Google+ Estórias Do Mundo

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Contra-producente

, em Natal - RN, Brasil
Estávamos no Casa Nova, era uma sexta a noite e nos encontrávamos cercados da fina flor da sociedade gay natalense. Já falei deste bar antes. Caro, em que os viados desta exercitam o esporte que mais gostam: exibir o quão bem sucedidos são. Deve ser falta de auto-estima precisar tanto despertar inveja nos outros. Seu sucesso só existe se outros o cobiçam.  Eu com certeza devo soar muito diferente de todos eles ao ter consciência de meus fracassos. Eu estava acompanhado de um amigo que conheci em Belo Horizonte, ele estava aqui a trabalho e nos encontramos ali para conversar.
- Esse aí é o meu tipo.
Apontou meu amigo. Era um cara maduro, por volta de 40 anos, imaginamos. Com o corpo musculoso, mas não olhava para nós. De fato, muito bonito. E ele perguntou:
- Qual o seu tipo, Foxx?
- Ah, eu lá tenho tipo! Se gostou de mim, eu gosto dele. Sou bem eclético para dizer a verdade. Porém, é mais comum eu ficar com garotinhos, meninos novinhos entre 18 e 25 anos, é o tipo de homem que normalmente se interessa por mim. Eu não tenho vergonha de admitir...
Ele bebia cerveja interessado no que eu dizia. Eu continuava.
- Eu fico com os homens que querem ficar comigo. Eu tenho um tesão bem grande, por exemplo, por loiros, mas a maioria de homens que eu fiquei são negros. Inclusive, meu único namorado. 
- Pois eu gosto de caras mais velhos, e também com barba, esse rosto másculo me deixa excitado.
falou meu amigo mineiro sorrindo para o cara na outra mesa. 
- E você sabe que seu tipo atrai normalmente homens mais velhos não é?
- É?
- Sim, você tem cara de garotinho!
- Ah, mas eu uso barba exatamente para aparentar ser mais velho.
- Não 'tá funcionando, amigo! 
- Não?
Rimos juntos. 
- Não! E assim... obviamente não é todo homem maduro que gosta de garotinhos... mas os que gostam de homens mais velhos não vão olhar para você. Não com essa cara de 19 anos que você tem. Sinceramente, acho que você tem que investir neste nicho: homens mais velhos que gostam de garotos mais novos. Investir em ser esse garoto mais novo, já que você foi abençoado com este presente da eterna juventude. 
Ele sorriu para mim. Eu continuei falando:
- Outra coisa: usar barba é totalmente contra-producente!
Ele riu alto e tomou um gole de cerveja.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Le Garçon Blond (pendre deux)

, em Natal - RN, Brasil
Sabendo que ele tinha namorado, continuei conversando com ele. Ele sempre me dizia coisas como que queria encontrar alguém para namorar, que era um rapaz sério e eu fingia que acreditava nele. Dava corda apenas. E ele falava, notei que este era o jogo dele. Ele gostava de me fazer sonhar com ele, gostava de me fazer acreditar que ele era o cara perfeito. Ele conversava sempre comigo no fim da noite, aparecia sempre domingo, ou seja, era nos momentos que ele estava carente por algum motivo que ele queria ouvir que eu estava interessado nele, que o desejava, que o achava bonito. Mas o problema destes cafajestinhos é que eles acham-se inteligentes demais e acabam por cometer pequenos erros. E, um dia, eu recebo uma mensagem pelo Whatsapp: "Ei, você é um antigo namorado do Garçon? Pois saiba que nós agora estamos namorado, eu pediria que você deixasse de mandar mensagens para ele". Eu gargalhei sozinho, ao ler. Recortei nossas mensagens mais antigas, na qual ele fala que era solteiro. E enviei para o tal namorado. Enfatizando a data e dizendo: "O que ele me contou é que era solteiro". Ele respondeu dizendo que não acreditava. Sou muito paciente, para dizer a verdade, e escrevi: "Olha, meu amigo, você tem todo o direito de não acreditar, mas quem está sendo traído aqui não sou eu, ok?". E mandei mensagem para ele. "Seu namorado acabou de mandar uma mensagem reclamando de eu escrever mensagens para você. Você achou mesmo que poderia nos enganar? kkkkkk". Ele, obviamente, não teve coragem de responder.
Pelo menos não por duas semanas. No Facebook, pelo menos, o namoro havia acabado. Foi a primeira coisa que eu olhei antes de sequer responder sua mensagem pelo WhatsApp. "Menino, o que foi aquilo do seu namorado?". Ele começou a mentir. "Ele não era meu namorado, é um maluco que acho que gosta de mim, ele pediu me celular emprestado e viu nossas mensagens e ligou para você". Eu, simplesmente, não acreditava que ele estava mentindo com tanta cara de pau. Ele demorou duas semanas para inventar essa desculpa? Não falei sobre a rede social, era uma excelente fonte de informações, que ele poderia controlar se eu comentasse. Eu imaginei que ele deveria estar solteiro agora, mas seu comportamento não mudava em nada. Continuava falando sobre ser um homem sério, que estava procurando um relacionamento para casar, e me convidou para sair. Na verdade, sabendo que eu morava sozinho, convidou-se para fazer-me uma visita em um sábado a tarde. Disse-lhe então: "É sério que você não tem namorado? Eu não fico com caras que tem namorados, entende?". Ele jurou. "Cara, sou solteiro sim. Não tenho namorado!". Eu sabia que era mentira, mas resolvi aceitar. "Tá, aparece ai, que horas você quer vir?".

