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domingo, 23 de novembro de 2014

Street View

, em Natal - RN, Brasil
Saio as 11 horas da manhã de uma reunião de trabalho que começou três horas antes e caminho até à sombra do abrigo do ponto de ônibus para esperar minha condução, sob o sol escaldante que já brilha no céu de Natal anunciando um verão que será como todos os outros: quente. A parada do coletivo fica ao lado da Vila Naval, um condomínio militar com suas cadas padronizadas, pintadas de azul e branco. Dois jovens usando uma regata e um short curto, nas mesmas cores das paredes e portas das residências, exibindo braços musculosos e pernas torneadas, faziam reparos numa parede não muito distante. Eram aspirantes a marinheiros, acho. Eu me perdi em pensamentos de como seria crescer gay dentro daquele ambiente (com aqueles homens circulando por ali com aquelas roupas minúsculas) somente para me encontrar quando vejo alguém, do outro lado da rua, balançando um imenso pacote que ele guardava dentro da bermuda.
Assustado, me recuperei a tempo de perceber o que estava acontecendo. Era provavelmente um morador de rua, nem bonito, nem feio, mas bastante sujo. Ele ainda estava distante quando começou a pegar no próprio pênis, masturbando-o por cima do tecido da bermuda surf wear que usava enquanto me encarava, mas somente quando ele estava mais próximo, do outro lado da avenida larga, que eu pude notar o volume imenso que ele carregava. Devo ter arqueado as sobrancelhas neste momento, de susto!, mas ele, como um gato, deve ter interpretado aquilo como aprovação, como elogio ao tamanho imenso do pau dele, foi aí que ele sorriu para mim e piscou um olho. Eu virei rapidamente o rosto, olhando em direção de onde viria meu ônibus, esperando que ele seguisse o seu caminho e pensando: esse tipo sempre nota a minha presença né? 

domingo, 16 de novembro de 2014

Creta: Entre Patos e Flores

, em Natal - RN, Brasil


Para pensar o mundo micênico é importante lembrar de uma informação importantíssima: estamos numa sociedade matriarcal. O poder ele não passa de rei para filho, ele passa de rainha para filha, é casando-se com a princesa que um homem se torna rei. Bettany Huges, em seu Helen of Troy, e Judith Starkson lembram que são as mulheres nas epopeias homéricas que são cobiçadas porque é através delas que o poder pode ser conseguido. Helena de Esparta, Cassandra de Tróia, Clitemnestra de Micenas, Penélope de Ítaca são cortejadas porque é ganhando esta esposa que se ganha o trono das cidades de onde elas são rainhas ou princesas. Explica-se que mesmo que um filho da rainha assuma o trono, ela continua sendo rainha até a sua morte, porque somente sua filha poderia substituí-la de fato. Pensando assim não é surpreendente uma guerra imensa entre Esparta e Tróia pela posse de Helena (o tema da Ilíada), esta guerra é uma guerra sobre a posse do direito de reinar na Lacedemônia e toda a região do Peloponeso controlada pelos espartanos. 
E elas também não tem um papel meramente ritual, como algumas pessoas poderiam afirmar. Como a Odisseia deixa claro, na ausência de Odisseu (Ulisses) em Ítaca, por causa da guerra, Penélope gerencia o oikos (ao pé da letra, casa, mas também podemos traduzir como a economia) do reino. Clitemnestra, explicam sobretudo as peças clássicas, também conduz Micenas com o afastamento de Agamêmnom por causa da guerra. Mas, também é verdade, que com o início da Idade do Ferro (por volta de 800 a.C.) o poder que estava nas mãos das mulheres migra para mãos masculinas, mas existe m duas remanescências desta época longínqua: Hera e Leto/Ártemis. 
Zeus casa-se com sua irmã, Hera, porque somente assim ele pode herdar o trono. O epiteto frequente da rainha dos deuses, "olhos bovinos", sugerem que a deusa está relacionada com a terra em que Zeus nasceu, Creta cultuava os touros e vacas, porém em Olímpia o templo de Hera, Heraion, é mais antigo que qualquer templo dedicado a um deus masculino. Afirma Mary Lefkowitz que é somente após a decadência da civilização creto-micênica que Zeus torna-se um deus mais importante que Hera. É tendo este contexto em mente que podemos falar das relações homoeróticas que as mulheres creto-micênicas possuíam.
A primeira questão é que, explica Paul Rebak, nenhum vestígio arqueológico desta civilização já encontrado (seja cerâmica, escultura, textos, etc) descrevem/mostram cenas sexuais, ao contrário do que se vê no Egito, Mesopotâmia ou mesmo a Grécia séculos depois. Entre os cretenses, micênicos e egeus existe um código moral que não permite que o sexo seja tratado de forma tão aberta, nem se tratando de homens, nem de mulheres, Por isso ao pensarmos um afresco pintado entre 1700 e 1400 a.C., precisamos abrir nossa mente para procurar pistas sobre a sexualidade feminina, nada será explícito! O prédio em que se encontra o afresco Xeste 3 foi preservado por uma erupção vulcânica em 1625 a.C., sendo um dos raros exemplares de pintura cretense já que a maioria que chegou até nós não passam de pequenos pedaços. O tempo não foi generoso. Obviamente, quando o prédio foi encontrado, as discussões dos historiadores e arqueólogos não cogitaram nenhum teor sexual nas figuras primeiro por causa dos preconceitos dos mesmos, mas também por causa de uma inabilidade dos historiadores até a década de 1960 de lidarem com o imaginário em representações pictográficas, pelo menos até Rebak escrever seu ensaio dentro do Among Women: From de Homosocial to the homoerotic in the Ancient World.

