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domingo, 2 de agosto de 2015

Conflito Cultural

, em Natal - RN, Brasil
Foxx: Eu fiz paçoca de carne. Quer um pouco?
Amigo Mineiro: Adoro paçoca!
Pega uma colherada cheia.
Amigo Mineiro: O que é isso? É salgado! E tem carne! E não tem amendoim!
Foxx: Que parte de paçoca de carne você não entendeu?

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Reductio Ad Absurdum

, em Natal - RN, Brasil
Conversando com um amigo, o Bê, que hoje mora em Berlim, Alemanha, via Whatsapp (Deus abençoe a tecnologia), cheguei a conclusão que minha vida anda dialética demais para meu gosto. Logo eu que nunca fui hegeliano na vida, para tristeza do meu pai, reconhecer às vésperas da iniciação crística que minha vida tem se dado em um jogo de tese, antítese e síntese é, para dizer o mínimo, risível. Mas me deixe contextualizar você. O alemão (as coincidência, olha as coincidência) Georg Wilhelm Friedrich Hegel nasceu no ano de 1831, filósofo, foi o pai do historicismo e grande influenciador de Karl Marx e seu marxismo. Hegel formulou o conceito de Geist, espírito, o espírito da História, que se manifestaria através de um conjunto de contradições e oposições (a tese tem sua antítese) aos quais no processo histórico se integram e se unem (síntese). Segundo o sistema de Hegel, o Espírito do processo histórico estaria em contínuo aperfeiçoamento através desta lógica dialética (há um dialogo entre as ideias opostas do Espírito e, racionalmente, se chega a uma conclusão nova) e, portanto, a humanidade estava sempre em marcha contínua para o progresso.
Em diversos aspectos de minha vida, a lógica explicativa do historicismo alemão pode ser aplicada. E não se surpreenda porque eu faço (mesmo!) isso. Historiador que eu sou, só sei pensar a minha vida como a versão em miniatura da História da  Vida Privada de Georges Duby, com umas pitadas da História da Sexualidade de Philippe Aries (ai, meu Deus, como sou Nouvelle Historie!). Contudo, tenho consciência que sou o historiador da minha vida sem o distanciamento clarificador do tempo. No meio do turbilhão que me faz cronista de minha própria História, tenho certeza que sou arrastado por interpretações errôneas que só verei com mais clareza em meus oitenta anos, quando meio século me distanciar destes eventos. Mas estou divagando. Voltemos a Hegel.
Meu trabalho, meus amigos, meus amores têm se alternado num jogo dialético chato. Eu já tive um bom emprego, cercado de amigos, vivendo e curtindo minha vida de solteiro, se não acreditam leiam este blog de 2006 a 2009, é a vida de outra pessoa; a mudança para Belo Horizonte para o doutorado, mais em busca de um amor verdadeiro que eu não encontrara ainda (sim, o motivo real para deixar Natal foi eu acreditar que não era possível encontrar nesta província alguém que pudesse gostar de mim) transformou minha vida e me colocou a frente com uma sensação de fracasso que eu nunca experimentara antes. Não que eu fosse um garoto mimado, não, eu era um jovem bonito, inteligente e cheio de planos que vinha de outro sonho feliz de cidade e aprendeu a duras penas o que era realidade (#vemniminCaetano). Vi-me então, na capital mineira, desempregado (cheguei a passar fome, ou quando o dinheiro só dava, na semana, para viver de pão de forma e margarina e água do filtro); sem amigos (fiz amigos maravilhosos em Minas, em especial o Rajeik, o Bê e o Leão, que com certeza salvaram esta temporada para mim, mas os que eu deixei em Natal se foram para sempre) e o amor que me atraiu para lá foi rapidamente substituído por sexo com desconhecidos, crises de pânico e celibato auto-imposto (com exceção dos seis meses ao lado do Tato e os meses em que eu me vi apaixonado pelo Anjo). O hermetismo diz que a vida vem em ondas, uma hora você está no topo, outra hora você está no fundo; Hegel pensava que a oposição dialética levaria ao progresso. Eu já tive um bom emprego (topo, tese), já estive desempregado passando fome (fundo, antítese); já tive amigos que se diziam irmãos (topo, tese), já morei numa cidade que não conhecia ninguém (fundo, antítese); já curti minha vida de solteiro e fiz sexo com mais pessoas do que consigo lembrar (topo, tese), mas também já tive crises de pânico em baladas porque todo mundo estava se pegando (olha o nível de aversão que eu tomei pelo negócio) e evito sexo (fundo, antítese). De 2010 a 2012, sem dúvida, foi isso que eu vivi.
Mas, como todo processo dialético termina em síntese, temos o útimo ano para cá. Em 2013, eu comecei uma carreira que paga muito menos, pelo menos 66% do meu antigo salário de professor com somente a graduação. Não passo fome, mas levando em consideração que agora eu sou doutor. É duro de engolir. Meus amigos de Natal, por mais que eu tentasse, se afastaram irremediavelmente. Tentei criar novas amizades, mas minha imaturidade causada pelo excesso de livros em minha vida e pouco contato com seres humanos, dificulta o processo. Primeiro, sou atraído por garotos jovens demais, mas sou velho demais para passar meu tempo livre fazendo programas com garotos de 20 anos. Tenho consciência disso e preciso mudar, o que me faz dirigir minha atenção para as pessoas da Igreja que estão em situação imediatamente oposta, homens e mulheres com seus relacionamentos e vidas estáveis dos quais também me sinto tão distante por causa da mesma falta de experiência. À vontade me sinto somente com os amigos virtuais, que moram na Alemanha, BH, Recife, São Paulo, Rio das Ostras, distantes se fazem mais presentes que todos por aqui. No caso das minhas relações amorosa, eu experimentei situações nunca d'antes vividas, um tentou e conseguiu transformar minha vida em um inferno, com outro me apaixonei e por um instante eu achei que ele poderia corresponder ao sentimento, durou pouco tempo, para ele inclusive sei que não significou nada, mas para mim foi realmente uma experiência completamente única e a mais intensa vivida até aqui. Pela primeira vez na minha vida eu não fiz sexo com um estranho (o meu ex vai me matar, mas gente, eu namorei a pessoa por 6 meses, e nunca soube que ele era alérgico à chocolate porque ele morava a dez horas de viagem, havia amor, com certeza havia, mas nunca existiu intimidade). Eu provei o gosto da minha fantasia erótica de ser íntimo daquele com quem divido minha cama. Contudo, se tudo isso é síntese dos polos opostos dos quais era minha vida, e o movimento do Espírito da História não para transformando a síntese em nova tese, qual será a próxima antítese que será formada? E se vivemos em ondas, como a maré, e isso é um topo, quanto mais eu ainda posso descer? O futuro não parece promissor, o progresso de Hegel já foi descartado como uma lei histórica, na verdade a História tem abandonado leis explicativas totais há muitos anos, resultado da pós-modernidade, mas será que Hegel pode explicar meu pequeno universo? Retorno aos herméticos e lembro que o que é verdade para o todo, também é para a parte. Se eu acreditar em Hegel posso ter esperanças, se seguir Hermes não.

