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domingo, 26 de outubro de 2014

Chistes Jocosos

, em Natal - RN, Brasil
Sabe o que é mais difícil de combater em relação a homofobia? As piadas! Os ataques físicos e morais, o preconceito segregacionista, o discurso de ódio disfarçado de liberdade de expressão, todos eles são fáceis de serem combatidos porque são quase palpáveis, mas o humor, ah, o humor, este por ser baseado em ironia e sarcasmo, figuras de linguagem que dizem aquilo que expressamente não quiseram dizer, este é difícil de combater porque seu autor sempre argumenta: "eu não disse isso!", e realmente não disse. Vejamos exemplos:
Danilo Gentili já tem sido um artista dos comentários preconceituosos, ele já agrediu negros, judeus, gordos, nordestinos, cubanos e homossexuais. O mesmo acontece há anos no Zorra Total, no humor do falecido Chico Anísio, e não era diferente dos Trapalhões ou da Praça É Nossa. Preconceito contra nordestinos não era o mote de inúmeros quadros destes programas? Negros e pobres não são ridicularizados constantemente? Ser gay não é desculpa para ser humilhado (lembrem-se de Vera Verão)? E lembrando o texto da lei: Lei Federal nº 7.716/1989, Artigo 20: "Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional".  
Estes programas tem sido criticados constantemente por causa de seus personagens caricatos e não é de agora, Mas nunca por homens de nossa elite (heterossexual, branca e morando no Sul-Sudeste), estes riem das piadas, mas negros, nordestinos, gays tem a percepção de o quanto aquilo é ofensivo porque aquilo ofende. Outras pessoas alcançam, no entanto, o sentido negativo das piadas sobre negros e nordestinos, elas conseguem se colocar no lugar do outro, mas o público gay não despertar a mesma empatia, e por quê?
Primeiro, a inexistência no texto da lei da expressão "orientação sexual ou de gênero"e não torna crime incitar homofobia (e, por acaso, também não é crime discriminar mulheres), e é exatamente por causa disso que ninguém percebe sua existência. Pessoas fazem piadas de cunho homofóbico e não a reconhecem como tal porque INCITAR e INDUZIR não são crimes, para as pessoas apenas a discriminação clara ou a agressão física direta podem ser considerados homofobia. Olha o que aconteceu esta semana:
Eu acompanho o site Omelete há alguns anos. É um site sobre quadrinhos, cinema e mundo geek (que por sinal é um dos ambientes mais homofóbicos que eu conheço, os geeks, não o Omelete), eles tem um canal e um programa no Youtube, OmeleteTV. E, num dos últimos programas, eles encerram o programa dizendo que "se você gosta de peitinho, ou se você tem peitinho, assine o canal", critiquei-os via Twitter, e eles tentaram argumentar que já fizeram programas sobre a presença gay nos quadrinhos, que eles são contra a homofobia, etc., mas a prática são piadas como esta (O mesmo apresentador também criticou Espartacus por causa da presença do nu masculino na série tanto quanto existe nu feminino, enquanto elogia Gotham por causa do affair lésbico no passado das personagens Montoya e Barbara, isto é, homem nu não pode, mas mulheres se pegando sim). 
Não duvido que o pessoal do site realmente não enxergue isto como homofobia, mas o que eles não entendem é que ele estava claramente convidando somente homens heterossexuais e mulheres para assinar o canal, como isso não é a exclusão de um público dado sua orientação sexual?  Eles não enxergam, e acredito que nenhum homem heterossexual veria nesta frase discriminação afinal ele foi incluído, somente quem ficou de fora percebe o que aconteceu, mas não devo acusar os membros do Omelete de homofobia, no máximo de falta de empatia, como homens brancos, heterossexuais que vivem em São Paulo é difícil se colocar no lugar do outro.

