Google+ Estórias Do Mundo

domingo, 17 de maio de 2015

Querela Religiosa

, em Natal - RN, Brasil
- Então você é sacerdote e gay? E pode isso?
- Claro que pode. Por que não poderia?
- Porque ser gay é pecado.
- P'ra quem? Na minha igreja não é, e na própria igreja católica também não.
- Como assim?! Não é pecado ser gay na igreja católica?
- Não, nunca foi. O pecado católico no qual os gays estão inclusos chama-se sodomia e isso inclui qualquer sexo sem fins reprodutivos. Sexo entre dois homens é tão pecado quanto sexo entre um homem e uma mulher com camisinha. Por isso, a igreja, sugere que caso você ser gay, você seja celibatário. E, neste caso, sendo celibatário, você pode ser gay e ser até papa!
- Então você é celibatário?
- Não. Eu não sou católico.
- Então o que prega a sua igreja?
- Um dia, alguns anos atrás, quando eu estava em meditação, tive a honra de encontrar um dos meus mestres espirituais, e eu perguntei a ela (sim, era uma mulher) se era errado eu ser gay, ela sorriu me disse com toda paciência do mundo: "você só tem uma vida, precisa vivê-la como ela é". Eu tive a oportunidade de nascer gay nesta vida porque somente vivendo como um homem gay e passando por tudo o que passamos que eu aprenderia o que precisava para me aproximar de Deus em pureza e perfeição...
- Quanta baboseira! A Bíblia diz...
- Espere um momento: eu te relato uma genuína experiência mística, um profundo momento de contato com as divindade que eu tive, e você diz que é "baboseira"? Que falta de respeito com minha fé e minha religiosidade é essa? Ai, se prepara, mesmo assim, para citar a Bíblia, a experiência mística de outra pessoa, e espera que eu respeite sua verdade do mesmo jeito? É isso?
- ...
- Só para complementar, antes de você continuar com seu argumento de autoridade, já que você interrompeu o que eu estava falando... acredito, e minha igreja defende o mesmo, que não viver a vida conforme foi planejado antes de você encarnar é que é o verdadeiro pecado. Fugir, no caso, de ser gay, não viver isto como se deve, completamente, amando, fazendo sexo, casando, com tudo que você tiver direito e vontade, isto sim te levaria a algum "inferno" porque você não estaria seguindo a vontade de Deus. 

domingo, 10 de maio de 2015

Elegia Para Um Príncipe Encantado

, em Natal - RN, Brasil
Eu conheci teus cabelos de trigo num baile de carnaval
Nossos corpos se atraiam como imã naquelas ruas de paralelepípedo
Me apaixonei pelos teus olhos vedes na casa de um amigo
Gozei com você num colchão no chão
Sonhei com teu amor em minha cama agarrando o travesseiro
Você segurou minha mão naquela peça rodrigueana
Me beijou esperando teu ônibus e eu voltei sonhando
Disse-me que se morássemos perto namoraríamos
Estourou de ciúmes mesmo longe
Mas amou outros, também amei
Mas agora você nos deixou, você me deixou, deixou todos nós
Tua doença te levou
E eu fiquei para trás, triste,
Sem nunca mais poder esperar dar 4 horas.



Adeus, Dan, eu te amei profundamente.

domingo, 3 de maio de 2015

Inesquecível

, em Natal - RN, Brasil
Nunca esquecerei você até conhecer outro.
Nunca esquecerei seu sorriso até me encantar por outro.
Nunca esquecerei teus olhos até enxergar outros.
Nunca esquecerei tua boca até beijar outro.
Nunca esquecerei teu corpo até abraçar outro.
Nunca esquecerei teu sexo até comer outro.
Nunca esquecerei como te amei até amar outro.
Nunca esquecerei você até conhecer outro.

domingo, 26 de abril de 2015

Não Faça Isto No Primeiro Encontro (Comigo)

, em Natal - RN, Brasil
Enquanto isso, dentro da minha cabeça.

Eu pensei em escrever este texto como um conselho para todos, mas imediatamente eu pensei "quem sou eu para este papel?". Aconselhar alguém sobre como proceder em primeiros encontros? Como se eu estivesse na posição de grande conhecedor da matéria. Como se eu possuísse inúmeras experiências positivas e maravilhosas que resultaram em segundos encontros. Mas, por outro lado, quem teve mais primeiros encontros do que eu por aqui? Desafio qualquer um. Eles não deram certo, em sua maioria, é verdade!, mas por causa disso eu não extraí nenhuma experiência? Foi então que tive esta brilhante ideia: falar do que fizeram comigo (ou o que eu fiz) que nem eu suportei, logo eu que tenho uma notória paciência e dou mil chances para todo cara. Em outras palavras, aquilo que nem eu que aceito tudo, topei.

