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sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Esse Pajubá É Odara!

Neca (pênis), ocó (homem), picumã (cabelo), equê (mentira), aqué (dinheiro), aquendar (pegar), por exemplo, são expressões comuns no mundo gay brasileiro e são palavras em iorubá, a língua trazida pelos negros da África Centro-Oriental, mas que hoje habitam, principalmente, a Nigéria, Benin, Togo e Serra Leoa. Hoje, no seu continente de origem, a maior parte da população é católica, mas algumas também são islâmicos, sendo 1/4 de sua população ainda voltada para sua religião primitiva que aqui no Brasil se cristalizou de duas formas: a Umbanda e o Candomblé. 
Reginaldo Prandi, sociólogo paulista, afirma que o culto dos orixás em suas várias formas (Candomblé baiano, Xangô pernambucano, Batuque gaúcho, Tambor-de-Mina maranhense, Jurema potiguar), com exceção da Umbanda, pela dimensão kardecista-católica que impõe seu plano de moralidade, tem sido pelo menos desde os anos 1930 redutos de homossexuais, sobretudo aqueles de classe mais baixa e negros. Apesar disto, a maior parte dos pesquisadores sobre o tema mantiveram em segredo esta participação ou, quando consideravam, diziam que este terreiro estava culturalmente decadente. Contudo, esta é com certeza uma opinião destes sociólogos que deixavam seus preconceitos interferirem em sua relação com os seus objetos. Prandi, no entanto, afirma que nenhuma instituição no Brasil, afora o culto dos orixás jamais aceitou o homossexual como uma categoria que não precisava esconder-se, anulando-o enquanto tal, até meados do século XX, aquando do surgimento das igrejas evangélicas inclusivas. Esta aceitação, nas palavras do sociólogo paulista, demonstra como esta religião vê este mundo, mesmo quando, no extremo, trata do mundo da rua, do cais do porto, dos meretrícios e portas de cadeia, o homossexual como um marginal que era no início do século XX estava integrado a esta comunidade. 
Participar deste grupo voltado ao exercício da fé tinha suas vantagens. Era um ambiente lúdico, reforçador da personalidade, capaz de aproveitar os talentos estéticos e individuais e, também, permitir mobilidade social e acumulação de prestígio, coisas pouco ou nada acessíveis aos homossexuais no início do século ainda mais quando se é pobre, negro ou mestiço, migrante e pouco alfabetizado. Mas, mesmo assim, qualquer adepto gay ou não poderia exercer um cargo sacerdotal, tornar-se mãe ou pai de santo, sem esconder sua inclinação sexual. Ao contrário, ela pode servir para legitimar sua preferência ao cargo, pois homossexuais, segundo o candomblé, são seres que tem seu ori (cabeça, destino) controlado por um orixá de gênero oposto ao dele (isto é, homens controlados por uma orixá feminina, mulheres controladas por um orixá masculino). Além disso, se não fosse pouca coisa, as religiões dos orixás liberam os indivíduos e também libera o mundo. Ele não tem uma mensagem dizendo que as experiências carnais neste mundo são cercadas por pecado, muito menos ela espera que as pessoas sejam salvas de algum inferno pelos seus atos.
São estes homossexuais que frequentadores dos guetos onde os veados (sim, ainda veados, não gays, em um próximo texto eu explico essa diferença) brasileiros viviam até o fim da década de 1980 introduziram a língua de sua religião dentro daquele outro grupo e fundaram uma língua nova, um sub-dialeto pertencente a um sub-grupo cultural. 
É ai que somos apresentados a palavras como edi (cu), odara (bonito), amapô (mulher), cafuçu (homem bruto), ebó (oferenda), alibã (policial), axó (roupa), azuelá (ser ativo), todo o pajubá (língua), que surgiu para que este grupo pudesse se proteger, não ser entendido mesmo, uma língua secreta que os protege, principalmente os travestis. Otí (bebida), xanã (cigarro), pemba (cocaína), erê (criança), uó (ruim), aló (lésbica), ocan (bunda) são símbolos de resistência. Relegados aos guetos, esta linguagem passava a ser um instrumento de unidade entre os falantes que mesmo não participando da mesma concepção de sagrado (nem todo gay ou lésbica é participante de alguma religião de orixás) pertenciam a um mesmo grupo que sofria perseguição. Astor Vieira Junior, linguista bahiano, ainda afirma que homossexuais e negros compartilham o fato de sofrerem com a intolerância. Excluídos socialmente, sobretudo os de menor poder aquisitivo e educacional, a língua iorubá garantiu um espaço existencial protegido para estes viverem suas diferenças.
Penso como Vieira Jr, além de proteger seus usuários, este código é responsável pela transmissão de uma cultura e a produção de uma identidade social de seus falantes. É por isso que afirmo que ser gay é uma identidade cultural, além de fazer sexo com alguém do mesmo sexo, ser um homem gay ou uma mulher lésbica é compartilhar de uma cultura, um conhecimento, uma linguagem que o torna membro do grupo, parte de uma comunidade.