domingo, 19 de outubro de 2014

Creta: O Ombro de Marfim

, em Natal - RN, Brasil

Zeus e Apolo não são os únicos deuses creto-micênicos que tem relacionamentos homoeróticos. Possêidon era um deus cretense, como atesta seu papel no mito do Minotauro, era deus dos mares, dos cavalos, dos terremotos, mas em Creta também era deus das tempestades e dos raios, atributo que mais tarde foram dados a Zeus quando a religião se expandiu por toda a Hélade. Na Ilíada, de Homero, ele é o grande deus dos mares já, mas ele também controla as tempestades marinhas e provoca desmoronamentos com seu tridente construído pelos Ciclopes. Os navegantes oravam a ele por ventos favoráveis e viagens seguras, sacrificavam a ele cavalos, mas seu humor imprevisível tornava a água e os terremotos suas armas para expor sua irritação com os humanos, mas também apoiou os gregos grandemente durante o poema sobre a Guerra de Tróia, porém sua vingança contra Odisseu, porque este não prestou-lhe os devidos agradecimentos ao fim dos anos de batalha, levou o rei de Ítaca a ficar perdido no mar por vinte anos, tema da Odisseia. 
Segundo seu mito, ele é filho de Cronos, o tempo, e Reia, a vida. E como seus irmãos, fora engolido pelo pai ao nascer, até que Zeus que por causa de um subterfúgio da própria mãe, pode fazê-lo vomitar as crianças. Segundo Pseudo-Apolodoro, a ordem dos filhos é Héstia, o fogo; Deméter, a terra cultivada; Hera, as mulheres e o casamento; Hades, o senhor dos mortos; e, por último, o rei dos mares. Após seu pai tê-lo vomitado e ser deposto pelo irmão mais novo, Possêidon foi criado entre os Telquines, demônios marinhos, com rostos de cachorro, pele negra e nadadeiras nos pés e sua primeira esposa foi uma deles, Hália. Com esta esposa, ele teve inúmeros filhos de temperamento violento e explosivo, de tal forma que teve que enterra-los para proteger o mundo, foi assim que as ilhas gregas nasceram, cada uma delas é um filho do deus do mar que está aprisionado, mas também teve com ela a linda Rodes, que casa-se com o sol, Hélios. Teve também outros filhos monstruosos, o ciclope Polifemo com Teosa que tentou devorar Odisseu; o gigante Crisaor, que é derrotado por Herácles, com a Medusa; os gigantes Oto e Efialtes nascem de seu caso com Ifimedia.
Uma história interessante sobre Possêidon é que ele seduziu a própria irmã, Deméter, quando esta procurava desesperada a filha, Perséfone, que havia sido sequestrada por Hades. A deusa concedeu seus favores ao irmão em nome de informações sobre o paradeiro da filha, porém, após terem tido sexo, o deus marinho não tinha nada para contar-lhe. Fruto desta união, Deméter teve filhos gêmeos, Despina e Árion, que abandonou logo ao nascer porque não estava interessada em crianças pois ainda vasculhava o mundo buscando sua filha querida. Despina cresceu revoltada com o abandono, tanto da mãe como do pai. E adulta, deusa do frio e do inverno, congela as terras que a mãe cultiva e o mar que o pai ama. 
Casou-se, por fim, com Anfitrite, nereida, filha do Oceano e Tétis, com quem teve um filho, Tritão, o deus dos abismos oceânicos e o grande pastor dos animais marinhos. Mas não sem antes conhecer o amor de um homem. Quem nos conta é uma ode de Píndaro, do século V a.C.:

 Ode Olimpíca, 1 40 ff 
"Ele [Poseidon] apoderou-se-lhe [Pelops], o seu coração louco de desejo, e vos trouxe montado em sua gloriosa carruagem ao alto salão de Zeus quem todos os homens honra, onde mais tarde veio Ganimedes, também, por um amor como, para Zeus."

