Google+ Estórias Do Mundo: Janeiro 2008

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

EXTRA, EXTRA, EXTRA: Adeus, Lenin

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos. (Fernando Pessoa)


Parto!
Deixo para trás uma cidade, muitas pessoas, uma família.
Claro que não os abandono para sempre. Não fujo de crimes inafiençáveis. Mas vou-me. Por minhas pernas. Para novos caminhos, novos e belos horizontes que se abrem. Deixo ventos novos soprarem em minhas velas e me levarem por mares não navegados.
Atrás de mim ficam uma cidade que far-me-á falta em seu vento fresco e úmido, suas praias desertas a 20 minutos, o mar quente, seu sol incandescente, sua decoração natalina colocada no dia 21 de novembro, este pé-de-jambo que vejo da minha janela, coqueiros além dela, meninos de calção correndo pela calçada, o céu anil, dunas de areia branca, ladeiras, a Ribeira decadente e Ponta Negra saída de Hell, holandeses, noruegueses e finlandeses invadindo as praias, ter que dar dicas em inglês para um alemão. Mas também deixo uma cidade de preconceitos. Em que eu, nascido e criado aqui, nunca fui aceito. Em que muitas vezes em suas ruas fui humilhado e denegrido, mas também deixo isso para trás. Abandono traumas, medos e complexos. Deixo Natal e renasço mineiro, para uma nova ordem, uma nova vida, novas cores.
Deixo amigos também. Conhecidos muitos. Porque em todos os ambientes que ando, muitos me conhecem, das praças, dos bares, das boates, das raves, dos shows, da universidade. Quem mandou ser simpático. Pessoas que conhecem meu passado, que talvez me conheçam melhor ou tão bem quanto eu. Deixo o Andarilho, minha maior dor. O Peter Pan já me deixou, ou quase. Ele tem tentado me trocar desde que contei-lhe da viagem. Ele se deixou ir, levado por aqueles que não o queriam comigo. Ele lutava contra, mas desistiu de lutar quando me viu arrumando as malas para partir. Mas não lhes digo adeus. Eu os encontrarei em muitos aeroportos ainda. Augusto Severo. Confins. Augusto Severo. Confins. Ah, mas também deixo sombras negras. A escola, meu high school digno de filmes americanos, é óbvio que não falamos da Disney, em que eu fui do c.d.f. à bichinha, mas extremamente conhecido, de nome doce quando falado. Adeus Daniel, adeus Juju, adeus. A faculdade também atraiu-me peças tolas: adeus Beatriz, adeus, adeus! E a net, ai a net, não dá para citar todos, mas quem me marcou mais? Wagner, que disse que eu era perfeito, mas andava e era muito bichinha e por isso não podia ficar comigo, adeus;
Família não se deixa. Afinal, ano que vem, Júpiter estará na minha casa 4, e é hora de lidar com a família. Somos próximos, mas não conversamos, a distância vai curar este problema. As palavras terão que sair, as coisas, histórias, atos, terão que ser comunicados, e essa via não utilizada, tornar-se-á de mão dupla. Falar-se-á. Um pouco de afastamento é sempre bom para qualquer relacionamento. A imersão total de um no outro sufoca, atrita, implica. Então tchau.
Parto!


Recadinho: Ficarei um pouco ausente. Até me estabilizar em Belo Horizonte. Então tchau para vocês. Eu volto logo. Com Estórias Mineiras.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

PRESENTE: Enquanto isso, no MSN...

Foxx:
Oi, meu amigo gostoso?

Filho de Marte:
Tudo bom, meu amigo estimado?

Foxx:
Adoro os adjetivos (risos)! Tudo bem sim!

Filho de Marte:
Vai para onde hoje?

Foxx:
Convites para a boate, mas não estou muito afim...

Filho de Marte:
Quando eu ia para festa, eu voltava me sentindo vazio, não era uma boa. Tem amigos héteros?

Foxx:
Não mais, meus amigos heteros viraram gays (risos). Acho que minha amizade fez eles se soltarem, sabe?

Filho de Marte:
(risos) Que azar! Era bom se eles soubessem de você e não tivessem virado. Às vezes programa de hétero é a solução viu?!

Foxx:
Sim, verdade, eu também acho.

