de desdém. E por quê? Porque sinceramente acho muito mais bonito um menino de orelhas grandes, peito definido e braços magrinhos que sorriu para mim iluminando todo o ponto de ônibus onde ele estava esperando o dele e eu passei dentro do meu. Ele não era perfeito, mas tenham certeza, fazia tempo que eu não via um menino tão lindo nesta cidade.

domingo, 9 de novembro de 2014

"Covardes, Estupradores e Ladrões"

, em Natal - RN, Brasil
Estava lendo Masculinidades, o livro organizado por Mônica Schpun, e um dos textos escritos pela antropóloga paulista, professora da UnB, Lia Machado, Masculinidades e violências: gênero e mal-estar na sociedade contemporânea, me fez pensar. O texto fala sobre estupros e violência doméstica através de entrevistas com os próprios estupradores e os agressores, eles explicam porque cometeram tais atos e ela explica o raciocínio machista que faz com que estes homens pensem que não cometeram crime nenhum pois, segundo eles, toda mulher estuprada queria fazer sexo e toda mulher agredida precisava aprender uma lição. Lia, se ela me permite a intimidade de chamá-la pelo primeiro nome, é adepta (como eu) da corrente histórico-sociológica que admite que o gênero são construções simbólicas que podem ser datadas no tempo, no espaço e, sobretudo, nas culturas. Ela chama isto de "construtivismo de gênero", e para citá-la (que faz bem): "os gêneros são construídos cultural e historicamente, podendo, assim, variar em número, em identidades e diferenças, ou até mesmo desaparecerem". Como eu já repeti aqui várias vezes. Homens e mulheres, masculino e feminino não são categorias naturais, elas são construções históricas que advém da revolução burguesa do século XIX e início do XX, isto é, esta coisa que nós consideramos natural foi inventada há mais ou menos 150 anos, seu vaso sanitário, aquele que você usa no banheiro, é mais natural já que foi inventado há pelo menos 3 mil anos atrás. 
Falando com os estupradores, a lógica de raciocínio destes homens me fez lembrar daquela que coloca os gays ativos numa posição superior aos gays passivos (inclusive de agora em diante eu irei me referir a este tipo de preconceito como "a lógica do estuprador", vocês também estão livres para usarem minha nova expressão). No imaginário do erotismo ocidental, como sabemos, o lugar do masculino na relação é pensando como aquele que se apodera quando penetra, este é o sujeito da relação sexual e, portanto, ATIVO; enquanto aquele ou aquela que é penetrado/a é identificado como um objeto do prazer do primeiro, um PASSIVO. É importante perceber que o sujeito ativo da relação sexual é o único que cabe ter prazer, mulheres e homens que se colocam numa relação passivamente não podem sentir prazer porque objetos não sentem prazer. Quando, e vemos isto sobremaneira com relação a mulheres, este objeto sexual exige seu próprio prazer, ele é combatido porque não cabe ao feminino gozar. 
É sintomático as palavras que nós escolhemos para separar nossas preferências sexuais. Em inglês são usados com frequência os termos top (de cima) e bottom (de baixo), com uma clara referência as posições na cama, o mesmo se dá em finlandês (päällä e alla), mas os termos pitcher (pegador) e catcher (pegado) também existem; como em português, no francês, alemão, turco, italiano, servo-croata, polônes e russo, os ativos e passivos reinam; também matendo o mesmo sentido de aquele que penetra sendo o que tem o controle da ação: em grego, energeticos (o que age) e patheticos (o que recebe a ação) e em chinês, gong (o que ataca) e shou (o que se submete). Como exceções, porque toda regra tem a sua, o japonês faz metáforas, tachi (longa espada) e  neko (carrinho de mão); o árabe compara a correntes elétricas, mojib (positivo) e salib (negativo), e que fique claro que isto não é um julgamento moral, são as mesmas palavras usadas para distinguir os polos de uma pilha, por exemplo, e o espanhol que apesar de também conhecer o activo e pasivo, usa com bastante frequência soplanuca (sopra nuca) e muerdealmohadas (morde fronha/almofada).  
Não é interessante de como estamos inundados por este machismo e nem nos damos conta dele? Nós mesmos que somos gays escolhemos as palavras para nos definir e caímos no esquema que divide nossa sociedade a partir da dicotomia masculino e feminino. Nós criamos um homem, o ativo, e uma mulher, o passivo, e esperamos de cada um deles comportamentos masculinos e femininos. Quer exemplos? Todos se surpreendem ao encontrar uma drag queen ativa, todos acreditam que porque tal menino é mais delicado e efeminado ele necessariamente é passivo, todos aguardam que porque aquele cara não tem trejeitos ele vai ser o ativaço na cama. Nós que poderíamos romper com tudo isso, que foi nos dado por Deus o dom de superar todas estas questões machistas na sociedade e viver relacionamentos realmente livres de padrões impostos socialmente, acabamos por reproduzir o sistema heterossexual no seio de nossas relações.
Lia Machado conclui sua fala com os estupradores assim: "O ato do estupro parece sintetizar a confusão entre a ideia de masculino como parecendo advir do único corpo sexuado que se apodera do corpo do outro, parecendo ter o falo, isto é, a potência e a força, e a ideia de masculino como parecendo ser a lei, já que neste ato sexual suprime-se a mulher três vezes: enquanto corpo sexuado que pode se apoderar de outro corpo, enquanto sujeito desejante e enquanto sujeito social que participa da confecção da lei". Extrapolo facilmente isto para o mundo gay. Considerar que o ATIVO tem alguma situação social superior a sua contraparte, considerar que a este cabe potência e força, repetir para ele e exigir dele os modelos de conduta do homem heterossexual é considerar que o homem gay PASSIVO: 1) não tem o poder de dominar um outro homem, e o que quero dizer com isso é que ele não tem um namorado, o marido não é dele, ele não tem nada, ele pertence a outra pessoa, vive para a outra pessoa, depende do outro para ter sua própria existência; 2) não é um ser sexuado, isto é, ele não tem desejo, nem prazer sexual, ele apenas serve ao seu homem como objeto para dar-lhe prazer, um problema grande também sobre isso é a fantasia sobre o pênis e o orgasmo masculino, a questão de acreditar-se que o único tipo de prazer sexual que você pode ter é se houver ejaculação, isto é, repetir o ultrapassado modelo heteronormativo (a Sandy já disse, é possível ter prazer no sexo anal); e, 3) por fim, o gay passivo não é um sujeito social, estes sujeitos não têm o direito de existir, ele deve ser apagado da nossa sociedade o máximo possível inclusive naquilo que nós julgamos como denunciador de passividade, no caso, ser efeminado, em outras palavras, tudo bem você ser gay, tudo bem você adorar dar o cu, mas ninguém precisa saber. 
Os homens gays repetem lógicas doentias quando, como eu disse, Deus nos deu a chance de vivermos livres delas e de mostrarmos ao mundo o quanto podemos ser felizes se nos libertarmos das imposições que a sociedade criou séculos atrás e disfarçou de natureza para nos ludibriar. Este é nosso papel na sociedade, afinal de contas: quebrar paradigmas! A família não é somente homem e mulher, um relacionamento não é um homem controlando e uma mulher obedecendo, um filho não é somente uma criatura com seus próprios genes e, às vezes, nem da própria espécie, roupa masculina não é só bermuda cargo, camiseta e tênis esportivo, existimos desde sempre mostrando que o mundo está repleto de possibilidades e, no último século, que mudar não faz mal, por isso não podemos reproduzir os erros deles. Nós somos melhores, não somos?

