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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Egito: Papiro de Turim

, em Belo Horizonte - MG, Brasil



Quando se fala em manuais de sexo sempre se lembra do manual indiano, o Kamasutra, porém existe uma versão mais antiga, o Papiro de Turim. Este documento foi encontrado ainda no século XIX, perto do Vale dos Reis, a região aonde esta concentrada a maior parte dos túmulos dos faraós egípcios, o papiro de mais de três mil anos, no entanto, ficou guardado dentro de uma biblioteca em Turim, na Itália, com acesso restrito (somente homens podiam acessa-lo). Ele foi publicado, pela primeira vez, com suas falhas (oriundas de sua degradação) pela primeira vez em 1973, e somente em 1987, graças ao alemão J. Oslim, este documento foi explorado e reconstituído. Explica José Miguel Ortiz, q isto se dá porque a maioria dos arqueólogos, cristãos e muçulmanos, se surpreendiam com naturalidade com que os egípcios lidavam com o tema da sexualidade, chegando muitas vezes a alterar os documentos para censurar o que eles consideravam imorais.  
As imagens do papiro trazem funcionários da corte, e mais mulheres, muitas vezes consideradas prostitutas, realizando atos sexuais. É interessante frisar que nestes desenhos os pênis são sempre representados com tamanhos desproporcionais o que Oslim explica como frisando o poder fálico destes homens dentro da sociedade egípcia. As imagens tão explícitas do papiro, no entanto, não surpreendem os historiadores dado a variedade de imagens com conteúdo sexual que são encontradas nas pirâmides, sem contar as inúmeras esculturas de imagens com pênis desproporcionais. 


As imagens se dividem em coito vaginal, sexo oral, coito anal e masturbação. Sendo que representam algumas posições distintas para cada opção. O coito vaginal está representado em seis posições: 1) o homem deitado em cima da mulher; 2) o homem ajoelhado e a mulher deitada de costas no chão; 3) o homem ajoelhado e a mulher de quatro, sobre também seus joelhos; 4) "de ladinho", com a mulher dando as costas para o homem; 5) o hoje conhecido como "frango assado"; 6) sexo em pé, com a mulher sendo sustentada pelo homem com as pernas sobre seus ombros. O sexo oral é pouco representado, contudo, sempre em relações entre homens e mulheres. Sempre homens em pé com mulheres segurando o pênis próximo a sua boca.


As imagens homoeróticas aparecem em relação ao coito anal e a masturbação. Duas posições aparecem sobre o coito anal. 1) com o personagem passivo de quatro; 2) e com o personagem passivo apoiado em uma perna, com a outra sustentada pelo parceiro. Sobre a masturbação, existem inúmeras cenas em que personagens femininos e masculinos masturbam um ao outro (homens masturbando mulheres, mulheres masturbando homens, homens masturbando homens e se masturbando e mulheres se masturbando). José Miguel Ortiz ainda lembra que muitos pênis de madeira e pedra foram encontrados nos túmulos tanto de homens quanto mulheres, o que faz crer que eles também eram usados para masturbação dado o seu tamanho.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Egito: A Tumba dos Amantes

, em Belo Horizonte - MG, Brasil

Niankhkhnum e Knumhotep foram servos reais do faraó Niuserré, da V Dinastia egípcia, e viveram entre os anos de 2480 e 2420 antes de Cristo. Ambos partilhavam o título de "supervisores dos manicuros reais" e como confidentes do faraó. Seu túmulo foi descoberto apenas em 1964 pelo arqueólogo egípcio Ahmed Moussa na necrópole de Saqqara, a maior reunião de túmulos egípcios, localizado ao sul do Cairo, uns 30km, próximo a antiga capital de Mênfis. O túmulo, recheado de imagens com os dois homens abraçados, de mãos dadas e sendo carinhosos um com o outro, deixou os historiadores confusos. Os primeiros registros do túmulo, inclusive, os declaravam como irmãos. Denominação esta que não se sustentou ao se decifrar os textos escritos pelas paredes decoradas do túmulo.