Filho de Marte:
Não que você vai se tornar HT, impossible, mas porque você pode variar e, de repente, até encontrar alguém interesante nesse meio não-gay. Você troca a promiscuidade de um ambiente gay,
a promiscuidade de um gay de boate pelo segredo absoluto de um cara "hetero" por aí.

Foxx:
(risos) Natal é diferente, as únicas pessoas que topariam namorar comigo são as que vivem num ambiente gay. As que se escondem num ambiente HT só fariam sexo e possivelmente nem passariam telefone.

Filho de Marte:
Rapaz, Natal precisa de um dilúvio para matar todos esses viados imprestáveis daí. Como que pode numa terra tão bonita não ter gente que preste?

Foxx:
Porque aqui o mais importante é manter as aparências, pablo. As pessoas pensam sempre primeiro nas aparências: a aparência de um hetero que fica com mulheres.

Filho de Marte:
Estava vendo que o cara lá disse uma coisa importante: a preocupação com juventude e beleza é algo proprio dos gays. Um erro pois as pessoas não são só boa forma e beleza. =/. Vocês falam que sou bonito e talz, mas acho q não sou só isso, modéstia à parte, e outra.... claro que quero ficar com caras bonitos, mas se forem bonitos e não tiverem conteúdo, vacilou!

Foxx
Ahnnn?

Filho de Marte:
Ahnnn o quê?

Foxx:
O que isso tem a ver com o que falávamos? Não é beleza, ou conteúdo que importa, só importa se você pode se passar por hetero. Se você freqüenta lugares gays, vc não pode manter essa imagem; se você tem amigos gays, você não pode também; se você se veste mais preocupado com a moda, você também não pode, e o grande cúmulo, o maior defeito que você pode ter em Natal, se você for efeminado, pouco importa o resto!

Filho de Marte:
Ser efeminado é um mal em todo lugar, Foxx, os mais contidos não gostam.

Foxx:
Não acredito nisso, não posso acreditar nisso, pablo, seria muita maldade. Até porque se for problema em todo lugar, melhor eu rasgar os pulsos agora e desistir.

Filho de Marte:
Eita, exagerado, mas você é efeminado forçado?

Foxx:
Defina isso?

Filho de Marte:
Ou você é efeminado e se certifica que isso está bom para você e não se preocupa com ninguém ou você se contenha. É um triste preço a pagar, =/, ser rotulado de bichinha.

Foxx:
Cara, até pouco tempo atrás, eu nem achava que eu era efeminado, só que tanta gente começou a falar, a dizer q não namoraria comigo por causa disso, porque eu dava muita bandeira, que eu agora estou acreditando.

Filho de Marte:
Então porque você nao tenta se policiar? Ver onde você escorrega...

Foxx:
Mas eu nem percebo...

Filho de Marte:
Pois pare para notar...

Foxx:
É uma coisa tão natural, que eu naum consigo perceber quando estou agindo estranho.

Filho de Marte:
Coisas q você faz que os mais contidos não fazem...

Foxx:
Eu só percebo quando vejo num video.

Filho de Marte:
Se você não parar para ver, você nunca vai ver mesmo, não amigo?

Foxx:
Se você me filmar, aí eu vejo...

Filho de Marte:
Pois grave, filme e preste atenção.

Foxx:
É como se eu fosse uma pessoa, e meu corpo fosse outra completamente diferente de mim,dá pra entender?

Filho de Marte:
Não! Você tem que olhar para si, você vê muito os outros e esquece de olhar para si, só olha para reclamar, para ver e recriminar. Você precisa de alguem q te dê um sacode, um setocol.

Foxx:
(risos).

Filho de Marte:
Mas esquece, não resolve, entra por um ouvido e sai pelo outro!

Foxx:
Não, fala ora, por favor...

Filho de Marte:
A gente morre de falar as coisas para você e você não segue, não acredita, não tenta, num sei que foi isso que fizeram com você para te deixar tão desiludido.

Foxx:
Pablo, os conselhos que recebo ou são "mude" ou "espere q um dia melhora". Mudar significa que a pessoa que eu sou, que me orgulho de ser, está errada. Que meus defeitos são tão imensos que ninguém, nunca, em hipótese alguma, poderia gostar de mim, enquanto eu os possuir. Esperar, bem, eu detesto esperar... gosto de fazer algo, de ver as coisas acontecerem, de me mexer pra conseguir aquilo que quero.

