Google+ Estórias Do Mundo: natal
Mostrando postagens com marcador natal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador natal. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Cenário De Quinta

A noite pode começar com uma visita à galeria do IFRN, ainda às 18h, o prédio de 1913, que antes pertencia à Universidade Federal do Rio Grande do Norte, sede do primeiro liceu técnico do Estado e mais tarde da televisão universitária. Em 2000, época do centenário do Instituto Federal de Ciência, Educação e Tecnologia do Rio Grande do Norte, o prédio foi integrado ao instituto e agora abriga seus cursos de arte e produção cultural, duas galerias (com quatro salas de exposição ao todo) e o Museu do Brinquedo. Instalado na Cidade Alta, um dos primeiros bairros da cidade, o qual junto com a Ribeira e Rocas formam o núcleo arquitetônico colonial da capital, o prédio pode ser considerado neoclássico, registro da Belle Époque, anterior a Primeira Guerra, com suas linhas delicadas, arcos leves e janelas simétricas. Os pisos de madeira e o ladrilho hidráulico, o forro trançado e as luminárias de vidro imitando gotas de cristal são detalhes a mais para se observar no lindo prédio. Nas galerias, as exposições variam de temas e técnicas. Desenho, fotografia, escultura, pintura, tecelagem ocupam suas paredes pelo menos a cada mês. 
Virando a esquina, na rua que a prefeitura fechou transformando num espaço cultural. Em que as paredes estão ocupadas por desenhos coloridos por tintas em spray e mesas de plástico estão espalhadas sobre tendas que protegem, de dia, do sol, e a noite, da chuva. As mesas amarelas pertencem ao Zé Reeira. O bar é adorado pelos seus frequentadores que são expulsados a vassouradas quando o dono encerra as atividades pontualmente às 21h. Ele afirma que nos fins de semana fica até o último cliente sair, mas durante a semana ele também tem seus direitos. Eles reúnem uma boêmia idosa, mas que, apesar da idade, não perde o pique para o samba ou a bossa que ocupam o tablado que serve de palco naquela rua, onde garotos adolescentes sentam a tarde para conversar e comer salgados, e mal-vestidos atores e artistas plásticos que montam seus ateliês e oficinas nas salas dos prédios antigos da Ribeira, este que margeia o porto de Natal. O Zé Reeira é um boteco na verdade. Serve uma cerveja gelada e barata e uma comida cara e sem graça. Não serve petisco, acha-se restaurante, mas engradados de cerveja ocupam todos os espaços no interior do prédio, só há um corredor para chegar a geladeira e outro que vai até os banheiros. É tudo muito colorido e bagunçado. E o garçom tenta enganar o dono para que você fique mais tempo, mesmo quando ele manda fechar.
Caminhando pela Cidade, alguns quarteirões distante do Zé, na Rua Coronel Cascudo, o som do samba ocupa ruas apertadas que durante o dia ficam atoladas de vendedores ambulantes, mas nas noites de quinta são ocupadas por jovens universitários e publicitários bebendo cachaça com mel de abelha, o coquetel é chamado de Meladinho e vendido por um boteco em copos descartáveis, e cervejas. Enquanto meninas criadas pela fina sociedade natalense no internato da Escola Doméstica torcem o nariz, professores de arte, atores e artistas admiram as paredes pichadas com frases de efeito, na apertada rua que dá de lado com o Palácio da Cultura, a pinacoteca do Estado, e os fundos do Museu Café Filho, antigo sobrado do ex-presidente, que vive fechado porque é a exposição mais tediosa do planeta sobre o presidente mais sem graça que já tivemos. O samba é alto demais para aquelas ruas estreitas, mas o barulho das conversas acaba por superar a música, mais alto só a fumaça dos cigarros mentolados.  O bar responsável nem nome tem, funciona no andar térreo do primeiro supermercado que a cidade já teve, da época em que Natal pertencia aos Estados Unidos, e às vezes organiza noites de jazz ou de bossa nova.
Mas do outro lado do prédio da pinacoteca, na praça André de Albuquerque, era o pagode que reinava. No falso marco zero da cidade, porque o real fica lá na praia, aos pés do Forte dos Reis Magos, onde a verdadeira cidade floresceu, aqui eram os grandes palácios construídos pelas grandes famílias de sobrenome composto, habitados semanalmente quando se vinha, ao domingo, assistir a missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário da Apresentação de suas casas nos engenhos distantes ou nas fazendas de carne-de-sol exportada para abastecer Pernambuco. A praça fica lotada, mas não de morenas rebolativas, elas estão lá sim, quase sempre acompanhadas de um homem mais velho ou gringo ou os dois, naquele pagode encontramos muito mais homens musculosos vestindo regatas apertadas em todos os espectros de cores. Todos muito bonitos para ser sincero com vocês. Também, ali, havia muito mais estrangeiros, não era difícil distinguir no ar um português com sotaque entre as palavras bêbadas que driblavam a cantoria de um imenso negro de cabeça raspada e camisa excessivamente justa. Ele tocava um cavaquinho junto do microfone e cantava canções da Marrom. O público era notadamente diferente dos ambientes anteriores. Saltos altos, chapinhas e jeans Videbula substituíam as camisetas indianas com calças de algodão cru. Barbas desgrenhadas e corpos ágeis fruto de alongamentos eram opostos aos cabelos bem cortados, barbas aparadas à maquina e o corpo rijo que foram esculpidos em academias. Pessoas completamente diferentes.
Qual o caminho escolher?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Duas Versões, Um Fato ou Direito A Resposta.

Este post aqui me deu problemas esta semana.

É um texto escrito para exorcizar um passado e fechar um capítulo de minha vida, só que de repente, e não mais do que de repente, provavelmente via twitter, o citado no texto finalmente leu o que eu escrevi sobre ele e, reconhecendo-se lá, não gostou nada do que eu disse sobre ele. E tudo começou.
Primeiro, ele escreveu no meu Facebook um recado (dia 29 de julho), que para dizer pouco, soou um tanto agressivo. Mas normal nesta situação. No entanto, seu intuito, no Facebook foi, nas palavras dele:

"Infelizmente nao tenho blog, pra expor voce ao mesmo ridiculo que voce me expos... O facebook acho que vai dar pra alguem ver...".

Infelizmente, apesar da declarada vontade de expôr esta discussão ao público, ele mesmo desistiu de mantê-la no ar, seria porque eu não me abstive de uma resposta? Pois bem, então aqui vai a resposta já que no segundo ato desta comédia, um e-mail que recebi dia 30 de julho ele deixou bem claro que não quer ouvir a explicação ao dizer:

"Provavelmente nao lerei sua resposta, mesmo sendo curioso nato... Entao nem se de o trabalho, voltarei a ignorar voce como sempre e espero o mesmo!".

