sexta-feira, 16 de março de 2012

Tentativa de Fuga

, em Natal - RN, Brasil
Eu subi no ônibus cantarolando a última música do ensaio do coral que faço parte daquela noite. Pisei no primeiro degrau repetindo a nota final de agnus dei, qui tollis pecata mundi para não esquecer que ela é a mesma que começa miserere nobis. Cantava baixinho quando paguei os R$ 2,20 da passagem e ouvi a máquina anunciar aos outros passageiros "inteira". Até ali, não havia reparado em quem estava dentro do ônibus, somente em uma menina de batom vermelho, sentada ao lado do cobrador, que reparava na marca da minha camisa pólo. Ao, no entanto, cruzar a roleta, me deparei, frente a frente, com ele. Olhos escuros, de ressaca, loiro, alto e com músculos que se faziam aparentes na manga da camiseta que usava. Ele me olhou no fundo dos olhos e como uma vítima hipnotizada eu me deixei ficar dentro deles por alguns segundos. Mas me recuperei, me recuperei e fui para o fundo do ônibus. Longe dele.
Eu continuava cantando, em pé, no fundo do ônibus, resolvi não sentar, o fundo do ônibus estava lotado de adolescentes vindos da escola. Agnus dei, quie tolli pecata mundi, dona nobis pacem, baixinho. Quando vejo os mesmos olhos magnéticos me sugando lá da frente do ônibus. Resolvo sentar, entre os estudantes mesmo. Pensava eu com meus botões abertos que aquilo não tinha como resultar em coisa boa. Sentado, desta vez reparei em um menino, também loiro, não mais de quinze anos, de lábios bem rosados. Reparei que ele virou-se no banco, dando as costas para a frente e virando-se para mim. Ele me encarava sem vergonha, como os adolescentes costumam fazer, ao mesmo tempo que continuava conversando animado com seus amigos de escola. Ele ainda estava com seu fardamento, uma escola católica administrada por freiras. Até que ele sorriu para mim. Somente o canto esquerdo de sua boca subiu, mostrando os dentes brancos e movendo junto sua sobrancelha. E eu baixei a cabeça, abri minha pasta de partituras e fiquei relembrando mentalmente a nota de mundi que continua em miserere, até chegar o meu ponto, onde levantei, me preparando para sair.
Caminhei no ônibus olhando para frente, fugindo do olhar do adolescente, a porta ficava no meio do caminho, mas de pé, encontrei outro olhar que esbarrou no meu e demonstrando surpresa passou a me admirar interessado. Moreno desta vez, com cachos caindo sobre sua testa, olhava-me com insistência, porém desceu antes que eu precisasse fugir. Mas desceu no mesmo ponto que eu. Ao descer, eu o vi ainda parado por lá, como se esperasse por algo. Olhava para o horizonte, tentando parecer, imagino, que não esperava ninguém em específico, talvez um segundo ônibus. Todavia, no momento que eu passei por ele, miserere nobis, miserere nobis, eu percebi que ele começou a me seguir. Vinha conversando no telefone, falava bem alto, mas eu não prestei atenção a nenhuma de suas palavras, até que passamos pela esquina de uma rua escura, ele do meu lado, virou-se rápido para mim, dizendo: "Eu vou por aqui, me segue?". Eu fingi que nada acontecera e segui meu caminho direto.
Alguns quarteirões depois, entro a esquerda e já estou perto de casa, quando cruzo com um vizinho, o qual eu admirava em minha juventude adolescente. Sem sombra de dúvida, o mais bonito de todos os jovens homens que moravam por ali. E, por anos, brincávamos de um flerte inofensivo que nunca passou de longos olhares, sorrisos e cumprimentos: "Oi, tudo bem?". Ele se chama Mike. E agora o menino bonito que ele fora se transformou em um homem muito bonito. O corpo continua o mesmo de cinco anos atrás, quando deixei Natal, saradíssimo, mas agora ele aparenta a maturidade dos trinta anos que se aproximam. Ele passou por mim e me cumprimentou, eu respondi o de sempre: "Oi, tudo bem?" também. Continuei então meu caminho somente para alguns passos depois ouvi-lo me chamar, pedindo que eu o esperasse. Chegou sorrindo, apertando seus olhos negros que contrastam com sua pele clara. Falou com voz de malandro que a gente se conhecia há muito tempo e apertou minha mão. Dona nobis pacem, dona nobis pacem. E tocou meu ombro, apertando. "Quando vamos marcar esse rolé então? Já está na hora!". Eu tentei balbuciar uma resposta, surpreendido, mas ele antes disse algo: "Aí, boy, ser que tu não tem cinco reais p'ra me emprestar não?".