sexta-feira, 14 de março de 2014

Homofobia Nossa De Cada Dia

, em Natal - RN, Brazil
Nos idos dos anos 2000, eu começava nos meus primeiros exercícios de pesquisa histórica, com um trabalhinho de umas trinta páginas, era um artigo sobre a moralidade na Grécia Antiga, através dos mitos gregos. Eu tinha meus nada saudosos dezoito anos e diálogava com importantes historiadores franceses no texto e o apresentei para o professor de História Antiga, chefe do laboratório de arqueologia da UFRN, à época.
Ele leu e marcou um conversa comigo, numa tarde, no laboratório, sentamos naquelas bancadas cercados de material lítico como pontas de flecha, raspadores e machadinhas, cerâmica indígena pré-histórica e histórica e louça portuguesa e inglesa do século XVII e XVIII. Alguns alunos limpavam pedras recém trazidas de uma escavação e as tombavam quando ele começou a conversa elogiando meu conhecimento dos mitos gregos e, para um calouro, afirmou: 
- Você sabe que já tem uma monografia pronta para a conclusão do seu curso, não sabe?
Eu não sabia. Ele havia riscado todo o texto que eu entreguei para ele. Setas, comentários, perguntas pintaram de azul todas as páginas, ele começou com um sorriso no rosto, citando um trecho do meu texto, que terminava afirmando que os gregos eram antropocêntricos. 
- São mesmo? Quem disse?
- Os livros...
- Não confie em afirmações como essas, Foxx, elas são simples demais e essa simplicidade sempre esconde motivos escusos.
Eu me assustei, ele continuou suas críticas até que, um dos pontos era as definições morais do relacionamento entre homens no mundo grego, e ele parou e me olhando nos olhos, perguntou:
- Por quê, quando você fala do relacionamento entre homens, em nenhum momento você usa a palavra amor? Não existe amor entre homens ou ele é diferente do que acontece entre homens e mulheres?
Aquela pergunta me pegou de surpresa e me fez ver um preconceito que na época eu não sabia o nome. No mundo homofóbico em que eu fora criado, em que bichinhas servem para aliviar o desejo dos grandes machos heterossexuais, mas nunca são objetos de amor; na minha inocência adolescente que não sabia que o mundo é muito maior do que minha experiência na periferia de Natal, eu não sabia que estava transportando para um período histórico a homofobia no qual havia sido educado. 
Eu não sabia o que responder para o professor. E ele começou um discurso sobre o amor e preconceito e  sobre o ofício do historiador e nosso pecado capital, o anacronismo. Eu nem tentei balbuciar uma pergunta. Eu estava chocado com minha impossibilidade de pensar que dois homens poderiam se amar. Estava assustado com meu preconceito. Mas quando nossa conversa terminou e ele pediu algumas alterações no trabalho. 
- Você tem condições de focar nos mitos de apenas uma cidade, por exemplo, Tebas?
Eu aceitei o desafio, mas sai do laboratório disposto a vencer outro trabalho hercúleo: decidi dali em diante, agora que estava ciente de sua existência, extirpar todo o meu preconceito que existia dentro de mim.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ano Bom