Concentrar-me-ei no e-mail porque o texto do Facebook não existe mais. Apesar que lá eu avisei-lhe que o meu texto exprimia minha visão sobre o fim de nossa amizade. Afinal ele desapareceu sem me dar explicações para o que acontecera. Talvez por causa disso ele resolveu mandar o e-mail dando sua versão dos fatos e explicou que simplesmente deixou de falar comigo quando... melhor deixar ele falar:

"Se voce nao se lembra... Eu virei minha cara pra voce e nao tive mais vontade nenhuma de falar com voce, no carnaval mesmo... Mas foi quando eu te joguei espuma que um muleque espirrou em mim e voce virou o braço na minha cara, voce me bateu, mesmo que nao tenha sido a intenção... Mas pra mim foi o basta...".

Isto é verdade, aconteceu. Ele jogou espuma em mim e eu, num reflexo, bati nele. Um acidente. Não diferente da vez que ele mesmo bateu em mim quando eu tinha acabado de furar minha orelha com um piercing, o que me causou uma inflamação. Mas também foi um acidente. Só que, no e-mail, ele deixa claro que não foi isso que o fez parar de falar comigo, isto foi a gota d'água. Segundo a versão dele:

"nunca competi com você... Eu apenas nunca tive tesão nenhum por você e foi por isso que me afastei, pois não aguentava mais você em cima de mim..."

E aí eu sinceramente me assustei. E ele continuou por todo e-mail.

"Posso contar as vezes em que você deu em cima de mim e eu disse não".

E mais.

"Uma pessoa desagradavel como voce, que sempre ficava dando em cima de mim e sabia que eu nao queria nada...".

Comecei então a questionar, sobretudo, como duas pessoas que estão do lado uma da outra enxergam os mesmos fatos de forma absurdamente distinta. Eu sempre o considerei um grande amigo, e talvez tenha sido expansivo demais, mas nunca, absolutamente nunca, eu senti alguma coisa por ele além de amizade. Mas, e seja daí que ele tenha tirado essa idéia estapafúrdia, é que eu gostava de sair com ele. Meu primeiro amigo gay. Nós estávamos sempre juntos, inclusive, as outras pessoas se acostumaram a nos ver sempre juntos. Mas, não obstante, as visões sobre o fato serem distintas, o fato continua o mesmo: continua sendo um motivo fútil para encerrar uma amizade.
Ele, novamente, decidiu que não queria deixar tudo em pratos limpos, talvez porque já fazem seis anos que não nos falamos, mas a decisão é dele.

"Nao vou falar as outras coisas que me irritavam, e eu como AMIGO aceitava!!
".

A bondade dele, como notamos, com os amigos permite que ele esqueça os outros defeitos meus que não permitiram que nossa amizade perdurasse. Desculpem, a ironia me escapou.
Ele continua ao referir-se

"A versão piscodélica do que foi nossa amizade..."

que eu escrevi no primeiro texto de 2008. Segundo ele,

"se voce acha que eu tinha inveja de voce... Eu penso que eh o contrario..."

porque eu...

"sempre falava mal dos outros, com relação a dinheiro... Sempre gostava de chamar atenção, mesmo nao tendo nada de interessante pra mostrar... Para mim nao iria fazer falta [minha amizade], como nunca fez!!"

porque

"uma das coisas que eu tenho como 'filosofia' de vida é nao fazer questao de amizade, em relação a ter pessoas que nao me trazem coisas boas...".

E sinceramente me assusta que eu tenha considerado uma pessoa assim um amigo tão próximo. E sou obrigado ainda mais a me questionar quem mais dos chamados "meus amigos" não pensam na verdade da mesma forma de mim. Quem mais me vê como essa pessoa desprezível que ele descreve ai? Quem me lê aqui ou me conhece pessoalmente e repete as perguntas que ele repete para mim?

"Quem você pensa que é!? Quais atrativos você acha que tem que tem esse poder todo!?"

A dúvida sim se instalou no meu coração. E o medo. Afinal ele deixa claro que ao "nos separarmos" os nossos amigos em comum escolheram ele.

"Que preferia a mim do que você, acho que deu pra perceber".

Sei exatamente qual foi a intenção dele de puxar para dentro de nossa conversa nossos amigos em comum. Ele realmente faz questão de enfatizar isso.

"Então continuo com minha consciencia limpida e feliz com meus amigos que te conhecem e sabem que essa historia do blog soa...".

De que eles apoiam a versão dele da estória. Bem, eu tenho a minha versão e não vou mudá-la., porque felizmente ele também confirmou o que eu penso dele, e, pelo jeito, não mudou em nada sua forma de tratar os amigos.

"Me poupe!! Até por que cobiçar paquerinha de festa pra mim, e meus amigos, nunca foi problema... Até dividir um cara uma vez eu dividi, ai sim era meu amigo...".

Bem, eu só tenho uma coisa final a dizer. Também aprendi há muito a não fazer questão por amizade. De manter ao meu lado pessoas que somam, como exatamente este meu ex-amigo costuma dizer. E admito que aprendi muito com ele e que gostei muito dele, felizmente não da forma que ele achava que eu gostava. É realmente fascinante como o mesmo fato pode ter versões absolutamente distintas.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

ESPECIAL NATAL: E Agora?

, em Natal - RN, Brasil
- Uma última notícia: Agora a Argentina vota o casamento gay. Se o projeto for aprovado, a Argentina será o primeiro país latino-americano a permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Boa Noite... disse Alexandre Garcia, encerrando o Jornal Nacional na Globo.
Assistíamos eu, meu pai e minha mãe, na sala que eu havia mudado a decoração dias antes, quando a nova televisão chegou. Meu pai e eu sentados em um sofá, minha mãe numa poltrona, eu entre eles dois.
- Casamento o quê? Pergunta meu pai, assustado, mas recostado no braço do sofá.
- Casamento entre pessoas do mesmo sexo. Respondo, com um certo receio, olhando-o por cima do meu ombro.
- Deus me livre! - diz minha mãe do outro lado - Graças a Deus ninguém na nossa família tem essas idéias absurdas! Meu Deus!
- Até porque casamento só pode ser entre homem e mulher... diz meu pai, interrompendo minha mãe.
- O casamento é p'ra constintuir família, não isso... complementa minha mãe, como se não tivesse ouvido meu pai falar nada.
- Casamento é entre homem e mulher... repete meu pai, tentando atrair o centro da conversa para ele.
- Mas porque entre homem e mulher? Questiono tentando levandar a discussão, e percebo meu pai exitar como quem não tem muitos argumentos.
- É - diz minha mãe batendo no peito - e meus filhos que não inventem moda. Filho meu vai casar é com uma mulher de Deus.
Sou obrigado a ficar em silêncio, fiquei sem palavras, sem saber exatamente o que dizer. Um filme passou pela minha cabeça, dois na verdade: um, eu casando com uma mulher, uma mulher de Deus somente para enganar minha família; outro, eu batendo no peito naquele momento mesmo, e dizendo: "Me desculpa, mas desse mato aqui não sai coelho". Meu pai permanecia em silêncio também, no entanto, minha mãe decide que deve levar tudo para um outro rumo.
- Mas, venha cá, que não adianta a gente discutir isso porque a gente não muda nada, como é que você vai fazer quando vier definitivamente de Belo Horizonte para Natal? Como vai trazer suas coisas de lá?
- De ônibus, mãe, de ônibus. Mas eu só pensava: e agora?

segunda-feira, 12 de julho de 2010

ESPECIAL NATAL: "Rostinho Lindo"

, em Natal - RN, Brasil

Instruções: Aperte play e siga lendo.





