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terça-feira, 15 de julho de 2014

E Agora? Em Quem Votar?

, em Natal - RN, Brasil
Eu tenho sofrido muito prevendo a situação que seremos colocados após esta bendita Copa. Começa o período de eleição para presidente do país. Dilma Rousseff/PT, Eduardo Campos/PSB e Aécio Neves/PSDB são os únicos candidatos já confirmados, outros dez (entre eles Jair Bolsonaro/PP, Soninha Francine/PPS e Randolfe Rodrigues/PSOL) estão na lista de possíveis candidatos ao cargo de líder do poder executivo da república brasileira. Falarei somente daqueles que foram confirmados. Dilma, atual presidente, é simplesmente a maior decepção política que eu já vivi. Sei que ela não é na história brasileira, porque ninguém rouba este título de Fernando Collor, nosso príncipe que deu errado. Mas Dilma, preocupada com a governabilidade, vendeu todas as suas alianças pelos votos de nossos congressistas, não que esta não seja um método comum a todo o mundo, ao contrário do que dizem por aí, esta não é uma invenção do PT, mas o tipo de aliança que esta senhora descendente de húngaros fez me fizeram desacreditar que seu partido possa ser uma boa escolha para os próximos anos do país. Os avanços sociais foram inegáveis com o PT (a distribuição de renda, a ampliação da educação superior e tecnológica, o controle da inflação e do poder de compra do salário mínimo), eles aconteceram, e seria irresponsabilidade minha negar isso, porém o governo da senhora presidenta (como ela gosta de ser chamada) também se negou a travar novas batalhas visando apoio político. Dilma fugiu de temas impopulares: o kit anti-homofobia e a lei contra homofobia foram engavetados, o casamento homossexual nem foi discutido, a perseguição evangélica às religiões de matriz africana não foram questionadas, tudo em nome de uma aliança que agora pode se virar contra ela se Jair Bolsonaro se candidatar.  Sem sombra de dúvida, o maior defeito de Dilma Rousseff é sua relação escusa com a bancada evangélica, sei que seus opositores citariam os mensaleiros, ou as malfadadas transações da Petrobrás, mas o maior erro desta senhora sem sombra de dúvida foi abandonar seus aliados históricos (os movimentos sociais) em nome da proteção dos interesses de igrejas, a situação do ano passado da Comissão de Direitos Humanos comprova isso.
O maior desafiante de Dilma é o príncipe mineiro, Aécio Neves. Neto de Tancredo, governador de Minas Gerais, o senhor Neves já era apontado como o próximo candidato a eleição desde a derrota do PSDB para o PT em 2010. E eu sempre repeti que fora de Minas Gerais ele era totalmente desconhecido. E é. Sem sombra de dúvidas, o principal problema que os marketeiros de Aécio precisam vencer é apresentá-lo como um candidato confiável para o Nordeste e o Norte do país, vencendo as notícias que graças a internet chegam antes aos eleitores. Aécio é um playboy e sempre foi. Um novo Collor, com certeza. Notícias sobre suas festas regadas a bebidas caras e cocaína chegam primeiro aos eleitores do que qualquer proposta que ele possa fazer, e quando ele tem a oportunidade não faz nenhuma. Aécio e o PSDB acreditam que o Brasil todo concorda com as reclamações da elite brasileira. Repetindo frases feitas como a corrupção chegou a níveis alarmantes, o brasileiro paga impostos demais, a burocracia no país é imensa e que o número de funcionário públicos é inchado, ele arranca aplausos de seus correligionários, mas não explica absolutamente nada de qual é seu projeto para recuperar o país que, segundo ele, foi destruído pelo PT. Contudo, quando dentro de círculos internos, ele afirma que o salário mínimo está alto demais, como disse em um encontro com membros da Federação da Indústria de São Paulo. Ou critica a reeleição, obra do seu próprio PSDB que não esperava ter que dividir o poder com outro partido. Este é sem sombra de dúvida o principal problema de Aécio Neves: ele e seus aliados estão no poder há tempo demais! Ele representa um gigantesco passo para trás, um retorno à política do café-com-leite e as oligarquias que tentamos desde 1940 expulsar de nosso sistema político, mas elas teimam em retornar. Não podemos votar no neto de alguém, famílias políticas no Brasil precisam ser extintas!
Apesar desta polarização já estar garantida, Eduardo Campos, do PSB, pode alterar e muito esta situação. Ex-governador de Pernambuco, neto do também ex-governador, Miguel Arraes, tem sua vida política no Executivo basicamente ligada ao avô. Trabalhou junto a ele como Chefe de Gabinete em 1987 (seu primeiro cargo) e entre 1995 e 1998 como secretário da Fazenda de Pernambuco. Ao confirmar sua candidatura ano passado ao cargo, Campos também apresentou sua candidata a vice-presidente, Marina Silva. Os problemas, aqui, reúnem os de Dilma e de Aécio em um único candidato. Eduardo Campos também representa uma poderosa família pernambucana, os Arraes, apesar destes serem bem quistos pela população isto não muda o fato de que é uma família que considera a política como seu ofício, e esta forma de pensar política precisa acabar urgentemente neste país. Já Marina Silva, evangélica, representa um passo para trás em todas as possibilidades de avançarmos nas discussões sobre diversidade neste país. Pelo histórico de Eduardo Campos, contudo, podemos esperar investimentos nas universidades e nos institutos de tecnologia espalhados pelo território, seu governo em Pernambuco, apesar de depender muito da relação com Dilma e o PT, tem sido avaliado positivamente pela população; já Marina Silva defende um discurso que prega o desenvolvimento sustentável, contudo eu, pessoalmente, não confio nela. Eu não confio em evangélicos em posições de poder de forma alguma.
Entre estes três, continuamos sem ter em quem votar, esperamos as confirmações das candidaturas que ainda estão para sair. Algumas para temermos, como a de Jair Bolsonaro, que com certeza vai levantar a bandeira em proteção de Deus e da Família brasileira, apelando para o terrorismo psicológico, e que vai carregar para si boa parte dos votos, talvez votos demais! Outros para rirmos como Soninha e seu discurso que consegue alternar entre o mais conservador possível, na defesa de uma pensamento coxinhas sobre a economia e a proteção dos direitos que a classe média pensa ter e o mais libertário que ela consegue imaginar apoiando a descriminalização da maconha, por exemplo. Outros para talvez termos alguma esperança, Rodolfe Rodrigues, por exemplo, talvez seja uma aposta interessante, mas que fará com que o PSOL seja obrigado a rever boa parte do seu próprio pensamento como partido e, talvez, vejamos um novo PT emergindo dali. Como observador, são grandes tempos para ser historiador e blogueiro, como cidadão gay deste país de terceiro mundo eu temo pelo nosso futuro e, qualquer coisa, pernas para quê te quero? 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Quatro Elefantes Incomodam Muito Mais

, em Natal - RN, Brasil




Este vídeo me fez pensar. É o primeiro vídeo do canal Põe Na Roda, de três até agora, e fala sobre estereótipos que (graças a uma campanha que eles precisam me contar como fizeram) pipocou em todas as páginas gays do Facebook durante as últimas semanas. Minha dúvida, e talvez ela responda o porquê do vídeo ter feito tanto sucesso, é por que o estereótipo gay incomoda tanto os homens gays? Porque, convenhamos, esta é uma reclamação comum. Não é o primeiro vídeo falando sobre isso. Lembram daquele projeto tenebroso Não Gosto de Meninos que pretendia ser nosso It Gets Better e só deixou tudo pior? 
Mas façamos como Alice, comecemos pelo começo. Primeiro estabeleçamos quais são os estereótipos que o Põe na Roda levanta:

1) Barbies (me depilo, tenho barriga tanquinho, uso gola V até o umbigo, tiro camisa na balada);
2) Efeminados (falo miando, falo aloka, arrasa, só escuto Madonna/Lady Gaga, cabeleireiro);
3) Transexuais (gostaria de ter nascido mulher);
4) Promíscuos (vou dar em cima de você só porque você é homem, não esteja num relacionamento estável);

É interessante reconhecer que os Barbies (homens musculosos, depilados, que exibem seus corpos descamisados nas baladas) têm agora incomodado tanto quanto os efeminados/transexuais e o estereótipo de promiscuidade entre os homens gays, os quais são desde sempre o calo na vida de nossos homossexuais yupies, a.k.a. discretos. Estamos caminhando na segunda década do século XXI e ainda continua a batalha entre os homens gays não efeminados e os homens gays efeminados. Mas falemos de cada questão de uma vez.

I'm a Barbie girl, in the Barbie world, 
Life in plastic, it´s fantastic!

Os homens Barbies, ninguém me tira da cabeça que a origem do apelido vem da música do Acqua, já são criticados como pessoas superficiais desde que surgiram dentro de nossas boates no início da década de 1990 causando reboliço e fazendo emergir os Ursos/Bears como grupo diametralmente oposto. Como gosto de história eu sempre reconto isso: eles nasceram para se opor a imagem andrógina que era o padrão de beleza gay da Década de 1980 (para vocês terem uma ideia imaginem sempre a oposição entre eles e Cazuza, Lauro Corona, Ney Matogrosso, para dar exemplos brasileiros, mas também Freddie Mercury, Mick Jagger e David Bowie, para citar poucos). Este padrão de beleza surgiu como resposta do mercado publicitário voltado a homens gays (anúncios, primeiro, da Advocate, depois Out e outras revistas voltadas ao público LGBT masculino) à imagem da AIDS que se amarrou a seus antigos modelos. A lipodistrofia, alterações na distribuição da gordura corporal, e o hipogonadismo que reduz a massa magra, entre outras coisas, transformaram o modelo de beleza masculino/homossexual setentista e oitentista numa carta assinada assumindo que se era gay e que se tinha AIDS, dois statement que os novos yupies da década de 1990 não queriam e não precisavam fazer para se tornarem discretos membros de nossa sociedade capitalista. "Discrição" é a nova palavra-chave do mundo gay da década de 1990, junto com "Direitos Iguais" da nova militância.
No entanto, agora, quase 20 anos depois, vemos que eles não são mais o modelo de homem gay que deveríamos seguir. E isto é algo que, sem dúvida, deve-se ao movimento hipster (como falar do mundo LGBT tem sido se remeter a cultura hispter não é?). O padrão de beleza deste movimento defende homens com barba e pêlos no peito e enaltece uma vida boêmia entre cigarros e cafés e longe de academias, ou seja, os corpos magros de modelos de passarela. Oriundo da junção entre o designer, publicidade, música underground e moda criou mais um modelo apolíneo para o mundo gay que, agora como está no seu auge, tem o poder de criticar os outros que o precederam. Músculos talhados na academia não são mais tão importantes quanto uma postura blasé, afinal o carão nunca saiu de moda nos inferninhos e os hipsters só adicionaram um toque de (falsa) ironia. Roupas que pareçam únicas porque teriam sido um achado, gadgets que sejam conseguidos antes de todo mundo porque talvez ele mesmo tivesse criado, bandas que somente ele conheça porque ele frequenta os ambientes mais legais são novos símbolos de status, porque o belo hipster é aquele mais antenado, mais conectado, mais sábio do que todos que se entedia facilmente com a simplicidade da vida cotidiana dos meros mortais. Em resumo, não muda nada. Enquanto a superficialidade dos Barbies era descrita pela sua dedicação ao próprio corpo, dos hipsters pode ser encontrada na sua necessidade de parecer melhor como se estivéssemos sempre numa competição de quem pode mais.
Porém, se por um lado, os novos símbolos de status trazidos por este movimento representam um homem intelectualmente mais profundo que a imagem de plástico que o culto aos músculos e a vaidade evoca. Por outro, ele também projeta uma nova espécie de homem que se pretende menos preocupado com a aparência, menos vaidoso, menos metrossexual. O discurso hipster projeta uma nova masculinidade que resgata um modelo masculino perigoso, machista em alguns pontos, bem pouco aberto à diversidade em um sem-número de outros.