1) Sobre atrasos.

Atrasar para qualquer coisa não é legal, mas ninguém está livre de cometer esta gafe num primeiro encontro. E, se acontecer, peça milhares de desculpas. Simplesmente estar presente, ter finalmente chegado, não é o bastante para que sua companhia o perdoe. Você não é especial deste jeito!
Eu conto um causo neste momento? Conto! Era uma vez, no reino distante de Bambuluá, eu saí com um garoto, 21 anos, inteligente, não muito bonito, papo politizado e militante, era um cara interessante, cara de estudante de ciências sociais fã de Che Guevara. Era nosso primeiro encontro e ele chegou 1 hora atrasado (eu disse que aguento muita coisa, não disse?). Ele chegou no exato momento que eu havia me levantado para ir embora, e eu decidi me sentar para conversar com ele mesmo assim. Eu esperava um pedido de desculpas, uma história envolvendo abdução ou sequestro relâmpago, mas depois de um pedido de desculpas vazio, porque ele não se importava em nada de ter me feito esperar sessenta minutos (na cabela dele devia ser alguma convenção burguesa usar relógios, vai ver), mas queria sair dali para me comer na minha casa. Eu, obviamente, disse-lhe um sonoro não. 
Então, seja quinze minutos ou meia hora (e neste caso ligue para falar com a pessoa já adiantando seu pedido) ao chegar peça grandiosas desculpas. Ninguém é tão especial que sua simples presença fará o outro esquecer o tempo que ficou ali te esperando e de sua falta de consideração com ela neste tempo. Se for atrasar uma hora, nem vá, desmarque!, e ninguém espere mais que trinta minutos (só idiotas desesperados fazem isso) e só espere este tempo se houver uma ligação explicando o que aconteceu, se foi apenas uma mensagem depois de 15 minutos de atraso, vá embora!

2) Sobre celulares.

De fato, é chato estar com alguém em uma mesa que dá mais atenção às mensagens que recebe no celular do que a você. E é errado, ora! Estabeleça uma prioridade relacionada a proximidade física das pessoas que você fala, quem está conversando com você mais perto tem sempre prioridade em relação a quem está a quilômetros de distância (não, isso não é uma dica para o Grindr). É cortez, polido, chique. Combinado isso?
Mas, ao mesmo tempo, é seu primeiro encontro com o rapaz lindo, fofo, gostoso e inteligente que você conheceu sabe-se lá como. Você não sabe ainda nada sobre a família, os amigos ou o trabalho dele para se irritar se durante a conversa/jantar/copos de cerveja ele sacar o celular porque o Whatsapp chamou ou mesmo responder uma mensagem. E se for algo importante? 
Meu causo? Uma vez, no reino encantado de Bambuluá, eu e ele sentamos na mesa juntos e assim que sentei recebi uma mensagem no Whatsapp, eu, num reflexo, saco o celular para ver quem era e se era algo importante. Ele segurou meu braço e pediu, de forma enérgica, mas fingindo doçura que eu desligasse o telefone. Eu só pensei ali: "Gente do céu, quem é você para pedir que eu desligue meu celular?". Ele tentou explicar-se, dizendo que era chato e que considerava uma falta de educação, mas era tarde demais porque eu só ouvia a ordem que ele me deu. 
Eu obedeci, mas aquilo colocou um filtro sobre todo o nosso encontro. Ele era autoritário. E as ações, as histórias, o chocolate que ele me deu (e cobrou três vezes que eu comesse enquanto estávamos na mesa) só eram lidos sob este viés. Este é o risco de cometer um erro durante este primeiro contato, porque a primeira impressão é a que fica, ela coloca uma lente sobre você que limita a forma e aquilo que outro verá.


Só digo uma coisa, se nem eu que topo tudo porque sempre acho que talvez a próxima pessoa vá gostar de mim suporto isso, imagina os caras que você sai que tem outras opções. 