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Walking Dead

, em Natal - RN, Brasil
Ludo: Sabe, Foxx, eu estava aqui pensando sobre seu problema com namoros. Eu REALMENTE acho que seu problema é o lugar. Eu considero você um ursinho, sabe? Em São Paulo existem 'gangues' disso. Bares só para isso e etc. 
Foxx: Sim, sou de verdade.
Ludo: Em Natal, com certeza não tem. Em BH, eu não sei.
Foxx: Em Belo Horizonte tem um: o Mineiro Bill.
Ludo: Natal é o pior lugar que eu já morei na minha vida!!! Eu levava uma ou duas cantadas na Vogue, quando saía por aí, e daí quando eu voltava para casa, a pé, e três ou quatro carros paravam na rua me convidando "para dar uma volta". Todos homens casados com mulheres. É nojento. Degradante. Pútrido.
Este lugar que você mora não combina com você. Não combina com sua alma e não aceita o seu corpo. Você é uma flor sufocando no meio do deserto.
Foxx: Sim, eu concordo. Mas não dá mais p'ra sair daqui.
Ludo: Eu queria MUITO que você tivesse empolgação e saísse daí, mas eu sei como é difícil. Então, eu fico aqui, torcendo quando posso. 
Foxx: Eu não mudaria nenhuma palavra sobre o que você disse, Ludo. Nem sobre a cidade, nem sobre mim. Se eu tivesse alguma empolgação, entusiasmo, eu talvez visse algum motivo para ainda tentar. Mas meus sonhos foram todos destruídos, eu só continuo caminhando em frente para não ficar parado mesmo, mas eu não tenho nenhum lugar que eu quero chegar. Quando deixei Belo Horizonte e retornei para Natal, eu estava vindo para meu túmulo. Estou há dois anos nesta vida de zumbi.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Creta: O Antigo Amante

, em Natal - RN, República Federativa do Brasil


Dentro do ciclo apolíneo, após cometer o assassinato da Píton, em uma versão, e dos Ciclopes, durante a guerra entre os deuses e os Titãs, em outra, o deus da luz e das artes se isolou na corte do rei Admeto para purificar-se do pecado contra a vida que havia cometido por nove anos. Admeto era filho de Feres, rei da cidade que levava seu nome, e Periclímene. Participou na juventude da caçada ao javali de Cálidon e da expedição dos Argonautas em busca do velocino de ouro, dois importantes ciclos entre os heróis gregos. Ao retornar a sua cidade natal, jovem ainda, tornou-se rei porque o pai abdicou do trono em sua honra e, nos primeiros anos do seu reinado, o deus Febo Apolo pediu exílio em sua casa, tornando-se pastor do seu gado e, conta-se também, que eles teriam se apaixonado. 
O Hino a Apolo escrito por Calímaco foi um dos poucos textos que nos sobraram que descrevem o relacionamento entre o rei e o deus. É no parágrafo 47, traduzido abaixo que encontramos a referência:

[47] Febo e Nômio podemos chamá-lo, desde que, quando por Amfrísios, ele cuidava de éguas domesticadas, atingido pelo amor do jovem Admeto, cuidava do seu rebanho de gado, de abelhas, nem faltava às cabras do rebanho, sobre o qual como eles se alimentam, Apolo lançava seu olho; nem sem leite que as ovelhas, que também não eram estéril, mas todas teriam cordeiros em pé; e ela que nua em breve seria mãe de gêmeos.