Ser um homem feminino,
Não fere o meu lado masculino.


A música que coloco aqui como subtítulo é de 1983, de Pepeu Gomes, Masculino e Feminino, e evoca um mundo pré-AIDS. Antes da explosão da doença, a cultura gay estava baseada na contra-cultura punk e pensava em destruir os modelos de família e sociedade que regiam a sociedade, entre eles as definições de masculino e feminino. Após a epidemia, as bases do mundo gay foram completamente abaladas e a influência yuppie invadiu a vida e a cultura desta população. Yuppie é uma derivação da sigla YUP, Young Urban Professional (Jovem Profissional Urbano), e descreve um conjunto de comportamentos que construíram uma geração na década de 1990. Acredita-se que as transformações que alteraram o mundo e as relações entre o indivíduo e a sociedade na década de 1980 (fim da Guerra Fria que consolida a hegemonia capitalista, AIDS que abala as bases do movimento de contestação gay, ascensão de Ronald Reagan e Margaret Thatcher e o seu boom econômico e privatizações) resultaram numa nova mentalidade focada no indivíduo e nas satisfação dos seus anseios.
Houve um abandono de ideologias que contemplavam o coletivo, o o sucesso profissional e o consumo de bens ganharam muito mais importância. Os yuppies, bem mais conservadores, deixaram de lado todas as causas sociais lançadas por hippies e punks, focaram no seu aspecto profissional e na aquisição de bens materiais (sobretudo relacionados a moda e avanços tecnológicos, como celulares e computadores). Os gays não escaparam da new wave. A militância gay deixou de questionar os fundamentos da sociedade, a família e o casamento, as definições de masculino e feminino, questionamentos que pretendiam mudar o mundo para dedicar-se a seu próprio futuro profissional e sua ascensão social como indivíduo. Inventou-se neste momento o Gay Discreto, aquele homem que vive sua sexualidade entre quatro paredes, garante a satisfação dos seus desejos pessoais e íntimos, mas que socialmente continua mantendo a fachada de heterossexual para não prejudicá-lo, principalmente, no trabalho. Ele esconde a própria sexualidade porque sair do armário é levantar uma bandeira que, segundo a filosofia da nova década, não precisa ser carregada por ninguém. Ninguém é responsável por lutar por direitos para o outro. Concentre-se em vencer na sua vida, afirmam os jovens profissionais de 1990. A raiz da oposição aos homossexuais efeminados tem um pé nessa história, e a outra no machismo que infecta homens gays.
A origem deste texto é esta pergunta: por que homens gays discretos, isto é, não efeminados, aqueles que podem esconder sua orientação sexual, se incomodam com a existência dos efeminados? Eu, consciente de toda essa história que narrei para vocês anteriormente, só consigo entender que esse incomodo exista porque os não-efeminados consideram que, de alguma forma, a existência de sua contra-parte prejudica-lhe a satisfação de algum desejo pessoal. Digamos, que a existência dos efeminados prejudique ele profissionalmente. Comentando sobre isto no Twitter, eu consegui algumas respostas que podem ajudar a elucidar a questão. Algumas pessoas afirmaram que quando um gay efeminado age de forma irresponsável, fútil, feminina (como eu disse, o machismo é um problema), se espera que todos os gays também funcionem da mesma forma. Sendo assim, como ascender profissionalmente sendo um homem gay (mesmo não efeminado) quando se espera que todos os homens gays tenham os mesmos comportamentos e o comportamento de um homem gay é igual a de uma mulher e mulheres não têm o direito de ascensão profissional? Entende a lógica que está por trás de um simples: não curto efeminados?

HOMEM GAY = HOMEM EFEMINADO 
HOMEM EFEMINADO = MULHER
MULHER = MULHER NÃO VALE NADA   
HOMEM GAY = NÃO VALE NADA

O incômodo dos Discretos se torna entendível porque nenhum deles quer passar a imagem de que não vale nada. Eu, sinceramente, os entendo, contudo também afirmo que a batalha deles está mal direcionada. Eles combatem os efeminados com intensa determinação, todavia deviam dedicar-se a combater o machismo que faz com que uma mulher seja considerada tão impura que parecer-se com ela torna um homem inferior. Não é possível vencer no nosso mundo lutando por si só, na verdade é uma ilusão nossa acreditar que nossas vitórias pertencem somente a nós, esquecendo todos que abriram caminho antes para permitir que estivéssemos ali. Por isso eu convoco todos a lutar por um mundo melhor não somente para si, mas para a comunidade, e não é preciso participar de nenhuma parada gay para isso, uma primeira (e grande) batalha precisa ser vencida antes, contra si mesmo. Combata dentro de você todo o machismo que existe. Não enxergue mulheres como seres inferiores e também não veja os homens efeminados como seres inferiores porque estes manifestam algo de feminino. Combata em si essa tendência a dizer que você não gosta de alguém porque eles têm características mais femininas, isso não é um gosto pessoal, é um preconceito. É machismo! Gosto pessoal é quando você prova e não gosta, quando você vê e sem conhecer não gosta você é apenas uma criança fazendo cara feia para os legumes no prato que sua mãe colocou. Comam, quem sabe não é saboroso.






sexta-feira, 25 de abril de 2014

Tem Gosto Pra Tudo

Uma das grandes mentiras que se conta por aí é que cada um tem o seu próprio gosto, que temos um gosto "pessoal" o qual é único e que não é compartilhado por outras pessoas, este gosto é uma das características inclusive que nos torna seres individualizados. Tais gostos inclusive separam as pessoas em categorias irreconciliáveis como pagodeiros e roqueiros, ou heterossexuais e homossexuais, em barbies e ursos. Fantasias do ego. Mas eu quero falar aqui de um tipo em especial de gosto: aquilo que cada um acha bonito. E já parto do príncipio dizendo que beleza não é um gosto pessoal, somos influenciados. Ver beleza em alguém ou em algo não é pessoal, gosto é uma questão de tempo. E não que você, com o tempo, com a convivência vai passar a achar alguém bonito. Não! Beleza é uma questão respondida por toda a sociedade e não por um só indivíduo.
Em outras palavras, sabe quando alguém diz que gosto é algo único. Isso é uma mentira, ilusão, enganação! Grupos sociais, tribos, classes sociais têm o mesmo gosto. Pessoas que frequentam os mesmo ambientes, que têm a mesma bagagem cultural, que participam das mesmas atividades possuem o mesmo gosto. Porque pessoas influenciam pessoas. Não somos ilhas. Não somos criaturas isoladas. Esse tal gosto pessoal é construído através de outros seres humanos com os quais temos contato e absorvemos deles seus padrões, seus preconceitos, suas formas de entender, pensar e interpretar o mundo.
Como o processo funciona? São muitos exemplos que eu posso dar. Pensemos na pintura para começar: até princípios do século XX, para um quadro ser considerado bonito ele deveria ser pintado retratando a realidade fielmente, até que os impressionistas resolveram transmitir através de suas pinceladas como eles se sentiam, transformaram tinta em poesia e logo Dali e Picasso tornaram-se possíveis e seus quadros que seriam horríveis em padrões antigos de beleza, tornaram-se obras de arte. Obras primas do talento humano. Porque todo  o mundo foi influenciado pelos impressionistas franceses (Monet, para citar um), o conceito de beleza foi alterado para sempre.
Outro exemplo são nossas atuais deusas da beleza, as modelos. Na década de 1950, quando a profissão surgiu, elas eram mulheres com curvas, gordinhas até, pin ups. Marylin Monroe com 1,67, pesava 63 quilos e tinha as medidas de 93 centímetros de busto, 51 centímetros de cintura e 91 de quadril, o IMC de Norma Jean seria 22, isto é, normal; hoje, o padrão de beleza elegeu Gisele Bundchen como musa em seus 1,79 e 54 quilos, com 86 de busto, 59 centímetros de cintura e 87 de quadris e impressionantes 16 pontos de IMC, o que corresponde na tabela do Índice de Massa Corporal à desnutrição. Mas o mais diferente no corpo de Marylin e no de Gisele é que as medidas da atriz americana que se suicidou por ser bonita demais lhe garantiam curvas, as medidas da modelo gaúcha lhe dão, no máximo, uma ondulação. Em determinado momento da década de 1990, a indústria da moda saiu das mulheres curvilíneas, passando pelas atléticas modelos da década de 1980 (Xuxa é um exemplo) e terminamos com garotas de 14 anos, altas demais para a idade e com graves problemas nutricionais. Elegemos refugiadas somalis como as mulheres mais bonitas do mundo. E até essa eleição nenhuma mulher medicamente desnutrida seria considerada bonita por quem quer que fosse, mas as coisas mudam. Jennifer Lawrence, a Mística de X-Men, deu uma entrevista recentemente dizendo que é, em Hollywood, considerada uma atriz gordinha. Ela disse que não precisa se alimentar mal, pular refeições para se sentir bonita, mas que sente a pressão para que isso aconteça em todos os lugares que frequenta.
Da mesma forma, no mundo gay, padrões de beleza são construídos, remodelados, reforçados e implodidos todos os dias, mas todo mundo age como se sempre tivesse sido cool, por exemplo, usar barba. Essa modinha não tem cinco anos e nós vemos meninos repetindo por aí que homem que é homem tem que usar barba (também esses meninos descobriram o mundo há no máximo cinco anos também). Mas já falei disso aqui. E isso não é diferente, também, dos homens musculosos que superpovoaram a década de 1990 e foram substituídos gradualmente por jovens modeletes de corpos definidos da cintura para cima e pernas magras (e não ache que isto é preguiça de malhar, mas um padrão estético que se perpetua). Enquanto a magreza andrógina da década de 1980 fora esquecida, estigmatizada pela AIDS, esse novo padrão emergiu das páginas da Advocate e da Out. Também já falei disso aqui.
Por isso, eu digo, toda vez que você considerar alguém bonito, melhor!, toda vez que você considerar alguém feio pense duas vezes. É você quem está fazendo isso ou você é somente mais um membro do rebanho? Este exercício é útil para filtar o que vem de fora, filtrar o controle que o mundo capitalita tem sobre nossas necessidades diárias, é um combate contra o consumismo. Por que, concordam comigo?, não é nada legal consumir pessoas. Não deveríamos procurar pessoas para nos relacionarmos baseado em anúncios publicitários, pessoas não são coisas. Está na hora de julgar o livro além da capa. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Homens de Barba