domingo, 26 de outubro de 2014

Chistes Jocosos

, em Natal - RN, Brasil
Sabe o que é mais difícil de combater em relação a homofobia? As piadas! Os ataques físicos e morais, o preconceito segregacionista, o discurso de ódio disfarçado de liberdade de expressão, todos eles são fáceis de serem combatidos porque são quase palpáveis, mas o humor, ah, o humor, este por ser baseado em ironia e sarcasmo, figuras de linguagem que dizem aquilo que expressamente não quiseram dizer, este é difícil de combater porque seu autor sempre argumenta: "eu não disse isso!", e realmente não disse. Vejamos exemplos:
Danilo Gentili já tem sido um artista dos comentários preconceituosos, ele já agrediu negros, judeus, gordos, nordestinos, cubanos e homossexuais. O mesmo acontece há anos no Zorra Total, no humor do falecido Chico Anísio, e não era diferente dos Trapalhões ou da Praça É Nossa. Preconceito contra nordestinos não era o mote de inúmeros quadros destes programas? Negros e pobres não são ridicularizados constantemente? Ser gay não é desculpa para ser humilhado (lembrem-se de Vera Verão)? E lembrando o texto da lei: Lei Federal nº 7.716/1989, Artigo 20: "Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional".  
Estes programas tem sido criticados constantemente por causa de seus personagens caricatos e não é de agora, Mas nunca por homens de nossa elite (heterossexual, branca e morando no Sul-Sudeste), estes riem das piadas, mas negros, nordestinos, gays tem a percepção de o quanto aquilo é ofensivo porque aquilo ofende. Outras pessoas alcançam, no entanto, o sentido negativo das piadas sobre negros e nordestinos, elas conseguem se colocar no lugar do outro, mas o público gay não despertar a mesma empatia, e por quê?
Primeiro, a inexistência no texto da lei da expressão "orientação sexual ou de gênero"e não torna crime incitar homofobia (e, por acaso, também não é crime discriminar mulheres), e é exatamente por causa disso que ninguém percebe sua existência. Pessoas fazem piadas de cunho homofóbico e não a reconhecem como tal porque INCITAR e INDUZIR não são crimes, para as pessoas apenas a discriminação clara ou a agressão física direta podem ser considerados homofobia. Olha o que aconteceu esta semana:
Eu acompanho o site Omelete há alguns anos. É um site sobre quadrinhos, cinema e mundo geek (que por sinal é um dos ambientes mais homofóbicos que eu conheço, os geeks, não o Omelete), eles tem um canal e um programa no Youtube, OmeleteTV. E, num dos últimos programas, eles encerram o programa dizendo que "se você gosta de peitinho, ou se você tem peitinho, assine o canal", critiquei-os via Twitter, e eles tentaram argumentar que já fizeram programas sobre a presença gay nos quadrinhos, que eles são contra a homofobia, etc., mas a prática são piadas como esta (O mesmo apresentador também criticou Espartacus por causa da presença do nu masculino na série tanto quanto existe nu feminino, enquanto elogia Gotham por causa do affair lésbico no passado das personagens Montoya e Barbara, isto é, homem nu não pode, mas mulheres se pegando sim). 
Não duvido que o pessoal do site realmente não enxergue isto como homofobia, mas o que eles não entendem é que ele estava claramente convidando somente homens heterossexuais e mulheres para assinar o canal, como isso não é a exclusão de um público dado sua orientação sexual?  Eles não enxergam, e acredito que nenhum homem heterossexual veria nesta frase discriminação afinal ele foi incluído, somente quem ficou de fora percebe o que aconteceu, mas não devo acusar os membros do Omelete de homofobia, no máximo de falta de empatia, como homens brancos, heterossexuais que vivem em São Paulo é difícil se colocar no lugar do outro.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sobre Experiências, Traições e Afins

, em Natal - RN, Brasil
Eu tenho uma curiosidade imensa daqui do meu lado da vida, de onde observo vocês, sabe? O que significa ser traído? Porque eu observo as pessoas e todas temem a traição de uma forma tão intensa, algumas pessoas chegam perto das raias da fobia, porque se esquivam de relacionamentos, de contatos com outras pessoas, ou mantendo relacionamentos superficiais, temendo que um dia possam vir a ser traídas. É um pavor que eu não entendo. De fato, não entendo. Eu sei que o argumento vai aparecer aqui então deixem-me dizer que onde falo, de onde estas questões surgem. Em primeiro lugar, todos sabem que minha experiência com namoros é praticamente nula, somente um que durou seis meses com o Tato (oi, Tato), portanto eu não tenho ideia do que é sentir-se traído e principalmente do sofrimento que isto pode causar em alguém. Minha falta de experiência com o assunto é real e por isso apelo a vocês para que me expliquem, eu não estou brincando, é uma dúvida real. Então, por favor, não respondam que se eu tivesse um namorado eu ia entender. Eu não tenho, e talvez por isso eu não entenda, talvez! Afinal exista a possibilidade que a minha concepção sobre traição seja real, apesar de nunca testada empiricamente.
Minha concepção de vida, filosófica, política, acadêmica formada através dos livros que li (porque, repito, minha experiência com tudo isso é puramente intelectual) em que eu não considero que a posse sobre alguém seja basilar ao amor, isto é, nunca acreditei em minha vida que para eu me sentir amado ou para que eu amasse alguém, eu teria que ser fiel e pertencer somente a uma pessoa. Em teoria, eu seria facilmente adepto do poliamor, nunca fui uma pessoa ciumenta, nunca acreditei que a base de um relacionamento saudável seja a fidelidade e sim a lealdade, e qual a diferença entre os dois? Fidelidade é você nunca se relacionar com outras pessoas, lealdade é você nunca enganar a outra pessoa, você pode ser fiel e nunca ter sido leal (por exemplo, mentindo sobre o trabalho, sobre a condição econômica, etc) e você pode não ser fiel, mas ser completamente leal (como em relacionamentos abertos). Obviamente, eu nunca pus nada disso a prova, afinal meu namoro a distância com o Tato (Belo Horizonte/MG - Cabo Frio/RJ) não é o melhor exemplo dado as inúmeras idiossincrasias que um relacionamento via MSN tem per si
Lembro também dos grandes traidores que eu conheci em minha vida, meu irmão mais velho e agora o Le Garçon Blond, (citarei apenas dois exemplos, mas não que eu não conheça outros mais), estes são sempre assombrados pelo fantasma da traição. Toda conversa sobre relacionamento com o Le Garçon sempre termina com ele falando sobre fidelidade e ele demonstrando que não confia em ninguém. Meu irmão mais velho perseguia suas namoradas e queria saber onde elas estavam o tempo todo porque ninguém poderia enganá-lo. Mas ambos traem continuamente as pessoas com quem se relacionam. É outra dúvida: pela minha experiência intelectual parece haver uma ligação entre aqueles que mais traem e aqueles que mais tem medo de ser traídos, isto procede ou minha amostragem está viciada? Eu inclusive conheço dois casos de pessoas que sempre traíram e temiam absurdamente serem traídos que ao casarem-se e finalmente dedicarem-se realmente a uma vida fiel perderam o medo de serem traídos também. Então, esta lógica faz sentido?
Estas perguntas são porque eu vejo este medo irracional das pessoas e eu fico aqui pensando comigo: por quê? Dói tanto assim que a pessoa prefere se privar de tudo o de bom que um relacionamento traz (companheirismo, amizade, sexo, amor, felicidade) por causa de uma possibilidade que pode vir a não se realizar? Ou estas pessoas tem um concepção de amor errada (afinal amar algumas pessoas eu já amei mesmo, uma única vez correspondido de 3), elas sentem que a precisam possuir a pessoa e é este sentimento que quando é rompido dói tanto, como quando uma criança mimada não tem aquilo que quer? É o ego magoado que dói tanto? Uma vez me disseram que se eu tivesse vivido estes amores que tive em sua completude, isto é, se o namoro com o Tato não tivesse sido a distância, ou se o Anjo em Belo Horizonte ou se o Menino Bonito aqui em Natal tivessem correspondido aos meus sentimentos eu não pensaria deste jeito. Será? Fico com minhas dúvidas, será que vocês podem ajudar-me?