MORAL DA ESTÓRIA:
Por mais que você fuja, quando algo tem que acontecer, sempre acontece.

terça-feira, 13 de março de 2012

Índia: O Terceiro Gênero

, em Natal - RN, Brasil


O Manusmriti fala sobre as origens biológicas do terceiro gênero, isto é, um gênero colocado entre os dois utilizados por nós, o masculino e o feminino. No capítulo III, verso 49: "uma criança masculina é produzida quando existe uma quantidade maior de semente masculina, uma criança feminina é produzida quando existe uma prevalência da semente feminina; se ambos são iguais, uma criança do terceiro sexo [napumsaka] ou duas crianças gêmeas são produzidas; se os dois são fracos ou deficientes em quantidade, a concepção não se dá". Abaixo vou listar os tipos mais comuns de terceiro gênero encontradas no Hinduísmo. Ele são estimados em, mais ou menos, meio milhão de eunucos crossdressing, associados a vários templos e deidades hindus. Apesar deles serem chamados de eunucos, no entanto, a maioria dessas pessoas (91%) não praticam a castração.


Os Aravani ou Ali
Este é o grupo mais numeroso de terceiro gênero (estimado em 150 mil pessoas). Eles vivem basicamente no sudeste da Índia e são o grupo mais típico. São formados tanto por homens que se tranformaram em mulheres como por mulheres que se transformam em homens. Tem uma importância grande no festival de Koovagam, celebrado entre abril e maio, em homenagem ao deus Aravan, e não praticam a castração.

Os Hijira
Estes são o grupo mais bem conhecido de terceiro gênero da Índia, e estima-se que sejam por volta de 50 mil. Vivem basicamente no nordeste do país, e são o único grupo que pratica a castração, um costume introduzido após a invasão muçulmana no século XX. Inclusive a castração masculina não é recomendada nos Vedas e não aprece em nenhuma outra prática hindu.  Existe uma crença de que os hijiras da Índia seriam hermafroditas (intersex) e que, neste caso, entrariam no comunidade ao nascer ou numa tenra infância, contudo as entrevistas feitas por Serena Nanda em Neihter Man Or Woman: The hijiras of India demonstraram que estes entravam no grupo voluntariamente e sempre após a adolescência.Sinha, em 1967, falando dos hijiras do norte do país, de Lucknow, afirmou que a entrada no grupo costumeiramente acontecia por causa da satisfação dos desejos homossexuais daquelas pessoas. Nanda também afirma: "Não existe a menor dúvida que no fim alguns hijiras - talvez a maioria - são prostitutos homossexuais". Eles são especialmente protegidos pela Bahuchara-devi, deusa que protege os transexuais.

Os Jogappa
O grupo menos conhecido de terceiro gênero da Índia que habitam o sul do país (Karnataka e Andhra Pradesh) e intimamente associado a prostituição. Contudo eles também são grandes dançarinos e participam do culto no templo como devadasis, isto é, servos da deusa, que no caso é Yellamma-devi, deusa extremamente popular em Durga. O  grupo inclui tanto homens que se travestem de mulher como mulheres que se travestem de homens e também não praticam a castração.

