terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

ESPECIAL SÃO VALENTIM: Caça-Niqueis

, em Natal - RN
O Dia de São Valentim está chegando e eu vou fazer um especial em homenagem ao dia dos namorados. Falarei sobre como eu vejo o amor, de minhas teorias, sonhos e desejos, de como vejo esse sentimento tão distante de mim. Este é o primeiro, espero que gostem. 


Eu tenho uma teoria sobre o amor. Sobre relacionamentos amorosos. Apesar de não ter quase nenhuma experiência, eu observo bastante. Bem, eu primeiramente acredito que namoros que dão errado não são namoros ruins. Eu penso o seguinte: você só encontrará o seu "príncipe" uma vez na vida, não é? Você vai encontrar o cara certo uma vez, e ficar com ele para sempre. Não é assim que conta os contos de fadas? Pois bem, se você vai encontrar esse cara apenas uma vez na sua vida, é óbvio que todos os outros que você encontrar antes dele e acabaram é porque não eram o cara certo para você. Então, dica da raposa número 1: terminou seu relacionamento, eu sei que dói, mas é porque ele não era o cara certo para você, porque o The one vai ficar com você. Então aquele cara pelo qual você está morrendo não é o amor de sua vida, afinal, ele te deixou. Dica número 2: Se você tem o dedo meio podre e anda escolhendo apenas sapos e não príncipes, relaxa, porque uma hora você vai acertar e sim encontrar o cara certo. Cada sapo te prepara para o futuro príncipe. Mas ai você me pergunta: por que eu tenho tanta certeza? Essa é a teoria de qual eu falava.
Acredito que para alguém ser feliz no amor ele precisa encontrar uma combinação de três coisas: amar + ser amado + romance. Quando esses três elementos são satisfeitos, o relacionamento caminha feliz. O que quero dizer com isso. Duas pessoas só são infelizes num relacionamento se uma não ama a outra, não é? Se há amor entre elas, não existe motivo para que o relacionamento não flua a contento. Apesar que há um terceiro impedimento, às vezes, por mais que duas pessoas se amem, elas não conseguem ficar juntas, o relacionamento em si entre aquelas pessoas não funciona por N motivos. Então, eu acredito que uma hora as pessoas terão seus contos de fadas realizados por que, como num caça-níqueis, cada vez que você encontra uma pessoa nova você puxa o braço da máquina e ela rola, às vezes você vai encontrar amar (você se apaixona pelo cara) - limão (ele não se apaixona) - romance (não sei por cargas d'água ele resolve te namorar mesmo assim), qual o resultado disso: merda! Pelo menos em determinado momento porque uma hora ele vai te dar um fora e você vai estar muito apaixonado, concordam?
Outro cenário, você conhece alguém ai e puxa o braço da máquina, resultado: amar - ser amado (dessa vez ele também se apaixona por você) - limão (por algum motivo vocês não podem ficar juntos). Daí você fica conversando horas e horas pelo MSN, quem nunca? Ou um terceiro cenário: limão - ser amado - romance, e ai quem se fode é ele, o outro, porque você vai lá namora-lo só para não ficar sozinho e acaba magoando o pobre do rapaz. Também temos os relacionamentos platônicos: amar - limão - limão, quando você se apaixona e não é correspondido, e limão - ser amado - limão, quando ele se apaixona e não é correspondido. Várias combinações, não é?
Aí sim, eu acredito, que é apenas uma questão de tempo até você encontrar alguém, entre os milhares de sapos que eu falei anteriormente, puxar o braço da máquina e finalmente três corações aparecerem na tela: amar - ser amado - romance. A sorte lhe sorri, inevitavelmente. Acredito, firmemente, que quanto mais oportunidades você tem para colocar a máquina de caça-niqueis em movimento, quanto mais moedas de vinte-e-cinco centavos você tiver (seu investimento pessoal) e mais chances de ir ao cassino (mais pessoas conhecer), melhores chances você terá de ter um resultado perfeito e ganhar o grande prêmio, a felicidade tão almejada. O que, definitivamente, é o meu problema, eu já acabei todas as minhas moedas e os únicos resultados que obtive ate hoje foram amar - limão - limão e amar - ser amado - limão (é, por mais incrível que pareça eu já fui amado uma vez sim, pena que não era possível ficarmos juntos dado a geografia), acho que meu caça-niqueis está quebrado ou viciado para não permitir que ninguém ganhe nele nunca. 


