A noite pode começar com uma visita à galeria do IFRN, ainda às 18h, o prédio de 1913, que antes pertencia à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sede do primeiro liceu técnico do Estado e mais tarde da televisão universitária. Em 2000, época do centenário do Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia do Rio Grande do Norte, o prédio foi integrado ao instituto e agora abriga seus cursos de arte e produção cultural, duas galerias (com quatro salas de exposição ao todo) e o Museu do Brinquedo. Instalado na Cidade Alta, um dos primeiros bairros da cidade, o qual junto com a Ribeira e Rocas formam o núcleo arquitetônico colonial da capital, o prédio pode ser considerado neoclássico, registro da Belle Époque, anterior a Primeira Guerra, com suas linhas delicadas, arcos leves e janelas simétricas. Os pisos de madeira e o ladrilho hidráulico, o forro trançado e as luminárias de vidro imitando gotas de cristal são detalhes a mais para se observar no lindo prédio. Nas galerias, as exposições variam de temas e técnicas. Desenho, fotografia, escultura, pintura, tecelagem ocupam suas paredes pelo menos a cada mês.
Virando a esquina, na rua que a prefeitura fechou transformando num espaço cultural. Em que as paredes estão ocupadas por desenhos coloridos por tintas em spray e mesas de plástico estão espalhadas sobre tendas que protegem, de dia, do sol, e a noite, da chuva. As mesas amarelas pertencem ao Zé Reeira. O bar é adorado pelos seus frequentadores que são expulsados a vassouradas quando o dono encerra as atividades pontualmente às 21h. Ele afirma que nos fins de semana fica até o último cliente sair, mas durante a semana ele também tem seus direitos. Eles reúnem uma boêmia idosa, mas que, apesar da idade, não perde o pique para o samba ou a bossa que ocupam o tablado que serve de palco naquela rua, onde garotos adolescentes sentam a tarde para conversar e comer salgados, e mal-vestidos atores e artistas plásticos que montam seus ateliês e oficinas nas salas dos prédios antigos da Ribeira, este que margeia o porto de Natal. O Zé Reeira é um boteco na verdade. Serve uma cerveja gelada e barata e uma comida cara e sem graça. Não serve petisco, acha-se restaurante, mas engradados de cerveja ocupam todos os espaços no interior do prédio, só há um corredor para chegar a geladeira e outro que vai até os banheiros. É tudo muito colorido e bagunçado. E o garçom tenta enganar o dono para que você fique mais tempo, mesmo quando ele manda fechar.
Caminhando pela Cidade, alguns quarteirões distante do Zé, na Rua Coronel Cascudo, o som do samba ocupa ruas apertadas que durante o dia ficam atoladas de vendedores ambulantes, mas nas noites de quinta são ocupadas por jovens universitários e publicitários bebendo cachaça com mel de abelha, o coquetel é chamado de Meladinho e vendido por um boteco em copos descartáveis, e cervejas. Enquanto meninas criadas pela fina sociedade natalense no internato da Escola Doméstica torcem o nariz, professores de arte, atores e artistas admiram as paredes pichadas com frases de efeito, na apertada rua que dá de lado com o Palácio da Cultura, a pinacoteca do Estado, e os fundos do Museu Café Filho, antigo sobrado do ex-presidente, que vive fechado porque é a exposição mais tediosa do planeta sobre o presidente mais sem graça que já tivemos. O samba é alto demais para aquelas ruas estreitas, mas o barulho das conversas acaba por superar a música, mais alto só a fumaça dos cigarros mentolados. O bar responsável nem nome tem, funciona no andar térreo do primeiro supermercado que a cidade já teve, da época em que Natal pertencia aos Estados Unidos, e às vezes organiza noites de jazz ou de bossa nova.
Mas do outro lado do prédio da pinacoteca, na praça André de Albuquerque, era o pagode que reinava. No falso marco zero da cidade, porque o real fica lá na praia, aos pés do Forte dos Reis Magos, onde a verdadeira cidade floresceu, aqui eram os grandes palácios construídos pelas grandes famílias de sobrenome composto, habitados semanalmente quando se vinha, ao domingo, assistir a missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Apresentação de suas casas nos engenhos distantes ou nas fazendas de carne-de-sol exportada para abastecer Pernambuco. A praça fica lotada, mas não de morenas rebolativas, elas estão lá sim, quase sempre acompanhadas de um homem mais velho ou gringo ou os dois, naquele pagode encontramos muito mais homens musculosos vestindo regatas apertadas em todos os espectros de cores. Todos muito bonitos para ser sincero com vocês. Também, ali, havia muito mais estrangeiros, não era difícil distinguir no ar um português com sotaque entre as palavras bêbadas que driblavam a cantoria de um imenso negro de cabeça raspada e camisa excessivamente justa. Ele tocava um cavaquinho junto do microfone e cantava canções da Marrom. O público era notadamente diferente dos ambientes anteriores. Saltos altos, chapinhas e jeans Videbula substituíam as camisetas indianas com calças de algodão cru. Barbas desgrenhadas e corpos ágeis fruto de alongamentos eram opostos aos cabelos bem cortados, barbas aparadas à maquina e o corpo rijo que foram esculpidos em academias. Pessoas completamente diferentes.
Qual o caminho escolher?

