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sexta-feira, 11 de abril de 2014

Seja Verdadeiro Com Sua Natureza!

Abraham Maslow foi um psicológo americano que viveu nos primeiros 70 anos do século XX, o irmão mais velho de uma família judia do Brooklin com sete crianças. Ele trabalhou no Massassuchets Institute of Technology (MIT) e fundou o National Laboratories for Group Dynamics. Neste laboratório realizou sua pesquisa mais famosa, em 1946, no qual ele criou os T-Groups (T de training) em que ele reunia pessoas que tinham conflitos e expunha quais eram os problemas que estes estavam passando para depois tentar alterar a situação. Porém a grande contribuição de Maslow para a ciência da alma foi a criação do que chamava de Psicologia Humanista. Maslow acreditava que o enfoque psicanalítico no determinismo do subconsciente e o método do behaviorismo não levavam em conta que o ser humano é detentor de liberdade de escolha, inclusive dentro de seu próprio tratamento. Ele apresentou três conceitos que se tornaram basilares para a Psicologia: a congruência, ser o que se sente, sem mentir para si mesmo e nem para os outros; a empatia, a capaciade de sentir o que o outro quer dizer e entender seu sentimento; e a aceitação incondicional, que significa aceitar o outro como ele é, em seus defeitos, angústias e qualidades. Esta Psicologia Humanista também reconheceu que quando um homem sente um vazio de sentido na vida, busca auxílio (na religião, nos amigos e amantes, na ciência, na psicologia) porque não se sente confortável em viver sem sentido ou ideais. Ele também reconhece que alguns eventos fortes podem adiantar a busca pelo sentido da vida (a morte de um ente querido, o fim de um relacionamento, algo desse tipo) e estes eventos normalmente trazem desconforto ou trauma intenso, mas se superados fortalecem o indivíduo.
É nesta busca para entender como os seres humanos conseguem satisfação em suas vidas que Maslow propôs uma de suas mais controversas ideias: a sua hierarquia de necessidades. Também conhecida como Pirâmide de Maslow, esta hierarquia propõe que os seres humanos têm necessidades que precisam ser alcançadas para conseguir auto-realização, segundo Maslow essas necessidades compõem uma hierarquia no qual é preciso galgar uma para conseguir a próxima. Ele define cinco conjuntos:

- na base da pirâmide estão as necessidades fisiológicas básicas, como fome, sede, sono, sexo, abrigo;
- no segundo degrau existem necessidades de segurança como um emprego estável, um plano de saúde, uma boa casa, basicamente necessidades materiais de existência;
- no terceiro degrau da pirâmide se apresentam as necessidades sociais como amor, afeto, afeição e o desejo de fazer parte de um grupo, clube e família;
- no quarto estão as necessidades de estima que passam por duas vertentes: o reconhecimento de nossas próprias capacidades como ser humano e o reconhecimento dos outros à nossa capacidade de adequação as funções que desempenhamos;
- e, por fim, no topo, estão as necessidades de auto-realização em que o indivíduo procura tornar-se aquilo que ele pode ser.