, em Natal - RN, Brazil

Janeiro começou com profundas transformações na minha vida. Finalmente eu me assumi, de verdade, para os meus pais. Os únicos que não tinham, ainda, ouvido da minha boca que eu sou gay. Falei, então, com todas as plavras em meio a uma discussão que, como resultado, fez com que eles me expulsassem de casa.  Falei sobre isto aqui e aqui. Então somente me restava procurar um lugar para morar, o que demorei a encontrar, somente em abril eu encontrei, mas chegamos lá.
Em fevereiro eu passei o mês entre repensar meus relacionamentos com homens, decidido que eu estava em manter-me celibatário apesar dos inúmeros conselhos para que eu não fizesse isso, demonstrei minha dúvida com um texto, este, e discutindo sobre política. Através do Twitter, a graciosa Heloísa Helena, ex-candidata a presidência, me destratou mandando-me a merda porque a acusei de ser participante de todas as agressões homofóbicas que aconteciam pelo país ao ser contra o PLC 122 que criminaliza a homofobia. Por causa disso eu dediquei um texto (este aqui) para explicar o que todo cidadão gay precisava saber antes de votar.
Já em março, decidido por causa dos conselhos das runas, do tarô, de vários amigos, eu tentei me abrir mais e conhecer pessoas, tive um Encontrinho (parte 1 e 2), tentei novamente, e obviamente ambos terminaram em nada, nem uma coceirinha boa no coração. Também foi no mês de Marte que Marco Feliciano entrou nas nossas vidas, eu assustado e chocado escrevi sobre ele aqui, e este texto foi o quarto mais lido em 2013. Eu só pensava e ainda penso o quanto este país está caminhando para uma ditadura religiosa nos moldes das teocracias muçulmanas do Oriente Médio.
Abril, no entanto, viu minha vida mudar radicalmente. Primeiro eu conheci o primeiro menino a me pedir em namoro na vida, o Mr. Creepie, foi surpreendente para mim ver alguém que demonstrava estar interessado por mim de fato. A presença dele em minha vida, de fato, modificou toda a forma como eu lidava com minha solidão o que favoreceu que outras pessoas aparecessem em minha vida também. Eu estava despreocupado e nos meses seguintes outros surgiram. Também foi em abril que eu consegui sair de casa, escapando dos problemas diários que eu enfrentava com minha família, eu pude respirar aliviado no meu próprio apartamento.
Em maio eu ainda estava falando sobre o Mr. Creepie, tentei explicar quem ele era para vocês, mas eu estava surpreendido com todas as mudanças que estavam acontecendo em minha vida, era como se Saturno tivesse deixado minha vida, finalmente. Eu recebi meu diploma de professor doutor, eu estava vivendo tranquilamente na minha casa nova, e até vários meninos estavam demonstrando interesse em mim, vários meninos inclusive mais interessantes que o Mr. Creepie, o que o fez ficar muito irritado quando descobriu que eu ficava com outras pessoas exatamente como ele também fazia. No fim do mês eu contei que terminamos tudo (aqui), não derramei nenhuma lágrima por isso.
Eu imaginei que uma nova era estava começando, foi como junho se iniciou, eu pensava que a partir dali os homens não iam simplesmente sair comigo para fazer sexo e depois nunca mais dirigir-me a palavra, eu achei que a partir dali eu teria encontros nos quais eu conheceria as pessoas melhor, elas também me conheceriam melhor, e a partir daí seria possível construir um relacionamento. Foi assim que conheci o Menino Bonito, e foi assim que nosso relacionamento se deu. E eu me apaixonei. Nos meses seguintes que continuamos a nos encontrar, rompendo todos os paradigmas anteriores, eu o conheci melhor e me apaixonei por ele; infelizmente, eu não fui correspondido, mas não vamos colocar o carro na frente dos bois. 
