Google+ Estórias Do Mundo: Janeiro 2014

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A TV Globo e os Gays: Os Anos Dourados

, em Natal - RN, Brazil
Desde 1970 que a Globo flerta com o tema da Homossexualidade em suas novelas, seu primeiro personagem gay foi o carnavalesco Rodolfo Augusto, interpretado por Ary Fontoura, em  Assim na Terra Como no Céu, somente cinco anos após sua fundação. Em 1974, em O Rebu, Conrad Mahler (Ziembinsky) apaixonado por Cauê (Buza Ferraz) matou Silvia (Bete Mendes) para que eles não ficassem juntos. É bom lembrar que estamos aqui falando dos anos mais terríveis da Ditadura Militar. O AI-5 estava em vigor e ficaria até 1978. O Conselho Superior de Censura (criado em 1968) podia tirar qualquer programa destes do ar ou mandar retirar um personagem da trama com uma imensa facilidade. Mas, para a equipe criativa da Globo, que nestas novelas citadas, respectivamente, tinham Dias Gomes e Walter Gomes e Bráulio Pedrozo e Walter Avancini, valia a pena contar uma história que personagens gays tivessem uma real participação na trama.
Mas mesmo assim em Assim na Terra Como no Céu a trama da novela abordava os costumes da juventude "dourada" de Ipanema, e abordava temas como o celibato de padres, o consumo de drogas. Inicialmente a novela estava cotada para ser exibida no horário das 20h, ainda em 1966 e 1969, em ambos os casos barrada pelo vice-presidente José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boninho. Este alegava que queria acabar com os excessos dramáticos no horário e focar em produções com temas mais realistas como as novelas da sua concorrente TV Excelsior, no entanto, exibiu, em 66, O Rei dos Ciganos e, em 69, Véu de Noiva, ambas consagradas como exemplos de dramalhões  (ao molde mexicano) que remetiam ao sucesso anterior de O Ébrio, de 1965. Assim na Terra Como no Céu, contudo, foi exibida no horário das 22h. O discurso dos diretores da Rede Globo sempre remetera a uma modernidade vanguardista, porém eles continuavam fazendo aquilo que já tinham conseguido com algum sucesso anteriormente. Foi uma surpresa a novela ser aprovada (mesmo com a mudança de horário) e, graças ao seu enorme sucesso, lançou Francisco Cuoco e Renatah Sorrah, protagonistas da novela, ao estrelato imediato.
Não obstante o discurso dos administradores da TV Globo de vanguarda, eles sempre administraram a TV segundo os critérios de "time que está ganhando não se mexe". E também, como concessão estatal, o medo de que tivessem sua TV cancelada deveria ser uma constante. Por exemplo, escrevendo os últimos capítulos da novela, Dias Gomes foi chamado para depor sobre suas supostas atividades subversivas, com certeza relacionadas a própria novela. Já O Rebu tentou ousar ainda mais. Toda a trama da novela se passava em apenas um dia da vida dos personagens. Durante uma festa, Bráulio Pedrozo contava o desenrolar de um assassinato e ao público cabia descobrir quem era o assassino através de pistas dadas através de flashbacks. Absolutamente inspirado nos romances de Agatha Christie e no cinema policial da década de 1950, a ação transcorre em três tempos distintos: o presente, a investigação dos policiais durante a festa; o passado recente, os eventos que aconteceram durante a festa; o passado longínquo, o passado e o relacionamento dos personagens.
Pode parecer que, por causa da Ditadura Militar, a intelectualidade militante estava de mãos atadas para falar sobre o que era ser gay. Este é um grande engano. Jornais caseiros como O Snob, Le Femme, Subúrbios da Noite, Gente Gay, Aliança de Ativistas Homossexuais, Eros, La Saison, O Centauro, O Vic, O Grupo, Darling, Gay Press Magazine, 20 de Abril, O Centro e o Galo, foram publicados de 1961 a 1969, no Rio de Janeiro, enquanto Fatos e Fofocas, Zéfiro e Baby, eram publicados em Salvador no mesmo período; na década de 1970, temos o Lampião de Esquina, publicado a partir de 1977,  e O Beijo; enquanto em Salvador publicava-se Little Darling, Ellos, Caderno Eros e Entender; e em São Paulo, a partir de 1978, publicava-se diariamente no Última Hora a Coluna do Meio. Apesar da repressão militar, eram tempos efervescentes para escritores, jornalistas, atores e músicos gays que traziam sopros de ar fresco para a arte brasileira em todas as suas facetas.