Túmulo dos Dois Amantes - Saqqara

Nas paredes do túmulo, em hieróglifos, há “uma declaração legal que autoriza os sacerdotes do hm realizar seus deveres e que proíbe os membros das famílias dos donos dos túmulos de impedi-los”. Está escrito: "O chefe dos manicures do Faraó, que venera o Grande deus, declara: 'Para estes colegas, Niankhkhnum e Khnumhotep, os sacerdotes funerários que são responsáveis pelas oferendas de sua necropole, nós não permitimos que se prevaleça a vontade de seus filhos ou de suas esposas, pois eles sozinhos devem ser honrados por nós, como nossos pais e nossas mães, e aqueles que estão na necropole'." Essa afirmação revela que ambos eram casados com mulheres, possuíam seus filhos, mas, provavelmente se separaram de suas esposas e, como foram enterrados juntos, acredita-se que eles tenham contraído novas núpcias entre si, abandonando suas famílias anteriores os quais estariam proibidos de serem sepultados no túmulo que elevava o amor entre eles. Niankhkhnum era casado com Khentkaus, uma sacerdotisa, e Khnumhotep era casado com Khenut, chamada na tumba de 'Profetisa de Hathor, Senhora do Sicômoro'. Uma pista que demonstra que ambos estavam casados é o uso de Khnum em seus nomes que significa em egípcio "estamos juntos". Seus nomes juntos então diriam a frase: "Juntos na vida e na morte", numa tradução livre.


Na decoração das paredes, Niankhkhnum sempre aparece numa posição masculina, a direita, enquanto Khnumhotep é caracterizado mais femininamente, a esquerda. A decoração não é distinta dos outros túmulos egípcios, contudo conta um pouco da vida dos manicures. Na entrada eles estão sentados, lado a lado, na porta de sua morada para a eternidade, além de vários locais estarem de mãos dadas, sempre na posição de Niankhkhnum guiado o outro na posição de marido. Na imagem abaixo, localizada ao sul do túmulo, mostra um banquete em que os servos entregam presentes, bebida e comida aos dois amantes, sempre entregando primeiro a Niankhkhnum, o qual este passaria ao seu marido, reproduzindo claramente a posição de um casamento realizado entre um homem e uma mulher na sociedade egípcia.


É, no entanto, na câmara mais íntima que guardava as múmias dos dois chefes dos manicures do faraó que a decoração mostra as cenas mais íntimas entre o casal. Eles aparecem sempre abraçados, sem suas perucas, em cenas claras de extrema intimidade.Os historiadores perceberam, inclusive, que eles se apresentam sempre com seu torso desnudo, sem colares por exemplo, e que nunca usam cintos. Mas poucos historiadores tiveram a coragem de afirmar que estas cenas seriam, basicamente, representações de alcova dos dois amantes. 



PASSEIO VIRTUAL PELO TÚMULO AQUI.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Egito: O Amante Misterioso de Akhenaton

, em Belo Horizonte - MG, Brasil

Akhenaton

Na tumba do faraó maldito Akhenaton (1364-1338 a.C.), maldito porque este faraó foi o que estabeleceu no Egito o monoteísmo em honra de Aton, isto é, uma religião que cultuava apenas um deus, destituindo todos os outros deuses do panteão egípcio (Osíris, Ísis, Seth, Neith, Mâat, Ptah, Thot, Anúbis, etc.),  foi encontrada a múmia de um jovem, com no máximo 27 anos, com a inscrição:

       Smenkhkare, amado de Akhenaton

Egiptólogos têm dúvidas da existência de Smenkhare por causa do desaparecimento da rainha Nefertiti, após a destituição e morte do faraó por aqueles que eram contrários ao monoteísmo que ele pregava. Alguns historiadores propõe que ela teria mudado o próprio nome (e imagem) para um nome masculino para assumir o cargo de faraó, como fez antes a rainha Hatshepsut. É necessário lembrar aqui que para ser regente, as rainhas egípcias poderiam facilmente assumir o trono, em nome de um filho, por exemplo; contudo, nenhuma mulher poderia assumir as coroas de faraó, cargo exclusivamente masculino. A favor desta tese, há uma inscrição no túmulo do faraó-menino Tuthankamon, filho do faraó maldito e de uma esposa secundária de seu harém, o qual assumiu o trono com apenas dez anos após o fim do reinado de Smenkhkare, entre 1338 e 1334 a.C.. Na inscrição, o nome de Nefertiti aparece dentro de um quadrado ladeado pela figura de Anúbis o que quer dizer que a rainha ainda estava viva. 

Nefertiti

Porém, não obstante estas informações, sabe-se que Smenkhkare chegou a casar-se com a filha mais velha de Akhenaton, Meritaton, quando esta tinha dezesseis anos, casamento este que o tornaria faraó, já que a possibilidade de tornar-se faraó era transmitida pelas mulheres da casa real, por ter nascido de uma delas, ou por ter casado com uma delas. Contudo, isto não impossibilita que Nefertiti ainda seja Smenkhkare. A rainha poderia ter feito o casamento ritual com a própria filha para assim garantir sua coroa como faraó. 
Muitas teorias foram propostas criando este mistério em torno deste amante que tornou-se faraó, porém esta discussão toda fora realizada deixando de lado uma questão fundamental. Não sei se vocês, leitores, também notaram, mas a múmia do amado de Akhenaton é de um homem. A discussão na História é empurrada para o plano político, em busca de Nefertiti, por dois motivos: 1) o puritanismo dos historiadores; 2) a relação entre o monoteísmo de Aton e o Cristianismo. Falemos sobre um de cada vez.