Apesar de Junito Brandão propor que foi a extrema deferência com a qual foi tratado pelo rei que o fez o deus manter sua gratidão, algumas referências falam que é paixão de Apolo por Admeto o faz ajudá-lo nas mais incríveis tarefas, mesmo depois que o exílio termina. Por exemplo, quando o rei decide se casar com Alceste, a filha de Pélias, rei de Iolco, foi o deus quem ajudou-o na tarefa imposta pelo rei para dar a mão da princesa em casamento. Pélias exigiu que o noivo se apresentasse em um carro puxado por uma parelha antagônica: um leão, símbolo da valentia e da força; e um javali, tradução de poder espiritual. O deus de Delfos concedeu-lhe um carro puxado pelos animais (o que, com certeza, representa uma iniciação dentro dos mistério dentro da religião apolínea) e com isso o rei de Feres recebeu em felizes núpcias a bela Alceste. 
Febo também salvou Admeto de uma morte prematura quando as Queres sorteiam seu nome para a morte. Apolo embriagou as senhoras do Destino e as fez prometer que se alguém tomasse o lugar do jovem rei, sua vida não precisava ser extinguida. Em sua glória, o deus apareceu a seu antigo amante e contou o que havia conseguido para ele. No entanto, infelizmente nem seus idosos pais, nem seus amigos ou irmãos quiseram fazer este sacrifício, somente Alceste, sua amada esposa, prontificou-se quando o deus contou a forma como poderia salvar sua vida. Na tragédia Alceste, de Eurípedes, é Herácles, que era amigo de Admeto desde a expedição dos Argonautas quem salva a bela rainha da garras de Tânatos, a morte, já diante do túmulo. Porém as versões mais antigas afirmam que foi a rainha dos mortos, Perséfone, que admirada com tamanho amor que Alceste demonstrou pelo marido a enviou de volta a vida para que o amado do deus não sofresse. 
É interessante notar que o relacionamento entre Apolo e Admeto não inviabiliza de maneira alguma o casamento e o verdadeiro amor que este último vem nutrir depois pela princesa de Iolco. O amor entre o antigo amante divino e de Alceste é real e reconhecido pelas divindades também (Herácles e Perséfone) demonstrando o quanto a sexualidade aqui não estava dividida entre distantes polos rotulados como homossexual e heterossexual cuja experiência em um lado impossibilitaria a vivência de qualquer coisa na sua contraparte, isto é, na sociedade creto-micênica as experiências homoeróticas e heteroeróticas podem ser vividas pelo mesmo indivíduo sem nenhum problema, na verdade, elas só demonstram fases distintas da vida de um mesmo homem, sendo as relações homoeróticas voltadas normalmente à juventude enquanto é reservado à maturidade (sobretudo pensando na geração de descendentes) os relacionamentos com o gênero oposto. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Le Garçon Blond (prendre un)

, em Natal - RN, Brasil
Tarde de domingo, um sol escaldante banhava o bairro de Ponta Negra com uma luz que exigia a presença de óculos escuro no rosto de qualquer um que ousasse sair a rua. Eu estava ministrando um curso sobre Astrologia Cármica por ali, e sai para comer com duas das minhas alunas porque voltaríamos a tarde para a segunda parte das aulas. Eu não o vi quando entrei, somente quando sentei no fundo do restaurante, o vi me observando lá do outro lado. Ele sorriu para mim com alguns dentes tortos. Era branquinho, com olhos apertados e corpo sarado. Cabelo arrumado para cima e pele lisa, sem pêlos ou aquela sombra de barba de quem tem muita testosterona no corpo. Rosto imberbe é a descrição correta. Ele me observava de frente a mim e eu calculava que ele não teria nada mais do que 19 anos. Um rapazinho. Almocei sobre seus olhares e levantei para pagar a minha conta, mas antes parei para tomar um chá e, por acaso, perto dele. Ele então se apresentou. O significado do nome dele é loiro. E eu sorri. Ele perguntou se já nos conhecíamos e eu disse que sim. Dias atrás (eu lembrei quando ele se aproximou), ele tinha me pedido meu telefone no ônibus, mas não ligara. Ele lembrou, mas não se envergonhou, só concluiu: "Pois desta vez eu vou ligar sim" e pediu, novamente, o telefone, o que eu dei, movido pelo meu sentimento de não querer ser o sabotador de minha vida amorosa. Ele me escreveu, no Whatsapp, no fim da tarde. Falou que ter me encontrado de novo era coisa do destino e que dessa vez ele não ia deixar passar, precisava me conhecer melhor. E eu senti cheiro de cafajeste. Ele se disse solteiro e falou sobre trabalho e eu, como quem não quer nada, perguntei-lhe o nome completo. E joguei no Facebook. E estava lá: em um relacionamento sério desde o dia anterior. Dezenove aninhos, achando que conhece a vida, e que sabe como enganar a raposa aqui, mas porque não brincar um pouco com ele?