Os Sakhi-Behki
Este grupo, que vem se reduzindo ultimamente, era muito comum na região de Bengala, Orissa e Uttar Pradesh. Estas pessoas não são necessariamente transgênero ou homossexuais, em alguns casos são, porém na maioria dos membros deste grupo se vestem como mulheres para reforçar a identidade de sakhis (namorada) de Krishna e para atingir a emoção espiritual conhecida como sakhi-bhava. Recentemente, eles passaram a ser condenados sobretudo porque alguns membros do grupo realizavam shows públicos nos quais para mostrar seu amor a Krishna um sakhi-bekhi tinha relações sexuais com um cudadharis (um homem vestido como Krishna coroado com penas de pavão). Hoje em dia, a maioria dos sakhi-bekhis se veste apenas na privacidade da sua casa, sendo mais discretos, se vestindo como Sri Radha, a consorte de Krishna, mas alguns também tem se vestido como Caitanya, uma imagem que reúne Radha e Krishna juntos e são conhecidos como gauranga-nagaris. Nenhum desses grupos, no entanto, pratica castração.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O Verdadeiro Inimigo

, em Natal - RN, Brasil
O Dia Internacional da Mulher, comemorado neste 8 de março, nos faz pensar sobre o inimigo em comum que persegue mulheres e homossexuais: o machismo. Madonna já dizia, em 2000, em What it feels like for a girl que girls can wear jeans and cut their hair short, wear shirts and boots, 'cause it's OK to be a boy, but for a boy to look like a girl is degrading, 'cause you think that being a girls is degrading. E nestes versos explica-se a origem de toda a homofobia na história recente da humanidade. A homofobia, que tem sido a causa da morte de muitos homossexuais, se origina basicamente do rompimento da relação de dominação existente entre homens e mulheres em nossa sociedade ocidental (falo ocidental porque a homofobia em países árabes, por exemplo, tem uma origem diversa). Em nossa sociedade, os homens se colocam numa posição superior de dono, de dominação, de subjugador, enquanto a mulher é reservado o lugar oposto, de coisa, de passividade, de ser dominado. Esta situação é expressa também no sexo, em que ao homem cabe a posição ativa de conquistador ao qual a mulher, que não gosta de sexo, sede, graças as habilidades extraordinárias dos homens.
O homossexual, no entanto, rompe este paradigma. Primeiro, porque ele se permite subjugar. Este homem, no sexo, se coloca na posição de possuído, de passivo, de fodido. Ele intencionalmente abdica de seu poder de homem para ocupar uma posição feminina. Ele abre mão do seu poder, o que é inadmissível. Outro problema é que, como ele se relaciona com outro homem, a relação entre eles tende a se tornar uma baseada em igualdade, em que ambos tem as mesmas responsabilidades. Não existem papéis pré-definidos. O relacionamento heterossexual, então baseada numa divisão de gênero que tende a se naturalizar, é ameaçada. Os namoros e casamentos gays comprovam que os entre homens e mulheres heterossexuais não são, simplesmente, naturais e que os papeis definidos para cada um deles não foi colocado por Deus. "Disse também à mulher: 'multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para teu marido e tu estarás sob o seu domínio".