Mas era difícil ainda inovar na emissora de Roberto Marinho. Em 1981, por exemplo, em Brilhante, de Gilberto Braga e Daniel Filho, o personagem Inácio Newman (Dennis Carvalho) participava da trama central da novela já que o casamento que sua mãe, Chica (Fernanda Montenegro) desejava para ele impedia que a mocinha Luiza (Vera Fischer) ficasse com o galã Paulo César (Tarcísio Meira). Quem descobre a homossexualidade de Inácio é exatamente Luíza que conta tudo para Chica e esta passa a hostilizar a mocinha. No entanto, com a morte do pai, Inácio se ver obrigado a casar, e encontra a carreirista Leonor (Renatah Sorrah), e se vê livre das pressões da mãe. Brilhante teve um grande problema com a censura. Gilberto Braga não estava autorizado a utilizar a palavra "Homossexual" no folhetim. Ele contornava o problema através de eufemismos. Quando Luíza confronta Chica sobre Inácio, as palavras que ela utilizou para afirmar que Inácio era gay foram: "os problemas sexuais do seu filho".
Contudo, apesar da ditadura militar brasileira ter se encerrado em março de 1985, o mesmo problema acontecera em 1986, na Roda de Fogo de Lauro César Muniz e Dennis Carvalho, em que o vilão Mário Liberato (Cécil Thiré) que prejudicava a vida dos mocinhos do folhetim não podia ser chamado de "homossexual", cenas em que Carolina (Renata Sorrah) falava sobre isto foram cortadas da novela. Contudo, apesar de não ser dito, a sexualidade de Mário era tão clara que prejudicou o ator que o vivia. Incapazes de separar o ator do personagem, Thiré contou em entrevistas que ele teve problemas com a fama de gay que ele tomou emprestado do personagem. Numa entrevista dada a Isto É ele dizia que ninguém nunca disse-lhe nada diretamente, porém que ele perdeu trabalhos publicitários à época da novela. Outro problema com a censura se deu em 1987 quando Dias Gomes e Ricardo Waddington lançaram sua versão da tragédia grega Édipo Rei, Mandala, com Vera Fisher como Jocasta, Felipe Camargo como Édipo e Perry Salles como Laio. Seguindo a mitologia grega em que se baseia a trama da novela, Laio era bissexual com um amante chamado Cris (Marcelo Picchi) e que acaba assassinado pelo filho, Édipo. Os temas da peça grega (incesto e bissexualidade) quase vetaram a exibição da novela no horário das 20:30h. 
Em 1988, outros personagens gays foram utilizados nas tramas das noites da TV Globo. No estrondoso sucesso, Vale Tudo, teríamos Cecília (Lala Dehelnzelin) e Laís (Cristina Prochaska), contudo, nos primeiros capítulos, a morte de Cecília permite a Gilberto Braga e Aguinaldo Silva discutir sobre o direito a herança entre um casal homossexual, já que o irmão de Cecília, interpretado por Reginaldo Faria, tenta tomar de Laís a pousada que ela abrira com sua esposa. A censura também agiu neste caso. Vários diálogos entre as personagens tiveram que ser reescritos por Braga e a cena em que elas contava a Heleninha (Renatah Sorrah) sobre o preconceito que sofriam por causa do seu relacionamento foi completamente cortada do episódio em que seria exibida.
Talvez pela epidemia e morte de atores e músicos ceifados pela AIDS como, aqui no Brasil,  Lauro Corona (1989) e Cazuza (1990), o tema tornou-se novamente tabu dentro da televisão brasileira e suas novelas. Também é interessante ver que até 1985 os autores brasileiros lutavam contra a censura da Ditadura Militar, mas com a redemocratização a mesma censura, exatamente nos mesmos moldes continuou a ser utilizada. Porém, é denunciador saber de onde vinha esta censura ao ver que no site da Rede Globo, na parte dedicada a memória da emissora, eles acusam todas estas censuras feitas mesmo depois de 1985 de terem sido feitas por uma "Censura Federal", uma entidade basicamente inexistente, mas que se torna a desculpa perfeita para os vanguardistas diretores da emissora continuarem conservadores como sempre foram.