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Nova Bossa

, em Natal - RN, Brasil
Não conhecer história é um crime imperdoável, sabe? Imperdoável! Porque ficamos repetindo coisas como se fossem criações nossas. Acreditamos que somos especiais, que somos criativos, que somos livres, quando não somos nada mais do que repetidores de programações que herdamos. Somente tendo consciência que estamos sendo programados, que existe um discurso que se finge de natural e que pretende controlar nosso pensamento, que podemos enxergar que existem algo ali que precisa ser descartado. É olhando para o passado, que podemos ver como nossos antepassados se comportavam diferente que podemos ver que existe algo errado no nosso presente.
São inúmeros os exemplos. Ver a minha coluna sobre Homohistória mostra, por exemplo, que o comportamento sobre as relações entre pessoas do mesmo sexo mudaram consideravelmente através do tempo. Podemos falar também sobre como entendemos a infância o que causa sempre polêmicas por causa de nossa invenção mais recente, a pedofilia. Eu poderia dizer até para vocês que a própria morte tem sua história porque, apesar das pessoas morrerem, a relação com este fato se processou diferentemente dependendo da época. Mas o exemplo que eu queria falar hoje é o nosso atual comportamento em relação ao amor. Antes é bom dizer: o amor ele é um fato, ele existe entre os seres humanos desde antes de aprendermos a registrar o que pensávamos e sentíamos, contudo, a forma como nos relacionamos com este sentimento variou muito desde a pré-história, passando pelas diversas civilizações da Antiguidade, a religiosidade cristã medieval que convivia com a poligamia islâmica, a alteração gritante que a invenção do casamento como sacramento causou e da alteração deste sacramento após a Peste Negra, sem deixar de citar o que o ideal burguês, depois o Romantismo, causaram no mundo ocidental, e mesmo a invenção do Capitalismo, o Imperialismo, as Grandes Guerras, o movimento hippie e a Contra-cultura, sobretudo os punks, anarquistas e o movimento gay, a Bossa Nova. O Amor tem uma história que precisa ser conhecida.
Quer um exemplo fácil? Na época década de 1950 no Brasil o discurso era exatamente o contrário do atual sobre este sentimento tão nobre. O legal, o moderno, o libertário era sofrer por amor. As músicas, a poesia, os boêmios queriam mesmo era contar que conheceram uma pequena, se apaixonaram e sofreram muito. Mas muito mesmo! E isso foi há 60 anos, à época que os pais destes jovens eram crianças. Dá para levantar uma lista de músicas sobre paixões não correspondidas, sobre dor de cotovelo, sobre amores impossíveis, estava na moda. Vinícius, o poetinha, é sem sombra de dúvida o grande destaque deste universo, ele diz: "Quem já passou por esta vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu. Porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu, ai".
Contudo quem conhece a História do Amor? Quem tem menos de 30 anos hoje e lê sobre História sem ser porque vai cair no vestibular? O que eu vejo são jovens gays alienados que repetem (e eu acredito que dizem isso somente porque este é o discurso que está na moda, isto é, para parecerem descolados) que não querem amar, que o amor traz sofrimento, que é muito melhor estar sozinho do que se envolver num relacionamento. Este discurso que (acho) tem origem nesta cultura hipster irritante que vê como ruim qualquer coisa que seja comum a todos e o mainstream é querer ter alguém para esquentar seus pés numa noite fria. 
Eles, estes jovens gays que mal saíram dos cueiros, repetem que sofreram demais em seus primeiros namoros (quando você pergunta detalhadamente é sempre um único namoro anterior ou inúmeros namoricos que não duraram 3 meses) e que agora não querem mais nenhum relacionamento. Interessante é que este discurso nunca é dito por alguém com mais de 30 anos (com poucas exceções na verdade). E também que todos repetem o mesmo exato texto (o que por si só já era para desconfiar não é?). Contudo, no fim, ao conhecer alguém que desperte o mínimo de tesão (porque eles não têm a maturidade para reconhecer a diferença entre tesão, paixão e amor, até porque não experimentaram todos eles) já acreditam que estão eternamente apaixonados,  planejando seu casamento ao som de músicas da Lana Del Rey, só para descobrir que era fogo de palha e sofrer horrores. Afinal de contas, imaturos e desinformados sobre o mundo, a vida, a história e a sociedade em que vivem eles não tem a percepção de que somente repetem um discurso que venderam para eles como moderno, libertário, legal.
Dois discursos para ser exato. Dois discursos que não se encaixam de jeito nenhum. Primeiro, o do amor eterno. Esse vendido por novelas e desenhos de princesas Disney que faz todos acreditarem que o amor é fácil e simples de acontecer, que você vai encontrar o príncipe em uma festa, haverá um único beijo e todos serão felizes para sempre. Nunca haverá nenhuma briga, nenhuma rusga, que o amor para ser verdadeiro tem que ser com alguém perfeito. Este discurso romântico barato alimenta o desejo que é negado constantemente pela nova moda: eu sou autossuficiente. Todos criados dentro de uma geração cujos egos estão a explodir dado como se posicionam como centros do mundo, estes jovens gays, que olham para um mundo que deveria admirá-los como divas e saciar seus desejos como deuses, querem que o amor chegue para eles sem esforço, mas se ele exige um pouco de dedicação, seus egos os fazem pular fora e responder com "ah, eu não queria mesmo"! A ironia hipster, no fundo, é perfeita para fingir que eles não desejavam nada. O ego vence no final das contas.
Mas é a desinformação, no fundo, o grande pecado, claro. Também o fato de que eles acreditam, e isso é culpa da idade mesmo, de que eles já sabem tudo o que é preciso saber. E o mal do conhecimento é que você não sabe o quanto precisa dele até possuí-lo. Até lá, o mundo pequeno em que alguém desinformado vive, as vendas que cobrem seus olhos, não permitem nem que ele sinta falta da informação que não sabe ainda que precisa. Então, esses homens gays imaturos (a maioria bem jovem, mas a verdade é que muitos trintões e quarentões também estão no mesmo barco) precisa aprender sobre o passado para reconhecer as armadilhas que o presente constrói para nós. São muitas, muitas mesmo! Esse conselho serve também para a eleição que vem aí.