O machismo tem como seu modus operandi exatamente criar um modelo de homem e outro de mulher no qual os papéis são colocados e obrigados a serem mantidos sob o risco destas pessoas, que fogem a regra, serem expulsos do sistema. A homofobia também é resultado disso, e ela começa com o bullying homofóbico. O bullying é a reação infantil de exclusão de outra criança que não cabe dentro do modelo machista. Em outras palavras, o bullying parte sempre de uma criança que é educada a acreditar que os papéis para homens e mulheres são claros e opostos, preto e branco, que existem comportamentos que só podem ser realizados por homens e outros apenas para mulheres. Esta criança então, de repente, na escola, local onde ela realiza sua primeira socialização, é exposta a uma outra criança que não cabe nas expectativas dela. Exposta a uma menina que não combina com o que ele considera como feminina, ou um menino que não corresponde ao papel de "macho" que ele foi ensinado a esperar. Um exemplo simples: é um menino que apesar de heterossexual é chamado de viadinho na escola porque não gosta de futebol. As outras crianças foram educadas, por seus pais, a acreditarem que todo homem gosta de futebol, para ser homem então, acreditam eles, que é necessário gostar de futebol.
O machismo ataca as mulheres que se recusam a assumir o papel que as reserva. Mulheres apanham de seus maridos porque tentam ocupar um espaço que não lhes pertenceriam, maridos acabam casamentos porque suas esposas passam a ganhar mais que eles, empresas pagam 40% menos para mulheres que ocupam o mesmo cargo que homens. O machismo também persegue os homossexuais exatamente porque estes homens também se recusam a seguir esse modelo. Ironicamente, o machismo faz uma exceção, no caso dos homossexuais. O gay que continua participando da regra machista,  o que continua a replicando, isto é, o que fala "eu sou gay, mas sou homem", ele se torna permitido neste ambiente. Não aceito, mas sua existência não é mais uma ameaça porque ele continua apoiando o machismo e garantindo sua existência. Por isso mesmo, não é a toa, que os homossexuais que mais rompem com o paradigma do homem macho, os travestis e efeminados, são os que mais são atacados em crimes de motivação homofóbica e que, normalmente, terminam em morte. Do outro lado, as lésbicas, uma segunda exceção, são permitidas porque elas são encaixadas na fantasia do harém (nada mais machista) e na certeza de que elas, quando encontrarem o homem que lhes falta, abandonaram esta vida. 
O Dia Internacional da Mulher precisa ser comemorado também pelos homens homossexuais, a mesma luta precisa ser feita. Todos os homossexuais precisam também se erguer para defender as mulheres, porque lutar pela igualdade entre homens e mulheres é também lutar para o fim da discriminação que sofremos todos os dias. 