sexta-feira, 7 de março de 2014

A TV Globo e os Gays: Uma Popularização

, em Natal - RN, Brazil
Mas, nos anos 2000, uma nova leva de personagens gays foram trazidos a televisão. Emanoel Jacobina que assumira em 2000 a eterna série Malhação, deixando a academia que fora transformada em uma escola, e com a proposta (que volta e meia retorna a série) de fazer com que Malhação retratasse problemas reais dos adolescentes e deixe de focar em intrigas amorosas. Em 2001, ele trouxe consigo o personagem Sócrates, interpretado por Erik Marmo, que tornara-se um personagem fixo na série. Ele não foi o único, afinal, sempre que esta proposta retorna buscando salvar a audiência da série, pretendendo renová-la, os produtores trazem meninas grávidas, algum problema com drogas e, agora, também homossexuais. Enquanto em 2002, na Desejos de Mulher, adaptação do livro Fashionable Late de Euclydes Marinho e Dennys Carvalho, os personagens Ariel (José Wilker) e Tadeu (Otávio Muller) faziam o público rir com seu relacionamento efusivo, outros trouxeram um outro problema para a Rede Globo. Rafaela (Paula Picarelli) e Clara (Aline Morais), em 2003, de Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos e Ricardo Waddington, foram as primeiras a causar suspense se a Globo exibiria um beijo gay em uma de suas novelas. Novamente afirmando que sua audiência era conservadora, a cena foi evitada com um enquadramento que eu só poderia chamar de amador. Elas saíram de frente da câmera que ficou filmando uma parede enquanto elas voltavam. Ridículo!
No entanto, a Globo descobriu que seus espectadores tão conservadores estavam curiosos e também notou que explorar a possibilidade do beijo gay podia trazer audiência para novela. Os espectadores estavam interessados em ver esta cena história. No ano seguinte, então, Jennifer (Bárbara Borges) e Eleonora (Mylla Christie) de Senhora do Destino, de Aguinaldo Silva e Wolf Maia, também sustentaram o suspense. Em América, 2005, de Glória Peres e Jaime Monjardim, o mesmo artifício foi utilizado para o personagem Júnior (Bruno Gagliasso) e Zeca (Erom Godeiro). A possibilidade do beijo em algum momento da trama mantinha as cenas dos personagens sendo os momentos mais esperados pelos telespectadores globais e a emissora soube aproveitar isto. Inclusive divulgando que, por exemplo, a cena entre Júnior e Zeca em América havia sido gravada, porém, no último momento da novela, ela fora cortada pelos diretores.
Páginas da Vida, em 2006, Manoel Carlos e Jaime Monjardim apresentam um outro modelo de relacionamentos gays representados em nossa televisão: Rubinho (Fernando Eiras) e Marcelo (Thiago Pichi) são casados, tem uma vida em comum, todos sabem que eles são um casal, mas, no fundo, parecem dois irmãos que moram juntos. Foi o mesmo modelo adotado por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e Dennis Carvalho em sua Paraíso Tropical, os personagens aqui chamavam-se Rodrigo (Carlos Casagrande) e Thiago (Sérgio Abreu) que não acrescentaram nada a trama além de exibir seus corpos talhados em academias em sungas folgadas pelas praias cariocas.
Uma terceira moda foi apresentada por Aguinaldo Silva e Wolf Maia em Duas Caras, de 2007, com o Bernardinho (Thiago Mendonça) que foi envolver personagens gays em triângulos amorosos com um homem e uma mulher no melhor estilo Três Formas de Amar. No caso envolvia Carlão (Lugui Palhares) e Dália (Leona Cavalli). No ano seguinte, o modelo é repetido em A Favorita, de João Emanoel Carneiro e Ricardo Waddington, em que Orlandinho (Iran Malfitano), apesar de sonhar com Halley (Cauã Reymond) se envolve com Maria do Céu (Deborah Secco). Na mesma novela também havia a personagem de Paula Burlamaqui, Stela, que era lésbica, mas isto não é explorado em momento algum da novela; o mesmo que acontece com a Letícia (Paola Oliveira) em Ciranda de Pedra, adaptação do romance de Ligia Fagundes Telles por Alcides Nogueira e Maria de Médicis. Somente quem havia lido o livro podia pescar as insinuações sobre a sexulidade da personagem. Já 2009 foi o ano do Cássio (Marcos Pigossi), na Caras e Bocas de Walcyr Carrasco e Jorge Fernando, lançar o bordão: "Choquei, tô rosa chiclete" e abusar da comédia, mas sem escapar do modelo então em voga. Apesar de gay, Cássio envolve-se com Léa (Maria Zilda) e com Sid (Klébber Toledo).
Em 2010, em Ti-ti-ti, remake da novela de Cassiano Gabus Mendes por Maria Adelaide Amaral e Wolf Maia tentou fugir destes modelos e criou para esta nova versão o casal Julinho (André Arteche) e Osmar (Gustavo Leão) que morre no primeiro capítulo, fazendo Julinho conhecer a protagonista da história, Marcela (Ísis Valverde), e mais tarde o surfista Thales (Armando Babioff) que escondia sua sexualidade, mas apaixona-se por Julinho e abandona a esposa pra ficar com ele. No ano seguinte, após os inúmeros ataques homofóbicos que foram noticiados pelos grandes jornais do país e, inclusive, uma ameaça de bomba na parada gay paulista, Insensato Coração de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e Dennis Carvalho, trouxe para TV não apenas dois personagens, mas um núcleo gay, que finalmente tinha história para contar. Personagens se descobriram, outros sofreram ataques homofóbicos, uns não foram aceitos pela família ao se assumirem, outros encontraram amor e aceitação. Do Roni (Leonardo Miggiorin) ao Eduardo (Rodrigo Andrade) foram pelo menos oito personagens. Em 2011, quando Malhação retorna a batuta de Emanuel Jacobina, a série também teve o Cadu (Binho Beltrão), como um personagem gay. Uma distância de 10 anos separava os dois personagens de gays de Malhação no novo milênio, e ele retornava agora na agitação que os ataques, sobretudo na Avenida Paulista, haviam causado. Porém, não andamos para frente. Neste ano a TV Globo comprou o direito de exibir a série americana Glee, da Fox, que passou a ser exibida nas manhãs de sábado, horário consagrado para uma programação infanto-juvenil, porém a pessoa que compra séries americanas para a Globo não costuma assisti-las (é o mesmo com Os Simpsons que somente por serem uma animação para a Globo torna-se infanto-juvenil) e eles não sabiam que a série abordava a homossexualidade do personagem Kurt de forma tão aberta. A série então foi logo mudada de horário, no ano seguinte, tendo sua segunda temporada exibida agora após as 23h e, por fim, cancelada. A Globo não exibiria Kurt sofrendo bullying na escola, nem começando a namorar com Blaine, muito menos se atreveria a mostrar eles fazendo sexo. O discurso de que o público não estava preparado era repetido.
Em 2012, com a Fina Estampa de Aguinaldo Silva e Wolf Maia, e o sucesso do personagem Crô, de Marcelo Serrado, novamente recolocaram os homossexuais em um lugar cômico dentro da teledramaturgia brasileira. Sem sexualidade, sem desejos amorosos, sem passado ou vida própria o Crô seguia Tereza Cristina como um acessório de cena, apenas, um contra-ponto para ver a maldade da vilã bilhar mais. Em 2013, Walcyr Carrasco pensou que inovaria trazendo o vilão Félix, interpretado por Mateus Solano magistralmente, para a TV brasileira com sua Amor à Vida, mas também repetiu o clichê que já tínhamos superado do triângulo amoroso entre Eron (Marcelo Antony), Niko (Thiago Fragoso) e Amarylis (Daniele Winits). Contudo a Globo se viu surpresa com a popularidade de Félix entre seus espectadores. Seus diretores ainda não conseguiam entender como um personagem gay poderia ser tão popular e carismático com o público. Félix já representava novos tempos, a dúvida é se a vanguarda tão repetida no discurso dos produtores da TV Globo desde sua fundação, estaria preparada ou não para manifestar-se finalmente. Para surpresa de muitos (inclusive autores globais, como Aguinaldo Silva que falara anteriormente que isto era impossível), Félix e Niko acabaram por protagonizar o primeiro beijo gay no horário nobre da Globo, após a formação de um casal que o público da novela torcia para que ficassem juntos. A comoção do público gay foi real, pequenos focos de puritanismo heteronormativo também puderam ser vistos, contudo a dúvida maior seria qual o caminho que a Rede Globo tomaria a partir de agora?