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Nova Bossa

, em Natal - RN, Brasil
Não conhecer história é um crime imperdoável, sabe? Imperdoável! Porque ficamos repetindo coisas como se fossem criações nossas. Acreditamos que somos especiais, que somos criativos, que somos livres, quando não somos nada mais do que repetidores de programações que herdamos. Somente tendo consciência que estamos sendo programados, que existe um discurso que se finge de natural e que pretende controlar nosso pensamento, que podemos enxergar que existem algo ali que precisa ser descartado. É olhando para o passado, que podemos ver como nossos antepassados se comportavam diferente que podemos ver que existe algo errado no nosso presente.
São inúmeros os exemplos. Ver a minha coluna sobre Homohistória mostra, por exemplo, que o comportamento sobre as relações entre pessoas do mesmo sexo mudaram consideravelmente através do tempo. Podemos falar também sobre como entendemos a infância o que causa sempre polêmicas por causa de nossa invenção mais recente, a pedofilia. Eu poderia dizer até para vocês que a própria morte tem sua história porque, apesar das pessoas morrerem, a relação com este fato se processou diferentemente dependendo da época. Mas o exemplo que eu queria falar hoje é o nosso atual comportamento em relação ao amor. Antes é bom dizer: o amor ele é um fato, ele existe entre os seres humanos desde antes de aprendermos a registrar o que pensávamos e sentíamos, contudo, a forma como nos relacionamos com este sentimento variou muito desde a pré-história, passando pelas diversas civilizações da Antiguidade, a religiosidade cristã medieval que convivia com a poligamia islâmica, a alteração gritante que a invenção do casamento como sacramento causou e da alteração deste sacramento após a Peste Negra, sem deixar de citar o que o ideal burguês, depois o Romantismo, causaram no mundo ocidental, e mesmo a invenção do Capitalismo, o Imperialismo, as Grandes Guerras, o movimento hippie e a Contra-cultura, sobretudo os punks, anarquistas e o movimento gay, a Bossa Nova. O Amor tem uma história que precisa ser conhecida.
Quer um exemplo fácil? Na época década de 1950 no Brasil o discurso era exatamente o contrário do atual sobre este sentimento tão nobre. O legal, o moderno, o libertário era sofrer por amor. As músicas, a poesia, os boêmios queriam mesmo era contar que conheceram uma pequena, se apaixonaram e sofreram muito. Mas muito mesmo! E isso foi há 60 anos, à época que os pais destes jovens eram crianças. Dá para levantar uma lista de músicas sobre paixões não correspondidas, sobre dor de cotovelo, sobre amores impossíveis, estava na moda. Vinícius, o poetinha, é sem sombra de dúvida o grande destaque deste universo, ele diz: "Quem já passou por esta vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu. Porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu, ai".
Contudo quem conhece a História do Amor? Quem tem menos de 30 anos hoje e lê sobre História sem ser porque vai cair no vestibular? O que eu vejo são jovens gays alienados que repetem (e eu acredito que dizem isso somente porque este é o discurso que está na moda, isto é, para parecerem descolados) que não querem amar, que o amor traz sofrimento, que é muito melhor estar sozinho do que se envolver num relacionamento. Este discurso que (acho) tem origem nesta cultura hipster irritante que vê como ruim qualquer coisa que seja comum a todos e o mainstream é querer ter alguém para esquentar seus pés numa noite fria. 
Eles, estes jovens gays que mal saíram dos cueiros, repetem que sofreram demais em seus primeiros namoros (quando você pergunta detalhadamente é sempre um único namoro anterior ou inúmeros namoricos que não duraram 3 meses) e que agora não querem mais nenhum relacionamento. Interessante é que este discurso nunca é dito por alguém com mais de 30 anos (com poucas exceções na verdade). E também que todos repetem o mesmo exato texto (o que por si só já era para desconfiar não é?). Contudo, no fim, ao conhecer alguém que desperte o mínimo de tesão (porque eles não têm a maturidade para reconhecer a diferença entre tesão, paixão e amor, até porque não experimentaram todos eles) já acreditam que estão eternamente apaixonados,  planejando seu casamento ao som de músicas da Lana Del Rey, só para descobrir que era fogo de palha e sofrer horrores. Afinal de contas, imaturos e desinformados sobre o mundo, a vida, a história e a sociedade em que vivem eles não tem a percepção de que somente repetem um discurso que venderam para eles como moderno, libertário, legal.
Dois discursos para ser exato. Dois discursos que não se encaixam de jeito nenhum. Primeiro, o do amor eterno. Esse vendido por novelas e desenhos de princesas Disney que faz todos acreditarem que o amor é fácil e simples de acontecer, que você vai encontrar o príncipe em uma festa, haverá um único beijo e todos serão felizes para sempre. Nunca haverá nenhuma briga, nenhuma rusga, que o amor para ser verdadeiro tem que ser com alguém perfeito. Este discurso romântico barato alimenta o desejo que é negado constantemente pela nova moda: eu sou autossuficiente. Todos criados dentro de uma geração cujos egos estão a explodir dado como se posicionam como centros do mundo, estes jovens gays, que olham para um mundo que deveria admirá-los como divas e saciar seus desejos como deuses, querem que o amor chegue para eles sem esforço, mas se ele exige um pouco de dedicação, seus egos os fazem pular fora e responder com "ah, eu não queria mesmo"! A ironia hipster, no fundo, é perfeita para fingir que eles não desejavam nada. O ego vence no final das contas.
Mas é a desinformação, no fundo, o grande pecado, claro. Também o fato de que eles acreditam, e isso é culpa da idade mesmo, de que eles já sabem tudo o que é preciso saber. E o mal do conhecimento é que você não sabe o quanto precisa dele até possuí-lo. Até lá, o mundo pequeno em que alguém desinformado vive, as vendas que cobrem seus olhos, não permitem nem que ele sinta falta da informação que não sabe ainda que precisa. Então, esses homens gays imaturos (a maioria bem jovem, mas a verdade é que muitos trintões e quarentões também estão no mesmo barco) precisa aprender sobre o passado para reconhecer as armadilhas que o presente constrói para nós. São muitas, muitas mesmo! Esse conselho serve também para a eleição que vem aí.

(acho que eu já estou velho falando dos "jovens gays" como se fossem um grupo distinto de mim, entrei de vez na casa dos trinta agora, né?)



terça-feira, 19 de agosto de 2014

Meu Pecado É A Vaidade

Todos sabem por aqui do meu desejo de encontrar um namorado. Não é novidade, não tenho vergonha! Contudo, mais importante do que saber qual é o motivo para que ninguém se interesse por mim, é crucial saber porque eu desejo tanto encontrar alguém (talvez, inclusive, eu possa ser chamado de obsessivo por causa disso, porque penso demais sobre este assunto, e penso mesmo, mas porque quero resolver este problema, porque já é um!, e a melhor maneira de resolver algo que te incomoda é meditar sobre o tema). São dois motivos, de fato. O primeiro, a relação com meus pais, e segundo, minha auto-imagem. Meus pais sempre definiram-me como o filho que os decepcionava, desde muito jovem, por ser gay. Eu não era digno de seu amor por causa da minha sexualidade desde a tenra infância, ou era?  Um amor torto é verdade. Tenho certeza que havia amor nas surras que meus pais me davam tentando me tornar heterossexual, como nas mesmas surras que eu recebi por tirar notas baixas em matemática na 6ª série, mesmo meus pais sendo pedagogos, eles preferiram resolver o problema através de castigos físicos e não tentar descobrir porque eu não conseguia aprender matemática. Coisas da criação dos meus pais, com certeza. Eu os perdoei há muito tempo atrás, contudo, isto me causou um problema que eu tento resolver com amigos e com namoro, tento suprir com estes relacionamentos a carência que meus pais me impuseram durante minha formação como ser humano. Eu tento me convencer, todos os dias, que meus pais estavam errados, que eu sou digno de amor, que eu mereço amor. Tento desconstruir a programação que meus pais me impuseram.  Mas eu já falei sobre isto aqui no blog.
Já, o segundo ponto, minha auto-imagem. É algo que eu tenho reparado com mais intensidade nos últimos tempos. Sempre me acusaram de ter problemas de baixa auto-estima aqui no blog, coisa que eu sempre rebati com veemência, porque, acreditem, este problema não existe. Eu, na verdade, sofro mais de megalomania ou de exagero de auto-estima do que do contrário. Meu grande sofrimento, inclusive, sobre o fato de eu estar sozinho tem relação com isso: como alguém maravilhoso como eu, tão bonito, inteligente e interessante, pode estar sozinho? Como as outras pessoas que são tão inferiores a mim podem ter namorados normalmente e para mim é esta luta sem fim da qual eu sempre saio derrotado? Como todo homem que eu me envolvo escolhe qualquer outro cara a mim em questão de dias? Como eu, tão maravilhoso quanto penso que sou, posso ser preterido? Todo meu sofrimento, minha ofensa, vem desta vaidade ferida, este orgulho tão leonino. Por que eu, tão bom, tão vitorioso, tão sortudo como sempre fui na minha vida toda (afinal inteligente e talentoso eu sou), não consigo vencer na área mais simples da vida de todo mundo, em que crianças de 15 anos têm mais experiência que eu com o dobro de suas idade?
São estas perguntas que tornam minha solidão uma experiência tão amarga. O Gato é quem afirma que eu deveria observar esta minha vida sobre outro prisma e ele tem razão, e o prisma diferente é exatamente este: eu não sou tão especial, tão bonito, tão inteligente, tão interessante quanto penso ser. Sou sem graça, sem sex appeal, feio mesmo, além de efeminado, para a maioria das pessoas; sou de fato um homem interessante e inteligente, mas não existe nada que faça alguém se aproximar tempo o suficiente de mim para descobrir que estas qualidades existem, e se o fazem já me colocaram na prateleira de amigo há muito tempo atrás para que eu me torne elegível como namorado novamente. Sabendo qual é minha verdadeira imagem, e sabendo que as pessoas me veem ainda pior por causa do seu preconceito com homens gordos, efeminados e carecas, fica muito claro porque estou sozinho e, também, fica muito claro que não existe motivo algum para sofrimento. Não posso sofrer porque meu orgulho está ferido! Não posso lançar-me nas garras desta dor somente porque minha vaidade não é alimentada por alguém que me ache bonito, sexy e interessante. 
Em resumo, meu problema todo é porque eu desejo alguém que alimente meu ego. Um homem que eu considere bonito que me considere bonito, um homem que eu considero inteligente que me considere inteligente, um homem que eu considere interessante que me considere interessante são minha necessidade apenas de alguém que reforce a minha auto-imagem para que eu acredite nela. E, neste momento, os dois pontos que falei antes se relacionam: eu preciso de um namorado para corroborar a auto-imagem que eu criei para sobreviver aos meus pais, e meus sofrimento acontece porque ninguém é capaz de enxergar o super-homem que eu criei dentro de mim para vencer esta família. E eles não enxergam porque ele não está lá. O sofrimento que passei com meus pais foi terrível para mim, mas na minha mente infantil ele sempre parecia muito maior do que realmente era. Eu, com certeza, desenvolvi talentos para superar aquela vida a qual eu estava encerrado (consegui sair do gueto afinal de contas),  mas nada mais do que qualquer um. Não sou especial em nada. Nenhum homem deveria me idolatrar como "quase cósmico, semi-fenomenal". Não que eu não tenha nenhum valor, eu tenho, mas nada melhor, maior ou simplesmente mais importante do que qualquer um, essa ilusão de acreditar que eu mereço um amor especial é quem me mantém em perpétuo sofrimento. É hora de abandoná-lo reconhecendo quem eu sou, nem mais, nem menos. Somente uma pessoa comum. 