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Pulsos

, em Natal - RN, Brasil
Estou aqui sentado, nu, embaixo do chuveiro, a água atinge minha nuca e escorre pelas minhas costas, abraço meus joelhos e penso como seria bom se algum daqueles azulejos tivesse uma ponta, cortar os pulsos seria uma boa saída agora. Lembro da música da Pitty agora e cantarolo. "E um dia se atreveu a olhar pro alto, tinha um céu, mas não era azul. No cansaço de tentar, quis desistir, se é coragem eu não sei". Lembro de como tentei até agora, como lutei para alcançar os sonhos que eu tinha. Tapo os ouvidos, mas as palavras da minha mãe estão no meu coração: "Por mim você tinha feito engenharia, mas você quis fazer história então agora tem que arcar com a responsabilidade". A água fria cai no meu corpo e eu olho para os meus pulsos, e lembro que acabei de chegar de Campina Grande aonde fui fazer um concurso que não passei. "E um dia decidiu, quis terminar, só mais um gole e duas linhas horizontais". Seria tão fácil, mas fácil do que voltar em todas as escolas que já deixei currículo e ouvir novamente que não há vagas, ou pior, ouvir que tenho formação demais. "Desculpa, seria ótimo, mas eu não posso pagar um doutor". Poderia finalmente descansar sabe? Fechar os olhos e finalmente sentir-se aliviado porque não tenho que acordar amanhã e enfrentar isso tudo de novo. Ficaria ali embaixo com a água escorrendo pelo ralo que fede a baratas até alguém vir reclamar que estou gastando água demais. Demoraria, com certeza, o bastante para a água levar todo sangue. "Sem a menor pressa, calculadamente, depois do erro a redenção". Mas eu acabo levantando e esfrego o corpo com aquele sabonete de perfume pobre, lavo os cabelos com ele também porque xampu é um luxo que eu não me dou mais. Depois volto para debaixo da água e espero encarecidamente que ela lave até a minha alma. "Tenta achar que não é assim tão mal, exercita a paciência. Guarda os pulsos pro final, saída de emergência".


