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domingo, 21 de dezembro de 2014

Cores de Natal

, em Natal - RN, Brasil
Estou voltando do ensaio de um dos coros que participo. Eu vinha caminhando, tranquilo de minha vida, cantando Cores do Vento, de Pocahontas. Se pensa que esta terra lhe pertence, você tem muito o que aprender. Caminho para casa quando passo pela esquina da rua em que moro. Pois cada planta pedra ou criatura, está viva e tem alma, é um ser. Do outro lado da rua, estão sentados, na calçada, quatro garotos de no máximo 17 anos. Se vê que só gente é seu semelhante  e que os outros não tem o seu valor. Magrinhos, alguns muito bonitos, dois precisamente. Um branquinho de olhos grandes e assustados, rosto bonito, bem magro; e um negrinho, de corpo roliço, bunda perfeita e coxas grossas, este está sem camisa, mostrando a barriga e a cintura estreita que só destaca a bunda quando ele anda pela rua de paralelipípedos. Mas se seguir pegadas de um estranho, mil surpresas vai achar ao seu redor. Eles sempre estão por lá, ou na outra esquina um quarteirão acima, sob a marquise de uma padaria. Quando passo perto, isto é, do outro lado da rua, Já ouviu um lobo uivando para a lua azul?, escuto baixinho:
- 50!
Eu entendi, e ri por dentro, Será que já viu um lince sorrir?, obviamente entendi. Mas eu olho para eles e um dos garotos, talvez o mais feio, um negrinho de pele achocolatada, segura o pau, É capaz de ouvir as vozes da montanha?, repetindo:
- 50!
E com as cores do vento colorir.
Continuei caminhando para casa, Correndo pelas trilhas da floresta, havia uma família fazendo uma festinha algumas casas a frente, Provando das frutinhas o sabor, no alpendre em frente da casa, havia uma churrasqueira, Rolando em meio a tanta riqueza, e eles bebiam cerveja conversando animadamente, Nunca vai calcular o seu valor
Eles gritaram quando eu estava ali na frente.
- 50!!
Não vai mais o lobo uivar para a lua azul
Eu parei na frente do portão da vila que moro, e fui procurar a chave para poder entrar que insistia em sumir dentro da mochila. Já não importa mais a nossa cor. E eles gritaram novamente, sem se importar com mais alguém ouvir na rua. 
- 50!!!
Vamos cantar com as belas vozes da montanha.
Eu abri o portão e entrei, sem parar de cantar. 
Você só vai conseguir, desta terra usufruir, se com as cores do vento colorir.


domingo, 14 de dezembro de 2014

"Que delicinha!"