PARTE II: A REPRESSÃO    PARTE III: A POPULARIZAÇÃO




Contribuiu neste texto: Serginho Tavares.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Heterossexualismo Pega!

, em Natal - RN, Brazil
Ninguém nasce gay, como ninguém nasce heterossexual. E antes de vocês terem uma imensa crise de identidade, deixe-me explicar. Seres humanos nascem com uma orientação sexual, isto é, um direcionamento para o qual o seu desejo sexual será levado, este direcionamento pode ser para homens, para mulheres ou para ambos, mas isto não basta para tornar alguém gay, hétero ou bi. Deixe-me dar um exemplo: um menino nasce com sua orientação sexual voltada para homens, contudo ele é educado toda a sua vida a ser heterossexual, ele então suprime sua própria orientação que o faria gay e torna-se heterossexual porque educa seu desejo a direcionar-se para mulheres. Sim, isto é possível! É fácil de fazer? Não! Causa traumas irreversíveis fraturando a psiquê do indivíduo? Sim! Mas o ponto aqui é que um homem gay pode ser educado a ser heterossexual. E por quê? Porque heterossexualidade é uma coisa aprendida.
Existe um conceito muito útil utilizado por antropólogos e sociólogos desde 1980, ele foi cunhado por uma feminista chamada Adrienne Rich que numa análise sobre a experiência lésbica percebeu que as mulheres eram convencidas que o casamento e a orientação sexual voltada para os homens eram inevitáveis. Elas era doutrinadas pelo romance heterossexual/heteronormativo através de contos de fada, das novelas na televisão, dos filmes no cinema, que passavam a ter um papel coercitivo sobre a quem era correto dirigir o seu desejo. Rich então explicou que através destes mecanismos homens e mulheres seriam aprisionados psicologicamente à heterossexualidade e tentariam ajustar sua mente, seu espírito e seu corpo a este modo prescrito de sexualidade. 
O que, de fato, acontece é que quando a heterossexualidade é considerada natural e buscamos causas da homossexualidade, como se esta fosse um desvio do padrão, nós na verdade ocultamos os mecanismos de coerção que treinam os seres humanos a gostar do sexo oposto. Desde a década de 1960, antropólogos e psicólogos reconhecem que todos os seres humanos são capazes de relacionar-se com o mesmo sexo, mas no processo de socialização infantil, isto é, na igreja, na escola e na família, nós somos adestrados (exato, como cachorros!) a nos voltar apenas ao sexo oposto. 
Somos ensinados, por exemplo, que ser gay é ser doente. Que a única forma sadia de vivenciar a sexualidade é colocando-a dentro dos moldes heteronormativos, isto é, homem no papel de macho ativo e conquistador e mulher no papel de fêmea submissa e hesitante. Somos ensinados também que a heterossexualidade é o estado primeiro da humanidade, Adão e Eva, gametas masculinos e femininos, sexo reprodutivo, dão a entender que no principio tudo era heterossexual, ignora-se completamente que os primeiros animais eram todos hermafroditas e que a divisão em gêneros é tardia na história da vida do planeta. Também confundimos Sexo (biológico, macho/fêmea/hermafrodita), Gênero (social, masculino/feminino) e Sexualidade (psicológico, homo/hetero/bi/trans/assexuado) como se Masculino e Feminino fossem as únicas classificações que possam existir para todos os seres que dividem a Terra conosco. 
Heterossexualidade, que não é um Sexo, nem um Gênero, não tem absolutamente nada de natural, ela é compulsória. Compulsória porque a criança é obrigada a aceitar aquele padrão que lhe é imposto e negar todas as outras possibilidades que lhe são oferecidas de antemão. Ela também não tem a maturidade necessária para questionar aquela imposição. Acredita, ao ser exposta somente ao mesmo modelo, que aquele é a única experiência em que pode desfrutar de sua sexualidade e sem pensar se quer, se deseja, repete  o modelo que aprendeu com os próprios pais, com os avós, com os bisavós.
É interessante que para garantir essa heterossexualidade compulsória existem inúmeros mecanismos para evitar que alguém se desvie do caminho que lhe foi traçado. A homofobia é um destes mecanismos, o machismo outro, mas o mais antigo é definitivamente a marginalização das outras formas de experiência sexual que foi imposta pela medicalização e pela criminalização. Tornar gays, lésbicas, bissexuais e travestis doentes e/ou torná-los marginais e criminosos, ambos processos que acontecem no início do século XIX, são os marcos que definem dentro da sociedade burguesa quais os caminhos que aqueles homens queriam construir para a sua sociedade. 
Isso que é interessante! Homens que viveram em 1800 continuam ditando os padrões sexuais que devemos viver para garantir para eles uma prole para que suas fábricas tenham trabalhadores aos quais eles possam pagar um xelim ao dia. Para que o sexo tenha fins reprodutivos e o mundo esteja cada vez mais apinhado de pessoas para trabalhar por pouco e gastar muito, a burguesia incute ainda um modelo de família, por exemplo, que foi inventada somente 200 anos atrás e o faz reaparecer dentro mesmo de discursos produzidos antes de Cristo, como na Bíblia, ou os mitos greco-romanos apropriados pelos estúdios Disney e o cinema americano, em que os únicos casais citados são aqueles formados por um homem e uma mulher, apagando-se por completo os casais poligâmicos (um homem e várias mulheres) porque eles não tem função social em nossa contemporaneidade. 
O modelo de família e sexualidade heterossexual foi inventado. Tem data de nascimento e tem objetivo claro para sua manutenção. Acreditar que ele é natural é, no mínimo, ingenuidade. Acreditar que não podemos questioná-lo e subvertê-lo facilmente é somente preguiça de agir. Porque é fácil derrubar algo que está apoiado no ar, basta somente um empurrão. 




sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Mais Discreto, Mais Discurso de Ódio

, em Natal - RN, Brazil



Outro dia no Facebook um amigo mostrou uma postagem deste blog aqui: Mais Discreto. Eram postagens intituladas "Gay: Estou ficando muito afeminado (sic), o que fazer?" e "Dicas de como não ser um gay afeminado (sic)". As dicas propostas pelo blogueiro que assina Gay Discreto são coisas como não gesticule (pobres italianos); não ande rebolando (me ofendi com esta porque tenho uma má formação no quadril que me faz andar rebolando); não demonstre que é fã de uma banda ou cantora (será que pode torcer por time de futebol?); não sente de forma irregular (não tenho ideia do que seja isso); seja discreto ao ver um homem bonito (é para matar de rir!). Ele também tem uma página no Facebook com 269 curtidas, em que as postagens do blog são divulgadas, mas que também membros da página marcam encontros entre "machos discretos" que terminam com a frase: "Não curto afeminados (sic), nada contra". Li então a descrição do blog e o rapaz mostrava toda a sua boa vontade: "Att: Não tenho nada contra gaus afeminados (sic), esse blog funciona apenas como auto-ajuda para quem precisa ser discreto". Eu, sinceramente, fiquei revoltado!
É muito preconceito junto e que o Gay Discreto obviamente não entende o tamanho do mal que está provocando. Um mal digno de Marco Feliciano, arrisco-me dizer! No entanto, apesar dele acreditar que não há nenhum tipo de preconceito no blog (por acaso ele acha que as dicas dele são baseadas em pesquisas da Organização Mundial de Saúde?), os comentários chegam a doer no coração. Tem comentarista psicólogo: "Vou sofrer mais preconceito, discriminação, pra arrumar emprego é difícil, pra arrumar uma pessoa legal é difícil. Um gay afeminado (sic) ele não é que nem qualquer outro, ele quer chamar atenção devido a sua carência e vontade de aparecer mais que os outros". Tem pastor: "Uma gay afeminada é ridicula, tosca, palhaça, ele próprio fere sua dignidade ao ser afeminado (sic), e você vem falar que isso é preconceito? Ser afeminado (sic) é feio e deve ser repreendido SIM!!". Tem o direto: "Existe os gays e as gays. Que bom se todas as gays tivessem vergonha na cara e se comportassem como homem, pq os gay não renegue seu sexo! Ser afetado é feio e falho!". PS: Só para registro, segundo a política do Blogger os comentários são de responsabilidade do autor do blog também.