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Àqueles Que Consolam

, em Natal - RN, Brasil
Como tenho passado por uma fase extremamente ruim na minha vida nos últimos anos, muitas pessoas na sua mais intensa bondade tem vindo me consolar, o que agradeço de coração, porém eu não entendo a causa, motivo, razão ou circunstância que faz com que a maioria dessas pessoas utilize um único texto, em suas mais variadas versões, mais que sempre diz que neste mundo de sete bilhões de habitantes existem pessoas com sofrimentos muito maiores e mais graves que os meus. Tem aqueles que desembrulham pessoas acometidas de doenças graves ou que tem más formações físicas, o argumento é: "mas pelo menos você ainda tem saúde". Tem os que jogam na minha cara o fato de eu ainda ter uma família e um teto para viver, e citam as crianças de rua que moram na Candelária no Rio de Janeiro. Tem também os antenados ao mundo pop e fãs do Brangelina que lembram das crianças pobres da África. Mas sempre que me perguntam se eu "não tenho vergonha" de sofrer por tão pouco dado o sofrimento tão maior dessas outras pessoas.
Minha duvida, na verdade, quando falam isso é porque eu deveria me sentir bem com o sofrimento de outras pessoas. Quando eu sei que alguém está doente, isso não me faz sentir melhor em relação aos meus problemas, não penso: "ai, que bom que não sou eu", eu, pelo contrário, compartilho do sofrimento daquela pessoa, do mal que a aflige; quando eu lembro que crianças vivem sem família, eu não me felicito por, apesar de ter uma família ruim, ter uma família, não! A minha dor soma-se a dor dessas crianças que não tem famílias. Minha dor se amplia somada a deles. Quando meus pequenos problemas tomam proporções ridículas comparadas a guerra e a fome em diversos países do mundo, eu penso o quanto esse mundo é injusto, e não agradeço a Deus por ter escapado da mesma sina que uma criança somáli, eu me culpo por não poder ajuda-la mais. Isto, chama-se empatia. Do grego empátheia, paixão, substantivo feminino, forma de identificação intelectual ou afetiva de um sujeito com outra pessoa, uma ideia ou uma coisa.
Questiono então o porquê das pessoas não sentirem a mesma empatia que eu. A primeira ideia que me vem a cabeça é a de um ranking da felicidade. Citando uma conversa com o Cara Comum ele diz:  "Eu realmente acho que para algumas pessoas (...) saber que outras pessoas estão piores faz bem. São pessoas que não se preocupam com a própria felicidade nem com o que são, mas com o que APARENTAM num "ranking de felicidade". Saber que elas não estão em último é algo que as deixa melhor. É triste, mas existe gente assim". Neste caso, a preocupação deste consolador seria apenas que você reconhecesse que está em certo ponto da hierarquia e valorize o que tem até ai. 
Por um lado é bom, ele vai argumentar que você tem tantas coisas boas na sua própria vida que outros não tem, porém o problema está exatamente ai, este tipo de consolador é o que se prende ao verbo TER. Ele equilibra e balanceia todas as suas posses (materiais ou não) para te colocar no certo ponto em que você deveria ou não se sentir feliz. Este tipo de consolador na verdade é uma pessoa invejosa, o tipo que tenta derrubar aquele que está acima dela na hierarquia social. É o que destrói namoros porque está sozinho, mas também é o que cita namoros fracassados para provar que está melhor sozinho, como disse o Cara Comum.
Também é uma situação conformista porque ela não pretende modificar nada. Como disse-me a @vannessalopes no twitter, "se fulano está pior do que eu, então eu me conformo com a minha posição". Ela também afirma que trazer uma terceira pessoa no momento em que você consola alguém só funciona se a pessoa superou o mesmo problema ou algo muito parecido que aquele que você está tentando ajudar. "Porque pelo menos estimula a pessoa a reagir". 
Outra explicação que apareceu com as pessoas que conversei no grupo Os Caras do Facebook. O @joaomarcelo3dg chamou atenção para algo que é realmente importante. Alguém que está consolando pode estar tentando somente mostrar ao consolado que seus motivos são fúteis, que o problema não é tão grande. Pode está dando parâmetros para que ele mensure sua dor. No entanto, concordamos que isto não deve ser feito comparando alhos com bugalhos, uma dor de amor não pode ser comparado a um câncer de próstata, uma dor de amor não pode ser comparada as crianças da África. Mas sobretudo, ele pergunta: "Então o sentimento da gente deve se restringir aos problemas sociais e saúde do mundo?". Não podemos sofrer por nossas dores particulares? No twitter, o @TomFirmino afirma que o que questiono aqui, para ele, "é mera maneira de te fazer ter vergonha de estar pra baixo, disfarçada de consolo". Ele associa isso a famosa ditadura da felicidade que é imposta a todos, onde o que importa não é ser feliz, é parecer feliz inclusive para seus amigos. 
Por fim, eu encerro com um comentário do @joaomarcelo3dg: "De repente [as pessoas fazem este tipo de comentário] porque não gostam de ver que uma pessoa querida está abatida, ou então porque não aguenta mais lamentações e diz isso para encerrar a conversa". Minha pergunta final é: que espécie de amigos são esses que se enchem dos problemas de um amigo? Que espécie de amigos são esses?!



segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Índia: Os Vinte Tipos de Panda