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Diga "Trinta-e-três".

, em Natal - RN, Brasil
Gente, 33. Cheguei. E acho que a crise dos 30 chegou atrasada para mim. Tudo bem que na minha família as coisas são assim mesmo. Desreguladas. Minha voz só mudou aos 21 anos (até lá eu tinha voz de garotinha), meu cabelo começou a cair aos 17, os primeiros fios brancos da barba começaram aos 25, eu ainda tenho dentes de leite. Essa genética maluca. E também agora, três anos atrasada, que a crise dos trinta se instalou. Acordei, dia 11 de agosto, com ela, quando acordei aos 33 anos. Um ano de Touro começou para mim, de realizações, de concentração de energias com objetivos práticos, de enraizamento de valores e de observar as próprias e mais sólidas qualidades; segundo a astrologia, este ano é um ano de germinação daquilo que foi plantado, meus projetos, ideias e impulsos criarão raízes e se firmarão, tudo lentamente, porque meu ascendente é preguiçoso, mas fecundo, tudo vai brotar. Parece que será um bom ano, não é?
Mas eu estou preocupado. Muito preocupado! Agora eu tenho 33 anos e a primeira coisa que penso é o que eu fiz com a minha vida até aqui? Eu me considero um fracassado, apesar dos meus inúmeros talentos e qualidades, eu não construí nada. Comparo-me (e talvez este seja meu erro) aos meus irmãos e colegas de escola. Todos estão casados, pais de família, e contam-me sobre suas vidas e sobre aquilo que conquistaram. Ou aos meus amigos, eles têm seus namorados, conheceram a Europa e tem bons salários que lhes permitem uma vida confortável. Materialmente e emocionalmente, o que foi que eu construí?
Tenho óbvio, também, algumas conquistas. Intelectualmente, de fato, aos 30 eu já era professor doutor, não que isto seja muita coisa, não é, acreditem, é apenas um título, mas este título significa uma vida dedicada à academia com uma paixão que dava gosto de ver. Espiritualmente, também, eu tenho motivos para me orgulhar. Ser agora aspirante ao sacerdócio da minha igreja, meu trabalho como terapeuta reikiano e meus dons mediúnicos (e o bem que posso fazer a outras pessoas com eles) são motivos de orgulho. Mas notem que todas estas coisas são internas. Quando eu olho para fora de mim, que eu procuro algo para me dar segurança, algo que eu possa literalmente me apoiar como uma espécie de lastro, é esta minha necessidade de amor, tal qual é minha necessidade de tranquilidade financeira, preciso de algo para me manter acima da superfície quando o universo tenta nos afogar. Usando a mesma metáfora, meus ganhos intelectuais e espirituais são como a habilidade de alguém de nadar, evita que eu morra afogado; mas o amor e o dinheiro que me faltam seria o barco que me protegeria da violência do mar. 
É deste barco, desta proteção, que eu me vejo privado ainda com 33 anos e isso me assusta. Meu medo é que eu nunca consiga sentir-me seguro na vida que eu tenho, que tudo sempre seja um risco, que eu não possa caminhar tranquilo pela vida que eu decidi seguir, meu medo é de não ter onde me enraizar, a verdade é esta. Quero crescer, quero ver meus frutos, quero poder gerar sombra para os outros também (tô todo trabalhado na metáfora hoje) e para isso eu preciso de solo firme sobre meus pés. Mas cadê? É por isto o meu medo agora que chego a iniciação crística. Só me resta torcer para merecer aquilo que o meu mapa astral está mostrando agora para o meu ano seja verdade. Espero que seja possível. 




sexta-feira, 4 de julho de 2014

Como Se Nasce Gay: Sexualidade Não É Natural. (Parte II)

, em Natal - RN, Brasil
Nós não nascemos gays! Nem héteros! Nem bissexuais! Sexualidade não é algo com que nascemos, mas é algo que construímos a partir do nascimento. Gênero, no entanto, é algo com que nascemos. Existem pessoas que vem ao mundo meninos ou meninas, mas também meninos no corpo de meninas e meninas no corpo de meninos, também nascemos meninos-meninas (sim, os dois ao mesmo tempo) e também nenhum deles, apesar da presença de uma genitália. O gênero, este sim, tem um componente genético, e é extremamente mais complexo do que a oposição macho e fêmea que os pênis e vaginas dão a entender.
Sexo (homo, hetero, bi, gay, g0y., H.S.H), no entanto, é uma construção identitária, isto é, acontece na mente e não no cérebro. A partir das relações do indivíduo com outras pessoas (família, amigos, vizinhos), com o ambiente que ele vive (escola, igreja, trabalho) e sua cultura, ele começa a projetar uma identidade na qual ele pode lidar com os impulsos sexuais que seu corpo produz. Ele, o indivíduo, que projeta seu desejo para algum objeto graças as respostas que ele tem na sua primeira infância, cria uma identidade para lidar com as respostas que recebe. Trocando em miúdos, um menino que projeta sua necessidade de carinho para um homem e recebe deste um resposta satisfatória sempre tende  a criar dentro de si um padrão procurando aquele mesmo homem nos seus relacionamentos futuros. A psicologia já repetiu incansavelmente que homens heterossexuais procuram suas mães nas parceiras, porque foram elas as primeiras a satisfazer sua pulsão sexual satisfatoriamente (opa, me assustei como soei freudiano agora, culpa do Joseph Campbell que estou lendo). 
A maior prova que a sexualidade é uma construção identitária que varia de acordo com nosso ambiente esta escrita em toda história da Humanidade. Ela está recheada de inúmeros exemplos de identidade sexual distinta do padrão que nós utilizamos hoje em dia, aqui, no Ocidente. E reforço no Ocidente porque mesmo nos dias que vivemos encontramos formas distintas de sexualidade (fora da chave homo-hetero-bi) em tribos indígenas americanas, em aborígenes nas ilhas da Oceania, entre os países islâmicos, na Índia, China e Japão. Sociedades que fogem desta complexa cultura compartilhada que chamamos de Ocidente criam identidades sexuais distintas. É a cultura, e somente ela, que define uma identidade sexual, ela fornece os modelos em que o indivíduo aprende a expressar os impulsos sexuais que vêm descontrolados do seu subconsciente. Inclusive, diz Karl Marx, no prefácio de Uma Contribuição a Crítica da Economia Política, que não é a consciência dos homens que determina a realidade, é a realidade social que determina a consciência dos homens.
Se esta teoria (sim, teoria, não trabalhamos com certezas em ciência) é correta poderíamos evitar o desenvolvimento de homens gays dando-lhes somente experiências com mulheres hiper carinhosas e protetoras? Segundo Nelson Rodrigues não. E eu afirmo que além de impedir o desenvolvimento social do menino (ele não poderia frequentar a escola, por exemplo, nesta experiência) o que prejudicaria seu processo de socialização e desenvolvimento psicossocial (o que somente isso já deveria ser considerado um crime), tolheríamos a liberdade desta criança, obrigando-a a seguir por um caminho que nós consideramos o correto, e não que ele escolheu. A ideia de que conseguiríamos controlar o ambiente em que uma criança vive e as projeções que ela faça do seu subconsciente não é, no mínimo, uma ilusão megalomaníaca de controle?
Por fim, a sexualidade é muito mais complexa do que estes padrões dualistas de hetero e homo nos permitem ver. Ela também não nasce com você, mas é construída por toda sua vida e, dependendo, das experiências que você se permita ter, nunca estará completamente madura. Mas uma coisa é certa, ela começa a esboçar-se sempre na tenra infância, moldada por nossas experiências no seio de nosso primeiro grupo de socialização. Seja ele qual for (família, família estendida, escola, creche, vizinhos, etc). Todas as experiências nesta fase de formação do ego são extremamente marcantes.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Seguro Em Minhas Mãos

