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domingo, 19 de abril de 2015

Uma Lição

, em Natal - RN, Brasil
Ela era uma senhora gorda, de sorriso aberto e extremamente simpática. Era professora e tinha cara, falava com facilidade, e eu apostaria que lecionava português. Ela entrou na loja numa tarde nublada acompanhada de um garoto magrelo, calado e sempre olhando por baixo de suas sobrancelhas, algumas pessoas poderiam desconfiar daquele menino que não olhava diretamente para ninguém, as pessoas desconfiam de quem não olha nos seus olhos por muito tempo porque todos se acham grandes especialistas na alma humana, mas quem disse que alguém não pode mentir para você olhando nos seus olhos nunca foi traído por um namorado. Ele, o garoto, não o namorado, usava uma regata e uma bermuda surfwear e sandálias de dedo. Era um menino bonito, inclusive, tinha olhos claros e traços másculos, mais precisava encher seus ossos com um pouquinho de carne. Era um adolescente, com corpo de adolescente, que um dia se tornaria um belo homem.
Ela, a professora, comprava-lhe coisas: camisetas, calças jeans, bermudas e cuecas. Inicialmente, imaginei-os mãe e filho, porém um olhar mais cuidadoso logo destruiria esta teoria. Eles não eram em nada parecidos. As bochechas gorduchas dela não tinham nada a ver com as maçãs ossudas dele. Ela continuava mostrando roupas a ele, que ele escolhia sem levantar os olhos. Aceitava tudo com um constrangimento de quem veio comprar um presente para si mesmo. Ela então explicou: "Ele é meu aluno, sabe?". Eu fiquei atento a estória enquanto mostrava-lhe calças tamanho 38.  "Um bom aluno, um grande menino! Ele tira sempre as melhores notas!". Eu o fitei neste instante, e ele sorria orgulhoso dos elogios. Orgulhava-se de ser um bom aluno. De tirar boas notas. Seus olhos claros brilhavam superando a pobreza de toda a vida que ele levava. Se eu não disse antes, acreditem, era um menino muito pobre. Com certeza morava no pé dos morros de areia que cercam Natal, em algum barraco com vários irmãos e talvez não tivesse mais nenhum outro motivo para sentir orgulho além de ser um bom aluno. A professora repetia: "Meu melhor aluno!".
Ele experimentava duas calças jeans no provador quando ela contando o dinheiro que tinha na carteira, faltava 20 reais para que ela comprasse tudo o que pretendia, independente da calça que o garoto de não mais de 15 anos escolhesse, desabafou: "É um menino tão bom! Mas não tem nada! Nada!". Eu pensei que ela estaria com olhos marejados, mas não estava. "Ele tem a mesma roupa para ir a escola todos os dias, mas mesmo assim nunca falta e estuda mais do que os outros! Eu precisava fazer alguma coisa!". E parou de contar o dinheiro quando o menino saiu com uma das calças. "Onde tem um caixa eletrônico?", me perguntou e eu indiquei a farmácia do outro lado da rua. "Empacote tudo aqui que eu volto já com o resto do dinheiro!".

domingo, 22 de março de 2015

"Eu Vejo Pessoas Bonitas"

Às vezes eu me sinto o Haley Joel Osment em o Sexto Sentido.

- Eu vejo pessoas bonitas!
- Com que frequência?
- O tempo todo!

Todo mundo que eu vejo tem algo bonito. Simplesmente não sei como alguém pode olhar para outra pessoa e dizer que não há nada ali agradável ao seu olhar. Seja um suave brilho nos olhos, a bonita definição dos ombros, a bela proporção das pernas, a deliciosa curva da bunda, a macia força das coxas, a fofa simetria das orelhas. Como alguém pode olhar para outra pessoa e não encontrar ali nada de bonito?
Não que eu seja cego para os defeitos. Eu posso vê-los também e ser bastante detalhista. Eu sou capaz de reconhecer que aqueles olhos são muito juntos, que os ombros são largos demais, as pernas de fulano poderiam ser pelo menos cinco centímetros maiores, que um outro não passou na fila para receber bunda quando Deus fez-lhe o corpo, que alguém tem uma perna dividida canela-joelho-canel. E nem vamos falar com essa mania das pessoas de usarem barba de mendigo, aparem isso, por favor!, e não é raspar, é aparar de vez em quando, e uma dica é que se quando você come algo suja sua barba, ela está grande demais. E sandália com meia: não, não, não!!!
Culpo minhas habilidades com desenho por isso. "O desenho não é a forma, é maneira de ver a forma", já dizia Degas. Desenhar te deixa consciente de duas coisas: o que é um corpo perfeito e o que faz uma pessoa bonita. Perfeição é uma coisa na verdade simples de obter, mesmo ela não existindo no mundo real, basta seguir a chamada Proporção Áurea ou Número de Ouro, uma regra que foi popularizada pelo Renascimento. 7,5:2 é a chave para um corpo humano perfeito, Juntando a isto a simetria e teremos a perfeição divina.
Porém, apesar do Número de Ouro ser a chave da perfeição, ele não é a chave da beleza. Por um motivo muito simples: o belo não se encontra na perfeição. Ironicamente, apesar da indústria de cosméticos dizer-nos o contrário, é o defeito que torna alguém bonito, porque a beleza se encontra naquilo que é único e são nossos defeitos, nossas experiencias cravadas em cicatrizes, rugas e cabelos brancos, nossos olhos ligeiramente assimétricos, orelhas de tamanhos diferentes, narizes grandes demais, uma boca um pouco torta para esquerda, que tornam nosso rosto lindo e inimitável. Um ombro mais estreito, pernas mais longas, um abdômen mais largo, um quadril mais amplo, uma altura menor tornam cada um de nós especial, um indivíduo sem comparação na face da Terra e, portanto, um indivíduo lindo.
Por isso, eu olho em minha volta, aonde eu estiver, e posso encontrar alguém bonito. Porque minha definição de beleza não encontra eco na perfeição. Aqueles perfeitos no máximo arrancam de mim uma admiração técnica, como se eu observasse um desenho perfeitamente executado, mas que falta emoção. Haverá um elogio sim, mas em seguida darei de ombros e farei um beicinho de desdém. E por quê? Porque sinceramente acho muito mais bonito um menino de orelhas grandes, peito definido e braços magrinhos que sorriu para mim iluminando todo o ponto de ônibus onde ele estava esperando o dele e eu passei dentro do meu. Ele não era perfeito, mas tenham certeza, fazia tempo que eu não via um menino tão lindo nesta cidade.

