Google+ Estórias Do Mundo: 2011

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Presente de Natal

, em Natal - RN, Brasil
Aquele sorriso simplesmente me acertou como uma certeira seta. Quando ele, o amigo de uma amiga de um amigo, Sid, sorriu para mim enquanto conversávamos sentados na mesa daquele bar. Fora o Peter quem me convidara para ir ao Bar do Cajueiro naquela antevéspera de natal, um bar montado embaixo da copa de um imenso cajueiro na zona sul da cidade, onde a cerveja é barata e ele, o Peter, e o Andarilho são amigos das garçonetes que atendem lá. Encontrei com eles por volta das 21h, após cumprir o expediente de trabalho na loja de roupas da minha família, e assim que sentei fui apresentado à amiga e ao Sid, ele sorriu e eu cai abatido. Aquele sorriso tinha me derrubado facilmente. Eu estava entregue como Menelau ao deparar-se com o corpo nu de Helena. Mas foi no instante que acusei um dos amigos presentes de homofobia que ele passou a prestar mais atenção em mim, conversando comigo sobre o assunto, recitando definições da ONU sobre sexo, gênero e sexualidade, discutindo Freud e conforme concordávamos e ele me sorria ainda mais, aquele sorriso lindo, eu me vi ainda mais interessado, interessado ao ponto do marido do Andarilho me cutucar e dizer rindo: “Cá entre nós, garotinho, não dá p’ra você ser mais discreto não? Você ‘tá babando pelo menino”. Mas eu estava mesmo, além do sorriso lindo, me vi conversando com um cara super inteligente, também. “Ele me pegou pelo meu ponto fraco, conteúdo e um belo sorriso”.
Quando eles, a amiga e o Sid, anunciaram que estavam indo para outro lugar, para continuar a noite, eu me senti triste, com uma vontade de acompanhá-los, afinal eu queria desfrutar mais da companhia dele, do sorriso dele, mas fiquei com vergonha de dar essa bandeira toda, afinal, acabara de conhecê-los. Foi quando um dos amigos na mesa, o que eu acusara de homofóbico, fez uma proposta: “Vamos p’ra Vogue?”. Peter e o Andarilho não se animaram. No entanto, nosso amigo ofereceu para pagar a entrada deles se eles topassem ir, eles toparam e eu imediatamente aceitei o convite já que Sid e a amiga também decidiram ir. Como não dava para irmos todos no carro do Peter, o Andarilho e o marido, e o amigo que eu chamara de homofóbico foram no carro, e a amiga do Sid me puxou para irmos a pé, já que estávamos a apenas alguns quarteirões da boate, “Ah, você vai com a gente”.
Caminhamos conversando e rindo, e ao chegar à boate, entramos juntos e permanecemos o tempo todo juntos também. Dançando, conversando, rindo e bebendo. Até que a amiga dele se envolveu numa confusão com a ex-namorada e resolveu sair da boate, ele, obviamente, decidiu acompanhá-la, mas antes segurou minha mão, entrelaçou os dedos nos meus e sorriu perguntando: “Vamos comigo?”. Saímos, ela sentou em um bar de cadeiras de metal, ao lado, e ele me puxou e nós demos nosso primeiro beijo. Um beijo suave, sem pressa. Um beijo, antes de mais nada, com carinho. Aquele beijo que os lábios se tocam lentamente, conhecendo um ao outro. Só ai ele sentou junto dela, na mesa do bar, mas não largou minha mão. De mãos dadas, enquanto eu fazia pequenos círculos com o dedo na palma da mão dele, ele falava sobre a ex-namorada da amiga dando conselhos preocupados de amigo, sorrindo de vez em quando para mim que o olhava encantado. Foi assim que nossos amigos nos reencontraram horas depois quando quiseram ir embora.
No carro ele sentou ao meu lado. Coloquei meu braço em torno dos seus ombros e ele se aninhou no meu peito, conversando com os outros durante o trajeto enquanto eu fazia-lhe cafuné entre os anéis dos seus cabelos castanhos. Alguns beijos curtos ainda foram trocados, mas logo chegávamos a casa da amiga dele, onde ele dormiria, um último beijo ainda foi trocado e ele saiu do carro e entrou na casa, eu observei-o entrar absorto e só voltei a mim quando o marido do Andarilho me puxou de volta para a realidade. “E aí, ‘tá feliz agora?”. Eu sorri em resposta e falei o quanto ele era fofo e tudo mais. Todos sorriam ao redor. “Então, vai entrar em contato com ele de novo né?”. Ai foi que a ficha caiu. “Eu me esqueci de pedir o telefone dele...”. E uma gargalhada explodiu no carro de todos eles. “Relaxa, sua sorte é que a amiga dele é nossa amiga mesmo...”.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Sabedoria Materna II

, em Natal - RN, Brasil
-  Essa situação sua de agora, só pode ser castigo, castigo por causa dessa sua arrogância.
Minha mãe falou isso e uma onda começou a emergir do meu peito.
-  É verdade, é castigo mesmo! – E as lágrimas começaram a arrebentar – É castigo, e é sim por causa da minha arrogância. Eu fui arrogante, mainha! Eu imaginei que poderia sair daquela vida que eu tinha. Daqueles 600 reais que e ganhava na Prefeitura de Natal, das humilhações que meu irmão mais novo me impunha na escola porque tinha vergonha de mim; do meu irmão do meio ter me ameaçado de morte porque eu quando crescer ia virar gay; do meu pai que me batia porque alguém na rua me chamava de viadinho; ou de vc me tratando mal porque eu era o único filho que te ajudava nas tarefas domésticas.
-  Não é assim...
-  É sim, mainha – repeti com as lágrimas banhando meu rosto – eu fui castigado sim, por Deus, porque eu fui arrogante o bastante pra acreditar que eu poderia ter uma vida melhor, ser alguém melhor, ser finalmente feliz.
- Deus não é culpado de nada...
- Não é uma questão de culpa – eu falava entre soluços -, mas se não fosse da vontade dele eu não teria passado na prova para o doutorado em BH e eu não teria ido para lá. Não teria ido lá aprender que eu nunca poderei ser feliz nesta vida. Que eu não tenho esse direito, que por mais que eu tente, eu nunca sairei daqui.
Minha mãe, neste momento, me olhava assustada. Eu também chorava intensamente.
- Que quando vocês morrerem, mainha – continuava eu – eu vou morrer de fome. Porque você acha mesmo que eu vou poder contar com meus irmãos? Esses irmãos que eu tenho? Eu realmente fui castigado por ser arrogante. Sem sombra de dúvida. Minha arrogância foi acreditar que eu poderia ser feliz nesta vida, que eu poderia realizar meus sonhos.
- Como você está revoltado... 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Gin, Cachaça, Vodca e Rum

, em Natal - RN, Brasil






Levantei os olhos do livro de Lolita Pille exatamente quando Syd tinha relutado um pouco em classificar a ocorrência como um acidente: “Ele conhecia a noite; pertencia a ela. Conhecia a noite e as suas constelações de pequenas luzes doentes, esses olhos bacentos, vazios, em que sempre vira alguma coisa como uma espera, a espera vital, iluminada da autodestruição, por alguma coisa que não existia”, e estirei a mão para meu copo de coca com gin, o cheiro perfumado da bebida tão imediatamente associada com as prostitutas francesas preenceu minhas narinas. Estava eu deitado ao sol, em uma esteira de sisal,  por trás das lentes escuras de um Raiban, usando apenas uma sunga branca, um fiapo de tecido de menos um palmo de largura diante dos "lírios de fogo", plantados por meu pai, no seu mais novo hobby, jardinagem.
O mar de Santa Rita cintilava celeste mais adiante. O único barulho era do vento sacudindo as folhas dos coqueiros plantados em todas as casas ao redor, vazias ainda porque ainda não é temporada de veraneio em Natal, que começa após o Dia de Ano. A maré está secando e resolvo caminhar até lá e mergulhar. Fazem pelo menos três anos que eu não mergulho na água salgada do mar. Água que sempre foi meu grande playground, lugar das minhas brincadeiras e castelos de infância. Não havia quase ninguém na praia, apenas uma família, um jovem casal com um menino, mais seus pais, sentados na única barraca de toda a praia, sob a sombra de uma palhoça de folhas de coqueiro.
O mergulho fora rápido, apenas o bastante para o forro da sunga mostrar a que veio, logo retornei e após uma ducha rápida, para tirar o sal e areia, preparei outra dose de coca com gin, acho que esta já é a terceira, tudo culpa de Pille, mulheres francesas me deixam com essa vontade. Abrindo a geladeira, pensei em preparar algo para comer, na geladeira da casa de praia, havia filé de arraia, milho, alho, cebola e batatas. Refoguei então a cebola e o alho no azeite e junto joguei os filés de arraia, desfiados, para em seguida colocar um pouco de molho de tomate mais meio copo d'água, deixando ferver até reduzir para formar um molho. Foi quando então acrescentei uma dose generosa de cachaça e flambei. Uma ultima pitada de orégano, junto com umas colheres de milho verde, terminam o prato, que será acompanhado de batatas ao murro. Quando o almoço ficou pronto, o gin tinha acabado. Deixando-me na dúvida que o que combinaria melhor com a arraia, um White Russian ou um Cuba Libre.  Acabei decidindo-me pelo Cuba




E a todos, um feliz Natal.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Ben 10

, em Natal - RN, Brasil
Já eram quatro da tarde quando aquela mãe entrou na loja. Estava acompanhada de uma filha de no máximo doze anos, que trazia sua bolsa a tira-colo e uma sombrinha, no colo um menino gordo, de cabelo todo arrepiado e de uns curiosos olhos verde ardósia, mas o mais interessante era a menina, de cabelos encaracolados e um vestidinho florido, com uma tiara na cabeça, com uma flor enorme. A menina chamava-se Silvia e não queria vestir-se como menina. "É o pai dela o culpado", reclamava a mãe, "que fica fazendo as vontades dessa menina". A menina reclamava do vestido, da tiara na cabeça. "Preciso comprar roupas de menina p'ra ela, o que você tem aí?". E a Silvia esperneava.
Apresentávamos vestidinhos, macaquinhos, shorts e blusas, mas Silvia não gostava, ela apontava as bermudas masculinas e as camisetas pólo expostas e implorava que queria uma daquelas. A mãe ignorava o pedido. E escolhia vestidos cor de rosa, com borboletas, princesas Disney, Barbies,  escolhia shorts bordados e meias com babados e rendas, Silvia implorava que não, não queria, não gostava, dizia ela num quase soluço, mas sua mãe continuava ignorando, forçando-lhe a experimentar novas roupas, novos vestidos, novas "coisas de menina". Uma hora Silvia parou de reclamar, parecia ter sido vencida, só seus olhos que denotavam uma tristeza assombrosa enquanto ela admirava os manequins de meninos com seus bonés, bermudas, cintos de lona, camisas e camisetas, mas ela trocava as roupas, resignada.
A mãe então escolheu as roupas que gostaria que a filha deveria usar. Ela estava em silêncio já quando a conta foi dada e o dinheiro foi entregue ao caixa. Silvia deu a mão a mãe e, na porta loja, ela falou, quase que para si mesma, "Mas eu posso ganhar pelo menos uma sandália do Ben 10?". A mãe bufou. "Ah, menina... 'tá bom! Vamos ali comprar essa maldita sandália!". E Sivlia sorriu, pela primeira vez, Silvia sorriu.   