Foi em uma sexta a noite, que começou com um chá das cinco, que minha ex-orientadora do mestrado me incentivou a sair. "Saia, você é jovem, tem mesmo é que sair e paquerar, e se apaixonar. Se apaixone que isso alimenta a vida. Um rostinho lindo como seu deve fazer sucesso". Palavras de quem gosta de mim, na verdade. Eu não faço o menor sucesso. A noite estava lá para comprovar.
Saindo da casa dela, liguei para o Andarilho, e ele logo animou-se para me encontrar no Kafofu. "Pode deixar que eu ligo para Peter e a gente se encontra lá". Concordei, apesar de avisar que tinha que deixar os livros que ganhei da minha ex-orientadora em casa ainda. Chovia pouco, mas chovia, e eu não queria que eles se molhassem. Também aproveitei para tomar um banho e trocar de roupa, afinal era uma sexta a noite.
Cheguei um pouco atrasado no Kafofu, afinal eu cruzo quase toda Natal para chegar da minha casa ao bar. São dois ônibus, ou quinze minutos de caminhada até um ponto de ônibus onde passa um que faça o trajeto direto. Além de minha mãe reclamando que eu ía sair na chuva. "Você não tem carro, não devia sair na chuva", ela diz enquanto fecho a porta, e eu cruzo a garagem onde o carro do meu irmão mais velho está lá parado. "Numa casa com três carros e uma moto? Really?".
No Kafofu, fui recepcionado pelo Peter me elogiando também. "Menino, que corpo você 'tá! Atlético!". E rimos juntos e brindamos. Cervejas com dois dos meus melhores amigos e conversas. Muitas conversas. Sobre o namorado do Peter, do menino que o Andarilho tem um rolo que vai e volta, e sobre meu ex, o Pequeno Príncipe daqui. Sobre traições e ciúmes, sobre brigas e reconciliações, sobre sexo e reconciliação, sobre amor, sobre amizade e sobre a Vogue.
"Vamos p'ra Vogue então?", convido. O Andarilho se anima, culpa das cervejas, e decide ir. Peter não podia. Medo da reação do namorado que viajava naquele fim de semana, preocupação com o trabalho de designer no sábado pela manhã. "Eu trabalho com criação, criar bêbado não dá!", tenta ele nos convencer, mas sabemos qual o real motivo, mas isso acontece, é melhor evitar o perigo.
De táxi, eu e o Andarilho corremos à casa dele para ele trocar-se e depois para a boate. Na fila, à entrada, os amigos já aparecem. Conheço muita gente. Uma amiga do Bob nos permite furar a fila. A Drag residente me cumprimenta na porta. E lá dentro muitos amigos queridos também: Dim e o namorado, Música, AP, Carol. E vários outros. Beijos e abraços, reclamações porque não dou notícias e porque meu doutorado demora tanto para terminar, ouço tudo conforme avanço, puxado pelo Andarilho para o dance, entre as pessoas que esperam ansiosas a banda começar a tocar. Naquela noite, Grafith faria uma apresentação em homenagem a Lady Gaga. A boate lotada esperava ansiosa.
Na fila, enquanto aguardávamos, bebemos com a amiga do Bob o martini que ela trazia. Lá dentro, mais cervejas e cigarros Dunhill Créme. "Ah, só podia ser esse cigarro mesmo. Não posso vê-lo que já lembro de você. O cheiro dele já me lembra você". E logo o Andarilho encontra com um menino, bonito e simpático, e eles já estão entre beijos. Eu continuo sozinho. Dançando, circulando entre grupos diferentes de amigos. Perguntam sobre como é Belo Horizonte, as boates de lá, os bares e os homens; perguntam sobre minha tese, sobre como é o mercado de trabalho para historiadores, sobre quais meus planos para o futuro; perguntam se estou solteiro e diante de minha afirmativa perguntam sobre o Príncipe que eu havia conhecido e sou obrigado a dizê-los que terminou. Amigos, e mais amigos.
Foi aí que um amigo perguntou: "'Tá achando que tem muitos gatinhos aqui hoje, amigo?". E já eram quatro horas da manhã, quando havia combinado com o Andarilho para sairmos dali e eu notei que não sabia. "Sabe de uma coisa? Juro que nem notei se tinha alguém bonito do meu lado hoje, além de você é claro né, AP?". Ele riu com o gracejo, mas era realmente verdade. Não estava ali a procura de beijo na boca ou qualquer coisa do gênero. E me senti surpreendentemente bem com isso. E percebi que isso é bem possível. Divertir-me numa noitada como essa, sem me preocupar com homens. Este é meu futuro. Ao contrário do que minha ex-orientadora supõe "meu rostinho lindo" não faz com quem ninguém se interesse por mim, e como agora eu também não estou muito interessado no que os homens têm a me oferecer, noites como essa, divertidas e nas quais não conheci absolutamente ninguém novo, serão bem comuns.

sábado, 10 de julho de 2010

ESPECIAL NATAL: Rodado

, em Natal - RN, Brasil
- Sim, me conte então direito essa estória do seu namoro.

Disse-me Michel enquanto caminhávamos pela orla de Ponta Negra. A noite acabara de se alojar entre a areia e o mar, e o vento começava a mudar de direção.

- Bem... ele mora em Cabo Frio, no Rio de Janeiro...
- Como é que é? Espera...

Ele então arruma o cabelo recém alisado que o vento da praia insistia em bagunçar.

- Continuando... você me sai de Natal e vai para Belo Horizonte e me arranja um namorado que mora no Rio de Janeiro? Rodado... você é rodado, hein, meu filho?
- É como o Peter reclamou uma vez? "Essa mania que você tem de conhecer gente pela internet"?

Michel gargalhou.

- Exatamente! Por isso que gosto do Peter, ele fala umas verdades p'ra você de vez em quando... mas por que, meu Deus, por que você faz isso?
- Amigo, nós nos conhecemos há quantos anos? Cinco, não é?
Ele pensa e confirma com um aceno de cabeça.
- Pois então... quando foi que você me viu conhecer alguém pelos métodos tradicionais? Só quem se interessa por mim pessoalmente é garoto de programa. E tenho dito.

Ele sorri.