, em Natal - RN, Brasil

Venho caminhando a noite. Voltando de um jantar de trabalho regado a muito vinho do Porto, em que eu não comi nada, mas foram muitas taças de vinho. É uma quarta-feira e observo dois garotos caminhando de encontro a mim. Eu estou pensando que preciso de uma casa maior e mais confortável quando observo os dois por um segundo paralisado no tempo, eu estava em uma esquina, prestes a virar a direita, eles estavam do outro lado da rua, para atravessar para o lugar que eu estava. Não deviam ter mais de 20 anos, usavam camisetas polo e bermudas jeans, calçavam chinelos, pareciam irmãos ou primos, havia uma semelhança. Eram brancos, bonitos, inclusive, cabelos cortados baixinhos, o mesmo e exato corte, um deles falava ao telefone. Mas os vi e simplesmente retornei as minhas preocupações mundanas, e fiz a conversão a direita. Foi quando ouvi:
- Que delicinha!
E virei para trás, o que falava ao telefone não estava mais lá, vi apenas um deles, já saindo do meu campo de visão, escondidos por trás da parede, com um sorriso no rosto. E eu lembrei de Marina Abramovic. A dançarina fez uma performance que dizia para os visitantes que não se moveria por seis horas, não importa o que fizessem com ela. Ao mesmo tempo colocou a disposição, em uma mesa ao seu lado, 72 objetos que poderiam ser usados em seu corpo. Eram flores, poás, facas e até uma arma carregada, entre outras coisas. Os visitantes poderiam usar os objetos como desejassem, não havia limites. Inicialmente os visitantes eram pacíficos e tímidos, mas ao perceberem que ela realmente não reagiria, a agressão surgiu. Suas roupas foram rasgadas, ela foi cortada, enfiaram os espinhos das rosas pelo seu corpo, até a arma foi apontada para sua cabeça (sim, ela estava carregada). Ao fim da performance, Abramovic levantou-se e aí aconteceu o que eu considero mais importante e mais chocante nesta experiência artística (que se chama Rhythm 0): as pessoas que a feriram fugiram dela.
Sempre que se analisa a história do Rhythm 0, se observa a desumanização que a dançarina sofre quando se coloca a mercê dos visitantes, como rapidamente as pessoas se tornam sádicas infligindo-lhe dor, eu nunca observei por este ângulo. Eu noto é como as pessoas são covardes porque só demonstram seu sadismo quando o outro não pode defender-se. No instante que Abramovic levanta-se, aqueles que decidiram expressar-se, através do corpo dela, com violência fogem apavorados, pois temem serem responsabilizados por seus atos. É, pelo menos aqui em Natal, como estes garotinhos agem. Estas piadinhas são comuns e elas só acontecem nestas situações de que o autor se vê protegido de qualquer tipo de enfrentamento comigo e, por causa dessa impossibilidade de enfrentamento, eu muitas vezes fico em dúvida: eles são homofóbicos ou é uma cantada? Analisemos. 
Alguém pode parar agora e dizer: "Mas eles não foram homofóbicos, eles fizeram um elogio!". Será? Um elogio é feito diante de alguém, para que alguém escute, aquela foi uma cantadinha machista, como quando gritam gostosa na rua para uma mulher. O objetivo de gritar "gostosa" para uma mulher não é elogiá-la, mas reforçar o papel de homem-pegador e de mulher-objeto-do-desejo dentro das relações sociais. Quando o homem grita, sempre ao lado de seus confrades, ele reforça seu papel de macho-alfa no meio do seu bando, garantindo assim privilégios diante dos amigos, e também reforça entre os membros femininos do grupo que seu lugar é o de objeto a ser admirado por aqueles que detém o poder. Admirado e devorado (não é a toa que a expressão é "gostosa" e não "linda"). O mesmo acontece aí. Eles gritam para mim "delicinha", que não é diferente de "gostosa", e ainda ocorre na feliz coincidência que o gênero da palavra não deixa de me colocar no papel de mulher-objeto e deles como homens-dominantes. Disfarçado de elogio, a dominação ocorre.
Mas e se foi um elogio mesmo? Por que, diabos!, alguém faz um elogio a outro e não fica para receber os louros? Que espécie de fetiche é esse em que a pessoa sai pelas ruas a noite chamando as outras pessoas que encontra na rua de deliciosas e se esconde depois? Qual a utilidade de uma cantada que termina sem, no mínimo, o telefone do seu objeto de desejo? Qual o objetivo, pergunto curioso? Até porque eu não sei como reagir. Meu impulso foi responder:
- Vocês dois também são deliciosos!
Eu bem que achei naquele segundo que os observei. Mas minha prudência me fez calar. Porque se eles estão sendo homofóbicos, responder com o mesmo elogio seria colocá-los na posição de mulher-objeto no qual eles haviam me posto antes. Esta é a maior dificuldade que os homens héteros tem ao se verem assediados por um homem gay, eles de repente se vêem no lugar de objeto em que colocam as mulheres, no lugar de coisa, de criatura sem autonomia, de ser inferior. E aí eles poderiam se irritar e eu apanhar ali... quer dizer... eles dois apanharem muito de mim porque, gato, eu não apanho de homem nenhum nessa vida. #ProntoFalei. Não quero ter sangue de menininhos héteros na minha mão não. Ou eu devia mesmo ter respondido? 