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Egito: Papiro de Turim

, em Belo Horizonte - MG, Brasil



Quando se fala em manuais de sexo sempre se lembra do manual indiano, o Kamasutra, porém existe uma versão mais antiga, o Papiro de Turim. Este documento foi encontrado ainda no século XIX, perto do Vale dos Reis, a região aonde esta concentrada a maior parte dos túmulos dos faraós egípcios, o papiro de mais de três mil anos, no entanto, ficou guardado dentro de uma biblioteca em Turim, na Itália, com acesso restrito (somente homens podiam acessa-lo). Ele foi publicado, pela primeira vez, com suas falhas (oriundas de sua degradação) pela primeira vez em 1973, e somente em 1987, graças ao alemão J. Oslim, este documento foi explorado e reconstituído. Explica José Miguel Ortiz, q isto se dá porque a maioria dos arqueólogos, cristãos e muçulmanos, se surpreendiam com naturalidade com que os egípcios lidavam com o tema da sexualidade, chegando muitas vezes a alterar os documentos para censurar o que eles consideravam imorais.  
As imagens do papiro trazem funcionários da corte, e mais mulheres, muitas vezes consideradas prostitutas, realizando atos sexuais. É interessante frisar que nestes desenhos os pênis são sempre representados com tamanhos desproporcionais o que Oslim explica como frisando o poder fálico destes homens dentro da sociedade egípcia. As imagens tão explícitas do papiro, no entanto, não surpreendem os historiadores dado a variedade de imagens com conteúdo sexual que são encontradas nas pirâmides, sem contar as inúmeras esculturas de imagens com pênis desproporcionais. 


As imagens se dividem em coito vaginal, sexo oral, coito anal e masturbação. Sendo que representam algumas posições distintas para cada opção. O coito vaginal está representado em seis posições: 1) o homem deitado em cima da mulher; 2) o homem ajoelhado e a mulher deitada de costas no chão; 3) o homem ajoelhado e a mulher de quatro, sobre também seus joelhos; 4) "de ladinho", com a mulher dando as costas para o homem; 5) o hoje conhecido como "frango assado"; 6) sexo em pé, com a mulher sendo sustentada pelo homem com as pernas sobre seus ombros. O sexo oral é pouco representado, contudo, sempre em relações entre homens e mulheres. Sempre homens em pé com mulheres segurando o pênis próximo a sua boca.


As imagens homoeróticas aparecem em relação ao coito anal e a masturbação. Duas posições aparecem sobre o coito anal. 1) com o personagem passivo de quatro; 2) e com o personagem passivo apoiado em uma perna, com a outra sustentada pelo parceiro. Sobre a masturbação, existem inúmeras cenas em que personagens femininos e masculinos masturbam um ao outro (homens masturbando mulheres, mulheres masturbando homens, homens masturbando homens e se masturbando e mulheres se masturbando). José Miguel Ortiz ainda lembra que muitos pênis de madeira e pedra foram encontrados nos túmulos tanto de homens quanto mulheres, o que faz crer que eles também eram usados para masturbação dado o seu tamanho.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

"Last Friday Night"

, em Natal - RN, Brasil
Eu estava voltando da minha corrida. ao som de Arctic Monkeys, relembrando do menino que eu era quando passava por aquelas mesmas ruas voltando da escola, quando lembrei de ligar para o Bobtuso e cobrar que ele me apresentasse o Jazzy Rocks Lounge Bar. "Meu amor, claro, passo na sua casa daqui a pouco e te pego, ok?". Combinamos e ele logo me buscou em casa e fomos ao novo bar de rock de Natal, e eu sinceramente esperava mais. É uma casa no meio de um bairro residencial, com as paredes descascando, quente e apertada, com a área externa coberta por areia e poucas mesas de madeira, mesas estas que provavelmente foram o maior investimento feito no bar. Nas paredes, fotos de bandas de rock, recentemente imprimidas em papel ofício, eram a única coisa que diferenciava aquele bar de qualquer festa organizada por um menino de 15 anos com seus amigos da escola, mas admito que a forma que foram coladas na parede me lembravam muito os álbuns seriados que eu fiz em minha aulas de inglês na escola. Ah, minto!, também havia uma banda, Talma & Gadelha, que eu não conhecia (foram 4 anos fora, não é?), tocando na sala apinhada de fãs que sabiam todas as letras, enquanto eu cantava apenas os covers e as pessoas fumavam despudoradamente.  
Como dissse, decepcionante, porém tudo me cheirava a uma decadência tão planejada que comecei a achar tudo muito interessante. De fato, o clima do bar era esse, então pedi minha primeira cerveja no balcão enquanto observava um negro de dreads apertando um beck do outro lado e me dediquei a observar a fauna local. Muitos casais de lésbicas estavam abraçados, alguns casais gays também, me surpreendi como estes estavam a vontade naquele ambiente, como os gays estavam a vontade em Natal. Camisetas quadriculadas mostravam que os hipsters já haviam também chegado aqui e circulavam em meio as meninas que pareciam ter estudado em alguma escola pública, me lembrando, desagradavelmente, muitas das minhas ex-alunas, e, não obstante, muitos meninos bonitos. Foi quando um passou por mim, lindo, alto, barba por fazer, corpo bonito, e o Bob percebeu e disse no meu ouvido: "Ele deve ter pouco mais que metade de sua idade". Eu me assustei e ele confirmou: "17!". Chocado, sai do salão e fui ao jardim dianteiro da casa, acendi um cigarro e fiquei observando as pessoas por lá, reencontrando alguns conhecidos. Muitos abraços, sempre fui uma pessoa muito popular, do tipo que conhecia metade da cidade, foi fácil encontrar muitas pessoas perguntando como eu estava e se havia voltado de vez. 
Foi quando recebi uma ligação de Peter, meu amigo que coleciona meninos perdidos. Contei-lhe onde eu estava e ele comentou: "Nossa, como você é chique!". E eu pensei: "Como assim? O conceito de chique de Natal mudou eu não soube?". Ele então disse que passaria por lá, logo, e me pegaria para fazermos alguma coisa. Como o Bob já havia dito para irmos embora após o fim do show, concordei com o convite. Peter chegou exatamente cinco minutos após o fim do show da banda que eu não conhecia nenhuma das músicas, mas que havia gostado do que ouvira e, junto com um amigo nosso, me convidou para ir a Vogue, a maior boate gay da cidade. Bob declinou da oferta imediatamente. Eu topei.
Saímos do Jazzy e, após uma parada na casa deste amigo para ele trocar de roupa, logo estávamos entrando na rua da boate e ao estacionar um garoto de programa de braços gigantescos se ofereceu para um de nós, se ofereceu aleatoriamente pegando no pau por cima da calça, o que foi sumariamente descartado  por nós três com uma gargalhada. Caminhamos pouco pela rua de paralelepípedos do estacionamento até a entrada da boate e, recebidos pela drag queen residente, Shakira, entramos naquele local que eu não visitava fazia dois anos e fui recebido por cantora usando um chapéu panamá tocando no palco samba. Decidi então fazer um giro no local, para me aperceber de quem eram as pessoas que estavam lá, e eu revi o mais do mesmo. Homens sarados sem camisa ficando com outros sarados sem camisa; meninos efeminados sozinhos dançado e se divertindo, além de esbanjando dinheiro; cafuçus de todo tamanho e jeito esperando para encontrar algum homem que decida sustentá-los; muita gente feia também, o que me fez pensar como eu conseguia ficar com tantas pessoas ali (será que meu gosto melhorou ou as pessoas ficaram mais feias?). Além disso, encontrei alguns conhecidos, gente que me abraçava e dizia que era muito bom que eu estava de volta, e um ex-aluno e um vizinho.
O ex-aluno foi o que eu vi primeiro. Não era nenhum dos que eu contei aqui anteriormente, mas era da mesma escola. E eu provavelmente ainda vou encontrar mais uns cinco meninos e duas meninas que estudavam naquela escola na noite gay de Natal, podem esperar. Todos os que eu suspeitei, em todas as turmas tinha pelo menos um, em uma delas tinha três, e este era desta turma, da que tinha três que eu desconfiava. Fui falar com ele e ele não me reconheceu de imediato, ficou bem sem graça, era óbvio que ele achava que me aproximei porque queria ficar com ele, até lembrar-se quem eu era. "Fui seu professor no J.P.". E ele disse meu nome. Conversamos pouco, um cara muito bonito logo o chamou para dançar e ele foi. Estávamos na pista de música ao vivo da boate, eles tocavam forró naquela noite. E enquanto meu ex-aluno saiu para dançar com o cara bonito, eu me peguei pensando como era irônico o fato de naquela boate gay ter pessoas dançando forró enquanto alguns já me acusaram aqui de defender uma "cultura gay" baseada somente nas divas pop. Pensava eu: "Eu sou daqui, dessa terra em que viado dança forró na buatchy! E a pessoa tem a cara de pau de me dizer que eu acho que a cultura gay é homogênica. Tifudê!".
Meus amigos decidiram então entrar na pista de música eletrônica. Peter terminara de fumar então poderíamos entrar. O som ali estava irritantemente ruim. Parecia que as caixas de som não suportavam a altura do que se tocava. O DJ também não ajudava. Parecia que ele queria compensar a péssima qualidade do som e da escolha de músicas aumentando o som no máximo. Ouvia-se apenas uma batida abafada do que deveria ser uma música da Britney, eu acho. Foi lá que eu vi meu vizinho pela primeira vez. Ele dançava abraçado a um menino que notei ser-lhe um amigo, pois logo já estava dançando com outro. Contei a Peter que ele estava ali. "Aquele ali, meu vizinho... já peguei o irmão dele!". Peter gargalhou, perguntando se eu não tinha pego ele também, "afinal ninguém te escapa, né?". Ai meu vizinho virou-se para nós e Peter respondeu sua própria pergunta: "Ah, já vi por que você preferiu pegar o irmão e não ele". Rimos os dois. E saímos de lá, indo buscar uma cerveja para cada um.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

