Google+ Estórias Do Mundo: Junho 2013

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Cura Gay: O Começo de Tudo



Não vou discutir o absurdo desta proposta, nem a homofobia implícita neste projeto, ou o problema político que representa a presença de Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos, o que me preocupa é o precedente que a aprovação deste projeto abre na sociedade brasileira, que ao meu ver leva somente para um caminho: uma teocracia cristã nos moldes do Talibã islâmico. A cura gay não é um projeto que legisla sobre a vida das pessoas, ele não se preocupa com o comportamento privado de nossos gays e lésbicas, este projeto pretende legislar sobre a psicologia, sobre as afirmações científicas que esta ciência construiu sobre as relações homoeróticas, sobre o conhecimento que desde o século XIX a ciência da alma produziu sobre este aspecto da psiquê humana.
A psicologia, como ciência, é a maior responsável pela criação da homossexualidade como a conhecemos hoje. Foi ela que diagnosticou o comportamento homoerótico como distinto do comportamento heterossexual e, naquele momento dos anos de 1800, definiu este comportamento sexual como doentio. Contudo, a ciência sempre se projeta para o progresso (quando há liberdade) e, com isso, um século depois, somente no fim do século XX, ela reconheceu que estava enganada e reconheceu que o único sofrimento que a homossexualidade pode trazer para um indivíduo é quando, por causa do preconceito, não consegue assumir o seu próprio desejo, definindo o Transtorno Egodistônico.
No entanto, este progresso é agora impedido do lado de fora da ciência. Um projeto de lei proposto por um grupo ligado a setores religiosos de nossa sociedade pretende, sob a desculpa de manter a liberdade de pensamento, legislar sobre um tema que lhe escapa completamente: uma verdade científica. Não é nada além disso! Os deputados-pastores e devotados católicos querem definir, a força de uma lei, o que uma ciência deve acreditar e defender. E isso é deveras perigoso! Não sei, neste caso, onde estão até agora o CNPq (Conselho Nacional de Pesquisas) e a SBPC (Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência) que não se manifestaram ainda temendo o mesmo que eu. O que impede que este mesmo grupo, a bancada evangélica, lance projetos de lei proibindo o Evolucionismo, a teoria que propõe que os seres vivos evoluíram a partir de criaturas unicelulares até os complexos seres vivos de hoje, na Biologia; ou proibir as pesquisas em Pré-História, já que a Bíblia diz que a Terra tem apenas 5 mil anos e os primeiros registros humanos no Brasil, por exemplo, datam de pelo menos 15 mil anos atrás?
Este projeto abre um precedente, como eu disse, que vai exatamente de encontro a desculpa que eles usam: a liberdade de expressão. Este projeto determina, de fato, que o poder legislativo brasileiro tem o poder de decidir como a ciência pode pensar, como deve agir e o que pode defender. Rouba-lhe, por completo, todo e qualquer liberdade de expressão. Nossas ciências estão agora sobre o mando poderoso dos homens da religião, voltamos a Idade Média. A aprovação deste projeto é a confirmação do controle de nossas mentes pensantes pelos nossos deputados e senadores e é assim que as piores ditaduras começam, inclusive Guerra nas Estrelas.


Feliz dia do orgulho gay!

terça-feira, 25 de junho de 2013

China: O Rosto de Jade

, em Natal - RN, Brasil


A complexidade das relações homoeróticas, como todas as relações humanas, inevitavelmente, levou à criação de obras poéticas imortalizando sentimentos conflitantes, não os sentimentos comuns no mundo contemporâneo de negação do desejo pela pessoa com o mesmo sexo, mas as situações de desejo e amor não correspondido que são frequentes em todo tipo de relacionamento amoroso humano. Ruan Ji, que viveu entre 210 e 263 d.C., amante de Xi Kang, foi um dos poetas mais famosos ao aplicar o pincel com um tema homoerótico. Sua principal obra, O Terraço de Jade, configura uma coleção de poesias de amor em que o tema homoerótico perpassa boa parte delas e ilustra muito bem a realidade vivida pelos homens chineses da Antiguidade. Rhuan Ji saca um arquivo de imagens com os quais os homens de seu tempo poderiam desenhar, conceituar e descrever o amor por outro homem. Vejamos um trecho de sua poesia:

Nos dias de idade, havia muitos meninos em flor -
Um Ling e Long Yang
deslumbrante com brilho glorioso.
Alegre como noves primaveras;
Flexivelmente foi como se inclinou até ao outono de geada.
Olhares errantes deu origem a belas seduções;
Discurso e fragrância, riso expulso.
Lado a lado eles compartilhavam êxtase do amor,
partilhavam travesseiros e roupas de cama.
Casais de aves em voo,
asas. emparelhados crescentes
Vermelho e pigmentos verdes gravam um voto:
"que eu nunca vou esquecer de você por toda a eternidade"
E da mesma forma que a poesia utilizava as estórias populares como referências, o estilo literário surgido dois séculos depois na China, a História, também imitou o mesmo modelo para falar sobre as relações entre pessoas do mesmo gênero. Um exemplo é Os Novos Contos do Mundo, escritos por Liu Yiqing, entre 404 e 444 d.C., uma coleção notável de anedotas e discursos famosos, mas também um grande registro de fofocas, principalmente histórias de alcova, sobre as grandes figuras da história chinesas nos três séculos anteriores. Explica Bret Hinsch, inclusive, que o livro está convenientemente dividido em temas como "Casos Amorosos de Imperadores" ou "Cartas e Livros", um capítulo inclusive é destinado para falar sobre a beleza dos homens.
O capítulo "Aparência e Comportamento", além de listar os homens mais belos da história chinesa, também fala de como as outras pessoas em torno deles se comportavam graças a beleza que eles possuíam. Hinsch ainda reforça que por este capitulo se torna claro que os homens do século V d.C. discutiam com frequência sobre a beleza masculina. No entanto, essa discussão, raramente ganha um tom sexualizado, como por exemplo ao citar o relacionamento entre o poeta Pan Yue (247-300) e Xiahou Zhan (243-291). Eles são descritos como "irmãos jurados" e que por causa disso deviam vagar juntos, são descritos também como extremamente bonitos, mas não existe nenhuma referência a alguma relação sexual entre eles, a não ser o fato de que eles são chamados pelos seus contemporâneos, deixa claro Liu Yiqing, de "rostos de jade ligado". Este motivo que aparece nas poesias de Ruan Ji e Bo Xingjian é a única referência que deixa claro que entre estes dois homens também existia uma relação sexual. No entanto, este pudor em não descrever a relação sexual não é uma crítica a relação homoerótica, mas um pudor referente a qualquer ato sexual fosse ele entre dois homens, duas mulheres ou entre um homem e uma mulher.
Esta não é, lembra Hinsch, a única passagem do Contos do Mundo com referências homoeróticas. Por exemplo temos a história de Huan Wen (312-373), um marechal da corte de Jin Ocidental, que pergunta ao seu subordinado Wang Xun sua opinião sobre a aparência do príncipe-chanceler Sima Yu. Wang Xu responde que o príncipe-chanceler tomou para si a responsabilidade do governo e é naturalmente majestoso como todo governante divino. Mas, afirmou Wang Xu, que o marechal também era admirado por todos os homens. Ele ainda reforça dizendo que, se isto não era verdade, como o vice-presidente da corte dos secretários haveria se colocado a disposição do marechal. Este trecho remonta a estrita hierarquia em que os chineses viviam encabeçada pelo imperador, seus secretários em seguida, toda a corte que vivia dentro do palácio, os marechais, generais, coronéis e tenentes, etc; contudo, o que deixa claro o texto é que essa hierarquia também deveria ser reproduzida nas relações sociais e um homem de hierarquia superior não deveria se submeter (e isto quer dizer ser passivo no ato sexual) a um homem de hierarquia inferior, porém, apesar desta regra social, o desejo e o amor constantemente faziam com que tal regra fosse ignorada.
A beleza masculina era tão valorizada que, comumente, homens tentavam métodos para se tornarem mais bonitos porque isso gerava-lhe frutos na ascensão social. Alguns inclusive são criticados por exagerarem, como o caso de Zuo Si (306 d.C.), mas como o homem perfeito era descrito como de cabelos oleosos, pele branca e nádegas pequenas e reluzentes era comum que homens usassem pó de arroz para deixar a pele mais branca, apesar que o nome de Pó Bárbaro deixe a entender que a prática não se originou entre os chineses, também usassem alguns óleos perfumados nos cabelos. A beleza dos homens podia fazê-los atrair para si o desejo de homens poderosos, de lugares hierárquicos superiores aos dele, e a partir daí melhorar sua vida, ascensionando ele socialmente para outras esferas sociais através, inclusive, do casamento. Sim, na China Antiga também era possível o casamento entre homens.


