Google+ Estórias Do Mundo: O Assassino Dele

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Assassino Dele

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
O vizinho dele encontrou a porta aberta do apartamento e estranhou. Totalmente aberta. Do corredor, era possível ver sangue pelo apartamento, que chegava até a esquadria e seguia pelo corredor a fora. Só neste  momento o vizinho também reparou na porta, suja de sangue, aquele sangue escuro, coagulado, como se uma mão ensanguentada a tivesse aberto. O vizinho não resistiu a curiosidade e avançou porta a dentro, mas quando ele contou essa estória depois afirmou que entrou porque o vizinho podia estar precisando de ajuda. Ele tentou chamá-lo, mas percebeu ali que apesar dele morar no prédio há anos, não sabia o nome do vizinho de porta. Com poucos passos, olhou em volta, e viu o apartamento revirado, ele pensou por um instante que pudesse ter sido alguma espécie de luta, mas um segundo olhar o fizera perceber que só podia ser um assalto. Ele sacou seu celular então, e ligou para 190, pretendia relatar tudo, e tinha assistido bastante CSI para saber, àquele ponto, que não podia tocar em nada. Mas seus olhos, estes, vasculhavam tudo. Havia muito sangue pelo chão, a tv não estava mais no seu lugar. As gavetas estavam fora do armário, os livros da estante haviam sido derrubados. O telefone da polícia atendeu. "Meu vizinho foi assaltado, a casa dele 'tá revirada...", foi quando ele chegou ao fim do cômodo, e pelo corredor, ao fundo, viu o corpo do vizinho, caído na cama, e ele não pode conter a exclamação, apesar de não ser nada religioso, "Meu Deus! O cara 'tá morto!". 
A careca do vizinho reluzia, apesar da pele macenta de quem morrera já há horas. Sua barba bem cuidada continuava intocada e sua boca entreaberta em um último suspiro, sua bochecha estava espremida no travesseiro de fronha branca. A faca com a qual ele fora apunhalado ainda estava ao lado do corpo, já seu peito era uma profusão de pele, sangue coagulado, pêlos arrancados e pedaços de carne que o vizinho só conseguia imaginar que eram do coração dele, mas provavelmente não eram. Havia uma garrafa de vinho derramada no tapete, uma mancha que nunca sairia, e duas taças, uma quebrada no chão, outra sobre o criado-mudo. "Ele tinha alguma companhia aqui", concluiu o vizinho para a telefonista da polícia que perguntava-lhe o endereço, foi quando pisou em algo e levantou o sapato de couro que sempre usava para trabalhar e encontrou uma carteira aberta, jogada, ele se abaixou num ímpeto de pega-la, mas deteve-se no último segundo lembrando que suas digitais seriam encontradas na cena do crime, mas ele pode ver que não havia nenhum dinheiro por ali. Quando ele se ergueu, seus olhos encontraram-se com o do morto. O vizinho teve um arrepio instantâneo quando se deparou com aqueles olhos sem alma. 
Mas os olhos mortos dele lembraram ao vizinho que eles tinham subido o elevador ontem juntos. O vizinho e o agora morto que estava acompanhado de um jovem muito forte e alto. A namorada do vizinho até comentou que aquele cara só poderia ser garoto de programa para "andar com aquela bicha velha". E era mesmo. O vizinho tentou lembrar do rosto do garoto de programa, mas não conseguiu, no entanto conseguiu imaginar que o jovem deve ter tentado assaltar aquela bicha e esta tentou se defender, mas o outro maior e mais forte, a dominou e a matou. O vizinho então retornou, com sua curiosidade satisfeita, até a porta e pegou o corredor, esperou lá pela polícia e quando o primeiro policial chegou e perguntou-lhe o que aconteceu, o vizinho respondeu: "Ah, essa bicha velha aí que vivia trazendo garotos de programa p'ra casa. Teve o que bem mereceu por se envolver com esse tipo de gente, mas veja, senhor policial, o risco que a gente sofre convivendo com esse tipo de pessoa... não é que eu tenha preconceito não, sabe?, mas tem que ser eles na deles e a gente na nossa". E o policial concordou. E o assassino dele nunca foi encontrado. 