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A TV Globo e os Gays: A Repressão

, em Natal - RN, Brazil
Depois da riqueza de personagens gays explorados na década de 1980 nas novelas globais, somente em meados da década de 1990, porém, que um novo personagem gay foi apresentado. A Próxima Vítima, de 1995, trouxe Sandrinho (André Gonçalves) e Jefferson (Lui Mendes) e ganhou também uma tremenda antipatia do público. Na década de 1990, na batalha pela audiência as pesquisas apontavam rejeição para os personagens da novela de Sílvio de Abreu e Jorge Fernando e, com isso, os personagens foram afastados dos holofotes, o que, no entanto, não impediu que André Gonçalves posasse para a G Magazine todo vestido com tiras de couro e explorando o ar de lolito que ele tinha à época e que também fosse atacado na rua, apesar de heterossexual, no primeiro caso notório de homofobia que os jornais globais foram obrigados a reportar. De repente, o Brasil descobriu que gays corriam risco somente de sair na rua.
Em 1996, Glória Peres e Ary Coslov apresentaram, em Explode Coração, a traveti Sarita (Flávio Priscott) que participando do núcleo cômico da novela, foi, digamos, aceita pelo público telespectador da maior rede de tv brasileira, podendo, inclusive, no último capítulo da novela flertar com alguém. Esta, no entanto, foi a única alusão a sexualidade de Sarita diramte toda a trama, um flerte discreto nos últimos minutos da novela. Talvez tenha sido esta a audácia de Sílvio de Abreu que o público um ano antes não suportou: Sandrinho e Jefferson eram um casal, sua história falava da saída do armário de ambos para suas famílias e de um namoro. Foi demais, porque até aqui nenhum personagem gay tinha de fato história sobre a sua homossexualidade para contar, todos eles já tinham suas vidas feitas, eles eram gays, mas este tema (seus amores, suas descobertas, seu sexo) eram apagados, inexistentes. Eram homens e mulheres assexuados. Uma exceção, talvez, seja o Rafael, da Por Amor (1997), de Manoel Carlos e Ricardo Waddington. Nesta novela, Odilon Wagner faz um pai de família que após anos casado deixa a belíssima esposa Virgínia (Ângela Vieira) para viver sua sexualidade livremente, apesar disto não ser sequer insinuado em qualquer cena. Sabe-se que ele a deixou para ficar com homens, mas em momento algum vemos o Rafael conhecendo pessoas e tendo os problemas normais que um relacionamento pode ter.
E também, em 1996, o Gabriel, vivido por Thierri Figueira, em Malhação, que como personagem convidado semanal da série trouxe a questão da aceitação de sua sexualidade para o centro da trama. No meio de toda esta política repressora da Globo, nesta década, é impressionante ver estes dois casos serem tratados com tanta seriedade, sobretudo o caso de Malhação que estava em sua segunda temporada e era um produto destinado a adolescentes. Escrito por uma equipe chefiada por Patrícia Moretzsohn e Emanoel Jacobina e dirigida por Wolf Maia, o objetivo da série era tratar de forma realista os problemas que os adolescentes viviam, namoros, problemas com drogas, questões sobre a sexualidade, eram temas recorrentes na série. Porém talvez pela sua história durar apenas uma semana que o Gabriel pode existir, logo, ele fora esquecido também.
Teimoso, todavia, em 1999, Silvio de Abreu, com Denise Sarraceni, tentou novamente. Em Torre de Babel, Rafaela (Cristiane Torloni) e Leila (Silvia Pfeifer) eram um casal. Contudo, marcando a vitória do Ibope sobre a criatividade, uma explosão matou as personagens abortando o projeto de Abreu como nem a censura militar havia feito antes. Posso dizer que foi triste ver acontecer. Acusou-se a beleza do casal Torloni-Pfeifer de incomodar os brios da conservadora audiência global, ou será que da conservadora direção da tv? Até porque no mesmo ano, no alívio cômico da novela Suave Veneno, de Aguinaldo Silva e Ricardo Waddington, personagens gays puderam ir ao ar. O Uálber de Diogo Vilela e o Edilberto de Luís Carlos Tourinho que juntos com Deborah Secco traziam os ares mais leves da comédia para a novela das 21h não saíram o armário na novela, eles não chegaram a dizer ao que vieram, somente reforçaram que o lugar permitido para os gays da Globo são no teatro de Baco.
Em 2000, a Globo comprou os direitos para exibir a série americana Dawson's Creek, do canal TW, por três anos, contudo, exibiu somente as duas primeiras temporadas. No início da terceira, quando o personagem Jack (Kerr Smith) assume-se gay, a série que era exibida nas tardes de sábado, horário considerado na emissora como destinado ao público infanto-juvenil, é imediatamente arrancada da programação.
A repressão global aparece nesta década com clareza, inclusive com a demissão do seu único ator assumidamente gay, Jorge Lafond, em 1991, quando este ainda trabalhou como o Divino, no humorístico Os Trapalhões. Nenhum outro ator ou diretor global teve novamente a coragem de assumir sua sexualidade. A direção da emissora estava visivelmente decidida a conter a expansão deste tema em sua teledramaturgia sempre usando a desculpa do Ibope, mas, não obstante o discurso se manter o mesmo, abandonando na prática qualquer espécie de criatividade de vanguarda que pudessem ter antes.