- Realmente, sou obrigado a admitir, você não faz o tipo que agrada aqui em Natal. Você já passou dos 22 anos, usa barba, 'tá ficando careca e tem pêlos. Aqui, sabemos, faz bem mais sucesso os meninos novinhos e imberbes, com o mínimo de pêlos possível no corpo.
- Sem esquecer que eles têm que ser magros, sarados e/ou atléticos, né?
- É! E você, apesar de eu não te considerar nem um pouco feio, não se encaixa em absolutamente nada dessa descrição de homem perfeito natalense.
- So Advocate! Acrescentando ainda que sou muito bicha né?

E rimos juntos.

- É! E aqui é bem mais dificil ser bicha. Eu também sofro com esse preconceito.
- Os meninos só se interessam se você puder se passar por hétero, e agora, beirando meus trinta anos, isso definitivamente não é mais uma preocupação da minha vida.
- Se é que um dia foi, né bee?

terça-feira, 16 de março de 2010

PRESENTE: Vogue! Vogue!

, em Natal - RN, Brasil
Look around, everywhere, you turn is heartache It's everywhere that you go (look around) You try everything. You can to escape The pain of life that you know (life that you know) Madonna - Vogue


Eu entrei naquela noite, após as boas vindas da Divina Shakira, acompanhado de Michel e seu namorado e vi uma boate completamente nova. A Vogue é a boate gay de Natal mais antiga ainda em funcionamento. Treze anos e recentemente ela se mudou. Deixou seu antigo endereço no Alecrim, um bairro popular, a seis andares de altura e apenas dois ambientes, para mudar-se para a região sul da cidade, Candelária, um bairro de classe média alta e muitas mudanças por causa disso foram realizadas. Sobretudo em seus frequentadores., e isso era bem fácil de notar. A VG tinha vencido o preconceito que os natalenses tinham dela. Para os natalenses, gays ou héteros, a Vogue era a boate em que só aconteciam baixarias, era a boate que possuía um dark room, era a boate das bichinhas pão-com-ovo, era a boate de gente feia, era a boate frequentada por drag queens. E tudo mudou. Dava para ver nos novos rostos que víamos por lá.
A mudança, na verdade, começara alguns anos atrás, quando a boate abriu uma filial em João Pessoa e todos se viram surpresos. Dizia-se: "Logo a Vogue?!". Algum tempo depois, eles abriram esta nova sede obrigando os preconceituosos a se calarem. O espaço é magnífico! O primeiro ambiente tem em uma parede um comprido balcão que serve de bar, do lado oposto, no mesmo em que se encontrava a entrada, um palco, porque o público da Vogue exige música ao vivo. A esquerda, um espaço aberto, um bar com mesas de metal e uma tenda num gramado com móveis de piscina, um local também para fumantes porque dentro da boate não é permitido fumar. E, em frente, a pista, com um potente ar condicionado e livre da fumaça de cigarro.
Diferente do antigo espaço, um público mais jovem agora povoa aquele ambiente nebuloso. Alguns casais héteros se considerando hype por encontrarem um espaço tão bom em sua cidade, vários musculosos retirando suas camisas, numa mistura estranha entre barbies e moderninhos que cansaram da noite de sempre da cidade, mas também temos as mesmas lésbicas apaixonadas por aquela boate, "caminhoneiras" chamavam-nas, junto das mesmas bichinhas que sempre gostaram do Dance de lá, além das drag queens que aproveitam para idolatrar sua rainha, Shakira, a drag residente da boate, e fazer pocket shows na pista de dança em meio aos frequentadores. A Vogue agora tornou-se a principal boate da cidade, mainstream diriam os especialistas, e isso fez com que todos tenham que aparecer por lá, como antes se dava no Avesso, agora aparecer na Vogue em Natal finalmente significa boa coisa.


What at you looking at?
Strike a pose, strike a pose!
Vogue, vogue, vogue!

quarta-feira, 10 de março de 2010

PASSADO: Diálogos Inesquecíveis III

, em Natal - RN, Brasil
Estava sentado na sala de tv de minha casa em Natal, vendo qualquer coisa que passava entre os canais da tv aberta, numa tarde, em um fim de semana, quando meu irmão mais velho, deitado no chão, sem fixar os olhos em mim, regugita palavras que ele ruminava.
- Você devia tirar esse piercing!
- Ahnnn?
Viro para ele sem muito entender do rompante. "De onde surgia aquilo?" era o que eu secretamente me perguntava. Meu piercing na orelha causara reboliço, eu sei. Meu pai lançara um: "Você pode até ser, mas precisa dizer p'ra todo mundo?", que me deixou com vontade de revelar-lhe bem mais. Mas era uma coisa muito boba para causar tanta mudança na minha vida.


- É! Painho não gosta, você devia tirar...
- Eu devia tirar?! Quando você foi p'ra Bahia e voltou com um aplique, o que eu disse?
- Ahnnn?
- Painho também não gostou, mas eu falei com ele que era besteira, que você não tinha virado viado por causa disso.
Meu irmão agora parecia visivelmente sem jeito.
- E o que isso tem a ver?
- E quando você fez sua primeira tatuagem? O que foi que ele disse? E quando você começou a fazer capoeira, o que foi que ele disse hein?
Agora ele silenciara. Fitava a tv sem saber que resposta poderia dar, poderia falar, poderia emitir.
- Tem uma pequena diferença entre eu e você: eu fico contra painho a seu favor, você não tem essa mesma coragem. Nunca teve, e nunca terá!
- Nada a ver, nada a ver, Foxx.
E um silêncio se instalou novamente na sala, somente a tv emitia algum som, vez ou outra interrompido por algum barulho que conseguia chegar da rua, de carros, de crianças brincando, ou somente o vento farfalhando.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

PRESENTE: Seabra-Campos

, em Natal - RN, Brasil


Numa mesa de bar de Natal, uma chuva fina cai do lado de fora, forçando a fumaça do cigarro ficar sobre o toldo que nos serve de abrigo, o garçon traz mais cervejas...