Lendo as pesquisas dele dois pontos me chamaram atenção. O primeiro, sobre a ordem das necessidades colocada pela pirâmide. A maior parte das críticas da teoria de Maslow é exatamente sobre que, para alguém sentir-se completamente realizado, uma pessoa não precisa conseguir todas as necessidades que ele coloca, nem muito menos seguir essa ordem exata. Contudo, em ambos os casos, se pensarmos que esta ordem piramidal é a correta ou se nos apoiarmos que estas necessidades não precisam ser conseguidas todas para alguém se sentir realizado, em ambos os casos repito, vai de encontro ao senso comum que para alguém encontrar amor, uma pessoa precisa amar-se primeiro. Todos sempre jogam na minha cara que minha solidão é por falta de auto-estima ou de amor próprio (ah se eles estivessem dentro da minha cabeça e soubessem o quanto eu já gosto de mim, talvez até me chamassem de ególatra e narcisista). Todos repetem para si mesmo esta frase feita, inclusive. Torturam-se e torturam outros. Mas, lendo sobre Maslow, eu não pude deixar de pensar que este argumento simplesmente não faz sentido. Maslow e seus críticos concordam em um ponto: a necessidade de ter amor e a necessidade de ter auto-estima são ambas desejos ontológicos, isto é, fazem parte do ser humano. Mas eles também concordam que são desejos independentes.
Pode ser que a hierarquia seja real, e no caso o amor venha antes à auto-estima, talvez ela não seja e estas duas necessidades humanas podem ser conquistadas independentemente, porém em ambas as opções o argumento do senso-comum, repetido por todos, simplesmente não faz sentido. Não é preciso que você se ame para que alguém ame você. Não é uma lógica de troca. E nem as pessoas leem as outras tão bem. Na verdade, o que nós entendemos, muitas vezes, sobre auto-estima (sempre associada a cuidar de si no sentido de, por exemplo, malhar numa academia) é sempre de uma superficialidade tão gritante que não há como isso interferir em algo que entendemos tão mais profundo como o amor. Sei que vocês argumentarão que o relacionamento não vai durar porque os problemas de auto-estima da pessoa podem fazê-la ser infiel, ou ciumenta, ou sem perspectiva na vida, mas, queridos, para isso vocês já teriam que ter se envolvido com a pessoa. O amor já apareceu, ele pode não se manter por falta de auto-estima, mas este último não vai impedir alguém de se interessar por você. Ninguém tem como farejar isso sem se envolver com você.
O segundo ponto que me chamou atenção na pesquisa de Abraham Maslow é que para que um homem se torne realmente feliz e realizado, ele precisa passar por todas as etapas, ele precisa alcançar realização em cada um destes aspectos de sua vida. E há uma frase de Maslow que diz: "O que os humanos podem ser, eles devem ser. Eles devem ser verdadeiros com sua própria natureza". Este é o último patamar da pirâmide, pois ele considera que uma pessoa tem que ser coerente com aquilo que é na realidade para alcançar a própria realização. Diz ele: "temos de ser tudo o que somos capazes de ser, desenvolver os nossos potenciais". E me lembrei também de todos os homens gays e mulheres lésbicas que fogem daquilo que realmente são. Negação, homofobia internalizada, transtorno egodistônico. E como estes terão sempre, em sua vida, um buraco a preencher porque eles não podem atingir todo seu potencial. Os críticos de Maslow podem ter razão, mesmo faltando algo todos nós podemos ser felizes, porque a personalidade, as motivações pessoais e o meio social influenciam diretamente em como alguém se sente, portanto, estas podem não se sentir frustradas, na verdade. Mas elas estão completas?
A questão aqui é que um homem gay pode sim ser feliz escondendo e negando para si mesmo este aspecto importante de sua personalidade porque o meio em que ele foi criado o ensinou que ser aquilo que ele é é tão errado que o sofrimento criado ao se assumir é superiormente mais insuportável que, e isso acontece normalmente à nível subconsciente, este homem escolhe suprimir este lado da própria sexualidade. Minha dúvida aqui é como uma pessoa dessas se sente já que eu nunca passei por esta experiência de tentar não ser gay. Será que ela sente falta de algo? Ou não, já que para sentir a falta de algo é preciso tê-la conhecido/experimentado? 








