Google+ Estórias Do Mundo: Setembro 2006

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

QUANDO EU PENSAVA QUE ERA GAY

Texto de setembro de 2004. Quiz republicar este texto antigo pra poder explicar como este blog vai funcionar. Ele vai falar de uma parte de mim. Outras, vcs vêem em outros lugares.

Era uma vez um menino que nasceu diferente e o mundo definiu que ele era gay. Ninguém perguntou o que ele era, eles só definiram um estigma e colocaram-no em sua testa como uma coroa de espinhos. O estigma também o feriu. Também o fez sangrar. Psicólogos foram chamados. Conselhos de padres foram buscados. Mas ninguém lembrou de perguntar ao menino o que ele era.

Ele tinha 7 anos e já era. Não importava o quê, mas era. Aos 7 anos, o menino não tinha noção do que ele era, mas ele era. Porque “quando o povo fala, ou é, ou foi, ou será”. Não tinha importância o que o menino era, importante era que todos já haviam decidido o que ele era. Não precisava perguntar.

Ele não podia ser só diferente? “Ele não é um menino igual aos outros, só isso”. Mas isso não é resposta que se dê. Ninguém “não é”, todos tem que “ser”. O mundo queria uma definição segura sobre aquele menino de 7 anos, queriam saber o que ele era e aquilo que ele não era. Por isso o batizaram apressadamente, correram apressadamente, o condenaram apressadamente. Mas ninguém lembrou de perguntar ao menino o que ele era.

Desde os 7 anos, o menino quis ser outra pessoa. Porque todos diziam que ele era uma coisa, que ele sentia profundamente que não era. Mas aos poucos, o menino começou a convencer-se de que era. O menino começou a achar que se todos falavam, ele devia ser, afinal, como todo mundo ia errar? O menino pensou: “Se eles dizem, eu devo ser”. E quando ele começou a pensar, até o menino esqueceu de perguntar a si mesmo se era.

Então, a partir dos 7 anos, sendo ou não, o menino achou que era. Ele devia ser. Todos diziam: “Parece que é”. Mas dentro dele, ele não era. O mundo queria que ele fosse, porque assim eles estavam mais seguros, não precisavam pensar uma nova categoria para o menino. Ficava mais fácil usar àquelas que todo mundo era. “Quem é esse menino para exigir que pensemos?”.

Mas um dia o menino de 7 anos cresceu. Claro ele cresceu pensando que era, contudo conhecendo como o mundo era, o menino descobriu que tinham decidido o que ele era sem tê-lo perguntado. Ele percebeu que antes que o perguntassem qualquer coisa haviam aprisionado qualquer desejo seu de ser alguma coisa. Afinal ele era. Agora que ele era, só lhe restava ser aquilo que quem é, era. Manter-se marginal e distante dos holofotes. Se era a sombra que lhe pertencia? Era.

Mas o menino não queria ser assim. Não queria prisões. Sua diferença estava exatamente na liberdade de fazer qualquer coisa. Sem limitações. Sem pré-definições. O menino queria lançar-se ao vazio e ver no que dá. Mas o menino era. E este era aprisionava-lhe na Terra, prendia seus pés no chão.

Ele precisou de ajuda para desamarrar os próprios pés. E tornar-se leve de novo. Leve o bastante para que o vento o levasse. E levasse o que ele era embora. Afinal aquilo que não somos, sai com água. Ele não era, e aprendeu que aquilo que ele é, ainda não foi inventado.