Andarilho: Pois como vocês sabem, eu fiz minha graduação na Faculdade Seabra-Campos!
Foxx: Como é que é, meu filho?
Andarilho: Mas é claro, tudo que eu aprendi nessa minha vida de prostituição foi com você e com o meu caríssimo Peter aqui.
Peter: Hei!
Foxx: Respeite pelo menos o namorado do outro presente.
Wolf: Realmente! O que vou pensar diante disso?
Andarilho: Desculpe, Wolf, mas é um fato! Peter não prestava até conhecer você.
(Gargalhadas)
Foxx: Lá eu tenho que concordar com isso.
Peter: Até tu, Brutus?
Foxx: Ora, era fura-olho...
Andarilho: Pois é, eu era namorado de um amigo dele e ele me perturbou até o dia que conseguiu ficar comigo. E depois eu estava namorando com o Índio lá e você deu em cima dele também.
Peter: E o seu namorado, o Índio, deu em cima do Foxx!
Andarilho: Mas ele não ficou com ele e ainda me contou o que tinha acontecido.
(risos)
Wolf: E como você e o Peter se conheceram, Foxx?
Foxx: Eu dei em cima dele via fotolog, aí a gente se conheceu, por acaso, na praça do CEI e na mesma noite nos encontramos, por acaso, no Avesso... e ficamos. Aí eu fui comprar cerveja e ele ficou com outro.
Peter: Eu juro que achei que você tinha ido embora...
(Gargalhadas)
Foxx: Sei! (mais risos) Aí ficamos amigos e depois eu descobri que ele 'tava namorando com o Alejandro naquela época!
Wolf: Amor, você traiu seu namorado com o Foxx?
Peter: Esse e outros!
(Gargalhadas)
Wolf: Que bom que você 'tá morando em BH agora né, amigo?
(Gargalhadas)
Wolf: E como você e o Andarilho se conheceram, Foxx?
Foxx: Quer contar?
Andarilho: Eu conto! Eu gostei dele de cara por causa da cara-de-pau!Estávamos brincando de verdade ou sacanagem no Paraíso, ali em Ponta Negra, uma galera e a gente nem se conhecia . Aí caiu p'ra ele me perguntar algo e ele perguntou a todos se podia pedir a sacanagem com ele mesmo.
Foxx: Mas não podia...
Andarilho: E como a gente ainda se beijou naquela brincadeira?
Foxx: O Sizinho que era o único que eu conhecia na roda me fez o favor de ordenar que eu beijasse você como prenda!
Andarilho: E ficamos amigos!
Foxx: E ficamos amigos.
Wolf: E a gente também se conheceu antes né, Foxx?
Foxx: É! Da época que vc namorava o FD e ainda morava em Currais Novos! So many years ago!
Peter: Pois é...
Foxx: Pois é! Mas voltando a essa estória de Seabra-Campos... nem vem com essa que eu sou formado na Seabra-Braz!
Peter: Nem, nem, que eu sou formado pela Campos-Braz.
Andarilho: Seabra-Campos, já disse! Seabra-Campos!
(gargalhadas)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

PASSADO: Anna Karenina, capítulo 4

, em Natal - RN, Brasil
"E decidira ser impossível viver assim, ser preciso encontrar uma explicação qualquer para a vida, de sorte que esta se lhe não apresentasse como uma ironia maligna e diabólica e não o levasse a estourar os miolos."



Foi em Santa Rita que tudo aconteceu. Santa Rita é uma praia que apesar de ficar a somente vinte minutos de Natal permanece deserta durante todo ano, com excessão do verão, quando as casas de praia que ocupam a orla ficam cheias de crianças e adolescentes mimados, meninos que se exibem a meninas que também tem seus hormônios em ebulição. No verão, a praia é ocupada por jogos de volei e amores imaturos, por isso prefiro ocupar a casa que meu pai construiu no inverno. É uma casa imensa! Duas suítes no primeiro andar, mais duas no térreo, acomodações ainda para mais dez pessoas no térreo e talvez mais dez subindo as escadas.
Nós ocupamos a suíte ao sul, naqueles dias de julho. Estávamos na cama, eu e ela, cama que eu havia dividido com o Sérgio momentos antes, quando ela falou: "Ele me disse que hoje não saíria daqui se não fizesse sexo com você". Eu me virei a ela e estava óbvio que eu queria mais explicações. "É! O Sérgio apostou comigo que hoje ia te comer". Eu ri, sem saber se ficava ofendido ou não com a pretensão daquele dançarino de corpo perfeito que estivera na minha cama antes. Anna, no entanto, sabia que deveria estar ofendida, ofendida e enciumada. Agora ela me queria na cama com ela. Porque Sérgio me tivera, e agora bebia e fumava com nossos outros amigos no térreo. Ela sentia-se na vez dela. Era a vez dela me ter naquela cama.
Avançou sobre mim e não nego que os beijos me atiçaram. E conforme meu corpo se ascendia, meus pensamentos fervilhavam. Um momento de escolha se aproximava e vórtice parecia me deixar tonto. "Eu sou gay, não sou? Então o que estou fazendo aqui, com ela, excitado?", eu me perguntava. Não havia dúvidas quando o Sérgio me beijou e me trouxe pela mão até aquela cama, agora quando ela montava em mim e tirava a própria blusa. eu pensava se deveria estar ali com ela ou não. Uma constatação foi tomada ali, com Anna e graças a ela, definitivamente, mulher não é a minha praia.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

PRESENTE: "Ao Futuro! E Aos Amigos!"

, em Natal - RN, Brasil
Cheguei da praia, onde deixei meus pais na paz de Santa Rita e liguei para meus amigos. Chegara em Natal dois dias antes e eles ainda não sabiam que eu estava lá. "Vamos sair, vamos nos ver", repetiram. E marcamos no Kafofu. Descemos caminhando para o bar, a noite quente se enchia de nuvens e perdia estrelas enquanto caminhávamos, começou a chover fino e eu os vi se apressarem e por um instante fiquei para trás. Reconheci-os tão diferentes agora.
Peter não tinha mais seus cabelos cumpridos e não estava preocupado com seus garotos perdidos. Namorando agora um gênio, estava trabalhando no lugar de contar com a herança de seu avô. Voltara a faculdade, que ele abandonara por dois anos e estava quase morando com o namorado, passando mais tempo na casa dele do que na sua própria, abandonara as boates e bares. Tive que perguntar: "Fumar você ainda fuma né?", e ele acendeu um Malboro.
O Andarilho parou. Suas caminhadas antes traçadas por caminhos agora obscuros se encerraram. Trabalhando, morando sozinho, fazendo faculdade, o tempo para as armações que seriam de se esperar dele acabaram. Também o vi de forma diferente, sofrendo por amor, ou melhor, agora conhecendo o que é sofrer por amor, antes ele só conhecia o que era pessoas sofrendo porque chegaram a amá-lo. Lembro que o Marcelo Sunshine dizia que sofrer por amor é demodé, mas que também dá ao sofredor uma certa profundidade. No espírito do que dizia Vinícius, sem uma sombra de tristeza, toda beleza é só beleza. E agora o Andarilho tinha esta sombra que destacou a beleza dele. O sorriso dele não era mais somente um sorriso, um sorriso de criança que ele se gabava de possuir, agora era um homem bonito com um sorriso bonito.
Michel também estava diferente. Sem o Stan ao redor dele, está mais leve, e com um novo namorado que agora o considerava mais importante que os amigos, ele demonstrava estar mais confiante. E também um novo emprego. O mais novo entre nós é o que está mais bem encaminhado na vida profissional. Trabalhando com a indústria de moda agora, graças ao curso técnico do SENAI, estava em dúvida se investia nesta área com uma faculdade de design ou de engenharia de produção.
Crescemos, todos nós. Agora somos adultos! Agora as discussões na mesa de bar falam sobre aluguel de apartamento, futuro no emprego, casamento, enteder exatamente no que seu amigo trabalha. "Afinal, Foxx, se você for falar qual é o seu emprego, o que você diz?". É, eu também estou diferente. Quase terminando o doutorado e com planos de agora assentar minha vida. De definição! De finalmente alcançar meu futuro, de realiza-lo porque a estrada está chegando ao fim, está na hora dele começar. E também um namoro. Um namoro que começou pela internet e ouço meus amigos dizendo: "Isso é tão sua cara!". Um futuro amoroso finalmente começando.
E o brinde com os copos de vidro e a cerveja barata do Kafofo se tornam diferentes, que por um segundo pareceram taças de cristal e champagne:"Ao futuro! E aos amigos!".