domingo, 1 de março de 2015

Meu Problema

, em Natal - RN, Brasil
Era uma tarde de quinta-feira, o carnaval acabara de passar, primeiro dia da Quaresma católica, e eu o esperava para almoçar na praça de alimentação de um shopping. Eu não ia trabalhar naquele dia, e aquele menino me convidara para um cinema, eu aceitei. Sempre faço isso, encontro desconhecidos que me convidam para sair. Eu cheguei antes e ele se atrasou, mas eu não vi problema nisso (e talvez aí esteja todo o meu problema, me acompanhem...). Ele chegou pela minha direita e eu o reconheci de imediato. Ele usava um cabelo mal cortado que fazia parecer que ele era careca, mas não era; óculos grandes demais para seu rosto com lentes que escurecem quando expostas a luz, também vestia-se estranho, uma camiseta azul marinho, uma calça social marrom clara e um tênis de corrida. Ele vestia-se mal e apresentava-se de forma, no mínimo, desleixada. Novamente, apesar de notar um problema (de fato eu notei), eu falei para mim mesmo que devia ignorar e ir em frente. (eu sempre penso: eu devo tratá-lo como gostaria de ser tratado, não é? Então não posso julgar alguém por sua aparência). Eu almocei um Subway, eu estava desejando, ele pegou um quase nada de comida em um restaurante à peso, arroz-de-leite, salmão e uma batata, deixou metade do peixe no prato e boa parte da batata, aquela comida ia para o lixo (eu me senti profundamente incomodado, mas achei melhor não dizer nada, achei que devia dar a ele uma chance, como gostaria que ele desse uma a mim, e sim, eu julgo pessoas porque jogam comida fora em um mundo em que tanta gente passa fome). Subimos para o cinema, "Temos que ir para não atrasar", ele falou.
Compramos ingressos para O Jogo da Imitação, sobre a vida do matemático e inventor dos computadores, Alan Turing. Ótimo filme por sinal. Sentamos, obviamente, lado a lado e ele pegou na minha mão e puxou-me para um beijo. As luzes nem haviam apagado ainda, os poucos espectadores entravam na sala, e nós eramos dois adolescentes se beijando na sala (sim, me incomodou bastante, mas, apesar de tudo, eu pensei, porquê não?). Foi um beijo cheio de dentes. Ele abria a boca demais, quase engolindo a minha, seus dentes chegavam a raspar na minha barba, acho que ele quase cortou minha bochecha. Eu sussurrei-lhe: "Calma!", ele riu, mas não mudou em nada seu comportamento. Parece que aumentou o fogo, na verdade.
Ele quis pegar em lugares demais ali no cinema quando as luzes apagaram. Eu tirei sua mão. Repeti com paciência: "Calma!". Ele voltou com o beijo afobado que demonstrava toda sua inexperiência (era sem sombra de dúvida um beijo de alguém que não costumava beijar outros homens, mas ele tinha 23 anos, o que eu achei estranho). Tentou novamente tocar-me em lugares bem ao sul. As pessoas ao nosso redor, não eram muitas na sala devido ao horário, mas bastante perto de nós, não o intimidavam em nada, mas eu não sou mais um adolescente que tem que aproveitar estas oportunidades na vida. Eu não queria aquela exibição em uma sala de cinema. Se ele quisesse vir a minha casa, tudo bem, mas não ali. Pedi-lhe novamente: "Calma!". Ele desistiu.
E acho que ali ele viu um problema. Senti-lhe ofendido. Eu não estava no mesmo clima dele, óbvio, de beijos destreinados e tesão adolescente, queria ver o filme do lado de alguém legal apenas, e ele era bem legal. Inteligente, com um sorriso lindo e um corpo gostosinho por debaixo daquela roupa brega (Deus me perdoe, mas era sim!). Mas ao contrário de mim que estava aberto a passar por cima de todos os problemas que eu encontrasse na minha frente (e foram muitos), o primeiro que eu impus a ele, ele desistiu. A prova foi que ele não respondeu nenhuma das mensagens que eu enviei para ele nos dias após o cinema. Mas ele está certo. Quem cometeu um erro fui eu, quem é o problema sou eu. E meu problema é passar por cima do que me incomoda nas pessoas que eu conheço na esperança de, com o tempo, encontrar nelas as qualidades que eu sei que elas possuem, infelizmente nenhuma pessoa está disposta a fazer o mesmo por mim.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Realidades Paralelas


Como eu queria que fosse:

- Oi, Foxx. Bom dia!
- Bom dia, meu lindo, dormiu bem?
- Muito bem. Adorei te ver ontem...
- Eu também.
- Espero poder te ver mais vezes.
- Com todo o prazer.
- Então, próximo sábado você está livre?



Como poderia ser:

- Oi, Foxx, desculpa, prometa que não vai me odiar, mas eu não tive saída. Tive que encontrá-los.
- Tudo bem, lindo, sem problemas! Dormiu bem?
- Dormi sim. Mas, voltando ao assunto, deixe-me compensar você, vamos jantar hoje?
- Claro, com todo o prazer!



Como foi:

- Oi, Foxx, desculpa, prometa que não vai me odiar, mas eu não tive saída. Tive que encontrá-los.
- Tudo bem, mas o senhor fica me devendo hein? Dormiu bem?
- Honestamente, estou bem cansado, vou dormir o resto do domingo todo.
- Ok. Bom descanso então.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Júpiter Em Leão