Esquema dos afrescos de Xeste 3

Como os egípcios, a pintura cretense estabeleceu um padrão para pintar homens e mulheres, homens eram vermelhos; mulheres, um pálido amarelo. Uma estilização pictórica. As pinturas são ricas em estilos de penteados, vestidos, joias, diferenciação de idades, inclusive o tema do afresco é a passagem do tempo e a vida de uma mulher, desde seu nascimento até sua morte, mostrando cada fase da sua vida, sua primeira menstruação, seu trabalho, sua adoração aos deuses (no caso é Ártemis), etc. Por causa destes inúmeros temas, este afresco foi estudado por vários pesquisadores preocupados desde questões como moda, direitos políticos das mulheres, ou crises alimentares com baixo consumo de vitamina A, mas todos fechavam os olhos para as possibilidades de estudar-se sexualidades homoeróticas.  
Historiadores, no entanto, concordam que os ritos de passagem femininos estão descritos ali, cinco estágios para ser mais exato: a infância, marcada pelo cabelo raspado ao fim; a adolescência dedicada a serviço da deusa; depois o rosto coberto por um véu (neste caso para as mulheres que desejam se tornar sacerdotisas); a mudança de roupa já como uma mulher adulta e, por fim, o casamento e sentar-se junto ao marido na hydria. Contudo, nada realmente sexual aparece nestas cenas, afinal como dissemos antes não é de costume cretense mostrar neste assunto, é portanto necessário entender os símbolos que aparecem na pintura. Paul Rebak comenta dois: os patos e paisagens floridas.
William Percy, em Pederasty and Pedagogy in Archaic Greece, afirma que a arte micênica dominava os símbolos sexuais. Cobras, touros, vespas são símbolos do sexo masculino/entre homens; já Rebak explica em seu Imag(in)ing a Women's World in Bronze Age Greece que os patos são associados a sexualidade feminina, eles aparecem decorando o pescoço de Ártemis, e também em revoada quando temos uma cena em que doze garotas aparecem juntas dançando para a deusa; o mesmo acontece com paisagens cobertas de prados floridos, esta situação edílica só aparece quando mulheres estão sozinhas na imagem. Sem nenhum homem. 


domingo, 9 de novembro de 2014

"Covardes, Estupradores e Ladrões"