"Não Tenho O Que Falar"

, em Natal - RN, Brasil
Domingo a tarde, estamos na casa de praia de uma amiga de um amigo. A praia é Pitangui. Uma colônia de pescadores com uma única rua asfaltada e todas as demais de areia. Praia onde as pessoas não usam sapatos em lugar nenhum. Em que todos estão sempre descalços. Fica em outra cidade ao norte de Natal, chama-se Extremoz, antiga missão jesuíta, em que todas as localidades ou tem nomes indígenas ou nomes de cidades portuguesas, culpa de Pombal. Faz calor, mas o vento é constante, farfalhando as folhas da mangueira no quintal. Uma travessa grande de caranguejo está servida no meio da mesa de centro, colocada no alpendre. As pessoas estão sentadas em torno da mesa, em cadeiras de madeira, tomam cerveja e quebram as pernas dos caranguejos com as mãos e os dentes. São três casais e eu. Quatro meninas, o casal dono da casa, um casal de amiga delas e meus amigos. Todos conversam sobre seus relacionamentos. Falam sobre como começaram, como se conheceram, sobre sua intimidade, as estórias que viveram. Até que uma das meninas para e me olha. "E você não fala nada? 'Tá em silêncio ai o tempo todo". Eu sorri e respondi: "Não tenho o que falar, minha querida, simplesmente não tenho o que falar".

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sabedoria Materna

, em Natal - RN, Brasil
UM

- ... Então, quem sabe por lá, no interior, você não conhece alguém p'ra casar...
- Ah, mãe, nem adianta! Ninguém é capaz de gostar de mim não...
- Como assim, Foxx? Deixa de estória, menino!
- É verdade, mãe! Nenhuma chance de eu conhecer alguém, desista. Não vou casar não.
- Você pare com essas estórias! Mas de qualquer forma, como você espera namorar se nem carro você tem.
- Oi?
- É! Tem que ter carro p'ra namorar! E ficar girando a chave do carro p'ra todo mundo ver também!
- Minha mãezinha querida, você está mesmo me dizendo, preciso deste esclarecimento... você está mesmo me dizendo que se eu tivesse um carro eu ia encontrar alguém que quisesse namorar comigo?
- Sim, exatamente isso.
- Ah tá... então aquela estória de você conhecer alguém que goste de você pelo que você é não vale de nada?
- Em que espécie de mundo você vive, meu filho? Nesse mundo você vale o que você tem. Se você só tem uma galinha, você vale apenas uma galinha. Você não namora porque você não tem um carro sim. Se tivesse ia chover na sua horta. Veja seu irmão mais velho, por exemplo, ele é mais feio que você, mas agora 'tá casado e sempre teve mulher correndo atrás dele, porque ele tem carro e moto, e mostra isso.
- Sério, mãe?
- Sério, Foxx. Compre um carro que você vai notar a diferença.


DOIS

- Foxx, que estória foi essa de seu sobrinho estar te ligando?
- Não é, mãe? Também me surpreendi.
- Seu irmão mais velho nem gosta de você, porque ele ia insistir nessa amizade com o seu sobrinho?
- Verdade! Também me perguntei isso...
- Ele deve estar achando que agora que você voltou do doutorado deve ter algum dinheiro...
- Ou ele estava do lado de alguém da Igreja e queria mostrar como a família dele é perfeita e unida.
- Também pode ser isso mesmo, Foxx.
- Eu sei!

TRÊS

- Ainda bem que você não se envolve com gays, Foxx, que sua vida não depende deles, senão sua vida estaria muito pior do que está agora. Nenhum gay presta, em lugar nenhum. Eles não pagam suas contas e... não valem nada. Absolutamente nada.
- Só se for os que você conhece, mãe...
- Nem sei porque você vem defender. Todo gay devia ser morto, isso sim. Morto.
- Aonde está seu espírito cristão nessas horas hein? "Amai o próximo"?

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Egito: A Tumba dos Amantes

, em Belo Horizonte - MG, Brasil

Niankhkhnum e Knumhotep foram servos reais do faraó Niuserré, da V Dinastia egípcia, e viveram entre os anos de 2480 e 2420 antes de Cristo. Ambos partilhavam o título de "supervisores dos manicuros reais" e como confidentes do faraó. Seu túmulo foi descoberto apenas em 1964 pelo arqueólogo egípcio Ahmed Moussa na necrópole de Saqqara, a maior reunião de túmulos egípcios, localizado ao sul do Cairo, uns 30km, próximo a antiga capital de Mênfis. O túmulo, recheado de imagens com os dois homens abraçados, de mãos dadas e sendo carinhosos um com o outro, deixou os historiadores confusos. Os primeiros registros do túmulo, inclusive, os declaravam como irmãos. Denominação esta que não se sustentou ao se decifrar os textos escritos pelas paredes decoradas do túmulo.

Túmulo dos Dois Amantes - Saqqara

Nas paredes do túmulo, em hieróglifos, há “uma declaração legal que autoriza os sacerdotes do hm realizar seus deveres e que proíbe os membros das famílias dos donos dos túmulos de impedi-los”. Está escrito: "O chefe dos manicures do Faraó, que venera o Grande deus, declara: 'Para estes colegas, Niankhkhnum e Khnumhotep, os sacerdotes funerários que são responsáveis pelas oferendas de sua necropole, nós não permitimos que se prevaleça a vontade de seus filhos ou de suas esposas, pois eles sozinhos devem ser honrados por nós, como nossos pais e nossas mães, e aqueles que estão na necropole'." Essa afirmação revela que ambos eram casados com mulheres, possuíam seus filhos, mas, provavelmente se separaram de suas esposas e, como foram enterrados juntos, acredita-se que eles tenham contraído novas núpcias entre si, abandonando suas famílias anteriores os quais estariam proibidos de serem sepultados no túmulo que elevava o amor entre eles. Niankhkhnum era casado com Khentkaus, uma sacerdotisa, e Khnumhotep era casado com Khenut, chamada na tumba de 'Profetisa de Hathor, Senhora do Sicômoro'. Uma pista que demonstra que ambos estavam casados é o uso de Khnum em seus nomes que significa em egípcio "estamos juntos". Seus nomes juntos então diriam a frase: "Juntos na vida e na morte", numa tradução livre.


Na decoração das paredes, Niankhkhnum sempre aparece numa posição masculina, a direita, enquanto Khnumhotep é caracterizado mais femininamente, a esquerda. A decoração não é distinta dos outros túmulos egípcios, contudo conta um pouco da vida dos manicures. Na entrada eles estão sentados, lado a lado, na porta de sua morada para a eternidade, além de vários locais estarem de mãos dadas, sempre na posição de Niankhkhnum guiado o outro na posição de marido. Na imagem abaixo, localizada ao sul do túmulo, mostra um banquete em que os servos entregam presentes, bebida e comida aos dois amantes, sempre entregando primeiro a Niankhkhnum, o qual este passaria ao seu marido, reproduzindo claramente a posição de um casamento realizado entre um homem e uma mulher na sociedade egípcia.


É, no entanto, na câmara mais íntima que guardava as múmias dos dois chefes dos manicures do faraó que a decoração mostra as cenas mais íntimas entre o casal. Eles aparecem sempre abraçados, sem suas perucas, em cenas claras de extrema intimidade.Os historiadores perceberam, inclusive, que eles se apresentam sempre com seu torso desnudo, sem colares por exemplo, e que nunca usam cintos. Mas poucos historiadores tiveram a coragem de afirmar que estas cenas seriam, basicamente, representações de alcova dos dois amantes. 