, em Natal - RN, Brazil
Por algum motivo, Júpiter em Leão provavelmente, não é raro algum homem me adicionar no Facebook. Adicionam cheios de segundas intenções obviamente. Bonitos homens que chegam com conversas mansas, perguntando sobre minha vida, minhas preferências e minhas ideias. Por acaso, são realmente homens interessantes. Não todos, mas a maioria. Em um mês, por exemplo, teve um de nome francês, corpo de jogador de capoeira, cabelos com dreads e que havia viajado boa parte do mundo e me contava estórias da Nova Zelândia, Bélgica e Filipinas; teve um bancário, de roupa alinhada, sorriso perfeito e barba por fazer, amigo de um amigo, que perguntou tudo sobre mim ao nosso conhecido em comum e o fez ficar torcendo para que eu finalmente desencalhasse; teve um estagiário de direito, magrinho e com um sorriso lindo, imberbe, cujas roupas sociais ficavam grandes demais para ele, menos na mala; e o modelo, lindo!, de cabelo perfeito, sorriso perfeito, rosto perfeito, corpo perfeito, e que ao me encontrar me perguntou: "você me achou mais feio pessoalmente não foi?", e eu fui obrigado a dizer-lhe que, pelo contrário, ele era extremamente mais bonito pessoalmente que nas fotos que eu havia visto.
Sim, eu encontrei com todos eles. Sempre em uma quarta-feira. Meu único dia livre a noite. O primeiro me levou a um bar. Disse que achava que ele ia beber cerveja sozinho, mas que eu estava bebendo e ele já estava ficando tontinho. Conversamos sobre biologia, evolucionismo e criacionismo, sobre tipos de vozes masculinas. E eu sabia que ele não estava interessado por mim no instante que a conversa chegou a este determinado ponto:
- Os fonoaudiólogos dizem que se você não está satisfeito com sua tessitura vocal, (eu dizia) isto é, se você acha a sua voz fina ou grossa demais, é possível mudar. A minha já foi muito mais aguda do que agora, por exemplo.
- E você acha que a sua já está bom? Perguntou o garoto de nome francês.
E eu respondi: - Não, é aguda demais, eu sei, mas não me interessa mudar. Eu aprendi que eu tenho um dom, que nem todo homem pode alcançar as notas que eu consigo, comprometer esta habilidade porque eu não encaixo no fetiche dos viados desta cidade não está nos meus planos.
Ele mudou o assunto para a Dilma e o Aécio, e eu soube ali que não haveria um segundo encontro, apesar de bêbado ele ter mencionado que seria legal me ver cantar.
O bancário, numa outra quarta-feira, me convidou para tomar um açaí. Ele era lindo, não tão lindo quanto o francês, mas eu o encontrei numa lanchonete e comemos falando sobre o mundo gay natalense, sobre meus grupos de corais, sobre os amigos dele e nosso amigo em comum, ele pagou a conta no final com uma cara de culpado. Eu li nos olhos dele o seguinte quando ele pagou a conta: "Eu fiz ele vir até o outro lado da cidade para nada porque nem beijá-lo eu vou, vou pelo menos pagar a conta". E, o que eu achei bem honrado, ele mal esperou nos separarmos para mandar uma mensagem, via Whatsapp, dizendo: "Olha, eu nem sei bem como te dizer isso, mas você é um cara legal e não quero te dar falsas expectativas, mas não rolou química". Eu respondi com um tumbs up e um "de boa". E toquei minha vida.
Com o estagiário eu comi, também numa quarta, um sanduíche em uma lanchonete de rua.  Detesto praças de alimentação de shoppings, só vale a pena se o calor estiver infernal. Conversamos sobre o trabalho dele, ele perguntou sobre o que eu havia estudado, seus olhos brilharam quando eu falei que era doutor, ele perguntou sobre minha dissertação, minha tese e da experiência em Belo Horizonte (eu menti dizendo que tinha adorado tudo e que tinha sido um grande sucesso, para quê falar sobre meus fracassos, não é?). Ao sairmos para ir embora, ele parecia excitado sob a calça, o que confirmou depois pelo Whatsapp, vindo até minha casa dias depois para nos conhecermos ainda melhor, if you know what I mean. Chegou meio bêbado porque havia saído de uma festa com amigos e estava animado. Seu corpo branco e apertado era quente e macio. Mas, apesar de eu ter mantido contato, algumas semanas depois, quando eu enviei uma mensagem novamente o convidando para ele voltar aqui, ele respondeu: "Podemos ver isto sim, algum dia". Ok, né? Nunca mais voltou.
O modelo chegou atrasado quase uma hora quando marcamos. Ele mora longe, é verdade, e pediu mil desculpas dizendo que houve um acidente, implorou para que eu o desculpasse, e porque não né?, era quarta-feira e eu estava em casa sem fazer nada mesmo. Ele veio até perto da minha casa, na verdade, caminhamos juntos e ele falou sobre estudos, sobre planos para o futuro, fez perguntas indiscretas sobre minha situação financeira e quis conhecer minha casa. Eu não resisti. E ele explodiu sobre meu peito duas vezes sem se tocar. Foi lindo de ver. Ele era lindo de ver. Voltou outra vez, não ficou 1 hora comigo, e eu percebi que apesar de toda aquela beleza, ele, estranhamente, tinha muita vergonha do seu corpo, sempre pedindo que eu desligasse as luzes quando ele pretendia se despir. 



domingo, 18 de janeiro de 2015

Praga de Mãe

, em Natal - RN, Brazil

Na loja, minha mãe atende o telefone. É uma das irmãs dela. Uma das inúmeras tias que eu tenho e que nunca vejo porque meu pai fez questão de nos criar apartados do lado materno da família. Elas conversam sobre os filhos que estão se casando, sobre os netos que vem chegando. Minha mãe só tem netos tortos, isto é, os netos dela são dos filhos do primeiro casamento do meu pai. Ela ainda aguarda ter um neto dos seus próprios filhos.
- Não, ele não 'tá casado não.
Eu presto atenção a partir daqui na conversa.
- Ele 'tá sim aqui comigo. Agora está me ajudando aqui na loja.
Eu percebo que o assunto agora sou eu. E minha mãe não faz questão de esconder.
- Ah, o Foxx é que não vai casar mesmo. Este não casa nunca. 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Cores de Natal

, em Natal - RN, Brasil
Estou voltando do ensaio de um dos coros que participo. Eu vinha caminhando, tranquilo de minha vida, cantando Cores do Vento, de Pocahontas. Se pensa que esta terra lhe pertence, você tem muito o que aprender. Caminho para casa quando passo pela esquina da rua em que moro. Pois cada planta pedra ou criatura, está viva e tem alma, é um ser. Do outro lado da rua, estão sentados, na calçada, quatro garotos de no máximo 17 anos. Se vê que só gente é seu semelhante  e que os outros não tem o seu valor. Magrinhos, alguns muito bonitos, dois precisamente. Um branquinho de olhos grandes e assustados, rosto bonito, bem magro; e um negrinho, de corpo roliço, bunda perfeita e coxas grossas, este está sem camisa, mostrando a barriga e a cintura estreita que só destaca a bunda quando ele anda pela rua de paralelipípedos. Mas se seguir pegadas de um estranho, mil surpresas vai achar ao seu redor. Eles sempre estão por lá, ou na outra esquina um quarteirão acima, sob a marquise de uma padaria. Quando passo perto, isto é, do outro lado da rua, Já ouviu um lobo uivando para a lua azul?, escuto baixinho:
- 50!
Eu entendi, e ri por dentro, Será que já viu um lince sorrir?, obviamente entendi. Mas eu olho para eles e um dos garotos, talvez o mais feio, um negrinho de pele achocolatada, segura o pau, É capaz de ouvir as vozes da montanha?, repetindo:
- 50!
E com as cores do vento colorir.
Continuei caminhando para casa, Correndo pelas trilhas da floresta, havia uma família fazendo uma festinha algumas casas a frente, Provando das frutinhas o sabor, no alpendre em frente da casa, havia uma churrasqueira, Rolando em meio a tanta riqueza, e eles bebiam cerveja conversando animadamente, Nunca vai calcular o seu valor
Eles gritaram quando eu estava ali na frente.
- 50!!
Não vai mais o lobo uivar para a lua azul
Eu parei na frente do portão da vila que moro, e fui procurar a chave para poder entrar que insistia em sumir dentro da mochila. Já não importa mais a nossa cor. E eles gritaram novamente, sem se importar com mais alguém ouvir na rua. 
- 50!!!
Vamos cantar com as belas vozes da montanha.
Eu abri o portão e entrei, sem parar de cantar. 
Você só vai conseguir, desta terra usufruir, se com as cores do vento colorir.


domingo, 14 de dezembro de 2014

"Que delicinha!"