Pélops era filho do rei da Lídia, na Ásia, Tântalo e Dione. O rei, para testar a onisciência dos deuses, das quais ele zombava, ele matou o próprio filho e cortou-lhe em pedaços e ofereceu-os aos olímpicos como um ensopado. Ele queria com isso provar que eles não eram capazes de saber tudo. No entanto, nenhum deus serviu-se do ensopado, somente Deméter, que estava deprimida por causa da rapto da sua filha, que comeu um pedaço do ombro do jovem, mas ao reconhecer o gosto a deusa, irritada, lançou Tântalo ao Tártaro, condenando-o a viver eternamente em um belo jardim no qual toda vez que ele tentasse aplacar sua sede a água fugiria dele, e quando ele tentasse aplacar sua fome, os ramos das árvores fugiriam ao seu alcance. Os deuses então reviveram o príncipe e recolocaram no pedaço mordido por Deméter, um pedaço de marfim. Belíssimo como ele era, Pelops atraiu o amor de Posseidon que o levou para viver consigo, em seu palácio embaixo do mar.
O mito de Pelops, como o de Ganimedes, evocam a mesma tradição creto-micênica: o rapto dos jovens por seus amantes mais velhos. Contudo o mito de Pelops avisa que ele retorna a vida entre os homens e se enamora de Hipodâmia, filha do rei de Olímpia, Enomau, que tinha matado todos os pretendentes anteriores da filha porque um oráculo havia predito que ele seria morto pelo genro. Enomau fazia todos os pretendentes disputarem com ele uma corrida de biga, cujo perdedor era sempre executado. Sabendo que os cavalos de Enomau famosos por sua velocidade, foi ao deus dos cavalos, seu antigo amante, que o príncipe pediu ajuda. O mito diz que em memória dos regalos de Afrodite que vivera com o rapaz, Possêidon concedeu-lhe cavalos alados que permitiram que ele derrotasse o sogro. Casado com Hipodâmia, Pélops tem dois filhos, Atreu e Crisipo, cujos quais participam da fundação das duas principais histórias gregas que nos chegaram hoje: Atreu é pai de Agamêmnom e Menelau, os grandes reis da Ilíada; e Crisipo é sequestrado por Laio, dando início ao ciclo de Édipo.
O interessante deste mito é perceber que os dons concedidos pelo amante divino tornam Pelops mais indicado para tornar-se um marido aceitável para Hipodâmia, cujo nome significa a senhora dos cavalos. Esta era uma regra comum no mundo cretense, as armaduras, armas, cavalos, galos, taças etc, que eram dados aos jovens por seus amantes, tais presentes (que eram obrigatórios) eram responsabilidade daqueles mais velhos e importantes na vida adulta que os jovens teriam após retornarem a casa de sua família. O sentido iniciático da relação homoerótica ainda se torna mais poderosa quando é somente após deitar-se com um homem mais velho que o jovem se torna adulto de fato e pode então contrair núpcias sendo agora, autorizado, a ter relações também com jovens assumindo as mesmas responsabilidades que seu anterior amante teve com ele.







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domingo, 12 de outubro de 2014