(imagino que vou morrer exatamente assim)

25 comentários:

  1. Uma história do submundo do crime.
    Bem escrita e com a cor real do nosso tempo.

    As personagens movimentam-se livremente e as conclusões continuam pendentes.

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  2. Semelhante a um caso que teve em Sampa há pouco tempo.
    Abraços,menino de Natal.

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  3. A história lembra os relatos dos assassinatos supostamente praticados pelo michê serial Killer conhecido como Maníado do Trianon, relatados no livro "Dias de Ira".
    Excelente o toque final introduziido na história, que deu um toque a mais de realismo. Afinal, é assim mesmo que acontece na vida real.
    Se for bicha, pobre, preto, pode matar que [quase] ninguém [nem mesmo muitos que se dizem cristãos] liga!

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  4. Nossa, mas como assim você acha que vai morrer assim? Eu nem penso nisso... DEUS me livre...rs

    *DB*

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  5. Queridão, vou imprimir para ler a caminho de casa, ok?

    Bjão!

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  6. Uma história guardada na memória de algum conhecido ou é estória baseada em manchetes de jornais?
    A grande novelista Janete Clair procurava nas notícias de jornais a inspiração quando esta lhe faltava.

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  7. Amigo , já que vc imagina que vai morrer assim, assassinado a facadas por uma garoto de programa, já coloca um monte câmeras de segurança. assim ajuda a policia na investigação :)

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  8. uma super estoria, ate mesmo chocante, mas com fortes emoçoes, gostei do texto...
    so ficquei cahteado por vc achar que terá um fim semlhante..."TIPO, NADA A VER"
    rs
    abs

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  9. sinistro arquitetar a própria morte.

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  10. Lembrou-me um pouco um conto que fiz a anos atrás. Não possui o mesmo desfecho e muito menos a mesma trama, mas o cenário é quase igual... Suicídio, para ser mais exato, é o que diferencia nossos textos.

    Interessante, também penso em morrer esfaqueado, sei lá... a tiro é muito démodé, deve ser pelo fato de assistir muitos filmes de terror kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  11. Foxx:
    A estória está muito bacana..mas espero que você não tenha um final trágico desses...ninguém mereceee...rs.
    Abraços querido.

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  12. Ai aiii... Deus me livree!!
    Li rapidamente seco pra saber o final!! Ótimo texto!!
    Abraçooo!

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  13. Senti uma coisa meio Agatha Christie Mercado (Agatha Christie + Walter Mercado) que medo!! E faço minhas as palavras do Bratz, pára de pensar bobagem!

    Bjo

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  14. comecei a ler mas pulei, pq não curto essas histórias sanguinárias

    Uma dúvida, Natal? vc não era de BH?

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  15. Bom Fox, imagino que eu não seja uma exceção, mas eu até hoje só namorei e fiquei com indivíduos que fogem dos padrões de beleza, eu não olho para beleza, para mim conta muito mais uma pessoa humilde e com uma boa conversa do que um rosto bonito.

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  16. Fox, escreve algo novo , esse texto é o lado negro da força ... escreve um coisa in, legal .. positiva :)

    bicocas

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  17. Eu já me imagino morrendo de forma bem rápida e indolor, com um esmagamento, decaptação, ou qualquer cosia que não dê nem tempo de gritar..

    Agora, a palavra depressão se refere ao estado mental de abatimento. Pode ser uma coisa normal e temporária, como no meu caso, ou pode ser por causa da falta de serotonina, que seria o caso de tratar com medicação, mas em ambos os casos essa palavra pode ser usada.

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  18. pois eu quero morrer na primeira classe de um voo pra paris, ny ou outra cidade glamour... meu nome ficar no jornal nacional por 2 meses, imagina??? hahaha

    ah! manda noticias sobre a volta pra xmas!

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  19. Descreveu o morto baseando-se já em alguém, suponho. rs
    Por que pensar assim?
    Seja otimista só um pouquinho!
    Mas no caso de acontecer, ao menos o assassino eu prometo tentar localizar. rsrs

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  20. E o teu livro? Quando sai? Olha que - assim como o do Melo - periga virar best seller! Hugz, man!

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  21. Retratos do que poderia ser da vida real... Mas não necessariamente da sua vida, né??

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" Gosto de ouvir. Aprendi muita coisa por ouvir cuidadosamente."

Ernest Hemmingway