Smenkhkare e Meritaton

Os historiadores, nos últimos séculos, sempre têm evitado tocar nos assuntos relacionados a sexualidade. O sexo e a sexualidade só tornaram-se assuntos passíveis de serem investigados historicamente da década de 1960 para cá. Sendo assim, era bem comum que ao deparar-se com questão ligadas a sexualidade este tipo de história fosse considerada "anedotas de alcova" e, portanto, depreciadas como parte do conhecimento científico. Um amante do faraó, neste caso, não passaria de uma piada de mal gosto a ser contada na mesa d'algum bar.
Além disso, o monoteísmo proposto por Akhenaton é a primeira proposição de uma religião monoteísta do qual a história tem conhecimento. Todos os estudiosos do cristianismo e outras religiões monoteístas reconhecem que graças a presença hebraica no Egito, durante o reinado do faraó maldito, estes foram influenciados pela reforma na religião que o faraó estava propondo. Não seria exagero afirmar, inclusive, que é Akhenaton, no Egito, o grande pai das religiões monoteístas que foram construídas séculos mais tarde ainda ali na Crescente Fértil. Portanto, dar crédito que o grande pai do Cristianismo tivera um amante, provavelmente um jovem eunuco, que tornara-se tão importante publicamente que assumira a coroa do Alto e Baixo Egito, importante o bastante para casar-se com a princesa e proteger a rainha que também era perseguida, até sua própria morte poucos anos depois.
O mistério de Smenkhkare, no entanto, persiste. Enquanto o túmulo de Nefertiti pelo menos não é encontrado. O que provavelmente não acontecerá já que ela ainda estava viva após a morte do faraó-menino Tuthankamon. A mais bela rainha, como diz seu próprio nome, provavelmente fugiu e morreu anonimamente. 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Egito: O Faraó e o General

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Pepi II

Neferkare Pepi II foi o quinto faraó da VI Dinastia. Ele reinou entre os anos de 2287 até 2187 antes de Cristo, reinando por 94 anos, segundo o Papiro Real de Turim, o maior período de reinado de um faraó durante toda a história egípcia. Pepi II subiu ao trono ainda com seis anos de idade, orfão de pai (Merenré I), sendo que sua mãe, Ankhesenpepi II, assumiu o trono como regente até o príncipe chegar a maior idade. Ankhesenpepi II era, ao mesmo tempo, sua mãe, sua tia-avó, pois era irmã mais nova da sua avó, Ankhensenmeriré I, e também foi segunda esposa do seu avô, Pepi I. Com a morte de deste, Merenré I casou-se com a tia e segunda esposa do próprio pai.
Neferkare Pepi II casou-se três vezes, por sua vez. Com Neit, sua meia-irmã, com provavelmente dezoito anos, e Ipuit e Udjebten, suas sobrinhas, logo em seguida. Os casamentos do faraó com membros de sua própria família era comuns no Egito porque garantiam a pureza do sangue real, a pureza de um sangue que era considerado divino e que, portanto, não devia ser misturado com pessoas comuns. Contudo, como afirma o historiador espanhol, José Miguel Ortiz, os egípcios viviam numa espécie de moral em que as relações sexuais, quando não tinham finalidade reprodutiva, poderiam ser vividas se fossem vividas longe dos olhos de todos. E, no Egito, o único problema encontrado nas relações homoeróticas são, definitivamente, sua infertilidade já que a relação familiar e sexual para os egípcios tinha como principal objetivo gerar filhos, contanto, não existem provas de celibato, tanto feminino quanto masculino. Portanto, apesar de casado com membros de sua família, o faraó poderia facilmente viver as inclinações homoeróticas de suas sexualidade facilmente se o fizesse escondido.

Pirâmide de Pepi II

É o que se encontra desta denúncia perpetrada por um homem comum, Teti, registrada no Papiro Chassinat (encontrado pelo egiptólogo francês Émile Chassinat no início do século XX de nossa era, mas originário da Dinastia XXV, entre 770 a 657 a.C, guardado hoje no Museu do Louvre), que viu mais do que queria numa noite qualquer quase cinco mil anos atrás. O texto, acreditam os historiadores, é uma sátira que quer demonstrar a decadência do Império Antigo. Denuncia Teti:

(Antes da leitura do texto egípcio é necessário uma explicação. Os trechos que aparecem "(...)" são momentos no texto em que foram encontradas lacunas, isto é, o papiro desintegrou-se de tal maneira que é impossível recuperar o texto que estava ali escrito. Já os trechos que aparecem entre colchetes "[ ]" são suposições que podem ser feitas porque, apesar do papiro estar em mal estado, se pressupõe que sejam estas palavras que estejam no texto. Agora, boa leitura.)