domingo, 24 de janeiro de 2010

PASSADO: Anna Karenina, capítulo 3

, em Natal - RN, Brasil

"O pior é a malícia, sim, a malícia da inteligência. A fraude da inteligência"


Ficamos! Ali e várias outras vezes, e descobri quem era Anna. Mulher fogosa apesar dos olhos mortos e da pele fria. Olhava para as pessoas com aquele ar de quem não se importava com ninguém e caminhava como se não houvesse mulher mais bonita do que ela em toda cidade. Dançava como raras pessoas conseguem, aulas de balé e de dança de salão, vivera dois anos na Itália, e jurava, com lábios trêmulos, que nunca se prostituíra lá, apesar de ter trabalhado como dançarina "exótica". Ninguém acreditava. Ninguém acreditava porque era a Itália e porque era Anna. E porque Anna tinha dinheiro. Muito, pagava tudo para quem estivesse com ela. Mas não se vestia com luxo, na verdade, se vestia como uma putinha daquelas mais baixas que você possa imaginar. E não, não imagine as putinhas de Lolita Pille. Um dia me apareceu com uma minissaia branca e uma bota até o joelho para passear no shopping. Ela era olhada, admirada, temida, homens a cercavam e ela fingia-se de inocente nestes momentos, brincava com eles, como se fosse somente uma menina. Um dia me colocou contra a parede: "Por que ainda não fizemos sexo? Parece que você tem medo". Olhei-a de cima a baixo e confirmei: "Sim, tenho medo de você, de quem eu posso ser estando com você, mas principalmente você é uma mulher que assusta qualquer homem". E foi quando a chamei pela primeira vez de Anna Karenina, e ela sorriu, maliciosamente, por trás dos olhos mortos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

PASSADO: Anna Karenina, capítulo 2

, em Natal - RN, Brasil
"E eu que procurava milagres, pesaroso de não ter visto nenhum que me convencesse! Um milagre material ter-me-ia conquistado. E sem ver o único milagre possível, o milagre permanente e que nos rodeia por todos os lados!"


Quando me aproximei de meus amigos, eles me perguntaram o que havia acontecido. Jonathan já havia corrido atrás de Anna, que saíra em disparada após bofetear-lhe a face com uma impetuosidade de mulher traída. Eu não sabia explicar. Ao meu redor, outros também me olhavam sem acreditar e sem entender o que acontecia. Afoguei minhas preocupações em outras cervejas, quando Jonathan voltou. E voltou me puxando para junto dele, exibindo os músculos do braço e as tatuagens, mas antes dele beijar-me novamente, perguntei o que tinha acontecido e, rindo, ele respondeu: "É que ela queria ficar com você!".
Disparei a rir, sinceramente surpreso, sinceramente lisongeado. E ele continuou a falar: "Mas eu disse que você, com certeza, preferia ficar comigo". E apertou minha bunda com as mãos calejadas pelas barras da musculação. Eu o beijei de novo, mas desta vez comentei no seu ouvido: "Não tenha tanta certeza que você seria o escolhido". Ele riu, meio sem acreditar, e me desafiou, duvidando que eu ficaria com ela também. Coincidentemente ela se aproximou, com o mesmo olhar morto, foi quando ele sorriu para ela e soltou: "Ele disse que também ficaria com você, se você quisesse...".



sábado, 12 de dezembro de 2009

PASSADO: Anna Karenina, capítulo 1

, em Natal - RN, Brasil
"Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira."


Era forró que tocava no ar quando eu vi Anna a primeira vez. Na verdade não a vi, primeiro, eu vi Jonathan que estava ao lado dela. A imensa tatuagem no braço dele, que começava no antebraço e se perdia por dentro da manga da camisa justa que usava, ressaltando-lhe os músculos, chamou-me muita atenção. Eles conversavam entre cervejas e um cigarro que tamborilava entre os dedos de unhas vermelhas que ela ostentava. Ele era moreno, de profundos olhos vivos e negros, ela tinha uma pele branca, cujos seios não muito grandes perdiam-se num corpete negro. O cabelo dela estava preso e o colo todo a mostra reluzia as cores que escapavam do palco.
Eu estava próximo a eles, observava e fui notado. Eles conversaram algo e eu notei que ela dissera um veemente não para alguma proposta dele, e me lançara um olhar morto, daqueles que só pessoas que já sofreram muito têm. O olhar morto e meio cheio de desespero. Assustado, reuni-me aos meus amigos que bebiam no bar, e fiquei por lá por um tempo, quando notei o Jonathan sozinho, agora, me rondando. Ele me olhava, ao encontrar meus olhos sorria, eu sorri também, e com a coragem que somente o álcool poderia me dar, aproximei-me. Ele se apresentou com aquela voz de barítono, contou da banda de pop rock que cantava, falou mais algumas palavras, e quando me enlaçou com aqueles braços tatuados me beijou.
Foi quando uma mão se colocou entre nós, uma mão branca com unhas vermelhas se pôs entre nós. Eu olhei sem entender o que acontecera, e Anna olhava para Jonathan com fúria, apesar dos olhos mortos que ostentava, e uma tapa explodiu na cara dele, de uma mão branca e unhas vermelhas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