Tome Jeito de Homem

Começo minha crítica pelo mais óbvio: qual, pelo amor de Deus, o problema em ser efeminado? Qual o problema com o feminino? O que tem de tão ruim em ser comparado a mulher? Mas, além disso, ser efeminado é um conceito que somente existe porque nós temos um modelo do que significa ser homem. E homem significa ser homem heterossexual. Significa comportar-se como um homem que se sente atraído por mulheres. Mas o que é isso? O que é um Homem? Sendo preconceituoso ao nível deste blog eu diria que seria ter uma voz grave, uma postura viril e máscula, gostar de futebol e gostar de mulher. Falarei apenas de dois deles para o texto não ficar muito longo. Tratemos primeiro da voz, de um elemento genético. Homens, seres portadores dos cromossomos X e Y, tem até quatro tipos de voz: as graves (baixos), as médio-graves (barítonos), as agudas (tenores) e as muito-agudas (contra-tenores). Estes timbres vocais existe porque cada homem tem uma formação única de garganta, das pregas vocais e sua capacidade respiratória. Então não existe isto de voz de homem. Não existe uma voz masculina e sim vários tipos que vão do mais grave a uma voz quase feminina (o Kurt, de Glee, é um contra-tenor, por exemplo). 
Sobre a postura viril e máscula, sobre como é se comportar como homem, falamos agora de um elemento cultural. O que é caracterizado como uma postura masculina em uma cultura é distinta em outra, e se pensarmos isto dentro da História podemos enxergar os comportamentos mais dispares do que o que consideramos hoje como uma postura masculina. Exemplos pipocam: homens russos beijam-se na boca quando se encontram, homens árabes andam de mãos dadas pelas ruas, homens brasileiros apertam as mãos e dão um tapinha nas costas quando se encontram, americanos apenas apertam as mãos, japoneses não tem nenhum contato físico. Homens já foram proibidos de pisar na cozinha de casas, eles depois passaram a cuidar das crianças, hoje existem homens que ficam em casa enquanto suas esposas trabalham fora. Então, se a diversidade é a única regra, porque insistir em um modelo do que é um homem? Quem tem o direito de dizer que tal ato é ou não masculino se todos eles são decididos de modo completamente arbitrário?

De Boas Intenções, o Inferno Está Cheio

Minha segunda crítica tem a ver com os objetivos deste moço, o Gay Discreto. Ele afirma que quer ajudar quem é efeminado, mas qual a diferença da ajuda que este blogueiro presta daquela que a Marisa Lobo, a psicóloga cristã, oferece a todos os gays? Fico preocupado com as pessoas a quem ele atinge, as feridas psicológicas que ele pode criar em jovens adolescentes que procuram na internet respostas para suas angústias ou em homens gays que sofrem preconceito e não tem ideia dos direitos que possuem. O Gay Discreto é um porta-voz da homofobia que recebemos da nossa sociedade e que redirecionamos para o grupo que, afinal de contas, mais nos representa, pois se encaixa mais no estereótipo. Dentro do nosso grupo este preconceito funciona como um escudo que nos protege de ataques porque atacamos primeiro o membro do grupo que é mais visível e o abandonamos ali, ferido, para que os predadores se detenham nele e nos permitam seguir em frente. O blog Mais Discreto ensina somente isto: ataque a gazela mais fraca e deixe-a para os leões.
Se ele pretendesse, de fato, ajudar estas pessoas que são efeminadas e o procuram através do e-mail (é assim que o blog dele funciona), o caminho deveria ser, primeiro, reforçar a auto-estima destas pessoas. Mostrar que apesar do preconceito, que não obstante ter todo o mundo contra você todos os dias de sua vida, que elas também têm valor, o que passaria, sem dúvida, por combater os comentários que dizem que efeminados não têm educação, ou postura, que são ridículas e desagradáveis, entre outros adjetivos. Deveria ele desmistificar e desmentir as coisas que são ditas e fazer, principalmente, não que o homossexual efeminado mude, mas aqueles que têm preconceito, que não dão o emprego, que não namoram, que não aceitam, mudem suas posturas. 
Em segundo lugar, o blogueiro deveria mostrar os direitos que as pessoas têm em seus ambientes de trabalho, escolas, etc. Conscientizar. Se alguém sofre preconceito por ser efeminado, seja gay ou não (e, provavelmente, o Gay Discreto não sabe que também existem homens heterossexuais efeminados), deve buscar na justiça as medidas cabíveis para o caso. Diversas cidades e estados brasileiros já têm leis e delegacias especializadas para lidar com este tipo de crime, e ajudar alguém a superar o preconceito não é ensiná-la a se esconder para evitar tornar-se um alvo, é demonstrar como se proteger através dos artifícios legais que temos a nossa disposição tal como a denúncia, por isso termino este texto convidando todos vocês a denunciar o blog por discurso de ódio ao Blogger, basta clicar  aqui, e todos nós fazemos nossa parte.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Entre o Fetiche e o Mundo Real