Aconteceu que a majestade do Rei do Alto e Baixo Egito, Neferkare, filho de Ra,
justo de voz, era o rei benéfico do país inteiro. Nobre como o pai, [príncipe], (...) de sua pessoa
Iti chamado [soube do] amor [que este rei] nutria pelo general Sasenet,
em que [na casa inteira] não havia nenhuma mulher.
O General Sasenet saiu para uma caminhada para distrair
o que conta Teti, verdadeiro no que fala...


Este trecho acima é contem as únicas informações sobre Sasenet. General, solteiro, e amante do rei. Nada mais foi encontrado sobre este personagem além destas poucas linhas. Mas continua o conto dizendo que Teti, ao observar isso, vai ao tribunal de Mênfis disposto a contar tudo, e o tribunal se recusa a ouvir o comum. Diz o papiro: 

o general Sasenet discutiu... [o amor da majestade do Rei do Alto e Baixo Egito] Neferkare
e Teti fora [falar com] o Grande Mordomo, Camareiro, Escriba Real, Oficial dos documentos reais, 
Superior dos Campos, Cortesão da Residência do Rei e do Chefe do Conselho de Mênfis,
que sem [ouvi-lo, o fez] ir suplicante [ao Chefe da Justiça]
[Teti foi recebido] pelos cantos dos cantores, a música dos músicos, as grandes vozes e assobios,
até que o peticionário de Mênfis [tentou falar, mas]
os cantores cantava, eles tocavam a música, os músicos,
que dão vozes ao coral de assobiadores, até que retornou
sem que eles o tivessem ouvido.
Eles acabaram até o vaiando, e por isso Teti chorou com os cabelos em desordem.

Note-se, que neste trecho, a crítica feita pelo texto é ao sistema judiciário egípcio, no qual Teti, tendo uma importante informação sobre a vida do faraó, da qual dependia a própria segurança do mesmo, como veremos abaixo, não consegue fazer sua denúncia porque os rituais para isso impedem que um homem comum como ele fale diretamente ao magistrado. No entanto, entre lágrimas, Teti conta o que vira:

Teti, um comum, viu a divina pessoa do Rei do Alto e Baixo Egito,
Neferkare, saindo durante a noite sozinho.(...)
Lembrou-se Teti de ter dito a si mesmo,
"Neste caso, é verdade o que dizem sobre ele,
que ele sai na quarta hora durante a noite" (...)
Quando Teti seguiu o rei, que chegou a casa do general Sasenet,
ele subiu em uma pedra e bateu seu pé,
nisso a escada foi abaixada para baixo para ele.
Teti, o filho de Henet, então escalou a parede e esperou por 4 horas
Quando sua pessoa divina tinha feito o que quis com [o general],
retornou ao palácio, e Teti, o filho de Henet, seguiu-o
todas as noites, não permitindo que o seu coração o fez opróbrio
e quando sua majestade voltou [para o palácio real, Teti voltou para casa]


Alguns historiadores concentram-se na descrição de Teti sobre o encontro amoroso entre o faraó e o general, dedicando-se a pensar a que a crítica é a degradação moral do fim do Antigo Império, eu, pessoalmente tenho minhas dúvidas. Dado o tempo que o texto gasta falando o quão impossível foi realizar a denúncia, arrancando lágrimas do denunciante, sou levado a acreditar que a crítica é muito mais ao sistema judiciário do que ao comportamento do faraó, contudo somos obrigados a perceber que o ato do faraó era sim um ato preocupante - seja porque ele se expõe saindo a noite sozinho, ou pelo ato sexual em si - porque Teti considera de suma importância relatar isso a justiça em todas as instâncias que ele conhece. Devo admitir: a posição egípcia sobre os relacionamentos homoeróticos ainda é bastante confusa para mim.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Egito: As Máximas de Ptah-hotep

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Busto de Ptah-Hotep


Ptah-hotep era o administrador da cidade e primeiro-ministro (ou vizir) durante o reinado do faraó Djedkaré Isesi, na V Dinastia, entre 2380 e 2342 a.C.. Ele e seus descendentes foram sepultados em Saqquara, na necrópole em que os grandes faraós foram sepultados também, numa mastaba ao norte. E seu túmulo tornou-se famoso pelas representações nas paredes como as que esta aqui abaixo, que o representam no seu trabalho de administração da cidade:

Decoração do túmulo de Ptah-Hotep

Os ensinamentos atribuídos a este vizir encontram-se registados de forma completa no Papiro Prisse – assim chamado devido ao egiptólogo francês Émile Prisse d'Avennes, que o encontrou na necrópole de Tebas ainda no século XIX. O Papiro Prisse foi datado do Império Médio, cerca de 1900 a.C, e hoje se encontra na Biblioteca Nacional da França. Além deste papiro, o texto ainda pode ser encontrado em dois papiros que encontram no Museu Britânico, um também do Império Médio e outro do Novo Império (a partir de 1580 a.C.), e também na Tábua Carnavon I, do Museu Egípcio do Cairo. 
Segundo o texto encontrado nesse conjunto de documentos, Ptah-hotep, já em idade avançada, solicitou ao faraó a possibilidade de retirar-se do seu cargo de vizir, solicitando que seu filho o substituisse, o que seria habitual já que na sociedade egípcia se esperava que o filho seguisse a profissão do pai. O faraó aceitou a proposta do seu vizir e este então decidiu que deveria transmitir os seus conhecimentos sobre a vida para o filho.
O texto então divide-se em: 
1) Prólogo, no qual Ptah-hotep se apresenta perante o rei pedindo a sua saída do cargo;
2) As Máximas, 37 conselhos que o vizir dá ao próprio filho;
3) Epílogo
Segundo Miriam Lichteim, este texto, no entanto, provavelmente foi composto no final da VI Dinastia, isto é, muito tempo depois da morte do vizir. Segundo a egiptóloga, as Máximas eram conselhos repetidos pela cultura popular egípcia que foram reunidos em um manual cuja autoria fora atribuída ao vizir para garantir maior autoridade aos ensinamentos. Estes ensinamentos não tem nenhuma ordem aparente, contudo versam sobre as coisas mais simples da vida egípcia, como educação dos filhos, "como é maravilhoso um filho que obedece o pai; cuidado com os campos, "se você trabalhar duro, e se o crescimento acontece como deveria nos campos, é porque o deus tem colocado abundância em suas mãos"; relacionamentos matrimoniais, "ame a sua esposa com paixão"; além de ensinamentos morais como evitar o ódio, a ganância e o ressentimento.
Sobre relações homoeróticas, o parágrafo 32 é a única referência: 

Não copule [nk] com um menino-mulher [hmtj], porque você sabe que isso (geralmente) é opor a [necessidade] ao seu coração, e isso que está em seu corpo não será acalmado. Deixe de gastar suas noites num fazer que se opõe a fim de que possa ser calmo, depois de [extinto], seu desejo. Renuncia a este desejo que ele cessará.

Mais importante do que o conselho claramente negativo atribuído ao vizir Ptah-Hotep, afinal apesar de admitir que o desejo é comum, ele deveria ser submetido a moral e controlado, acreditamos que a citação ao hmtj, isto é, o menino-mulher da tradução que utilizamos é mais interessante para falarmos aqui. 
No Egito, em sua língua, haviam três gêneros: o masculino, tai (lê-se tie); o feminino, sht (lê-se sheket); e um terceiro gênero, intermediário entre os dois, hmtj (heme) ou hmt (hemet). Os historiadores modernos, no entanto, têm dificuldade de explicar como esse terceiro gênero funcionava fora da língua, pois as pistas para descobrir como viviam estes hmtj são difíceis de encontrar. Uma das provas que este gênero é mais do que linguístico são as pinturas nas paredes dos túmulos, como afirma Jockheere. Os tai são pintados uniformemente com um vermelho-ocre, como podemos ver abaixo:


Já, afirma os historiadores especializados em História Egípcia, as mulheres (sht) representadas aparecem pintadas com um marrom-amarelado, como vemos:


Enquanto os hmtj ou hmt são decorados com um claro amarelo-ocre, como vemos abaixo:


Uma das teorias sobre este terceiro gênero é que ele seria composto por eunucos. Eunucos que seriam castrados ou pela retirada do pênis, ou dos testículos ou mesmo a retirada total da genitália. Este processo deveria acontecer, preferencialmente, ainda na infância para evitar que as transformações hormonais da adolescência causassem anormalidades como hipertofia abdominal e ginecomastia (isto é, o crescimento em homens de seios). Contudo mais pesquisas são necessárias, ainda, para podermos entender como funcionava a vida dos hmtj no Antigo Egito.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Egito: O Livro dos Mortos