Dois

A Rua das Virgens, na Ribeira, estava lotada naquela noite de sexta-feira, apesar das nuvens cinzas cobrirem o céu escuro. Mas não parecia que choveria, era somente uma noite nublada. Essas de outono bem comuns. Após a igreja, eu fui para assistir o show de Du Souto com seu samba-jazz-xote-hip hop no Buraco da Catita e seu publico habitual rondava o local. O Centro Cultural Buraco da Catita congrega os natalenses que se consideram a elite pensante da cidade, discutem política e falam sobre arte sentados em suas mesas de madeira bebendo cerveja. Sim, apesar do nome pomposo, não passa de um bar que ocupa uma das ruelas do bairro. Gosto do lugar, do ambiente, e das pessoas que o frequentam: são em sua maioria pessoas inteligentes, artistas, produtores de cinema, músicos, atores, uma parte das pessoas que frequentam a região do porto, a tribo mais madura eu diria. Destoam deles somente aquelas meninas adeptas do hippie chic e estudantes de publicidade heterossexuais musculosos e tatuados. Ah, e alguns caras usando polos com números imensos nas costas, pagando bebida para três garotinhas (falsamente) loiras das quais ele tem esperança de comer pelo menos uma, mas ela só vai dar quando tiver um anel do seu dedo. Eu estava com amigos dançarinos e atores que me definem como artista plástico quando me apresentam a alguém (os quais sempre me envolvem em seus projetos e eu sempre aceito).
Sentamos numa mesa afastada, quando o show acabou, em frente a um albergue e um ateliê de pintura, éramos um grupo grande (que não parava de aumentar) que conversava sobre sexo e relacionamentos, sobre Dilma e Aécio, sobre Almodóvar e revistas em quadrinhos. Uma destas pessoas novas era um rapaz de barba. Ele era másculo, mais alto que eu, com uma barriguinha, nada de corpo saradinho de academia, mas não era gordo. Ele sentou-se ao meu lado e ninguém se deu ao trabalho de nos apresentar, mas isso não nos impedia de conversar normalmente, mas ele me olhava de uma forma diferente. Havia interesse no olhar dele. Era óbvio! Foi quando alguém sugeriu irmos a outro bar. "Lá é mais barato", comentaram. E todos levantaram, o rapaz de barba também, e antes de nos afastarmos da mesa, ele me parou. "Eu queria um beijo seu". Eu sorri. E apesar de lembrar que nem sabia o nome dele, dei-lhe o beijo. Ele me olhava quase implorando, parecia que eu era um cara que ele sempre quis beijar. Foi um único beijo, rápido, e depois nos juntamos aos outros. Ele no entanto se afastou de mim. Eu esperava que ele iniciasse uma conversa, que pretendesse ficar comigo durante o resto da noit e, mas, apesar do olhar ser o mesmo, ele se comportou de forma completamente estranha. Caminhando ele parecia envergonhado, ao chegar no bar sentou-se do outro lado, eu nem vi em que momento ele foi embora, mas dei de ombros. Era apenas madrugada.
Continuamos sentados no bar que da para a praça do teatro, cercados por prédios antigos que devem ser assombrados principalmente por antigas prostitutas do cais, eu sempre paro para admirá-los, são todos lindos, apesar da falta de conservação por parte da prefeitura. O bairro, todo tombado pelo patrimônio histórico do Estado, nunca teve nenhum projeto de restauração dos prédios, é terrível ver como eles correm risco, se eu pudesse, compraria todos e cuidaria deles. Foi perdido em meio a estes pensamentos que percebi que havia chegado ao bar um garoto que havia me adicionado no Facebook mais cedo naquele dia. Ele conhecia um dos meus amigos, o Diretor-de-Teatro, e sentou na mesa dizendo: "Eu te adicionei no Facebook hoje", eu disse que sabia. Ele era lindo, ruivo, com um sorriso fácil e safado, sempre erguendo a sobrancelha esquerda. E foi com este sorriso no rosto que ele se aproximou e me beijou. Bem alto, com pernas grossas e uma bunda linda sob o jeans escuro, ele com certeza não tinha mais que 25 anos. Ao contrário do outro, sentou ao meu lado, e entre piadas e conversas passamos o resto da madrugada ali, entre cervejas e cigarros, com meus amigos. Era, pelo menos, 4h da manhã quando nos recolhemos para nossas casas. Cada um para sua, infelizmente.



PS: Estarei mudando o número de postagens agora para somente uma, semanalmente. Não tenho assunto para postar mais frequentemente, afinal sei que ninguém aqui está interessado em me ver falando sobre meus dias solitários, tentarei manter esta quantidade de posts, se nem isso eu conseguir, talvez seja hora de encerrar o blog.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Creta: A Masculinidade da Amendoeira

Agdístis é um deus antigo, de origem anatólia, da Frígia para ser mais exato, que foi introduzido cedo na Grécia. Ele era hermafrodita, o que comprova sua origem oriental, pois a existência de deuses com dois sexos não é comum dentro do pensamento religioso nem creto-micênico nem grego. No entanto, seu mito, aquele que chegou a nós, é uma versão tardia. É Pausânias, do século I d.C.; e Ésiquios de Alexandria, do século V d.C., que nos permitiram ter acesso ao conto que fala sobre o amor do deus hermafrodita pelo jovem e belo pastor Atis, inclusive competindo com a grande deusa Cibele.
Conta Pausânias em seu Descrição da Grécia (VII, 17, § 5):