sexta-feira, 4 de abril de 2014

Reductio Ad Absurdum

, em Natal - RN, Brasil
Conversando com um amigo, o Bê, que hoje mora em Berlim, Alemanha, via Whatsapp (Deus abençoe a tecnologia), cheguei a conclusão que minha vida anda dialética demais para meu gosto. Logo eu que nunca fui hegeliano na vida, para tristeza do meu pai, reconhecer às vésperas da iniciação crística que minha vida tem se dado em um jogo de tese, antítese e síntese é, para dizer o mínimo, risível. Mas me deixe contextualizar você. O alemão (as coincidência, olha as coincidência) Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu no ano de 1831, filósofo, foi o pai do historicismo e grande influenciador de Karl Marx e seu marxismo. Hegel formulou o conceito de Geist, espírito, o espírito da História, que se manifestaria através de um conjunto de contradições e oposições (a tese tem sua antítese) aos quais no processo histórico se integram e se unem (síntese). Segundo o sistema de Hegel, o Espírito do processo histórico estaria em contínuo aperfeiçoamento através desta lógica dialética (há um dialogo entre as ideias opostas do Espírito e, racionalmente, se chega a uma conclusão nova) e, portanto, a humanidade estava sempre em marcha contínua para o progresso.
Em diversos aspectos de minha vida, a lógica explicativa do historicismo alemão pode ser aplicada. E não se surpreenda porque eu faço (mesmo!) isso. Historiador que eu sou, só sei pensar a minha vida como a versão em miniatura da História da  Vida Privada de Georges Duby, com umas pitadas da História da Sexualidade de Phelippe Aries (ai, meu Deus, como sou Nouvelle Historie!). Contudo, tenho consciência que sou o historiador da minha vida sem o distanciamento clarificador do tempo. No meio do turbilhão que me faz cronista de minha própria História, tenho certeza que sou arrastado por interpretações errôneas que só verei com mais clareza em meus oitenta anos, quando meio século me distanciar destes eventos. Mas estou divagando. Voltemos a Hegel.
Meu trabalho, meus amigos, meus amores têm se alternado num jogo dialético chato. Eu já tive um bom emprego, cercado de amigos, vivendo e curtindo minha vida de solteiro, se não acreditam leiam este blog de 2006 a 2009, é a vida de outra pessoa; a mudança para Belo Horizonte para o doutorado, mais em busca de um amor verdadeiro que eu não encontrara ainda (sim, o motivo real para deixar Natal foi eu acreditar que não era possível encontrar nesta província alguém que pudesse gostar de mim) transformou minha vida e me colocou a frente com uma sensação de fracasso que eu nunca experimentara antes. Não que eu fosse um garoto mimado, não, eu era um jovem bonito, inteligente e cheio de planos que vinha de outro sonho feliz de cidade e aprendeu a duras penas o que era realidade (#vemniminCaetano). Vi-me então, na capital mineira, desempregado (cheguei a passar fome, ou quando o dinheiro só dava, na semana, para viver de pão de forma e margarina e água do filtro); sem amigos (fiz amigos maravilhosos em Minas, em especial o Rajeik, o Bê e o Leão, que com certeza salvaram esta temporada para mim, mas os que eu deixei em Natal se foram para sempre) e o amor que me atraiu para lá foi rapidamente substituído por sexo com desconhecidos, crises de pânico e celibato auto-imposto (com exceção dos seis meses ao lado do Tato e os meses em que eu me vi apaixonado pelo Anjo). O hermetismo diz que a vida vem em ondas, uma hora você está no topo, outra hora você está no fundo; Hegel pensava que a oposição dialética levaria ao progresso. Eu já tive um bom emprego (topo, tese), já estive desempregado passando fome (fundo, antítese); já tive amigos que se diziam irmãos (topo, tese), já morei numa cidade que não conhecia ninguém (fundo, antítese); já curti minha vida de solteiro e fiz sexo com mais pessoas do que consigo lembrar (topo, tese), mas também já tive crises de pânico em baladas porque todo mundo estava se pegando (olha o nível de aversão que eu tomei pelo negócio) e evito sexo (fundo, antítese). De 2010 a 2012, sem dúvida, foi isso que eu vivi.
Mas, como todo processo dialético termina em síntese, temos o útimo ano para cá. Em 2013, eu comecei uma carreira que paga muito menos, pelo menos 66% do meu antigo salário de professor com somente a graduação. Não passo fome, mas levando em consideração que agora eu sou doutor. É duro de engolir. Meus amigos de Natal, por mais que eu tentasse, se afastaram irremediavelmente. Tentei criar novas amizades, mas minha imaturidade causada pelo excesso de livros em minha vida e pouco contato com seres humanos, dificulta o processo. Primeiro, sou atraído por garotos jovens demais, mas sou velho demais para passar meu tempo livre fazendo programas com garotos de 20 anos. Tenho consciência disso e preciso mudar, o que me faz dirigir minha atenção para as pessoas da Igreja que estão em situação imediatamente oposta, homens e mulheres com seus relacionamentos e vidas estáveis dos quais também me sinto tão distante por causa da mesma falta de experiência. À vontade me sinto somente com os amigos virtuais, que moram na Alemanha, BH, Recife, São Paulo, Rio das Ostras, distantes se fazem mais presentes que todos por aqui. No caso das minhas relações amorosa, eu experimentei situações nunca d'antes vividas, um tentou e conseguiu transformar minha vida em um inferno, com outro me apaixonei e por um instante eu achei que ele poderia corresponder ao sentimento, durou pouco tempo, para ele inclusive sei que não significou nada, mas para mim foi realmente uma experiência completamente única e a mais intensa vivida até aqui. Pela primeira vez na minha vida eu não fiz sexo com um estranho (o meu ex vai me matar, mas gente, eu namorei a pessoa por 6 meses, e nunca soube que ele era alérgico à chocolate porque ele morava a dez horas de viagem, havia amor, com certeza havia, mas nunca existiu intimidade). Eu provei o gosto da minha fantasia erótica de ser íntimo daquele com quem divido minha cama. Contudo, se tudo isso é síntese dos polos opostos dos quais era minha vida, e o movimento do Espírito da História não para transformando a síntese em nova tese, qual será a próxima antítese que será formada? E se vivemos em ondas, como a maré, e isso é um topo, quanto mais eu ainda posso descer? O futuro não parece promissor, o progresso de Hegel já foi descartado como uma lei histórica, na verdade a História tem abandonado leis explicativas totais há muitos anos, resultado da pós-modernidade, mas será que Hegel pode explicar meu pequeno universo? Retorno aos herméticos e lembro que o que é verdade para o todo, também é para a parte. Se eu acreditar em Hegel posso ter esperanças, se seguir Hermes não.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Brasil, Qual o Teu Negócio?