Filho de Marte:
Você pode estar orgulhoso do que você tem hoje, mas você não está feliz com o que você é, se quer melhorar sua vida, você tem que mudar, o que é nessa vida q não muda? Tudo tem seu tempo e já passou da hora de ser uma pessoa feliz, se manca, cara! Agora querer que tudo seja bom sem se mexer, só esperando. Uma andorinha só não faz verão! Se prefere viver nessa fossa que você aparenta viver continue do jeito que está, só lhe digo isso...

Foxx:
Então, eu devo mudar a pessoa que sou: tenho que aprender a ser mais homem...

Filho de Marte:
Você pode estar feliz com seu caráter, mas você está infeliz com sua aparência. Se você melhorar isso, sua estima melhora também. Você vai se sentir mais seguro a partir do momento que gostar do seu corpo, pessoas diferentes vão olhar para você.

Foxx:
Que corpo? Ninguem tá falando do corpo, amigo. Não é do corpo: o fato de eu estar gordo não é o importante aqui...

Filho de Marte:
E estou falando de você. Você tem que primeiro mudar o externo para você gostar de si. Você tem que procurar se sentir melhor. Responda: você se sente ótimo estando gordo? Você se sente atraente?

Foxx:
Não, não gosto de estar gordo, nem me sinto atraente.

Filho de Marte:
Você tem que gostar primeiro de você, para depois os outros gostarem também.

Foxx:
Mas, o meu problema não é esse. Ninguém nunca disse que não ficaria comigo porque estou gordo. Agora já me disseram que eu era perfeito, mas bicha demais pra se namorar.

Filho de Marte:
Porra! Se baseia em você. Caralho, Foxx! Pára de pensar no que os outros dizem ou deixam de dizer. Caralho!

Foxx:
'Tá!

Filho de Marte:
Tudo é uma seqüência lógica. Uma cadeia de fatos.

Foxx:
Sabe o que realmente me incomoda? Ser uma bichinha. Isso é a unica coisa que me incomoda: como eu mudo isso? Eu sempre fui bichinha, desde criança, de pequenininho, como mudo isso? Como eu viro HOMEM? Porque você já disse que ninguém gosta de efeminado em lugar nenhum e sinceramente eu gostaria que alguem um dia gostasse de mim.

Filho de Marte:
Você se sente bem sendo bichinha?

Foxx:
Não. Claro q não, morro de vergonha, no trabalho, em casa, nas festas de familias, tudo... mas como se muda isso?

Filho de Marte:
Você se sentiria melhor se se comportasse mais?

Foxx:
Sim, mas eu naum sei como, como se muda toda uma pessoa?

Filho de Marte:
Tenta, não é uma metamorfose, é se policiar. Sabe aquelas coisas que você acha feio num cara efeminado? Despreza isso em ti e aos poucos você consegue.

Foxx:
Mas eu não tenho isso, eu não sou Aquela bichinha, mas eu sou muito efeminado. Não sei se dá pra entender. Não é uma coisa teatral, para chamar atençao, eu simplesmente sou assim.

Filho de Marte:
O que é que te faz efeminado?

Foxx:
Não sei te dizer, eu sei que quando eu vejo um video é muito óbvio. Óbvio e feio!

Filho de Marte:
O que você vê? Voz? Palavras? Gestos?

Foxx:
Voz! E uma postura estranha!

Filho de Marte:
Acompanhado da voz tem gestos?

Foxx:
Não, não tem.

Filho de Marte:
Como você está agora? Sentado? Está gay? Se ajeita! Eu, às vezes, escorrego também. Você admira a postura homem do seu irmão? Olha: procura ser padrão! Senta de perna aberta.

Foxx:
Usar os clichês? Sentar de perna aberta e coçar o saco?

Filho de Marte:
Coçar é dispensavel! (risos). Evita movimentos bruscos. Vai vendo o que te torna gay e testando como você se sai.

Foxx:
Não tenho movimentos bruscos, não sou esse pavão que você está imaginando. Eu sou alguém que assim que você vê, você diz que é gay, mas com o tempo vicê começa a desconfiar: será que é mesmo? Dá para entender? É assim que acontece no colégio, assim que eles me conhecem eu sou A bichinha, mas no fim do ano meus alunos têm dúvida e as meninas começam a dar em cima de mim.

