Conversando com um amigo, o Bê, que hoje mora em Berlim, Alemanha, via Whatsapp (Deus abençoe a tecnologia), cheguei a conclusão que minha vida anda dialética demais para meu gosto. Logo eu que nunca fui hegeliano na vida, para tristeza do meu pai, reconhecer às vésperas da iniciação crística que minha vida tem se dado em um jogo de tese, antítese e síntese é, para dizer o mínimo, risível. Mas me deixe contextualizar você. O alemão (as coincidência, olha as coincidência) Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu no ano de 1831, filósofo, foi o pai do historicismo e grande influenciador de Karl Marx e seu marxismo. Hegel formulou o conceito de Geist, espírito, o espírito da História, que se manifestaria através de um conjunto de contradições e oposições (a tese tem sua antítese) aos quais no processo histórico se integram e se unem (síntese). Segundo o sistema de Hegel, o Espírito do processo histórico estaria em contínuo aperfeiçoamento através desta lógica dialética (há um dialogo entre as ideias opostas do Espírito e, racionalmente, se chega a uma conclusão nova) e, portanto, a humanidade estava sempre em marcha contínua para o progresso.
Em diversos aspectos de minha vida, a lógica explicativa do historicismo alemão pode ser aplicada. E não se surpreenda porque eu faço (mesmo!) isso. Historiador que eu sou, só sei pensar a minha vida como a versão em miniatura da História da Vida Privada de Georges Duby, com umas pitadas da História da Sexualidade de Philippe Aries (ai, meu Deus, como sou Nouvelle Historie!). Contudo, tenho consciência que sou o historiador da minha vida sem o distanciamento clarificador do tempo. No meio do turbilhão que me faz cronista de minha própria História, tenho certeza que sou arrastado por interpretações errôneas que só verei com mais clareza em meus oitenta anos, quando meio século me distanciar destes eventos. Mas estou divagando. Voltemos a Hegel.
Meu trabalho, meus amigos, meus amores têm se alternado num jogo dialético chato. Eu já tive um bom emprego, cercado de amigos, vivendo e curtindo minha vida de solteiro, se não acreditam leiam este blog de 2006 a 2009, é a vida de outra pessoa; a mudança para Belo Horizonte para o doutorado, mais em busca de um amor verdadeiro que eu não encontrara ainda (sim, o motivo real para deixar Natal foi eu acreditar que não era possível encontrar nesta província alguém que pudesse gostar de mim) transformou minha vida e me colocou a frente com uma sensação de fracasso que eu nunca experimentara antes. Não que eu fosse um garoto mimado, não, eu era um jovem bonito, inteligente e cheio de planos que vinha de outro sonho feliz de cidade e aprendeu a duras penas o que era realidade (#vemniminCaetano). Vi-me então, na capital mineira, desempregado (cheguei a passar fome, ou quando o dinheiro só dava, na semana, para viver de pão de forma e margarina e água do filtro); sem amigos (fiz amigos maravilhosos em Minas, em especial o Rajeik, o Bê e o Leão, que com certeza salvaram esta temporada para mim, mas os que eu deixei em Natal se foram para sempre) e o amor que me atraiu para lá foi rapidamente substituído por sexo com desconhecidos, crises de pânico e celibato auto-imposto (com exceção dos seis meses ao lado do Tato e os meses em que eu me vi apaixonado pelo Anjo). O hermetismo diz que a vida vem em ondas, uma hora você está no topo, outra hora você está no fundo; Hegel pensava que a oposição dialética levaria ao progresso. Eu já tive um bom emprego (topo, tese), já estive desempregado passando fome (fundo, antítese); já tive amigos que se diziam irmãos (topo, tese), já morei numa cidade que não conhecia ninguém (fundo, antítese); já curti minha vida de solteiro e fiz sexo com mais pessoas do que consigo lembrar (topo, tese), mas também já tive crises de pânico em baladas porque todo mundo estava se pegando (olha o nível de aversão que eu tomei pelo negócio) e evito sexo (fundo, antítese). De 2010 a 2012, sem dúvida, foi isso que eu vivi.
Mas, como todo processo dialético termina em síntese, temos o útimo ano para cá. Em 2013, eu comecei uma carreira que paga muito menos, pelo menos 66% do meu antigo salário de professor com somente a graduação. Não passo fome, mas levando em consideração que agora eu sou doutor. É duro de engolir. Meus amigos de Natal, por mais que eu tentasse, se afastaram irremediavelmente. Tentei criar novas amizades, mas minha imaturidade causada pelo excesso de livros em minha vida e pouco contato com seres humanos, dificulta o processo. Primeiro, sou atraído por garotos jovens demais, mas sou velho demais para passar meu tempo livre fazendo programas com garotos de 20 anos. Tenho consciência disso e preciso mudar, o que me faz dirigir minha atenção para as pessoas da Igreja que estão em situação imediatamente oposta, homens e mulheres com seus relacionamentos e vidas estáveis dos quais também me sinto tão distante por causa da mesma falta de experiência. À vontade me sinto somente com os amigos virtuais, que moram na Alemanha, BH, Recife, São Paulo, Rio das Ostras, distantes se fazem mais presentes que todos por aqui. No caso das minhas relações amorosa, eu experimentei situações nunca d'antes vividas, um tentou e conseguiu transformar minha vida em um inferno, com outro me apaixonei e por um instante eu achei que ele poderia corresponder ao sentimento, durou pouco tempo, para ele inclusive sei que não significou nada, mas para mim foi realmente uma experiência completamente única e a mais intensa vivida até aqui. Pela primeira vez na minha vida eu não fiz sexo com um estranho (o meu ex vai me matar, mas gente, eu namorei a pessoa por 6 meses, e nunca soube que ele era alérgico à chocolate porque ele morava a dez horas de viagem, havia amor, com certeza havia, mas nunca existiu intimidade). Eu provei o gosto da minha fantasia erótica de ser íntimo daquele com quem divido minha cama. Contudo, se tudo isso é síntese dos polos opostos dos quais era minha vida, e o movimento do Espírito da História não para transformando a síntese em nova tese, qual será a próxima antítese que será formada? E se vivemos em ondas, como a maré, e isso é um topo, quanto mais eu ainda posso descer? O futuro não parece promissor, o progresso de Hegel já foi descartado como uma lei histórica, na verdade a História tem abandonado leis explicativas totais há muitos anos, resultado da pós-modernidade, mas será que Hegel pode explicar meu pequeno universo? Retorno aos herméticos e lembro que o que é verdade para o todo, também é para a parte. Se eu acreditar em Hegel posso ter esperanças, se seguir Hermes não.