domingo, 19 de abril de 2015

Uma Lição

, em Natal - RN, Brasil
Ela era uma senhora gorda, de sorriso aberto e extremamente simpática. Era professora e tinha cara, falava com facilidade, e eu apostaria que lecionava português. Ela entrou na loja numa tarde nublada acompanhada de um garoto magrelo, calado e sempre olhando por baixo de suas sobrancelhas, algumas pessoas poderiam desconfiar daquele menino que não olhava diretamente para ninguém, as pessoas desconfiam de quem não olha nos seus olhos por muito tempo porque todos se acham grandes especialistas na alma humana, mas quem disse que alguém não pode mentir para você olhando nos seus olhos nunca foi traído por um namorado. Ele, o garoto, não o namorado, usava uma regata e uma bermuda surfwear e sandálias de dedo. Era um menino bonito, inclusive, tinha olhos claros e traços másculos, mais precisava encher seus ossos com um pouquinho de carne. Era um adolescente, com corpo de adolescente, que um dia se tornaria um belo homem.
Ela, a professora, comprava-lhe coisas: camisetas, calças jeans, bermudas e cuecas. Inicialmente, imaginei-os mãe e filho, porém um olhar mais cuidadoso logo destruiria esta teoria. Eles não eram em nada parecidos. As bochechas gorduchas dela não tinham nada a ver com as maçãs ossudas dele. Ela continuava mostrando roupas a ele, que ele escolhia sem levantar os olhos. Aceitava tudo com um constrangimento de quem veio comprar um presente para si mesmo. Ela então explicou: "Ele é meu aluno, sabe?". Eu fiquei atento a estória enquanto mostrava-lhe calças tamanho 38.  "Um bom aluno, um grande menino! Ele tira sempre as melhores notas!". Eu o fitei neste instante, e ele sorria orgulhoso dos elogios. Orgulhava-se de ser um bom aluno. De tirar boas notas. Seus olhos claros brilhavam superando a pobreza de toda a vida que ele levava. Se eu não disse antes, acreditem, era um menino muito pobre. Com certeza morava no pé dos morros de areia que cercam Natal, em algum barraco com vários irmãos e talvez não tivesse mais nenhum outro motivo para sentir orgulho além de ser um bom aluno. A professora repetia: "Meu melhor aluno!".
Ele experimentava duas calças jeans no provador quando ela contando o dinheiro que tinha na carteira, faltava 20 reais para que ela comprasse tudo o que pretendia, independente da calça que o garoto de não mais de 15 anos escolhesse, desabafou: "É um menino tão bom! Mas não tem nada! Nada!". Eu pensei que ela estaria com olhos marejados, mas não estava. "Ele tem a mesma roupa para ir a escola todos os dias, mas mesmo assim nunca falta e estuda mais do que os outros! Eu precisava fazer alguma coisa!". E parou de contar o dinheiro quando o menino saiu com uma das calças. "Onde tem um caixa eletrônico?", me perguntou e eu indiquei a farmácia do outro lado da rua. "Empacote tudo aqui que eu volto já com o resto do dinheiro!".