Mas a visão atual sobre Átis é diferente, a lenda local sobre ele ser eunuco. Zeus, diz-se, deixou cair em seu sono  sua semente sobre a terra, (Ésíquios de Alexandria conta outra versão que Zeus teria se apaixonado por Gaia, a terra, e apesar dela não ceder aos seus avanços, ele masturbou-se e lançou sua semente ao chão, engravidando a deusa) que no decorrer do tempo transformou-se em um demônio, (daimon, espírito divino) com dois órgãos sexuais, masculino e feminino. Eles chamam o daimon Agdistis. Mas os deuses, temendo Agdistis, cortaram-lhe o órgão masculino. Do seu órgrão cresceu uma árvore de amêndoa com sua fruta madura, a filha do rio Sangarius, dizem eles, tomou do fruto e o deitou no seu seio, que ao mesmo tempo desapareceu, e ela estava com a criança . Um menino nasceu, e exposto, mas foi cuidado por um bode. Como ele cresceu sua beleza era mais do que humano, e Agdistis se apaixonou por ele. Quando ele cresceu, Átis foi enviado por seus parentes para Pessinos, para que pudesse casar com a filha do rei. Quando o hino a Himeneu era cantado, Agdistis apareceu, e Átis enlouqueceu e cortou os próprios órgãos genitais, assim como ele também quem estava dando a ele sua filha em casamento. Mas Agdistis se arrependeu do que havia feito a Átis, e convenceu Zeus a conceder que o corpo de Átis não deveriam apodrecer e nem desaparecer. Estas são as formas mais populares da lenda de Átis. "

Strabo acrescenta, no entanto, em seu Geografia (3.12-13) que em alguns lugares da Frígia, Agdístis era considerado uma deusa, idêntica a Reia e a Cibele e não um homem que havia sido emasculado. Vejam abaixo:

12 Mas quanto aos Berecintos / uma tribo de Frígios e os Frígios em geral, e os dos Troianos que vivem em torno do Ida, eles também mantêm honras à Reia e adoram-na com orgias, chamando-a de mãe dos deuses e Agdistis, a grande deusa frígia, e também, a partir da lugares onde ela é adorada, Idaea e Dindymene e Sipylene e Pessinuntis e Cybele e Cybebe. 2 Os gregos usam o mesmo nome "Curetes" para os ministros da deusa, não tomando o nome, no entanto, a partir da mesma mítica história, mas considerá-los como um conjunto diferente os "Curetes," ajudantes por assim dizer, análoga à sátiros; e mesmo eles também chamam Coribantes. 
13 Os poetas são testemunhas como eu tenho sugerido. Por exemplo, quando Píndaro, no ditirambo que começa com estas palavras: "Em mais cedo vezes lá marcharam", menciona os hinos cantados em honra de Dionísio, ambos os antigos e os mais recentes, e em seguida, passando a partir destes, diz: "Para executar o prelúdio em honra de Reia, grande mãe, o giro".

A mesma informação é dada em outro trecho (12.5.3) do mesmo livro: 

3. Pessinus é o maior dos empórios naquela parte do mundo, contendo um templo da Mãe dos deuses, que é um objeto de grande veneração. Chamam-lhe Agdistis. Os sacerdotes estavam em tempos antigos com grande poder ali, e colhiam os frutos de um grande sacerdócio, mas atualmente, suas prerrogativas foram muito reduzido, embora o empório ainda perdure na cidade. O recinto sagrado foi construído pelo rei Attalic de uma maneira digna de um lugar sagrado, com um santuário e também com pórticos de branco mármore. Os romanos fizeram o famoso templo quando, de acordo com os oráculos da Sibila, que enviado para a estátua da deusa lá, da mesma forma que fez no caso do de Asclépio em Epidauro, Existe também uma montanha situado acima da cidade, Dindymum, depois que o país foi Dindymene nomeado, assim como Cybele foi nomeado após Cybela. 

Os Curetes ou Coribantes, os sacerdotes tanto de Cibele quanto de Agdístis eram eunucos e o mito de Atis explica isto. Quando Pausânias narra que na presença do deus os homens foram tomados pela loucura e se castraram (Átis e seu sogro), demonstra os ritos em que homens dedicavam sua masculinidade as deusas Cibele, Reia e também ao deus-deusa Agdístis. Ritos comuns na Ásia Menor, mas também Fenícia e Mesopotâmia. Os ritos dos Curetes e Coribantes envolviam música, aos sons de címbalos castanholas e flautas e tambores, eles se apresentavam sempre completamente armados então a dança envolvia lanças que se entrechocavam com escudos de bronze, dançavam em círculos até entrarem em transe, era neste momento que os que iam se iniciar para a deusa ou o deus-deusa castravam-se sentados em uma cadeira no centro do círculo.  Adivinhos, a dança destes sacerdotes (e Zeus é cognominado o "maior dos Curetes") é um rito de fertilidade bem atestado por inúmeros autores antigos, acreditava-se que o sangue que escorre dos homens emasculados, que era recolhido embaixo da cadeira, era capaz de fazer com que terras inférteis possam voltar a produzir. Era também parte dos ritos de Agdístis os rituais orgiásticos em que os fieis faziam sexo com os sacerdotes e sacerdotisas do deus para que através desta hierogamia (casamento com o sagrado) os desejos pudessem ser realizados. 