domingo, 7 de dezembro de 2014

Ódio Praieiro

, em Natal - RN, Brasil
A praia da Pipa fica a, mais ou menos, duas horas ao sul de Natal, a precisamente 90,4 km de distância da capital, e é um pequeno distrito de Tibau do Sul que já foi vila de pescadores e agora reúne turistas europeus, hippies anacrônicos de toda a América Latina e uma atmosfera de resort mediterrâneo ou do filme Mamma Mia com a Meryl Streep (você escolhe a referência). As praias paradisíacas emolduradas por falésias coloridas, Mata Atlântica e saltos de golfinhos tem um único grande defeito: ela é, sem sombra de dúvida, a região mais antipática aos gays de todo o Rio Grande do Norte. É como uma ilha de heterossexualidade, o seu último reduto, no Estado dos índios bravios.
Avisei a Ronnie sobre isso, mas ele não acreditou. Ronnie é um amigo mineiro que agora vive na Bahia e me visitava por causa de um congresso, chegamos juntos a praia em uma noite de quarta-feira, era, de fato, um dia péssimo, mas ele queria aproveitar o que dava já que retornaria a terra de todos os santos ainda no fim da semana. Mas, apesar de ser quarta, havia muitos turistas, tanto brasileiros (ouvimos muito o sotaque paulista e carioca) e estrangeiros, muitas belezas também, dos tipos importados e nativos, mas nenhuma paquera ou olhares. Ronnie se decepcionou, mas como eu disse, parece que em Pipa é necessário deixar sua homossexualidade lá na entrada do vilarejo.
"Sério que eles não fazem?", ele perguntava. Eu contei-lhe que anos atrás tentaram abrir uma boate gay por ali e entre pichações com palavras de ódio e ordens para que deixassem a praia, um incêndio criminoso cujos autores nunca foram encontrados destruiu a boate na noite da inauguração. Eu conhecia as donas, na época, e elas fugiram apavoradas. E, sinceramente, seria um imenso acréscimo a noite de Pipa que, atualmente, não passa de uma rua estreita, com bares de música ao vivo, restaurantes de comida italiana  e creperias (nunca vi tantos concentrados em um espaço tão pequeno) e alguns poucos de comida regional. Conta-se de uma mítica boate, Calango's (sim, com apóstrofe, Natal sofreu uma praga que impregnou todos os nomes de casas noturnas e motéis com esta moda), que nunca saiu da década de 1980. E só. Não há muito o que fazer por lá.
Claro que durante o dia sempre podemos aproveitar a praia. Aproveitar as belas paisagens naturais, o mar intensamente verde e o sol que brilha sem trégua e, por trás dos nossos óculos escuros, observar os corpos dos surfistas tostando ao sol, dos nativos que nos servem cerveja barata nos bares com os pés na areia e camisetas coladas (obviamente nós escolhíamos os bares pela beleza dos garçons) e os turistas europeus que desfilam seus corpos em sungas minúsculas (Deus abençoe os italianos!). Também é possível aproveitar as aulas oferecidas por alguns dos nativos de surfe, standing up surfing e capoeira, curtir as pousadas e albergues ou aproveitar uma rede, inúmeras latas de cerveja e uma roda de amigos numa casa de praia. Você só não pode ser abertamente gay. Ai não pode.