, em Natal - RN, Brasil




Esta campanha foi lançada esta semana pela empresa de seguros AllState, por causa do Dia Internacional do Orgulho Gay, próximo dia 28 de Junho, com o título Safe In My Hands (Seguro em minhas mãos) e fala sobre o direito dos homossexuais de demonstrarem afeto em público em segurança. A campanha, contudo, não se volta aos heterossexuais dizendo a eles que os gays tem o direito de não serem importunados, ao contrário, ela instiga os gays e lésbicas a, mesmo havendo preconceito, que eles continuem manifestando afeto em público, porque, afirma a campanha, o que torna a vida dos homossexuais mais perigosa é a invisibilidade. Quanto menos nós aparecemos, na TV, na rua, dentro dos shoppings que pipocam nas cidades brasileiras (apesar deste ser um modelo de negócio falido), mais nos tornamos vulneráveis a ataques homofóbicos. Precisamos sermos vistos em meio ao povo para sermos protegidos exatamente por estes olhares reprovadores. Quando nos escondemos em guetos, becos escuros e bairros marginais, nós damos a possibilidade para que nossos atacantes sintam-se seguros (olha que ironia) para nos atacarem.
A mim, fez muito sentido. Mas as pessoas que expus a ideia. Todas sem exceção não apoiaram. Logo surgiu a frase que me fez me arrepiar dos pés a cabeça: "Ser gay não é uma bandeira que eu devo levantar em todo lugar que eu chegar". Não é? Então é o que? Ser gay não é algo privado, ao contrário do que a militância yuppie da década de 1990 pregou. Gozar é algo privado, porque afinal de contas, você pode gozar inclusive sem a presença de nenhuma outra pessoa, às vezes, somente com sua imaginação (os sonhos eróticos estão ai para provar isso). Ser gay é uma identidade (repito isso), é algo que nós assumimos para os outros, não para nós mesmos! Ser gay é algo que fica do lado de fora do nosso corpo! E, com esta identidade, nós nos colocamos num certo posicionamento político. É como ser de esquerda, é como ser de direita, é como ser anarquista, é como ser comunista, é como ser liberal, ser gay não tem a ver com sua relação sexual, mas com o posicionamento político e cultural que você assume quando sai do armário. Por isso os g.0.y e os H.S.H renegam esta identidade, eles rejeitam o projeto político-cultural que nos envolve. 
Portanto, perceba, você, homem gay, toda vez que você beija um homem, o abraça e, principalmente, toda vez que você começa um namoro com um homem (não falo nada sobre sexo, este pouco me importa!), você assume um projeto político que precisa tornar-se consciente: estamos aqui para mudar o mundo. Ser gay significa que só vamos sair daqui quando formos aceitos. Não que eles nos deem nossos direitos (esse é o projeto yuppie), não que eles nos garantam liberdade para viver nossa sexualidade em paz (este é o projeto g.0.y e de inúmeros outros grupos), nós queremos mudar de verdade a porra desse mundo! Ser gay significa em cada beijo que você der no seu namorado, você estará mostrando as pessoas ao seu redor que a diversidade existe. Que o modelo de família heterossexual não basta, que o modelo de amor entre homem e mulher é ultrapassado, que a existência humana tem muito mais espectros do que a bipolarização homem-mulher consegue absorver. 
Desculpe te informar, mas todo gay e lésbica é um militante. Desculpem-me se vocês têm medo disto ou preguiça. Todo homem gay e mulher lésbica dedica sua vida, consciente ou não disso, de ser um exemplo para os outros que o mundo é muito maior. Ai está a diferença: se somos conscientes deste serviço, nós não agimos para atrasar o processo. Quando nós não nos beijamos na frente de alguém por "respeito", quando não seguramos na mão dos nossos namorados com medo, quando apresentamos nosso marido como amigo. Quando sabemos que nossa tarefa política é mostrar nosso estilo de vida gay é possível para qualquer um que assim o deseje, se esconder se torna uma bobagem. Então, junto com a AllState eu convoco vocês, todos, a andarem de mãos dadas com vossos namorados. Somente este gesto, vocês não sabem o quanto estarão mudando o mundo com este simples gesto.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

O Primeiro Passo

, em Natal - RN, Brasil
- Pronto, agora vá encontrar um namorado, permita-se encontrar um amor.
Eu disse, concluindo o tópico da conversa pelo Whatsapp. Meu amigo Doc riu.
- Vou procurar nada. Deixa acontecer. 
Eu sorri e digitei a resposta.
- Isso não existe, moço. Imagina, se todo mundo fica sentado esperando acontecer, como é que vai ter alguém procurando?
- Ah, claro que se encontra, boy. 
Ele respondeu, e continuou:
- Quantas pessoas relatam que quando pararam sua busca desenfreada conheceram alguém?
- E quantas pessoas realmente falaram a verdade quando contaram isso?
- Ah, depende da pessoa...
Ele respondeu enquanto eu ainda digitava a próxima mensagem.
- Se uma pessoa realmente tivesse parado de procurar, seria como eu, que não fico mais com homens desde outubro e neste meio tempo também não tentei conhecer ninguém novo.
- Mas também não é assim...
Tentou ele, novamente, me interromper.
- Se a pessoa não fez isso, ela não parou de procurar coisa nenhuma. Só falou isso para parecer descolado, aquele que não está preocupado em encontrar um namorado porque vive muito bem consigo mesmo, mas fica profundamente incomodado quando leva um fora na balada; ou para aparentar um milagre romântico, do tipo que causa inveja em todos: "olha como fomos feitos um para o outro".
Doc então respondeu:
- O que eu quis dizer é que não é uma prioridade neste momento, mas se por acaso eu encontrar alguém no ônibus, na faculdade, em uma festa, não tem por que não conhecer mais a fundo. Na verdade, inclusive, a todo momento conhecemos pessoas novas, trocamos olhares e tudo...
- Se você olha para o lado, você está procurando, Doc. Eu, por exemplo, não estou. Eu só saio para a Igreja e para o ensaio do coro, e quando eu saio vou lendo o caminho todo para garantir que meus olhos não esbarrem em alguém bonito pelo caminho. Isso é não procurar. Não procurar significa necessariamente não estar aberto se acontecer porque você realmente não vai ver que algo existe. Não se vê através de portas fechadas.
- Ah, agora entendi. De acordo com isso, estou procurando então. Esse negócio de conceito é foda.
- Assumir é sempre o primeiro passo.
Conclui e ele respondeu com uma risada.


Feliz Dia dos Namorados!

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Dilema

, em Natal - RN, Brasil
Hoje, aqui, estava programado um texto sobre conselhos para minha vida amorosa dados por um amigo via Whatsapp. Transcrevi uma conversa, após aprovação dele, e tencionava mostrá-la a vocês, contudo desisti. O post anterior Eu Sou Theodore reapresentou aqui um tipo de texto que eu não desejava mais escrever no blog, ele retornou de mansinho, como se eu falasse sobre um filme, mas como o Marcos atentou em um dos comentários, eu só estava escrevendo mais um texto de como não tenho qualidades e como minha vida é uma bosta. E eu havia prometido (a mim mesmo) não trazer este assunto a tona novamente.
E, ironicamente, apesar de ser criticado diariamente ano passado por causa deste tópico, foi o texto que mais tive engajamentos, comentários, no ano todo. Meus textos sobre História, sobre política, sobre comportamento gay, os temas que escolhi para manter o blog vivo agora que ele caminha para os dez anos, nenhum destes temas conseguiu tanta participação de vocês, leitores, como um daqueles que eu poderia ser acusado de criar minha própria pity party. Acusação que, admito, sempre me incomodou profundamente e que fez muitas pessoas escreverem comentários agressivos (uso esta palavra para manter a polidez) que pretendiam sem dúvida me fazer parar de escrever.
Mas agora, quando começo a planejar algo especial para o décimo ano do Estórias do Mundo, eu me pergunto se vale a pena. Manter os temas inférteis que tenho abordado que geram comentários que se resumem a frases como "que texto interessante", isto é, quando existem comentários; ou abordar minha vida infeliz e solitária, atraindo muitos comentários, mas estes cheios de maldade, e que faz com que todos me considerem um depressivo pessimista mal-humorado cuja companhia, mesmo virtual, é como um câncer corrosivo que precisa ser extirpado antes que consuma a luz de suas vidas?
Eu não sei o que fazer e o dilema se instala. As opções são claras, e peço ajuda a vocês para responder na enquete acima. Mas aqui explico as opções:

1. Continuar a falar sobre História, Política e Comportamento gay.
POSITIVO: Eu estou a vontade escrevendo sobre o tema, não me exponho e preservo minha privacidade, o que dado a minha vida atual, é a melhor opção.
NEGATIVO: Não existe identificação dos leitores do blog com estes temas, o que não causa engajamento, isto é, comentários. Sem comentários eu, sinceramente, me sinto escrevendo para as paredes como se ninguém estivesse lendo. Também escrever assim sozinho, sem discutir aquilo que escrevi com os comentadores, me soa extremamente narcisista, como se eu escrevesse somente para expor meu raciocínio sem me preocupar com o que o outro tem também a dizer. 