PARTE I: Os Anos Dourados     PARTE III: Uma Popularização

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

A TV Globo e os Gays: Os Anos Dourados

, em Natal - RN, Brazil
Desde 1970 que a Globo flerta com o tema da Homossexualidade em suas novelas, seu primeiro personagem gay foi o carnavalesco Rodolfo Augusto, interpretado por Ary Fontoura, em  Assim na Terra Como no Céu, somente cinco anos após sua fundação. Em 1974, em O Rebu, Conrad Mahler (Ziembinsky) apaixonado por Cauê (Buza Ferraz) matou Silvia (Bete Mendes) para que eles não ficassem juntos. É bom lembrar que estamos aqui falando dos anos mais terríveis da Ditadura Militar. O AI-5 estava em vigor e ficaria até 1978. O Conselho Superior de Censura (criado em 1968) podia tirar qualquer programa destes do ar ou mandar retirar um personagem da trama com uma imensa facilidade. Mas, para a equipe criativa da Globo, que nestas novelas citadas, respectivamente, tinham Dias Gomes e Walter Gomes e Bráulio Pedrozo e Walter Avancini, valia a pena contar uma história que personagens gays tivessem uma real participação na trama.
Mas mesmo assim em Assim na Terra Como no Céu a trama da novela abordava os costumes da juventude "dourada" de Ipanema, e abordava temas como o celibato de padres, o consumo de drogas. Inicialmente a novela estava cotada para ser exibida no horário das 20h, ainda em 1966 e 1969, em ambos os casos barrada pelo vice-presidente José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boninho. Este alegava que queria acabar com os excessos dramáticos no horário e focar em produções com temas mais realistas como as novelas da sua concorrente TV Excelsior, no entanto, exibiu, em 66, O Rei dos Ciganos e, em 69, Véu de Noiva, ambas consagradas como exemplos de dramalhões  (ao molde mexicano) que remetiam ao sucesso anterior de O Ébrio, de 1965. Assim na Terra Como no Céu, contudo, foi exibida no horário das 22h. O discurso dos diretores da Rede Globo sempre remetera a uma modernidade vanguardista, porém eles continuavam fazendo aquilo que já tinham conseguido com algum sucesso anteriormente. Foi uma surpresa a novela ser aprovada (mesmo com a mudança de horário) e, graças ao seu enorme sucesso, lançou Francisco Cuoco e Renatah Sorrah, protagonistas da novela, ao estrelato imediato.
Não obstante o discurso dos administradores da TV Globo de vanguarda, eles sempre administraram a TV segundo os critérios de "time que está ganhando não se mexe". E também, como concessão estatal, o medo de que tivessem sua TV cancelada deveria ser uma constante. Por exemplo, escrevendo os últimos capítulos da novela, Dias Gomes foi chamado para depor sobre suas supostas atividades subversivas, com certeza relacionadas a própria novela. Já O Rebu tentou ousar ainda mais. Toda a trama da novela se passava em apenas um dia da vida dos personagens. Durante uma festa, Bráulio Pedrozo contava o desenrolar de um assassinato e ao público cabia descobrir quem era o assassino através de pistas dadas através de flashbacks. Absolutamente inspirado nos romances de Agatha Christie e no cinema policial da década de 1950, a ação transcorre em três tempos distintos: o presente, a investigação dos policiais durante a festa; o passado recente, os eventos que aconteceram durante a festa; o passado longínquo, o passado e o relacionamento dos personagens.
Pode parecer que, por causa da Ditadura Militar, a intelectualidade militante estava de mãos atadas para falar sobre o que era ser gay. Este é um grande engano. Jornais caseiros como O Snob, Le Femme, Subúrbios da Noite, Gente Gay, Aliança de Ativistas Homossexuais, Eros, La Saison, O Centauro, O Vic, O Grupo, Darling, Gay Press Magazine, 20 de Abril, O Centro e o Galo, foram publicados de 1961 a 1969, no Rio de Janeiro, enquanto Fatos e Fofocas, Zéfiro e Baby, eram publicados em Salvador no mesmo período; na década de 1970, temos o Lampião de Esquina, publicado a partir de 1977,  e O Beijo; enquanto em Salvador publicava-se Little Darling, Ellos, Caderno Eros e Entender; e em São Paulo, a partir de 1978, publicava-se diariamente no Última Hora a Coluna do Meio. Apesar da repressão militar, eram tempos efervescentes para escritores, jornalistas, atores e músicos gays que traziam sopros de ar fresco para a arte brasileira em todas as suas facetas.