PASSADO: Homofobia(s) I

, em Natal - RN, Brasil

Paula



Aquele menino de cabelos cacheados nasceu em um bairro pobre da periferia de Natal. Região perigosa àquela época, mais perigosa hoje em dia. Nossa Senhora de Nazaré. Margeado por um lado pela fartura de Lagoa Nova, um bairro de bons, com ruas asfaltadas e casas de muros altos, e, por outro, pela pobreza do Bom Pastor, onde a linha férrea cruzava por cima de um riacho poluído pelo esgoto que descia das casas pelo meio-fio das ruas. Era um bairro de imensos terrenos baldios onde nasciam mamonas e meninos corriam descalços em ruas de barro vermelho. Hoje vilas ocuparam os terrenos, a prefeitura instalou esgoto e espalhou o sólido calçamento. O riacho não existe mais. Antes os meninos faziam guerras de estilingue e faziam lanternas para quando faltasse luz, hoje eles se matam com armas de fogo e assaltam pessoas quando a luz se afasta em ruas escuras. Neste bairro ele cresceu e se formou. Cresceu um menino quase menina com seus cabelos de cachos pequenos que balançavam quando ele corria pelas ruas. E como Pombinha, cabia a ele, um único destino. Um destino marginal.
Foi neste bairro que o destino de Paulo o permitiu crescer. Cresceu ofendido pelos meninos que o destino dele o forçou a conviver preso naquele bairro que crescia tal como ele mesmo, que de menino se transformava aos poucos em homem, ou mulher? Ele sofria com essa dúvida, devia ser homem, tinha corpo de homem, mas queria ser mulher, nascera para ser mulher, tinha certeza, apesar do corpo. Mas, este mesmo destino que fizera nascer menino, ali, naquele bairro pobre da periferia de Natal, o surpreendeu um dia, quando um outro, tão diferente, tão marginal quanto ele, ao qual ele não gostava muito de envolver-se porque com medo e asco de sua própria imagem refletida no outro, preferia evita-lo. Não obstante, estavam expostos ao mesmo tratamento, de suas famílias, de seus vizinhos, daqueles outros meninos que corriam descalços no mesmo barro vermelho que eles. Este, de nome bíblico, Isaac, apareceu um dia na casa da mãe com um namorado, e toda vizinhança comentou e foi olhar. Paulo, também surpreso, foi olhar e, inflou-se de coragem e também resolveu se mostrar, e amigo do Isaac ele se tornou. Apoiado por Isaac, Paulo assumiu o seu destino e tornou-se Paula.
E os cabelos cresceram, as roupas mudaram, e ele se tornou manicure, através de remédios os seios passaram a crescer. Adotou o nome por causa de um personagem de novela que ele admirava. E ele passou a não atender mais por ele, somente ela. Agora tornara-se definitivamente Paula e passara a marcar encontros com homens através da lan house do bairro. Gastava seu dinheiro de manicure com roupas curtas e horas na internet. Sempre ia encontrar com eles na esquina de uma avenida, e enquanto ela esperava e, às vezes, algum conhecido passava, cumprimentava-o com um aceno quando não mandava um beijo. Um destes homens deve tê-lo matado numa noite de setembro. Talvez um conhecido mesmo, talvez um desconhecido da internet. E Paula foi encontrada estirada, pobre Paula, no chão, com o vestido roto e os cabelos vermelhos, mas não era tintura, era mesmo sangue, que escorrera de seu corpo para o chão, e alcançara seu cabelo. E ninguém nunca soube quem tinha matado Paula, porque não precisa, "era só um traveco de nada".

domingo, 8 de novembro de 2009

PASSADO: A Face

Este texto foi escrito para mim por um ex, o Txi. Um ex-ficante. Nós tentamos um namoro em junho de 2006, porém não o considero como um ex-namorado. Apesar de ter sido ótimo termos ficado juntos, mas, convenhamos, um mês não é um namoro. Tudo se encerrou, disse ele, porque teríamos nos tornado mais amigos do que namorados. Na minha opinião foi porque ele realmente estava apaixonado por um colega que lutava karatê com ele na seleção do Estado, o Júlio. Hoje, três anos depois, talvez traumatizado pela impossibilidade do amigo hétero apaixonar-se por ele, podemos encontra-lo dentro de alguma igreja, sufocando seu desejo.


A Face


Eu o observo... Tão atentamente, que minha mente voa pela arquitetura de seu rosto.
Vejo a perfeição e as curvas delineadoras desta jóia reluzente.
Os olhos de um oriental, que expressam a sabedoria milenar de idas vidas...
Duas pedras de ébano jazem naqueles olhos expressivos, que parecem clamar por meus afagos.
E então vejo a delicadeza de seu nariz que desce suavemente , assim como uma duna, cuja areia a cobre como um véu.
Perco-me nestes lábios... Que me seduzem, me envolvem e me levam à distâncias cósmicas de prazer, numa trama intrínseca de amor e paixão, em puro fervor...
E a barba que cresce feito grama verde num belo jardim, do queixo másculo até ao principio de suas orelhas pequenas.
Ele então me beija, dando-me a prova de que aquela fantasia pertencia só a mim.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

PASSADO: Josie e Nosso Passado

Esta reportagem, trazida a mim numa conversa no Twitter, sobre a menina Josie Romero, fez-me pensar. Josie tem oito anos e, apesar da pouca idade, reconhece-se não como menino, mas como menina. Josie nasceu Joey e, conta sua mãe, que sempre agiu como menina. A pergunta que faço então, e acredito que todos devem fazer, é: Não é muito cedo para tomar esta decisão?
Eu acredito que não. Lembro de eu mesmo. Aos oito anos de idade, eu sabia que eu não era um menino como os outros. Eu agia diferente dos meus irmãos. As brincadeiras que me interessavam. Os outros meninos e homens adultos que atraiam minha atenção. Lembro de uma propaganda da Monange, acho q era, em que um homem trocava um selinho com uma menina que não deveria ter mais que minha idade, isso me excitava sobremaneira. Eu era uma criança. Não precisei experimentar os meus primeiros corpos para descobrir o que eu já sabia, que eu não era como os outros. Não precisei dos primeiros carinhos de Fábio, das brincadeiras posteriores de Tony, ou os amores escondidos com André ou Marlon. Não foram necessários.
Penso agora, também, naqueles que são como os outros. Os meninos que sempre foram héteros. Que tinham os comportamentos característicos e que, influenciados pelos pais e/ou sociedade, aprendem desde cedo a correr atrás de meninas. Eles, como pude observar no papel de professor que sou, e apesar de não gostar da palavra, eles naturalmente agem assim. Há naturalidade no comportamento daquelas crianças, meninos e meninas. Afinal, ao contrário do que nossa sociedade cristã prega, crianças também são seres com sexualidade. Ela não surge do nada após a puberdade. Com isso, com essa sexualidade, isto é, comportamento sexual existente, os meninos e meninas heterossexuais não precisam crescer para decidir, não precisam completar dezoito anos, vinte-e-um, trinta-e-cinco, para serem maduros o suficiente para decidir se realmente se interessam por mulheres ou homens não.
Por que então este questionamento sobre a transsexualidade? A transsexualidade é considerada pelo Organização Mundial de Saúde uma síndrome. O transsexual é um indivíduo que não é homossexual. Ele apenas não consegue sentir algum pertencimento quanto ao seu sexo anatômico, sendo que tal desordem pode ser causada por condições genéticas ou problemas hormonais pré-natais. Sendo assim, ao nascer e reconhecer-se num corpo que não é o seu, mesmo aos oito anos de idade, por que por em dúvida os sentimentos de Josie? Se nós mesmos nunca tivemos dúvidas do que somos. Josie só teve a sorte de ter pais que a aceitaram do jeito que ela é. Mais cedo do que nós mesmos conseguimos nos aceitar.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