, em Natal - RN, Brasil

Venho caminhando a noite. Voltando de um jantar de trabalho regado a muito vinho do Porto, em que eu não comi nada, mas foram muitas taças de vinho. É uma quarta-feira e observo dois garotos caminhando de encontro a mim. Eu estou pensando que preciso de uma casa maior e mais confortável quando observo os dois por um segundo paralisado no tempo, eu estava em uma esquina, prestes a virar a direita, eles estavam do outro lado da rua, para atravessar para o lugar que eu estava. Não deviam ter mais de 20 anos, usavam camisetas polo e bermudas jeans, calçavam chinelos, pareciam irmãos ou primos, havia uma semelhança. Eram brancos, bonitos, inclusive, cabelos cortados baixinhos, o mesmo e exato corte, um deles falava ao telefone. Mas os vi e simplesmente retornei as minhas preocupações mundanas, e fiz a conversão a direita. Foi quando ouvi:
- Que delicinha!
E virei para trás, o que falava ao telefone não estava mais lá, vi apenas um deles, já saindo do meu campo de visão, escondidos por trás da parede, com um sorriso no rosto. E eu lembrei de Marina Abramovic. A dançarina fez uma performance que dizia para os visitantes que não se moveria por seis horas, não importa o que fizessem com ela. Ao mesmo tempo colocou a disposição, em uma mesa ao seu lado, 72 objetos que poderiam ser usados em seu corpo. Eram flores, poás, facas e até uma arma carregada, entre outras coisas. Os visitantes poderiam usar os objetos como desejassem, não havia limites. Inicialmente os visitantes eram pacíficos e tímidos, mas ao perceberem que ela realmente não reagiria, a agressão surgiu. Suas roupas foram rasgadas, ela foi cortada, enfiaram os espinhos das rosas pelo seu corpo, até a arma foi apontada para sua cabeça (sim, ela estava carregada). Ao fim da performance, Abramovic levantou-se e aí aconteceu o que eu considero mais importante e mais chocante nesta experiência artística (que se chama Rhythm 0): as pessoas que a feriram fugiram dela.
Sempre que se analisa a história do Rhythm 0, se observa a desumanização que a dançarina sofre quando se coloca a mercê dos visitantes, como rapidamente as pessoas se tornam sádicas infligindo-lhe dor, eu nunca observei por este ângulo. Eu noto é como as pessoas são covardes porque só demonstram seu sadismo quando o outro não pode defender-se. No instante que Abramovic levanta-se, aqueles que decidiram expressar-se, através do corpo dela, com violência fogem apavorados, pois temem serem responsabilizados por seus atos. É, pelo menos aqui em Natal, como estes garotinhos agem. Estas piadinhas são comuns e elas só acontecem nestas situações de que o autor se vê protegido de qualquer tipo de enfrentamento comigo e, por causa dessa impossibilidade de enfrentamento, eu muitas vezes fico em dúvida: eles são homofóbicos ou é uma cantada? Analisemos. 
Alguém pode parar agora e dizer: "Mas eles não foram homofóbicos, eles fizeram um elogio!". Será? Um elogio é feito diante de alguém, para que alguém escute, aquela foi uma cantadinha machista, como quando gritam gostosa na rua para uma mulher. O objetivo de gritar "gostosa" para uma mulher não é elogiá-la, mas reforçar o papel de homem-pegador e de mulher-objeto-do-desejo dentro das relações sociais. Quando o homem grita, sempre ao lado de seus confrades, ele reforça seu papel de macho-alfa no meio do seu bando, garantindo assim privilégios diante dos amigos, e também reforça entre os membros femininos do grupo que seu lugar é o de objeto a ser admirado por aqueles que detém o poder. Admirado e devorado (não é a toa que a expressão é "gostosa" e não "linda"). O mesmo acontece aí. Eles gritam para mim "delicinha", que não é diferente de "gostosa", e ainda ocorre na feliz coincidência que o gênero da palavra não deixa de me colocar no papel de mulher-objeto e deles como homens-dominantes. Disfarçado de elogio, a dominação ocorre.
Mas e se foi um elogio mesmo? Por que, diabos!, alguém faz um elogio a outro e não fica para receber os louros? Que espécie de fetiche é esse em que a pessoa sai pelas ruas a noite chamando as outras pessoas que encontra na rua de deliciosas e se esconde depois? Qual a utilidade de uma cantada que termina sem, no mínimo, o telefone do seu objeto de desejo? Qual o objetivo, pergunto curioso? Até porque eu não sei como reagir. Meu impulso foi responder:
- Vocês dois também são deliciosos!
Eu bem que achei naquele segundo que os observei. Mas minha prudência me fez calar. Porque se eles estão sendo homofóbicos, responder com o mesmo elogio seria colocá-los na posição de mulher-objeto no qual eles haviam me posto antes. Esta é a maior dificuldade que os homens héteros tem ao se verem assediados por um homem gay, eles de repente se vêem no lugar de objeto em que colocam as mulheres, no lugar de coisa, de criatura sem autonomia, de ser inferior. E aí eles poderiam se irritar e eu apanhar ali... quer dizer... eles dois apanharem muito de mim porque, gato, eu não apanho de homem nenhum nessa vida. #ProntoFalei. Não quero ter sangue de menininhos héteros na minha mão não. Ou eu devia mesmo ter respondido? 






domingo, 23 de novembro de 2014

Street View

, em Natal - RN, Brasil
Saio as 11 horas da manhã de uma reunião de trabalho que começou três horas antes e caminho até à sombra do abrigo do ponto de ônibus para esperar minha condução, sob o sol escaldante que já brilha no céu de Natal anunciando um verão que será como todos os outros: quente. A parada do coletivo fica ao lado da Vila Naval, um condomínio militar com suas cadas padronizadas, pintadas de azul e branco. Dois jovens usando uma regata e um short curto, nas mesmas cores das paredes e portas das residências, exibindo braços musculosos e pernas torneadas, faziam reparos numa parede não muito distante. Eram aspirantes a marinheiros, acho. Eu me perdi em pensamentos de como seria crescer gay dentro daquele ambiente (com aqueles homens circulando por ali com aquelas roupas minúsculas) somente para me encontrar quando vejo alguém, do outro lado da rua, balançando um imenso pacote que ele guardava dentro da bermuda.
Assustado, me recuperei a tempo de perceber o que estava acontecendo. Era provavelmente um morador de rua, nem bonito, nem feio, mas bastante sujo. Ele ainda estava distante quando começou a pegar no próprio pênis, masturbando-o por cima do tecido da bermuda surf wear que usava enquanto me encarava, mas somente quando ele estava mais próximo, do outro lado da avenida larga, que eu pude notar o volume imenso que ele carregava. Devo ter arqueado as sobrancelhas neste momento, de susto!, mas ele, como um gato, deve ter interpretado aquilo como aprovação, como elogio ao tamanho imenso do pau dele, foi aí que ele sorriu para mim e piscou um olho. Eu virei rapidamente o rosto, olhando em direção de onde viria meu ônibus, esperando que ele seguisse o seu caminho e pensando: esse tipo sempre nota a minha presença né? 