, em Natal - RN, Brasil


No início do mês de Março o Institito Geledés, uma organização não-governamental, publicou uma pesquisa sobre a violência motivada pelo preconceito no Brasil. Eles levantaram os 10 piores estados para ser negro, mulher e homossexual no Brasil. A pesquisa se deu relacionando os dados de diversos institutos federais como o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA)  e outras ongs como o Grupo Gay da Bahia. O quadro formado é aterrador, porém nada surpreendente. O Norte e Nordeste do Brasil, apesar da imprensa sempre destacar os grandes centros como os locais mais perigosos para as minorias, são sem dúvida os campeões em violência, com exceção do Espírito Santo, que é o estado com mais crimes contra mulheres (a cada 100 mil mulheres, 11 são assassinadas) e o segundo em crimes motivados por racismo (a cada 100 mil negros, 65 morrem por racismo). Existem outros estados como Goias, que aparece nos mapas de racismo e de crimes contra a mulher, o Distrito Federal que amarga um sexto lugar em relação ao racismo, o Rio de Janeiro que está em décimo na mesma listagem, e o Mato Grosso que aparece na listagem como perigoso para mulheres e para homossexuais, mas todos os outros estados pertencem, no entanto, às regiões Norte e Nordeste. Como eu disse, nada surpreendente.
O Nordeste, região mãe do Brasil, é o berço da família tradicional brasileira. Foi aqui que gestamos nosso racismo à brasileira, nossa miscigenação entre senhores de engenho e escravas que evoluiu para o mito de uma democracia racial que, no fundo, sempre esperava que com o passar do tempo a população se tornasse cada vez mais branca; foi aqui que criamos senhorinhas casadoiras que enfeitavam salões com suas aulas de piano e nenhuma formação profissional, nosso machismo que relega as mulheres a um gineceu analfabetizado e a impossibilidade de ascensão profissional com exceção de profissões como enfermagem ou educação infantil, para as bem educadas (observação: todas as minhas tias são enfermeiras ou pedagogas), ou lavadeira, diarista ou puta para as mais pobres; e também é daqui o sistema de dominação machista que instituiu os amigos de pancada que rapidamente ascenderam para o troca-troca infantil, que todo homem nordestino faz porque "menino brinca com menino e menina brinca com menina", o qual se transforma rapidamente, na cabeça deste jovem educado neste tipo de sociedade, para o conceito de "Homem Que Faz Sexo Com Viadinhos", bem comum em todo o universo latino, mas característica importante da sexualidade masculina no Nordeste brasileiro.
Foi este mesmo Nordeste, com estes valores, que colonizou o Norte do país. São três grandes momentos de migração de nordestinos para a Amazônia, primeiro no século XIX, entre 1870 e 1900, por causa da descoberta dos seringais pelos ingleses; depois em 1940, estimulados por Getúlio Vargas e a corrida armamentista americana que também necessitava da borracha brasileira; e, por fim, em 1960, com a política da Ditadura Militar de "Integrar para não entregar" que rasgou a floresta com imensas rodovias, patrocinadas pela Ford americana, sobre sangue e suor nordestino. Estes homens foram para a floresta e deixaram lá os preconceitos que trouxeram consigo de suas terras de origem. A relação simbiótica entre a Amazônia e o Nordeste só é rompida com as recentes migrações, desde 1970, de fazendeiros da região Sul que têm ocupado o Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e alcançaram, acompanhando a ampliação da fronteira agrícola, a floresta tropical.
Contudo, quando falamos da população gay e os crimes cometidos motivados pela homofobia (seja contra gays ou não) se espalham por todo o país de forma democrática (para abusar da ironia). A pesquisa no entanto se detém somente aos assassinatos com motivação homofóbica, e não a qualquer crime de motivação homofóbica (como agressão verbal, discriminação, ameaça ou assédio moral, o que é um imenso problema de metodologia da pesquisa porque eles definiram errado o que é homofobia a priori) e todo o país se comporta igualmente. Segundo os dados da pesquisa, o ranking com os 10 estados mais perigosos para ser gay no Brasil são:

1) Pernambuco, com 34 homicídios em 2013.
2) São Paulo, com 29 homicídios.
3) Minas Gerais, com 25 homicídios.
4) Bahia, com 21 homicídios.
5) Rio de Janeiro, com 20 homicídios.
6) Paraíba, com 18 homicídios.
7) Mato Grosso, com 16 homicídios.
8) Paraná, com 15 homicídios.
9) Rio Grande do Norte, com 15 homicídios.
10) Alagoas, com 14 homicídios. 

Os números parecem pequenos e são se pensarmos que a população de homossexuais em todo o Brasil é, estima-se, de 10% da população, o que daria por volta de 20 milhões (o que corresponde ao estado de Minas Gerais). A perda de 207 em um conjunto de 20 milhões é de 0,001%, contudo não falamos de objetos em um conjunto, mas de pessoas. O problema, de fato, é bem maior entre negros e mulheres no Norte e Nordeste, porém se lembrarmos que mesmo com países como Uganda que estabelecem pena de morte para homossexuais e países como a Rússia que proibiram "propaganda em prol de homossexuais", nós, o Brasil, somos o país que mais mata homossexuais no mundo - entre os 210 países do mundo, 40% dos assassinatos de homossexuais foram realizados no Brasil - isto se torna preocupante. Nós temos sim um problema. A violência brasileira (o crime, o tráfico, os assaltos e até mesmo o trânsito) matam mais do que as guerras civis que acontecem em países como Angola e Sérvia; e os assassinatos de motivação homofóbica no Brasil matam mais do que os países que definem que a homossexualidade é punível com pena de morte. Eu pergunto: o que nós temos de errado?
E não é o que nós temos de errado atacando lésbicas (ah, essa estatística não inclui estupros corretivos), gays e travestis (por falar nisso, eu conheço três que foram assassinados), mas o que nós temos de errado atacando outro ser humano e tirando-lhe a vida? O Brasil tem uma das maiores populações carceirarias do mundo (em 2010 havia cerca de 500 mil detentos, segundo o IBGE) e, ironicamente, em nosso país, somente 8% dos casos de homicídio são solucionados pela Polícia, mesmo com a maior parte dos assassinatos acontecerem entre pessoas que se conhecem (80% dos casos, segundo o Instituto Sou da Paz). Existe uma cultura brasileira, ainda, que resolver seus problemas através da morte do seu adversário é, simplesmente, admissível. Brigas de trânsito, discussões entre vizinhos, disputas entre jovens por namoradas, qualquer coisa é um motivo para sacar uma arma (um vizinho, quando eu era criança, uma vez sacou uma arma para que parássemos de jogar bola na frente da casa dele, o filho caçula dele matou uma desavença com a mesma arma anos mais tarde). Que espécie de país é este? Sempre repito que o Brasil é um país de brincadeira, que em algum momento alguém vai levantar e gritar "É brinks!" e vamos descobrir que nada disso é real, que o dinheiro roubado pelos políticos corruptos está guardado em algum lugar, que os assassinos e as vítimas são atores interpretando papeis, que as obras abandonadas estão funcionando atrás de um tapume com uma pintura super realista. Porque se o Brasil é um país sério, de verdade, gente, vamos fazer as malas e migrar para a Argentina porque o problema aqui é insolúvel! E, estrangeiro, não venha para a Copa, sua vida não vale este risco!