domingo, 30 de novembro de 2014

O Ritual do Macho Man

, em Natal - RN, Brasil
Era tarde da noite já, eu voltava da igreja, havia pego o primeiro ônibus que me deixava mais ou menos perto de casa, isto é, uns 10 minutos de caminhada entre o ponto e a porta de minha residência por impaciência de esperar mais e, por isso, passei diante de um bar, como já havia feito milhares de outras vezes antes, mas desta vez, eu notei que um dos garçons reparou em mim. Ele era magro e alto, tinha uma bela bunda que se destacava dentro da bermuda jeans que eles usavam. Sim, ali naquele bar de esquina que ocupava parte da avenida com suas mesas, os garçons serviam os clientes de bermudas e chinelos. Ele tinha uns olhos verdes cor-de-mar, mas do mar de Natal, um verde pálido porque todas as cores aqui são meio pálidas, afinal o branco da luz do sol suprime tudo.
Eu, como não fujo de olhares, sustentei até ele baixar os olhos. Passei ao lado dele e ele estava de cabeça baixa, vencido no seu jogo de macho, mas percebo agora que não segui meus próprios conselhos para pegar hétero: fazer o papel da virgem constrangida que baixa os olhos e tem a face coberta pelo rubor da ingenuidade (eu, na verdade, nunca faço isso e depois reclamo que ninguém chega em mim, quando é que eu dou oportunidade para alguém? Se me interesso e a pessoa corresponde pelo menos com um sorriso, eu não fico esperando o outro agir, mas voltando...). Por curiosidade, dois paços a frente dele eu olhei para trás e ele me acompanhava e riu neste momento, comentando com o colega que estava próximo dele algo, mas somente quando viu que eu estava distante o bastante para não conseguir ouvir. Eles então riram juntos e o deboche seguiu-se de um assovio. E outro, e outro.
Caminhando, sem olhar para trás, eu fiquei pensando na lógica maluca dessas pessoas. Pelo menos comigo, homens não se sentem seguros a me insultar sozinhos, e muito menos para mim. Deve ser algo que faz parte do ritual de socialização do homem heterossexual (nunca participei dessas coisas, então, não sei se é): fazer uma piada para seus confrades sobre aqueles outros que estão, hierarquicamente, abaixo deles, no caso gays, mas também mulheres. Eu sempre penso que a piada não tem, de fato, o objetivo de ferir seu alvo, somente de reforçar os laços entre aqueles homens e o seu lugar como um igual dentro do grupo. Não que a piada deixe de ser homofóbica porque não tem o objetivo de atingir o homossexual, ela continua sendo porque seu núcleo é de que existe em homens mais homens e outros menos homens, cabendo ao primeiro o controle sobre o segundo tipo.
Por outro lado, a piada que eles resolvem fazer é flertar comigo. A visível timidez dele (ele baixou os olhos) é superada no instante em que ele consegue um amigo, coisinha típica de machos adolescentes, e aliado a um amigo ele pode assoviar para mim para todo o bar ver, para todo o bar ouvir. O comportamento é obviamente fundado em mais machismo. No conceito de que homem de verdade deve estar sempre sexualmente disposto e, aqui no Nordeste, isto inclui também "não negar fogo" caso uma bicha (moi!) se insinue. E não importa para eles se eu somente havia passado a caminho da minha casa, o mesmo imaginário que faz de todo homem heterossexual um garanhão disposto ao sexo faz de todo homem homossexual um promíscuo disponível para se tornar objeto (neste sistema todo homossexual é necessariamente passivo e quer ser dominado por um macho heterossexual). Como mulheres, nós existimos para sermos objeto de prazer do "homem de verdade", mas enquanto a elas cabe o dever de negar, em defesa de sua honra, até que o homem de verdade a seduza, aos homens gays, por definição homens sem honra, é inconcebível que recusem ao sexo independente de quem seja seu parceiro.
É uma lógica doente, sinceramente. Estes homens acreditam-se detentores de poder sobre o corpo tanto de mulheres quanto de homens gays, mas como reagir a isso? Nós, as vitimas? Ah, e antes que alguém diga que ele na verdade estava interessado, que era uma cantada: primeiro, você está sofrendo de Síndrome de Estocolmo, aquela em que os sequestrados/torturados desenvolvem sentimentos pelos criminosos que os agridem, por isso você não enxerga o machismo que te banha todos os dias; segundo, se ele tivesse somente interessado em mim, qual a necessidade do amigo participar do seu flerte? Ele apenas repetiu um ritual para reforçar os laços com os outros machos do bando que acontecerá novamente toda vez que algum viado ou qualquer mulher (que não seja ligada a ele por parentesco de primeiro grau, isto é, avós, mães e irmãs) passar na frente do bar; terceiro, bora largar esse romantismo?