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sobre Experiências, Traições e Afins

, em Natal - RN, Brasil
Eu tenho uma curiosidade imensa daqui do meu lado da vida, de onde observo vocês, sabe? O que significa ser traído? Porque eu observo as pessoas e todas temem a traição de uma forma tão intensa, algumas pessoas chegam perto das raias da fobia, porque se esquivam de relacionamentos, de contatos com outras pessoas, ou mantendo relacionamentos superficiais, temendo que um dia possam vir a ser traídas. É um pavor que eu não entendo. De fato, não entendo. Eu sei que o argumento vai aparecer aqui então deixem-me dizer que onde falo, de onde estas questões surgem. Em primeiro lugar, todos sabem que minha experiência com namoros é praticamente nula, somente um que durou seis meses com o Tato (oi, Tato), portanto eu não tenho ideia do que é sentir-se traído e principalmente do sofrimento que isto pode causar em alguém. Minha falta de experiência com o assunto é real e por isso apelo a vocês para que me expliquem, eu não estou brincando, é uma dúvida real. Então, por favor, não respondam que se eu tivesse um namorado eu ia entender. Eu não tenho, e talvez por isso eu não entenda, talvez! Afinal exista a possibilidade que a minha concepção sobre traição seja real, apesar de nunca testada empiricamente.
Minha concepção de vida, filosófica, política, acadêmica formada através dos livros que li (porque, repito, minha experiência com tudo isso é puramente intelectual) em que eu não considero que a posse sobre alguém seja basilar ao amor, isto é, nunca acreditei em minha vida que para eu me sentir amado ou para que eu amasse alguém, eu teria que ser fiel e pertencer somente a uma pessoa. Em teoria, eu seria facilmente adepto do poliamor, nunca fui uma pessoa ciumenta, nunca acreditei que a base de um relacionamento saudável seja a fidelidade e sim a lealdade, e qual a diferença entre os dois? Fidelidade é você nunca se relacionar com outras pessoas, lealdade é você nunca enganar a outra pessoa, você pode ser fiel e nunca ter sido leal (por exemplo, mentindo sobre o trabalho, sobre a condição econômica, etc) e você pode não ser fiel, mas ser completamente leal (como em relacionamentos abertos). Obviamente, eu nunca pus nada disso a prova, afinal meu namoro a distância com o Tato (Belo Horizonte/MG - Cabo Frio/RJ) não é o melhor exemplo dado as inúmeras idiossincrasias que um relacionamento via MSN tem per si
Lembro também dos grandes traidores que eu conheci em minha vida, meu irmão mais velho e agora o Le Garçon Blond, (citarei apenas dois exemplos, mas não que eu não conheça outros mais), estes são sempre assombrados pelo fantasma da traição. Toda conversa sobre relacionamento com o Le Garçon sempre termina com ele falando sobre fidelidade e ele demonstrando que não confia em ninguém. Meu irmão mais velho perseguia suas namoradas e queria saber onde elas estavam o tempo todo porque ninguém poderia enganá-lo. Mas ambos traem continuamente as pessoas com quem se relacionam. É outra dúvida: pela minha experiência intelectual parece haver uma ligação entre aqueles que mais traem e aqueles que mais tem medo de ser traídos, isto procede ou minha amostragem está viciada? Eu inclusive conheço dois casos de pessoas que sempre traíram e temiam absurdamente serem traídos que ao casarem-se e finalmente dedicarem-se realmente a uma vida fiel perderam o medo de serem traídos também. Então, esta lógica faz sentido?
Estas perguntas são porque eu vejo este medo irracional das pessoas e eu fico aqui pensando comigo: por quê? Dói tanto assim que a pessoa prefere se privar de tudo o de bom que um relacionamento traz (companheirismo, amizade, sexo, amor, felicidade) por causa de uma possibilidade que pode vir a não se realizar? Ou estas pessoas tem um concepção de amor errada (afinal amar algumas pessoas eu já amei mesmo, uma única vez correspondido de 3), elas sentem que a precisam possuir a pessoa e é este sentimento que quando é rompido dói tanto, como quando uma criança mimada não tem aquilo que quer? É o ego magoado que dói tanto? Uma vez me disseram que se eu tivesse vivido estes amores que tive em sua completude, isto é, se o namoro com o Tato não tivesse sido a distância, ou se o Anjo em Belo Horizonte ou se o Menino Bonito aqui em Natal tivessem correspondido aos meus sentimentos eu não pensaria deste jeito. Será? Fico com minhas dúvidas, será que vocês podem ajudar-me?