, em Natal - RN, Brasil
Os Narada Smriti, textos escritos por volta de 400 a.C., listam vinte tipos de panda, isto é, homens que são impotentes com as mulheres.  A impotência masculina poderia, diz o texto, ser física, psicológica ou porque o homem não deseja as mulheres, e em qualquer um destes casos, estes homens deveriam ser preteridos pelas mulheres que procuravam um casamento. O teste para reconhecer se um homem era impotente devia ser realizado por uma mulher que devia tocar-lhe o pênis, se o órgão sexual não respondesse aos estímulos provocados por ela, este homem não deveria ser apto a casamento. Lista-se nos textos vinte tipos de panda, destes dezesseis se relacionam ao homoerotismo.
O primeiro tipo, e o mais comum tipo que aparecer nos textos védicos são os Napumsaka ou Napums, esta palavra se refere aqueles que não são "completamente homens" e descreve tipicamente homens que são efeminados ou dos quais se questiona a masculinidade. Os comentários modernos dos Vedas inclusive têm identificado os homossexuais diretamente com os Napumsaka. O segundo tipo que podemos comentar é o Mukhebhaga. Este é descrito como aquele que usa sua boca (mukhe) para receber o pênis, exatamente como a mulher utiliza sua vagina (bhaga). Isto refere-se diretamente ao homem que participar de atos sexuais com outros homens e que dedica-se ao sexo oral. Alguns comentadores modernos do texto têm proposto recentemente que esta palavra na verdade se refere aos homens que se dedicam unicamente ao sexo oral, de qualquer forma, isto é, com homens e mulheres, o Narada Smriti (12.15) declara que estes homens são incuráveis e que nunca abandonarão suas práticas.
O terceiro e o quarto também são citados pelo Sushruta Samhita, um conjunto de textos médicos escritos em 600 a.C., o primeiro citado é o Asekya (3.2.38). Este é descrito como o homem que engole o sêmem de outro homem. O Smriti Ratnavali ainda usa a palavra "devotar-se" para descrever o intenso desejo que estes homens mantém por esta prática, e segundo os textos médicos do Sushruta Samhita isto seria causado pela deficiência do potência masculina durante a gestação do feto. O quarto tipo também mencionado nos textos médicos do Sushruta é o Kumbhika. Esta palavra refere-se aqueles que usam suas nádegas (kumbha) para receber o pênis, ou seja, refere-se diretamente aos homens que têm comportamento passivo durante as relações sexuais homoeróticas, mas os comentadores modernos têm reconhecido esta palavra como se referindo aqueles que se relacionam apenas através de sexo anal, tanto com homens como com mulheres, ou seja, também aqueles que são ativos na relação sexual, porém preferem o sexo anal. 
Além destes panda, podemos também citar os Anyapati, os quais os comentadores modernos interpretam como algum homem que podia estar intensamente apaixonado por um outro homem ou por uma mulher, e ao estar apaixonado sua potência amorosa era então direcionada apenas para o objeto do seu amor. Neste caso, os Anyapati não são considerados incuráveis e ainda são indicados como "bons para casar" pelo Narada Smriti (12.18). Da mesma forma, os Paksa são homens que são considerados "meio potentes" (às vezes potente e às vezes não), a palavra pode se referir aqueles que são potentes às vezes com homens e às vezes com mulheres, e mais raramente ela pode ser entendida como alguém que às vezes tem sua potência sexual intacta, e às vezes não. No caso destes, o Narada Smriti (12.14) indica que este homem seja colocado por um mês em teste, se ele neste período demonstrar-se impotente alguma vez, ele não deve ser desposado por mulher nenhuma. Também podemos falar dos Sevyaka, os quais teriam se tornado impotentes por causa do excesso de sexo com mulheres, mas também referia-se aos homens que haviam cansado das mulheres e se dedicavam agora ao sexo com homens, e muitos tradutores modernos inclusive tem traduzido a palavra como algo muito próximo do que chamamos de homossexual. O Sushrata Samhita chama estes de Saugandhika. O caso dos Sevyaka era considerado pelo Narada Smriti (12.15) como incurável também.
Outro tipo é o Moghabiha que se torna impotente quando ele tenta se unir a uma mulher. Os textos védicos afirma que isto pode acontecer por fatores psicológicos, como uma excessiva timidez (e neste caso o chamam de Salina), mas que normalmente acontece porque este homem secretamente deseja outros homens. No caso de sua impotência ser causada por fatores psicológicos, às mulheres é indicado pelo Narada Smriti que deem-lhe uma chance por um ano (12.16), se ela não conseguir unir-se a ele após um ano deve abandona-lo (12.17).
O décimo-primeiro tipo de panda seria o Sandha. Na literatura védica este termo designa um terceiro gênero. Homens que são "meio homens, meio mulheres". No Sushruta Samhita (3.2.42) e no texto do século XIV, Vacaspati, diz que estes falam, andam, riem e tem outros comportamentos como as mulheres. Este texto do século XIV ainda afirma que eles eram castrados e eram considerados "mulheres sem vagina". O mesmo significado tem a palavra Kliba ou Klibaka, mas esta palavra também servia para designar homens fracos, covardes, não masculinos, efeminados, de masculinidade questionável, ou seja, basicamente um xingamento. Por fim, também temos os Baddha e Vadhri, dois tipos de terceiro gênero, estes são homens sem testículos ou cujos testículos foram retirados, segundo o Narada Smriti (12.14), mas que mantinham o pênis com suas funções ainda. 
Para encerrar, os Nastriya referem-se a mulheres que não são completamente femininas. Com frequência descrevem aquelas mulheres que são inférteis, porém é mas comum referir-se a lésbicas que são muito masculinas ou mulheres transgêneros que se tornaram homens, isto é, "homens sem pênis". Quatro tipos básicos são mencionados nos textos védicos: 1) Mulheres que não mestruam; 2) Homens sem pênis; 3) Mulheres com orgãos sexuais tanto masculinos quanto femininos; e 4) Mulheres que se comportam como homens. Também é interessante notar que entre os panda também se incluí as Svairini. Esta palavra é um termo comum, no Kama Shastra para referir-se a mulheres homossexuais, mas também pode referir-se a mulheres consideradas independentes demais. O Narada Smriti (12.49-52) menciona quatro tipos: 1) A esposa que deixa o marido; 2) A viúva que abandona sua família; 3) A estrangeira ou escrava, e 4) a mulher que foi estuprada. A pergunta final é: então as mulheres indianas podiam escolher casar com uma mulher também, já que os conselhos para um bom casamento incluem evitar estas mulheres ou o texto está apenas dando um conselho para que elas não sejam uma svairini também? Como meu conhecimento de sânscrito é negativo, eu convido alguém ai a pesquisar isso.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Familiam Matrem