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Quando Queremos Estar Errados

, em Natal - RN, Brasil


Eu estava no trabalho quando chamei o jogador de rugby para conversar no bate-papo do Facebook, ele me disse que estava precisando falar comigo por uma SMS na noite anterior. Ele havia dito a mesma coisa semanas antes e dito que tinha a ver com o Mr. Creepie, e eu me preocupei: "como assim eles se conhecem?". Eu havia contado ao jogador tudo o que havia acontecido com o Mr. Creepie, ele estava a par, mas parece que o meu ex-ficante resolveu que também queria contar a sua versão da história para o jogador. "Estamos conversando", foi a única coisa que o jogador disse, mas me tranquilizou, "Olha, eu por mim não vejo problema por você está ficando com outros caras". Porém algo estranho continuou no ar porque a partir daquele momento todos os meus convites eram imediatamente recusados. Bares, cinemas, boates, sexo, nenhum dos meus convites foram aceitos novamente. As mensagens e conversas via Whatsapp também se reduziram a quase nada, ele esfriou.
Recebi sua mensagem dizendo que ele gostaria de falar comigo quando estava em um bar com amigos, perguntei se era alguma coisa importante, mas ele garantiu que não, por isso, ao acessar o Facebook no trabalho, após uma reunião de 1:30h, chamei-o para a tal conversa. Ele falou sobre várias coisas, perguntou sobre os outros caras que eu estava vendo e me disse: "É que eu tenho conversado bastante com o Mr. Creepie", eu disse que imaginava que isso ainda estaria acontecendo e que a imagem que ele deveria estar passando de mim para ele não era nada boa. "Mas tem mais: nós estamos saindo". Eu parei por um segundo e não acreditava no que estava lendo. Perguntei para confirmar: "Você e o Mr. Creepie estão ficando?", ele confirmou e disse que tudo estava muito confuso.
"Confuso?", falei, "não, nada está confuso, meu querido. Eu agradeço de verdade cada segundo que você passou do meu lado, mas acho que não dá para continuar assim. Eu não posso ficar com alguém que está ficando com o Mr. Creepie. Torço por sua felicidade... de verdade". Ele agradeceu meus votos, mas eu precisava falar algo mais. "Eu só preciso te dizer uma coisa: você está deixando de ficar comigo para ficar com uma pessoa que só resolveu dar em cima de você para me ferir de alguma forma. Tome muito cuidado!". Ele tentou argumentar que o Mr. Creepie não estava com ele somente para me ferir, eu sinceramente espero que ele esteja certo, e eu errado.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Superfície da Pele