domingo, 12 de outubro de 2014

Dois

A Rua das Virgens, na Ribeira, estava lotada naquela noite de sexta-feira, apesar das nuvens cinzas cobrirem o céu escuro. Mas não parecia que choveria, era somente uma noite nublada. Essas de outono bem comuns. Após a igreja, eu fui para assistir o show de Du Souto com seu samba-jazz-xote-hip hop no Buraco da Catita e seu publico habitual rondava o local. O Centro Cultural Buraco da Catita congrega os natalenses que se consideram a elite pensante da cidade, discutem política e falam sobre arte sentados em suas mesas de madeira bebendo cerveja. Sim, apesar do nome pomposo, não passa de um bar que ocupa uma das ruelas do bairro. Gosto do lugar, do ambiente, e das pessoas que o frequentam: são em sua maioria pessoas inteligentes, artistas, produtores de cinema, músicos, atores, uma parte das pessoas que frequentam a região do porto, a tribo mais madura eu diria. Destoam deles somente aquelas meninas adeptas do hippie chic e estudantes de publicidade heterossexuais musculosos e tatuados. Ah, e alguns caras usando polos com números imensos nas costas, pagando bebida para três garotinhas (falsamente) loiras das quais ele tem esperança de comer pelo menos uma, mas ela só vai dar quando tiver um anel do seu dedo. Eu estava com amigos dançarinos e atores que me definem como artista plástico quando me apresentam a alguém (os quais sempre me envolvem em seus projetos e eu sempre aceito).
Sentamos numa mesa afastada, quando o show acabou, em frente a um albergue e um ateliê de pintura, éramos um grupo grande (que não parava de aumentar) que conversava sobre sexo e relacionamentos, sobre Dilma e Aécio, sobre Almodóvar e revistas em quadrinhos. Uma destas pessoas novas era um rapaz de barba. Ele era másculo, mais alto que eu, com uma barriguinha, nada de corpo saradinho de academia, mas não era gordo. Ele sentou-se ao meu lado e ninguém se deu ao trabalho de nos apresentar, mas isso não nos impedia de conversar normalmente, mas ele me olhava de uma forma diferente. Havia interesse no olhar dele. Era óbvio! Foi quando alguém sugeriu irmos a outro bar. "Lá é mais barato", comentaram. E todos levantaram, o rapaz de barba também, e antes de nos afastarmos da mesa, ele me parou. "Eu queria um beijo seu". Eu sorri. E apesar de lembrar que nem sabia o nome dele, dei-lhe o beijo. Ele me olhava quase implorando, parecia que eu era um cara que ele sempre quis beijar. Foi um único beijo, rápido, e depois nos juntamos aos outros. Ele no entanto se afastou de mim. Eu esperava que ele iniciasse uma conversa, que pretendesse ficar comigo durante o resto da noit e, mas, apesar do olhar ser o mesmo, ele se comportou de forma completamente estranha. Caminhando ele parecia envergonhado, ao chegar no bar sentou-se do outro lado, eu nem vi em que momento ele foi embora, mas dei de ombros. Era apenas madrugada.
Continuamos sentados no bar que da para a praça do teatro, cercados por prédios antigos que devem ser assombrados principalmente por antigas prostitutas do cais, eu sempre paro para admirá-los, são todos lindos, apesar da falta de conservação por parte da prefeitura. O bairro, todo tombado pelo patrimônio histórico do Estado, nunca teve nenhum projeto de restauração dos prédios, é terrível ver como eles correm risco, se eu pudesse, compraria todos e cuidaria deles. Foi perdido em meio a estes pensamentos que percebi que havia chegado ao bar um garoto que havia me adicionado no Facebook mais cedo naquele dia. Ele conhecia um dos meus amigos, o Diretor-de-Teatro, e sentou na mesa dizendo: "Eu te adicionei no Facebook hoje", eu disse que sabia. Ele era lindo, ruivo, com um sorriso fácil e safado, sempre erguendo a sobrancelha esquerda. E foi com este sorriso no rosto que ele se aproximou e me beijou. Bem alto, com pernas grossas e uma bunda linda sob o jeans escuro, ele com certeza não tinha mais que 25 anos. Ao contrário do outro, sentou ao meu lado, e entre piadas e conversas passamos o resto da madrugada ali, entre cervejas e cigarros, com meus amigos. Era, pelo menos, 4h da manhã quando nos recolhemos para nossas casas. Cada um para sua, infelizmente.



PS: Estarei mudando o número de postagens agora para somente uma, semanalmente. Não tenho assunto para postar mais frequentemente, afinal sei que ninguém aqui está interessado em me ver falando sobre meus dias solitários, tentarei manter esta quantidade de posts, se nem isso eu conseguir, talvez seja hora de encerrar o blog.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Le Garçon Blond (prendre trois)

, em Natal - RN, Brasil


Foxx: Ah, por falar em sexo, tô comendo Le Garçon quando ele tem vontade de sexo. Funciona assim: ele me liga quando dá vontade, dá e depois vai embora.
Rodrigão: (risos) Aquele que o namorado fez um escândalo? 
Foxx: Sim, aquele.
Rodrigão: Para quem não queria mais saber de homem, 'tá comendo bem você hein?
Foxx: Ah, eu estava na secura, precisava de alguém para descarregar esta energia. 
Rodrigão: (risos) Acho que você está certíssimo! Descarrege mesmo! Encha o cara da sua energia.
Foxx: Eu não o procuro, sabe? Quando ele quer, ele vem, e não existe nenhum envolvimento meu com ele.
Rodrigão: De fato, uma forma boa de você não se envolver é deixar que ele te procure... mas e o namorado dele?
Foxx: Até onde eu saiba, sobre o namorado, eu acho que terminou depois do escândalo, porém eu sei que ele está conversando com mais cinco outros caras, porque ele acha que eu não vejo as mensagens que ele responde chamando os caras de "amor" na minha frente pelo WhatsApp... ele, de fato, se acha o grande cafajeste do mundo. O bichinho ainda tem tanto o que aprender nessa vida.
Rodrigão: Ele é novinho...
Foxx: É, tem 19 anos apenas. 
Rodrigão: É uma criança... Mas e daí? Deixa ele ser jovem, deixa ele ter 19 anos, nada como ser desejado por um garotão que tem uma bundinha linda.
Foxx: A mais gostosa! E sim, eu concordo, que ele é uma criança, mas não vejo problema nenhum nisso não.
Rodrigão: Ele é um ordinário, mas que mau tem para você né? Ele que vem atrás! 
Foxx: Ah, Rodrigão, eu não vejo problema nenhum! Porque meu único objetivo com este relacionamento é apenas gozar na bunda dele mesmo. 
Rodrigão: Sim, sim, esse é o objetivo. Então coma, farte-se e pronto.
Foxx: Se eu não me iludo com a ideia de que ele pode vir a gostar de mim, não há como haver problema. Só haveria sofrimento se eu ainda sonhasse que é possível alguém vir a me amar, quando eu não pressuponho que isto possa acontecer, eu nunca sofro. Mesmo se eu me apaixonar, não espero, em hipótese alguma que ele venha a nutrir algum sentimento por mim. Eu sirvo apenas para matar a carência e o tesão dele quando surgem, ele cumpre para mim basicamente o mesmo sentido.
Rodrigão: É que ele é um moleque, também não é? Não é um cara apaixonante.
Foxx: Não, Rodrigão, eu que não sou.