terça-feira, 6 de março de 2012

Aplauso aos Parlamentares

, em Natal - RN, Brasil
Caros senhores, parlamentares desta nação, eu não vim aqui para acusá-los de homofóbicos, palavra tão feia, muito menos vim para dizer-lhes o quanto é segregador este discurso de que gays, lésbicas e seus congêneres não são normais; também não vim implorar pelas crianças que se suicidam por causa do bullying homofóbico ou relatar que mais de duzentos crimes com expressa motivação homofóbica ocorrem anualmente neste pais e que pessoas como eu e meus amigos correm risco de vida simplesmente por existirem. Eu não vim aqui para isso, vim aqui para aplaudi-los. 
Aplaudo vosso trabalho, senadores, deputados e vereadores do pais em que nasci e vivo. Aplaudo porque é óbvio que os heterossexuais precisam de proteção contra a horda de viados que vem invadindo a pacata nação brasileira. Nos meus 30 anos de vida vejam o quanto tudo mudou. Vejam, nos anos 80, somente Rogéria e Roberta Close eram permitidas na TV; os anos 90 adicionaram Vera Verão ao circo, e hoje, além de mostrarem casais homossexuais que são praticamente "normais" (as aspas é porque se é um casal gay é óbvio que o adjetivo normal não se aplica), querem permitir o beijo gay na TV, em frente as inocentes crianças heterossexuais de vossas senhorias. Outra coisa, na década de 1980 ser gay era o que deveria ser: vergonhoso! Os militares, através da Delegacia de Ordem Política e Social, prendiam-nos, os desviados, por vadiagem. Isto sim um trabalho digno. E agora, nós, gays, nos atrevemos a ter orgulho do que somos, orgulho o bastante para não ter vergonha de demonstrar afeto em público àqueles que amamos. Nós tivemos a ousadia de sair do gueto, de criar bares e boates tão sofisticados que atraíram os filhos héteros das boas famílias brasileiras. E tivemos a empáfia de permitir que vocês convivessem em paz em nosso meio. Por isso, vos aplaudo.
Diante desta situação ridícula de ditadura gay que se instalou era imprescindível que os defensores de Deus, da família e da nação tinham que agir. A bomba na parada de São Paulo e os ataques na Av. Paulista deveriam ter nos servido de aviso. O tiro nas costas de um viado no Rio também. Vocês nos avisaram para voltarmos ao nosso lugar, nos avisaram que não permitiriam que tomássemos o que é de vocês por direito. Vocês então aprovaram o dia do orgulho heterossexual, com toda razão, pena que o viado do Kassab vetou. Mas eu ainda aplaudo a perseverança de vossas senhorias.
Senhores parlamentares há algo mais nacionalista do que ignorar a Organização Mundial da Saúde, órgão da ONU, ou seja, completamente subserviente ao controle dos demoníacos norte-americanos, e propor que a homossexualidade volte a lista de doenças mentais, volte a ser homossexualismo, como vocês sabiamente sempre a trataram. Aplausos! Também é necessário mostrar ao Conselho de Psicologia que eles não têm o direito, em um estado democrático, de serem independentes em relação ao Estado. Um autarquia? Anarquia isso sim! Um psicólogo não deve tratar o distúrbio egodistônico que faz com que o homossexual não se aceite como é, deve tratar a raiz do problema. Se ele não fosse homossexual, não sofreria com o preconceito e não sofreria também pelo seu próprio preconceito, a culpa é do homossexualismo. Por exemplo, se o menino que se suicidou na escola em que eu trabalhava por que era gay não teria se matado se fosse hétero, por que ele não sofreria nenhum preconceito, então o correto é tratar seu homossexualismo e poupar-lhe tanto sofrimento. Eu sinceramente vos aplaudo, parlamentares brasileiros. Só que não!

sexta-feira, 2 de março de 2012

"Amor à Distância"

, em Natal - RN, Brasil

And you and I climb, crossing the shapes of the morning
And you and I reach over the sun for the river
And you and I climb, clearer towards the movement
And you and I called over valleys of endless seas
Yes - And You And  I



Sinto-me meio estranho ao sentir isso, não em expressar, é tolice ter algum problema em expressar algo que já se sente, mas é estranho sentir. Ele está tão longe, nunca nos vimos, mas as conversas diárias são esperadas ansiosamente, "Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz" e elas fazem uma imensa falta quando não acontecem. Contudo, me sinto estranho por esta presença me afetar tanto. Por que não é uma presença, ele não está aqui. Ele são letras no MSN e uma voz no telefone. Ainda não é uma pessoa, não posso lembrar de nossos momentos juntos, apenas posso sonhar com o futuro (que por mais que doa pensar assim) talvez não aconteça. Não sabemos do porvir, algo pode se interpor aos planos que fazemos nestas madrugadas.
Nada disso, de fato, é real. E é isso que eu acho estranho, porque não sinto assim. Sinto como se ele estivesse próximo, do jeito que ninguém jamais esteve, ele entende o que eu penso e até reconhece minhas idiossincrasias, no fim, sempre parece que nós nos encontramos todo dia, e sentamos juntos, enquanto tomo um chá e ele uma xícara de café, e conversamos sobre nosso dia. Também não parece que não temos momentos juntos porque quando saio aqui em Natal, sozinho, acabo por leva-lo comigo, junto a meus pensamentos, e questões sobre como ele agiria, como faria, o que pensaria, o que diria, será que gostaria, pipocam o tempo todo na minha mente. Parece que tenho memórias ao lado dele, porque ele está comigo sempre. Do meu lado, no meu coração. Apesar de estar tão longe, nunca esteve tão perto. 


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Índia: As Formas dos Deuses.