, em Natal - RN, Brazil



Para quem não sabe, eu uso barba faz muito tempo. Na verdade, eu poderia dizer que sempre usei já que sendo meus pêlos faciais daquele tipo que cresce muito rápido, eu nunca pude curtir um rosto lisinho desde minha adolescência. Tirar a barba para mim sempre significou ficar com o rosto verde pelo resto do dia e antes de adormecer, já precisar tirar a barba de novo. Foi essa exigência diária que me fez adotar a barba como parte do meu visual, que aconteceu juntamente quando eu assumi a calvície, eu pensava: "Já que não tenho cabelos na cabeça, talvez a barba compense de alguma maneira". Isso, definitivamente, não agradou de imediato. Eu sofri preconceito de gays e héteros (que ironicamente concordavam na crítica: eu não era homem o bastante para usar barba), mas, logo, veio a explodir a moda hipster, com suas camisas de flanela xadrez, óculos vintage inspirados na década de 1980 e um visual desleixado com cabelos compridos e barba por fazer. A haute couture também ajudou durante os fins da década de 2000, modelos com barbas por fazer frequentava desfiles e logo estes pêlos vistos como falta de cuidado com a aparência tornaram-se moda, in, e as mesmas pessoas que me olhavam torto, além de me concederem elogios, agora tentavam cultivar seus pêlos faciais, os mesmos que combatiam a sessões à laser ou torturantes depilações com cera ou pinça. 
Como a barba tornou-se popular, então, minhas fotos com ela também passaram a ser curtidas. É interessante observar isso também. Eu tive um Fotolog anos atrás, que também era uma rede social que se baseava em curtidas e comentários sobre as fotos, aquelas que eu tirava com barba era com certeza menos curtidas do que as que eu fazia logo após afeitar-me. Contudo, de uns tempos para cá, tanto no Facebook e depois no Instagram (que fiz minha conta não faz um ano), tornou-se comum minhas fotos serem cobertas de elogios em relação a barba. São meninos recém saídos da adolescência, borbulhando com o fetiche daddy; aproveitadores que acham que tenho cara de suggar daddy, ursos e chasers, entre outros, mas, recentemente, um grupo muito estranho tem, principalmente no Instagram, curtido meus auto-retratos, que agora são chamados de #selfies. Estes postam fotos de homens barbudos e de camisetas com frases do tipo "se seu pai não tem barba, você tem duas mães" ou "se torne homem, deixe a barba crescer". Eu me assustei por diversos motivos, mas dois são os mais graves: homofobia e racismo.
1) Homofobia. Homofobia significa, na verdade, não o preconceito contra gays, como se popularizou, o preconceito é apenas o resultado da homofobia, mas ela se caracteriza pelo ato de forçar um modelo de homem para ser seguido pelas outras pessoas. Seja este modelo de comportamento afirmar que homem não chora, que é homem é sempre mais forte, que homem gosta de futebol e que homem só se sente atraído sexualmente por mulheres. No caso que analisamos aqui, então, quando se levanta a bandeira de que homem de verdade é um homem com barba se constrói mais um modelo de homem para ser seguido e novos preconceitos homofóbicos são construídos e disseminados como se este mundo já não tivesse o bastante. Eventos como o #BarbaDay no Twitter, inúmeros Tumblrs dedicados a homens com barbas, postagens no Facebook afirmando que a existência ou não de pêlos no rosto de alguém torna este ser humano especial. Tudo isso uma bobagem sem tamanho e, o mais perigoso, uma bobagem homofóbica.
Qualquer um pode considerar que levar essas "piadinhas" sobre a barba a sério é que é a verdadeira bobagem, mas um garoto de 8 anos de idade, em São Paulo, foi espancado pelo pai até a morte porque não queria cortar o cabelo curto "como um homem de verdade" (veja a notícia aqui), o cabelo curto foi definido como o cabelo masculino exatamente como hoje se define que a barba é o suprassumo da masculinidade humana: a moda assim decidiu e nós admitimos como uma verdade universal, a história, todavia, está ai para provar que décadas atrás o bigode era o grande exemplo de masculinidade, depois a depilação total e a jovialidade e ambiguidade sexual decorrentes entraram na moda, agora é a vez da barba, mas estes processos cíclicos que sempre começam dentro do mundo gay não passam de modismos que mudam ao sabor dos ventos da próxima temporada. 
2) Racismo. Além deste problema homofóbico que a elevação da barba do status de fetiche para símbolo da masculinidade do macho humano, como a juba de um leão ou a cauda de um pavão, existe o detalhe racista que passa desapercebido. Existe uma gradação entre os amantes de barba que vai daquelas barbas mais fechadas, ditas completas e sem falhas (prestem atenção nos adjetivos que levam para o sentido de perfeição) para as mais ralas (barbas falhadas) e os imberbes. Entre estes pogonófilos, aqueles sem falhas são superiores e, não por acaso, são os homens brancos aqueles que, normalmente, apresentam estes tipo de pêlos no rosto. Negros, ameríndios, orientais, hindus, mongóis (talvez a única exceção sejam os árabes) não possuem a barba perfeita. Eu não acredito em coincidências (desconfiar é um excelente exercício intelectual, vocês deveriam tentar!), por isso eu desafio qualquer um a procurar nestes grupos e comparar a quantidade de fotos compartilhadas de homens brancos versos aqueles de outras etnias, inclusive os árabes. 
Observação: Eu sei que, agora, todos vão lembrar que conhecem alguém que é negro ou de ascendência japonesa, por exemplo, aqui no Brasil, que tem uma barba fechada. Lembrem que no Brasil nós temos uma miscigenação imensa, poucos brasileiros não são mestiços, e isso transfere para um indivíduo características genéticas dos diversos grupos étnicos ao mesmo tempo. Porém, os grupos que divulgam fotos do tipo "Faça amor, não faça a barba" não utilizam fotos de modelos brasileiros, não é? 
Conclusões. Para mim, no fim das contas, elevar o homem barbado ao lugar de destaque da masculinidade humana é, além de forçar violentamente mais uma imagem aleatória de homem como um modelo a seguir, cristalizar no imaginário coletivo a figura do homem branco como o ápice da sociedade humana (já que o homem seria melhor que a mulher e o homem branco melhor do que todos os outros homens) e, sinceramente, não precisamos de mais disso. Já tivemos um nazismo uma vez, e ao contrário da barba, ele está definitivamente fora de moda.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Politicagem Hipster

, em Natal - RN, Brazil
É impressão minha ou a esquerda virou mainstream? Desde a eleição de Lula e o aparecimento do fenômeno hipster na cultura pop, o cúmulo do niilismo sobre o niilismo, temos visto a ascensão de um novo tipo de intelectual de classe média, meio fotógrafo, sempre publicitário (mesmo que nunca tenha pisado em uma faculdade, mas ostenta o título nas mídias sociais acompanhado com um adjetivo irônico), o Comentador de Direita. Comentador, apenas, porque é nos seus comentários nas Mídias Sociais (Facebook, Twitter, LinkedIn, blogs); e nunca, mas nunca mesmo, na produção de ensaios e discussões mais aprofundadas e maiores do que uma única lauda; que ele manifesta suas opiniões sobre o mundo, a sociedade, a política, isto é, o mundo real. O Comentador de Direita surge em detrimento do Sindicalista de DCE e os Socialistas de Beira de Piscina que estão cada vez mais fora de moda.
É interessante ver como, todavia, estes grupos têm coisas em comum. Ambos são formados por jovens estudantes ingressando no mundo acadêmico e descobrindo seu poder transformador no mundo ou, pelo menos, alguém que passou por esta fase e continuou lá. Contudo, os de esquerda, nossos intelectuais old fashion, tão populares nos anos anteriores a eleição de Luís Inácio Lula da Silva como presidente, foram formados em um ambiente intelectual de repressão política e sérias restrições econômicas. Oriundos de um Brasil extremamente pobre, a transformação/salvação brilhava nas páginas do Manifesto Comunista como um farol, as promessas utópicas de Karl Marx, reforçadas pela excelente análise sobre o modo de produção capitalista, eram o escape ideal para imaginar que este país poderia sim ser o país do futuro. Além disso, a vaidade intelectual também cobria muitos. Em um universo intelectual em que ser inteligente era dominar as ciências humanas, que Psicologia, História, Antropologia e Ciência Política eram as disciplinas da elite pensante do país, era nos centros estudantis destas faculdades que tudo acontecia.
Mas aí chegamos ao novo milênio, elegemos Lula em 2002, a internet se espalhou por todo este país varonil, em 2006 o Twitter dá o ar de sua graça, Steve Jobs lançou o iPhone em 2007, e tudo mudou na senda dos intelectuais brasileiros. De repente, não mais do que de repente, aquele nerd (ser associal que somente sabia sobre computadores, sci-fi e e língua élfica) tornou-se o novo modelo de intelectual. Repetiu-se: smart is the new sexy. Mas é um novo modelo de inteligência. Diz-se mais inteligente que o antigo, mas que abandona todo o conhecimento filosófico e histórico construído pela tradição ocidental em nome do novo, da descoberta, da invenção. Este novo intelectual de conhecimento meramente técnico programa computadores e constrói códigos e pode, do dia para noite, tornar-se um milionário ao vender uma de suas ideias que desenvolveu na garagem da sua mãe para uma gigante internacional. 
Este novo intelectual, que não é capaz de relações sociais (inclusive manifestando isso através de síndromes como Tourette, Bipolaridade, entre outras) porque é inteiramente analfabeto em métodos de avaliação do mundo que está ao redor dele dado que passou a própria adolescência e toda a sua formação acadêmica construindo um universo só para ele, torna-se o novo modelo e é imitando este novo nerd que surgem nossos personagens. Eles nasceram e cresceram em outro um ambiente, em um país cujo novo estado econômico e uma democracia nunca antes experimentada criaram uma juventude yuppie anacrônica que visava, somente, seu sucesso no futuro.
Óculos quadrados, camisetas com personagens de filmes sci-fi, quadrinhos e livros de fantasia em uma mão e um smartphone na outra, esta é a descrição destes Comentadores de Direita que só existem, como nerds, atrás de suas telas. Fora do ambiente virtual estes homens e mulheres não existe, porque incapazes de avaliar o mundo como ele realmente é, estes Comentadores precisam da segurança e do recorte que o mundo virtual garante a eles. Segurança porque, escondidos atrás de seus nicks, eles se tornam quem desejam ser, elencam personagens que se fazem sucesso entre seus amigos ou seguidores permanecem, mas se não são facilmente substituídos e transformados em outros, podem ser homens ou mulheres ou mesmo uma Sailor Moon independente do sexo de quem está entre a cadeira e o teclado. Recorte porque estes novos intelectuais de direita não aprenderam, porque nunca ouviram falar nisso, que existem, no mínimo, duas verdades para cada fato, e que uma não exclui a outra. O raciocínio binário não comporta esta percepção da realidade, mas o mundo real não é binário, não é preto ou branco, ele tem uma gama de cores, padronagens e, me desculpem, salmão não é apenas um peixe e o pufe fica melhor perto da ráfia. 
O conhecimento, e era isso que se aprendia dentro das faculdades de ciências humanas que, agora, são tão mainstream, é que o mundo é absurdamente mais complexo do que 140 caracteres podem responder, que discursos irônicos não conseguem transmitir nenhuma verdade e que críticas de verdade só podem ser feitas quando se demonstra o começo, o entremeio e um modo de resolver o problema. E eu ofereço um: parem! Simplesmente parem! Primeiro porque inteligência sem capacidade emocional de lidar com a realidade é um problema sério que precisa ser tratado e não estimulado porque faz garotos espinhentos se tornarem milionários do dia para noite, a maioria deles continua sendo homens espinhentos sem pódio de chegada ou beijo de namorada. Segundo porque inteligência sem capacidade crítica de lidar com a informação não é inteligência é treinamento especializado e até peixes dourados em aquários podem ser treinados para fazer alguns truques, aprender a programar não é nada mais do que ensinar a alguém um imenso truque, saber, no entanto, avaliar este conhecimento para reconhecer o que ele significa em um nível maior dentro da história da Humanidade é que significa alguma coisa. Neste caso, o mesmo vale para os antigos Sindicalistas e Socialistas, Karl Marx sucks! Antes de comentarem sobre o mundo, criticá-lo, é bom entendê-lo e isso somente com bastante pesquisa e bastante experiência na maior variedade possível de atividades, então, antes de ironizar qualquer coisa, acho que é bom experimentá-la de peito aberto. Vale mais a pena!