PASSADO: Diálogos Inesquecíveis II

Eu tinha doze anos, quando, de calças curtas, saí a noite de casa, na rua mesmo cinco meninos me cercaram, daqueles que sempre estavam ali e participavam das mesmas brincadeiras que eu. Foi quando, Fábio, com seus olhos verdes faiscantes virou-se e disse:
- Sabe ontem quando você entrou em casa chorando?
Gaguejando, respondi:
- Se-sei sim! Entrei porque vocês estavam me chamando de viado.
- E você contou a sua mãe, não foi?
- Foi, ora!
Os meninos ao redor bufavam! Os olhos verdes de Fábio pareciam se tornar vermelhos.
- Eu quero saber se quem dá a bunda é ou não é viado?
Eu permaneci em silêncio. Ele então continuou a falar.
- Ó, é melhor que da próxima vez sua mãe não me venha encher o saco dizendo que você não é viado, porque da próxima vez eu conto tudo para ela, 'tá ouvindo? Ela veio me perguntar se eu já tinha comido sua bunda p'ra chamar você de viado, eu fiquei calado, mas da próxima vez eu conto tudo. Estamos entendidos?
Tremendo, eu apenas meneei a cabeça afirmativamente. Eles se afastaram e eu voltei para dentro de casa, dessa vez sem chorar e sem fazer alarde. Na verdade, nunca mais chorei na frente dos meus pais de novo.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

PASSADO: Diálogos Inesquecíveis I

Minha mãe escreve algo em um caderno e eu confiro coisas no caixa da loja dela. Quando, sem mais nem porquês, ela fala:
- Muitas vezes eu tive que impedir seu pai de bater em você...
Levanto os olhos sem entender o que ela pretende com aquilo e balbucio:
- Mas por quê?
- Porque chegavam falando que você parecia viadinho lá em casa e ele não gostava de ouvir as pessoas dizendo isto.
- E por que ele não brigava com as pessoas que diziam isso? Por que ele pretendia brigar comigo? Bater em mim?
- Era exatamente o que eu dizia a ele.
- Mas ele ia me bater assim, do nada, sem eu ter feito nada errado? Só porque alguém disse que eu parecia ser viado?
- Sim! Imagina só se você fosse...
E me olhou dos pés a cabeça, por cima dos seus óculos de armação de tartaruga, com um olhar frio, calculando.
- É... imagina só!

terça-feira, 25 de agosto de 2009

PASSADO: "Dei Uma Surra no Ladrão, Ora"

Eu descia a ladeira que separava a parada de ônibus da minha casa, em Natal, chegava do trabalho, com várias pastas de provas de meus alunos sob o braço, quando o meu celular recém-comprado tocou. Brilhava no visor o nome Dim. Atendi e continuei andando enquanto conversava. Dim me falava sobre novidades e bobagens. Atravessei uma das travessas e observei uma figura sinistra se aproximando, mas a ignorei, com certeza não seria nada, mas eu estava enganado e descobri isso quando ouvi: "Passa o celular". Eu olhei para trás com calma. A figura sinistra, um jovem moreno de cabelo encaracolado e olhos sem brilho, pressionava uma faca contra minha barriga e repetia: "O celular!". Eu analisei-o de cima a baixo e disse ao Dim no telefone: "Hei, eu estou sendo assaltado. Falo com você já, já, viu?". Desliguei o aparelho e coloquei-o no meu bolso. Ele me olhou sem entender e repetiu: "Eu falei p'ra você me passar a porra do celular!". Naquele instante todos os conselhos de nunca reagir a assaltos pipocavam na minha mente, toquei o celular ainda uma ultima vez quando foi mais forte que eu: "Não!", surpreendendo o ladrão, que então pressiona a faca com mais intensidade na minha barriga quase me ferindo, quando falo: "Olha, eu moro logo ali, você não vai me assaltar quase na calçada da minha casa". O ladrão, então, surpreendido, hesitou por alguns segundos, e era um pouco de exagero, mas não mentira, faltavam alguns quarteirões. Foi quando ele recuperou a vontade e decidiu reforçar sua ameaça, mas antes, num movimento rápido, derrubei a faca jogando as pastas sobre a arma, ele deu um passo para trás e eu o segui, caindo com meus punhos cerrados no rosto dele. Ele tentou se defender e eu ouvi atrás de mim uma senhora gritar: "O que está acontecendo na porta da minha casa?", o ladrão estava no chão, tentando proteger-se quando gritei que ele pretendia assaltar-me. Dois homens grandes e musculosos colocaram-se ao meu lado e a senhora disse: "Ninguém vai assaltar você aqui não, meu filho". O ladrão olhou-me assustado e surpreso, levanou-se rapidamente e olhando os dois "seguranças" que surgiram ao meu lado correu o mais rápido que pôde, agradeci e dirigi-me novamente a minha casa, foi quando o celular tocou de novo: o Dim, em conferência com o Fê. "Que houve?", perguntavam assustados, "Dei uma surra no ladrão, ora".

terça-feira, 4 de agosto de 2009

PASSADO: Meu Último Dia Em Natal

Inspirado pelo Casado(i)s

Eu queria ser bonito como o modelo daquele outdoor, ah, como queria. Cadê o Andarilho? 25 centavos um picolé de chiclete. Que menina linda, mas tão mal vestida! O cara me encarou ou olhou para meus óculos aviador? Ventava a pouco, mas agora já não venta, faz calor. Adoro vento meus cabelos, é como cafuné. Outro 63. Meu irmão disse que o Carrefour está para falir. Moedas. Um novo olhar nos meus óculos, mas de um cara que precisa urgente de uma pedicure. 77, Parque dos Coqueiros. O cara da pedicure pegou o 63. Lembro de você: tava com um gatinho no Feitiço naquela fatídica quinta. Andarilho, where are you? Picolé delivery. Curso de inglês. Meu braço está fino. Estou de havaiana verde. Para quê diabos eu aceitei ir nesse aniversário, me diga? Quem sabe eu conheço alguém não é? Idiota! Esperançoso! Você não é como o Andarilho ou o Gu que vai para algum lugar e escolhe se vai ficar com alguém, você só fica com alguém por pura sorte. Exagerado! Dramático! Tem quente que quer ficar com você, não do tipo que você gostaria, mas tem. Se 2009 não for diferente deixo de ser cristão. Brahma? Ateu? Skol? Buda? Volei? Preciso voltar a academia. Veia cava, aorta, coração. "Meu coração não sei porquê bate feliz quando te vê". Pitangui, já são 11:15 h, e estou indo para a granja do dito aniversariante. Vodca! Esses óculos estão marcando meu nariz. Com óculos o verbo tem que estar no plural? Agora um menino está olhando que minha bolsa é da Playboy. Um Maitai e dois China Village, por favor! Foi o saldo de ontem a noite, sozinho, no Gringo's, após o desencontro e antes do encontro com Alan e Wallace. Gu chegou. Andarilho ligou dizendo que está atrasado. "Jura?". Fico então conversando com o Gu.