, em Natal - RN, Brasil
Estava lendo Masculinidades, o livro organizado por Mônica Schpun, e um dos textos escritos pela antropóloga paulista, professora da UnB, Lia Machado, Masculinidades e violências: gênero e mal-estar na sociedade contemporânea, me fez pensar. O texto fala sobre estupros e violência doméstica através de entrevistas com os próprios estupradores e os agressores, eles explicam porque cometeram tais atos e ela explica o raciocínio machista que faz com que estes homens pensem que não cometeram crime nenhum pois, segundo eles, toda mulher estuprada queria fazer sexo e toda mulher agredida precisava aprender uma lição. Lia, se ela me permite a intimidade de chamá-la pelo primeiro nome, é adepta (como eu) da corrente histórico-sociológica que admite que o gênero são construções simbólicas que podem ser datadas no tempo, no espaço e, sobretudo, nas culturas. Ela chama isto de "construtivismo de gênero", e para citá-la (que faz bem): "os gêneros são construídos cultural e historicamente, podendo, assim, variar em número, em identidades e diferenças, ou até mesmo desaparecerem". Como eu já repeti aqui várias vezes. Homens e mulheres, masculino e feminino não são categorias naturais, elas são construções históricas que advém da revolução burguesa do século XIX e início do XX, isto é, esta coisa que nós consideramos natural foi inventada há mais ou menos 150 anos, seu vaso sanitário, aquele que você usa no banheiro, é mais natural já que foi inventado há pelo menos 3 mil anos atrás. 
Falando com os estupradores, a lógica de raciocínio destes homens me fez lembrar daquela que coloca os gays ativos numa posição superior aos gays passivos (inclusive de agora em diante eu irei me referir a este tipo de preconceito como "a lógica do estuprador", vocês também estão livres para usarem minha nova expressão). No imaginário do erotismo ocidental, como sabemos, o lugar do masculino na relação é pensando como aquele que se apodera quando penetra, este é o sujeito da relação sexual e, portanto, ATIVO; enquanto aquele ou aquela que é penetrado/a é identificado como um objeto do prazer do primeiro, um PASSIVO. É importante perceber que o sujeito ativo da relação sexual é o único que cabe ter prazer, mulheres e homens que se colocam numa relação passivamente não podem sentir prazer porque objetos não sentem prazer. Quando, e vemos isto sobremaneira com relação a mulheres, este objeto sexual exige seu próprio prazer, ele é combatido porque não cabe ao feminino gozar. 
É sintomático as palavras que nós escolhemos para separar nossas preferências sexuais. Em inglês são usados com frequência os termos top (de cima) e bottom (de baixo), com uma clara referência as posições na cama, o mesmo se dá em finlandês (päällä e alla), mas os termos pitcher (pegador) e catcher (pegado) também existem; como em português, no francês, alemão, turco, italiano, servo-croata, polônes e russo, os ativos e passivos reinam; também matendo o mesmo sentido de aquele que penetra sendo o que tem o controle da ação: em grego, energeticos (o que age) e patheticos (o que recebe a ação) e em chinês, gong (o que ataca) e shou (o que se submete). Como exceções, porque toda regra tem a sua, o japonês faz metáforas, tachi (longa espada) e  neko (carrinho de mão); o árabe compara a correntes elétricas, mojib (positivo) e salib (negativo), e que fique claro que isto não é um julgamento moral, são as mesmas palavras usadas para distinguir os polos de uma pilha, por exemplo, e o espanhol que apesar de também conhecer o activo e pasivo, usa com bastante frequência soplanuca (sopra nuca) e muerdealmohadas (morde fronha/almofada).  
Não é interessante de como estamos inundados por este machismo e nem nos damos conta dele? Nós mesmos que somos gays escolhemos as palavras para nos definir e caímos no esquema que divide nossa sociedade a partir da dicotomia masculino e feminino. Nós criamos um homem, o ativo, e uma mulher, o passivo, e esperamos de cada um deles comportamentos masculinos e femininos. Quer exemplos? Todos se surpreendem ao encontrar uma drag queen ativa, todos acreditam que porque tal menino é mais delicado e efeminado ele necessariamente é passivo, todos aguardam que porque aquele cara não tem trejeitos ele vai ser o ativaço na cama. Nós que poderíamos romper com tudo isso, que foi nos dado por Deus o dom de superar todas estas questões machistas na sociedade e viver relacionamentos realmente livres de padrões impostos socialmente, acabamos por reproduzir o sistema heterossexual no seio de nossas relações.
Lia Machado conclui sua fala com os estupradores assim: "O ato do estupro parece sintetizar a confusão entre a ideia de masculino como parecendo advir do único corpo sexuado que se apodera do corpo do outro, parecendo ter o falo, isto é, a potência e a força, e a ideia de masculino como parecendo ser a lei, já que neste ato sexual suprime-se a mulher três vezes: enquanto corpo sexuado que pode se apoderar de outro corpo, enquanto sujeito desejante e enquanto sujeito social que participa da confecção da lei". Extrapolo facilmente isto para o mundo gay. Considerar que o ATIVO tem alguma situação social superior a sua contraparte, considerar que a este cabe potência e força, repetir para ele e exigir dele os modelos de conduta do homem heterossexual é considerar que o homem gay PASSIVO: 1) não tem o poder de dominar um outro homem, e o que quero dizer com isso é que ele não tem um namorado, o marido não é dele, ele não tem nada, ele pertence a outra pessoa, vive para a outra pessoa, depende do outro para ter sua própria existência; 2) não é um ser sexuado, isto é, ele não tem desejo, nem prazer sexual, ele apenas serve ao seu homem como objeto para dar-lhe prazer, um problema grande também sobre isso é a fantasia sobre o pênis e o orgasmo masculino, a questão de acreditar-se que o único tipo de prazer sexual que você pode ter é se houver ejaculação, isto é, repetir o ultrapassado modelo heteronormativo (a Sandy já disse, é possível ter prazer no sexo anal); e, 3) por fim, o gay passivo não é um sujeito social, estes sujeitos não têm o direito de existir, ele deve ser apagado da nossa sociedade o máximo possível inclusive naquilo que nós julgamos como denunciador de passividade, no caso, ser efeminado, em outras palavras, tudo bem você ser gay, tudo bem você adorar dar o cu, mas ninguém precisa saber. 
Os homens gays repetem lógicas doentias quando, como eu disse, Deus nos deu a chance de vivermos livres delas e de mostrarmos ao mundo o quanto podemos ser felizes se nos libertarmos das imposições que a sociedade criou séculos atrás e disfarçou de natureza para nos ludibriar. Este é nosso papel na sociedade, afinal de contas: quebrar paradigmas! A família não é somente homem e mulher, um relacionamento não é um homem controlando e uma mulher obedecendo, um filho não é somente uma criatura com seus próprios genes e, às vezes, nem da própria espécie, roupa masculina não é só bermuda cargo, camiseta e tênis esportivo, existimos desde sempre mostrando que o mundo está repleto de possibilidades e, no último século, que mudar não faz mal, por isso não podemos reproduzir os erros deles. Nós somos melhores, não somos?