Até porque, enquanto eu estava me apaixonando, o Brasil estava virado de cabeça para baixo. Primeiro a Comissão de Direitos Humanos propôs rever a decisão do Conselho de Psicologia sobre a definição da Homossexualidade como doença. Eles queriam propor uma tentativa de cura dos gays. Este texto foi o mais lido no ano aqui no blog, as pessoas realmente estavam preocupadas com esta ascensão religiosa no Brasil o que se confirmou quando os brasileiros saíram as ruas para reinvindicar direitos como nunca aconteceu em nossa história, tudo por causa de uma #RevoltaDoBusão começada aqui em Natal. 
Mas o fato é que em julho eu estava apenas preocupado com meu Menino Bonito. Foram quatro de nove textos sobre ele, inclusive este aqui, "Uau!", foi um dos mais lidos no ano. Os outros textos eram sobre a minha série Homohistória (2), enquanto os três outros falavam sobre minha vida sem o Menino Bonito, um deles, Puta Velha, também ficou entre um dos mais lidos do ano.
Agosto, no entanto, mês do meu aniversário, foi um mês que passamos afastados. Ele decidira por investir no outro menino com quem ele saía além de mim, afinal não éramos exclusivos, e nos tornamos apenas amigos. Dediquei-me, neste mês então, a falar sobre filosofias e aventuras, amorosas ou não, tudo para evitar pensar sobre aquele que estava dentro do meu coração o tempo todo. Foi no fim de agosto que ele também descobriu o meu blog, e descobriu tudo o que eu falava sobre ele aqui, eu estava exposto, totalmente. 
Porém, setembro não trouxe novidades. Não neste aspecto, já em relação a minha casa. Eu me mudei no início do mês. Por causa de alguns problemas que eu estava tendo com minha roomate, eu juntei minhas coisinhas e fui morar na minha atual casa, uma casa de um quarto apenas, em uma vila, na rua dos meus pais. No entanto, em outubro, como o relacionamento dele não havia dado certo, ele voltara a frequentar a minha casa, porém agora sabia sobre meus sentimentos. Eu achei que agora poderia investir, tentar fazê-lo ver que eu poderia ser o cara a fazê-lo feliz. Não funcionou, o que não me impediu de continuar saindo com outros caras, inclusive pagando por sexo também, e de dedicar-me a mim também, graças a mudanças no trabalho (eu passei a trabalhar em regime de home office), eu pude voltar, neste mês, a academia.
Em novembro outros homens passaram pela minha cama além dele, mas ele resolveu encerrar tudo comigo. Disse que se continuássemos ficando eu nunca deixaria de gostar dele e não havia nenhuma chance dele vir a gostar de mim. Concentrei-me, então, a deixar minha casa um lugar confortável para mim, também viajei para esquecê-lo, tudo para no fim ele deixar de falar comigo. Contudo, meu amor por ele vai ficar guardado com o melhor que me aconteceu em 2013 e eu sou grato por tê-lo conhecido. Muito grato.
Dezembro encerrou o ano comigo sendo despedido, a minha fase como gestor de mídias sociais se encerrou e eu fiquei em dúvidas em relação ao que quero fazer com minha vida de agora em diante, possíbilidades se abriram, mas em qual delas apostar? Qual delas pode me trazer, financeiramente, um bom resultado? Qual delas pode me trazer felicidade? Deixei para resolver isto em janeiro. Este mês também encerrou minha série Homohistória, logo logo publicarei os textos em formato de livro. Já neste mês eu me dediquei basicamente aos corais que participo, inclusive estou bastante íntimo de alguns dos membros, talvez possamos ser bons amigos, e também a Igreja em que congrego, eu, inclusive, fui aceito para o seminário para tornar-me sacerdote. 2013 terminou muito melhor do que começou, com certeza.