2. Escrever sobre minha vida, isto é, minha solidão e as desventuras amorosas/sexuais que me cercam se eu abrir esta porta. Por que, infelizmente, não existe nada de bom a dizer sobre minha vida.
POSITIVO: Haveria diálogo no blog. Comentários, discussões, conversas seriam comuns.Também com a identificação das pessoas com os meus problemas, talvez alguém se reconhecesse representado e descobrisse que só porque sua vida é uma merda não significa que você está morto nem doente. Acontece nas melhores famílias.
NEGATIVO: Haters! Os comentários me atacando são cansativos. Desgastantes é a palavra. Uma coisa é alguém criticar, opinar, dar seus motivos; outra é um anônimo que só quer sapatear sobre quem já está fodido destilar seu veneno como se fossem palavras de sabedoria. Também não suporto mais o papel que me colocam de quem quer chamar atenção, de quem faz o papel de pobre coitado porque, simplesmente, ninguém consegue acreditar que minha vida é cagada.

3. Eu posso mentir. Cada vez que algo acontecer, eu posso contar a história oposta. Um dia solitário pode se tornar um jantar entre amigos aqui em casa, uma noite amarga pode se transformar uma declaração ardente de amor. Eu teria a vida que sempre desejei.
POSITIVO: Todos finalmente poderiam tirar das suas cartolas a frase "eu te disse" que estão guardados. Não haveria nenhum comentário maldoso. E também todos que me leem poderiam ter esperança que sua história também poderia mudar. Além disso, seria um ótimo exercício criativo.
NEGATIVO: Seria uma mentira. E mentiras dão trabalho para manter, eu teria que garantir que a mentira tanto nos Facebook, como Twitter, Instagram e Tumblr, isto é, minhas redes sociais, para funcionar; o que, necessariamente, atingiria também meus amigos, o que não seria um grande problema porque eu não tenho contato com eles fora do computador, isto é, nenhum deles convive comigo de fato aqui em Natal, seria fácil de nem eles saberem a verdade. Mas o que aconteceria se tudo fosse descoberto algum dia? Que problemas isto poderia me causar?

4. Fechar o blog.
POSITIVO: Existe algo? Sinceramente não vejo nada de positivo. Não para mim.
NEGATIVO: Eu não tenho a menor vontade de encerrar o blog, porque eu gosto de escrever, mas se ninguém está lendo, para quê? É uma opção, mas é algo que eu só faria em último caso. 

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Melhor Vinho

"Eu tive um sonho, vou te contar"... 

Eu estava em uma festa de casamento, comemoramos Hímeros, o deus grego das uniões amorosas, em uma grande festa em que todos comem e bebem, estamos em um navio ancorado em um porto, e conversamos sobre arte, literatura, música e filosofia. Sou a alma da festa, rindo, com comentários bem humorados e inteligentes. Eu circulo entre os grupos, conversando com todos, sentando em mesas e conhecendo pessoas. Eu, no entanto, espero a chegada de alguém. Às vezes eu desço até a entrada do navio e fico olhando para o porto, esperando, preocupado, alguém chegar. Alguém me vê lá parado e pergunta: 
- O que você está fazendo ai, Foxx?
- Eu pedi um vinho especial para comemorarmos hoje e ele ainda não chegou. 
- Mas nós temos esse vinho na adega.
- Temos? Ah, então eu vou buscar.
Eu desço então para buscar o vinho e volto com duas caixas para a festa, porém, no meio do caminho eu caio no mar. Eu fico flutuando nas caixas de vinho, tentando, exaustivamente subir no navio, ou alcançar o porto, eu chego a pular tentando voltar, mas eu não consigo, sempre caio no mar e me agarro novamente ao meu vinho para manter-me na superfície. Eu tento gritar, pedindo ajuda, também, mas a música da festa abafa meus pedidos de socorro. Era noite, também, as trevas me envolviam.
Eu não sei quanto tempo eu fiquei ali, mas quando minhas forças estavam esgotadas (eu realmente me sentia muito cansado), a pessoa que me mandou buscar o vinho abre uma porta na base do navio, exclamando:
- Meu Deus! O que aconteceu?
Ele explica que veio me procurar porque eu estava demorando tanto, após me retirar da água, junto com as caixas de vinho que haviam se tornado apenas restos de papelão molhado. Eu estava sentado no chão, molhado e exausto. Ele me convida para voltar a festa, no entanto, eu estou cansado demais para sequer subir as escadas em espiral que levam para a parte superior do navio.

"É o que devemos saber"...

Na minha interpretação, este sonho fala da minha vida amorosa. A festa à Himeros representa a minha vida pregressa de encontros sexuais fortuitos, pegações em baladas, conquistas de uma noite, em que eu me divertia e fazia um considerável sucesso. Mas, sempre, foi algo vazio. Sempre faltou algo especial que faria aquela festa que já era incrível se tornar perfeita, o vinho que falta representa meu amor ausente.
Cansado de esperar que este amor venha até mim, no meu barco ancorado e impossibilitado de partir, eu sigo atrás dele, que traduzindo significa ter deixado Natal, a cidade em que nasci, e mudado para Belo Horizonte. Eu consigo o meu próprio vinho, isto é, meu amor próprio, mas eu não consigo voltar à festa que estava, eu caio no meio do caminho. Ou seja, eu me deparo com a dura realidade que é o mundo fora da província que eu cresci, extremamente igual! Ao mar, eu somente sobrevivo porque sou capaz de usar o vinho, isto é, o amor que eu havia trazido comigo como salva-vidas.
Mas eu fico tempo demais no mar, quando sou resgatado por alguém que finalmente nota minha ausência, o que quer dizer também que as relações que eu construí na festa eram em sua maioria superficiais porque somente uma delas notou que eu havia sumido. Fico tempo demais no mar que o vinho que eu levava torna-se somente pedaços de papelão molhado, ou seja, o amor que eu tinha foi todo consumido para me manter vivo. Nada restou mais. No entanto eu sou convidado a retornar a festa, pelo meu único amigo, e eu exausto declino do convite. Eu não conseguiria mais voltar a vida que eu tinha antes, estou cansado demais para isso.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Tem Gosto Pra Tudo