domingo, 23 de novembro de 2014

Street View

, em Natal - RN, Brasil
Saio as 11 horas da manhã de uma reunião de trabalho que começou três horas antes e caminho até à sombra do abrigo do ponto de ônibus para esperar minha condução, sob o sol escaldante que já brilha no céu de Natal anunciando um verão que será como todos os outros: quente. A parada do coletivo fica ao lado da Vila Naval, um condomínio militar com suas cadas padronizadas, pintadas de azul e branco. Dois jovens usando uma regata e um short curto, nas mesmas cores das paredes e portas das residências, exibindo braços musculosos e pernas torneadas, faziam reparos numa parede não muito distante. Eram aspirantes a marinheiros, acho. Eu me perdi em pensamentos de como seria crescer gay dentro daquele ambiente (com aqueles homens circulando por ali com aquelas roupas minúsculas) somente para me encontrar quando vejo alguém, do outro lado da rua, balançando um imenso pacote que ele guardava dentro da bermuda.
Assustado, me recuperei a tempo de perceber o que estava acontecendo. Era provavelmente um morador de rua, nem bonito, nem feio, mas bastante sujo. Ele ainda estava distante quando começou a pegar no próprio pênis, masturbando-o por cima do tecido da bermuda surf wear que usava enquanto me encarava, mas somente quando ele estava mais próximo, do outro lado da avenida larga, que eu pude notar o volume imenso que ele carregava. Devo ter arqueado as sobrancelhas neste momento, de susto!, mas ele, como um gato, deve ter interpretado aquilo como aprovação, como elogio ao tamanho imenso do pau dele, foi aí que ele sorriu para mim e piscou um olho. Eu virei rapidamente o rosto, olhando em direção de onde viria meu ônibus, esperando que ele seguisse o seu caminho e pensando: esse tipo sempre nota a minha presença né? 