, em Natal - RN, Brasil


- Eu devia ter vindo assim como você...
- Oi?
Ele havia se aproximado de mim por trás. Alto, barba espessa e bem cuidada, tinha um queixo fino e um nariz afilado que não é comum entre os nordestinos, não havia nenhum resquício indígena em seu genótipo. Era urso também, um peitoral largo e uma barriga que não fazia questão de se esconder sob o tecido da camisa polo azul marinho que ele usava.
- Eu devia ter vindo de regata, como você, 'tá um forno aqui. 'Tô cozinhando!
Eu sorri e relei com ele dizendo que o Galpão 29 sempre era um forno quando lotava, não importava se fazia 24° lá fora. Ele concordou e falou:
- Mas também pela forma que você se veste, deve trabalhar em alguma coisa ligada com criação, não é?
- Trabalho numa agência de comunicação...
Ele ficou explicando como comunicação estava ligada a criatividade, sobre escrever, literatura e design, mas minha mente estava ocupada em descobrir como uma regata preta com um O colorido no centro, mais uma calça skinny preta, all star marrom com aplicações de couro e uma bolsa carteiro, a tiracolo, com um desbotado demônio vermelho colado nela seriam associados a minha profissão. 
- E você faz o quê? 
Perguntei quando ele cessou de falar e ele contou que fazia doutorado na UFRN, que nascera em Uberaba, rodara este país continental e agora escolhera Natal, acusei-o de cigano e ele riu. Foi nesse instante que meu amigo se aproximou dizendo que ia dar uma volta. Quando meu amigo se afastou, ele perguntou se ele era meu namorado, eu neguei.
- Eu vi vocês juntos, pensei que fossem.
- Não, não somos. Mas sobre o que é a sua tese?
- Agora espera um instante que quando me perguntam isto eu sempre preciso de um segundo...
- Ah, é sempre assim, quando me perguntavam sobre minha tese, eu também demorava alguns segundos para pensar numa resposta.
- Você faz doutorado?
- Fiz. Na UFMG. Em História.
Ele explicou então a tese, acreditando piamente que eu não o entenderia. Ao concluir, pediu licença e foi buscar uma água para ele no bar e, para minha surpresa, retornou.
- Seu amigo está ficando com o cara que eu estava paquerando.
Ele disse no meu ouvido. Era um cara alto e musculoso, usava uma camisa branca justa, com uma calça apertada. Dava para ver-lhe as coxas também poderosas.
- É, por isso que hoje em dia eu prefiro me dedicar a caras não tão bonitos, porém mais interessantes, que tenham conteúdo.
Eu fiquei pensando, surpreso, se ele estava me chamando de feio, enquanto ele continuava a falar.
- Por exemplo, eu passei meus primeiros meses em Natal quase namorando com um garoto que só era bonito. Foi perda de tempo... parecia esse aí...
E apontou um garoto baixinho, de músculos aparentes, que passava por nós.
- Eu não tenho nenhum preconceito com idade, sabe? E quantos você tem?
- 31!
- Ah, é? Sou um pouco mais velho, tenho 38, mas aos 50 vou deixar de frequentar lugares gays - e riu - por causa disso: esses caras bonitos não servem nem para ter uma boa conversa.
- O problema não seria porque você tem dado muita importância para a aparência?
Perguntei.
- Mas é a primeira coisa que chama a atenção.
- Chama a atenção - repliquei -, mas se você quase namorou um menino que só tinha beleza significa que a beleza dele era importante para você...
- Você tem razão, por isso agora eu vou me dedicar aos não tão bonitos assim e com mais conteúdo...
Ele parou um instante, me olhando, eu pensava que com certeza ele estava me chamando de feio.
- Acho que estou bêbado...
Comentou.
- Sim, está!
Respondi. Ele saiu andando, disse-me que nos esbarraríamos por aí. Eu duvidei e conforme ele se afastava, não consegui evitar que uma tristeza se alojasse no meu coração. Uma tristeza pela humanidade que ainda cria pessoas superficiais, incapazes de romper o ciclo que as prende numa roda de infortúnios, sofrendo pois não conseguem encontrar o amor porque esse nunca se localiza na superfície da pele.