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Heterossexualismo Pega!

, em Natal - RN, Brazil
Ninguém nasce gay, como ninguém nasce heterossexual. E antes de vocês terem uma imensa crise de identidade, deixe-me explicar. Seres humanos nascem com uma orientação sexual, isto é, um direcionamento para o qual o seu desejo sexual será levado, este direcionamento pode ser para homens, para mulheres ou para ambos, mas isto não basta para tornar alguém gay, hétero ou bi. Deixe-me dar um exemplo: um menino nasce com sua orientação sexual voltada para homens, contudo ele é educado toda a sua vida a ser heterossexual, ele então suprime sua própria orientação que o faria gay e torna-se heterossexual porque educa seu desejo a direcionar-se para mulheres. Sim, isto é possível! É fácil de fazer? Não! Causa traumas irreversíveis fraturando a psiquê do indivíduo? Sim! Mas o ponto aqui é que um homem gay pode ser educado a ser heterossexual. E por quê? Porque heterossexualidade é uma coisa aprendida.
Existe um conceito muito útil utilizado por antropólogos e sociólogos desde 1980, ele foi cunhado por uma feminista chamada Adrienne Rich que numa análise sobre a experiência lésbica percebeu que as mulheres eram convencidas que o casamento e a orientação sexual voltada para os homens eram inevitáveis. Elas era doutrinadas pelo romance heterossexual/heteronormativo através de contos de fada, das novelas na televisão, dos filmes no cinema, que passavam a ter um papel coercitivo sobre a quem era correto dirigir o seu desejo. Rich então explicou que através destes mecanismos homens e mulheres seriam aprisionados psicologicamente à heterossexualidade e tentariam ajustar sua mente, seu espírito e seu corpo a este modo prescrito de sexualidade. 
O que, de fato, acontece é que quando a heterossexualidade é considerada natural e buscamos causas da homossexualidade, como se esta fosse um desvio do padrão, nós na verdade ocultamos os mecanismos de coerção que treinam os seres humanos a gostar do sexo oposto. Desde a década de 1960, antropólogos e psicólogos reconhecem que todos os seres humanos são capazes de relacionar-se com o mesmo sexo, mas no processo de socialização infantil, isto é, na igreja, na escola e na família, nós somos adestrados (exato, como cachorros!) a nos voltar apenas ao sexo oposto. 
Somos ensinados, por exemplo, que ser gay é ser doente. Que a única forma sadia de vivenciar a sexualidade é colocando-a dentro dos moldes heteronormativos, isto é, homem no papel de macho ativo e conquistador e mulher no papel de fêmea submissa e hesitante. Somos ensinados também que a heterossexualidade é o estado primeiro da humanidade, Adão e Eva, gametas masculinos e femininos, sexo reprodutivo, dão a entender que no principio tudo era heterossexual, ignora-se completamente que os primeiros animais eram todos hermafroditas e que a divisão em gêneros é tardia na história da vida do planeta. Também confundimos Sexo (biológico, macho/fêmea/hermafrodita), Gênero (social, masculino/feminino) e Sexualidade (psicológico, homo/hetero/bi/trans/assexuado) como se Masculino e Feminino fossem as únicas classificações que possam existir para todos os seres que dividem a Terra conosco. 
Heterossexualidade, que não é um Sexo, nem um Gênero, não tem absolutamente nada de natural, ela é compulsória. Compulsória porque a criança é obrigada a aceitar aquele padrão que lhe é imposto e negar todas as outras possibilidades que lhe são oferecidas de antemão. Ela também não tem a maturidade necessária para questionar aquela imposição. Acredita, ao ser exposta somente ao mesmo modelo, que aquele é a única experiência em que pode desfrutar de sua sexualidade e sem pensar se quer, se deseja, repete  o modelo que aprendeu com os próprios pais, com os avós, com os bisavós.
É interessante que para garantir essa heterossexualidade compulsória existem inúmeros mecanismos para evitar que alguém se desvie do caminho que lhe foi traçado. A homofobia é um destes mecanismos, o machismo outro, mas o mais antigo é definitivamente a marginalização das outras formas de experiência sexual que foi imposta pela medicalização e pela criminalização. Tornar gays, lésbicas, bissexuais e travestis doentes e/ou torná-los marginais e criminosos, ambos processos que acontecem no início do século XIX, são os marcos que definem dentro da sociedade burguesa quais os caminhos que aqueles homens queriam construir para a sua sociedade. 
Isso que é interessante! Homens que viveram em 1800 continuam ditando os padrões sexuais que devemos viver para garantir para eles uma prole para que suas fábricas tenham trabalhadores aos quais eles possam pagar um xelim ao dia. Para que o sexo tenha fins reprodutivos e o mundo esteja cada vez mais apinhado de pessoas para trabalhar por pouco e gastar muito, a burguesia incute ainda um modelo de família, por exemplo, que foi inventada somente 200 anos atrás e o faz reaparecer dentro mesmo de discursos produzidos antes de Cristo, como na Bíblia, ou os mitos greco-romanos apropriados pelos estúdios Disney e o cinema americano, em que os únicos casais citados são aqueles formados por um homem e uma mulher, apagando-se por completo os casais poligâmicos (um homem e várias mulheres) porque eles não tem função social em nossa contemporaneidade. 
O modelo de família e sexualidade heterossexual foi inventado. Tem data de nascimento e tem objetivo claro para sua manutenção. Acreditar que ele é natural é, no mínimo, ingenuidade. Acreditar que não podemos questioná-lo e subvertê-lo facilmente é somente preguiça de agir. Porque é fácil derrubar algo que está apoiado no ar, basta somente um empurrão. 




sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Mais Discreto, Mais Discurso de Ódio

, em Natal - RN, Brazil



Outro dia no Facebook um amigo mostrou uma postagem deste blog aqui: Mais Discreto. Eram postagens intituladas "Gay: Estou ficando muito afeminado (sic), o que fazer?" e "Dicas de como não ser um gay afeminado (sic)". As dicas propostas pelo blogueiro que assina Gay Discreto são coisas como não gesticule (pobres italianos); não ande rebolando (me ofendi com esta porque tenho uma má formação no quadril que me faz andar rebolando); não demonstre que é fã de uma banda ou cantora (será que pode torcer por time de futebol?); não sente de forma irregular (não tenho ideia do que seja isso); seja discreto ao ver um homem bonito (é para matar de rir!). Ele também tem uma página no Facebook com 269 curtidas, em que as postagens do blog são divulgadas, mas que também membros da página marcam encontros entre "machos discretos" que terminam com a frase: "Não curto afeminados (sic), nada contra". Li então a descrição do blog e o rapaz mostrava toda a sua boa vontade: "Att: Não tenho nada contra gaus afeminados (sic), esse blog funciona apenas como auto-ajuda para quem precisa ser discreto". Eu, sinceramente, fiquei revoltado!
É muito preconceito junto e que o Gay Discreto obviamente não entende o tamanho do mal que está provocando. Um mal digno de Marco Feliciano, arrisco-me dizer! No entanto, apesar dele acreditar que não há nenhum tipo de preconceito no blog (por acaso ele acha que as dicas dele são baseadas em pesquisas da Organização Mundial de Saúde?), os comentários chegam a doer no coração. Tem comentarista psicólogo: "Vou sofrer mais preconceito, discriminação, pra arrumar emprego é difícil, pra arrumar uma pessoa legal é difícil. Um gay afeminado (sic) ele não é que nem qualquer outro, ele quer chamar atenção devido a sua carência e vontade de aparecer mais que os outros". Tem pastor: "Uma gay afeminada é ridicula, tosca, palhaça, ele próprio fere sua dignidade ao ser afeminado (sic), e você vem falar que isso é preconceito? Ser afeminado (sic) é feio e deve ser repreendido SIM!!". Tem o direto: "Existe os gays e as gays. Que bom se todas as gays tivessem vergonha na cara e se comportassem como homem, pq os gay não renegue seu sexo! Ser afetado é feio e falho!". PS: Só para registro, segundo a política do Blogger os comentários são de responsabilidade do autor do blog também.

Tome Jeito de Homem

Começo minha crítica pelo mais óbvio: qual, pelo amor de Deus, o problema em ser efeminado? Qual o problema com o feminino? O que tem de tão ruim em ser comparado a mulher? Mas, além disso, ser efeminado é um conceito que somente existe porque nós temos um modelo do que significa ser homem. E homem significa ser homem heterossexual. Significa comportar-se como um homem que se sente atraído por mulheres. Mas o que é isso? O que é um Homem? Sendo preconceituoso ao nível deste blog eu diria que seria ter uma voz grave, uma postura viril e máscula, gostar de futebol e gostar de mulher. Falarei apenas de dois deles para o texto não ficar muito longo. Tratemos primeiro da voz, de um elemento genético. Homens, seres portadores dos cromossomos X e Y, tem até quatro tipos de voz: as graves (baixos), as médio-graves (barítonos), as agudas (tenores) e as muito-agudas (contra-tenores). Estes timbres vocais existe porque cada homem tem uma formação única de garganta, das pregas vocais e sua capacidade respiratória. Então não existe isto de voz de homem. Não existe uma voz masculina e sim vários tipos que vão do mais grave a uma voz quase feminina (o Kurt, de Glee, é um contra-tenor, por exemplo). 
Sobre a postura viril e máscula, sobre como é se comportar como homem, falamos agora de um elemento cultural. O que é caracterizado como uma postura masculina em uma cultura é distinta em outra, e se pensarmos isto dentro da História podemos enxergar os comportamentos mais dispares do que o que consideramos hoje como uma postura masculina. Exemplos pipocam: homens russos beijam-se na boca quando se encontram, homens árabes andam de mãos dadas pelas ruas, homens brasileiros apertam as mãos e dão um tapinha nas costas quando se encontram, americanos apenas apertam as mãos, japoneses não tem nenhum contato físico. Homens já foram proibidos de pisar na cozinha de casas, eles depois passaram a cuidar das crianças, hoje existem homens que ficam em casa enquanto suas esposas trabalham fora. Então, se a diversidade é a única regra, porque insistir em um modelo do que é um homem? Quem tem o direito de dizer que tal ato é ou não masculino se todos eles são decididos de modo completamente arbitrário?