Mas era difícil ainda inovar na emissora de Roberto Marinho. Em 1981, por exemplo, em Brilhante, de Gilberto Braga e Daniel Filho, o personagem Inácio Newman (Dennis Carvalho) participava da trama central da novela já que o casamento que sua mãe, Chica (Fernanda Montenegro) desejava para ele impedia que a mocinha Luiza (Vera Fischer) ficasse com o galã Paulo César (Tarcísio Meira). Quem descobre a homossexualidade de Inácio é exatamente Luíza que conta tudo para Chica e esta passa a hostilizar a mocinha. No entanto, com a morte do pai, Inácio se ver obrigado a casar, e encontra a carreirista Leonor (Renatah Sorrah), e se vê livre das pressões da mãe. Brilhante teve um grande problema com a censura. Gilberto Braga não estava autorizado a utilizar a palavra "Homossexual" no folhetim. Ele contornava o problema através de eufemismos. Quando Luíza confronta Chica sobre Inácio, as palavras que ela utilizou para afirmar que Inácio era gay foram: "os problemas sexuais do seu filho".
Contudo, apesar da ditadura militar brasileira ter se encerrado em março de 1985, o mesmo problema acontecera em 1986, na Roda de Fogo de Lauro César Muniz e Dennis Carvalho, em que o vilão Mário Liberato (Cécil Thiré) que prejudicava a vida dos mocinhos do folhetim não podia ser chamado de "homossexual", cenas em que Carolina (Renata Sorrah) falava sobre isto foram cortadas da novela. Contudo, apesar de não ser dito, a sexualidade de Mário era tão clara que prejudicou o ator que o vivia. Incapazes de separar o ator do personagem, Thiré contou em entrevistas que ele teve problemas com a fama de gay que ele tomou emprestado do personagem. Numa entrevista dada a Isto É ele dizia que ninguém nunca disse-lhe nada diretamente, porém que ele perdeu trabalhos publicitários à época da novela. Outro problema com a censura se deu em 1987 quando Dias Gomes e Ricardo Waddington lançaram sua versão da tragédia grega Édipo Rei, Mandala, com Vera Fisher como Jocasta, Felipe Camargo como Édipo e Perry Salles como Laio. Seguindo a mitologia grega em que se baseia a trama da novela, Laio era bissexual com um amante chamado Cris (Marcelo Picchi) e que acaba assassinado pelo filho, Édipo. Os temas da peça grega (incesto e bissexualidade) quase vetaram a exibição da novela no horário das 20:30h. 
Em 1988, outros personagens gays foram utilizados nas tramas das noites da TV Globo. No estrondoso sucesso, Vale Tudo, teríamos Cecília (Lala Dehelnzelin) e Laís (Cristina Prochaska), contudo, nos primeiros capítulos, a morte de Cecília permite a Gilberto Braga e Aguinaldo Silva discutir sobre o direito a herança entre um casal homossexual, já que o irmão de Cecília, interpretado por Reginaldo Faria, tenta tomar de Laís a pousada que ela abrira com sua esposa. A censura também agiu neste caso. Vários diálogos entre as personagens tiveram que ser reescritos por Braga e a cena em que elas contava a Heleninha (Renatah Sorrah) sobre o preconceito que sofriam por causa do seu relacionamento foi completamente cortada do episódio em que seria exibida.
Talvez pela epidemia e morte de atores e músicos ceifados pela AIDS como, aqui no Brasil,  Lauro Corona (1989) e Cazuza (1990), o tema tornou-se novamente tabu dentro da televisão brasileira e suas novelas. Também é interessante ver que até 1985 os autores brasileiros lutavam contra a censura da Ditadura Militar, mas com a redemocratização a mesma censura, exatamente nos mesmos moldes continuou a ser utilizada. Porém, é denunciador saber de onde vinha esta censura ao ver que no site da Rede Globo, na parte dedicada a memória da emissora, eles acusam todas estas censuras feitas mesmo depois de 1985 de terem sido feitas por uma "Censura Federal", uma entidade basicamente inexistente, mas que se torna a desculpa perfeita para os vanguardistas diretores da emissora continuarem conservadores como sempre foram.