domingo, 2 de novembro de 2014

Creta: A Taça dos Dois Amantes

, em Natal - RN, República Federativa do Brasil





É bem comum encontrar entre os vestígios arqueológicos cretenses alguns que fazem referência aos seus rituais homoeróticos. Por exemplo, em um rústico campo dedicado a Hermes e Afrodite, aproximadamente 60 quilômetros a leste de Hagia Triada, no Monte Dikte, aonde ficariam as cavernas nos quais Zeus havia sido criado, há 1200 m acima do nível do mar, escavações lideradas por Angeliki Lembessi descobriu inúmeros objetos de bronze oferecidos as deidades, junto a restos de sacrifícios animais, sobretudo touros.
Entre estes objetos de bronze encontra-se uma taça onde estão representados dois homens que data do período minoico (antes de 1100 a.C.), hoje, guardada no Louvre, através da datação do carbono, chegou-se a uma data aproximada dos séculos VIII ou VII a.C. Ela consiste de um casal masculino sendo que um deles é barbado e o outro não, o imberbe possui um longo e flutuante cabelo cheio de cachos em sua fronte. Bruce L. Gerig afirma que várias interpretações foram oferecidas para este par, por exemplo, que representam um deus e um sacerdote, um rei e um comandante, ou crianças representando dignitários, isto é, que durante muito tempo os arqueólogos e historiadores fugiram de enxergar as relações homoeróticas que encontravam em seu caminho por causa do próprio preconceito, mas os outros inúmeros achados começaram a deixá-los sem saída.
Como esta outra peça encontrada: o mais velho traz consigo um arco de chifre, e agarra o mais jovem pelo braço e chama-o para perto. O mais jovem carrega uma cabra morta sobre os seus ombros, provavelmente um animal sacrificial. Eles estão olhando fixamente um para o outro, com as pernas e os pés se tocando, e os órgãos genitais do mais jovem estão expostos. Outra peça de bronze, datada de 750 a.C., e hoje sob a guarda do Museu Heraklion, mostra dois jovens de capacete, nus, um mais velho que o outro. Ambos exibindo seus pênis eretos ficam um do lado do outro de mãos dadas. No entanto, outro peça de bronze datada do século VII a.C. mostra um rapaz, nu, exceto por uma capa decorativa longa e sandálias, segurando um arco e aljava. Esses objetos parecem pertencer à mesma tradição refletida na Taça Chieftain, encontrado em 1903, no clube de jantar masculino do palácio de Hagia Triada, e datado do Primeiro Período Minóico (1.650 a.C. - 1500 a.C.). Ela é esculpido em serpentinito e retrata dois jovens imberbes, um mais velho que o outro (perceptível pela diferença de altura e no penteado), vestidos com saiotes e botas de cano alto e uso de jóias. O mais velho apresenta-se com uma espada e o mais novo com uma lança, enquanto no verso das copo outros jovens (amigos do amante, provavelmente) trazendo três pedaços de couros de boi, provavelmente para fazer um escudo. Na taça, o  mais velho ainda dá ao mais novo uma espada e um javali.
Gerig nos lembra do rito iniciático que os garotos cretenses passavam para prepará-los para a vida adulta (relatado por Ephoris, historiador do século IV a.C., e preservada por Estrabão, século I a.C.). Eles eram separados em agelae (rebanhos) nos quais eram treinados para se tornarem soldados. No entanto quando um rapaz mais velho, chamado philetor (amante), apaixonava-se por um jovem mais novo por causa de sua beleza, coragem e boas maneiras, ele capturava seu escolhido, chamado parasthatheis (aquele que fica ao lado, parceiro), com o consentimento dos pais e ajuda dos amigos. Este então era levado para o andreion local (clube onde homens comiam juntos), do qual ele se tornava membro por toda sua vida, o pretendente dava-lhe presentes e, depois de dois meses que passavam o tempo caçando e em festas, levava-o de volta para a casa dos pais (acompanhado por alguns amigos do rapaz). Diante dos pais, o amado afirmaria se estava ou não feliz com a forma que seu amante o havia tratado, e se estava, apresentava-se diante dos jovens com os trajes militares que o philetor havia lhe dado, um boi e uma taça, além dos outros presentes caros que havia recebido. Depois disso o jovem passava-se a se chamar kleinos (famoso), passava a usar as roupas de adulto, davam-lhe assento especial nos bailes e corridas e outras honrarias. Todos os jovens kleinos casavam-se na mesma cerimônia com as esposas que seus pais haviam conseguido para eles. 
Gerig afirma que esta tradição apresenta todos os elementos comuns a um rito de passagem: iniciação para um grupo seleto, reclusão durante um tempo, um membro mais velho da comunidade ensina jovens certas habilidades especiais, retorno para a sociedade aonde o iniciado recebe um novo status. As peças documentam que esta tradição de Creta continuou ao longo de muitos séculos, e que as ofertas posteriores deixadas por pares de amantes neste santuário tornaram-se mais elaborados e eroticamente explícitos. Contudo, existe um problema: elas são ex-votos, isto é, peças que eram oferecidas ao santuário do deus em agradecimento a algo que se havia conseguido, no caso, o amante. Os mais velhos deveriam agradecer aos deuses por terem conseguido o amor daqueles por quem haviam se apaixonado através destes presentes sob risco de atraírem para si o ódio da deusa, inicialmente Leto, depois Afrodite, que fatalmente levaria seu amado para longe dos seus braços. Estas peças provam que não era somente um ritual em que os membros participavam somente por obrigação social, estas eram relações apaixonadas entre homens, dentre os quais alguns que temiam perder seus jovens amantes por causa de caprichos divinos. 