, em Natal - RN, Brasil
Ardhanarisvara

Nas narrativas tradicionais hindus, é muito comum as estórias de deuses e mortais que mudam de sexo. Inclusive em muitas oportunidades eles têm encontros sexuais em diferentes gêneros nos quais encarnam. Neste caso, homossexuais e transgêneros têm sido comumente identificados com as várias formas das deidades hindus, contudo, em muitos casos o problema dessas identificações vem do desconhecimento de como funciona a religião hindu, de suas características intrínsecas. Um exemplo é o caso de Ardhanarisvara, a imagem considerada hermafrodita de Shiva. Porém, neste caso de Ardhanarisvara o que acontece é que temos numa imagem que consiste em Shiva, deus parte da tríade mais importante do Hinduismo (Brahma, o cirador, Shiva, o transformador, e Vishnu, o preservador) e sua consorte, Parvati, representando a união das energias masculina e feminina na criação. Ardhanarisvara não é um deus distinto de Shiva e Parvati é a representação da união dessas duas energias na criação porque para o hinduísmo toda energia é dotada de masculino e feminino, então cada Deus possui também a sua consorte feminina que o complementa, sendo Shakti, a consorte feminina de Brahma, e Mohini a consorte, a contraparte feminina, de Vishnu. Sendo assim, não é um deus que pode ser associado as relações homoeróticas, apenas uma imagem representando a duplicidade da energia divina.

Aravan

Outro caso é de Aravan, um herói com quem Krishna se casou após tornar-se uma mulher. O simples fato da necessidade da transformação de Krishna, o deus supremo do hinduismo, filho de Shiva, nascido de uma virgem rainha, nasceu então com uma vida de príncipe e após sua morte elevou-se como deus, comprova que o tipo de relação existente aqui não é homoerótica. Aravan já era um mortal (também conhecido como Iravan), que é cultuado na região ao sul da Índia. Ele é o principal personagem do poema épico, Mahabharata, que narra a guerra Kurukshetra e sua morte no décimo-oitavo dia da guerra. Contudo, bravo e honrado, Aravan era amado dos deuses e como ele pediu que antes de sua morte ele conhecesse o amor e estivesse casado, Krishna apiedado transformou-se em mulher e casou-se com ele um dia antes de sua morte. 

Ayyappa

Um terceiro caso é de Ayyappa, deus das estradas e protetor dos viajantes, filho de Shiva e de Mohini, a consorte de Vishnu. Para muitos dos leitores, acostumados com a personificação dos deuses do universo ocidental, essa estória soaria como uma traição da esposa de Vishnu, contudo, os três grandes deuses do hinduismo, Brahma, Shiva e Vishnu não podem ser considerados seres com gênero definido, na verdade, como são energias, eles mudam de ambivalência frequentemente, podemos dizer na verdade que Vishnu é a vibração masculina da energia protetora, é quando Vishnu protege ativamente o planeta como guerreiro, já Mohini seria a forma de vibração feminina da mesma proteção, quando ele gera e nutre, por exemplo. Sendo assim, não existe mudança de sexo ou relação homoerótica entre Shiva e Vishnu para gerar Ayyappa, ele é gerado quando as duas energias são colocadas juntas. 

Bahuchara-devi

Bahuchara-devi é uma deusa que um dia sua caravana foi atacada e ela para evitar ser morta cortou seus seios e disfarçou-se de homem entre os guerreiros lutando para sobreviver. Odiosa dos homens que atacaram, tornou todos eles impotentes, condenando-lhes a apenas uma vida: castrar-se e tornarem-se eununcos ou nasceriam por sete vidas como homens impotentes. Seus sacerdotes a partir daí se tornaram também sempre eunucos. Já o caso de Bhagavati-devi é uma deusa que tem uma festa cujos homens devem ir travestidos de mulher para a adoração por causa de uma estória em que vaqueiros que não queriam ser reconhecidos e queriam prestar homenagem a deusa se disfarçaram de mulheres para ir ao templo, neste dia a própria deusa apareceu diante deles para receber suas oferendas dado a sua discrição em relação a fé. Em ambos os casos, aqui, as deusas, por causa de um elemento de seu mito, foram tomadas como padroeiras de uma parte da população hindu, Bahuchara como padroeira dos eunucos e castrados e Bhagavati, daqueles que se travestem.