terça-feira, 16 de setembro de 2014

Contra-producente

, em Natal - RN, Brasil
Estávamos no Casa Nova, era uma sexta a noite e nos encontrávamos cercados da fina flor da sociedade gay natalense. Já falei deste bar antes. Caro, em que os viados desta exercitam o esporte que mais gostam: exibir o quão bem sucedidos são. Deve ser falta de auto-estima precisar tanto despertar inveja nos outros. Seu sucesso só existe se outros o cobiçam.  Eu com certeza devo soar muito diferente de todos eles ao ter consciência de meus fracassos. Eu estava acompanhado de um amigo que conheci em Belo Horizonte, ele estava aqui a trabalho e nos encontramos ali para conversar.
- Esse aí é o meu tipo.
Apontou meu amigo. Era um cara maduro, por volta de 40 anos, imaginamos. Com o corpo musculoso, mas não olhava para nós. De fato, muito bonito. E ele perguntou:
- Qual o seu tipo, Foxx?
- Ah, eu lá tenho tipo! Se gostou de mim, eu gosto dele. Sou bem eclético para dizer a verdade. Porém, é mais comum eu ficar com garotinhos, meninos novinhos entre 18 e 25 anos, é o tipo de homem que normalmente se interessa por mim. Eu não tenho vergonha de admitir...
Ele bebia cerveja interessado no que eu dizia. Eu continuava.
- Eu fico com os homens que querem ficar comigo. Eu tenho um tesão bem grande, por exemplo, por loiros, mas a maioria de homens que eu fiquei são negros. Inclusive, meu único namorado. 
- Pois eu gosto de caras mais velhos, e também com barba, esse rosto másculo me deixa excitado.
falou meu amigo mineiro sorrindo para o cara na outra mesa. 
- E você sabe que seu tipo atrai normalmente homens mais velhos não é?
- É?
- Sim, você tem cara de garotinho!
- Ah, mas eu uso barba exatamente para aparentar ser mais velho.
- Não 'tá funcionando, amigo! 
- Não?
Rimos juntos. 
- Não! E assim... obviamente não é todo homem maduro que gosta de garotinhos... mas os que gostam de homens mais velhos não vão olhar para você. Não com essa cara de 19 anos que você tem. Sinceramente, acho que você tem que investir neste nicho: homens mais velhos que gostam de garotos mais novos. Investir em ser esse garoto mais novo, já que você foi abençoado com este presente da eterna juventude. 
Ele sorriu para mim. Eu continuei falando:
- Outra coisa: usar barba é totalmente contra-producente!
Ele riu alto e tomou um gole de cerveja.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Le Garçon Blond (pendre deux)

, em Natal - RN, Brasil
Sabendo que ele tinha namorado, continuei conversando com ele. Ele sempre me dizia coisas como que queria encontrar alguém para namorar, que era um rapaz sério e eu fingia que acreditava nele. Dava corda apenas. E ele falava, notei que este era o jogo dele. Ele gostava de me fazer sonhar com ele, gostava de me fazer acreditar que ele era o cara perfeito. Ele conversava sempre comigo no fim da noite, aparecia sempre domingo, ou seja, era nos momentos que ele estava carente por algum motivo que ele queria ouvir que eu estava interessado nele, que o desejava, que o achava bonito. Mas o problema destes cafajestinhos é que eles acham-se inteligentes demais e acabam por cometer pequenos erros. E, um dia, eu recebo uma mensagem pelo Whatsapp: "Ei, você é um antigo namorado do Garçon? Pois saiba que nós agora estamos namorado, eu pediria que você deixasse de mandar mensagens para ele". Eu gargalhei sozinho, ao ler. Recortei nossas mensagens mais antigas, na qual ele fala que era solteiro. E enviei para o tal namorado. Enfatizando a data e dizendo: "O que ele me contou é que era solteiro". Ele respondeu dizendo que não acreditava. Sou muito paciente, para dizer a verdade, e escrevi: "Olha, meu amigo, você tem todo o direito de não acreditar, mas quem está sendo traído aqui não sou eu, ok?". E mandei mensagem para ele. "Seu namorado acabou de mandar uma mensagem reclamando de eu escrever mensagens para você. Você achou mesmo que poderia nos enganar? kkkkkk". Ele, obviamente, não teve coragem de responder.
Pelo menos não por duas semanas. No Facebook, pelo menos, o namoro havia acabado. Foi a primeira coisa que eu olhei antes de sequer responder sua mensagem pelo WhatsApp. "Menino, o que foi aquilo do seu namorado?". Ele começou a mentir. "Ele não era meu namorado, é um maluco que acho que gosta de mim, ele pediu me celular emprestado e viu nossas mensagens e ligou para você". Eu, simplesmente, não acreditava que ele estava mentindo com tanta cara de pau. Ele demorou duas semanas para inventar essa desculpa? Não falei sobre a rede social, era uma excelente fonte de informações, que ele poderia controlar se eu comentasse. Eu imaginei que ele deveria estar solteiro agora, mas seu comportamento não mudava em nada. Continuava falando sobre ser um homem sério, que estava procurando um relacionamento para casar, e me convidou para sair. Na verdade, sabendo que eu morava sozinho, convidou-se para fazer-me uma visita em um sábado a tarde. Disse-lhe então: "É sério que você não tem namorado? Eu não fico com caras que tem namorados, entende?". Ele jurou. "Cara, sou solteiro sim. Não tenho namorado!". Eu sabia que era mentira, mas resolvi aceitar. "Tá, aparece ai, que horas você quer vir?".

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Walking Dead

, em Natal - RN, Brasil
Ludo: Sabe, Foxx, eu estava aqui pensando sobre seu problema com namoros. Eu REALMENTE acho que seu problema é o lugar. Eu considero você um ursinho, sabe? Em São Paulo existem 'gangues' disso. Bares só para isso e etc. 
Foxx: Sim, sou de verdade.
Ludo: Em Natal, com certeza não tem. Em BH, eu não sei.
Foxx: Em Belo Horizonte tem um: o Mineiro Bill.
Ludo: Natal é o pior lugar que eu já morei na minha vida!!! Eu levava uma ou duas cantadas na Vogue, quando saía por aí, e daí quando eu voltava para casa, a pé, e três ou quatro carros paravam na rua me convidando "para dar uma volta". Todos homens casados com mulheres. É nojento. Degradante. Pútrido.
Este lugar que você mora não combina com você. Não combina com sua alma e não aceita o seu corpo. Você é uma flor sufocando no meio do deserto.
Foxx: Sim, eu concordo. Mas não dá mais p'ra sair daqui.
Ludo: Eu queria MUITO que você tivesse empolgação e saísse daí, mas eu sei como é difícil. Então, eu fico aqui, torcendo quando posso. 
Foxx: Eu não mudaria nenhuma palavra sobre o que você disse, Ludo. Nem sobre a cidade, nem sobre mim. Se eu tivesse alguma empolgação, entusiasmo, eu talvez visse algum motivo para ainda tentar. Mas meus sonhos foram todos destruídos, eu só continuo caminhando em frente para não ficar parado mesmo, mas eu não tenho nenhum lugar que eu quero chegar. Quando deixei Belo Horizonte e retornei para Natal, eu estava vindo para meu túmulo. Estou há dois anos nesta vida de zumbi.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Le Garçon Blond (prendre un)