domingo, 26 de outubro de 2014

Chistes Jocosos

, em Natal - RN, Brasil
Sabe o que é mais difícil de combater em relação a homofobia? As piadas! Os ataques físicos e morais, o preconceito segregacionista, o discurso de ódio disfarçado de liberdade de expressão, todos eles são fáceis de serem combatidos porque são quase palpáveis, mas o humor, ah, o humor, este por ser baseado em ironia e sarcasmo, figuras de linguagem que dizem aquilo que expressamente não quiseram dizer, este é difícil de combater porque seu autor sempre argumenta: "eu não disse isso!", e realmente não disse. Vejamos exemplos:
Danilo Gentili já tem sido um artista dos comentários preconceituosos, ele já agrediu negros, judeus, gordos, nordestinos, cubanos e homossexuais. O mesmo acontece há anos no Zorra Total, no humor do falecido Chico Anísio, e não era diferente dos Trapalhões ou da Praça É Nossa. Preconceito contra nordestinos não era o mote de inúmeros quadros destes programas? Negros e pobres não são ridicularizados constantemente? Ser gay não é desculpa para ser humilhado (lembrem-se de Vera Verão)? E lembrando o texto da lei: Lei Federal nº 7.716/1989, Artigo 20: "Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional".  
Estes programas tem sido criticados constantemente por causa de seus personagens caricatos e não é de agora, Mas nunca por homens de nossa elite (heterossexual, branca e morando no Sul-Sudeste), estes riem das piadas, mas negros, nordestinos, gays tem a percepção de o quanto aquilo é ofensivo porque aquilo ofende. Outras pessoas alcançam, no entanto, o sentido negativo das piadas sobre negros e nordestinos, elas conseguem se colocar no lugar do outro, mas o público gay não despertar a mesma empatia, e por quê?
Primeiro, a inexistência no texto da lei da expressão "orientação sexual ou de gênero"e não torna crime incitar homofobia (e, por acaso, também não é crime discriminar mulheres), e é exatamente por causa disso que ninguém percebe sua existência. Pessoas fazem piadas de cunho homofóbico e não a reconhecem como tal porque INCITAR e INDUZIR não são crimes, para as pessoas apenas a discriminação clara ou a agressão física direta podem ser considerados homofobia. Olha o que aconteceu esta semana:
Eu acompanho o site Omelete há alguns anos. É um site sobre quadrinhos, cinema e mundo geek (que por sinal é um dos ambientes mais homofóbicos que eu conheço, os geeks, não o Omelete), eles tem um canal e um programa no Youtube, OmeleteTV. E, num dos últimos programas, eles encerram o programa dizendo que "se você gosta de peitinho, ou se você tem peitinho, assine o canal", critiquei-os via Twitter, e eles tentaram argumentar que já fizeram programas sobre a presença gay nos quadrinhos, que eles são contra a homofobia, etc., mas a prática são piadas como esta (O mesmo apresentador também criticou Espartacus por causa da presença do nu masculino na série tanto quanto existe nu feminino, enquanto elogia Gotham por causa do affair lésbico no passado das personagens Montoya e Barbara, isto é, homem nu não pode, mas mulheres se pegando sim). 
Não duvido que o pessoal do site realmente não enxergue isto como homofobia, mas o que eles não entendem é que ele estava claramente convidando somente homens heterossexuais e mulheres para assinar o canal, como isso não é a exclusão de um público dado sua orientação sexual?  Eles não enxergam, e acredito que nenhum homem heterossexual veria nesta frase discriminação afinal ele foi incluído, somente quem ficou de fora percebe o que aconteceu, mas não devo acusar os membros do Omelete de homofobia, no máximo de falta de empatia, como homens brancos, heterossexuais que vivem em São Paulo é difícil se colocar no lugar do outro.