, em Natal - RN, Brazil



Esta é Madonna causando escândalo de novo. Aos 55 anos,  a Sra. Cicconne está namorando um garoto (um dançarino) de 26 anos. Isto bastou, obviamente (e fico muito infeliz por usar este advérbio aí), para causar "confusão e gritaria" nas redes sociais. Muitos aplaudindo, outros (e esta a grande maioria) criticando a Rainha do Pop. As críticas se baseavam na premissa de que mulheres não podem/ não têm o direito de namorar homens mais jovens e, muito menos, usá-los como boy toys. Exatamente como homens têm feito desde (principalmente) quando os yuppies ascenderam socialmente em meados da década de 1980. Foram eles que inventaram o homem poderoso que demonstra o quanto venceu na vida através do seu carro, de suas roupas de marca e jovens mulheres que são trocadas quando ultrapassam os 25 anos, ou seja, inventaram Hugh Hefner, dono da Playboy, e suas coelhinhas. Criticavam Madonna sobretudo porque ela já deveria ser uma mulher casada, uma senhora respeitável, e que não devia mais se exibir com garotos por ai que ela joga fora após sugar-lhes a vida.
Discutir o quanto existe de machismo neste discurso é, obviamente, chover no molhado, não é? Além disso o querido @BrunoEtilico já fez isso no Os Entendidos. Agora o que eu me vi questionando é o quanto este discurso sai da boca de homens gays e como eles se veem presos em duas opções radicalmente distintas de comportamento: apoiar aqueles que tem boy toys e execrar os homens mais novos que tem relacionamentos com homens mais velhos.  O primeiro ponto se deve a educação machista que recebemos. Homens são educados a ver beleza na juventude, mulheres são educadas a verem segurança na maturidade. Os homens gays então são educadas e bombardeados o tempo todo com modelos de beleza que envolvem o corpo jovem. Veja as revistas masculinas voltadas ao público gay publicadas no Brasil, desde a Júnior até a GMagazine. É um desfile de corpos jovens e até mesmo na categoria fetiche em que o daddy seria permitido, já que os lolitos são comumente retratados, os homens que aparecem em fotografias como daddies nunca tem mais que 35-40 anos. É o limite gay: um homem só pode ser bonito até seus 35 anos e, somente, para aqueles que tem um certo fetiche. A beleza acaba aos 30. Sendo assim, é natural, que um homem na casa dos 30 anos se interesse por jovens entre 18 e 25 anos. Na verdade, ele é estimulado. 
Claro que não para ter um relacionamento! Porque o jovem, e essa é a ironia, entre 18 e 25 anos é um garoto que ainda tem muito o que aprender com os homens que passaram por entre as pernas dele, mas para divertir-se, ou seja, boy toys, eles são absolutamente perfeitos. Os lolitos são um fetiche comum e socialmente aprovado. Sim, porque existem fetiches que são aprovados e outros que não podem nem ser mencionados. Quantas vezes ouvimos que homens musculosos são perfeitos e pessoas que gostam de homens gordos são reprimidas ao falarem? Quantas vezes é socialmente permitido dizer que se tem fetiche por homens fardados enquanto o travestismo é enquadrado como uma doença mental pela Organização Mundial de Saúde? Mas e quanto os homens que se sentem sexualmente atraídos por homens mais velhos, os daddies?