sexta-feira, 21 de março de 2014

Incentivo Materno

, em Natal - RN, Brasil
Eu cheguei a casa dos meus pais para almoçar com eles. Era um dia de semana e trabalhar em casa me permite tais luxos. Eu encontrei minha mãe na cozinha, enquanto eu colocava um copo d'água gelada para mim, ela me interpelou:
- Foxx, com que você trabalha mesmo?
Eu ri.
- Já te disse umas três vezes que fui contratado para editar um livro...
- Mas e depois? O que você pensa em fazer quando esse contrato acabar?
Eu pensei um pouco. E respondi sinceramente:
- Eu não sei.
Ela me olhou como quem enfrenta um quebra-cabeças de mil peças. Respirou fundo e, após um suspiro, continuou:
- Você parece que morreu desde que voltou. Onde está aquele Foxx que dizia que ia fazer, que se jogava para aprender, que encarava qualquer desafio? Onde ele está? Parece até que está morto.
E virou-se para as panelas. Minha mãe queria me dar um incentivo tentando atiçar meu orgulho, queria que eu provasse para ela que está enganada. Mas ela não está. O filho que ela estava descrevendo realmente está morto. Morto e enterrado sobre uma pilha de sonhos. E eu realmente não tenho a mínima ideia do que farei daqui a um mês quando este contrato acabar, porque a questão não é procurar emprego, é qual emprego eu vou procurar, sem sonhos eu não sei mais o que desejo fazer.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Homofobia Nossa De Cada Dia

, em Natal - RN, Brazil
Nos idos dos anos 2000, eu começava nos meus primeiros exercícios de pesquisa histórica, com um trabalhinho de umas trinta páginas, era um artigo sobre a moralidade na Grécia Antiga, através dos mitos gregos. Eu tinha meus nada saudosos dezoito anos e diálogava com importantes historiadores franceses no texto e o apresentei para o professor de História Antiga, chefe do laboratório de arqueologia da UFRN, à época.
Ele leu e marcou um conversa comigo, numa tarde, no laboratório, sentamos naquelas bancadas cercados de material lítico como pontas de flecha, raspadores e machadinhas, cerâmica indígena pré-histórica e histórica e louça portuguesa e inglesa do século XVII e XVIII. Alguns alunos limpavam pedras recém trazidas de uma escavação e as tombavam quando ele começou a conversa elogiando meu conhecimento dos mitos gregos e, para um calouro, afirmou: 
- Você sabe que já tem uma monografia pronta para a conclusão do seu curso, não sabe?
Eu não sabia. Ele havia riscado todo o texto que eu entreguei para ele. Setas, comentários, perguntas pintaram de azul todas as páginas, ele começou com um sorriso no rosto, citando um trecho do meu texto, que terminava afirmando que os gregos eram antropocêntricos. 
- São mesmo? Quem disse?
- Os livros...
- Não confie em afirmações como essas, Foxx, elas são simples demais e essa simplicidade sempre esconde motivos escusos.
Eu me assustei, ele continuou suas críticas até que, um dos pontos era as definições morais do relacionamento entre homens no mundo grego, e ele parou e me olhando nos olhos, perguntou:
- Por quê, quando você fala do relacionamento entre homens, em nenhum momento você usa a palavra amor? Não existe amor entre homens ou ele é diferente do que acontece entre homens e mulheres?
Aquela pergunta me pegou de surpresa e me fez ver um preconceito que na época eu não sabia o nome. No mundo homofóbico em que eu fora criado, em que bichinhas servem para aliviar o desejo dos grandes machos heterossexuais, mas nunca são objetos de amor; na minha inocência adolescente que não sabia que o mundo é muito maior do que minha experiência na periferia de Natal, eu não sabia que estava transportando para um período histórico a homofobia no qual havia sido educado. 
Eu não sabia o que responder para o professor. E ele começou um discurso sobre o amor e preconceito e  sobre o ofício do historiador e nosso pecado capital, o anacronismo. Eu nem tentei balbuciar uma pergunta. Eu estava chocado com minha impossibilidade de pensar que dois homens poderiam se amar. Estava assustado com meu preconceito. Mas quando nossa conversa terminou e ele pediu algumas alterações no trabalho. 
- Você tem condições de focar nos mitos de apenas uma cidade, por exemplo, Tebas?
Eu aceitei o desafio, mas sai do laboratório disposto a vencer outro trabalho hercúleo: decidi dali em diante, agora que estava ciente de sua existência, extirpar todo o meu preconceito que existia dentro de mim.