PASSEIO VIRTUAL PELO TÚMULO AQUI.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

"Então É Natal"

, em Natal - RN, Brasil
Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira


Estou em Natal. Voltei. Voltei para a cidade em que eu nasci e de onde sai quatro anos atrás em busca dos meus sonhos. Agora voltei, sem nenhum sonho na bagagem, trouxe apenas uma tristeza intensa e uma decepção enorme. Saí de Natal porque eu sabia que aqui eu nunca poderia encontrar a felicidade. Principalmente, eu não poderia encontrar amor. Esta cidade esnobe, fútil e superficial não pode amar alguém como eu cujas maiores qualidades se encontram em níveis mais profundos do que a derme. Mas voltei, voltei porque durante os quatro anos em Belo Horizonte, os sonhos que eu achei que não conseguiria aqui em Natal porque eu estava em Natal, na cidade esnobe, fútil e superficial, esses sonhos, descobri, também não são possíveis em Minas Gerais, ou no Rio de Janeiro, ou em São Paulo, ou em Pretória, Berlim ou Manila. Então eu desisti de meus sonhos e por isso voltei para Natal. 
Estou triste aqui. Uma tristeza profunda. Uma tristeza que mescla e invade tudo na minha vida. Porque eu não queria estar onde estou. Na casa dos meus pais, trabalhando na loja da minha mãe. Mas eu aprendi minha lição, o mundo imenso que agora eu sei que existe lá fora, com seus sete bilhões de seres humanos, ele não me pertence.Qualquer pessoa diria agora que se eu estou incomodado eu deveria lutar e tentar mudar aquilo que me incomoda. Verdade, deveria. Contudo eu desisti. A luta, a batalha, só fazem sentido se ainda existe esperança de que você pode sair vencedor. Eu não serei vencedor. Foi a maior lição que Belo Horizonte me deixou: estas batalhas, principalmente a batalha por amor, eu nunca pude vencer.
Pois é, sou um derrotado, um perdedor. E este blog nunca foi pensado para contar estórias de derrota. Sim, tenho pensado em fechar o blog. Ou mantê-lo apenas com os textos históricos, apesar de que estes são os menos agradam aos leitores. Então, estou pensando, mas uma coisa é certa, não haverá mais estórias a contar, elas acabaram.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Assassino Dele

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
O vizinho dele encontrou a porta aberta do apartamento e estranhou. Totalmente aberta. Do corredor, era possível ver sangue pelo apartamento, que chegava até a esquadria e seguia pelo corredor a fora. Só neste  momento o vizinho também reparou na porta, suja de sangue, aquele sangue escuro, coagulado, como se uma mão ensanguentada a tivesse aberto. O vizinho não resistiu a curiosidade e avançou porta a dentro, mas quando ele contou essa estória depois afirmou que entrou porque o vizinho podia estar precisando de ajuda. Ele tentou chamá-lo, mas percebeu ali que apesar dele morar no prédio há anos, não sabia o nome do vizinho de porta. Com poucos passos, olhou em volta, e viu o apartamento revirado, ele pensou por um instante que pudesse ter sido alguma espécie de luta, mas um segundo olhar o fizera perceber que só podia ser um assalto. Ele sacou seu celular então, e ligou para 190, pretendia relatar tudo, e tinha assistido bastante CSI para saber, àquele ponto, que não podia tocar em nada. Mas seus olhos, estes, vasculhavam tudo. Havia muito sangue pelo chão, a tv não estava mais no seu lugar. As gavetas estavam fora do armário, os livros da estante haviam sido derrubados. O telefone da polícia atendeu. "Meu vizinho foi assaltado, a casa dele 'tá revirada...", foi quando ele chegou ao fim do cômodo, e pelo corredor, ao fundo, viu o corpo do vizinho, caído na cama, e ele não pode conter a exclamação, apesar de não ser nada religioso, "Meu Deus! O cara 'tá morto!". 
A careca do vizinho reluzia, apesar da pele macenta de quem morrera já há horas. Sua barba bem cuidada continuava intocada e sua boca entreaberta em um último suspiro, sua bochecha estava espremida no travesseiro de fronha branca. A faca com a qual ele fora apunhalado ainda estava ao lado do corpo, já seu peito era uma profusão de pele, sangue coagulado, pêlos arrancados e pedaços de carne que o vizinho só conseguia imaginar que eram do coração dele, mas provavelmente não eram. Havia uma garrafa de vinho derramada no tapete, uma mancha que nunca sairia, e duas taças, uma quebrada no chão, outra sobre o criado-mudo. "Ele tinha alguma companhia aqui", concluiu o vizinho para a telefonista da polícia que perguntava-lhe o endereço, foi quando pisou em algo e levantou o sapato de couro que sempre usava para trabalhar e encontrou uma carteira aberta, jogada, ele se abaixou num ímpeto de pega-la, mas deteve-se no último segundo lembrando que suas digitais seriam encontradas na cena do crime, mas ele pode ver que não havia nenhum dinheiro por ali. Quando ele se ergueu, seus olhos encontraram-se com o do morto. O vizinho teve um arrepio instantâneo quando se deparou com aqueles olhos sem alma. 
Mas os olhos mortos dele lembraram ao vizinho que eles tinham subido o elevador ontem juntos. O vizinho e o agora morto que estava acompanhado de um jovem muito forte e alto. A namorada do vizinho até comentou que aquele cara só poderia ser garoto de programa para "andar com aquela bicha velha". E era mesmo. O vizinho tentou lembrar do rosto do garoto de programa, mas não conseguiu, no entanto conseguiu imaginar que o jovem deve ter tentado assaltar aquela bicha e esta tentou se defender, mas o outro maior e mais forte, a dominou e a matou. O vizinho então retornou, com sua curiosidade satisfeita, até a porta e pegou o corredor, esperou lá pela polícia e quando o primeiro policial chegou e perguntou-lhe o que aconteceu, o vizinho respondeu: "Ah, essa bicha velha aí que vivia trazendo garotos de programa p'ra casa. Teve o que bem mereceu por se envolver com esse tipo de gente, mas veja, senhor policial, o risco que a gente sofre convivendo com esse tipo de pessoa... não é que eu tenha preconceito não, sabe?, mas tem que ser eles na deles e a gente na nossa". E o policial concordou. E o assassino dele nunca foi encontrado. 


(imagino que vou morrer exatamente assim)

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Trompe L'oeil (Terceiro Encontro)

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
PARTE UM

"É tudo culpa sua", foi a primeira coisa que ele falou quando atendo o telefone. Eu continuo em silêncio. "Culpa sua mesmo, não pode nem contra-argumentar". Eu não pretendia, até porque nem sabia do que ele estava falando. Foi apenas depois de uma gargalhada e os devidos cumprimentos que ele explicou: "Você foi falar, ora, agora eu estou apaixonado". Mas havia algo de estranho naquela conversa, afinal eu nunca disse que ele ia se apaixonar por mim, ou disse?, então naqueles breves segundos de conversa repassei os últimos dezenove dias.
Relembrei de quando fiz o mapa astral dele, do Sol em Virgem e o Ascendente em Áries, da Lua em Leão e Vênus em Libra, de Marte em Câncer e Juno em Escorpião. Lembrei das conversas sobre música, Madonna e Britney, sobre os ex-namorados dele, meus desenhos, do meu hobby em fotografia. Recordei do que falávamos após o sexo e durante o banho, sobre a academia dele e minhas aulas de canto. Trouxe de volta a memória as discussões sobre os arcanos do Tarô, sobre o ressaltado monte de Vênus na mão dele, além do reiki. Não esqueci, também, de quando ele contou dos sonhos não-realizados e eu das minhas relações com minha família, ele contara também dos sofrimentos da casa dele. Falamos sobre tudo. Eu tinha certeza que falamos sobre tudo, menos...
Foi quando ele falando me trouxe novamente a realidade. "Eu conheci um cara ontem e... nossa!, bem que você disse no meu mapa que eu estaria agora numa fase de encarar as coisas de frente... porque eu 'tô muito afim de ficar com esse cara". 

PARTES DOIS

"Ai, ai, amigo Foxx", me chamou ele no bate-papo do Facebook, "me ajuda, por favor?". Eu o cumprimentei, já me disponibilizando em ajudá-lo como fosse possível. Eu coloquei o copo que bebia, um copo de cachaça mineira com limão, ao lado do computador enquanto conversávamos. "Eu não sei o que faço. Lembra do cara que eu te falei outro dia? Que eu estava interessado e 'tava afim de ficar com ele?", confirmei que lembrava e ele continuou a estória: "pois eu conheci mais um super interessante também, um cara de macho pedreiro do jeito que eu gosto". Eu ri e afirmei que isso era culpa do Vênus dele em Libra, ele, no entanto, respondeu: "Amigo, piora! Também hoje reapareceu um cara que eu conheci uns quatro meses atrás, que eu fui muito interessado nele, investi e tudo, mas que do nada ele desapareceu". Eu não pude deixar de rir. "São três então?". Ele confirmou, e me perguntou: "O que eu faço?". 
Ele desfiava um drama imenso, ponderando cada característica dos três rapazes: Flávio, João e Bernardo. Fazia uma lista do que cada um tinha de bom e de ruim, os três querendo namorar com ele. E eu, provavelmente por causa da cachaça que bebia, explodi: "Ah, querido, tudo que eu queria era um problema como esse na minha vida para resolver". Ele não entendeu e me perguntou o que eu queria dizer com aquilo. E, pela primeira vez, contei-lhe de minhas agruras românticas. Disse-lhe que ninguém é capaz de gostar de mim. "Ah, pára!", respondeu, "Isso não é possível! Você não pode ter conhecido todos os caras do mundo, p'ra começar". Eu argumentei que já havia conhecido todos os caras do meu mundo sim. "Ninguém tem o mundo todo p'ra conhecer", disse-lhe eu, "nós temos apenas uma parcela de pessoas, nos sete bilhões que vivem na Terra, aquelas pessoas que circulam em torno de você". Mas ele não concordou. Disse ser impossível. 
"Sabe qual a impressão que eu tive quando te encontrei lá no shopping a primeira vez? Nem te contei. Achei que você era um cara chato, daquelas pessoas cultas arrogantes, e que por causa disso não ia querer nada comigo. Eu que tenho apenas curso técnico e moro com meus pais". Eu gargalhei alto do meu lado da tela do computador e respondi: "Mas no fim quem não quis nada comigo foi você, não foi?". Ele demorou um tempo para responder, mas respondeu. "Foi...". E um silêncio se instalou por um instante dos dois lados da conversa. Ele então a retomou: "A gente tem uma afinidade incrível, até mesmo no sexo. E eu adoro fazer sexo contigo, fico de pau duro só de lembrar", eu então falei que apesar desta afinidade eu não entrei nessa lista de prováveis pretendentes nem por um segundo, e num arroubo de curiosidade e provavelmente de influência do álcool também, perguntei o porquê. "Não sei dizer", começou ele, "mas eu diria que sinto que não sou páreo p'ra você. Ora, cara, você 'tá fazendo doutorado, mora só, enfim... eu sou apenas um assalariado cheio de dívidas no cartão de crédito". Eu não sabia o que responder, mas acabei encerrando o assunto assim: "Pois é! De qualquer forma eu fico muito feliz em ter conhecido você. Tenho certeza que podemos ser grandes amigos!". Ele demorou um pouco, mas concluiu: "Mas amigos que fazem sexo, né? Afinal eu não sei se resisto a essa barba, esses pêlos no peito... ai, ai...".