Foto em homenagem ao Fred.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Seiscentos e Um

, em Natal - RN, Brasil


Eu estava animado para sair naquela quarta-feira, véspera de um feriado. Um amigo havia me convidado para ir a alguma boate desde a segunda anterior, e todos os dias ele ficava me lembrando, mas no dia que combinamos, pela manhã, culpando uma febre que o afligiu na noite anterior, ele desistiu. Animado estava, animado continuei, e não demorou muito para um segundo convite para a Vogue aparecer no bate papo do Facebook, feito pelo Miguel, e eu aceitei. Ia inclusive direto do trabalho, passaria apenas antes no templo que frequento, para o ensaio de um dos corais que canto. Do coral, mais quatro pessoas também me convidaram para acompanhá-las para a boate, e, após as 23h, rumamos todos para a boate.
Chegando a porta da Vogue, a fila quase dava a volta no quarteirão e, apesar da ameaça de chuva, ninguém ali parecia querer desistir. Entramos na fila e eu só pensava o quanto aquele lugar já devia estar lotado aquela hora para aquela fila estar daquele jeito. Provavelmente insuportável! Ficamos uns bons 40 minutos na fila, duas cervejas compradas em um pub do lado ajudaram a passar o tempo. Foi quando a fila simplesmente parou de se mexer e eu fui até a entrada desconfiado do que deveria ter acontecido e vi a drag, que atuava como hostess à porta, pedir desculpas a todos enquanto fechava a porta dizendo aqueles que estavam na fila que o lugar havia alcançado sua lotação máxima.
Na fila, encontrei um outro amigo, o C&A, que ao ouvir aquilo virou-se para mim e perguntou: "Qual a outra opção que nós temos para hoje?", eu lembrei que o Galpão 29, uma boate que funciona na zona portuária da cidade, também estava aberta naquele dia. Não precisei falar no assunto uma segunda vez e logo estava eu no carro do meu amigo, migrando para a Ribeira. O Galpão era a situação oposta a Vogue quando chegamos: não havia filas, facílimo de estacionar e quase ninguém naquele antigo galpão transformado em boate underage. Era bastante espaço para se jogar! E quem estava lá: meu amigo febril que decidira de última hora ir assim mesmo para o Galpão (ele havia me mandado uma mensagem avisando, mas eu já estava a caminho de outra boate). Nós então nos juntamos a ele e aos amigos dele e ficamos por lá, entre cigarros e cervejas, ouvindo a música que explodia nas caixas de som.
Um dos amigos do febril se interessou de cara pelo C&A, contudo não foi correspondido. Eu também levei um fora de um menino que me interessei por lá e aí ficamos conversando. Ele era muito mais baixo que eu, magrinho, com um abdômen tanquinho bem estreito, uma boca pequena, quase em formato de coração, e olhos amendoados que se apertavam quando ele sorria, tinha um piercing no nariz e na orelha e o cabelo com topetinho. Conversamos até ele me dizer: "Nossa, cara, como você é divertido! Uma excelente companhia!", eu agradeci e respondi: "É que ficar perto de meninos gostosinhos como você me inspira...". Ele sorriu encabulado, ai eu me aproximei dele, coloquei a mão na sua nuca e o beijei. Ele me beijou de volta, enrolando seus braços em torno do meu pescoço, enquanto minha mão descia para apertar-lhe a bunda, pequena e redondinha. Quando nos afastamos, ele me disse: "Que beijo bom! E pensar que eu poderia ter ficado com seu amigo e não teria tido a oportunidade de te beijar".


P.S.: Esta é minha postagem de número 601. Comemoremos!

terça-feira, 11 de junho de 2013

China: A Árvore do Travesseiro Compartilhado

, em Natal - RN, Brasil



Provavelmente o conto mais romântico de amor homoerótico, como afirma James Neill, é a história entre o governador de Chu, Wang Zongxian, e o jovem filósofo Pan Zhang. Ela se originou na Era Zhou, entre 770 e 256 a.C., é com certeza uma das histórias de amor mais antigas do mundo. Podemos narra-la assim: 