, em Belo Horizonte - MG, Brasil


Papiro do Livro dos Mortos

O Livro dos Mortos, ou como era realmente conhecido pelos egípcios, o Livro Para Sair Para a Luz (Reu nu pert em hru) é uma coletânea de feitiços, fórmulas mágicas, orações, hinos e litanias que eram escritos em papiro e depositados juntos com as múmias em seus túmulos, cuja autoria era dada ao deus Thot, deus egípcio da sabedoria. O nome Livro dos Mortos foi dado pelo egiptólogo alemão Karl Lepsius por encontra-los sempre junto aos mortos nos túmulos egípcios.
Este livro, na verdade um conjunto de textos escritos em diferentes épocas, servia para ser utilizado pelo morto na sua viagem a terra dos mortos, evitando que este se perdesse, ou caísse nas armadilhas que demônios poderiam armar contra ele, destruindo sua alma (ba) imortal. Diz Maurice Crouzet que ele garantia uma jornada segura ao defunto até o Ocidente, isto é, o por do sol, a terra dos mortos. A ideia central do Livro é a da verdade e da justiça, ideais da deusa Maat, e portanto não adiantariam de nada a riqueza, posição social, pois apenas os atos do falecido seriam levados em conta no julgamento presidido pela deusa e por Osíris, o grande governante do além egípcio.
Como afirma Kurt Lange essa ideia de que o morto seria julgado por sua conduta moral após a morte era única entre as religiões da Antiguidade, pois tanto entre os mesopotâmicos e os hebreus, por exemplo, a vida eterna não dependia das ações do indivíduo enquanto estava vivo. Tal ideia de julgamento após a morte era uma preocupação intensa entre os egípcios e, portanto, o Livro tornou-se muito popular. Apesar da autoria dada ao deus, um autor é reconhecido como um daqueles que produziu parte dos textos que configuram o Livro: Snefferus Karnak.
Neste livro, apenas duas estrofes, no capítulo 125 do Livro, referem-se diretamente a relações homoeróticas, sendo que esta versão é da XVIII Dinastia (de 1550 a 1295 a.C., a dinastia em que reinou Akhenaton, o faraó maldito, que instituiu pela primeira vez o monoteísmo, proibindo o culto aos deuses tradicionais do Egito):

(A20) Eu não penetrei um nk (homem efeminado)
           ou um nkk(w) (homem passivo);
(A21) Eu nunca cometi atos de impureza nos lugares sagrados de minha
           cidade, e nunca descumpri meu voto como sacerdote;


(B20) Que o mal se abata sobre mim, Senhor que vê acima e através de mim,
           que está mais próximo do Templo de Amsu [Min], eu nunca cometi
           pecado contra a pureza;


(B27) Que o mal se abata sobre mim, Senhor que vê o passado,
           que vive em Mênfis, a cidade sagrada, se alguma vez desrespeitei
          sua casa com atos de impureza, como me deitando com homens
           ou mulheres;

O texto do Livro dos Mortos egípcio parece ser claro, contudo não é. Se o verso A20 for lido sozinho a crítica aos relacionamentos homoeróticos é direta, sendo a crítica aqui inclusive rara porque critica o relacionamento do ponto de vista do ativo, porém ao relacionar com o verso A21, isto é, lidos em conjunto, demonstram que a crítica no Livro é aos relacionamentos sexuais cometidos em lugares sagrados, sobretudo os realizados pelos próprios sacerdotes. O verso B27 é outro que explica que não importa se os atos sexuais impuros eram realizados com homens ou mulheres. E, no Egito, os atos sexuais eram considerados impuros, o pecado contra a pureza citado no verso B20, quando feitos em momentos do ano, durante as festas religiosas, em que qualquer tipo de relacionamento sexual era interdito.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Egito: A Pirâmide de Unas

, em Belo Horizonte - MG, Brasil


Pirâmide de Unas


A pirâmide de Unas é oriunda dos fins da V Dinastia, e esta durou dos anos de 2493 até 2344 antes de Cristo. É o período dinástico em que chegou ao ápice o culto ao sol, Rá, e o poder dos sacerdotes na cidade de Iunu Mehet (cujo poder dos sacerdotes do sol era tão imenso que  os gregos batizaram a cidade de Heliopólis, isto é, cidade do sol). Nesta época, também, começou a colonização egípcia no Sinai, a leste, e na Núbia, ao sul. Desse período dinástico também surgem os textos chamados de Máximas de Ptahotep e, entre 2374 e 2344 a construção da pirâmide de Unas, o último faraó da dinastia. 
Foi na pirâmide deste faraó que foram encontrados os textos religiosos mais antigos da humanidade, dentro da necrópole de Saqqara. Como explica Lucas Ferreira, os hieroglifos reunidos sobre o nome de "Textos das Pirâmides" "são um repertório de orações, feitiços, crenças religiosas e parte da cosmologia antiga registradas em passagens, em câmaras e antecâmaras nas pirâmides do Antigo Reino a fim de ajudar o faraó a garantir a sua vida eterna. Eles são uma coleção de textos, sem ordem aparente, que eram usado durante a cerimônia fúnebre". Estes textos, que com a evolução do pensamento religioso egípcio, passaram a prever a imortalidade também para qualquer outro homem além do faraó, são os que passaram a ser deixados junto com os mortos em forma de papiro, o Livro dos Mortos, constituindo teorias da criação, lendas e textos sobre a ressurreição, ou a identificação dos deuses (do Livro dos Mortos falaremos com mais detalhes mais adiante). 
Na parede Sul da pirâmide, então, na entrada 215 consta o seguinte texto:

140:  Ó Unas! Sua mensagem vai,
        Sua mensagem corre até seu pai, para Atum.
        "Atum, deixa-o elevar-se até você, o recebe em teus braços!
141:  Não existe deus, que tenha se tornado uma estrela, sem companhia"
        "Posso eu ser sua companhia, ó meu deus?"
        "Olhe para mim! Tu tens visto as formas das crianças de seus pais,
        quem conhece seus nomes, quem é agora a Estrela Imperecível".
        Pode tu vês os dois que não habitam o palácio: São Horus e Seth!
142:  Pode tu cuspir na face de Horus e remover sua injúria!
         Pode tu devolver os testículos de Seth e acabar com sua mutilação!
         Todo aquele que nasceu para ti, é de tua responsabilidade, ó deus!
143:  Tu nasceste, Horus, com o nome de Ele-é-aquele-antes-da-terra-se-mover;
         Tu foste concebido, Seth, como aquele chamado
         Ele-é-aquele-antes-do-céu-se-mover.
         Tu és aquele sem mutilação, Horus,
         Tu é aquele sem injúria, Seth
         Aquele que não tem injúria, aquele que não tem mutilação
         Então tu, Unas, não tem injúria, nem mutilação!


O texto de Unas volta ao texto que falamos anteriormente, inclusive por isso falamos dele primeiro, o conto de Hórus e Seth, não obstante as versões que apresentei do conto serem mais recentes que o texto gravado no interior da pirâmide do faraó Unas. Este texto, pintado nas paredes do túmulo e preservado graças ao clima seco do deserto egípcio, se preocupa em reforçar que o faraó não carrega a injúria de Hórus, que a ele nunca "cuspiram no rosto", mas ele reforça que apesar disso, mesmo se ele fosse Hórus, o injuriado, "todo aquele que nasceu para ti, é de tua responsabilidade, ó deus!". Sendo assim, pensando na ideia de salvação, na religião egípcia os atos homoeróticos eram desaconselhados, sobretudo aqueles no qual o indivíduo agia passivamente, porque note-se tanto aqui, quanto na Contenda de Hórus e Seth, não existe nenhuma crítica ao papel ativo, durante o sexo, do deus-serpente. 
No entanto, apesar da posição passiva no ato sexual ser uma mancha que recobriria a honra do indivíduo, seria uma mancha que o indivíduo iniciado, isto é, aquele que conhecesse os mitos dos deuses egípcios, poderia apelar ao próprio Hórus e, assim, conseguir sua própria salvação, já que o próprio deus carregaria a mancha e fora limpo diante da Eneada, o Tribunal dos Deuses. Pensando inclusive na ideia de salvação egípcia que envolvia um coração equilibrado, isto é, que não guardava mágoas, mas que também não aceitava tudo que era feito contra ele. No Livro dos Mortos conta-se que o coração do morto era pesado pelos deuses, ele deveria ser do peso exato de uma pena, símbolo de Mâat, a justa medida, nem mais pesado, nem mais leve. Aquele que tivesse o coração com o peso de uma pena seria salvo e viveria ao lado dos deuses, e as relações homoeróticas, apesar de mancharem a reputação de um egípcio, não impediam a salvação de sua alma imortal.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Egito: A Contenda de Hórus e Seth

, em Belo Horizonte - MG, Brasil




Começamos a falar do Egito a parti deste conto originário da XX Dinastia, da época entre 1190 e 1077 antes de Cristo. Esta é a dinastia após a dinastia do faraó Ramsés II, chamado de o Grande, cujo qual é o mesmo que participa da estória bíblica de Moisés. A XX Dinastia é formada por dez outros faraós, nove deles chamados também de Ramsés (do III ao IX), além do primeiro faraó, filho de Ramsés II, Setnakht. Estes governaram a partir da cidade de Uaset (ou Tebas, em grego, como ficou conhecida), no centro do Egito, e construíram a grande necrópole tebaida. Ramsés III foi o maior faraó da dinastia, o segundo a reinar no Egito, e foi responsável por manter o território protegido de invasões dos Líbios, que viviam no deserto a oeste, e dos chamados "Povos do Mar", oriundos dos Balcãs, e uma nova migração dos Filisteus. 
Aqui está o conto:




Seth disse a Hórus: “Venha a minha casa passar algumas horas de prazer”. E Hórus respondeu: “Com prazer, com prazer, querido de meu coração”.  Ao anoitecer, a cama foi arrumada para eles, e os dois se deitaram. No meio da noite, Set fez seu membro endurecer e penetrar entre as nádegas de Hórus. Porém Hórus colocou sua mão entre as próprias nádegas e impediu que a semente do deus entrasse em seu corpo.
Hórus, então, foi ver sua mãe, Ísis, e disse: "Ajuda-me! Venha e veja o que Seth me fez". E abriu sua mão e deixou-a ver o esperma de Seth. Com um grito, ela pegou sua arma e cortou fora a mão do filho, jogando-a na água e conjurando uma nova mão para ele.
Quando a Eneada voltou a se reunir, Seth disse que tinha feito o trabalho do macho com Hórus e exigiu que o cargo de governante continuasse com ele, alegando que ele estava desqualificado. Quer fosse filho de Osíris, quer não, agora tinha sua semente dentro dele, o que podia lhe dar o direito de sucedê-lo, mas jamais de precedê-lo!
Os deuses então gritaram muito, humilharam e cuspiram na face de Hórus.
Hórus, no entanto, falou que Ísis o mandara endurecer o membro e derramar o próprio sêmen numa vasilha; em seguida, indo para a horta de Seth, depositara-o numa alface, a verdura que o deus mais gostava, e que este a havia comido logo depois. "Portanto", anunciou Hórus, "a semente de Seth não está dentro de mim, mas a minha está dentro dele. Logo, o desqualificado é ele!”.
Atônitos, os deuses pediram a Thot para resolver a questão. Ele verificou o sêmen que Hórus levara a Ísis e que ela guardara num pote, constatando que era mesmo de Seth.  Em seguida examinou o corpo de Seth e confirmou que ele continha o sêmen de Hórus. Furioso, Seth não esperou o fim das deliberações. Saiu gritando que só uma luta até o amargo fim poderia decidir aquela questão.


Esta outra versão já é anterior ao conto acima, isto é, mais antiga que o conto acima. Da XII Dinastia, isto é, de entre 1991 e 1803 antes de Cristo, cuja qual é o ápice do Império Médio, que se inicia com a mudança da capital de Uaset para a capital, até hoje perdida, de Itj-Tawy.



O divino Seth disse ao divino Hórus: "Como são bonitas suas nádegas. Que lindo! Deixa-me entrar em suas pernas." E a pessoa de Hórus disse: "Cuidado, devo dizer-te isso". E correu para sua mãe, Ísis, e contou que Seth desejava possuí-lo. E ela disse para ele: "Toma cuidado! Não te aproximes dele. Mas quando ele mencinoar isto novamente, dirás o seguinte para ele: 'É demasiado doloroso para mim, porque pesas mais do que eu. Minha força não suportará sua força'. Quando ele te der a força dele, então, coloca teus dedos entre tuas nádegas, ele apreciará demasiadamente. Mantém a semente dele contigo, então, e não deixa que o Sol a veja".
Tudo aconteceu e Hórus agiu como sua mãe havia aconselhado. Trouxe então, em sua mão, a semente do divino Seth. Depois disso, Ísis jogou a semente de Seth em um córrego próximo. Voltou então ao seu filho e pediu que ele despejasse sua semente em um pote e espalhou o sêmen de Hórus na alface e deu-o a Seth para comer. 
Quando então Seth se vangloriou para os deuses que tinha tomado Hórus, e o jovem negou. Para resolver a contenda, os deuses chamaram a semente de ambos. A semente de Seth respondeu da água, onde Ísis a havia jogado, enquanto a semente de Hórus surgiu na testa de Seth, na forma de um disco dourado que Thot transformou no símbolo da lua. 


A questão aqui é bem óbvia, na verdade: a desqualificação do passivo, daquele que participa da relação sexual, usando a expressão do próprio conto, no papel de fêmea. Ele não pode ser colocado numa posição de primazia diante daquele outro que faria o papel de macho. Como diz, no primeiro conto: "agora tinha sua semente dentro dele, o que podia lhe dar o direito de sucedê-lo, mas jamais de precedê-lo!". É, na verdade, uma definição sobre o estatuto social deste membro da sociedade egípcia e não uma negativa sobre o comportamento homoerótico. Em outras palavras, que o homem-macho, digamos assim, estava no topo da pirâmide social, seguido dos homens-fêmeas e depois as mulheres. Essa divisão em três sexos era comum no Egito Antigo e falaremos mais dela adiante.