domingo, 12 de abril de 2015

Analfabetismo

, em Natal - RN, Brasil
Cheguei a conclusão que nosso único problema, o único mesmo, a causa de todos os nossos males sejam eles sociais, políticos, religiosos e sexuais, absolutamente tudo!, é o analfabetismo histórico. Duvidam de mim? Vejamos alguns exemplos: o racismo. Se pretende resolver este problema a partir da exposição de uma igualdade baseada na Biologia/Genética, mesmo que isto não seja verdade. É visível que não somos iguais. Brancos, negros, índios, indus, orientais, árabes, judeus tem características físicas/genéticas que os diferenciam uns dos outros. Isto é um fato! Seja a quantidade de melanina, seja a suscetibilidade a algumas doenças. Somos sim diferentes! É preciso, na verdade, parar de jogar para debaixo do tapete esta realidade e começar a aceitar que a diversidade humana começa em nossos corpos. No lugar de ensinarmos que somos todos um, precisamos ensinar que todos somos diferentes, mas nem por isso merecemos ser tratados com desrespeito. O racismo se resolve facilmente quando reconhecemos que apesar de todas as diferenças nós, humanos, compartilhamos uma História em comum. Nós, brasileiros, americanos, europeus, africanos, asiáticos dividimos este planeta desde o começo do tempo. Porém se o conhecimento histórico fosse acessível a todos saberíamos que, neste mundo de meu Deus, nós fomos explorados igualmente explorados independente de nosso código genético. O problema definitivamente não está na inferioridade de alguns corpos, como os defensores da eugenia, de tempos em tempos repetem.
Outro exemplo? Eu poderia citar o papel ridículo da classe média brasileira pedindo o retorno da Ditadura Militar ou comparando o governo petista com um governo socialista. A falta de conhecimentos sobre o nossos governos ditadoriais ou sobre o que é socialismo me fazem quase chorar. De verdade! Posso também citar como os americanos elegem inimigos mortais a cada mandato presidencial. Inimigos que eram antes aliados, devo dizer. Clínton elegeu o Iraque; Bush, o Afeganistão; Obama, Irã e agora a Venezuela. Os americanos esquecem que seus presidentes só tem reais poderes em caso de guerra, que qualquer governador pode promulgar leis em sua federação, e portanto sem um inimigo (mesmo que imaginário) ele perde toda a utilidade. Se o conhecimento histórico fosse disseminado poderiam os americanos questionar o porquê de seu antigo aliado hoje é um inimigo. Hussein, os aiatolás afegãos, os fundamentalistas iranianos e até mesmo a economia venezuelana exclusivamente baseada em vender petróleo para os EUA e consumir seus produtos foram resultado  de influência direta dos americanos.
Exemplos não se acabam. O fundamentalismo islâmico e evangélico é resultado direto também do analfabetismo histórico. Dos fiéis pelo mundo que não conhecem a verdadeira História do Alcorão e da Bíblia. Que não leem seus livros sagrados a partir do contexto histórico que os formulou. Que acreditam que porque este conhecimento fora revelado por Deus os homens que os escreveram estavam imunes ao tempo que viveram. O analfabetismo neste caso está relacionado ao desconhecimento de um dos conceitos-chave da História: historicidade. Nenhum homem é imune a seu tempo. Nem mesmo profetas, nem mesmo o messias. Ninguém pode existir neste planeta sem viver sobre as suas regras e uma delas é o tempo. Homens que vivem dentro de um mesmo tempo, educados dentro de uma mesma sociedade, socializados dentro dos mesmos conceitos, só conseguem pensar seu mundo dentro de um certo limite. Conceitos como ateísmo, amor romântico, infância, escravidão, saúde, natureza, entre outros, não são imutáveis. Eles dependem do tempo em que existiram para serem definidos e pressupor que nossos conceitos de hoje são os mesmos de autores que escreveram entre 2 mil e 1500 anos atrás é o maior crime que alguém que já teve uma aula de História pode ter: anacronismo.
O analfabetismo histórico, portanto, leva diretamente a este pecado. Leva a acreditar que o mundo sempre foi do jeito que ele é hoje. Faz todos acreditarem que as relações entre homens e mulheres são naturais. É daí que se origina o machismo, "os homens sempre dominaram as mulheres", que se origina a homofobia, "os homens de verdade sempre foram assim", que se origina as críticas ao casamento homoafetivo, "o casamento sempre foi entre homens e mulheres". Sem o estudo da História, com seriedade, como elemento de transformação social, nós estamos fadados a acreditar que o mundo nunca foi diferente do que é hoje, tanto para o bem, como para o mal. Sem esta consciência, repetiremos os mesmos erros incessantemente e não reconheceríamos sequer que aquilo é um erro porque não saberíamos que o diferente é possível. Sem aulas de História, sem aulas que ampliem a consciência de crianças e adultos para além da experiência imediata que nossos sentidos são capazes de fornecer não nos tornaremos nunca seres humanos melhores.

domingo, 5 de abril de 2015

Eclipse

, em Natal - RN, Brasil
A maior diferença entre alguém que só quer sexo com você e outra pessoa disposta a te amar é a quantidade de energia e esforço colocada numa relação. Sexo, quem deseja somente sexo, segue a lei do menor esforço. É por isso que aplicativos para celular como o Grindr ou o Hornet fazem tanto sucesso. Você abre um perfil, troca meia dúzia de palavras e tem um cara na sua cama. É tipo delivery  de pizza. Muitos devem sentir falta do refrigerante que acompanha.
Do outro lado, alguém que pretende que um relacionamento seja mais do que um único encontro dedicado ao gozo, primeiro esforça-se para conhecer o outro (o que já é difícil por si), depois esforça-se para fazer parte da vida do outro (o que é bastante complicado porque envolve conciliar agendas profissionais e conquistar os amigos do outro)e, talvez o mais difícil, tem que abrir-se para o outro e este gesto, apesar de simples, envolve abrir mão de toda a sua segurança, suas redes de proteção, deixar-se possivelmente ferir ao baixar seus escudos e lançar fora a armadura, desnuando o peito. É difícil com certeza, e se você acha que direi mais satisfatório está enganado/a.
Apesar de eu considerar pessoalmente que as relações que vão além do sexo são mais enriquecedoras, esta opinião é puramente pessoal (não estou criticando quem acha o contrário) porque eu já explorei demais as relações de puro sexo. Para minha pessoa, no atual estado de minha evolução espiritual, o sexo pelo sexo não me ensina mais nada. Já concluí essa cadeira. Mas para um jovem adolescente ou um adulto que foi muito reprimido, meu conselho é: Aproveite! Faça muito sexo! Com todos os cara que você desejar!, mas não feche a porta para o amor quando você o encontrar. Já aos que procuram relacionamentos longos, duráveis e estáveis, eu não tenho nenhum conselho a dar, não sou sábio o suficiente para isso. Eu ainda estou nas turmas para iniciantes sobre o assunto, a única informação que eu tenho sobre isso é que quando alguém quer mesmo ficar com você ela não mede esforços, mas esta era a informação que iniciou este texto, minha única pérola que espero não ter atirado aos porcos.