Talvez este seja o último texto do Estórias do Mundo, neste caso adeus, ou talvez eu volte em 2014 cheio de novas estórias para contar, neste caso até logo. Eu não sei ainda, depende se ainda há alguma estória minha para contar. Mas feliz ano novo a todos!

terça-feira, 17 de abril de 2012

Quando Teu Destino Te Alcança...

, em Natal - RN, Brasil
Não é inveja, juro que não é. Segundo o dicionário, inveja é desejar aquilo que o outro tem, e odiá-lo por ele possuir aquilo que você deseja. Eu não odeio meu irmão. Agora você deve estar se perguntando do que eu estou falando, não é? Meu irmão, o caçula, se mudou hoje de casa. Saiu porque ele foi aprovado em um concurso e vai ser professor em uma escola técnica federal. Good for him! E agora ele está montando a casa dele, levando coisas para sua nova casa, na cidade que ele vai começar em um novo emprego, federal, que vai pagar bem, e eu não sinto inveja. Não é isso que eu sinto. Mas me sinto mal, admito, infelizmente me sinto. Estou vendo ele realizando meu sonho, enquanto eu voltei para a casa dos meus pais, vivo, agora, completamente dependente deles, o extremo oposto. 
Lembro de uma conversa que eu tive com um amigo, anos atrás, que às vezes eu pensava que um dia me restaria estar na casa dos meus pais, para cuidar deles na velhice, enquanto meus irmãos sairiam pelo mundo cuidando de suas próprias vidas. Que a mim não estava reservada uma vida própria, que eu só poderia viver a vida dos outros. Lembrei também da minha adolescência, de meu autoimposto ostracismo quando, com vergonha de ser gay, eu evitava sair de casa, e do portão de casa eu via os meninos da minha idade com seus amigos, suas namoradas e suas festas. Agora vejo isso acontecendo de novo. Não tenho saído, por falta de amigos e por falta de dinheiro. Não posso pedir aos meus pais, aos 30 anos, dinheiro para balada, não é certo.
A sensação, no fundo, é de quem nadou, nadou... e não é que eu morri na praia... Não! Eu nadei, nadei, nadei, e quando cansei, eu percebi que não havia saído do lugar. Voltei a casa em que eu nasci, para debaixo da asa dos meus pais, que felizmente ainda existem (imagine se eu tivesse saído do armário para eles! o que teria acontecido comigo agora após esse fracasso monumental?), para cumprir minha tarefa cármica, essa deve ser a explicação: abrir mão da minha vida, e como Deus é bondoso eu nunca tive uma para não sofrer quando a perdesse. 