PARTE II: A REPRESSÃO    PARTE III: A POPULARIZAÇÃO




Contribuiu neste texto: Serginho Tavares.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Cultura, Homocultura, Subcultura

Falar sobre subcultura é caminhar na corda bamba. Isto porque para alguns o conceito é rizível, para outros é o centro de explicações complexas sobre o comportamento de grupos sociais. Mas, apesar disso, todos concordam com sua definição. Uma subcultura é um tipo de cultura que se constrói sob uma cultura oficial, isto é, é uma forma de ler a realidade utilizando símbolos da cultura oficial, porém dando a eles significados próprios que só são entendidos pelo grupo no qual a subcultura foi gestada. Para alguns ela não é possível porque dentro de grupos sociais a cultura é compartilhada por todos igualmente. Um exemplo daqueles que pensam desta maneira são os marxistas clássicos. Estes não aceitam a ideia de subcultura porque dado a oposição burguesia x proletariado, e sendo a burguesia nesta situação a única produtora de cultura, revestida com o nome de ideologia. Sendo assim não existe espaço para outras subculturas e, muito menos, outras ideologias. Para este entendimento do processo social, a cultura só existe no mundo burguês e é repetida pelo proletariado, o único outro grupo social, o que garante a dominação do segundo pelo primeiro.
Os novos marxistas, para não compararmos alhos com bugalhos, do grupo renovado por E. P. Thompson, historiador inglês, já garantem que a produção cultural também é tarefa dos grupos que não estão no topo da pirâmide social. O proletariado também é capaz de produzir cultura e cultura contestadora capaz de absorver, apropriar-se, resignificar e modificar elementos da cultura burguesa ou, ultrapassando a discussão marxista, da elite dominante. Aqui, a capacidade do outro grupo reler a cultura dita oficial sobre seus próprios termos cria a possibilidade da construção de subculturas associadas a grupos sociais. E, como a sociologia e a antropologia vêm mostrando, associado a grupos cada vez menores. 
Dito isto, podemos falar em subcultura gay? Sim e não! Sim, porque é inegável a construção de uma homocultura a partir da década de 1930 na Europa e, em seguida, no Pós-Guerra americano, neste último intensamente influenciada pela contra-cultura (ler mais sobre isso aqui e aqui). Contudo temos que dizer não se pensarmos que a homocultura é um bloco único. A homocultura não é, mais, uma subcultura coesa. Afinal, se uma subcultura nasce exatamente da contestação de uma cultura hegemônica - no caso, heteronormativa - é natural que, ao tornar-se hegemônica dentro do grupo social ao qual ela se liga, haja, rapidamente, reações de contestação criando subculturas dentro da subcultura. 
É da própria contestação da hegemônia homocultural que surgem as variações da cultura gay como os Ursos (é inegável a aversão ursina ao padrão estético que se tornou hegemônico no mundo gay); os HSH ("Homens que fazem Sexo com Homens" que negam até o próprio título de homossexual ou gay); os "Sou Gay, Mas Não Sou Efeminado" (que se manifestam vivamente contra o que eles chamam de estereótipo da cultura gay); também podemos citar o grupo yupie (que criou símbolos de status associados com o poder aquisitivo, como baladas caras, moda, perfumes e jóias, integrando-se ao mercado); ou o grupo cristão (católico e evangélico que mantém suas vidas dentro de padrões que são aceitos pelos grupos religiosos que se filiam), poderíamos citar vários outros grupos, porém a ideia é que apesar destes todos, em grande parte, participarem de uma homocultura comum, eles reagem a ela construindo novas formas de ler a sociedade do qual fazem parte a partir de novos símbolos.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Então, Vamos Falar Um Pouco de História... (Parte II)