domingo, 16 de novembro de 2014

Creta: Entre Patos e Flores

, em Natal - RN, Brasil


Para pensar o mundo micênico é importante lembrar de uma informação importantíssima: estamos numa sociedade matriarcal. O poder ele não passa de rei para filho, ele passa de rainha para filha, é casando-se com a princesa que um homem se torna rei. Bettany Huges, em seu Helen of Troy, e Judith Starkson lembram que são as mulheres nas epopeias homéricas que são cobiçadas porque é através delas que o poder pode ser conseguido. Helena de Esparta, Cassandra de Tróia, Clitemnestra de Micenas, Penélope de Ítaca são cortejadas porque é ganhando esta esposa que se ganha o trono das cidades de onde elas são rainhas ou princesas. Explica-se que mesmo que um filho da rainha assuma o trono, ela continua sendo rainha até a sua morte, porque somente sua filha poderia substituí-la de fato. Pensando assim não é surpreendente uma guerra imensa entre Esparta e Tróia pela posse de Helena (o tema da Ilíada), esta guerra é uma guerra sobre a posse do direito de reinar na Lacedemônia e toda a região do Peloponeso controlada pelos espartanos. 
E elas também não tem um papel meramente ritual, como algumas pessoas poderiam afirmar. Como a Odisseia deixa claro, na ausência de Odisseu (Ulisses) em Ítaca, por causa da guerra, Penélope gerencia o oikos (ao pé da letra, casa, mas também podemos traduzir como a economia) do reino. Clitemnestra, explicam sobretudo as peças clássicas, também conduz Micenas com o afastamento de Agamêmnom por causa da guerra. Mas, também é verdade, que com o início da Idade do Ferro (por volta de 800 a.C.) o poder que estava nas mãos das mulheres migra para mãos masculinas, mas existe m duas remanescências desta época longínqua: Hera e Leto/Ártemis. 
Zeus casa-se com sua irmã, Hera, porque somente assim ele pode herdar o trono. O epiteto frequente da rainha dos deuses, "olhos bovinos", sugerem que a deusa está relacionada com a terra em que Zeus nasceu, Creta cultuava os touros e vacas, porém em Olímpia o templo de Hera, Heraion, é mais antigo que qualquer templo dedicado a um deus masculino. Afirma Mary Lefkowitz que é somente após a decadência da civilização creto-micênica que Zeus torna-se um deus mais importante que Hera. É tendo este contexto em mente que podemos falar das relações homoeróticas que as mulheres creto-micênicas possuíam.
A primeira questão é que, explica Paul Rebak, nenhum vestígio arqueológico desta civilização já encontrado (seja cerâmica, escultura, textos, etc) descrevem/mostram cenas sexuais, ao contrário do que se vê no Egito, Mesopotâmia ou mesmo a Grécia séculos depois. Entre os cretenses, micênicos e egeus existe um código moral que não permite que o sexo seja tratado de forma tão aberta, nem se tratando de homens, nem de mulheres, Por isso ao pensarmos um afresco pintado entre 1700 e 1400 a.C., precisamos abrir nossa mente para procurar pistas sobre a sexualidade feminina, nada será explícito! O prédio em que se encontra o afresco Xeste 3 foi preservado por uma erupção vulcânica em 1625 a.C., sendo um dos raros exemplares de pintura cretense já que a maioria que chegou até nós não passam de pequenos pedaços. O tempo não foi generoso. Obviamente, quando o prédio foi encontrado, as discussões dos historiadores e arqueólogos não cogitaram nenhum teor sexual nas figuras primeiro por causa dos preconceitos dos mesmos, mas também por causa de uma inabilidade dos historiadores até a década de 1960 de lidarem com o imaginário em representações pictográficas, pelo menos até Rebak escrever seu ensaio dentro do Among Women: From de Homosocial to the homoerotic in the Ancient World.

Esquema dos afrescos de Xeste 3

Como os egípcios, a pintura cretense estabeleceu um padrão para pintar homens e mulheres, homens eram vermelhos; mulheres, um pálido amarelo. Uma estilização pictórica. As pinturas são ricas em estilos de penteados, vestidos, joias, diferenciação de idades, inclusive o tema do afresco é a passagem do tempo e a vida de uma mulher, desde seu nascimento até sua morte, mostrando cada fase da sua vida, sua primeira menstruação, seu trabalho, sua adoração aos deuses (no caso é Ártemis), etc. Por causa destes inúmeros temas, este afresco foi estudado por vários pesquisadores preocupados desde questões como moda, direitos políticos das mulheres, ou crises alimentares com baixo consumo de vitamina A, mas todos fechavam os olhos para as possibilidades de estudar-se sexualidades homoeróticas.  
Historiadores, no entanto, concordam que os ritos de passagem femininos estão descritos ali, cinco estágios para ser mais exato: a infância, marcada pelo cabelo raspado ao fim; a adolescência dedicada a serviço da deusa; depois o rosto coberto por um véu (neste caso para as mulheres que desejam se tornar sacerdotisas); a mudança de roupa já como uma mulher adulta e, por fim, o casamento e sentar-se junto ao marido na hydria. Contudo, nada realmente sexual aparece nestas cenas, afinal como dissemos antes não é de costume cretense mostrar neste assunto, é portanto necessário entender os símbolos que aparecem na pintura. Paul Rebak comenta dois: os patos e paisagens floridas.
William Percy, em Pederasty and Pedagogy in Archaic Greece, afirma que a arte micênica dominava os símbolos sexuais. Cobras, touros, vespas são símbolos do sexo masculino/entre homens; já Rebak explica em seu Imag(in)ing a Women's World in Bronze Age Greece que os patos são associados a sexualidade feminina, eles aparecem decorando o pescoço de Ártemis, e também em revoada quando temos uma cena em que doze garotas aparecem juntas dançando para a deusa; o mesmo acontece com paisagens cobertas de prados floridos, esta situação edílica só aparece quando mulheres estão sozinhas na imagem. Sem nenhum homem. 