, em Natal - RN, Brasil
Minha mãe é uma reclamadora. Ela reclama compulsivamente de tudo, mas não pretende mudar. Ela reclama que meu pai não faz nada em casa para ajuda-la nas tarefas domésticas, mas ela coloca o prato dele quando ele vai almoçar e separa a roupa dele para ele tomar banho. Mas o problema com meu pai não é o fato dela reclamar, é dela servi-lo. E ela foi criada para isso. Repete todos os dias que casamento é para sempre e que o lugar da mulher é com seu marido. Minha mãe é machista. Machista de um jeito que acredita que o homem tem o direito de separar-se de uma mulher que não serve o almoço de seu marido e que não lava as suas cuecas. Paradoxalmente, ela ensinou a meu irmão e a mim a cozinhar e a lavarmos nossas cuecas. Fomos, nós dois, criados como meninas? 
Minha mãe é uma boa mulher, caridosa e trabalhadora. Ela junta material reciclável para doar a instituições de caridades o dinheiro que consegue os vendendo. Diz que faz o trabalho do Senhor. É, minha mãe é bastante cristã, católica para ser mais preciso. Frequenta a Igreja pelo menos duas vezes por semana, mas não comunga fazem três anos. Ela reclama que não tem tempo para ir se confessar, eu digo que ela pode se confessar sozinha diretamente a Deus, mas ela não escuta. Na verdade, qualquer comentário ou conselho que sejam dados por mim são respondidos por minha mãe com uma bufada e uma expressão de "o que essa criança pensa que sabe?". Faz tempo que eu desisti de dar conselhos, então, e emitir opiniões.
Mas minha mãe é uma excelente professora. Aluna de uma escola normal, normalista, orgulha-se de lembrar-se de como ela era bonita na época em que vestia o uniforme de normalista quando saiu da fazenda dos pais em Ceará-Mirim e veio para a capital estudar para se tornar professora. E ela é muito boa no que faz. Trabalhou com alfabetização sua vida toda, e me inspiro nela sempre que penso no meu trabalho como professor, é sem sombra de dúvida por causa da minha mãe que me tomei este caminho profissional. Lembro um dia, que ela me levava para a escola dominical, para a catequização, e ela esquecera de comprar um caderno para mim, ela passou em uma loja e conversou com o dono do estabelecimento que não queria vender-lhe fiado, ela também esquecera de trazer dinheiro, foi quando ela comentou: "Meu caro senhor, eu vou trazer o seu dinheiro", neste momento a esposa do dono apareceu no balcão e a reconheceu. "Homem, ela é a professora do teu filho! Faça essa venda!". Eu lembro como se fosse ontem de que o homem cobriu-se de vergonha e escolheu os melhores cadernos e lápis e me deu, dizendo a minha mãe, "Não precisa pagar, é claro que não precisa pagar!". Minha mãe não quis aceitar, insistiu que passaria sem pagar, mas aquilo ficou marcado em minha mente de criança. O respeito que aquele homem tinha pela professora de seus filhos.
No fundo, minha mãe é realmente uma boa mulher. Ela só não consegue demonstrar. Ela não sabe como demonstrar carinho, por exemplo, sofre para dizer que ama, e abraça e beija com dificuldade, nota-se que ela se sente constrangida, sobretudo se for na presença de alguém. A primeira vez que ela me disse que me amava foi só depois que eu voltei para Natal, após seis meses morando em Belo Horizonte. Ela também tem preconceitos arraigados, sobretudo homofóbicos. Noveleira, ela não consegue entender o que "esses gay" estão fazendo nas novelas, e pragueja quando os vê terminando bem. Reclama que o mundo está perdido. Ela também os trata mal quando os encontra pessoalmente. Xinga-os quando eles viram as costas, e ela cobra de mim uma esposa sempre. 
Minha mãe pede uma boa esposa cristã. Eu respondo que ela desista deste sonho porque eu nunca vou me casar. Ela reclama sempre dizendo que eu não posso fazer isso. Ela sempre diz pra mim, agora que cheguei aos trinta anos que ninguém deve viver sozinho, que é triste! E que todos tem que ter sua família! Ela repete isso constantemente. Sua frase para mim: "Se você for gay será a maior decepção que você me dará na vida".