(acho que eu já estou velho falando dos "jovens gays" como se fossem um grupo distinto de mim, entrei de vez na casa dos trinta agora, né?)



terça-feira, 26 de agosto de 2014

O Filho Viado

, em Natal - RN, Brasil
- O que significa "discurso homofóbico", Foxx?
Perguntou meu pai, enquanto eu estava sentado no sofá cinza da sala dos meus pais.
- Significa ser contra gays.
Eu respondi, sem me alongar muito na questão. Eu também já estava me levantando para sair, eu precisava voltar para casa porque já era tarde. Devia ser quase 23h da noite e eu faço minhas orações sempre as 23:30h. 
- E quem seria a favor dos gays? - perguntou minha mãe - Nenhum deles presta!
Ela falou olhando nos meus olhos, em tom de ataque.
- Eu presto. 
Sorri para ela. Intocado pela raiva que ela me lançava.
- Você não é gay.
- Sim, eu sou, mãe. E não adianta você dizer que não sou. Tentar negar isto.
Eu peguei minha bolsa no sofá e coloquei no ombro.
- Eu não coloquei no mundo nenhum viado, Foxx. Filho meu não é gay!
Disse ela de voz alterada.
- Então eu acho que nasci de chocadeira.
Eu encerrei a discussão, girando nos meus calcanhares, para ir embora. Ela gritou ainda:
- Eu não tenho filho viado!
- Sua opinião foi registrada.
E eu caminhei pela garagem escura sozinho.


P.S.: Esta é a septigentésima postagem.