De Boas Intenções, o Inferno Está Cheio

Minha segunda crítica tem a ver com os objetivos deste moço, o Gay Discreto. Ele afirma que quer ajudar quem é efeminado, mas qual a diferença da ajuda que este blogueiro presta daquela que a Marisa Lobo, a psicóloga cristã, oferece a todos os gays? Fico preocupado com as pessoas a quem ele atinge, as feridas psicológicas que ele pode criar em jovens adolescentes que procuram na internet respostas para suas angústias ou em homens gays que sofrem preconceito e não tem ideia dos direitos que possuem. O Gay Discreto é um porta-voz da homofobia que recebemos da nossa sociedade e que redirecionamos para o grupo que, afinal de contas, mais nos representa, pois se encaixa mais no estereótipo. Dentro do nosso grupo este preconceito funciona como um escudo que nos protege de ataques porque atacamos primeiro o membro do grupo que é mais visível e o abandonamos ali, ferido, para que os predadores se detenham nele e nos permitam seguir em frente. O blog Mais Discreto ensina somente isto: ataque a gazela mais fraca e deixe-a para os leões.
Se ele pretendesse, de fato, ajudar estas pessoas que são efeminadas e o procuram através do e-mail (é assim que o blog dele funciona), o caminho deveria ser, primeiro, reforçar a auto-estima destas pessoas. Mostrar que apesar do preconceito, que não obstante ter todo o mundo contra você todos os dias de sua vida, que elas também têm valor, o que passaria, sem dúvida, por combater os comentários que dizem que efeminados não têm educação, ou postura, que são ridículas e desagradáveis, entre outros adjetivos. Deveria ele desmistificar e desmentir as coisas que são ditas e fazer, principalmente, não que o homossexual efeminado mude, mas aqueles que têm preconceito, que não dão o emprego, que não namoram, que não aceitam, mudem suas posturas. 
Em segundo lugar, o blogueiro deveria mostrar os direitos que as pessoas têm em seus ambientes de trabalho, escolas, etc. Conscientizar. Se alguém sofre preconceito por ser efeminado, seja gay ou não (e, provavelmente, o Gay Discreto não sabe que também existem homens heterossexuais efeminados), deve buscar na justiça as medidas cabíveis para o caso. Diversas cidades e estados brasileiros já têm leis e delegacias especializadas para lidar com este tipo de crime, e ajudar alguém a superar o preconceito não é ensiná-la a se esconder para evitar tornar-se um alvo, é demonstrar como se proteger através dos artifícios legais que temos a nossa disposição tal como a denúncia, por isso termino este texto convidando todos vocês a denunciar o blog por discurso de ódio ao Blogger, basta clicar  aqui, e todos nós fazemos nossa parte.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Entre o Fetiche e o Mundo Real

, em Natal - RN, Brazil



Esta é Madonna causando escândalo de novo. Aos 55 anos,  a Sra. Cicconne está namorando um garoto (um dançarino) de 26 anos. Isto bastou, obviamente (e fico muito infeliz por usar este advérbio aí), para causar "confusão e gritaria" nas redes sociais. Muitos aplaudindo, outros (e esta a grande maioria) criticando a Rainha do Pop. As críticas se baseavam na premissa de que mulheres não podem/ não têm o direito de namorar homens mais jovens e, muito menos, usá-los como boy toys. Exatamente como homens têm feito desde (principalmente) quando os yuppies ascenderam socialmente em meados da década de 1980. Foram eles que inventaram o homem poderoso que demonstra o quanto venceu na vida através do seu carro, de suas roupas de marca e jovens mulheres que são trocadas quando ultrapassam os 25 anos, ou seja, inventaram Hugh Hefner, dono da Playboy, e suas coelhinhas. Criticavam Madonna sobretudo porque ela já deveria ser uma mulher casada, uma senhora respeitável, e que não devia mais se exibir com garotos por ai que ela joga fora após sugar-lhes a vida.
Discutir o quanto existe de machismo neste discurso é, obviamente, chover no molhado, não é? Além disso o querido @BrunoEtilico já fez isso no Os Entendidos. Agora o que eu me vi questionando é o quanto este discurso sai da boca de homens gays e como eles se veem presos em duas opções radicalmente distintas de comportamento: apoiar aqueles que tem boy toys e execrar os homens mais novos que tem relacionamentos com homens mais velhos.  O primeiro ponto se deve a educação machista que recebemos. Homens são educados a ver beleza na juventude, mulheres são educadas a verem segurança na maturidade. Os homens gays então são educadas e bombardeados o tempo todo com modelos de beleza que envolvem o corpo jovem. Veja as revistas masculinas voltadas ao público gay publicadas no Brasil, desde a Júnior até a GMagazine. É um desfile de corpos jovens e até mesmo na categoria fetiche em que o daddy seria permitido, já que os lolitos são comumente retratados, os homens que aparecem em fotografias como daddies nunca tem mais que 35-40 anos. É o limite gay: um homem só pode ser bonito até seus 35 anos e, somente, para aqueles que tem um certo fetiche. A beleza acaba aos 30. Sendo assim, é natural, que um homem na casa dos 30 anos se interesse por jovens entre 18 e 25 anos. Na verdade, ele é estimulado. 
Claro que não para ter um relacionamento! Porque o jovem, e essa é a ironia, entre 18 e 25 anos é um garoto que ainda tem muito o que aprender com os homens que passaram por entre as pernas dele, mas para divertir-se, ou seja, boy toys, eles são absolutamente perfeitos. Os lolitos são um fetiche comum e socialmente aprovado. Sim, porque existem fetiches que são aprovados e outros que não podem nem ser mencionados. Quantas vezes ouvimos que homens musculosos são perfeitos e pessoas que gostam de homens gordos são reprimidas ao falarem? Quantas vezes é socialmente permitido dizer que se tem fetiche por homens fardados enquanto o travestismo é enquadrado como uma doença mental pela Organização Mundial de Saúde? Mas e quanto os homens que se sentem sexualmente atraídos por homens mais velhos, os daddies?
Ai está um grande problema no mundo gay. Existem inúmeros padrões que não podem ser rompidos (ironicamente num grupo formado a partir da contra-cultura punk). Não se pode ser gordo, não se pode ser efeminado, não se pode envelhecer. Estes são os três pilares da beleza gay inventados pela revista Advocate. De fato, o mais engraçado é que em 1991 uma revista americana definiu que este era o padrão de beleza que os gays deveriam seguir e eles, calados, obedeceram sem pestanejar. Dirão que foi culpa da AIDS, eu digo: "me poupe"!. Nós, gays, somos um grupo que levanta a bandeira da diversidade. Nós dizemos o tempo todo, somente por existir, que modelos não podem ser impostos para as pessoas porque elas não cabem neles, contudo empurramos um padrão de beleza que simplesmente não alcança os membros do nosso grupo. Eu poderia falar horas aqui sobre como é maldoso definir que homens gordos são feios somente por serem feios, como também como é extremamente maligno definir que alguém é feio somente porque é efeminado, mas vamos manter o foco: a idade não torna ninguém feio.
O grande problema que a comunidade gay tem, e isto é um fato, não um preconceito, é que este grupo (talvez por causa dos momentos em que sempre é destratado e sofre preconceito) tem uma grande necessidade de se afirmar. E, uma das formas de se afirmar, sobretudo entre os próprios pares é manter-se dentro daquilo que é aceito no grupo. Muitos malham somente porque os amigos malham, muitos usam a marca da moda, escutam a música da moda, vão aos lugares da moda para serem bem vistos pelo grupo, mas, também, a grande maioria sufoca seus próprios desejos para manter uma imagem dentro do grupo. É comum, entre gays, apesar do desejo de ficar com um homem mais velho, alguém que o conquistou, alguém que despertou seu interesse, alguém por quem ele se sentiu atração, preferir continuar ficando com os mesmos garotos imberbes que seus amigos ficam para não ser criticado. Eu até entendo! Já somos criticados em todos os lugares que chegamos, ainda seremos criticados pelos nossos amigos por causa do namorado/ficante que escolhemos? Muitos preferem o caminho mais fácil. Mas o preconceito cresce.
Não existe, na verdade, nada melhor em namorar/ficar com um homem de mais de 30 anos. Eles, quer dizer, nós não somos nada diferentes de garotos de 18 anos. Na verdade, eu conheço garotos de 18 anos mais maduros que muitos de mais de 30. Contudo, homens com mais de 30 anos não vão parecer com garotos de 18 anos. Nosso corpo muda, o de todos muda. O acúmulo de gordura abdominal é incontrolável, os cabelos e pêlos brancos nascendo pelo corpo são fatídicos, a preguiça de ficar na balada até as 6h da manhã e depois esticar para um after é real. Esta é a Casa dos 30. Você com certeza se divertirá mais com um menino de 18 anos e seu corpo no ápice do vigor humano e, se tiver sorte, este menino de 18 pode assinar a Carta Capital, ler Homero no original e viveu dois anos em um templo budista no Tibet. E, com o extra, de não vir com toda a bagagem que um homem de 30 anos sempre traz consigo. Porém, o pior, é ver que meninos de 18 anos e homens de 30 veem que aqueles que passaram dos 25 anos não são mais atrativos antes de conhecê-los. Primeiro por vergonha dos amigos (em ambos os casos), mas também porque neste mundo torto em que vivemos a capa sempre fala mais sobre o livro do que as linhas que estão escritas nele. Quantas estórias magníficas deixam de ser lidas/escritas/vividas por causa disso. É tão triste.   


PS: Acho que voltarei a postar, mas provavelmente serão textos como este, nada mais da minha vida pessoal. Não é porque eu não queira falar sobre minha vida pessoal, mas porque não existe nada nela digno de nota. 