Uma das grandes mentiras que se conta por aí é que cada um tem o seu próprio gosto, que temos um gosto "pessoal" o qual é único e que não é compartilhado por outras pessoas, este gosto é uma das características inclusive que nos torna seres individualizados. Tais gostos inclusive separam as pessoas em categorias irreconciliáveis como pagodeiros e roqueiros, ou heterossexuais e homossexuais, em barbies e ursos. Fantasias do ego. Mas eu quero falar aqui de um tipo em especial de gosto: aquilo que cada um acha bonito. E já parto do príncipio dizendo que beleza não é um gosto pessoal, somos influenciados. Ver beleza em alguém ou em algo não é pessoal, gosto é uma questão de tempo. E não que você, com o tempo, com a convivência vai passar a achar alguém bonito. Não! Beleza é uma questão respondida por toda a sociedade e não por um só indivíduo.
Em outras palavras, sabe quando alguém diz que gosto é algo único. Isso é uma mentira, ilusão, enganação! Grupos sociais, tribos, classes sociais têm o mesmo gosto. Pessoas que frequentam os mesmo ambientes, que têm a mesma bagagem cultural, que participam das mesmas atividades possuem o mesmo gosto. Porque pessoas influenciam pessoas. Não somos ilhas. Não somos criaturas isoladas. Esse tal gosto pessoal é construído através de outros seres humanos com os quais temos contato e absorvemos deles seus padrões, seus preconceitos, suas formas de entender, pensar e interpretar o mundo.
Como o processo funciona? São muitos exemplos que eu posso dar. Pensemos na pintura para começar: até princípios do século XX, para um quadro ser considerado bonito ele deveria ser pintado retratando a realidade fielmente, até que os impressionistas resolveram transmitir através de suas pinceladas como eles se sentiam, transformaram tinta em poesia e logo Dali e Picasso tornaram-se possíveis e seus quadros que seriam horríveis em padrões antigos de beleza, tornaram-se obras de arte. Obras primas do talento humano. Porque todo  o mundo foi influenciado pelos impressionistas franceses (Monet, para citar um), o conceito de beleza foi alterado para sempre.
Outro exemplo são nossas atuais deusas da beleza, as modelos. Na década de 1950, quando a profissão surgiu, elas eram mulheres com curvas, gordinhas até, pin ups. Marylin Monroe com 1,67, pesava 63 quilos e tinha as medidas de 93 centímetros de busto, 51 centímetros de cintura e 91 de quadril, o IMC de Norma Jean seria 22, isto é, normal; hoje, o padrão de beleza elegeu Gisele Bundchen como musa em seus 1,79 e 54 quilos, com 86 de busto, 59 centímetros de cintura e 87 de quadris e impressionantes 16 pontos de IMC, o que corresponde na tabela do Índice de Massa Corporal à desnutrição. Mas o mais diferente no corpo de Marylin e no de Gisele é que as medidas da atriz americana que se suicidou por ser bonita demais lhe garantiam curvas, as medidas da modelo gaúcha lhe dão, no máximo, uma ondulação. Em determinado momento da década de 1990, a indústria da moda saiu das mulheres curvilíneas, passando pelas atléticas modelos da década de 1980 (Xuxa é um exemplo) e terminamos com garotas de 14 anos, altas demais para a idade e com graves problemas nutricionais. Elegemos refugiadas somalis como as mulheres mais bonitas do mundo. E até essa eleição nenhuma mulher medicamente desnutrida seria considerada bonita por quem quer que fosse, mas as coisas mudam. Jennifer Lawrence, a Mística de X-Men, deu uma entrevista recentemente dizendo que é, em Hollywood, considerada uma atriz gordinha. Ela disse que não precisa se alimentar mal, pular refeições para se sentir bonita, mas que sente a pressão para que isso aconteça em todos os lugares que frequenta.
Da mesma forma, no mundo gay, padrões de beleza são construídos, remodelados, reforçados e implodidos todos os dias, mas todo mundo age como se sempre tivesse sido cool, por exemplo, usar barba. Essa modinha não tem cinco anos e nós vemos meninos repetindo por aí que homem que é homem tem que usar barba (também esses meninos descobriram o mundo há no máximo cinco anos também). Mas já falei disso aqui. E isso não é diferente, também, dos homens musculosos que superpovoaram a década de 1990 e foram substituídos gradualmente por jovens modeletes de corpos definidos da cintura para cima e pernas magras (e não ache que isto é preguiça de malhar, mas um padrão estético que se perpetua). Enquanto a magreza andrógina da década de 1980 fora esquecida, estigmatizada pela AIDS, esse novo padrão emergiu das páginas da Advocate e da Out. Também já falei disso aqui.
Por isso, eu digo, toda vez que você considerar alguém bonito, melhor!, toda vez que você considerar alguém feio pense duas vezes. É você quem está fazendo isso ou você é somente mais um membro do rebanho? Este exercício é útil para filtar o que vem de fora, filtrar o controle que o mundo capitalita tem sobre nossas necessidades diárias, é um combate contra o consumismo. Por que, concordam comigo?, não é nada legal consumir pessoas. Não deveríamos procurar pessoas para nos relacionarmos baseado em anúncios publicitários, pessoas não são coisas. Está na hora de julgar o livro além da capa. 

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Seja Verdadeiro Com Sua Natureza!

Abraham Maslow foi um psicológo americano que viveu nos primeiros 70 anos do século XX, o irmão mais velho de uma família judia do Brooklin com sete crianças. Ele trabalhou no Massassuchets Institute of Technology (MIT) e fundou o National Laboratories for Group Dynamics. Neste laboratório realizou sua pesquisa mais famosa, em 1946, no qual ele criou os T-Groups (T de training) em que ele reunia pessoas que tinham conflitos e expunha quais eram os problemas que estes estavam passando para depois tentar alterar a situação. Porém a grande contribuição de Maslow para a ciência da alma foi a criação do que chamava de Psicologia Humanista. Maslow acreditava que o enfoque psicanalítico no determinismo do subconsciente e o método do behaviorismo não levavam em conta que o ser humano é detentor de liberdade de escolha, inclusive dentro de seu próprio tratamento. Ele apresentou três conceitos que se tornaram basilares para a Psicologia: a congruência, ser o que se sente, sem mentir para si mesmo e nem para os outros; a empatia, a capaciade de sentir o que o outro quer dizer e entender seu sentimento; e a aceitação incondicional, que significa aceitar o outro como ele é, em seus defeitos, angústias e qualidades. Esta Psicologia Humanista também reconheceu que quando um homem sente um vazio de sentido na vida, busca auxílio (na religião, nos amigos e amantes, na ciência, na psicologia) porque não se sente confortável em viver sem sentido ou ideais. Ele também reconhece que alguns eventos fortes podem adiantar a busca pelo sentido da vida (a morte de um ente querido, o fim de um relacionamento, algo desse tipo) e estes eventos normalmente trazem desconforto ou trauma intenso, mas se superados fortalecem o indivíduo.
É nesta busca para entender como os seres humanos conseguem satisfação em suas vidas que Maslow propôs uma de suas mais controversas ideias: a sua hierarquia de necessidades. Também conhecida como Pirâmide de Maslow, esta hierarquia propõe que os seres humanos têm necessidades que precisam ser alcançadas para conseguir auto-realização, segundo Maslow essas necessidades compõem uma hierarquia no qual é preciso galgar uma para conseguir a próxima. Ele define cinco conjuntos:

- na base da pirâmide estão as necessidades fisiológicas básicas, como fome, sede, sono, sexo, abrigo;
- no segundo degrau existem necessidades de segurança como um emprego estável, um plano de saúde, uma boa casa, basicamente necessidades materiais de existência;
- no terceiro degrau da pirâmide se apresentam as necessidades sociais como amor, afeto, afeição e o desejo de fazer parte de um grupo, clube e família;
- no quarto estão as necessidades de estima que passam por duas vertentes: o reconhecimento de nossas próprias capacidades como ser humano e o reconhecimento dos outros à nossa capacidade de adequação as funções que desempenhamos;
- e, por fim, no topo, estão as necessidades de auto-realização em que o indivíduo procura tornar-se aquilo que ele pode ser.



Lendo as pesquisas dele dois pontos me chamaram atenção. O primeiro, sobre a ordem das necessidades colocada pela pirâmide. A maior parte das críticas da teoria de Maslow é exatamente sobre que, para alguém sentir-se completamente realizado, uma pessoa não precisa conseguir todas as necessidades que ele coloca, nem muito menos seguir essa ordem exata. Contudo, em ambos os casos, se pensarmos que esta ordem piramidal é a correta ou se nos apoiarmos que estas necessidades não precisam ser conseguidas todas para alguém se sentir realizado, em ambos os casos repito, vai de encontro ao senso comum que para alguém encontrar amor, uma pessoa precisa amar-se primeiro. Todos sempre jogam na minha cara que minha solidão é por falta de auto-estima ou de amor próprio (ah se eles estivessem dentro da minha cabeça e soubessem o quanto eu já gosto de mim, talvez até me chamassem de ególatra e narcisista). Todos repetem para si mesmo esta frase feita, inclusive. Torturam-se e torturam outros. Mas, lendo sobre Maslow, eu não pude deixar de pensar que este argumento simplesmente não faz sentido. Maslow e seus críticos concordam em um ponto: a necessidade de ter amor e a necessidade de ter auto-estima são ambas desejos ontológicos, isto é, fazem parte do ser humano. Mas eles também concordam que são desejos independentes.
Pode ser que a hierarquia seja real, e no caso o amor venha antes à auto-estima, talvez ela não seja e estas duas necessidades humanas podem ser conquistadas independentemente, porém em ambas as opções o argumento do senso-comum, repetido por todos, simplesmente não faz sentido. Não é preciso que você se ame para que alguém ame você. Não é uma lógica de troca. E nem as pessoas leem as outras tão bem. Na verdade, o que nós entendemos, muitas vezes, sobre auto-estima (sempre associada a cuidar de si no sentido de, por exemplo, malhar numa academia) é sempre de uma superficialidade tão gritante que não há como isso interferir em algo que entendemos tão mais profundo como o amor. Sei que vocês argumentarão que o relacionamento não vai durar porque os problemas de auto-estima da pessoa podem fazê-la ser infiel, ou ciumenta, ou sem perspectiva na vida, mas, queridos, para isso vocês já teriam que ter se envolvido com a pessoa. O amor já apareceu, ele pode não se manter por falta de auto-estima, mas este último não vai impedir alguém de se interessar por você. Ninguém tem como farejar isso sem se envolver com você.
O segundo ponto que me chamou atenção na pesquisa de Abraham Maslow é que para que um homem se torne realmente feliz e realizado, ele precisa passar por todas as etapas, ele precisa alcançar realização em cada um destes aspectos de sua vida. E há uma frase de Maslow que diz: "O que os humanos podem ser, eles devem ser. Eles devem ser verdadeiros com sua própria natureza". Este é o último patamar da pirâmide, pois ele considera que uma pessoa tem que ser coerente com aquilo que é na realidade para alcançar a própria realização. Diz ele: "temos de ser tudo o que somos capazes de ser, desenvolver os nossos potenciais". E me lembrei também de todos os homens gays e mulheres lésbicas que fogem daquilo que realmente são. Negação, homofobia internalizada, transtorno egodistônico. E como estes terão sempre, em sua vida, um buraco a preencher porque eles não podem atingir todo seu potencial. Os críticos de Maslow podem ter razão, mesmo faltando algo todos nós podemos ser felizes, porque a personalidade, as motivações pessoais e o meio social influenciam diretamente em como alguém se sente, portanto, estas podem não se sentir frustradas, na verdade. Mas elas estão completas?
A questão aqui é que um homem gay pode sim ser feliz escondendo e negando para si mesmo este aspecto importante de sua personalidade porque o meio em que ele foi criado o ensinou que ser aquilo que ele é é tão errado que o sofrimento criado ao se assumir é superiormente mais insuportável que, e isso acontece normalmente à nível subconsciente, este homem escolhe suprimir este lado da própria sexualidade. Minha dúvida aqui é como uma pessoa dessas se sente já que eu nunca passei por esta experiência de tentar não ser gay. Será que ela sente falta de algo? Ou não, já que para sentir a falta de algo é preciso tê-la conhecido/experimentado? 