Quando Pan Zhang era jovem, ele tinha uma bela [mei] aparência e uma grande reputação como acadêmico e filósofo, além disso ele era educado e sabia tratar bem as pessoas e por isso todos os que o conheciam se tornavam extremamente afeiçoados a ele. Wang Zhongxian, governador do estado de Chu, ouvido falar de sua reputação, quis conhecê-lo e para isso solicitou seus escritos. O governador leu avidamente os textos filosóficos de Pan Zhang e decidiu que gostaria de conhecer este jovem tão hábil e cheio de talentos. Decidiu convocá-lo então para que o jovem o ensinasse seus conhecimentos sobre o mundo.   
Porém, quando eles se conheceram, imediatamente se apaixonaram. Foi amor à primeira vista e, sendo o amor correspondido, logo o governador tomou o jovem Pan Zhang como marido, e passou a compartilhar com o filósofo o mesmo cobertor e travesseiro com intimidade sem limites um para o outro. Wang e Pan tiveram uma vida feliz, amaram-se ternamente até o dia em que a morte chegou. Morreram juntos porque não conseguiriam mais viver separados e todos lamentaram por eles. 
Quando Wang e Pan foram enterrados juntos no pico da Montanha Lofu no seu túmulo cresceram de repente duas árvores com ramos longos e galhos frondosos. Os galhos estavam todos entrelaçados, parecia que as árvores abraçavam uma a outra! Todos consideraram aquilo um milagre. E as árvores foram chamadas de "Árvore do Travesseiro Compartilhado". 

Este exemplo romântico, como afirma Neill, é um exemplo que nos mostra, estritamente, como o amor homoerótico não estava destinado apenas ao amor fora do casamento ou apenas o divertimento das classes mais abastadas, o motivo da árvore que cresce sobre as tumbas é um motivo que sempre aparece nos mitos chineses que também se relacionam a casamentos entre homens e mulheres os quais são exemplos de amor incondicional. Isto denota que o amor entre dois homens e duas mulheres estava colocado no mesmo exato lugar que o amor entre um homem e uma mulher na China Antiga. Existe a clara consciência de que estes amores e a permanência de suas uniões é distinta daquelas que acontecem entre gêneros diferentes. 
Outro conto do mesmo período fala sobre o tímido oficial Zhuang Xin e seu senhor Xiang Cheng. A história é narrada assim:

Zhuang Xin queimava de amor pelo seu senhor Xiang Cheng a tal ponto que chegou a ele e pediu: "Posso segurar sua mão?". O senhor, assustado com aquela proposta, nada disse. Desesperado, Zhuang Xin contou ao seu senhor a história de outro governador, que havia também sido amado em segredo pelo seu barqueiro, que cantava: "Que dia maravilhoso é este, que posso dividir meu barco com o senhor, meu príncipe! Indigno eu sou deste meu desejo, quando eu senti tamanha vergonha? Meu coração está perplexo sem fim, eu tenho que conhecê-lo melhor, meu príncipe. Existem árvores nas montanhas, e galhos nas árvores. Eu desejo agradar-te e tu não sabes". Encantado pela canção do barqueiro, o governador aceitou seu amor. Depois que Xiang Cheng ouviu a história que Zhuang Xin contava sobre o governador, ele decidiu segurar em sua mão e também aceitou o seu amor.

O que aparece, neste caso, é basicamente o problema do status de servo que Zhuang Xin tem em relação a Xiang Cheng, seu senhor, que o impede de tomar qualquer medida primeiro em relação ao seu objeto de amor. Contudo, Zhuang a toma, ao pedir que o senhor segure-lhe a mão, o choque do senhor que fica em silêncio é, ainda, por causa do atrevimento do servo de condição social inferior a ele tomar a liberdade de agir primeiro. Xiang Cheng estava indignado! Porém quando o servo conta-lhe a história do príncipe e do barqueiro, seu coração se comove e ele aceita o amor. Este conto nos mostra que a tradição literária era usada não somente para ilustrar a consciência dos chineses em relação ao amor homoerótico, mas que também serve para o servo dizer o que ele está sentindo, comunicando seu dilema para o seu senhor Xiang, que os contos de amor homoeróticos que pertenciam a tradição literária chinesa tinham o objetivo de além de demonstrar a existência deste tipo de amor naquela sociedade, poderiam participar dos rituais de galanteio entre os amantes.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Menino Bonito