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Nova(mente)

, em Natal - RN, Brazil


A Parada do Orgulho Gay de Natal, em sua 15ª edição, não aconteceu novamente. A Prefeitura embargou o evento, impedindo que os trios elétricos saíssem pela Av. Engº Roberto Freire que corta a zona sul da cidade e leva a Ponta Negra, uma das praias que são cartões postais da cidade. Este é o segundo ano que o trajeto não é autorizado pelas secretarias municipais, contudo, os organizadores insistem que devem caminhar de Ponta Negra até concluir percurso sob a árvore de Natal montada anualmente para celebrar o aniversário da cidade e a festa da natividade de Jesus Cristo.
O impasse está então localizado. A Prefeitura não permite que cidadãos que paguem impostos utilizem o espaço público em meio as boas (e ricas) famílias da cidade, atrapalhando, com certeza, o trânsito caótico da região sul da cidade. O mesmo problema, no entanto, não existe para a Macha para Jesus, felizmente. Já o movimento gay não quer retornar para a Praia do Meio. Não quer voltar para aquela região marginalizada e degradada da cidade, em que seu público ficava segregado as classes C, D e E e que decretava que o lugar que os gays de Natal podem ter orgulho de sua sexualidade é nos subúrbios da cidade, em suas zonas de prostituição e no colo de cafuçus que bebem latas de Pitu com Coca-cola.
Ocupar Ponta Negra, sendo assim, e ter seu lugar dentro da programação da festa de aniversário da cidade é, para a militância LGBT, simbolicamente, muito importante. O dia que a parada gay conseguir sair, na verdade, vai marcar definitivamente uma percebepção diferente dos governantes potiguares e, principalmente, natalenses em relação a sua população de gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transgêneros. Este dia histórico marcará o momento em que esta cidade finalmente aceitará com orgulho boa parte dos seus cidadãos que ainda vivem como uma segunda classe.
Mas o movimento gay de Natal também precisa aprender novos truques. Trios elétricos caríssimos, mas nenhum centavao em divulgação? Nada em outdoor ou TV, e uma campanha porca nas mídias sociais? É preciso se preparar todo ano, antes da parada, é preciso arrecadar o apoio, por exemplo, das boates da cidade para arrecadar fundos com festas beneficentes para a parada, com uma excelente assessoria de imprensa é preciso vender reportagens e levantar entrevistas chamando o povo para as ruas. Mas, principalmente, é também preciso atualizar o discurso: não existem mais "simpatizantes" na nossa sigla, até porque exigimos aceitação e respeito, não simpatia pela causa; também não cabe a ninguém em cima de um trio com o microfone na mão dizer que "nós temos que nos dar ao respeito", não cabe, definitivamente, a ninguém de uma militância LGBT levantar qualquer bandeira moralista. Não precisamos nos dar ao respeito para exigir respeito, esta frase machista não pode estar na boca de ninguém ali porque ela somente reforça o preconceito de qualquer heterossexual que escuta este discurso. "Posso bater naquele viadinho porque ele não se dá ao respeito", é o primeiro argumento que você vai escutar da boca de um homofóbico. 
Não que eu acredite que a parada estava mal organizada, sei que todos os problemas que ela teve não foi por culpa dos membros do movimento na cidade, mas é sim preciso, sobretudo, para a parada gay de Natal uma atuação mais profissional dos militantes e para isso é necessário que tenhamos pessoas capacitadas para todos os trabalhos. Jornalistas trabalhando como assessores de imprensa, advogados e gestores de políticas públicas entrando com as requisições para qualquer tipo de autorização para a realização do envento, publicitários lançando campanhas para a divulgação do evento, artistas realizando eventos para levantar fundos para evento. É preciso voluntários e para isso é necessário abrir as portas, é hora da militância natalense se renovar, mas eu mesmo já tentei participar do grupo e, apesar de todos os contatos para participar das reuniões, eu nem consegui descobrir onde ela se realizava. 
Vou esperar a 16ª Parada do Orgulho Gay e ver se a história muda.
Feliz Natal.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O Casamento do Ano

, em Natal - RN, Brasil


Na mesma semana que o Conselho Nacional de Justiça decidiu, numa votação sem estardalhaço, que os cartórios deveriam converter as uniões civis de casais homossexuais em casamentos, como também se dá com os casais heterossexuais, e que também os cartórios deveriam receber e deferir os pedidos de casamento civil de casais do mesmo sexo, a Panini Comics publicou como história de capa da revista X-Men Extra o casamento do mutante gay, Estrela Polar, com seu namorado, Kyle. A Panini é a distribuidora no Brasil das revistas em quadrinhos da DC Comics, editora do Super-Homem, Mulher-Maravilha e Batman, e da Marvel Entertainment, que publica Homem-Aranha, Capitão América, Homem-de-ferro, Hulk, Thor, Vingadores e os X-Men, desde 2002, quando substituiu a Editora Abril. Contemos primeiro quem é o Estrela Polar. 
Jean-Paul Beaubier foi criado em 1979 pela dupla lendária dos quadrinhos Chris Claremont e John Byrne e teve sua primeira aparição em Uncanny X-Men 120. Ele é franco-canadense, nascido em Montreal, e possui os poderes de super-velocidade, vôo, além de força e resistência sobre-humanas. Sua história nos quadrinhos começa com ele sendo um atleta mundialmente conhecido que ganhava as competições de esqui graças aos seus poderes de supervelocidade, desmascarado, ele teve a oportunidade de se juntar a equipe de super-heróis que protegia o Canadá, a Tropa Alfa. Nesta equipe estavam Wolverine; o Guardião, o líder da equipe; os seres místicos Sasquatch e Pássaro da Neve; o feiticeiro indígena Shaman e a irmã gêmea de Jean-Paul, com os meus poderes, Aurora. A Tropa Alfa surgiu apenas para fazer parte da história do passado do Wolverine, porém seus personagens se tornaram tão carismáticos que em 1983 eles ganharam sua própria revista, Alpha Flight, escrita pelo mestre dos quadrinhos, John Byrne, que teve então a oportunidade de desenvolver os personagens criados como coadjuvantes para os X-Men.
Quando Alpha Flight foi lançada já era a intenção de John Byrne de fazer que Estrela Polar fosse gay, porém o editor-chefe da Marvel na época, Jim Shooter, foi terminantemente contra, apoiando-se no Comic Code Authority, que autorregula a publicação de revistas em quadrinhos nos Estados Unidos. Porém, apesar da proibição, Byrne continuou com sua premissa sobre o personagem. Jean-Paul, por exemplo, nunca era visto com mulheres; os próprios personagens discutiam a sexualidade de Jean-Paul estranhando porque ele nunca estava acompanhado, ele respondia que estava muito dedicado a se tornar um campeão olímpico para se dedicar as mulheres. Somente em 1992, em Alpha Flight 106, Scott Lobdell teve a permissão de tirar Estrela Polar do armário e ele finalmente disse: "Eu sou gay!", fazendo a revista esgotar-se das bancas em uma semana. Apesar do sucesso, das questões que envolviam sua sexualidade serem abordadas na revista em quadrinhos, com o cancelamento da Alpha Flight no número 130, em 1994, a sexualidade do herói canadense foi praticamente ignorada por qualquer outro escritor. Houveram citações a sexualidade do Estrela Polar, quando ele aparecia como convidado em outros títulos, como por exemplo do Hulk, escrito por Peter David, que também havia introduzido o segundo personagem gay assumido do universo Marvel, Hector, do grupo Panteão.
Somente em 2002, pelas mãos de Chuck Austen, Estrela Polar foi reintegrado aos X-Men ao ser convidado pelo professor Xavier a integrar a escola. Neste convite, Austen mostra ao que veio pois a primeira discussão entre Estrela Polar e o Professor X é como ele poderia ser professor de crianças se ele era gay, Xavier não demonstra nenhum preconceito, e Estrela Polar passa a fazer parte do time de professores do Instituto Xavier de Ensino Avançado, ensinando Economia, Francês e dando aulas de vôo. Austen explora ricamente o tema da sexualidade de Jean-Paul em suas histórias fazendo-o ter uma paixão platônica pelo X-Man, Homem de Gelo; além de que como professor, ele se torna um modelo para o único estudante gay do Instituto, Anole, de apenas 15 anos. Quando Austen deixou a revista em 2004, Estrela Polar também deixou a equipe, conta-se que ele passa a fazer parte da S.H.I.E.L.D., um grupo de espiões do governo americano, após ser controlado mentalmente pela HYDRA, o grupo de espiões inimigo. Ele só retorna aos X-Men em 2008, com a saga Secret Invasion, na qual a Terra é invadida por extraterrestres capazes de mudar de forma.
A partir do ano seguinte descobrimos que Jean-Paul está namorando o seu agente, Kyle Jinadu, que mora no Canadá, enquanto ele continua nos Estados Unidos junto com os X-Men. Além do namoro, as conversas de Jean-Paul com os outros personagens da série nos quadrinhos não deixa nenhuma dúvida sobre a sexualidade dele. E em 2012, publicada com atraso de 1 ano no Brasil, realiza-se o casamento dele e Kyle na revista Astonishing X-Men 51. E eu li esta história essa semana. Primeiro é bom explicar que a Panini Comics, no Brasil, não publica apenas uma revista por mês, a tradição brasileira é um mesmo título conter várias números da mesma revista por mês, neste X-Men Extra 136.1, por exemplo, se reuniu os quatro  números de Astonishing X-Men (48-51) que contam sobre o casamento entre o herói e seu agente. Resumindo a história: Kyle decide vir morar nos EUA junto com o namorado, ao mesmo tempo os X-Men da Escola Jean Grey para Jovens Mutantes são atacados pelos Carrascos, que estão sendo manipulados por uma vilã misteriosa. Em meio aos ataques, Jean-Paul pede o Kyle em casamento para provar-lhe que ele estava comprometido de verdade com o relacionamento deles. 
O casamento ocorre nos jardins da Mansão Xavier, onde é a Escola Jean Grey e tem a presença de quase todos os mutantes das séries dos X-Men, além dos membros da Tropa Alfa e alguns Vingadores. Uma sequência de dos quadros me chamou atenção, reproduzo abaixo: 



A sensibilidade do roteiro de Marjorie Liu não deixou de fora personagens em dúvida se eram a favor ou não do casamento; ai em cima ela cita dois, mas em determinada passagem da história, o próprio Estrela Polar afirma que nem todas as pessoas que ele convidou compareceram ao casamento; Marjorie Liu deixa claro que os personagens da Marvel, apesar de heróis, também tem seus preconceitos, eles não são perfeitos e, portanto, é normal encontrar entre eles pessoas homofóbicas também. A história é uma clássica história de casamento nos quadrinhos, como foi do Sr. Fantástico e a Mulher-Invísivel, como foi a do Homem-Aranha e Mary Jane, como foi o casamento de Ciclope e Jean Grey e também o de Pantera Negra e Tempestade, todos com a tradição da capa da revista ser uma foto dos noivos. Foi, para mim, emocionante. Não porque a história foi linda, foi comum, porém eu comecei a ler X-Men nos idos de minha adolescência porque o fato deles serem odiados e temidos por terem nascido diferentes me tocava profundamente, ler nestas páginas que eu acompanho desde que eu era aquele menino que sofria bullying  na escola, o primeiro casamento entre pessoas do mesmo sexo em uma revista em quadrinhos de super-heróis me emocionou muito. E acho que essa, definitivamente, foi a melhor maneira de comemorar o Dia Internacional Contra a Homofobia e Transfobia.



sexta-feira, 22 de março de 2013

Humanos Absurdos

, em Natal - RN, Brasil


Eu não sabia o que falar sobre a Comissão de Direitos Humanos e Minorias, ou melhor, sobre a indicação pelo PT do presidente da comissão por um membro do Partido Social Cristão. Eu não sabia mesmo o que tratar deste assunto dado o tamanho do absurdo que tudo isso comporta, mas acompanhem-me: 