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Familiam Matrem

, em Natal - RN, Brasil
Minha mãe é uma reclamadora. Ela reclama compulsivamente de tudo, mas não pretende mudar. Ela reclama que meu pai não faz nada em casa para ajuda-la nas tarefas domésticas, mas ela coloca o prato dele quando ele vai almoçar e separa a roupa dele para ele tomar banho. Mas o problema com meu pai não é o fato dela reclamar, é dela servi-lo. E ela foi criada para isso. Repete todos os dias que casamento é para sempre e que o lugar da mulher é com seu marido. Minha mãe é machista. Machista de um jeito que acredita que o homem tem o direito de separar-se de uma mulher que não serve o almoço de seu marido e que não lava as suas cuecas. Paradoxalmente, ela ensinou a meu irmão e a mim a cozinhar e a lavarmos nossas cuecas. Fomos, nós dois, criados como meninas? 
Minha mãe é uma boa mulher, caridosa e trabalhadora. Ela junta material reciclável para doar a instituições de caridades o dinheiro que consegue os vendendo. Diz que faz o trabalho do Senhor. É, minha mãe é bastante cristã, católica para ser mais preciso. Frequenta a Igreja pelo menos duas vezes por semana, mas não comunga fazem três anos. Ela reclama que não tem tempo para ir se confessar, eu digo que ela pode se confessar sozinha diretamente a Deus, mas ela não escuta. Na verdade, qualquer comentário ou conselho que sejam dados por mim são respondidos por minha mãe com uma bufada e uma expressão de "o que essa criança pensa que sabe?". Faz tempo que eu desisti de dar conselhos, então, e emitir opiniões.
Mas minha mãe é uma excelente professora. Aluna de uma escola normal, normalista, orgulha-se de lembrar-se de como ela era bonita na época em que vestia o uniforme de normalista quando saiu da fazenda dos pais em Ceará-Mirim e veio para a capital estudar para se tornar professora. E ela é muito boa no que faz. Trabalhou com alfabetização sua vida toda, e me inspiro nela sempre que penso no meu trabalho como professor, é sem sombra de dúvida por causa da minha mãe que me tomei este caminho profissional. Lembro um dia, que ela me levava para a escola dominical, para a catequização, e ela esquecera de comprar um caderno para mim, ela passou em uma loja e conversou com o dono do estabelecimento que não queria vender-lhe fiado, ela também esquecera de trazer dinheiro, foi quando ela comentou: "Meu caro senhor, eu vou trazer o seu dinheiro", neste momento a esposa do dono apareceu no balcão e a reconheceu. "Homem, ela é a professora do teu filho! Faça essa venda!". Eu lembro como se fosse ontem de que o homem cobriu-se de vergonha e escolheu os melhores cadernos e lápis e me deu, dizendo a minha mãe, "Não precisa pagar, é claro que não precisa pagar!". Minha mãe não quis aceitar, insistiu que passaria sem pagar, mas aquilo ficou marcado em minha mente de criança. O respeito que aquele homem tinha pela professora de seus filhos.
No fundo, minha mãe é realmente uma boa mulher. Ela só não consegue demonstrar. Ela não sabe como demonstrar carinho, por exemplo, sofre para dizer que ama, e abraça e beija com dificuldade, nota-se que ela se sente constrangida, sobretudo se for na presença de alguém. A primeira vez que ela me disse que me amava foi só depois que eu voltei para Natal, após seis meses morando em Belo Horizonte. Ela também tem preconceitos arraigados, sobretudo homofóbicos. Noveleira, ela não consegue entender o que "esses gay" estão fazendo nas novelas, e pragueja quando os vê terminando bem. Reclama que o mundo está perdido. Ela também os trata mal quando os encontra pessoalmente. Xinga-os quando eles viram as costas, e ela cobra de mim uma esposa sempre. 
Minha mãe pede uma boa esposa cristã. Eu respondo que ela desista deste sonho porque eu nunca vou me casar. Ela reclama sempre dizendo que eu não posso fazer isso. Ela sempre diz pra mim, agora que cheguei aos trinta anos que ninguém deve viver sozinho, que é triste! E que todos tem que ter sua família! Ela repete isso constantemente. Sua frase para mim: "Se você for gay será a maior decepção que você me dará na vida".

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Familiam Patris

, em Natal - RN, Brasil
O meu querido Antônio de Castro fez uma pergunta no post anterior que merece mais que um comentário. Ele perguntou: 

off-topic: eu fico tão confuso quando vc fala dos seus pais.
eles são tudo isso que vc pinta mesmo? tem certeza? ou é uma distorção de momento?