PARTE TRÊS

Ele já havia gozado, comigo dentro dele, e eu gozei em seguida, a primeira de muitas naquele domingo que apesar dos inúmeros candidatos a namorado que ele tem, ele reservara para mim. Chegara na minha casa as 9h da manhã e só saíra as 20h, e aproveitamos bastante aquele tempo. Ainda estava com a respiração alterada quando falou: "Você não pode ir embora". Eu levantei do lado dele, olhei nos seus olhos tão bonitos, que se apertavam quando ele sorri. Eu o avisei na véspera que estava voltando para Natal no próximo fim de semana e ele veio naquele dia já para despedir-se de mim. Ele estava sério, olhando para mim. "Eu te proíbo de ir embora", e sorriu. "Olha, as coisas boas que acontecem p'ra mim sempre acabam logo. P'ra quê você 'tá indo embora?". Eu não respondi naquele momento, só o abracei, e ele me abraçou apertado. Beijou-me com desejo também. Eu parei para olhá-lo um instante. Levantei-me e sentei do outro lado da cama, fiquei observando as belas pernas e a barriga definida, o pau já mole, deitado, virado para a esquerda, ele perguntou o que eu estava olhando, respondi que estava registrando aquele momento para que fosse inesquecível. Ele me chamou de bobo. E repetiu: "Você não pode ir embora". Eu o olhei sério nesse momento e perguntei: "Se eu não fosse embora, se eu fosse ficar aqui, você largaria todos esses homens que te cercam e ficaria comigo?". Ele ficou em silêncio, visivelmente constrangido e eu ri. "Sabia que não!". Ele ficou olhando para o teto por uns momentos quando, quase sussurrando, falou: "Nós não daríamos certo como namorados". E eu, apenas pensei, não lhe disse, que era exatamente porque todos em Belo Horizonte pensavam daquele jeito, que eu não tinha motivos para continuar ali. Volto então para Natal, cuidar da minha vida por lá, conseguir um bom emprego e cuidar dos problemas com minha família, porque a procura por namorado encerrou-se agora. "Só para você saber", concluí aquela conversa, "você é sem sombra de dúvida o homem dos meus sonhos, o homem mais bonito e interessante que eu já tive o prazer de ter comigo". Ele me puxou para cima dele e beijou minha boca com desejo, e dali a pouco eu já estava novamente dentro dele, ouvindo-o me chamar de "meu macho", o que sinceramente me excita intensamente.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Egito: O Amante Misterioso de Akhenaton

, em Belo Horizonte - MG, Brasil

Akhenaton

Na tumba do faraó maldito Akhenaton (1364-1338 a.C.), maldito porque este faraó foi o que estabeleceu no Egito o monoteísmo em honra de Aton, isto é, uma religião que cultuava apenas um deus, destituindo todos os outros deuses do panteão egípcio (Osíris, Ísis, Seth, Neith, Mâat, Ptah, Thot, Anúbis, etc.),  foi encontrada a múmia de um jovem, com no máximo 27 anos, com a inscrição:

       Smenkhkare, amado de Akhenaton

Egiptólogos têm dúvidas da existência de Smenkhare por causa do desaparecimento da rainha Nefertiti, após a destituição e morte do faraó por aqueles que eram contrários ao monoteísmo que ele pregava. Alguns historiadores propõe que ela teria mudado o próprio nome (e imagem) para um nome masculino para assumir o cargo de faraó, como fez antes a rainha Hatshepsut. É necessário lembrar aqui que para ser regente, as rainhas egípcias poderiam facilmente assumir o trono, em nome de um filho, por exemplo; contudo, nenhuma mulher poderia assumir as coroas de faraó, cargo exclusivamente masculino. A favor desta tese, há uma inscrição no túmulo do faraó-menino Tuthankamon, filho do faraó maldito e de uma esposa secundária de seu harém, o qual assumiu o trono com apenas dez anos após o fim do reinado de Smenkhkare, entre 1338 e 1334 a.C.. Na inscrição, o nome de Nefertiti aparece dentro de um quadrado ladeado pela figura de Anúbis o que quer dizer que a rainha ainda estava viva. 

Nefertiti

Porém, não obstante estas informações, sabe-se que Smenkhkare chegou a casar-se com a filha mais velha de Akhenaton, Meritaton, quando esta tinha dezesseis anos, casamento este que o tornaria faraó, já que a possibilidade de tornar-se faraó era transmitida pelas mulheres da casa real, por ter nascido de uma delas, ou por ter casado com uma delas. Contudo, isto não impossibilita que Nefertiti ainda seja Smenkhkare. A rainha poderia ter feito o casamento ritual com a própria filha para assim garantir sua coroa como faraó. 
Muitas teorias foram propostas criando este mistério em torno deste amante que tornou-se faraó, porém esta discussão toda fora realizada deixando de lado uma questão fundamental. Não sei se vocês, leitores, também notaram, mas a múmia do amado de Akhenaton é de um homem. A discussão na História é empurrada para o plano político, em busca de Nefertiti, por dois motivos: 1) o puritanismo dos historiadores; 2) a relação entre o monoteísmo de Aton e o Cristianismo. Falemos sobre um de cada vez.

Smenkhkare e Meritaton

Os historiadores, nos últimos séculos, sempre têm evitado tocar nos assuntos relacionados a sexualidade. O sexo e a sexualidade só tornaram-se assuntos passíveis de serem investigados historicamente da década de 1960 para cá. Sendo assim, era bem comum que ao deparar-se com questão ligadas a sexualidade este tipo de história fosse considerada "anedotas de alcova" e, portanto, depreciadas como parte do conhecimento científico. Um amante do faraó, neste caso, não passaria de uma piada de mal gosto a ser contada na mesa d'algum bar.
Além disso, o monoteísmo proposto por Akhenaton é a primeira proposição de uma religião monoteísta do qual a história tem conhecimento. Todos os estudiosos do cristianismo e outras religiões monoteístas reconhecem que graças a presença hebraica no Egito, durante o reinado do faraó maldito, estes foram influenciados pela reforma na religião que o faraó estava propondo. Não seria exagero afirmar, inclusive, que é Akhenaton, no Egito, o grande pai das religiões monoteístas que foram construídas séculos mais tarde ainda ali na Crescente Fértil. Portanto, dar crédito que o grande pai do Cristianismo tivera um amante, provavelmente um jovem eunuco, que tornara-se tão importante publicamente que assumira a coroa do Alto e Baixo Egito, importante o bastante para casar-se com a princesa e proteger a rainha que também era perseguida, até sua própria morte poucos anos depois.
O mistério de Smenkhkare, no entanto, persiste. Enquanto o túmulo de Nefertiti pelo menos não é encontrado. O que provavelmente não acontecerá já que ela ainda estava viva após a morte do faraó-menino Tuthankamon. A mais bela rainha, como diz seu próprio nome, provavelmente fugiu e morreu anonimamente. 

sábado, 19 de novembro de 2011

CONVOCATÓRIA

O lindo do Raphael Martins, do Forever Young, está convocando a todos (blogayroz, não-blogayros, ex-blogayroz) a mandar perguntas para a entrevista que ele vai realizar comigo no fim de novembro. Então, se você tem alguma pergunta que gostaria de fazer a mim, entra no blog lá e deixa sua pergunta (segundo regras do Forever Young cada um pode deixar duas perguntas).

Cliquem aqui e deixem sua pergunta.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Trompe L'oeil (Segundo Encontro)

, em Belo Horizonte - MG, Brasil


PARTE UM

Após o convite feito por mim para passar o feriado de Finados comigo, ele me chamou para uma conversa. "Foxx, acho que você está bem interessado em mim, certo?". Não neguei, não sou do tipo que faço esses jogos. "É esse o problema, cara. Eu sou esse tipo de pessoa que cativa as pessoas". Eu comecei a pensar que ele estava brincando, mas ele continuou. "E isso só me arranja problemas, porque eu não estou a fim de qualquer tipo de romance com ninguém, mas as pessoas que eu conheço sempre se apaixonam por mim". Eu então percebi que era sério, e tomei as rédeas da situação. "Ei, quem disse que eu estou apaixonado por você? Calma!, você também não é tão irresistível assim. Eu estou interessado, você é uma pessoa incrível, rara mesmo, mas não passa disso". Tentei trazê-lo a realidade, e estava sendo realmente sincero, afinal, fora um encontro apenas. I'm not that crazy.
Ele tentou se explicar, ignorando convenientemente minhas palavras. "Olha, você é uma pessoa esplêndida", neste momento eu não pude deixar de me perguntar: quem usa a palavra esplêndida?, "mas agora eu não estou interessado em me prender a ninguém. Minhas últimas experiências foram meio traumáticas sabe?". E começou a desfiar um rosário de namoros malsucedidos. Malsucedidos porque não duraram tanto quanto ele desejou que durassem. E para concluir, ele disse: "Uai, mas você é muito gostoso, Foxx. Então, se não for um problema para você, eu quero continuar fazendo sexo sempre que você puder. Afinal, não é todo dia que encontramos um homem com cara de macho como você, essa sua cara de pedreiro, operário". E eu gargalhei, era a primeira vez que alguém dizia que tenho cara de macho e de proletariado.