Filho de Marte:
Imagino como é! Mas para fazer tudo isso mudar tem que ter muito amor por você. Vamos aprender a se gostar, faça o que for para você se sentir melhor, mas a unica força tem que vir de você mesmo. Você primeiro se gosta e depois os outros. Não estou falando de amigos, porque amigos não importa como, eles gostam de você, estou falando de homens, de namorados, de boys.

Foxx:
Eu sei, só é dificil quando você não sabe o que é isso. Tive poucos amigos, nenhum dos meus atuais amigos conheço a mais de 1 ano. E agora eu vou embora de novo. Sabe aquela musica do pato fu: "sempre parto que comece a gostar"?

Filho de Marte:
Conserve-nos. Não nos esqueça.


PS: Após essa conversa com meu querido Pablito, eu saí para a balada. Amigos do Recife chegaram a Natal e eu fiquei de levá-los para conhecer a noite gay desta capital. Sexta-feira então, dia da VG funcionar, nos dirigimos para lá. Na balada, seis caras me deram em cima de mim. Cantadas, sopros no pescoço, conversas animadas, segurar na mão. Dos seis, quatro eram daqueles tipos sarados que todos se viram quando ele passa. Os outros, magrinhos, tenho tara em magrinhos. Por que isso? Porque não sou feio, nem desinteressante, como alardeei por todo o ano de 2007, eu só estava machucado pelo fim de um namoro, pelo fim da relação mais profunda que já tive com um menino, mas como me curei deste karma, esperem novas caçadas neste ano que começa desta Raposinha. É queridos: Venus entrou na minha casa 8.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

PASSADO: Puta: Ser ou Não Ser?