domingo, 19 de outubro de 2014

Creta: O Ombro de Marfim

, em Natal - RN, Brasil



Zeus e Apolo não são os únicos deuses creto-micênicos que tem relacionamentos homoeróticos. Possêidon era um deus cretense, como atesta seu papel no mito do Minotauro, era deus dos mares, dos cavalos, dos terremotos, mas em Creta também era deus das tempestades e dos raios, atributo que mais tarde foram dados a Zeus quando a religião se expandiu por toda a Hélade. Na Ilíada, de Homero, ele é o grande deus dos mares já, mas ele também controla as tempestades marinhas e provoca desmoronamentos com seu tridente construído pelos Ciclopes. Os navegantes oravam a ele por ventos favoráveis e viagens seguras, sacrificavam a ele cavalos, mas seu humor imprevisível tornava a água e os terremotos suas armas para expor sua irritação com os humanos, mas também apoiou os gregos grandemente durante o poema sobre a Guerra de Tróia, porém sua vingança contra Odisseu, porque este não prestou-lhe os devidos agradecimentos ao fim dos anos de batalha, levou o rei de Ítaca a ficar perdido no mar por vinte anos, tema da Odisseia. 
Segundo seu mito, ele é filho de Cronos, o tempo, e Reia, a vida. E como seus irmãos, fora engolido pelo pai ao nascer, até que Zeus que por causa de um subterfúgio da própria mãe, pode fazê-lo vomitar as crianças. Segundo Pseudo-Apolodoro, a ordem dos filhos é Héstia, o fogo; Deméter, a terra cultivada; Hera, as mulheres e o casamento; Hades, o senhor dos mortos; e, por último, o rei dos mares. Após seu pai tê-lo vomitado e ser deposto pelo irmão mais novo, Possêidon foi criado entre os Telquines, demônios marinhos, com rostos de cachorro, pele negra e nadadeiras nos pés e sua primeira esposa foi uma deles, Hália. Com esta esposa, ele teve inúmeros filhos de temperamento violento e explosivo, de tal forma que teve que enterra-los para proteger o mundo, foi assim que as ilhas gregas nasceram, cada uma delas é um filho do deus do mar que está aprisionado, mas também teve com ela a linda Rodes, que casa-se com o sol, Hélios. Teve também outros filhos monstruosos, o ciclope Polifemo com Teosa que tentou devorar Odisseu; o gigante Crisaor, que é derrotado por Herácles, com a Medusa; os gigantes Oto e Efialtes nascem de seu caso com Ifimedia.
Uma história interessante sobre Possêidon é que ele seduziu a própria irmã, Deméter, quando esta procurava desesperada a filha, Perséfone, que havia sido sequestrada por Hades. A deusa concedeu seus favores ao irmão em nome de informações sobre o paradeiro da filha, porém, após terem tido sexo, o deus marinho não tinha nada para contar-lhe. Fruto desta união, Deméter teve filhos gêmeos, Despina e Árion, que abandonou logo ao nascer porque não estava interessada em crianças pois ainda vasculhava o mundo buscando sua filha querida. Despina cresceu revoltada com o abandono, tanto da mãe como do pai. E adulta, deusa do frio e do inverno, congela as terras que a mãe cultiva e o mar que o pai ama. 
Casou-se, por fim, com Anfitrite, nereida, filha do Oceano e Tétis, com quem teve um filho, Tritão, o deus dos abismos oceânicos e o grande pastor dos animais marinhos. Mas não sem antes conhecer o amor de um homem. Quem nos conta é uma ode de Píndaro, do século V a.C.:

 Ode Olimpíca, 1 40 ff 
"Ele [Poseidon] apoderou-se-lhe [Pelops], o seu coração louco de desejo, e vos trouxe montado em sua gloriosa carruagem ao alto salão de Zeus quem todos os homens honra, onde mais tarde veio Ganimedes, também, por um amor como, para Zeus."

Pélops era filho do rei da Lídia, na Ásia, Tântalo e Dione. O rei, para testar a onisciência dos deuses, das quais ele zombava, ele matou o próprio filho e cortou-lhe em pedaços e ofereceu-os aos olímpicos como um ensopado. Ele queria com isso provar que eles não eram capazes de saber tudo. No entanto, nenhum deus serviu-se do ensopado, somente Deméter, que estava deprimida por causa da rapto da sua filha, que comeu um pedaço do ombro do jovem, mas ao reconhecer o gosto a deusa, irritada, lançou Tântalo ao Tártaro, condenando-o a viver eternamente em um belo jardim no qual toda vez que ele tentasse aplacar sua sede a água fugiria dele, e quando ele tentasse aplacar sua fome, os ramos das árvores fugiriam ao seu alcance. Os deuses então reviveram o príncipe e recolocaram no pedaço mordido por Deméter, um pedaço de marfim. Belíssimo como ele era, Pelops atraiu o amor de Posseidon que o levou para viver consigo, em seu palácio embaixo do mar.
O mito de Pelops, como o de Ganimedes, evocam a mesma tradição creto-micênica: o rapto dos jovens por seus amantes mais velhos. Contudo o mito de Pelops avisa que ele retorna a vida entre os homens e se enamora de Hipodâmia, filha do rei de Olímpia, Enomau, que tinha matado todos os pretendentes anteriores da filha porque um oráculo havia predito que ele seria morto pelo genro. Enomau fazia todos os pretendentes disputarem com ele uma corrida de biga, cujo perdedor era sempre executado. Sabendo que os cavalos de Enomau famosos por sua velocidade, foi ao deus dos cavalos, seu antigo amante, que o príncipe pediu ajuda. O mito diz que em memória dos regalos de Afrodite que vivera com o rapaz, Possêidon concedeu-lhe cavalos alados que permitiram que ele derrotasse o sogro. Casado com Hipodâmia, Pélops tem dois filhos, Atreu e Crisipo, cujos quais participam da fundação das duas principais histórias gregas que nos chegaram hoje: Atreu é pai de Agamêmnom e Menelau, os grandes reis da Ilíada; e Crisipo é sequestrado por Laio, dando início ao ciclo de Édipo.
O interessante deste mito é perceber que os dons concedidos pelo amante divino tornam Pelops mais indicado para tornar-se um marido aceitável para Hipodâmia, cujo nome significa a senhora dos cavalos. Esta era uma regra comum no mundo cretense, as armaduras, armas, cavalos, galos, taças etc, que eram dados aos jovens por seus amantes, tais presentes (que eram obrigatórios) eram responsabilidade daqueles mais velhos e importantes na vida adulta que os jovens teriam após retornarem a casa de sua família. O sentido iniciático da relação homoerótica ainda se torna mais poderosa quando é somente após deitar-se com um homem mais velho que o jovem se torna adulto de fato e pode então contrair núpcias sendo agora, autorizado, a ter relações também com jovens assumindo as mesmas responsabilidades que seu anterior amante teve com ele.