sexta-feira, 7 de março de 2014

A TV Globo e os Gays: Uma Popularização

, em Natal - RN, Brazil
Mas, nos anos 2000, uma nova leva de personagens gays foram trazidos a televisão. Emanoel Jacobina que assumira em 2000 a eterna série Malhação, deixando a academia que fora transformada em uma escola, e com a proposta (que volta e meia retorna a série) de fazer com que Malhação retratasse problemas reais dos adolescentes e deixe de focar em intrigas amorosas. Em 2001, ele trouxe consigo o personagem Sócrates, interpretado por Erik Marmo, que tornara-se um personagem fixo na série. Ele não foi o único, afinal, sempre que esta proposta retorna buscando salvar a audiência da série, pretendendo renová-la, os produtores trazem meninas grávidas, algum problema com drogas e, agora, também homossexuais. Enquanto em 2002, na Desejos de Mulher, adaptação do livro Fashionable Late de Euclydes Marinho e Dennys Carvalho, os personagens Ariel (José Wilker) e Tadeu (Otávio Muller) faziam o público rir com seu relacionamento efusivo, outros trouxeram um outro problema para a Rede Globo. Rafaela (Paula Picarelli) e Clara (Aline Morais), em 2003, de Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos e Ricardo Waddington, foram as primeiras a causar suspense se a Globo exibiria um beijo gay em uma de suas novelas. Novamente afirmando que sua audiência era conservadora, a cena foi evitada com um enquadramento que eu só poderia chamar de amador. Elas saíram de frente da câmera que ficou filmando uma parede enquanto elas voltavam. Ridículo!
No entanto, a Globo descobriu que seus espectadores tão conservadores estavam curiosos e também notou que explorar a possibilidade do beijo gay podia trazer audiência para novela. Os espectadores estavam interessados em ver esta cena história. No ano seguinte, então, Jennifer (Bárbara Borges) e Eleonora (Mylla Christie) de Senhora do Destino, de Aguinaldo Silva e Wolf Maia, também sustentaram o suspense. Em América, 2005, de Glória Peres e Jaime Monjardim, o mesmo artifício foi utilizado para o personagem Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Godeiro). A possibilidade do beijo em algum momento da trama mantinha as cenas dos personagens sendo os momentos mais esperados pelos telespectadores globais e a emissora soube aproveitar isto. Inclusive divulgando que, por exemplo, a cena entre Júnior e Zeca em América havia sido gravada, porém, no último momento da novela, ela fora cortada pelos diretores.
Páginas da Vida, em 2006, Manoel Carlos e Jaime Monjardim apresentam um outro modelo de relacionamentos gays representados em nossa televisão: Rubinho (Fernando Eiras) e Marcelo (Thiago Pichi) são casados, tem uma vida em comum, todos sabem que eles são um casal, mas, no fundo, parecem dois irmãos que moram juntos. Foi o mesmo modelo adotado por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e Dennis Carvalho em sua Paraíso Tropical, os personagens aqui chamavam-se Rodrigo (Carlos Casagrande) e Thiago (Sérgio Abreu) que não acrescentaram nada a trama além de exibir seus corpos talhados em academias em sungas folgadas pelas praias cariocas.
Uma terceira moda foi apresentada por Aguinaldo Silva e Wolf Maia em Duas Caras, de 2007, com o Bernardinho (Thiago Mendonça) que foi envolver personagens gays em triângulos amorosos com um homem e uma mulher no melhor estilo Três Formas de Amar. No caso envolvia Carlão (Lugui Palhares) e Dália (Leona Cavalli). No ano seguinte, o modelo é repetido em A Favorita, de João Emanoel Carneiro e Ricardo Waddington, em que Orlandinho (Iran Malfitano), apesar de sonhar com Halley (Cauã Reymond) se envolve com Maria do Céu (Deborah Secco). Na mesma novela também havia a personagem de Paula Burlamaqui, Stela, que era lésbica, mas isto não é explorado em momento algum da novela; o mesmo que acontece com a Letícia (Paola Oliveira) em Ciranda de Pedra, adaptação do romance de Ligia Fagundes Telles por Alcides Nogueira e Maria de Médicis. Somente quem havia lido o livro podia pescar as insinuações sobre a sexulidade da personagem. Já 2009 foi o ano do Cássio (Marcos Pigossi), na Caras e Bocas de Walcyr Carrasco e Jorge Fernando, lançar o bordão: "Choquei, tô rosa chiclete" e abusar da comédia, mas sem escapar do modelo então em voga. Apesar de gay, Cássio envolve-se com Léa (Maria Zilda) e com Sid (Klébber Toledo).