, em Natal - RN, Brasil
Tarde de domingo, um sol escaldante banhava o bairro de Ponta Negra com uma luz que exigia a presença de óculos escuro no rosto de qualquer um que ousasse sair a rua. Eu estava ministrando um curso sobre Astrologia Cármica por ali, e sai para comer com duas das minhas alunas porque voltaríamos a tarde para a segunda parte das aulas. Eu não o vi quando entrei, somente quando sentei no fundo do restaurante, o vi me observando lá do outro lado. Ele sorriu para mim com alguns dentes tortos. Era branquinho, com olhos apertados e corpo sarado. Cabelo arrumado para cima e pele lisa, sem pêlos ou aquela sombra de barba de quem tem muita testosterona no corpo. Rosto imberbe é a descrição correta. Ele me observava de frente a mim e eu calculava que ele não teria nada mais do que 19 anos. Um rapazinho. Almocei sobre seus olhares e levantei para pagar a minha conta, mas antes parei para tomar um chá e, por acaso, perto dele. Ele então se apresentou. O significado do nome dele é loiro. E eu sorri. Ele perguntou se já nos conhecíamos e eu disse que sim. Dias atrás (eu lembrei quando ele se aproximou), ele tinha me pedido meu telefone no ônibus, mas não ligara. Ele lembrou, mas não se envergonhou, só concluiu: "Pois desta vez eu vou ligar sim" e pediu, novamente, o telefone, o que eu dei, movido pelo meu sentimento de não querer ser o sabotador de minha vida amorosa. Ele me escreveu, no Whatsapp, no fim da tarde. Falou que ter me encontrado de novo era coisa do destino e que dessa vez ele não ia deixar passar, precisava me conhecer melhor. E eu senti cheiro de cafajeste. Ele se disse solteiro e falou sobre trabalho e eu, como quem não quer nada, perguntei-lhe o nome completo. E joguei no Facebook. E estava lá: em um relacionamento sério desde o dia anterior. Dezenove aninhos, achando que conhece a vida, e que sabe como enganar a raposa aqui, mas porque não brincar um pouco com ele?

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Qual O Seu Fetiche?

, em Natal - RN, Brasil
Era noite de sábado, chovia bastante na cidade. Os invernos em Natal são assim, chuvosos, e tem ficado cada vez mais. O bom da chuva é que ela traz um clima bem mais agradável para a cidade. Entre 20° e 22°, dá até para arriscar um casaquinho. Não que esteja muito frio, mas porque o calor não se torna mais aquele que decide com que roupa eu vou. O Ariano havia acabado de chegar aqui. É a terceira vez que ele me visita este ano. Recife não é tão longe, afinal de contas. Chegamos de táxi no Donana. Este é um bar para lésbicas, pequeno, que vive lotado, com poucas mesas de jardim na área externa, e muito menos espaço na parte interna porque o palco onde se toca MPB e pagode em dias alternados ocupa muito espaço. Apesar dele focar num público feminino, são homens gays que ocupam a maior parte das mesas em grupos grandes e ecléticos. Vemos ali meninos muito humildes, comprando cervejas nas promoções, e homens dando gorjetas gordas para os garçons, são pessoas muito diferentes que se encontram protegidos sob o mesmo teto. Mas naquela noite, de chuva, e com uma festa do Disponível.com acontecendo em um novo bar que abriu na cidade, o in Bare, só tinha alguns gatos pingados por ali. Havia mesas disponíveis no lado de fora (coisa que nunca acontece se você não chega as 19h), quase ninguém ouvindo a banda no interior. Sentamos do lado de fora, cada um de um lado da mesa redonda, entre três mesas cheias com rapazes bonitos, conversando animados, bebendo cervejas e fumando Free.
Estávamos entretidos conversando sobre nossas vidas, sobre o Gato, sobre trabalho, quando eu notei que éramos observados da mesa a nossa esquerda. Eram dois, um menino magro, usando uma camisa de onça e um short curto, efeminado e fumando como uma mademoiselle; o outro, um garoto de barba, cara de safado e uma bela bunda, que olhava sob as sobrancelhas e sorria para mim. Notei, no entanto, que eles acreditavam que eu e o Ariano éramos namorados, mas isso não impediu que o primeiro paquerasse o Ariano, e o segundo me seguisse até o banheiro. O sorriso dele era de verdade intoxicante, ele me olhava nos olhos também com uma malícia que era sedutora, de fato. Mas eu apenas sorri quando ele me olhava através do espelho, atrás de mim, no banheiro, e voltei a mesa. E, com certeza, meu sorriso no banheiro foi para ele uma certeza de que podia dar em cima de mim a vontade e que eu estava disposto a trair meu namorado. Quando retornei ao banheiro, ele não demorou para estar lá novamente. 
Puxou-me pela cintura, e me beijou. E eu correspondi, afinal de contas um copo d'água, um beijo na boca e um boquete não se nega a ninguém. E foi um beijo cheio de desejo, de vontade, de excitação. Ele logo ficou inclusive de pau duro enquanto me beijava e eu apertava-lhe a bunda linda que ele tinha sob a bermuda jeans. E gemia enquanto eu apertava aquelas nádegas macias e a vontade de comê-lo ali mesmo surgiu, não vou negar. Ele se apresentou, Henrique, e não acertou meu nome de primeiro. Novamente beijou-me com intensidade, mordiscando meu lábio inferior, e voltou a mesa em que estava com amigos. Quando voltei, e sentei com o Ariano, ele afirmou que outro havia dado em cima dele assim que o de barba tinha levantado para falar ir atrás de mim. Qual era o problema desses dois caras?, era a única coisa que eu podia imaginar, mas o Ariano estava se divertindo. Primeiro porque ele queria me ver ficar com alguém e romper meu celibato auto-imposto, mas também porque ele queria ficar com o outro também. Foi quando ele se levantou para ir ao banheiro, e o rapaz de barba levantou-se e veio até a mesa conversar comigo.
"Quero ficar com você, como isso pode acontecer?". Eu sorri. "Você pode sentar aqui e nós podemos ficar, ora...". Ele sorriu, acendendo um cigarro. "E seu namorado?". Por um segundo passou-se pela minha cabeça que devia manter a fantasia dele, mas eu quis apostar que ele possuía objetivos mais elevados do que, simplesmente, provar que era tão mais gostoso e esperto que faria um homem que tem namorado trair o mesmo para ficar com ele. "Eu não tenho namorado, ele é apenas meu amigo!". O sorriso dele se desfez. Ele apenas virou-se nos calcanhares e foi embora, voltando aos amigos dele. Eu me servi de cerveja, nenhum pouco surpreso com a atuação daquele menino tão gostoso, mas admito que um pouco triste, mas do que deveria por alguém que com certeza não valia nada. Afinal eu estou em Natal, não é?


terça-feira, 5 de agosto de 2014

Feliz Natal!