Lembro que em uma palestra, Martha Gabriel revelou um dado de que dois em cada três relacionamentos gays começa através da internet, entre héteros a proporção é de um em cada três. De fato, hoje, conhecer alguém por meio da rede mundial de computadores é extremamente comum. E foi assim que eu o conheci. Um amigo me incluiu num grupo secreto no Facebook do qual ele já era membro. No grupo, eu fazia comentários, discutia sobre homofobia e brincava com os outros membros, quando um dia ele resolveu me adicionar a sua lista de amigos e, na mesma hora em que eu aceitei o pedido, sua janelinha subiu no bate-papo com um olá. Fiquei surpreso e feliz por ele ter tomado a iniciativa, pois eu provavelmente não teria tomado coragem, pois não pensaria que um menino lindo como ele sequer olharia para mim.
Quando aquela janela subiu, conversamos sobre vários assuntos, elogios foram trocados também, e logo, nos dias posteriores, demonstrações de carinho foram se instalando entre nós. Foi ele quem fez o primeiro convite para nos encontrarmos, e eu aceitei de pronto, eu ia para meu ensaio do coral, mas combinamos que eu poderia vê-lo por uma hora antes. Marcamos próximo a universidade, eu o encontrei em uma praça, com árvores altas que nos protegiam da luz de mercúrio dos postes. Ele desceu do carro quando me viu se aproximando, mas a imagem que eu tenho dele quando fecho os olhos e me lembro do encontro é dele com as duas mãos dentro dos bolsos da calça jeans, os ombros virados para frente e, de cabeça baixa, me olhava por trás das sobrancelhas. Eu sorri o achando lindo, ele sorriu de volta. Um sorriso torto, mas lindo.
Esse menino poderia ser considerado por muitos como feio. Ele tem uma paralisia facial que o impede de mover a musculatura do lado direito do rosto, contudo, conforme conversávamos ali aquele menino bonito começou a me parecer como uma poesia de Vinícius. Aquela pequena imperfeição tornava-o uma joia ainda mais rara na minha opinião. Quando ele sorria para mim, quando eu sabia que era eu que causava aquele sorriso torto, meu coração acelerava um pouquinho e o beijo, na praça, a sombra das árvores foi inevitável. No momento que ele brincava com a sua paralisia, eu senti o quão bonito também o coração dele era. Ficamos juntos por apenas uma hora, ele me deu uma carona até a Escola de Música e me deu um beijo triste ao se despedir. "Mas a gente se fala pela internet quando eu chegar em casa", falei fazendo-o sorrir.
Continuamos conversando, nosso primeiro encontro foi numa terça-feira, ele me convidou  na quinta novamente para sairmos, e acabou que ele foi até minha casa; na segunda, novamente nos encontramos, ele me ligou implorando para que eu o salvasse do tédio, saímos para jantar comida chinesa e conversarmos; na outra quinta eu o convidei para sair com dois amigos meus. Foi dessa última vez que ele conversou comigo. "Você é realmente um cara maravilhoso, Foxx". O típico começo de conversa que você fica tenso porque normalmente não quer dizer boa coisa, mas ele apenas explicou que também estava saindo com outra pessoa e que ele estava bem dividido, que eu era maravilhoso, que estar comigo estava fazendo muito bem a ele, porém ele também sentia-se assim quando estava com o outro cara que eu também conheço. Eu disse-lhe que o meu "rival" era realmente uma grande pessoa, que eu o conhecia e sabia de todas as qualidades que ele tinha e que por isso qualquer que fosse a escolha dele, eu tinha certeza, ele estaria muito bem. Ele riu para mim, meio bêbado, e me beijou apertando minha bunda por cima da calça jeans.