Por que o PSC, um partido notadamente de direita e altamente conservador, faz parte da base aliada do PT? O PSC surgiu em 1985, logo após o fim da Ditadura Militar no país, o que o faz um dos partidos mais antigos do país. Apesar de que se procurarmos na página do partido encontrarmos que "sustentado na Doutrina Social Cristã, inspirado nos valores e propósitos do Cristianismo, em busca de uma sociedade justa, solidária e fraterna (...) o PSC (...) não segrega, não exclui, nem discrimina. Aceita a todos, independente de credo, cor, raça, ideologia, sexo, condição social, política, econômica ou financeira", de fato, entre seus parlamentares (1 senador; 20 deputados federais, dos quais pelo menos a metade são evangélicos; 25 deputados estaduais e inúmeros vereadores) se defende o que eles chamam de "valores cristãos" representados por palavras como família, moral, bons costumes, etc. Eles são claramente contra bandeiras históricas do Partido dos Trabalhadores como a descriminalização do aborto e os direitos LGBT, porque não é de hoje que o movimento LGBT tem raízes profundas dentro do partido da presidente (me recuso a usar esta palavra como a senhora Dilma exige). Questiono-me profundamente porque Dilma aceitaria o PSC entre suas fileiras, e a resposta óbvia da governabilidade surge antes de qualquer coisa, a presidente (do PT) precisa do apoio do maior número de partidos para conseguir governar o Brasil e fazer passar pelo Congresso os projetos que interessam a sua administração. Certo. Mas porque o próprio PSC aceita fazer parte do governo do PT e não se coloca como uma oposição consciente? Aí está o problema: o próprio PSC vende sua ideologia conservadora para um lugar no governo. Lembro de Rui Barbosa, ainda no Império, falando que nada é mais conservador que um liberal no poder, e nada mais liberal que um conservador em campanha. Estes são o PT e o PSC, como todos os partidos brasileiros, incapazes de defender suas próprias bandeiras se isto ameaça suas possibilidades de tomar o poder.
Vejamos o próprio PT: as políticas públicas que o seu partido criou como o Projeto de Lei 122, que torna crime inafiançável a motivação homofóbica em casos de agressão e assassinato, ou o Kit Anti-Homofobia ou sobre Educação Sexual e combate a HIV que seriam distribuídos nas escolas foram sustados por causa das manifestações contrárias de parcelas conservadoras da população, sobretudo, evangélicos. Propostas do PT como o casamento igualitário foram simplesmente nem discutidas com medo da rejeição pública a Dilma Rousseff que pretende novamente concorrer a presidência em 2014. Esta não podia correr o risco de ver os votos conservadores caminharem para seus concorrentes. O PSC, no entanto, tem votado a favor do PT em seus projetos e, em troca disso, recebeu a possibilidade de indicar o presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, contudo, foi a aliança com o PMDB, também aliado do PT, que cedeu suas cadeiras na comissão, e com isso os votos, que permitiram a eleição do deputado federal e pastor, Marco Feliciano, ao cargo. O papel do PMDB também precisa ser levado em consideração, foi o presidente da Câmara, o meu querido deputado potiguar (#SQN) Henrique Alves, que destituiu o antigo presidente da comissão, Domingos Dutra (PT-MA), e convocou novas eleições que fizeram com que os lideres (do PT, PMDB e PSC) indicassem o nome do pastor. O PT abriu mão da comissão para poder liderar as comissões de Relações Exteriores e Fiscalização e Controle (#ShameOnYou), o PMDB obviamente garantiu a eleição de Henrique Alves.


Quem diabos é Marco Feliciano?
Mas ao ler a notícia da indicação a única coisa que eu pensei foi: quem diabos é esse homem? E eu fui atrás de informação. Não havia quase nada, porque, simplesmente, Marco Feliciano não era ninguém. Na internet havia três ou quatro notícias sobre ele, eu lembrava do discurso inflamado que ele havia feito na Câmara dos Deputados, em 2011, sobre o fato da página do Uol ter conteúdo gay, que fez com que o portal se apavorasse por alguns meses e ameaçasse tirar o conteúdo do ar, pelo menos o link sumiu de sua página inicial por um tempo. Lembro de ter rido bastante do discurso do pastor: "Faço uso desta tribuna para denunciar graves irregularidades que constatei no site Uol. Fui procurado em meu gabinete por um jovem rapaz informando que ao acessar o referido site e clicar no índice do portal, na letra G, onde se referia a alusões gays, tal foi seu espanto ao encontrar sem uso de qualquer senha, ou seja, podendo ser acessado por crianças da mais tenra idade, fotos de homens nus, em atitudes flagrantemente eróticas". Marco Feliciano no discurso exigia que a Câmara dos Deputados agisse contra o site. 
A outra notícia sobre Feliciano, antes desta situação, era sobre seu Twitter também ainda de 2011. Ele afirmava na sua conta no microblog que os negros eram descendentes do filho amaldiçoado de Noé e, por causa disso, a escravidão era permitida. Esta é a explicação medieval para o racismo que a Igreja Católica usou durante muito tempo, mas que o próprio João Paulo II, o papa, pediu desculpas mais de uma década atrás. Feliciano repetia dizendo que era o que a Bíblia dizia, e que ele não era racista por repetir a Bíblia. No mesmo dia ele também disse que "a podridão dos sentimentos homoafetivos levam ao ódio, ao crime e a rejeição". Estas frases no entanto não precisaram nem ser apagadas da conta do pastor, porque ele não era homofóbico. Somente em 2013, agora com sua indicação, Marco Feliciano se tornou notícia novamente. Com a indicação, manifestantes de diversos grupos como negros e quilombolas, LGBTs, evangélicos pentecostais e católicos trouxeram a tona vídeos em que o pastor pede pelo dízimo a seus fiéis, o que causou estardalhaço, mas de fato ele não fez nada errado, apenas pediu o dinheiro em nome de sua igreja, ele foi inteligente de não prometer nada em troca disso, é virtualmente impossível enquadrá-lo em charlatanismo, como alguns tentam.


Por que interessa tanto aos pastores evangélicos controlar a CDHM?
Desde que ele foi indicado, Feliciano recebeu o apoio de outros pastores evangélicos, como Silas Malafaia, o qual escreveu (mal e porcamente) uma carta aberta em defesa do colega pastor. Ele começa o texto afirmando que discorda em muito do deputado federal, porém discorda mais dos evangélicos que tem se manifestado em oposição à presidência do PSC na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, pois, segundo Malafaia, durante os 16 anos que o PT presidiu a comissão ela somente apoiava o ativismo gay, o qual ele no seu programa de TV associa diretamente a esquerda, ao socialismo e, pasmem, ao apoio à Fidel Castro em Cuba, sendo assim toda essa campanha contrária ao pastor Feliciano seria uma manobra do próprio PT para desviar a atenção de outras comissões que os interessariam mais como a de Constituição e Justiça e de Ética. "Eles precisavam desviar da sociedade o foco deste fato, e como têm poder na mídia, e como todo mundo sabe que a mídia não é a nosso favor, junto a fome com a vontade de comer", palavras do Malafaia, que não deve ler a Veja para ver que a mídia está sim a favor dele. Malafaia afirma que a oposição se dá sobretudo porque o pastor da Assembléia de Deus era contrário aos privilégios exigidos pelos ativistas gays e ia de encontro ao ideário humanista e ateísta que compõe os partidos de esquerda do Brasil que são contrários a ideologia judaico-cristã como paradigma de nossa sociedade. Malafaia o desculpa inclusive dos comentários que ele chama de infelizes feitos no Twitter, diz que ele não é homofóbico porque "nunca bateu ou mandar matar gay" e não é racista porque "ele é de origem negra (mesmo tendo cabelo esticado hahaha), e seu padrasto é negro".
A única coisa que dá para concordar com Malafaia é que a CDHM é realmente o único espaço em que os ativistas gays têm hoje para exigir nosso direito à igualdade e ser minimamente ouvidos. Foi lá que as discussões sobre o PL 122, sobre os ataques homofóbicos na Av. Paulista, sobre o kit anti-homofobia e os projetos sobre educação sem homofobia, sobre o casamento igualitário e a adoção por casais homossexuais tem se dado. Não porque os ativistas gays tem tomado conta e impedido outras discussões, mas porque estas discussões têm sido importantes para nossa sociedade sobretudo porque os ataques homofóbicos chegaram muito perto da elite brasileira, os ataques na Paulista jogaram na cara de um elite brasileira que fingia viver num país livre de preconceito; para esta elite o preconceito parecia só existir nas periferias de grandes e médias cidades, eles se apavoraram por seus filhos e exigiram que nossos governantes fizessem algo; os evangélicos, porém, que controlam e representam sobretudo a classe C da população se incomodaram porque aquele problema não era deles. Afinal tem crítica mais periferia/Classe C do que dizer que milhões morrem todos os dias vítimas de crimes, porque agraciar o assassinato de homossexuais com uma lei específica? 
E é por isso que interessa tanto ao PSC o controle da comissão. Na pauta, os próximos projetos a discutir seriam a punição para a "heterofobia" e a descriminalização dos atos motivados pela "livre manifestação da fé" (isto é, a permissão para sacerdotes em geral pregarem contra homossexuais), além da permissão da cura gay, todos projetos do PMDB (vejam quem é nosso real inimigo aqui, meu povo!); os projetos opostos de regulamentação da prostituição, do PSOL, e a criminalização da contratação de serviços sexuais, do PSDB; a definição estrita e clara de todos os crimes relacionados a discriminação e preconceito, de autoria do PT, como a inclusão de parceiros homossexuais como dependentes; e discutiria-se a proposta de um plebiscito para decidir o casamento gay, proposta pelo PMDB (olha eles aqui de novo!), e a pauta é decidida pelo presidente. A primeira ação do deputado Feliciano foi alterar esta pauta e foram votados apenas seis requerimentos de audiências públicas e três foram aprovados: sobre maus-tratos no ambiente prisional, a situação de moradores de rua e inclusão no mercado de trabalho, ou seja, todos os projetos anteriores foram simplesmente ignorados. Segundo o Estadão, Feliciano inclusive tentou mostrar que não é homofóbico propondo uma nota de repúdio ao candidato venezuelano Nicolas Maduro que acusa seu adversário, Henrique Capriles, de ser um maricón. Porém, o fato é que ele tinha ao seu lado direito, sentado a mesa o deputado Jair Bolsonaro que afirmou que "a festa gay acabou" com a presidência do PSC, e saiu, ao fim da reunião, segurando um cartaz escrito "queima a rosca todo o dia", aplaudido pelos evangélicos que lotavam a sessão, ocupando todas as cadeiras, enquanto jornalistas e manifestantes gays e de movimentos negros ficaram espremidos nos corredores (o detalhe é que os evangélicos puderam entrar antes, enquanto os outros grupos só puderam ter acesso ao local que se realizaria a sessão minutos antes dela começar). Os objetivos são claros de barrar qualquer avanço em direção a igualdade pedida pelos homossexuais, a proposta é simplesmente impedir sua discussão para evitar que sejam aprovadas porque até eles mesmos devem admitir que não existe motivo para barrar o casamento civil (afinal propostas como união estável e união estável de bens foram até propostas). Sendo assim, o único meio de evitá-las é evitar que sequer elas sejam discutidas.