É lugar-comum a associação entre homocultura e divas pop e homens malhados, mas isso também tem uma história. Como falamos anteriormente aqui, a criação da homocultura tem por base o amor livre hippie, a reestruturação familiar de cunho feminista e a contestação de gênero punk; no entanto, a partir da década de 1980, o capitalismo americano descobriu um público com o qual ele não estava acostumado. Surgiu o pink money. Outra questão foi a explosão da AIDS. Falemos de cada um separadamente. 
As feras do sistema capitalista perceberam que estavam perdendo dinheiro deixando esse grupo fora do próprio sistema. No entanto, as necessidades exigidas por este grupo não se enquadravam no sistema,  na verdade, perigosamente iam de encontro a ele, portanto era necessário homogeneiza-los. A família e o gênero são questões caras ao capitalismo para simplesmente serem desmanchadas e reconstruídas. Foi então que alguém inteligentíssimo, devo admitir, resolveu conceder a gays e lésbicas a oportunidade de participarem do sistema capitalista, ganhando alguns direitos, se integrando como cidadãos, sob a alcunha de diversidade. Para, contudo, ser cidadão no capitalismo é necessário que esse público pudesse consumir, então o mercado surge com empreendimentos GLS. Empreendimentos voltados para este público. Artistas se tornam GLS, alguns a revelia como Cher, outros abraçam a causa como Madonna; cidades se tornam GLS como São Francisco, Ibiza e o Rio; programas de tv, peças de teatro, arte; se criam produtos para serem consumidos por esta fatia do público; festas, músicas, bebidas, comidas, mesmo o sexo, durante toda a década de 1980 e 1990 se ampliam os objetos de consumo para este público emergente. A cultura - definida agora como pop - é empurrada garganta a baixo da comunidade gay nivelando-os todos como iguais, podendo então o mercado agir com mais tranquilidade.
Como o surgimento e explosão da AIDS participam disso? A AIDS cancela a tentativa de amor livre, a liberação sexual hippie, uma das bases da homocultura que a população homossexual pretendia propor, encontra um obstáculo intransponível. Mas o mercado capitalista não deixou de preparar uma saída. Em 1990, as revistas gays americanas, sobretudo a Out, lançadas recentemente, começam a propor um padrão estético masculino muito distinto da década anterior, que passou a ser conhecido como espartano. Homens musculosos, fortes, depilados e, principalmente, com aparência de saudável, se tornam agora objeto de culto e de desejo; o cinema e a moda reforçam o conceito, e um (novo) padrão de beleza é criado para uma cultura, vendendo-lhe roupas, perfumes, remédios para emagrecer, shakes de proteína para ficar mais fortes, surgem as academias de musculação, e um novo homem gay é agora exigido e também um novo modelo de amor. Este é o novo objeto a ser conquistado e agora, basta ter este homem, para que o homem gay se torne completo.
A homocultura é então domada pelo capitalismo e o gay yupie é o novo modelo a ser seguido. Yupie é a sigla para Young Urban Professional, que descreve o profissional entre 20 e 35 anos que, basicamente, trabalha com negócios, medicina ou entretenimento. O jovem promissor, que estudou, que tem uma bela carreira pela frente e vai se tornar um homem rico e poderoso com a maturidade. A homocultura, então, agora domada não precisa mais reconstruir a sociedade, apenas integrar-se a ela; não exige mais visibilidade e aceitação, contenta-se com um respeito que beira a invisibilidade; o homem gay e a mulher lésbica modelo são aquelas que não aparentam ser gay ou lésbica, são exatamente aqueles que não atrapalham a convivência na sociedade de massa exigindo a sua individualidade. O homem gay e a mulher lésbica yupie são o fruto de um sistema que vende a própria alma para manter-se ativo, e que agora espera que eles se tornem saudáveis competidores no mercado de trabalho e intensos consumidores de seus produtos.
O Brasil, no entanto, não tem, históricamente, nenhuma cultura gay de contestação. Relembrando nossa história, a homocultura chega ao país após a abertura política com o fim da Ditadura. Militar A contestação social que se irradiava entre os americanos, não fazia sentido em um país em que não havia nem direitos políticos garantidos mesmo para a população heterossexual. Quando então, a homocultura já massificada pelo capitalismo invade as nossas terras tupiniquins, ela encontra um ambiente em que as disparidades sociais e políticas da população brasileira a distorcem ainda mais. A homocultura capitalista acaba por criar uma oportunidade de elevação social com que faz com que muitos homossexuais de classes mais baixas tentem repeti-la para garantir uma posição social superior dentro do nicho homossexual. Ela se torna alavanca social. A contestação - que uma elite pensante tenta introduzir, mas é mal vista sob a alcunha de "militante" - acaba se tornando papo vazio entre um grupo social que está mais preocupado em garantir seu status como indivíduo do que como grupo, exatamente como o gênio capitalista que organizou tudo isso planejara. O pop é o ópio gay.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Então, Vamos Falar Um Pouco de História... (Parte I)