Em 2010, em Ti-ti-ti, remake da novela de Cassiano Gabus Mendes por Maria Adelaide Amaral e Wolf Maia tentou fugir destes modelos e criou para esta nova versão o casal Julinho (André Arteche) e Osmar (Gustavo Leão) que morre no primeiro capítulo, fazendo Julinho conhecer a protagonista da história, Marcela (Ísis Valverde), e mais tarde o surfista Thales (Armando Babioff) que escondia sua sexualidade, mas apaixona-se por Julinho e abandona a esposa pra ficar com ele. No ano seguinte, após os inúmeros ataques homofóbicos que foram noticiados pelos grandes jornais do país e, inclusive, uma ameaça de bomba na parada gay paulista, Insensato Coração de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e Dennis Carvalho, trouxe para TV não apenas dois personagens, mas um núcleo gay, que finalmente tinha história para contar. Personagens se descobriram, outros sofreram ataques homofóbicos, uns não foram aceitos pela família ao se assumirem, outros encontraram amor e aceitação. Do Roni (Leonardo Miggiorin) ao Eduardo (Rodrigo Andrade) foram pelo menos oito personagens. Em 2011, quando Malhação retorna a batuta de Emanuel Jacobina, a série também teve o Cadu (Binho Beltrão), como um personagem gay. Uma distância de 10 anos separava os dois personagens de gays de Malhação no novo milênio, e ele retornava agora na agitação que os ataques, sobretudo na Avenida Paulista, haviam causado. Porém, não andamos para frente. Neste ano a TV Globo comprou o direito de exibir a série americana Glee, da Fox, que passou a ser exibida nas manhãs de sábado, horário consagrado para uma programação infanto-juvenil, porém a pessoa que compra séries americanas para a Globo não costuma assisti-las (é o mesmo com Os Simpsons que somente por serem uma animação para a Globo torna-se infanto-juvenil) e eles não sabiam que a série abordava a homossexualidade do personagem Kurt de forma tão aberta. A série então foi logo mudada de horário, no ano seguinte, tendo sua segunda temporada exibida agora após as 23h e, por fim, cancelada. A Globo não exibiria Kurt sofrendo bullying na escola, nem começando a namorar com Blaine, muito menos se atreveria a mostrar eles fazendo sexo. O discurso de que o público não estava preparado era repetido.
Em 2012, com a Fina Estampa de Aguinaldo Silva e Wolf Maia, e o sucesso do personagem Crô, de Marcelo Serrado, novamente recolocaram os homossexuais em um lugar cômico dentro da teledramaturgia brasileira. Sem sexualidade, sem desejos amorosos, sem passado ou vida própria o Crô seguia Tereza Cristina como um acessório de cena, apenas, um contra-ponto para ver a maldade da vilã bilhar mais. Em 2013, Walcyr Carrasco pensou que inovaria trazendo o vilão Félix, interpretado por Mateus Solano magistralmente, para a TV brasileira com sua Amor à Vida, mas também repetiu o clichê que já tínhamos superado do triângulo amoroso entre Eron (Marcelo Antony), Niko (Thiago Fragoso) e Amarylis (Daniele Winits). Contudo a Globo se viu surpresa com a popularidade de Félix entre seus espectadores. Seus diretores ainda não conseguiam entender como um personagem gay poderia ser tão popular e carismático com o público. Félix já representava novos tempos, a dúvida é se a vanguarda tão repetida no discurso dos produtores da TV Globo desde sua fundação, estaria preparada ou não para manifestar-se finalmente. Para surpresa de muitos (inclusive autores globais, como Aguinaldo Silva que falara anteriormente que isto era impossível), Félix e Niko acabaram por protagonizar o primeiro beijo gay no horário nobre da Globo, após a formação de um casal que o público da novela torcia para que ficassem juntos. A comoção do público gay foi real, pequenos focos de puritanismo heteronormativo também puderam ser vistos, contudo a dúvida maior seria qual o caminho que a Rede Globo tomaria a partir de agora?


sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Homens de Barba

, em Natal - RN, Brazil



Para quem não sabe, eu uso barba faz muito tempo. Na verdade, eu poderia dizer que sempre usei já que sendo meus pêlos faciais daquele tipo que cresce muito rápido, eu nunca pude curtir um rosto lisinho desde minha adolescência. Tirar a barba para mim sempre significou ficar com o rosto verde pelo resto do dia e antes de adormecer, já precisar tirar a barba de novo. Foi essa exigência diária que me fez adotar a barba como parte do meu visual, que aconteceu juntamente quando eu assumi a calvície, eu pensava: "Já que não tenho cabelos na cabeça, talvez a barba compense de alguma maneira". Isso, definitivamente, não agradou de imediato. Eu sofri preconceito de gays e héteros (que ironicamente concordavam na crítica: eu não era homem o bastante para usar barba), mas, logo, veio a explodir a moda hipster, com suas camisas de flanela xadrez, óculos vintage inspirados na década de 1980 e um visual desleixado com cabelos compridos e barba por fazer. A haute couture também ajudou durante os fins da década de 2000, modelos com barbas por fazer frequentava desfiles e logo estes pêlos vistos como falta de cuidado com a aparência tornaram-se moda, in, e as mesmas pessoas que me olhavam torto, além de me concederem elogios, agora tentavam cultivar seus pêlos faciais, os mesmos que combatiam a sessões à laser ou torturantes depilações com cera ou pinça. 
Como a barba tornou-se popular, então, minhas fotos com ela também passaram a ser curtidas. É interessante observar isso também. Eu tive um Fotolog anos atrás, que também era uma rede social que se baseava em curtidas e comentários sobre as fotos, aquelas que eu tirava com barba era com certeza menos curtidas do que as que eu fazia logo após afeitar-me. Contudo, de uns tempos para cá, tanto no Facebook e depois no Instagram (que fiz minha conta não faz um ano), tornou-se comum minhas fotos serem cobertas de elogios em relação a barba. São meninos recém saídos da adolescência, borbulhando com o fetiche daddy; aproveitadores que acham que tenho cara de suggar daddy, ursos e chasers, entre outros, mas, recentemente, um grupo muito estranho tem, principalmente no Instagram, curtido meus auto-retratos, que agora são chamados de #selfies. Estes postam fotos de homens barbudos e de camisetas com frases do tipo "se seu pai não tem barba, você tem duas mães" ou "se torne homem, deixe a barba crescer". Eu me assustei por diversos motivos, mas dois são os mais graves: homofobia e racismo.
1) Homofobia. Homofobia significa, na verdade, não o preconceito contra gays, como se popularizou, o preconceito é apenas o resultado da homofobia, mas ela se caracteriza pelo ato de forçar um modelo de homem para ser seguido pelas outras pessoas. Seja este modelo de comportamento afirmar que homem não chora, que é homem é sempre mais forte, que homem gosta de futebol e que homem só se sente atraído sexualmente por mulheres. No caso que analisamos aqui, então, quando se levanta a bandeira de que homem de verdade é um homem com barba se constrói mais um modelo de homem para ser seguido e novos preconceitos homofóbicos são construídos e disseminados como se este mundo já não tivesse o bastante. Eventos como o #BarbaDay no Twitter, inúmeros Tumblrs dedicados a homens com barbas, postagens no Facebook afirmando que a existência ou não de pêlos no rosto de alguém torna este ser humano especial. Tudo isso uma bobagem sem tamanho e, o mais perigoso, uma bobagem homofóbica.
Qualquer um pode considerar que levar essas "piadinhas" sobre a barba a sério é que é a verdadeira bobagem, mas um garoto de 8 anos de idade, em São Paulo, foi espancado pelo pai até a morte porque não queria cortar o cabelo curto "como um homem de verdade" (veja a notícia aqui), o cabelo curto foi definido como o cabelo masculino exatamente como hoje se define que a barba é o suprassumo da masculinidade humana: a moda assim decidiu e nós admitimos como uma verdade universal, a história, todavia, está ai para provar que décadas atrás o bigode era o grande exemplo de masculinidade, depois a depilação total e a jovialidade e ambiguidade sexual decorrentes entraram na moda, agora é a vez da barba, mas estes processos cíclicos que sempre começam dentro do mundo gay não passam de modismos que mudam ao sabor dos ventos da próxima temporada. 
2) Racismo. Além deste problema homofóbico que a elevação da barba do status de fetiche para símbolo da masculinidade do macho humano, como a juba de um leão ou a cauda de um pavão, existe o detalhe racista que passa desapercebido. Existe uma gradação entre os amantes de barba que vai daquelas barbas mais fechadas, ditas completas e sem falhas (prestem atenção nos adjetivos que levam para o sentido de perfeição) para as mais ralas (barbas falhadas) e os imberbes. Entre estes pogonófilos, aqueles sem falhas são superiores e, não por acaso, são os homens brancos aqueles que, normalmente, apresentam estes tipo de pêlos no rosto. Negros, ameríndios, orientais, hindus, mongóis (talvez a única exceção sejam os árabes) não possuem a barba perfeita. Eu não acredito em coincidências (desconfiar é um excelente exercício intelectual, vocês deveriam tentar!), por isso eu desafio qualquer um a procurar nestes grupos e comparar a quantidade de fotos compartilhadas de homens brancos versos aqueles de outras etnias, inclusive os árabes. 
Observação: Eu sei que, agora, todos vão lembrar que conhecem alguém que é negro ou de ascendência japonesa, por exemplo, aqui no Brasil, que tem uma barba fechada. Lembrem que no Brasil nós temos uma miscigenação imensa, poucos brasileiros não são mestiços, e isso transfere para um indivíduo características genéticas dos diversos grupos étnicos ao mesmo tempo. Porém, os grupos que divulgam fotos do tipo "Faça amor, não faça a barba" não utilizam fotos de modelos brasileiros, não é? 
Conclusões. Para mim, no fim das contas, elevar o homem barbado ao lugar de destaque da masculinidade humana é, além de forçar violentamente mais uma imagem aleatória de homem como um modelo a seguir, cristalizar no imaginário coletivo a figura do homem branco como o ápice da sociedade humana (já que o homem seria melhor que a mulher e o homem branco melhor do que todos os outros homens) e, sinceramente, não precisamos de mais disso. Já tivemos um nazismo uma vez, e ao contrário da barba, ele está definitivamente fora de moda.