PS: Dias depois de escrever este texto, tomei conhecimento deste vídeo:

Eu tenho medo do futuro do Brasil, meus amigos, de verdade. Se não tomarmos agora mesmo uma providência, nosso país se tornará um Talibã cristão.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O Que Todo Cidadão Gay Precisa Saber

, em Natal - RN, Brasil


Vamos falar de política? Marina Silva e Heloísa Helena estão agora fundando um partido novo que tem como nome provisório Rede Sustentabilidade, no entanto, além de lançar uma nova moda para o nome dos partidos políticos brasileiros vejo nas duas um mais do mesmo entre os políticos brasileiros que sinceramente não me anima a votar. Para quem não lembra, ambas foram candidatas a presidência em 2006, Marina Silva repetiu o feito em 2010. As duas são egressas do PT e saíram em épocas diferentes, Heloísa Helena ainda durante o governo Lula (em 2003) em protesto ao que chamaram de "políticas econômicas neoclássicas" e Marina Silva (em 2009) desgostosa em relação ao desenvolvimento sustentável do país. Marina se uniu ao Partido Verde, então; Heloísa Helena ajudou a fundar o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).
Quando ambas se candidataram em 2006 eu pesquisei melhor sobre elas para ver o que elas prometiam em suas plataformas políticas. Afinal, como historiador que sou, é-me impossível votar em tucanos, havia algumas possibilidades de esquerda: Dilma com o PT, Marina com o PV e Heloísa com o PSOL. A primeira vista parecia uma excelente situação para qualquer pessoa que estava cansado de ver o governo brasileiro nas mãos constantes da oligarquia cafeeicultora paulista, contudo a análise mais superficial fez com que Dilma se tornasse, não a melhor opção, mas a única opção. 
Marina Silva foi a primeira que os movimentos LGBTs procuraram em busca de que ela tomasse alguma posição clara sobre políticas específicas para esta minoria. Ela fugiu da raia. Lembro perfeitamente de como militantes gays praticamente armavam tocaias para surpreendê-las e arrancarem afirmações, até que alguém conseguiu empurrar uma bandeira do arco-íris e Marina Silva afastou de si como se tocada pelo próprio demônio. A máscara então caiu. Evangélica, a candidata do Partido Verde estava muito mais preocupada com a salvação de sua alma ou com os votos de uma parcela extremamente conservadora da população para assumir qualquer compromisso com a comunidade gay. Marina, no entanto, foi obrigada a tomar uma posição que fosse e ela saiu com a bendita ideia de um pebliscito: a proposta de Marina Silva era que os direitos reinvindicados pela militância gay como proteção contra ataques de natureza homofóbica e discriminação de qualquer tipo; casamento civil igualitário e todos os direitos que advém do casamento, sendo, especificamente, a adoção de crianças por casais gays, fossem todos decididos por meio de uma votação "democrática". 
O problema da democracia é que ela não é o governo do certo, é o governo da maioria. Vamos criar uma suposição aqui: digamos que Silas Malafaia ou Marcelo Crivella conseguissem passar uma lei que propusesse um plebicito no qual todos os gays do país seriam deportados. Digamos! Isso, de fato, não é algo certo ou correto, expulsar alguém do seu próprio país, no entanto se o pleito tivesse um resultado positivo a proposta ela seria cumprida com a força da lei. E, como os gays, as pessoas que seriam prejudicadas diretamente, são uma minoria, e também são minoria os heterossexuais que apoiam cidadãos gays, o resultado final deste sufrágio seria, provavelmente, a aprovação com ampla maioria. Nestas situações, cabe ao Estado, não expôr a minoria a os leões democráticos, e sim protegê-la para que ela possa ter direitos iguais apesar de ser menor. 
Já Heloísa Helena deu mais sorte. Como a ex-ministra Marina era uma candidata mais forte, a militância gay correu para ela; mas ao ver que esta tinha as raízes dentro da neopentecostalismo, voltou-se para a terceira opção de esquerda, a professora, senadora de Alagoas, Heloísa. Contudo a bomba do aborto explodiu, jogada por Serra, tentando desestabilizar a campanha de Dilma. O assunto então esfriou e a pauta se voltou ao movimento feminista e a legalização do aborto. Em entrevista ao Jornal da Globo, em 31/08/2006, Heloísa Helena foi perguntada sobre o aborto e respondeu que era contra, dizendo: "Se alguém acha que ser de esquerda ou ser feminista é ser favorável ao aborto, então não me incluam, os aborteiros do país, na estrutura da esquerda". Isto apesar do programa do PSOL ser claramente a favor do descriminalização do aborto, programa este que Heloísa Helena ajudou a montar, afinal ela é uma dos seus fundadores. Sobre as políticas gays, no entanto, não houve nenhum registro, nenhuma manifestação positiva ou negativa, da parte da senadora, porém muitos disseram que ela era favorável porque também no programa do partido diz: "Combate à homofobia e à discrimianção e repressão policial e social motivadas pela opção (sic) sexual dos indivíduos". Evangélica, no entanto, motivo pelo qual a fazia ser contra as regras do partido sobre o aborto, ficou difícil para mim acreditar que ela também, por causa de sua posição religiosa, também não pudesse esquecer este trecho do programa partidário.
Agora em 2013, então, Marina Silva e Heloísa Helena abandonam seus respectivos partidos para fundar uma nova sigla. A Rede Sustentabilidade nasce num momento em que elas novamente se vêm em conflito com os partidos. Marina Silva viu sua imagem manchada pelos vereadores eleitos e a prefeita de Natal, Micarla de Souza, do PV. Marina exigiu sua expulsão do partido, não aceita pelos outros colegas, pouco tempo depois a própria Marina pediu seu desligamento a chapa. Heloísa Helena viu o PSOL, partido a qual fundou, se tornando o maior defensor da causa gay através da imagem de Jean Wyllys. A Rede Sustentabilidade começou com a proposta audaciosa de não aceitar nenhum inscrito no partido que tivesse sua ficha suja, isto é, que respondesse a algum processo na justiça; esta ideia já foi a primeira a cair. Vendido como a nova política brasileira, o Rede Sustentabilidade, contudo, não passa de um novo nome para o modelo ultrapassado que já vimos. Gente conservadora que finge ser de esquerda, igual ao meu pai. Não confio nenhum pouco nessas duas senhoras, mas agora você pode dizer que tudo isso é apenas daddy issues.








sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

A Parada Parada

, em Natal - RN, Brasil
Natal teve neste domingo, 16 de dezembro, a sua XIV Parada do Orgulho LGBT, ela estava programada para sair do bairro de Ponta Negra, que tem o nome da famosa praia potiguar, onde haveria sua concentração e se seguiria-se para a praça da árvore de Natal, em Mirassol, onde um palco traria atrações regionais como cantoras e shows de drag queens, tudo muito simples para um público esperado de não mais do que 100 mil pessoas. Contudo no momento em que os motores dos trios elétricos são ligados, chega a ordem vinda do Corpo de Bombeiros Militares do Rio Grande do Norte, a parada gay não poderia sair.
Os trios elétricos não tiveram permissão do CBM para fazer o pequeno percurso animando o público que já se aglomerava. Eles interditaram os trios elétricos argumentando que eles não ofereciam a segurança necessária; seguiam ordem da Cosern, Companhia de Eletricidade do Rio Grande do Norte, que argumentava que os trios elétricos poderiam cortar os fios de alta tensão ao passar no seu trajeto pela avenida. Os organizadores esbravejaram. Xingava-se a governadora Rosalba Ciarlini, acusava-se de homofobia institucional o Corpo de Bombeiros, o comandante-geral da corporação, cel. Dantas, também não foi perdoado. Foi quando um grito de ordem ecoou pelos altos falantes: "Se eles não permitem que saiamos com os trios, nós ocuparemos a avenida". Os participantes atenderam o apelo e espalharam-se pela avenida Engenheiro Roberto Freire, impedindo o trânsito dos carros e fechando a principal artéria da zona sul da cidade. Perguntava-se se no Carnatal, que havia sido semana passada, os bombeiros também faziam as mesmas exigências de segurança para Cláudia Leite cantar seu Largadinho.
O trânsito constante foi então bloqueado por drag queens em cima de saltos altíssimos e leques imensos. Meninos usando regatas cavadas se espalharam pelo asfalto dançando ao som da musica ensurdecedora que continuava saindo dos trios. Um dos organizadores conclamava: "Lembrem-se em quem vocês vão votar na próxima eleição, meus amigos, nós fomos impedidos de realizar nossa parada porque vivemos num governo homofóbico de uma governadora que usa tailleurs da década de 50 com os brincos mais cafonas que eu já vi na vida". Gargalharam com a comparação que ele fez em seguida entre a governadora e o personagem Valéria, do Zorra Total.
"Who run the world? Girls!" explodindo no outro trio era a trilha sonora de motoristas impacientes  que só podiam olhar enquanto uma drag desfilava sua bunda desnuda na frente do seu para-brisa. Outro organizador grita no microfone: "Fora Rosalba! Somos cidadãos e merecemos respeito!". Outro agradecia, no entanto, o apoio da prefeitura de Natal, que permitira o uso da avenida, na figura da Secretária de Saúde que estava em cima do trio elétrico, também agradecia a Polícia Militar que fazia a segurança e protegiam, agora, os manifestantes dos carros. Por entre os carros então manifestantes resolveram distribuir camisinhas e pediam assinaturas para um projeto de lei que criminalizaria a homofobia. 
Meninas logo colocaram suas garrafas de refrigerante e vodca no chão e faziam círculos onde conversavam animadas e paqueravam outras meninas que passavam por ali. Inúmeros vendedores ambulantes também começaram a tomar o espaço, puxavam seus carrinhos com uma grande caixa de isopor e uma placa imensa dizendo Skol R$ 2,00 e ocuparam a avenida se fixando entre os participantes que dançavam "hey, ey, ey, ey, like a girl gone wild, a good girl gone wild". Uma drag queen convidava as pessoas nos ônibus parados para descer e comemorar o orgulho de ser quem somos. 
A organização do evento tentou uma liminar na justiça autorizando que o evento ocorresse, e conseguiu, porém o comando do Corpo de Bombeiros ignorou completamente a ação. Eles estavam irredutíveis! Então o protesto se manteve. Foram sete horas de trânsito bloqueado. A polícia teve que intervir e criar um desvio após as duas primeiras horas. Mas o congestionamento foi inevitável. As 20:45 da noite, a primeira fala dos bombeiros apareceu. Thaisa Galvão, blogueira natalense de politica, disse que o coronel Dantas afirmava que a questão era exclusivamente a segurança, que os trios elétricos tinham 6 metros e não 5 como fora permitido. "Pode ver que ali na Roberto Freire os fios são baixos e tem até fios de alta tensão". Mas eu lembrei que o trio elétrico do Chiclete com Banana tem 7 metros de altura, e o de Ivete Sangalo 5,40. O tema da parada este ano, "A Homofobia fez isso comigo, e com você?", me pareceu bem apropriado.