Falamos sempre de "cultura gay" por aqui e algumas pessoas insistem em negar sua existência, seja para negar sua participação nela, seja por considerá-la segregacional. Bem, se falarmos de história, ela existe e tem data de nascimento. Mas antes, deixa eu explicar o que é essa tão falada "cultura gay".
Homocultura, o termo correto, trata-se de uma cultura criada por um grupo social que tem suas afinidades, aproximações, que frequentam os mesmo ambientes e convivem com os mesmos símbolos, imagens, ideias, padrões, que conversam entre si. Homocultura é um tipo de cultura, no entanto, que se desenvolve a partir da contestação do padrão culturual vigente, isto é, heteronormativo. Em outras palavras, é uma cultura que contesta o modelo heterossexual de vida. Então, basicamente, se você namora, sendo homem, outro homem; se sendo mulher casa-se e constitui família com outra mulher, contestando assim o modelo heterossexual, você está, necessariamente, aceitando a homocultura e a corroborando. Mesmo que não aceite ou participe de todos os elementos, você faz parte deste universo de contestação.
Voltando a história, apesar das relações homoeróticas (entre o mesmo sexo) existirem "desde que o mundo é mundo" (posso, se alguém desejar, mostrar referências na Antiguidade, por exemplo), a homocultura é uma invenção do Pós-guerra. O que quero dizer é que até a década de 1960 (no Brasil, esta data tem que ser alterada para 1980), ter relações com o mesmo sexo não significava adotar uma cultura distinta da cultura "oficial", as relações homoeróticas se davam num espaço bem demarcado da cultura heterossexual. Usando exemplos brasileiros, as relações homoeróticas podiam se dar dentro de um ambiente "controlado": os meninos que fazem troca-troca, a Geni que dá para qualquer um, o Cintura-Fina que se prostituía entre mulheres, Madame Satã cantando nos cabarés da Lapa, havia um lugar demarcado e socialmente aceito para estes personagens circularem. 
Quando a homocultura surge, ela é uma manifestação, uma afirmação, um grito dizendo que ninguém mais vai se contentar com o gueto. Surge dentro dos bares gays e lésbicos americanos. E esse grito se torna tão alto, forte, poderoso, que as autoridades americanas preocupadas com "os bons costumes" iniciam uma onda de confrontos com estes públicos. Voltemos no tempo, imagine-se em um bar gay, em São Francisco, em 1950, a II Guerra acabou, a economia está estagnada, você preocupado em beijar alguém, quando a polícia invade o local e leva todos presos por vadiagem e atentado ao pudor. Demorou para haver reação a esta situação. Somente em 1969, quando a polícia de Nova Iorque invadiu o bar Stonewall Inn, que os homossexuais presentes reagiram, atacaram a polícia e saíram em marcha exigindo que seus direitos fossem respeitados. 
Stonewall foi um marco. Ele criou sobretudo a ideia de orgulho gay. A partir daquele momento os gays e lésbicas desistiram de se esconder, de tentar passar desapercebidos, decidiram que mereciam mostrar sua cara e contestar todo o sistema que estavam inseridos. 
Não é por acaso que isso acontece somente em 1969. A década de 1960 é marcada pela explosão de movimentos contestadores do status quo. O movimento hippie e seu amor livre, o feminismo e, mais tarde, a contra-cultura do movimento punk são as bases do que hoje chamamos de homocultura. Acham que uma coisa não tem nada a ver com a outra? Pois pense de novo. A promiscuidade associdada aos gays é só uma forma de denegrir o questionamento a monogamia heterossexual combatida pelo movimento hippie; a formação de famílias homoafetivas desestabiliza o conceito de família heterossexual centrado na figura do homem, combate feminista; a participação de transgêneros, travestis e drag queens questiona a imagem do que é homem e o que é mulher, questão base do movimento punk
A homocultura tem então estes três pilares: o amor livre, a reestruturação da família e redefinição dos papéis de homens e mulheres na sociedade. Agora, você deve estar perguntando: então de onde saíram as divas pop? A obcessão pelo corpo malhado? O papo vazio sobre moda, cabelo, maquiagem e decoração? Como o texto já está muito grande, essa explicação fica para a parte II.