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Familiam Patris

, em Natal - RN, Brasil
O meu querido Antônio de Castro fez uma pergunta no post anterior que merece mais que um comentário. Ele perguntou: 

off-topic: eu fico tão confuso quando vc fala dos seus pais.
eles são tudo isso que vc pinta mesmo? tem certeza? ou é uma distorção de momento?


Então eu, como para responder preciso apresentar meus pais a vocês, resolvi apresentar cada membro de minha família aqui, para vocês entenderem com quem eu convivo. Começarei pelo meu pai, por ordem de idade mesmo. Ele é um homem de 72 anos muito amargurado. Capricorniano, meu pai tem um gênio difícil de suportar. Ele é ditador e explode com uma facilidade imensa quando é contrariado.  Rancoroso, ele nunca perdoa e também dá muito valor a um conceito de honra que apenas ele tem, afinal ele não diferencia honra de orgulho. E seu orgulho é desmedido. Precisa sempre ter as roupas mais caras, os carros maiores, as casas mais espetaculares, ou pelo menos que aparentem ser mais caras, maiores e mais espetaculares, porque o que mais importa para meu pai é aparência. Ele é preconceituoso: homofóbico, racista e anti-semita. E ignora que sua mãe é negra e nossa família cristã-nova. 
Ele também é um pseudo-intelectual. Pois, como meu pai vive de aparências, sua intelectualidade é construída na base de uma aparência. Ele montou um personagem de homem revolucionário para os seus colegas de trabalho, aquele que lê Marx e recita Engels, mas devota sua vida a Trotsky, porém ele realmente não acredita em nenhuma palavra do comunismo e nunca abriria mão de nada dele para ajudar um próximo. Na verdade, ele expulsa mendigos da porta de casa quando eles aparecem chamando-os de vagabundos. Eu também nunca o vi abrir qualquer livro, mas ele sempre participava de reuniões de partidos de esquerda. 
É também um homem frio. Meu pai aprendeu com o seu que homem não demonstra sentimentos, então ele nunca demonstrou qualquer carinho por mim ou por qualquer um dos meus irmãos, na verdade, sua participação na nossa educação foi apenas na repressão. Ele era o responsável pelas surras de mangueira que deixavam marcas na minhas costas curadas com banhos frios. Eu apanhei quando me saí mal em matemática, pela primeira vez, na sexta série e apesar dele ser pedagogo e especializado em educação matemática, nunca passou pela cabeça dele que eu precisava de alguém que me explicasse a matéria, não de alguém que me batesse. 
Meu pai não bebe, e considera que aqueles que o fazem tem uma falta de caráter. Ele julga as pessoas a todo tempo e quando soube que Ivete Sangalo havia contraído meningite disse que isso era culpa da vida promíscua que ela levava. Meu pai não tem amigos e é extremamente ciumento com todos dentro desta casa. Minha mãe teve que se afastar de sua família porque ele não queria que ela saísse com outras pessoas além dele. E o mesmo se dá comigo e meus irmãos. A maior crítica que ele nos faz, o tempo todo, é o fato de termos amigos, de termos uma vida além da sombra da asa dele, mas não é porque ele se preocupe, é porque ele tenta nos dominar. Seu primeiro casamento terminou muito mal por causa de ciúmes.
Ele afirma que quem joga capoeira é malandro, quem usa tatuagens é bandido, quem usa piercings é índio e quem usa brinco é viado. Às vezes acho que ele tem algum problema de T.O.C. já que ele sempre faz os mesmos caminhos e detesta mudanças. Ele não viaja nunca porque acha perda de tempo, mas eu tenho absoluta certeza que ele não o faz por medo de se deparar com realidades novas para ele. Ele detesta conhecer pessoas novas, mas finge como ninguém uma simpatia quando encontra um conhecido, para depois resmungar. Quem o conhece sem muita intimidade o considera uma pessoa agradabilíssima. 
E agora eu estou tentando encontrar alguma característica que eu admire em meu pai para listar aqui, mas ela não existe. Sua frase para mim: "Se você é, pelo menos não precisa aparentar".

