Pepi II
Neferkare Pepi II foi o quinto faraó da VI Dinastia. Ele reinou entre os anos de 2287 até 2187 antes de Cristo, reinando por 94 anos, segundo o
Papiro Real de Turim, o maior período de reinado de um faraó durante toda a história egípcia. Pepi II subiu ao trono ainda com seis anos de idade, orfão de pai (Merenré I), sendo que sua mãe, Ankhesenpepi II, assumiu o trono como regente até o príncipe chegar a maior idade. Ankhesenpepi II era, ao mesmo tempo, sua mãe, sua tia-avó, pois era irmã mais nova da sua avó, Ankhensenmeriré I, e também foi segunda esposa do seu avô, Pepi I. Com a morte de deste, Merenré I casou-se com a tia e segunda esposa do próprio pai.
Neferkare Pepi II casou-se três vezes, por sua vez. Com Neit, sua meia-irmã, com provavelmente dezoito anos, e Ipuit e Udjebten, suas sobrinhas, logo em seguida. Os casamentos do faraó com membros de sua própria família era comuns no Egito porque garantiam a pureza do sangue real, a pureza de um sangue que era considerado divino e que, portanto, não devia ser misturado com pessoas comuns. Contudo, como afirma o historiador espanhol, José Miguel Ortiz, os egípcios viviam numa espécie de moral em que as relações sexuais, quando não tinham finalidade reprodutiva, poderiam ser vividas se fossem vividas longe dos olhos de todos. E, no Egito, o único problema encontrado nas relações homoeróticas são, definitivamente, sua infertilidade já que a relação familiar e sexual para os egípcios tinha como principal objetivo gerar filhos, contanto, não existem provas de celibato, tanto feminino quanto masculino. Portanto, apesar de casado com membros de sua família, o faraó poderia facilmente viver as inclinações homoeróticas de suas sexualidade facilmente se o fizesse escondido.

Pirâmide de Pepi II
É o que se encontra desta denúncia perpetrada por um homem comum, Teti, registrada no Papiro Chassinat (encontrado pelo egiptólogo francês Émile Chassinat no início do século XX de nossa era, mas originário da Dinastia XXV, entre 770 a 657 a.C, guardado hoje no Museu do Louvre), que viu mais do que queria numa noite qualquer quase cinco mil anos atrás. O texto, acreditam os historiadores, é uma sátira que quer demonstrar a decadência do Império Antigo. Denuncia Teti:
(Antes da leitura do texto egípcio é necessário uma explicação. Os trechos que aparecem "(...)" são momentos no texto em que foram encontradas lacunas, isto é, o papiro desintegrou-se de tal maneira que é impossível recuperar o texto que estava ali escrito. Já os trechos que aparecem entre colchetes "[ ]" são suposições que podem ser feitas porque, apesar do papiro estar em mal estado, se pressupõe que sejam estas palavras que estejam no texto. Agora, boa leitura.)
Aconteceu que a majestade do Rei do Alto e Baixo Egito, Neferkare, filho de Ra,
justo de voz, era o rei benéfico do país inteiro. Nobre como o pai, [príncipe], (...)
de sua pessoa
Iti chamado [soube do] amor [que este rei] nutria pelo general Sasenet,
em que [na casa inteira] não havia nenhuma mulher.
O General Sasenet saiu para uma caminhada para distrair
o que conta Teti, verdadeiro no que fala...
Este trecho acima é contem as únicas informações sobre Sasenet. General, solteiro, e amante do rei. Nada mais foi encontrado sobre este personagem além destas poucas linhas. Mas continua o conto dizendo que Teti, ao observar isso, vai ao tribunal de Mênfis disposto a contar tudo, e o tribunal se recusa a ouvir o comum. Diz o papiro:
o general Sasenet discutiu... [o amor da majestade do Rei do Alto e Baixo Egito] Neferkare
e Teti fora [falar com] o Grande Mordomo, Camareiro, Escriba Real, Oficial dos documentos reais,
Superior dos Campos, Cortesão da Residência do Rei e do Chefe do Conselho de Mênfis,
que sem [ouvi-lo, o fez] ir suplicante [ao Chefe da Justiça]
[Teti foi recebido] pelos cantos dos cantores, a música dos músicos, as grandes vozes e assobios,
até que o peticionário de Mênfis [tentou falar, mas]
os cantores cantava, eles tocavam a música, os músicos,
que dão vozes ao coral de assobiadores, até que retornou
sem que eles o tivessem ouvido.
Eles acabaram até o vaiando, e por isso Teti chorou com os cabelos em desordem.
Note-se, que neste trecho, a crítica feita pelo texto é ao sistema judiciário egípcio, no qual Teti, tendo uma importante informação sobre a vida do faraó, da qual dependia a própria segurança do mesmo, como veremos abaixo, não consegue fazer sua denúncia porque os rituais para isso impedem que um homem comum como ele fale diretamente ao magistrado. No entanto, entre lágrimas, Teti conta o que vira:
Teti, um comum, viu a divina pessoa do Rei do Alto e Baixo Egito, Neferkare, saindo durante a noite sozinho.(...)
Lembrou-se Teti de ter dito a si mesmo,
"Neste caso, é verdade o que dizem sobre ele,
que ele sai na quarta hora durante a noite" (...)
Quando Teti seguiu o rei, que chegou a casa do general Sasenet,
ele subiu em uma pedra e bateu seu pé,
nisso a escada foi abaixada para baixo para ele.
Teti, o filho de Henet, então escalou a parede e esperou por 4 horas
Quando sua pessoa divina tinha feito o que quis com [o general],
retornou ao palácio, e Teti, o filho de Henet, seguiu-o
todas as noites, não permitindo que o seu coração o fez opróbrio
e quando sua majestade voltou [para o palácio real, Teti voltou para casa]
Alguns historiadores concentram-se na descrição de Teti sobre o encontro amoroso entre o faraó e o general, dedicando-se a pensar a que a crítica é a degradação moral do fim do Antigo Império, eu, pessoalmente tenho minhas dúvidas. Dado o tempo que o texto gasta falando o quão impossível foi realizar a denúncia, arrancando lágrimas do denunciante, sou levado a acreditar que a crítica é muito mais ao sistema judiciário do que ao comportamento do faraó, contudo somos obrigados a perceber que o ato do faraó era sim um ato preocupante - seja porque ele se expõe saindo a noite sozinho, ou pelo ato sexual em si - porque Teti considera de suma importância relatar isso a justiça em todas as instâncias que ele conhece. Devo admitir: a posição egípcia sobre os relacionamentos homoeróticos ainda é bastante confusa para mim.