Então eu, como para responder preciso apresentar meus pais a vocês, resolvi apresentar cada membro de minha família aqui, para vocês entenderem com quem eu convivo. Começarei pelo meu pai, por ordem de idade mesmo. Ele é um homem de 72 anos muito amargurado. Capricorniano, meu pai tem um gênio difícil de suportar. Ele é ditador e explode com uma facilidade imensa quando é contrariado.  Rancoroso, ele nunca perdoa e também dá muito valor a um conceito de honra que apenas ele tem, afinal ele não diferencia honra de orgulho. E seu orgulho é desmedido. Precisa sempre ter as roupas mais caras, os carros maiores, as casas mais espetaculares, ou pelo menos que aparentem ser mais caras, maiores e mais espetaculares, porque o que mais importa para meu pai é aparência. Ele é preconceituoso: homofóbico, racista e anti-semita. E ignora que sua mãe é negra e nossa família cristã-nova. 
Ele também é um pseudo-intelectual. Pois, como meu pai vive de aparências, sua intelectualidade é construída na base de uma aparência. Ele montou um personagem de homem revolucionário para os seus colegas de trabalho, aquele que lê Marx e recita Engels, mas devota sua vida a Trotsky, porém ele realmente não acredita em nenhuma palavra do comunismo e nunca abriria mão de nada dele para ajudar um próximo. Na verdade, ele expulsa mendigos da porta de casa quando eles aparecem chamando-os de vagabundos. Eu também nunca o vi abrir qualquer livro, mas ele sempre participava de reuniões de partidos de esquerda. 
É também um homem frio. Meu pai aprendeu com o seu que homem não demonstra sentimentos, então ele nunca demonstrou qualquer carinho por mim ou por qualquer um dos meus irmãos, na verdade, sua participação na nossa educação foi apenas na repressão. Ele era o responsável pelas surras de mangueira que deixavam marcas na minhas costas curadas com banhos frios. Eu apanhei quando me saí mal em matemática, pela primeira vez, na sexta série e apesar dele ser pedagogo e especializado em educação matemática, nunca passou pela cabeça dele que eu precisava de alguém que me explicasse a matéria, não de alguém que me batesse. 
Meu pai não bebe, e considera que aqueles que o fazem tem uma falta de caráter. Ele julga as pessoas a todo tempo e quando soube que Ivete Sangalo havia contraído meningite disse que isso era culpa da vida promíscua que ela levava. Meu pai não tem amigos e é extremamente ciumento com todos dentro desta casa. Minha mãe teve que se afastar de sua família porque ele não queria que ela saísse com outras pessoas além dele. E o mesmo se dá comigo e meus irmãos. A maior crítica que ele nos faz, o tempo todo, é o fato de termos amigos, de termos uma vida além da sombra da asa dele, mas não é porque ele se preocupe, é porque ele tenta nos dominar. Seu primeiro casamento terminou muito mal por causa de ciúmes.
Ele afirma que quem joga capoeira é malandro, quem usa tatuagens é bandido, quem usa piercings é índio e quem usa brinco é viado. Às vezes acho que ele tem algum problema de T.O.C. já que ele sempre faz os mesmos caminhos e detesta mudanças. Ele não viaja nunca porque acha perda de tempo, mas eu tenho absoluta certeza que ele não o faz por medo de se deparar com realidades novas para ele. Ele detesta conhecer pessoas novas, mas finge como ninguém uma simpatia quando encontra um conhecido, para depois resmungar. Quem o conhece sem muita intimidade o considera uma pessoa agradabilíssima. 
E agora eu estou tentando encontrar alguma característica que eu admire em meu pai para listar aqui, mas ela não existe. Sua frase para mim: "Se você é, pelo menos não precisa aparentar".