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Preconceito Bipolar

, em Natal - RN, Brasil
Tem coisas neste nosso mundo gay que eu não entendo como ainda acontecem. A gente está ai, quase na segunda década do século XXI, e eu ainda tenho que escrever texto sobre o preconceito que homens gays tem dos bissexuais. Sabe?, para mim, é simplesmente absurdo, tanto quanto a homofobia internalizada e o preconceito contra efeminados, os motivos são tão óbvios que devíamos estar focando em combater o porque disto existir e não gastar tanta energia repetindo discursos comprados. Último dia 23 foi o Dia da Visibilidade Bissexual, o dia foi criado em 1999, por três ativistas dos direitos bissexuais nos Estados Unidos, eles alertavam que depois de Stonewall, a comunidade gay e lésbica havia crescido em força e visibilidade política, enquanto o mesmo não havia acontecido, na mesma proporção, com a comunidade bissexual. Em muitos modos eles ainda continuavam invisíveis sobretudo porque quando vê-se um casal andando de mãos dadas tacha-se logo que os membros são ou héteros ou gays, dependendo do gênero que percebe-se das pessoas, nunca imagina-se que algumas daquelas pessoas possa ser bissexual. O evento foi concebido como uma resposta ao preconceito e a marginalização que pessoas bissexuais sofrem tanto das comunidades hetero como gay.
Repete-se, sobretudo no mundo gay, que os bissexuais são pessoas indecisas. Que não decidiram e que precisam fazer isto. A origem deste preconceito é bem clara, na verdade. Muitos meninos gays adentram na vida homossexual assumindo uma imagem bissexual porque acreditam que assim, entrando aos poucos, digamos, eles são menos gays. Acreditam eles que por mais que se envolvam com homens, na verdade eles gostam mesmo é de mulher, e conseguem, nesta fase de transição, aceitar o rótulo de bissexuais, afinal estes são ainda homens de verdade porque esta terrível categoria (e isso é deliciosamente irônico) é sempre aquela definida por causa das mulheres que existem em sua vida. O preconceito gay se baseia neste personagem: o homem gay cheio de preconceito contra si mesmo que assume o rótulo de bissexual para ser menos gay. Este problema existe, é real!, e precisamos lidar com ele ao discutir o preconceito homossexual com este grupo com o qual dividimos nossa sigla política. Para boa parte da população gay, todo homem bissexual é na verdade um homossexual que está enganando sobretudo a si mesmo. 
Mas a realidade é muito mais complexa. Não existem somente estes dois blocos antagônicos de sexualidade, a heterossexualidade e a homossexualidade. Citando a escala Kinsey, entre os dois estava exatamente a bissexualidade. Existem pessoas sim que se interessam por ambos os gêneros e que não estão mentindo para si. Existem homens e mulheres que se sentem atraídos tanto pelo seu mesmo gênero quanto ao seu oposto. Eles existem e cabe a nós aceitá-los, mas também cabe a nós criar um ambiente livre de homofobia que não faça com que um homem gay se sinta mais confortável definindo-se como bissexual do que como gay, que ele se sinta mais seguro mantendo uma relação com mulheres somente para não sentir-se um não-homem. É necessário para combater o preconceito contra bissexuais combater a definição de homem, raiz da homofobia, que define este ente como aquele que tem relações sexuais com mulheres. Quanto mais distanciarmos a definição masculina desta relação sexual com o gênero oposto (o que também causaria uma bem-vinda redefinição do que é ser gay para além do ato sexual)  e também afastarmos a imagem negativa dos gays e lésbicas, os jovens não precisarão utilizar o rótulo bissexual para suportar a sua transição de saída do armário. 
Toda a questão se resume, principalmente quando pensamos na invisibilidade bissexual (questão que eu não imaginava que existia, mas faz muito sentido), a uma definição que é absolutamente necessária para que abracemos a diversidade sexual humana com toda a sua gama de possibilidades. Desde já temos que ter a consciência que o fato de um homem fazer sexo com outro homem, namorá-lo ou mesmo amá-lo não o faz necessariamente gay, como o fato de um homem fazer sexo com uma mulher, namorá-la ou amá-la não a faz heterossexual, porque ser gay, ser hetero ou ser bissexual precisam ser definidos para além da relação que a pessoa tem com outras pessoas, isto é, para além de um rótulo externo, para serem definidos, em contrapartida, para as identidades que construímos interiormente. Somos gays, heteros ou bissexuais porque nos identificamos assim, esta identidade sexual, como a identidade de gênero, não podem ser construídas através de símbolos externos. Tendo esta consciência é preciso adotar o exercício de somente definir pessoas depois de conhecê-las realmente, o problema do preconceito é que ele sempre pressupõe coisas antes de realmente perguntar e isto sempre causará problemas. Precisamos de parar de ter preguiça para conhecer as pessoas no lugar de jogá-las dentro de nossas gavetinhas de gays, heteros ou bissexuais, somos mais do que isso, felizmente!