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Direito de Resposta

, em Natal - RN, Brasil
Caro Bento XVI,

eu soube, por meio da internet, que Vossa Santidade havia dito em uma reunião com diplomatas de 180 países que o casamento gay "ameaçaria o futuro da humanidade", essa pelo menos foi a expressão que a maioria dos sites ficou repetindo sem nem contextualizar o discurso, não que o contexto salvasse algo, mas eu repito para Vossa Santidade. As crianças, o futuro da humanidade (e acho que nenhum dos seus críticos percebeu que é disso que o Santíssimo Padre estava falando), deveriam ser criadas em ambientes adequados e estes ambientes seriam o seio familiar, o qual só poderiam ser formados por um homem e uma mulher. Dissestes que os Estados são os responsáveis por manter estes ambientes saudáveis, mantendo a família como, um dos seus mais fieis seguidores que eu conheço já me disse, intocada como a mais de dois mil anos.  Vós dissestes ainda, Santíssimo: "A unidade familiar é fundamental para o processo educacional e para o desenvolvimento dos indivíduos e Estados; daí a necessidade de políticas que promovam a família e auxiliem na coesão social e no diálogo". Vossa preocupação, Santo Padre, é realmente louvável!
Aí eu lembrei, Santo Padre, da minha família. Dos pais que eu tive que me surraram e me xingaram, que nunca me fizeram sentir amado e acolhido, pais estes que - obviamente por pura ignorância - me fizeram acreditar que eu não merecia o amor. Também lembrei dos irmãos que tive, do quanto eles me humilharam por eu ser diferente, de todas as vezes que eles disseram claramente que não queriam que eu fosse irmão deles. Também lembrei de como foi dentro de casa que eu sofri a pior ameaça homofóbica que moldou todo o meu futuro a partir dali, o dia que meu irmão virou-se para mim e me ameaçou de morte. Esta era a minha família. Como dissestes Vossa Santidade, eu concordo, uma criança merece crescer em um ambiente saudável. 
E eu prometo, Santo Padre, se um dia o bom Deus permitir que eu case, apesar do meu casamento também ser um dos terríveis casamentos gays, eu prometo, de verdade, que protegerei o futuro da humanidade. Eu, farei questão! Não permitirei que nenhuma criança, seja ela gay ou hétero, seja tratada como eu fui por nenhum pai, seja ele gay ou hétero, porque, volto aqui a repetir, nós não deveríamos estar aqui discutindo sobre o casamento gay, e sei que Vossa Santidade concorda comigo, vós bem dissestes isto neste discurso, sua preocupação também é nossas crianças. Nós deveríamos estar preocupados sim com o futuro da humanidade, preocupados em evitar que nenhuma criança fosse atacada e maltratada por um membro de sua própria família, que, infelizmente Santo Padre, na maior parte do mundo são todas formadas por heterossexuais. 
Podemos concordar com isso? Em proteger nossas crianças? 

Agradeço vossa antenção, Santíssimo.
Humildes saudações, 
Foxx.