domingo, 9 de novembro de 2014

"Covardes, Estupradores e Ladrões"

, em Natal - RN, Brasil
Estava lendo Masculinidades, o livro organizado por Mônica Schpun, e um dos textos escritos pela antropóloga paulista, professora da UnB, Lia Machado, Masculinidades e violências: gênero e mal-estar na sociedade contemporânea, me fez pensar. O texto fala sobre estupros e violência doméstica através de entrevistas com os próprios estupradores e os agressores, eles explicam porque cometeram tais atos e ela explica o raciocínio machista que faz com que estes homens pensem que não cometeram crime nenhum pois, segundo eles, toda mulher estuprada queria fazer sexo e toda mulher agredida precisava aprender uma lição. Lia, se ela me permite a intimidade de chamá-la pelo primeiro nome, é adepta (como eu) da corrente histórico-sociológica que admite que o gênero são construções simbólicas que podem ser datadas no tempo, no espaço e, sobretudo, nas culturas. Ela chama isto de "construtivismo de gênero", e para citá-la (que faz bem): "os gêneros são construídos cultural e historicamente, podendo, assim, variar em número, em identidades e diferenças, ou até mesmo desaparecerem". Como eu já repeti aqui várias vezes. Homens e mulheres, masculino e feminino não são categorias naturais, elas são construções históricas que advém da revolução burguesa do século XIX e início do XX, isto é, esta coisa que nós consideramos natural foi inventada há mais ou menos 150 anos, seu vaso sanitário, aquele que você usa no banheiro, é mais natural já que foi inventado há pelo menos 3 mil anos atrás. 
Falando com os estupradores, a lógica de raciocínio destes homens me fez lembrar daquela que coloca os gays ativos numa posição superior aos gays passivos (inclusive de agora em diante eu irei me referir a este tipo de preconceito como "a lógica do estuprador", vocês também estão livres para usarem minha nova expressão). No imaginário do erotismo ocidental, como sabemos, o lugar do masculino na relação é pensando como aquele que se apodera quando penetra, este é o sujeito da relação sexual e, portanto, ATIVO; enquanto aquele ou aquela que é penetrado/a é identificado como um objeto do prazer do primeiro, um PASSIVO. É importante perceber que o sujeito ativo da relação sexual é o único que cabe ter prazer, mulheres e homens que se colocam numa relação passivamente não podem sentir prazer porque objetos não sentem prazer. Quando, e vemos isto sobremaneira com relação a mulheres, este objeto sexual exige seu próprio prazer, ele é combatido porque não cabe ao feminino gozar. 
É sintomático as palavras que nós escolhemos para separar nossas preferências sexuais. Em inglês são usados com frequência os termos top (de cima) e bottom (de baixo), com uma clara referência as posições na cama, o mesmo se dá em finlandês (päällä e alla), mas os termos pitcher (pegador) e catcher (pegado) também existem; como em português, no francês, alemão, turco, italiano, servo-croata, polônes e russo, os ativos e passivos reinam; também matendo o mesmo sentido de aquele que penetra sendo o que tem o controle da ação: em grego, energeticos (o que age) e patheticos (o que recebe a ação) e em chinês, gong (o que ataca) e shou (o que se submete). Como exceções, porque toda regra tem a sua, o japonês faz metáforas, tachi (longa espada) e  neko (carrinho de mão); o árabe compara a correntes elétricas, mojib (positivo) e salib (negativo), e que fique claro que isto não é um julgamento moral, são as mesmas palavras usadas para distinguir os polos de uma pilha, por exemplo, e o espanhol que apesar de também conhecer o activo e pasivo, usa com bastante frequência soplanuca (sopra nuca) e muerdealmohadas (morde fronha/almofada).  
