Google+ Estórias Do Mundo: beleza
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domingo, 20 de março de 2016

Manicure

Estou no ônibus, acompanhado com dois amigos, um casal de namorados, eles estão sentados na cadeira a frente, eu sentei atrás, uma senhora de aparência indígena, de cabelos muito negros, mas com fios brancos, que parecia ter por volta de sessenta anos. Em determinado momento da nossa conversa, a senhora pediu licença.
- Boa tarde, moço, espero não estar atrapalhando.
Fiquei surpreso com a interferência dela.
- Não quero ser intrometida, mas eu queria fazer uma pergunta pessoal...
- Fique a vontade. 
Respondi, mas com medo do que vinha naquela pergunta...
- O que o senhor usa nas suas mãos, elas são tão bonitas. Tão macias.
Tomei um susto.
- As minhas estão tão desidratadas, feias, cheias de rugas...
E mostrou as próprias mãos.
- Nada demais, apenas passo um hidratante sempre.
Respondi.
Ela olhou minhas mãos novamente e agradeceu.
Meus amigos me olhava estupefatos com a situação. E eu pensei: será que ela acha que eu tenho a mesma idade dela?

domingo, 6 de março de 2016

Bubble

, em Natal, Natal - RN, Brasil
- Minha bunda fica linda depois do ioga. Fica bem redondinha.
- Haha, sua bunda é redondinha sempre! Mas se esse é um dos benefícios, portanto, continue firme na ioga!!
- Ah não é não. Minha bunda é em gota. A sua que é redondinha, ela é em bolha.
- Não sei de onde que vc tira que sua bunda não é naturalmente redondinha, amigo. Seu bumbum é um dos mais lindos que eu já vi. E, Kkkkk, só vc mesmo, em bolha?
- Eu não disse que era feia. Só que não é redonda.
- Não vejo problema no formato de sua bunda, adoro ela.
- E é a descrição é de desenhista, meu amô. Minha percepção de beleza é de quem desenha.
- E já fiquei com muito boy que tinha uma bunda feia, não é o seu caso. E como desenhista o senhor deveria se importar pouco com as formas reais dos corpos, já que perfeição a gente só consegue quando desenha.

domingo, 22 de março de 2015

"Eu Vejo Pessoas Bonitas"

Às vezes eu me sinto o Haley Joel Osment em o Sexto Sentido.

- Eu vejo pessoas bonitas!
- Com que frequência?
- O tempo todo!

Todo mundo que eu vejo tem algo bonito. Simplesmente não sei como alguém pode olhar para outra pessoa e dizer que não há nada ali agradável ao seu olhar. Seja um suave brilho nos olhos, a bonita definição dos ombros, a bela proporção das pernas, a deliciosa curva da bunda, a macia força das coxas, a fofa simetria das orelhas. Como alguém pode olhar para outra pessoa e não encontrar ali nada de bonito?
Não que eu seja cego para os defeitos. Eu posso vê-los também e ser bastante detalhista. Eu sou capaz de reconhecer que aqueles olhos são muito juntos, que os ombros são largos demais, as pernas de fulano poderiam ser pelo menos cinco centímetros maiores, que um outro não passou na fila para receber bunda quando Deus fez-lhe o corpo, que alguém tem uma perna dividida canela-joelho-canel. E nem vamos falar com essa mania das pessoas de usarem barba de mendigo, aparem isso, por favor!, e não é raspar, é aparar de vez em quando, e uma dica é que se quando você come algo suja sua barba, ela está grande demais. E sandália com meia: não, não, não!!!
Culpo minhas habilidades com desenho por isso. "O desenho não é a forma, é maneira de ver a forma", já dizia Degas. Desenhar te deixa consciente de duas coisas: o que é um corpo perfeito e o que faz uma pessoa bonita. Perfeição é uma coisa na verdade simples de obter, mesmo ela não existindo no mundo real, basta seguir a chamada Proporção Áurea ou Número de Ouro, uma regra que foi popularizada pelo Renascimento. 7,5:2 é a chave para um corpo humano perfeito, Juntando a isto a simetria e teremos a perfeição divina.
Porém, apesar do Número de Ouro ser a chave da perfeição, ele não é a chave da beleza. Por um motivo muito simples: o belo não se encontra na perfeição. Ironicamente, apesar da indústria de cosméticos dizer-nos o contrário, é o defeito que torna alguém bonito, porque a beleza se encontra naquilo que é único e são nossos defeitos, nossas experiencias cravadas em cicatrizes, rugas e cabelos brancos, nossos olhos ligeiramente assimétricos, orelhas de tamanhos diferentes, narizes grandes demais, uma boca um pouco torta para esquerda, que tornam nosso rosto lindo e inimitável. Um ombro mais estreito, pernas mais longas, um abdômen mais largo, um quadril mais amplo, uma altura menor tornam cada um de nós especial, um indivíduo sem comparação na face da Terra e, portanto, um indivíduo lindo.
Por isso, eu olho em minha volta, aonde eu estiver, e posso encontrar alguém bonito. Porque minha definição de beleza não encontra eco na perfeição. Aqueles perfeitos no máximo arrancam de mim uma admiração técnica, como se eu observasse um desenho perfeitamente executado, mas que falta emoção. Haverá um elogio sim, mas em seguida darei de ombros e farei um beicinho de desdém. E por quê? Porque sinceramente acho muito mais bonito um menino de orelhas grandes, peito definido e braços magrinhos que sorriu para mim iluminando todo o ponto de ônibus onde ele estava esperando o dele e eu passei dentro do meu. Ele não era perfeito, mas tenham certeza, fazia tempo que eu não via um menino tão lindo nesta cidade.