, em Natal - RN, Brasil
Foxx: Parabéns pelo namoro, moço, desejo toda felicidade do mundo, de verdade.
Léo: Own! Obrigado, Lê! De coração! Tudo bem contigo?
Foxx: Tudo normal, querido. Como sempre. Sem nenhuma novidade. Mas que bom que você encontrou alguém hein?
Léo: Não é? Nessa cidade que a gente vive? Era uma frustração só. Eu sou drag, não sei se você sabe?
Foxx: Sim, eu sei sim.
Léo: Então, eu não me monto com frequência, mas sempre que possível eu faço o que amo, que é uma arte tão criticada entre os próprios gays e tudo o mais. Conheci uns poucos garotos ultimamente, mas quando contava... eles meio que arranjavam uma desculpa e acabavam. Não sabe como foi horrível, até pensar em deixar de fazer isso eu pensei. Mas porque deixar de fazer algo que amo porque as pessoas pensam isso ou aquilo à respeito?
Foxx: Com certeza!
Léo: Então eu só tenho um conselho p'ra te falar: se não gostam ou não estão satisfeitos com você por N motivos, passe a AMAR esses N motivos que existem em você. "SE" aceitar  é o mais difícil, mas não é impossível.
Foxx: Com certeza. Você tem toda razão!
Léo: OMG... essa cidade é podre. Deixa te dar outro exemplo meu: minha calvície! Eu já deixei de sair de casa por conta dela. Depois parei p'ra pensar e tipo "p'ra quê, gente?". 'TÔ POUCO ME LIXANDO se minha calvície ou se meu corpo não escultural agrada ou não alguém. 
Foxx: Muito bem, você está certíssimo! É assim mesmo! Mas isso não muda que esta cidade é uma bosta não é?
Léo: Não, Natal não é uma bosta. Mas os natalenses, PUTA QUE O PARIU!!!

sexta-feira, 21 de março de 2014

Incentivo Materno

, em Natal - RN, Brasil
Eu cheguei a casa dos meus pais para almoçar com eles. Era um dia de semana e trabalhar em casa me permite tais luxos. Eu encontrei minha mãe na cozinha, enquanto eu colocava um copo d'água gelada para mim, ela me interpelou:
- Foxx, com que você trabalha mesmo?
Eu ri.
- Já te disse umas três vezes que fui contratado para editar um livro...
- Mas e depois? O que você pensa em fazer quando esse contrato acabar?
Eu pensei um pouco. E respondi sinceramente:
- Eu não sei.
Ela me olhou como quem enfrenta um quebra-cabeças de mil peças. Respirou fundo e, após um suspiro, continuou:
- Você parece que morreu desde que voltou. Onde está aquele Foxx que dizia que ia fazer, que se jogava para aprender, que encarava qualquer desafio? Onde ele está? Parece até que está morto.
E virou-se para as panelas. Minha mãe queria me dar um incentivo tentando atiçar meu orgulho, queria que eu provasse para ela que está enganada. Mas ela não está. O filho que ela estava descrevendo realmente está morto. Morto e enterrado sobre uma pilha de sonhos. E eu realmente não tenho a mínima ideia do que farei daqui a um mês quando este contrato acabar, porque a questão não é procurar emprego, é qual emprego eu vou procurar, sem sonhos eu não sei mais o que desejo fazer.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Bang Bang

, em Natal - RN, Brasil



Saímos juntos pela primeira vez numa terça-feira à noite. Nós três cantamos no mesmo coro. Eles cantam no naipe dos baixos, eu não diria que são os únicos baixos gays do planeta, mas com certeza isso é bem raro. Sentamos em um bar de mesas de plástico em torno de um cajueiro em uma rua movimentada de Neópolis. Falávamos sobre música, cerveja, namoros e decoração. Ríamos de besteiras e esquecíamos de problemas. Era bom sair com novas pessoas, eu preciso mesmo refazer meu grupo de amigos já que os antigos se afastaram e os novos são (pela idade mesmo) novos demais. Brindamos a isso: novos amigos.
Estávamos então distraídos quando um homem se levantou na mesa ao lado. "Está acontecendo uma assalto no bar ao lado", disse. Havia um outro bar alguns metros adiante abarrotado de mesas douradas também de plástico. Um motoqueiro apontava uma arma em direção aos clientes. Foi quando o homem que se ergueu sacou também sua arma. O amigo dele que estava sentado ali já havia corrido para o outro bar e gritava para o motoqueiro: "Parado, polícia!". O primeiro tiro foi disparado pelo ladrão. Todos correram do bar que eu estava. Havia, inclusive, um casal com uma criança pequena. Os policiais responderam os tiros. Três ou quatro disparos já havia sido feitos quando percebi que eu havia corrido também e que, por milagre, havia lembrado de pegar minha bolsa que estava no chão.
Via as pessoas correndo sem rumo, eu sabia, no entanto, que tinha que colocar algo entre mim e os disparos que continuavam. Entrei então no banheiro feminino, atrás de mim vieram meus amigos baixo e barítono, um casal (gay) de namorados e uma moça. As balas continuavam lá fora e a porta de madeira foi fechada com o ferrolho de metal. Um dos meninos gays sentou no vaso sanitário e se apegou com Deus em orações, o namorado tentava acalmá-lo com uma mão em seu ombro. Eu vi que havia um cigarro aceso na minha mão que resolvi apagar para não incomodar ninguém.
Os disparos do lado de fora cessaram e um silêncio tenso se instalou. Foi meu amigo baixo que abriu a porta, o menino que rezava, apavorado, pedia que perguntássemos se tudo tinha terminado. Saimos, o baixo me perguntou: "Pedimos a conta?". Eu respondi procurando minha carteira já. "Ainda tem mais da metade da cerveja na garrafa que está na mesa, mas podemos pedir a conta...". O baixo riu então e falou que deveríamos, portanto, terminar a cerveja e se acalmar antes de sair. Sentamos novamente, enchemos nossos copos e comentamos sobre o ocorrido e, logo, a rua estava apinhada de curiosos e três ou quatro viaturas. "Olha, eu acho que não precisamos sair daqui não, hoje, agora, não existe lugar mais seguro em Natal".

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Sentenças

, em Natal - RN, Brasil


Eu estava sentado no batente da porta da sala de um amigo, a porta que dava para o pátio da vila em que ele mora em Ponta Negra. Da janela dele era possível ver o mar verde de Natal até onde ele toca o horizonte. O dono da casa estava sentado à mesa do outro lado da sala, um outro amigo estava sentado no lado oposto aquela távola redonda. Foi este que puxou a conversa:
- Entre vocês, gays, têm algum problema se o namorado ficar com uma mulher?
O dono da casa respondeu:
- Olha, comigo, traição é traição. Pouco importa se com homem ou com mulher. Não muda em nada o fato de que ele me traiu.
Eu respondi em seguida:
- Comigo depende. Depende do contrato da relação. Porque se nós combinamos que não haveria outras pessoas na relação isso deveria ser respeitado, porém, p'ra mim, eu não exigira que um namorado meu não ficasse com nenhuma outra pessoa. Fidelidade e exclusividade para mim não são importantes.
Eles me olhavam curiosos neste ponto. Então eu continuei.
- Eu teria facilmente um relacionamento aberto. O que eu exigira, com certeza, seria lealdade, que, por exemplo, caso acontecesse algo com outra pessoa ela me contasse e não mentisse para mim, porque eu vejo que uma base muito mais interessante para um relacionamento não seria a fidelidade, mas a lealdade. E lealdade é diferente de fidelidade.
- De fato, não é a mesma coisa.
Concordou o dono da casa.
- Cada cabeça uma sentença, não é?
Encerrou o outro.