Ai está um grande problema no mundo gay. Existem inúmeros padrões que não podem ser rompidos (ironicamente num grupo formado a partir da contra-cultura punk). Não se pode ser gordo, não se pode ser efeminado, não se pode envelhecer. Estes são os três pilares da beleza gay inventados pela revista Advocate. De fato, o mais engraçado é que em 1991 uma revista americana definiu que este era o padrão de beleza que os gays deveriam seguir e eles, calados, obedeceram sem pestanejar. Dirão que foi culpa da AIDS, eu digo: "me poupe"!. Nós, gays, somos um grupo que levanta a bandeira da diversidade. Nós dizemos o tempo todo, somente por existir, que modelos não podem ser impostos para as pessoas porque elas não cabem neles, contudo empurramos um padrão de beleza que simplesmente não alcança os membros do nosso grupo. Eu poderia falar horas aqui sobre como é maldoso definir que homens gordos são feios somente por serem feios, como também como é extremamente maligno definir que alguém é feio somente porque é efeminado, mas vamos manter o foco: a idade não torna ninguém feio.
O grande problema que a comunidade gay tem, e isto é um fato, não um preconceito, é que este grupo (talvez por causa dos momentos em que sempre é destratado e sofre preconceito) tem uma grande necessidade de se afirmar. E, uma das formas de se afirmar, sobretudo entre os próprios pares é manter-se dentro daquilo que é aceito no grupo. Muitos malham somente porque os amigos malham, muitos usam a marca da moda, escutam a música da moda, vão aos lugares da moda para serem bem vistos pelo grupo, mas, também, a grande maioria sufoca seus próprios desejos para manter uma imagem dentro do grupo. É comum, entre gays, apesar do desejo de ficar com um homem mais velho, alguém que o conquistou, alguém que despertou seu interesse, alguém por quem ele se sentiu atração, preferir continuar ficando com os mesmos garotos imberbes que seus amigos ficam para não ser criticado. Eu até entendo! Já somos criticados em todos os lugares que chegamos, ainda seremos criticados pelos nossos amigos por causa do namorado/ficante que escolhemos? Muitos preferem o caminho mais fácil. Mas o preconceito cresce.
Não existe, na verdade, nada melhor em namorar/ficar com um homem de mais de 30 anos. Eles, quer dizer, nós não somos nada diferentes de garotos de 18 anos. Na verdade, eu conheço garotos de 18 anos mais maduros que muitos de mais de 30. Contudo, homens com mais de 30 anos não vão parecer com garotos de 18 anos. Nosso corpo muda, o de todos muda. O acúmulo de gordura abdominal é incontrolável, os cabelos e pêlos brancos nascendo pelo corpo são fatídicos, a preguiça de ficar na balada até as 6h da manhã e depois esticar para um after é real. Esta é a Casa dos 30. Você com certeza se divertirá mais com um menino de 18 anos e seu corpo no ápice do vigor humano e, se tiver sorte, este menino de 18 pode assinar a Carta Capital, ler Homero no original e viveu dois anos em um templo budista no Tibet. E, com o extra, de não vir com toda a bagagem que um homem de 30 anos sempre traz consigo. Porém, o pior, é ver que meninos de 18 anos e homens de 30 veem que aqueles que passaram dos 25 anos não são mais atrativos antes de conhecê-los. Primeiro por vergonha dos amigos (em ambos os casos), mas também porque neste mundo torto em que vivemos a capa sempre fala mais sobre o livro do que as linhas que estão escritas nele. Quantas estórias magníficas deixam de ser lidas/escritas/vividas por causa disso. É tão triste.   


PS: Acho que voltarei a postar, mas provavelmente serão textos como este, nada mais da minha vida pessoal. Não é porque eu não queira falar sobre minha vida pessoal, mas porque não existe nada nela digno de nota.