Estou decidindo em 2008 voltar a ser puta ou não. Estou decidindo agarrar-me aquela frase: "enquanto não acho o certo, me divirto com os errados". Contudo, minha experiência na área me causou alguns certos problemas. Bem, admito, já fui puta! Com certeza esta era a minha definição em 2001. Acabara de aceitar em mim meu desejo por homens. O que é aceitar? Como todos já sabem, na minha série, "Coisas de Menino", eu sempre tive relacionamentos com meninos, vários, muitos até. Mas sempre vinha uma culpa. Eu achava errado. Achava estranho. Achava que não deveria estar fazendo aquilo. Culpa pós-gozo. Sempre após tudo, após o sexo, após o gozo, após, uma culpa me cobria e eu pensava que não deveria. Não podia. E não faria mais. Mas acabava fazendo.
Em 2001. Primeiro conheci a internet. Papos no Uol. E-mails trocados. MSN explode. Fotos. Encontros. Pessoas. E eu conheci Felipe. Felipe se tornou meu primeiro amigo gay. Ao lado dele, eu comecei a poder comentar que homem lindo eu tinha visto naquela tarde, começar a falar sobre o desejo que eu sentia e começar a colocar isso para fora, o que antes eram coisas confessáveis apenas a um diário, escrito em código porque minha mãe tinha - e ainda tem - a terrível mania de mexer nas minhas coisas. E uma coisa é certa, quando você fala, e se ouve falando, que é disso que você gosta, que é isso que você quer, que é isso que te interessa, a ficha cai melhor e, com isso, comecei a perceber que meus desejos e atos não tinham nada de errado.
Se você só tem um caminho, ele não pode ser errado. Isto eu aprendi no reiki. Outro elemento que me ajudou a esta auto-aceitação. Que é diferente e bem mais importante do que assumir, do que "sair do armário", é se aceitar. Porque sair do armário é uma ato que você faz para fora, para os outros, normalmente porque você cansou de pequenas mentiras, porque não se importa mais. Mas antes dele, bem antes dele, e mais importante que ele, vem o aceitar quem você é, como é, do jeito que é, não considerar que isso seja um defeito ou um problema. Aceitar que este é você. Total e integralmente. Aceitar que tudo isso é o que nos torna uno conosco. Um ser total, diria Jung. Não apagar partes de si. Não se esconder sobre desculpas. Apenas, ser.
Ainda não sai do armário. Quem me conhece pessoalmente agora provavelmente não vai conter um sorriso sarcástico, afinal eu não tenho como esconder. Citando Queer as a Folk, eu sou um tanto óbvio. "Emmett, Emmett", podem dizer. Mas o que quero dizer é que foi nesta época que me aceitei completamente. Mandei a culpa, e um pouco da preocupação com o que os outros iriam pensar, para o inferno. Foda-se, modo on. Então eu me soltei, e o adolescente que havia dentro de mim, apesar dos 20 anos, pôde sair. Coincidentemente, eu nunca estive tão bonito quanto naquele ano. Eu dançava e fazia musculação: tinha 1,70, 65kg, 75cm de cintura e 92 de quadril. Juntou-se então uma vontade de tirar o atraso e uma aparência que ajudava. Bem, me tornei uma puta.
Saia de casa todo final de semana. Boates, saunas e encontros na internet. E me acostumei mal a sempre ficar com mais de um menino por noite. 2002 e 2003, não foi diferente, junto com Felipe ainda começamos uma lista de nossos ficantes. Anotávamos local, nome, dia e ainda concedíamos uma nota. Muito adolescente não? Inclusive, tirei a idéia de uma revista Capricho, na revista ainda indicava conseguir uma foto da "vítima". Isso me permitiu calcular uma média mensal de 15 meninos. 15 beijos (ou outras coisas) diferentes, levando em consideração que por mês temos, normalmente, quatro semanas, calculem. 15 / 4 = 3 a 4 meninos por semana. Pulando, claro, o Carnatal em que a média com certeza chegava a 15 ou 20, ou mais... mais aí é micareta. Não conta como dia normal.
Agora isso era bom? Para mim, na época, era. Eu não estava preparado para viver um relacionamento. Um namoro. Viver com uma única pessoa e dividir minha vida com ela. Eu era uma criança descobrindo o mundo e havia muita coisa para experimentar, para viver, e eu tinha (e ainda tenho) uma sede de vida muito grande. Foi uma fase que eu precisava viver. Foi algo que eu precisava fazer. O que me conseguiu uma, também, uma imagem extremamente negativa.
No mundo GLS, ao contrário do mundo hetero, um homem não pode ser promíscuo. Ele não pode ter vários relacionamentos sejam estes sexuais ou não, afinal você é considerado promíscuo se beijar ou se fuder com todos, tanto faz. Mas por quê isso? Talvez porque se espere o comportamento de um gay idêntico ao de uma mulher? Uma mulher respeitável como as matronas romanas: "Uma boa mulher é aquela que não se sabe nada sobre ela", já cantava Ovídio, no A Arte de Amar. Ou talvez porque a imagem de promiscuidade estar tão arraigada aos gays, que sê-lo te torna ainda mais gay? Tem um artigo da DOM latejando na minha cabeça ainda e causando esses pensamentos desconexos. Mas eu pessoalmente não vejo problema nisso. Não consigo condenar uma pessoa que está solteira, por sair pegando a festa toda: ele está é certo. Faça. Beije. Coma. Dê. Lembrei de um texto de Luís Fernando Veríssimo por falar nisso. Agora, se você está namorando: "fecha o cu, viado!". Mas conversando com o Just a Boy, ele lembrou de uma coisa importante: e o outro? Afinal, sendo promíscuo, pegando meia festa, será que não magoamos essas pessoas que ficamos? Será que elas não esperavam mais de nós? Será que o mal de ser puta é sair por ai magoando pessoas, pessoas boas, interessantes e inteligentes, que não mereciam ser descartadas como copos de papel?
Sei que o grande perigo de se divertir com os errados, é que o certo, pode estar entre eles, e você acabar deixando-o passar. Outro perigo é que o certo pode se assustar, com sua fama, porque os amigos dele vão falar, ou com seu comportamento que ele mesmo pôde já ter observado. Ou seja, temos aqui a famosa faca de dois gumes: fatal para o inimigo, afinal quem não gosta de ver uma noite render, e perigosissima também para o espadachim, por que pode sim te condenar a solidão. E aí: To be or not to be?

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

PRESENTE: What's Fuckin' Hell?!?