Não é interessante de como estamos inundados por este machismo e nem nos damos conta dele? Nós mesmos que somos gays escolhemos as palavras para nos definir e caímos no esquema que divide nossa sociedade a partir da dicotomia masculino e feminino. Nós criamos um homem, o ativo, e uma mulher, o passivo, e esperamos de cada um deles comportamentos masculinos e femininos. Quer exemplos? Todos se surpreendem ao encontrar uma drag queen ativa, todos acreditam que porque tal menino é mais delicado e efeminado ele necessariamente é passivo, todos aguardam que porque aquele cara não tem trejeitos ele vai ser o ativaço na cama. Nós que poderíamos romper com tudo isso, que foi nos dado por Deus o dom de superar todas estas questões machistas na sociedade e viver relacionamentos realmente livres de padrões impostos socialmente, acabamos por reproduzir o sistema heterossexual no seio de nossas relações.
Lia Machado conclui sua fala com os estupradores assim: "O ato do estupro parece sintetizar a confusão entre a ideia de masculino como parecendo advir do único corpo sexuado que se apodera do corpo do outro, parecendo ter o falo, isto é, a potência e a força, e a ideia de masculino como parecendo ser a lei, já que neste ato sexual suprime-se a mulher três vezes: enquanto corpo sexuado que pode se apoderar de outro corpo, enquanto sujeito desejante e enquanto sujeito social que participa da confecção da lei". Extrapolo facilmente isto para o mundo gay. Considerar que o ATIVO tem alguma situação social superior a sua contraparte, considerar que a este cabe potência e força, repetir para ele e exigir dele os modelos de conduta do homem heterossexual é considerar que o homem gay PASSIVO: 1) não tem o poder de dominar um outro homem, e o que quero dizer com isso é que ele não tem um namorado, o marido não é dele, ele não tem nada, ele pertence a outra pessoa, vive para a outra pessoa, depende do outro para ter sua própria existência; 2) não é um ser sexuado, isto é, ele não tem desejo, nem prazer sexual, ele apenas serve ao seu homem como objeto para dar-lhe prazer, um problema grande também sobre isso é a fantasia sobre o pênis e o orgasmo masculino, a questão de acreditar-se que o único tipo de prazer sexual que você pode ter é se houver ejaculação, isto é, repetir o ultrapassado modelo heteronormativo (a Sandy já disse, é possível ter prazer no sexo anal); e, 3) por fim, o gay passivo não é um sujeito social, estes sujeitos não têm o direito de existir, ele deve ser apagado da nossa sociedade o máximo possível inclusive naquilo que nós julgamos como denunciador de passividade, no caso, ser efeminado, em outras palavras, tudo bem você ser gay, tudo bem você adorar dar o cu, mas ninguém precisa saber. 
Os homens gays repetem lógicas doentias quando, como eu disse, Deus nos deu a chance de vivermos livres delas e de mostrarmos ao mundo o quanto podemos ser felizes se nos libertarmos das imposições que a sociedade criou séculos atrás e disfarçou de natureza para nos ludibriar. Este é nosso papel na sociedade, afinal de contas: quebrar paradigmas! A família não é somente homem e mulher, um relacionamento não é um homem controlando e uma mulher obedecendo, um filho não é somente uma criatura com seus próprios genes e, às vezes, nem da própria espécie, roupa masculina não é só bermuda cargo, camiseta e tênis esportivo, existimos desde sempre mostrando que o mundo está repleto de possibilidades e, no último século, que mudar não faz mal, por isso não podemos reproduzir os erros deles. Nós somos melhores, não somos?