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domingo, 12 de outubro de 2014

Dois

A Rua das Virgens, na Ribeira, estava lotada naquela noite de sexta-feira, apesar das nuvens cinzas cobrirem o céu escuro. Mas não parecia que choveria, era somente uma noite nublada. Essas de outono bem comuns. Após a igreja, eu fui para assistir o show de Du Souto com seu samba-jazz-xote-hip hop no Buraco da Catita e seu publico habitual rondava o local. O Centro Cultural Buraco da Catita congrega os natalenses que se consideram a elite pensante da cidade, discutem política e falam sobre arte sentados em suas mesas de madeira bebendo cerveja. Sim, apesar do nome pomposo, não passa de um bar que ocupa uma das ruelas do bairro. Gosto do lugar, do ambiente, e das pessoas que o frequentam: são em sua maioria pessoas inteligentes, artistas, produtores de cinema, músicos, atores, uma parte das pessoas que frequentam a região do porto, a tribo mais madura eu diria. Destoam deles somente aquelas meninas adeptas do hippie chic e estudantes de publicidade heterossexuais musculosos e tatuados. Ah, e alguns caras usando polos com números imensos nas costas, pagando bebida para três garotinhas (falsamente) loiras das quais ele tem esperança de comer pelo menos uma, mas ela só vai dar quando tiver um anel do seu dedo. Eu estava com amigos dançarinos e atores que me definem como artista plástico quando me apresentam a alguém (os quais sempre me envolvem em seus projetos e eu sempre aceito).
Sentamos numa mesa afastada, quando o show acabou, em frente a um albergue e um ateliê de pintura, éramos um grupo grande (que não parava de aumentar) que conversava sobre sexo e relacionamentos, sobre Dilma e Aécio, sobre Almodóvar e revistas em quadrinhos. Uma destas pessoas novas era um rapaz de barba. Ele era másculo, mais alto que eu, com uma barriguinha, nada de corpo saradinho de academia, mas não era gordo. Ele sentou-se ao meu lado e ninguém se deu ao trabalho de nos apresentar, mas isso não nos impedia de conversar normalmente, mas ele me olhava de uma forma diferente. Havia interesse no olhar dele. Era óbvio! Foi quando alguém sugeriu irmos a outro bar. "Lá é mais barato", comentaram. E todos levantaram, o rapaz de barba também, e antes de nos afastarmos da mesa, ele me parou. "Eu queria um beijo seu". Eu sorri. E apesar de lembrar que nem sabia o nome dele, dei-lhe o beijo. Ele me olhava quase implorando, parecia que eu era um cara que ele sempre quis beijar. Foi um único beijo, rápido, e depois nos juntamos aos outros. Ele no entanto se afastou de mim. Eu esperava que ele iniciasse uma conversa, que pretendesse ficar comigo durante o resto da noit e, mas, apesar do olhar ser o mesmo, ele se comportou de forma completamente estranha. Caminhando ele parecia envergonhado, ao chegar no bar sentou-se do outro lado, eu nem vi em que momento ele foi embora, mas dei de ombros. Era apenas madrugada.
Continuamos sentados no bar que da para a praça do teatro, cercados por prédios antigos que devem ser assombrados principalmente por antigas prostitutas do cais, eu sempre paro para admirá-los, são todos lindos, apesar da falta de conservação por parte da prefeitura. O bairro, todo tombado pelo patrimônio histórico do Estado, nunca teve nenhum projeto de restauração dos prédios, é terrível ver como eles correm risco, se eu pudesse, compraria todos e cuidaria deles. Foi perdido em meio a estes pensamentos que percebi que havia chegado ao bar um garoto que havia me adicionado no Facebook mais cedo naquele dia. Ele conhecia um dos meus amigos, o Diretor-de-Teatro, e sentou na mesa dizendo: "Eu te adicionei no Facebook hoje", eu disse que sabia. Ele era lindo, ruivo, com um sorriso fácil e safado, sempre erguendo a sobrancelha esquerda. E foi com este sorriso no rosto que ele se aproximou e me beijou. Bem alto, com pernas grossas e uma bunda linda sob o jeans escuro, ele com certeza não tinha mais que 25 anos. Ao contrário do outro, sentou ao meu lado, e entre piadas e conversas passamos o resto da madrugada ali, entre cervejas e cigarros, com meus amigos. Era, pelo menos, 4h da manhã quando nos recolhemos para nossas casas. Cada um para sua, infelizmente.



PS: Estarei mudando o número de postagens agora para somente uma, semanalmente. Não tenho assunto para postar mais frequentemente, afinal sei que ninguém aqui está interessado em me ver falando sobre meus dias solitários, tentarei manter esta quantidade de posts, se nem isso eu conseguir, talvez seja hora de encerrar o blog.