João Pessoa. Jampa. O que aconteceu aqui? A noite movimentada que conheci há quatro anos simplesmente não existe mais. De uma rua lotadas de simpáticos bares e boates gays ou no máximo friendly, como se gosta de dizer atualmente, estes tão estilosos que atraíam meninos ricos que exibiam suas cuecas Calvin Klein por dentro das calças Diesel, a mesma cidade que tinha programas sobre cultura na tv que falavam sobre shows, ballets, peças avant gardè. Tudo reúnido em Tambaú, próximo ao mar, o que facilitava a locomoção e a opção. E hoje, tudo se resume a duas boates: uma HT (se podemos dizer que uma boate em que homens se agarram nos banheiros de hétero), Incógnito, que reúne a "alta burguesia da cidade", citando Renato Russo, e uma gay, a Vogue, filial da VG natalense, que anda se expandindo pelo Nordeste propondo o mesmo modelo de Natal que é uma opção voltada mais para a população de renda mais baixa, o que dá a boate um público costumeiramente mais feio, todavia mil vezes mais simpática e consequentemente mais fácil, sem os carões que encontramos nas boates frequentadas por uma população de maior poder aquisitivo. A Vogue então, que também tem uma filial em Campina Grande, é, em João Pessoa, a única opção.
Bem, a entrada continua custando 5 reais, festas maiores como o Reveillon caem na casa dos 15 reais, como em Natal, funcionando na quarta-feira, e de sexta a domingo. Fui no domingo e na segunda, na festa de Reveillon. No primeiro dia no primeiro ambiente, Dance, onde estavam estampados enormemente cartaz que proibiam o fumo, comandavam as pick ups a drag Tânia Tumulto e a DJ Cris L, e como é de se esperar reinava a Drag Music. Já na festa de Reveillon, após a queima de fogos na praia de Tambaú e o show de Zé Ramalho, o DJ Cyber, com quem o eletro pop era o som dominante.
Sobre os frequentadores? No domingo, achar alguém bonito era como garimpar diamante entre o carvão, mas um clima diferente rodava o ar. Os meninos mais bonitos não deixavam de ficar com aqueles que em Natal seriam considerados feios. Havia conversas e as pessoas realmente estavam ali para conhecer às pessoas e não competir para saber quem terminara a noite com o mais bonito. Coisa muito comum em Natal, onde as pessoas bonitas como o Riba - meu companheiro de aventuras aqui em JP - que só ficam com alguém quando ele é mais bonito que ele. Ou seja, não serve um bonitinho, ou um bonito, tem que ser um quase deus. Eu não me importo com isso, prefiro conhecer as pessoas e, a neste caso conhecer pessoas interessantes. Se elas eram bonitos, juro, foi mera coincidência. Quatro: o Pocket, o Alex, o Cristiano e o Mário.
Peguei quatro meninos lindos, mas a viagem em si tornou-se uma grande frustração quando descobri que o menino mais interessante que conheci nesta terra de sol inclemente também me achou interessante, mas não demonstrou por causa de uma "gritante" timidez, e só conseguiu me dizer o que estava sentindo quando entrei na internet, pelo celular, na madrugada em que voltaria para Natal. Quem? O Espartacus.
Se alguém nesta blogosfera admira este paraibano saiba que está coberto de razão. Além de lindo, com um sorriso encantador de menino e uma voz confortante de homem, a inteligêndia dele é desafiadora e perspicaz, o que nos rendeu grandes conversas sobre história, Hugo Chavez, Deleuzze e a Invenção do Nordeste. E também, como grandes inteligências sempre são acompanhadas de grandes sensos de humor, também nos renderam belas gargalhadas, dos outros e de nós mesmos. Eu fiquei encantado com o Espartacus assim que o conheci sentado num bar na areia da praia de Tambaú, mas ele não demonstrou nenhum interesse por mim e quando voltávamos para a pousada que ele não fez a menor questão de acompanhar-me achei que ele decidira ser "apenas" um amigo. Não consegui deixar de pensar "que pena", afinal há muito tempo não conhecia alguém tão perfeito, mas ele não parecia interessado.
Agora, vocês se perguntam, se o Foxx ficou tão encantado assim pelo Espartacus como pode ficar com quatro? Fiquei encantado sim. Mas não queria estragar uma amizade que só está começando dando em cima dele, mas também estou solteiro, e também tenho minha grave crise de auto-imagem. Vocês sabem, aquela história de eu me achar feio e desinteressante, aí, piso em JP e sou assediado por inúmeros meninos, podendo escolher. Meninos com namorados fogem dos seus para vir falar comigo, dois fizeram isso, outros me observavam enquanto eu beijava um outro. Não tinha condições psicológicas de ficar em plena festa de Reveillon curtindo o encantamento que o Espartacus produziu em mim. No entanto, aqui, agora, eu admito: trocaria todos, por mais uma hora ao lado dele.


Feliz Dois Mil e Oito