PARTE DOIS


"Quer me comer amanhã?", foi como ele começou a conversa naquele sábado. E eu pensei duas vezes. Será que eu queria mesmo me envolver nesse tipo de relacionamento? Friends with benefits. Sexo sem nenhum compromisso entre nós dois? Porém não seria o sexo com o qual estou acostumado, com alguém que eu nunca vi antes e que nunca reencontrarei de novo; seria, realmente, uma situação distinta das que eu já havia experimentado. Contudo, ao mesmo tempo, não é aquilo que eu estava procurando. Não seria um relacionamento com alguém que realmente gostasse de mim, mas com alguém que estava aproveitando o fato de eu estar disponível, que estaria apenas passando o tempo comigo, fazendo sexo com alguém que ele considerava gostoso, afinal ele não estava - como afirmou - interessado em conhecer alguém com quem ele quisesse namorar. 
Mas e eu? Deveria investir numa pessoa que já dissera não estar interessada em nada mais sério, mas, como disse uma das meninas que mora comigo, "ninguém nunca está interessado em ninguém, até que se vê envolvido e não pode sair".  Sendo assim, apesar de não ser nas condições que eu gostaria, que obviamente não seria estarmos imediatamente namorando porque nos conhecemos faz apenas uma semana, mas que esta possibilidade poderia existir, estar com ele significaria uma possibilidade de que algo poderia acontecer. Além do mais, eu voltaria a fazer sexo. O que, convenhamos, não seria tão ruim assim, não é? 
Todos esses questionamentos duraram os segundos entre a pergunta dele e a minha resposta. "Claro, seu gostoso, que horas você passa por aqui?". E marcamos. E as 14h de um domingo ensolarado ele chegou na minha casa. 

PARTE TRÊS

"Bate, vai, bate na minha cara, meu macho!", ele pediu. Eu me surpreendi, ele estava mais solto desta vez. Apertara os músculos do meu braço até deixar as marcas do seus dedos, puxava minha bunda também para me fazer estar mais fundo dentro dele, mordia meu lábio olhando dentro dos meus olhos. Ele estava para um sexo selvagem naquela tarde. E eu entrei na brincadeira. Levantei e puxei uma corrente que uso como pulseira e ele surpreso me viu prendê-lo na cama e começar a morder seus mamilos, descendo pelos músculos definidos da barriga dele, até seus pêlos pubianos que puxei com os dentes e senti seu pau duro bater no meu rosto. Lambi seu pênis, com ele se contorcendo, descendo até seu saco e mordendo suas coxas. Não mordiscando, mordendo mesmo, afinal ele pedira para que eu batesse em seu rosto. Ele gemia alto, de dor, de prazer, tudo estava confuso na verdade. Foi quando eu sentei sobre seu peito. "Chupa!", ordenei, e ele fugiu. Um tapa estalou na pele branca do rosto dele. "Chupa, seu macho, porra!". E ele, sem conter um sorriso, abriu a boca e chupou com vontade. "Quero comer essa bunda gostosa!". E ele implorou que não. Eu ignorei, e apenas coloquei as pernas dele no meu pescoço, ignorando os falsos protestos, e devidamente protegido, o penetrei com um movimento rápido e único. Ele tentou gritar, mas eu esperava por isso e tapei-lhe a boca com um beijo. "Não é assim que um macho de verdade te come, não?", sussurrei logo em seguida. E ele, sem esconder que ainda estava doendo, prendeu meu tronco com suas pernas, que eu arranhava com as unhas enquanto mordia sua orelha. "Me fode, vai, arregaça esse cu, meu macho!". Olhei para ele nos olhos, e comecei a socar com força, fundo, ele, com as mãos ainda presas, se contorcia  enquanto eu arranhava seu corpo e mordia seu pescoço e ombro. Ele também rebolava animado. "Mais! Vai! Soca!", ele gritava, "Por favor, soca mais! Soca!". E eu fazia a vontade dele até explodir em gozo dentro daquela bunda branca e deliciosa. Ele sorriu, eu sorri também. Eu, então, sem desatar-lhe as mãos, engoli seu pau duro e chupei até a vez dele gozar na minha boca, dizendo: "você é muito louco, puta que o pariu!"

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

O Que Significa Ter Autoestima?

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Pensava eu cá com meus botões, e com meus seguidores do Twitter, o que significa uma pessoa ter autoestima? Por aqui eu sempre fui acusado de não a ter e, me peguei pensando, o que diabos significa "não ter autoestima"? Perguntei então no Twitter o que significa ter esse monstro e as respostas me deixaram confuso em vários momentos. Recebi respostas como: "significa se achar lindo, chegar na boate e pegar todo mundo"; li também que seria "se amar" e que "se amar é ter autoestima" (adoro respostas circulares!), também me disseram que "é estar confortável consigo mesmo em qualquer situação, se apreciar e se amar em qualquer circunstância". 
Note-se que estas definições circulam dentro do mesmo campo semântico, do amor-próprio. Os meus seguidores do Twitter me diziam, então, que uma pessoa que não tem autoestima é uma pessoa que não gosta de si mesmo, que não se sente bem com quem é. Sob esta ótica, eu não conseguia concordar que eu tenho algum problema de autoestima. Eu estou muito feliz com quem sou, com minha aparência, comigo. Acho-me bonito, gostoso, inteligente, inclusive sou muitas vezes acusado, aqui também, de não ser modesto. Ou seja, eu não tenho nenhum problema de amor-próprio. 
Porém um dos meus seguidores mandou-me a definição do dicionário Priberam. E no dicionário dizia, exatamente: 

autoestima 
(auto- + estima
s. f.
Apreço ou valorização que uma pessoa confere a si própria, permitindo-lhe ter confiança nos próprios atos e pensamentos.


E aí sim eu me coloquei a pensar. O amor-próprio que todos falaram antes é uma parte da autoestima, pois ela é composta por um apreço que temos por nós mesmos, o que permite que nos valorizemos (por isso um dos meus seguidores, inclusive disse que autoestima significa "saber a hora de dizer adeus"). Contudo, e aí consistia meu engano, autoestima significa também que a partir desta valorização de si mesmo a pessoa consiga confiar nos próprios atos e, portanto, conseguir qualquer coisa que queira (procurei meus amigos psicólogos e minha terapeuta para confirmar esta definição e eles concordaram com ela). E eu, agora faço a mea culpa, eu realmente não acredito que eu seja capaz de conseguir algumas coisas que desejo. Algumas coisas não, uma coisa: namorar. Então, em teoria, sim, eu tenho um problema de auto-estima, apesar de não ter nenhum problema de amor-próprio, pois eu realmente não acredito que eu seja capaz de conseguir algo que desejo.
Bem, os processos de cura começam quando você reconhece a existência de um problema, não é? Então minha pergunta agora é: como recuperar a minha autoestima se, de fato, eu não consigo namorar, e esse é o problema que eu não acredito que sou capaz de resolver? Você é capaz de criar uma crença de sua capacidade de conseguir algo mesmo se toda vez que você tenta nunca consegue? O que eu preciso é de uma vitória neste campo para acreditar novamente que sou capaz disso também, mas como conseguir essa vitória? Mas, de fato, devo agora admitir, foi essa racionalização (não tenho namorados logo ninguém gosta de mim logo ninguém nunca virá a gostar) que corroeu minha autoestima.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Trompe L'oeil (Primeiro Encontro)

, em Belo Horizonte - MG, Brasil

PARTE UM


Acordei naquele domingo de primavera, em que o sol brilhava alto, dando a Belo Horizonte cores brilhantes, sem esperar muito. Na verdade, esperava apenas assistir os filmes que baixei e ler o novo livro da Lolita Pille que comprei por R$ 9,90. Tudo isso na minha cama, entre cobertores e o edredom. Nem abrira a cortina ainda quando liguei o laptop, precisei ligar a luz para que o programa de reconhecimento facial ativasse o computador, e entrei no Facebook, para checar as novas mensagens e as atualizações, ritual que faço todos os dias de manhã, junto ao Twitter e agora também o Tumblr. No Facebook então, no canto direito, havia o recado "André e outras 4 pessoas te cutucaram". As três eu sabia quem eram, mas André não. Era um desconhecido. E entrei no seu perfil então para descobrir mais sobre ele, e encontrei, entre várias fotos da Madonna, um homem de 1,90m de altura, corpo sarado e sobrenome alemão. Um homem belohorizontino de sorriso safado, olhar penetrante e judeu. Um homem de trinta anos, fã de The Corrs, da década de 1980, e de Adorável Psicose. Resolvi responder, não com outra cutucada, mas mandei uma mensagem dizendo: "é bom receber uma cutucada logo cedo assim de um homem tão interessante, faz bem!". Ele respondeu a mensagem também, minutos depois,  dizendo que era um prazer e em seguida me adicionou. Eu aceitei, porque não afinal de contas, porque não?, e logo ele me dizia "oi" no bate-papo. 