Bhagavati-devi

Chandi e Chamunda são duas deusas guerreiras. Inicialmente eram demônios masculinos chamados Chanda e Munda, que realizaram grandes coisas a fim de agradar Brahma. Tanto agradaram o grande deus que este um dia apareceu diante deles e concedeu-lhes um desejo. Estes pediram para se tornarem grandes guerreiros, fortes o suficiente para dominar o mundo e conquistar os céus. Brahma concedeu-lhes o desejo, porém, como os dois eram demônios, logo se tornaram cada vez mais gananciosos e tentaram tomar as casas de Brahma, Shiva e Vishnu. Ficou então decidido que a deusa Durga cuidaria deles. Lutou ferozmente até vencê-los. Durga então os transformou em mulheres, já que não podia tomar o poder que Brahma havia lhes concedido, mas agora como mulheres eles não ameaçariam mais os deuses. 


Chandi e Chamunda

Gangamma-devi é a irmã mais nova de de Vishnu, a deusa da mentira e do disfarce. Ao nascer na Terra, ela era a mulher mais bonita em todo o planeta e usava o nome Ganga. O rei dos demônios então ao vê-la desejou-a para si. A deusa então para escapar dos planos do demônio de aprisiona-la em seu palácio usava sua maya (capacidade de criar ilusões) para disfarçar-se, contudo, somente ao se disfarçar de homem que o demônio não conseguiu encontra-la. Nestes dois últimos mitos, por exemplo, as transformações que são basicamente colocadas pela literatura especializada como travestismo não tem absolutamente nenhuma ligação com a sexualidade dos personagens, por isso também considero que não existem relações homoeróticas nestes contos.

Gangamma

Concluindo: as possibilidades dos deuses hindus de assumirem outro sexo é comumente ligada a relações homoeróticas, porém não deviam. Estas possibilidades de transformação na verdade não tem nenhuma relação com a sexualidade e sim ou a representações do poder feminino ou apenas momentos do mito dos personagens que explicam parte do rito. Que explicam porque a presença do terceiro sexo, por exemplo, é comum dentro do rito de um determinado deus, porém, diretamente, não representam relação direta com o homoerotismo, na verdade, seu mito é apenas apropriado por grupos que se relacionam com o homoerotismo. 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Comédia Romântica

, em Natal - RN, Brasil
Não consigo falar, não consigo escrever. Talvez porque ainda seja cedo para falar ou escrever qualquer coisa. Mas eu sinto essa ânsia, essa vontade, ele diria essa urgência. Ele diz que eu tenho uma urgência. Aos que torcem para que minha fórmula "estarei sempre sozinho" esteja errada, um brinde! Ele apareceu do nada e de mansinho, como bom mineiro, foi ocupando espaço. Ironicamente ele esperou eu ter saidi de Minas para aparecer na minha vida. Apareceu, mas não estourem os champanhes! Ainda não! Como eu disse no começo: ainda não aconteceu nada.
Nós apenas nos conhecemos e nos tornamos amigos. Bons amigos, eu diria. Ele se abriu para me conhecer, e me permitiu conhecer um homem maduro e encantador que dissolveu qualquer barreira que eu tinha e reimplantou dentro do meu coração a sementinha da dúvida na minha eterna solidão. Conversamos há quatro meses, sempre virtualmente. E ele afirma que se tivesse me conhecido pessoalmente nós já seríamos namorados. Ele disse que me queria para ele, e eu queria estar com ele, mas  por enquanto estamos muito distantes para isso.