terça-feira, 23 de setembro de 2014

Le Garçon Blond (prendre trois)

, em Natal - RN, Brasil


Foxx: Ah, por falar em sexo, tô comendo Le Garçon quando ele tem vontade de sexo. Funciona assim: ele me liga quando dá vontade, dá e depois vai embora.
Rodrigão: (risos) Aquele que o namorado fez um escândalo? 
Foxx: Sim, aquele.
Rodrigão: Para quem não queria mais saber de homem, 'tá comendo bem você hein?
Foxx: Ah, eu estava na secura, precisava de alguém para descarregar esta energia. 
Rodrigão: (risos) Acho que você está certíssimo! Descarrege mesmo! Encha o cara da sua energia.
Foxx: Eu não o procuro, sabe? Quando ele quer, ele vem, e não existe nenhum envolvimento meu com ele.
Rodrigão: De fato, uma forma boa de você não se envolver é deixar que ele te procure... mas e o namorado dele?
Foxx: Até onde eu saiba, sobre o namorado, eu acho que terminou depois do escândalo, porém eu sei que ele está conversando com mais cinco outros caras, porque ele acha que eu não vejo as mensagens que ele responde chamando os caras de "amor" na minha frente pelo WhatsApp... ele, de fato, se acha o grande cafajeste do mundo. O bichinho ainda tem tanto o que aprender nessa vida.
Rodrigão: Ele é novinho...
Foxx: É, tem 19 anos apenas. 
Rodrigão: É uma criança... Mas e daí? Deixa ele ser jovem, deixa ele ter 19 anos, nada como ser desejado por um garotão que tem uma bundinha linda.
Foxx: A mais gostosa! E sim, eu concordo, que ele é uma criança, mas não vejo problema nenhum nisso não.
Rodrigão: Ele é um ordinário, mas que mau tem para você né? Ele que vem atrás! 
Foxx: Ah, Rodrigão, eu não vejo problema nenhum! Porque meu único objetivo com este relacionamento é apenas gozar na bunda dele mesmo. 
Rodrigão: Sim, sim, esse é o objetivo. Então coma, farte-se e pronto.
Foxx: Se eu não me iludo com a ideia de que ele pode vir a gostar de mim, não há como haver problema. Só haveria sofrimento se eu ainda sonhasse que é possível alguém vir a me amar, quando eu não pressuponho que isto possa acontecer, eu nunca sofro. Mesmo se eu me apaixonar, não espero, em hipótese alguma que ele venha a nutrir algum sentimento por mim. Eu sirvo apenas para matar a carência e o tesão dele quando surgem, ele cumpre para mim basicamente o mesmo sentido.
Rodrigão: É que ele é um moleque, também não é? Não é um cara apaixonante.
Foxx: Não, Rodrigão, eu que não sou.