sexta-feira, 4 de abril de 2014

Reductio Ad Absurdum

, em Natal - RN, Brasil
Conversando com um amigo, o Bê, que hoje mora em Berlim, Alemanha, via Whatsapp (Deus abençoe a tecnologia), cheguei a conclusão que minha vida anda dialética demais para meu gosto. Logo eu que nunca fui hegeliano na vida, para tristeza do meu pai, reconhecer às vésperas da iniciação crística que minha vida tem se dado em um jogo de tese, antítese e síntese é, para dizer o mínimo, risível. Mas me deixe contextualizar você. O alemão (as coincidência, olha as coincidência) Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu no ano de 1831, filósofo, foi o pai do historicismo e grande influenciador de Karl Marx e seu marxismo. Hegel formulou o conceito de Geist, espírito, o espírito da História, que se manifestaria através de um conjunto de contradições e oposições (a tese tem sua antítese) aos quais no processo histórico se integram e se unem (síntese). Segundo o sistema de Hegel, o Espírito do processo histórico estaria em contínuo aperfeiçoamento através desta lógica dialética (há um dialogo entre as ideias opostas do Espírito e, racionalmente, se chega a uma conclusão nova) e, portanto, a humanidade estava sempre em marcha contínua para o progresso.
Em diversos aspectos de minha vida, a lógica explicativa do historicismo alemão pode ser aplicada. E não se surpreenda porque eu faço (mesmo!) isso. Historiador que eu sou, só sei pensar a minha vida como a versão em miniatura da História da  Vida Privada de Georges Duby, com umas pitadas da História da Sexualidade de Philippe Aries (ai, meu Deus, como sou Nouvelle Historie!). Contudo, tenho consciência que sou o historiador da minha vida sem o distanciamento clarificador do tempo. No meio do turbilhão que me faz cronista de minha própria História, tenho certeza que sou arrastado por interpretações errôneas que só verei com mais clareza em meus oitenta anos, quando meio século me distanciar destes eventos. Mas estou divagando. Voltemos a Hegel.
Meu trabalho, meus amigos, meus amores têm se alternado num jogo dialético chato. Eu já tive um bom emprego, cercado de amigos, vivendo e curtindo minha vida de solteiro, se não acreditam leiam este blog de 2006 a 2009, é a vida de outra pessoa; a mudança para Belo Horizonte para o doutorado, mais em busca de um amor verdadeiro que eu não encontrara ainda (sim, o motivo real para deixar Natal foi eu acreditar que não era possível encontrar nesta província alguém que pudesse gostar de mim) transformou minha vida e me colocou a frente com uma sensação de fracasso que eu nunca experimentara antes. Não que eu fosse um garoto mimado, não, eu era um jovem bonito, inteligente e cheio de planos que vinha de outro sonho feliz de cidade e aprendeu a duras penas o que era realidade (#vemniminCaetano). Vi-me então, na capital mineira, desempregado (cheguei a passar fome, ou quando o dinheiro só dava, na semana, para viver de pão de forma e margarina e água do filtro); sem amigos (fiz amigos maravilhosos em Minas, em especial o Rajeik, o Bê e o Leão, que com certeza salvaram esta temporada para mim, mas os que eu deixei em Natal se foram para sempre) e o amor que me atraiu para lá foi rapidamente substituído por sexo com desconhecidos, crises de pânico e celibato auto-imposto (com exceção dos seis meses ao lado do Tato e os meses em que eu me vi apaixonado pelo Anjo). O hermetismo diz que a vida vem em ondas, uma hora você está no topo, outra hora você está no fundo; Hegel pensava que a oposição dialética levaria ao progresso. Eu já tive um bom emprego (topo, tese), já estive desempregado passando fome (fundo, antítese); já tive amigos que se diziam irmãos (topo, tese), já morei numa cidade que não conhecia ninguém (fundo, antítese); já curti minha vida de solteiro e fiz sexo com mais pessoas do que consigo lembrar (topo, tese), mas também já tive crises de pânico em baladas porque todo mundo estava se pegando (olha o nível de aversão que eu tomei pelo negócio) e evito sexo (fundo, antítese). De 2010 a 2012, sem dúvida, foi isso que eu vivi.
Mas, como todo processo dialético termina em síntese, temos o útimo ano para cá. Em 2013, eu comecei uma carreira que paga muito menos, pelo menos 66% do meu antigo salário de professor com somente a graduação. Não passo fome, mas levando em consideração que agora eu sou doutor. É duro de engolir. Meus amigos de Natal, por mais que eu tentasse, se afastaram irremediavelmente. Tentei criar novas amizades, mas minha imaturidade causada pelo excesso de livros em minha vida e pouco contato com seres humanos, dificulta o processo. Primeiro, sou atraído por garotos jovens demais, mas sou velho demais para passar meu tempo livre fazendo programas com garotos de 20 anos. Tenho consciência disso e preciso mudar, o que me faz dirigir minha atenção para as pessoas da Igreja que estão em situação imediatamente oposta, homens e mulheres com seus relacionamentos e vidas estáveis dos quais também me sinto tão distante por causa da mesma falta de experiência. À vontade me sinto somente com os amigos virtuais, que moram na Alemanha, BH, Recife, São Paulo, Rio das Ostras, distantes se fazem mais presentes que todos por aqui. No caso das minhas relações amorosa, eu experimentei situações nunca d'antes vividas, um tentou e conseguiu transformar minha vida em um inferno, com outro me apaixonei e por um instante eu achei que ele poderia corresponder ao sentimento, durou pouco tempo, para ele inclusive sei que não significou nada, mas para mim foi realmente uma experiência completamente única e a mais intensa vivida até aqui. Pela primeira vez na minha vida eu não fiz sexo com um estranho (o meu ex vai me matar, mas gente, eu namorei a pessoa por 6 meses, e nunca soube que ele era alérgico à chocolate porque ele morava a dez horas de viagem, havia amor, com certeza havia, mas nunca existiu intimidade). Eu provei o gosto da minha fantasia erótica de ser íntimo daquele com quem divido minha cama. Contudo, se tudo isso é síntese dos polos opostos dos quais era minha vida, e o movimento do Espírito da História não para transformando a síntese em nova tese, qual será a próxima antítese que será formada? E se vivemos em ondas, como a maré, e isso é um topo, quanto mais eu ainda posso descer? O futuro não parece promissor, o progresso de Hegel já foi descartado como uma lei histórica, na verdade a História tem abandonado leis explicativas totais há muitos anos, resultado da pós-modernidade, mas será que Hegel pode explicar meu pequeno universo? Retorno aos herméticos e lembro que o que é verdade para o todo, também é para a parte. Se eu acreditar em Hegel posso ter esperanças, se seguir Hermes não.