terça-feira, 4 de junho de 2013

A Nova Era

, em Natal - RN, Brasil


A vida tem mudado. Surpreendentemente. Tudo tem ocorrido de forma completamente diferente do que estou acostumado, ou melhor, do que me acostumei a esperar nos últimos quatro anos. E, com isso, tenho sido colocado em situações nunca antes experienciadas. Um exemplo claro é a minha vida amorosa. Como todos sabem por aqui, minha vida amorosa, na falta de uma expressão que a defina tão bem, é cagada. A expressão é do Gato, mas tomo a liberdade de apropriar-me dela. Todavia, desde que o Sol entrou em Áries something has changed.
Depois que conheci o Mr. Creepie, por exemplo, eu descobri o universo completamente novo do encontro e, com ele, a região nublada do "estamos nos conhecendo". Acho que preciso explicar ao que se resumia minha experiência com homens no passado para que vocês entendam como tudo é muito novo para mim. Eu conhecia homens basicamente em baladas, o que significava alguns beijos ao som de música alta e, isto quando havia muita intimidade, sexo de madrugada com sabor de cerveja; ou encontros singulares com pessoas que eu conhecera no Uol ou em sites de relacionamento. Eu era o rei dos primeiros encontros, porque eu nunca chegava a um segundo. Com isso, obviamente, não havia nenhum compromisso entre as partes. 
Porém estamos no começo de uma nova era agora. O Mr. Creepie foi o primeiro, saímos cinco vezes; depois dele sugiram outras (sim, no plural) pessoas. O primeiro foi um jogador de rugby, com o corpo de um jogador de defesa, a inteligência afiada de um redator publicitário e um sorriso capaz de derreter o iceberg que afundou o Titanic. Ele é amigo de um amigo, nos conhecemos em um show na Ribeira há pelo menos um ano e, um dia, do nada, ele simplesmente me convidou para sair. Eu não podia no dia, contudo a partir dali um canal foi aberto e nós começamos a conversar. Ele reservado e até tímido a príncipio, começou a falar de si, até que a comunicação diária culminou num segundo convite para uma cerveja após o trabalho. 
Sentamos um diante do outro na praça de alimentação de um shopping que eu frequentava na época da faculdade. O garçom me reconheceu e perguntou como eu estava quando sentamos. Ele, rindo, comentou que eu devia frequentar muito aquelas mesas. "Foram meus anos de faculdade", ri. Conversamos a noite toda, sem silêncios constrangedores, nem quando ele contou que ao me fazer o primeiro convite ficou com medo de eu pensar que ele era um bobo ou maluco por, de repente, resolver me chamar para sair. Foi quando entramos no assunto "falar ao telefone". Ele comentou que detestava falar ao telefone, que preferia mensagens de texto e eu fiz uma gracinha: mandei-lhe uma mensagem de texto, via Whatsapp, dizendo que eu queria um beijo dele. Ele, entretido na conversa, não ouviu o telefone anunciar a chegada da mensagem, continuamos conversando, e até eu esqueci, quando já havíamos pago a conta e caminhávamos para fora do shopping, dava para ouvir que chovia bastante lá fora, ele me avisou que havia visto e respondido minha mensagem, eu cheguei o telefone então e havia uma carinha sorridente. Eu, com um sorriso entredentes, perguntei o que aquele hieróglifo significava, pois poderia ter zilhões de interpretações. Ele se aproximou de mim naquele instante, sorrindo, e me beijou os lábios, com carinho, sem pressa de acabar, no corredor vazio do shopping, seguido de um abraço que me permitiu sentir a força dos seus músculos rijos. "É isso que o sorriso significa". Este, então, foi o primeiro de vários encontros.
E, esses encontros, fazem crescer em mim uma dúvida nessa área nebulosa: é correto eu sair com outros? É ético sair com mais de uma pessoa ao mesmo tempo? Em que momento devemos fidelidade a alguém que, de fato, não é nada mais do que uma pessoa que você está conhecendo? Carinho existe, é óbvio que existe senão nem eu, nem ele, estaríamos nos vendo, porém qual é o turn point que faz com que este relacionamento ultrapasse essa fase? Eu não sei, nunca vivi essas coisas, e é ansioso e excitado que observo este fabuloso mundo novo.