PARTE DOIS

Conversamos no bate-papo do Facebook por horas, até que por volta das 15h daquele domingo ele fez um convite. "Que tal nos conhecermos pessoalmente ainda hoje?". Eu concordei, o que ele contou depois ter se surpreendido porque mineiros não fazem isso nunca. Encontramo-nos num shopping no centro da cidade e ele era ainda mais bonito do que parecia nas fotos. Tímido, sorria olhando para baixo, e andava com as mãos dentro dos bolsos da calça. Tinha braços tão grossos quanto minhas pernas e eu ficava na altura de seu queixo. Eu pensei imediatamente, enquanto caminhávamos para as mesas da praça de alimentação: "Nunca que um homem desses vai se interessar por mim...". Mas quando sentamos a primeira surpresa aconteceu: "Você disse no Facebook que se eu quisesse bastava pedir um beijo, então... cadê meu beijo?". Eu sorri e ele também, aquele mesmo sorriso safado das fotos. E insistiu no pedido. "Aqui? Na praça de alimentação do Shopping Cidade?". Ele confirmou e eu o beijei. Afinal, porque não?
Depois daquilo, ele pediu para sairmos, procurarmos um lugar para ficarmos mais a vontade. Eu não sabia que lugar ir e ele sugeriu imediatamente: "Que tal um motel?". Eu sorri, estávamos já saindo do shopping quando ele propôs e eu respondi que não. "Olha, nada contra, mas eu não vim aqui p'ra fazer sexo com um cara que eu mal conheço. Prefiro sentar em um bar e conversar para nos conhecermos e talvez... depois...". Pela minha experiência, eu seria dispensado ali, vinte e seis minutos depois de encontrá-lo, mas ele sorriu e disse que tudo bem, "mas então vamos para onde?". Ali do lado havia um bar gay, o Vila Paraty, inspirado nas praias do histórico porto no Rio de Janeiro, mas que só estaria aberto em uma hora, e eu o convidei para darmos então um passeio pelo Parque Municipal e ele topou, não sem antes, me puxar pela mão e me beijar, com vontade, ali mesmo na Rua Rio de Janeiro. Caminhamos até o parque de mãos dadas, a mão dele, grande, cobria a minha completamente, ele não se importava com quem nos visse e mesmo no parque, ao sentarmos em um dos bancos, ele não evitou passar a mão em meus ombros e conversarmos juntinhos, como namorados. Falamos sobre gostos pessoais, que ele me adicionara porque adorava barba e pêlos, falamos também das nossas famílias, de irmãos, de nossas ascendências, falamos de livros, música e ele falou animadamente de Madonna e Kylie Minogue. Falamos do meu pai e do sobrinho de três anos dele, falamos sobre os problemas da educação no Brasil e sobre os acidentes que aconteceram naquele parque meses atrás. Conversamos sobre a internet wi-fi ser disponível dentro do parque e sobre o corte de cabelo de um amigo dele que mandava mensagens enquanto conversávamos.
Foi quando, uma hora depois, ele me chamou para voltarmos ao Vila Paraty, alguns quarteirões dali, e ao entrarmos ele não fez nenhuma questão, me puxou, e falando: "Eu estava louco p'ra fazer isso!", me beijou com intensidade, me puxando para junto do corpo dele. Pude sentir o corpo forte dele, os músculos do braço em torno do meu corpo, o peito largo em contato com o meu, a bunda rija sobre meus dedos. Ele sorriu: "Que mão boba! Adorei!". E conseguimos uma mesa. Conversamos mais. Sobre meu doutorado, e que moro sozinho aqui em Minas Gerais, sobre a tv brasileira no domingo e o Faustão. Falamos sobre o tempo que ele gasta fazendo musculação e sobre eu fazer aula de canto. Até, e já eram 22h, ele se convidar para dormir comigo naquele domingo.

PARTE TRÊS

Chegamos no meu apartamento cedo, não havíamos comido nada no Vila Paraty e eu me propus a fazer uma pizza para nós dois. Ele se surpreendeu por eu saber fazer uma pizza from sketch e pediu para me ver fazer. Ficou parado então, na porta da cozinha, de braços cruzados, enquanto eu misturava farinha, fermento, sal, óleo e água quente para fazer a massa. Deixei a massa descansando, seriam dez minutos, antes de ir ao fogo, quando me aproximei dele e outro beijo intenso.
Ele beijava com força, sugando minha língua, também me apertando, até me afastar e tirar minha camisa, olhando diretamente para meus pêlos no peito, foi quando ele enrolou os dedos entre eles, dizendo: "que macio!". Chamei-o para o quarto e comecei a trocar de roupa, disse-lhe para tirar os sapatos e ofereci-lhe uma bermuda. Ele aceitou. E assim que nos trocamos, ele me puxou para a cama, me beijando novamente e esfregando seu quadril contra o meu. Mordi-lhe a orelha, fazendo-o gemer e logo passei minha barba em seu pescoço.
Ele olhou para mim naquele momento, seu olhar era intenso, parecia de um desejo forte. "Tenho que preparar a pizza p'ra gente". Ele sorriu. Abri a massa da pizza rapidamente. E ele estava lá, atrás de mim. Sorria tranquilo. "Tem que ficar mais quinze minutos no fogo agora". Ele me abraçou naquele momento. "Então temos tempo". E me puxou para o quarto novamente. "Sua barba é linda!". E eu sorri. E nos beijamos de novo.
Minha mão entrou por dentro de sua bermuda e eu apertei sua bunda, macia e dura ao mesmo tempo como é o corpo masculino. "Você gosta mesmo de uma bunda hein?". Eu confirmei e ficamos no quarto entre beijos até ser hora de cuidar novamente da pizza. Bastava retirá-la do forno, espalhar sobre o disco de massa o molho de tomate, depois muçarela ralada e presunto e mais quinze minutos de fogo. Ele começou então a falar sobre Adorável Psicose e resolvemos assisti-lo on-line enquanto esperávamos.
Ele sentou na cama, e me puxou para deitar no seu peito, me abraçava e não largava minha mão, mas em quinze minutos a pizza estava pronta, o tempo de metade de um episódio, comemos assistindo outros dois, e quando terminamos, ele sorriu, safado, e perguntou: "Não quer comer outra coisa também não?". E eu só pude me perguntar: por que não?

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Egito: O Faraó e o General

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Pepi II

Neferkare Pepi II foi o quinto faraó da VI Dinastia. Ele reinou entre os anos de 2287 até 2187 antes de Cristo, reinando por 94 anos, segundo o Papiro Real de Turim, o maior período de reinado de um faraó durante toda a história egípcia. Pepi II subiu ao trono ainda com seis anos de idade, orfão de pai (Merenré I), sendo que sua mãe, Ankhesenpepi II, assumiu o trono como regente até o príncipe chegar a maior idade. Ankhesenpepi II era, ao mesmo tempo, sua mãe, sua tia-avó, pois era irmã mais nova da sua avó, Ankhensenmeriré I, e também foi segunda esposa do seu avô, Pepi I. Com a morte de deste, Merenré I casou-se com a tia e segunda esposa do próprio pai.
Neferkare Pepi II casou-se três vezes, por sua vez. Com Neit, sua meia-irmã, com provavelmente dezoito anos, e Ipuit e Udjebten, suas sobrinhas, logo em seguida. Os casamentos do faraó com membros de sua própria família era comuns no Egito porque garantiam a pureza do sangue real, a pureza de um sangue que era considerado divino e que, portanto, não devia ser misturado com pessoas comuns. Contudo, como afirma o historiador espanhol, José Miguel Ortiz, os egípcios viviam numa espécie de moral em que as relações sexuais, quando não tinham finalidade reprodutiva, poderiam ser vividas se fossem vividas longe dos olhos de todos. E, no Egito, o único problema encontrado nas relações homoeróticas são, definitivamente, sua infertilidade já que a relação familiar e sexual para os egípcios tinha como principal objetivo gerar filhos, contanto, não existem provas de celibato, tanto feminino quanto masculino. Portanto, apesar de casado com membros de sua família, o faraó poderia facilmente viver as inclinações homoeróticas de suas sexualidade facilmente se o fizesse escondido.

Pirâmide de Pepi II

É o que se encontra desta denúncia perpetrada por um homem comum, Teti, registrada no Papiro Chassinat (encontrado pelo egiptólogo francês Émile Chassinat no início do século XX de nossa era, mas originário da Dinastia XXV, entre 770 a 657 a.C, guardado hoje no Museu do Louvre), que viu mais do que queria numa noite qualquer quase cinco mil anos atrás. O texto, acreditam os historiadores, é uma sátira que quer demonstrar a decadência do Império Antigo. Denuncia Teti:

(Antes da leitura do texto egípcio é necessário uma explicação. Os trechos que aparecem "(...)" são momentos no texto em que foram encontradas lacunas, isto é, o papiro desintegrou-se de tal maneira que é impossível recuperar o texto que estava ali escrito. Já os trechos que aparecem entre colchetes "[ ]" são suposições que podem ser feitas porque, apesar do papiro estar em mal estado, se pressupõe que sejam estas palavras que estejam no texto. Agora, boa leitura.)

Aconteceu que a majestade do Rei do Alto e Baixo Egito, Neferkare, filho de Ra,
justo de voz, era o rei benéfico do país inteiro. Nobre como o pai, [príncipe], (...) de sua pessoa
Iti chamado [soube do] amor [que este rei] nutria pelo general Sasenet,
em que [na casa inteira] não havia nenhuma mulher.
O General Sasenet saiu para uma caminhada para distrair
o que conta Teti, verdadeiro no que fala...


Este trecho acima é contem as únicas informações sobre Sasenet. General, solteiro, e amante do rei. Nada mais foi encontrado sobre este personagem além destas poucas linhas. Mas continua o conto dizendo que Teti, ao observar isso, vai ao tribunal de Mênfis disposto a contar tudo, e o tribunal se recusa a ouvir o comum. Diz o papiro: 

o general Sasenet discutiu... [o amor da majestade do Rei do Alto e Baixo Egito] Neferkare
e Teti fora [falar com] o Grande Mordomo, Camareiro, Escriba Real, Oficial dos documentos reais, 
Superior dos Campos, Cortesão da Residência do Rei e do Chefe do Conselho de Mênfis,
que sem [ouvi-lo, o fez] ir suplicante [ao Chefe da Justiça]
[Teti foi recebido] pelos cantos dos cantores, a música dos músicos, as grandes vozes e assobios,
até que o peticionário de Mênfis [tentou falar, mas]
os cantores cantava, eles tocavam a música, os músicos,
que dão vozes ao coral de assobiadores, até que retornou
sem que eles o tivessem ouvido.
Eles acabaram até o vaiando, e por isso Teti chorou com os cabelos em desordem.

Note-se, que neste trecho, a crítica feita pelo texto é ao sistema judiciário egípcio, no qual Teti, tendo uma importante informação sobre a vida do faraó, da qual dependia a própria segurança do mesmo, como veremos abaixo, não consegue fazer sua denúncia porque os rituais para isso impedem que um homem comum como ele fale diretamente ao magistrado. No entanto, entre lágrimas, Teti conta o que vira:

Teti, um comum, viu a divina pessoa do Rei do Alto e Baixo Egito,
Neferkare, saindo durante a noite sozinho.(...)
Lembrou-se Teti de ter dito a si mesmo,
"Neste caso, é verdade o que dizem sobre ele,
que ele sai na quarta hora durante a noite" (...)
Quando Teti seguiu o rei, que chegou a casa do general Sasenet,
ele subiu em uma pedra e bateu seu pé,
nisso a escada foi abaixada para baixo para ele.
Teti, o filho de Henet, então escalou a parede e esperou por 4 horas
Quando sua pessoa divina tinha feito o que quis com [o general],
retornou ao palácio, e Teti, o filho de Henet, seguiu-o
todas as noites, não permitindo que o seu coração o fez opróbrio
e quando sua majestade voltou [para o palácio real, Teti voltou para casa]


Alguns historiadores concentram-se na descrição de Teti sobre o encontro amoroso entre o faraó e o general, dedicando-se a pensar a que a crítica é a degradação moral do fim do Antigo Império, eu, pessoalmente tenho minhas dúvidas. Dado o tempo que o texto gasta falando o quão impossível foi realizar a denúncia, arrancando lágrimas do denunciante, sou levado a acreditar que a crítica é muito mais ao sistema judiciário do que ao comportamento do faraó, contudo somos obrigados a perceber que o ato do faraó era sim um ato preocupante - seja porque ele se expõe saindo a noite sozinho, ou pelo ato sexual em si - porque Teti considera de suma importância relatar isso a justiça em todas as instâncias que ele conhece. Devo admitir: a posição egípcia sobre os relacionamentos homoeróticos ainda é bastante confusa para mim.

domingo, 6 de novembro de 2011

China Medieval


As pesquisas de Pan Guangdan (潘光旦) indicaram que quase todos os imperadores da dinastia Han tinham um ou mais parceiros sexuais homens.[9] Também há descrições de lésbicas em alguns livros de história. Acredita-se que a homossexualidade era popular nas dinastias SungMing e Qing. Os homossexuais chineses nunca sofreram grandes perseguições em comparação aos homossexuais da Europa cristã durante a Idade Média até o século XIX.
Em algumas áreas o amor homossexual era particularmente apreciado. Durante a dinastia Ming havia uma piada muito popular que dizia que a província de Fujian era o único lugar onde a classe alta prosperou graças ao comércio de cortesãos masculinos.[10] Contudo, escritores de Fujian não gostaram desse clichêXie Zhaozhe (1567–1624) escreveu que de Jiangnan e Zhejiang até Pequim e Shanxi, não havia ninguém que não sabia dessa afeição aos homossexuais.[10] Até os missionários jesuítas europeus como Matteo Ricci (1552–1610) que registrou esse fato e o que eles julgavam como sendo "perversões anormais", lamentando que sua prática era frequente e de natureza pública.[11] O historiador Timothy Brook escreveu que essa não era a única preocupação dos jesuítas, desde o celibato os sacerdotes eram alvos fáceis para especulações das mais variadas, incluindo sexuais.[11] As práticas homossexuais envolvendo catamita ou "jovens cantores" eram associadas principalmente pela classe média trabalhadora com o luxo e a decadência da elite.[12] Sabe-se que alguns desses homens eram bissexuais, visto que alguns deles procuravam moças com a mesma frequência que procuravam seus servos masculinos.[13]

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Isso Não É "O Segredo"

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CARA COMUM: Estou falando em perceber a verdade de quem acredita e a simulação dessa situação. As pessoas têm sede de verdade, o protocolo a gente vê por aí todo dia. É essa verdade, que é rara de encontrar, que chama a atenção da gente e que nos faz pensar que vale a pena investir. Tudo bem que tem gente que simula a verdade, mas quando a gente presta a atenção percebemos os sinais do embuste.

FOXX: Se isso fosse verdade, por que quando eu fazia isso com vontade, quando eu realmente acreditava que podia namorar e investia nas pessoas, por que nunca alguém acreditou que eu valia a pena investir? Porque quando eu cheguei em BH, realmente acreditando que aqui eu ia encontrar alguém, porque eu nunca vali a pena?

CARA COMUM: Ah, isso é a mesma coisa de você me perguntar: se isso é verdade, por que quando eu jogava na MegaSena acreditando que podia ganhar, eu não ganhei? Você acreditar tem o valor de te dar um bilhete, que pode ser premiado ou não. Não acreditar também influi, mas na medida de não te dar o bilhete. É claro que a influência de uma das crenças no resultado final é mais determinante que outra.

FOXX: Nossa! A metáfora é boa! E continuando na sua metáfora: quando EU acreditava, comigo, era como se eu ficasse só na fila da agência lotérica, nunca pude nem apostar, comprar o bilhete. Agora eu sai da fila... é como se eu tivesse cansado de ficar em pé esperando na fila, agora cansei, sai procurando algum lugar para sentar. E não quero mais voltar para aquela fila.

CARA COMUM: Mas isso também não exclui a aleatoridade de você encontrar um bilhete premiado esquecido num banco de praça, por exemplo. É extremamente improvável, mas pode acontecer. 

FOXX: É, eu sei. Eu não acredito que exista mais uma mínima chance de dar certo. De eu encontrar alguém que goste de mim e tal. Mas, ao mesmo tempo, é verdade isso que você disse, de achar um bilhete premiado na rua, até porque eu realmente seria um idiota se não levasse em consideração que tudo pode mudar, radicalmente, do dia para noite.

CARA COMUM: Pois é, e  principalmente, essa sua crença de que estará sempre sozinho influi nas suas atitudes, porque você não acredita no comum, só no extremamente raro, só te chamaria a atenção se fosse um bilhete perdido na rua. O que eu quero dizer com isso é que nenhuma crença DETERMINA IRREMEDIAVELMENTE o que vai acontecer, mas ela influi nas possibilidades que se desenham a partir dela. E, que fique claro: isso não é O Segredo.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Cada Um Tem Sua Teoria

, em Belo Horizonte - MG, Brasil




- Sabe porque você está solteiro, Foxx? Disse ele com o dedo em riste.
- Não. Respondi, sorrindo.
- Quer saber? Disse soltando a fumaça do cigarro entre os dentes de um sorriso irônico.
- Por favor. Pedi eu.
- Pois então - e parou para um trago no seu Dunhill vermelho, ou só para aumentar a minha curiosidade - eu acho que é porque você é muito inteligente.
- Como assim?
- Bem... - e soltou anéis de fumaça - as pessoas devem se sentir intimidadas dado a sua inteligência, e ninguém gosta de estar com alguém que nos deixa tão intimidado...
- Mas... - tentei argumentar, mas ele continuava a falar enquanto batia o polegar no filtro para derrubar as cinzas do cigarro.
- Em resumo: ninguém namoraria alguém que o fizesse se sentir burro.
- Nossa! Então eu sou desses pedantes que humilham os outros? Choraminguei.
- Não! Claro que não! Mas não tem como conversar com você sem que você demonstre ser o homem inteligente que você é. Faz parte de você, ora. É quem você é.
- Mas... - esperei agora para saber se ele pretendia continuar falando, porém meu amigo levava o cigarro a boca e eu continuei - p'ra uma pessoa saber que eu sou inteligente assim ele não teria que me conhecer?
- E você acha que precisa mais de cinco minutos de conversa p'ra descobrir o quanto você é foda?



sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"De Cada Amor Tu Herdarás Só O Cinismo"

, em Av. Afonso Pena, 603 - Centro, Belo Horizonte - MG, 30130-002, Brasil


Tenho sido muito injusto ultimamente! Tenho sido muito injusto comigo. Reclamo e sofro tanto por estar sozinho. Procuro em todo lugar uma saída para esta situação como se tudo isso fosse minha responsabilidade. Como se eu fosse o causador desta solidão intensa que me encontro. Como se eu a houvesse escolhido. E, repito, injustamente me acuso, me ataco, me culpo. Acho que é por isso que sofro tanto. Acho que é por isso que essa dor me é tão querida, porque eu me castigo com ela. E, no fim, apesar de racionalmente eu saber que não sou culpado de nada, nas brumas do meu subconsciente, eu me responsabilizo por ter atraído essa solidão para mim. 
Egoisticamente (se essa palavra existe) eu queria ser o responsável por minha vida, mas não sou. Na verdade, sou totalmente incapaz de gerenciar sozinho minha própria vida. Todos nós somos. Essa ilusão de independência, esse castelo de cartas de autonomia, essa miragem de isolamento, nós dependemos o tempo todo de outras pessoas, direta e indiretamente. Do motorista de ônibus que não atrasou o trânsito e você conseguiu chegar mais cedo em casa, ao seu irmão que emprestou parte do dinheiro para comprar seu primeiro apartamento. Nós dependemos de pequenos gestos dos outros, sempre. Mas eu, egocêntrico como minha estrela anuncia, achava que o único culpado, implicado, fiador, responsável, só poderia ser eu. Tolices de um orgulhoso leonino. 
Todavia, eu não sou o culpado de nada. São os outros. Estes seres estranhos que não desejam a minha companhia. Os outros são os únicos responsáveis por não estarem na minha vida. Escolha deles. Somente deles. E, neste caso, meu sofrimento então não viria da minha solidão, mas o que realmente doeria seria o orgulho ferido de não conseguir controlar algo que considero tão importante para minha própria vida. Porque é sim importante, pelo menos para mim. Sofro porque não tenho controle algum e me culpo, me torturando, para conseguir acreditar que eu tenho algum controle sobre isso. Perco meu tempo na terapia tentando parar de sofrer só para construir uma nova ilusão de controle. Porque eu iria poder controlar minha dor, tomar as rédeas deste carro desgovernado acreditando que se eu puxá-las com força os cavalos hão de parar. Mas eles não vão.
Essas pessoas que nunca se interessarão por mim (porque de fato nenhum homem é capaz disso) sempre existirão. Essa dor, portanto, sempre existirá. Essa porrada sempre vai me derrubar, só me resta, sem culpar a mim mesmo, sorrir e me levantar. Claro, talvez, dê para evitar os golpes - evitando ao máximo me envolver com alguém, por exemplo -, mas de vez em quando talvez eu não consiga evitar. Sendo assim, qual o novo caminho? Acredito que agora eu devo tentar encarar tudo com um sorriso irônico, como se tudo não passasse de uma comédia romântica dirigida pelo Zé do Caixão. Uma comédia mórbida com um senso de humor negro, mas no fundo tudo não deve passar de uma grande piada. Só me restou esta opção, então, está na hora de adotar o cinismo.