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Nancy Spungen

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Foi numa quinta-feira a noite, no Imperial, que reencontrei meu amigo baterista. Um dos poucos amigos heterossexuais que possuo. Ele estava em turnê com sua banda pelo sudeste, e me ligou quando pisou em Belo Horizonte horas antes. "Pois é, cheguei, vamos tocar no Velvet (acho que é esse o nome), vamos terminar de passar o som lá pelas 19h e já devo ficar por lá mesmo". Combinamos então de nos encontrarmos no Imperial, um bar defronte ao clube indie rock em que ele tocaria naquela noite. Cheguei as 20h, horário em que marcamos, e sentamos, junto com a banda, e colocamos o papo em dia. Trabalho, a banda, amigos em comum do período de faculdade, nossos antigos professores, notícias, filhos, do divórcio dele e do segundo casamento. Foi quando, em uma conversa sobre menáge a trois, a suprema fantasia sexual dele, a guitarrista da banda, lésbica, comentou que não sente a menor falta de pau. "Pois eu sinto, e muito", eu disse. Meu amigo gargalhou alto do meu lado. "Demorei anos p'ra ouvir essas palavras, mas valeu a pena". Ela não entendeu, e ele contou quem eu era quando nos conhecemos. "O Foxx (adoro a sonoridade deste nick), quando nos conhecemos, não se aceitava. Ele fingia p'ra todo mundo ainda". Ela me olhava incrédula. "Ele tem esse jeito low profile, nunca foi uma bicha escandalosa, mas sempre deu p'ra perceber que ele era gay, mas ele não aceitava isso". Ela continuava chocada, e eu me lembrava de um passado muito distante, como quem escuta a estória da vida de outra pessoa. "O problema sempre foi", disse eu, "que eu nunca me via como as pessoas me enxergavam, eu não conseguia entender porque ser gay estava tão estampado no meu rosto, se na minha cabeça eu não via nenhuma diferença entre meus comportamentos e dos outros meninos... mas havia... quando notei isso, e aceitei, minha vida ficou muito mais fácil". Continuamos a beber as Heinekens que os belos garçons do Imperial nos traziam. Falamos do meu blog e do twitter, que ele ainda não conhecia. Falamos da minha experiência em Belo Horizonte, dos planos e decepções que tive por aqui, minha tese, minha falta de namorados. "Sério que você ainda está nessa?", surpreendeu-se ele, "Cara, a gente se conhece desde 2000, e você ainda não encontrou ninguém?". Argumentei que se ninguém quer estar comigo, não posso obrigá-los e ele tentou me empurrar a baboseira de que se você acredita nisso, realmente acontece, e eu mandei ele parar de ler O Segredo. Coisas que só amizades de anos permitem mesmo. Falamos sobre meu retorno a Natal, ideia que ele não gostou. "Aquela cidade nunca serviu p'ra você", disse. Falei que se fosse tentar em outra cidade, seria o Rio de Janeiro, se eu pudesse ter escolha. Por causa dos amigos que fiz lá, eu pensava no Bruno, obviamente. "Sei, eu te conheço, rapá. Conte logo essa estória direito", disse carregando no sotaque natalense, que ele, paulista, nunca teve. "Ok, tem um menino, mas ele tem namorado...". Ele gargalhou alto. "Você vai lá roubar o cara do namorado dele, seu sem-vergonha?". Rimos juntos. Ele falou que acabara de chegar do Rio onde encontrou meu irmão mais novo que havia ido ao Rock In Rio. Falamos sobre nossas famílias, meus irmãos, os dele. Mais notícias, sempre boas notícias. Até que chegou a hora do show, entrei com a banda e vi os vi tocar de perto do palco. Rock de verdade faz um bem danado. Foi impossível não lembrar de todas as outras apresentações que eu assisti dele, de como, naquela época, eu sempre estava isolado porque eu não me aceitava e temia que qualquer um descobrisse que eu era gay. Ali, no entanto, era diferente, se eu ficasse com alguns dos presentes seria normal. Principalmente, seria normal para mim. No entanto, me concentrei no show, e observei ele suar muito na bateria até terminar, de pé, batendo forte nos pratos feitos por encomenda, até rachar as baquetas para delírio dos presentes naquele clube pequeno e escuro. Foi quando ele desceu, findo a apresentação, suado e me entregou as baquetas. "P'ra você!". E, sério, nunca me senti tão Nancy Spungen como naquele momento. Pelo menos o máximo do que eu poderia ser a Nancy dele.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Cheirou Uma Carreira de Pó

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Cheirou a carreira de pó com a nota de cinquenta reais daquele amigo passageiro que conhecera num bar próximo ao seu apartamento. Cheirou a carreira que havia sido separada com seu cartão, o cartão da poupança da Caixa Econômica Federal que abrira quando fora contratado em seu primeiro emprego. Cheirou a carreira, uma entre várias, expostas no vidro da mesa de centro daquele apartamento que alugara com dois amigos gays como ele. Cheirou a carreira e com o dedo buscou os grãos que sobraram e espalhou pelas suas gengivas para deixar, além de sua alma, seu dentes dormentes. Cheirou uma carreira e tomou um copo de cerveja enquanto aprendia o sotaque britânico da namorada do amigo passageiro que conhecera no bar. Cheirou uma carreira de pó e não percebeu que o sol já nascera há tempos, pois as cortinas estavam cerradas, pois o amigo passageiro conhecia alguém no outro prédio e não queria ser visto ali, no apartamento de três viados, mas de qualquer forma já era quase meio-dia. Cheirou uma carreira pouco se importando com as consequências sociais daqueles três jovens, sentados no chão da sala, terem encomendado o pó pelo telefone. Cheirou aquela carreira de pó como se sua vida dependesse disso. E dependia, a sede de experiências que ele necessitava, experiências como aquela, eram o que lhe movia, e só elas podiam acabar com aquela parca e ressecada vida que ele achava que vivia. 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O Segundo

, em Natal - RN, Brasil
Os meninos pulavam na água quente que abraçava seus corpos imberbes. Meninos que moravam naquela praia no fim de semana e desciam a rampa que dava-lhes acesso a areia e corriam para a água salgada de abraços abertos como quem abraça saudoso um amigo. O mar de Santa Rita devolvia-lhes o abraço e encobria os corpos que retesavam no primeiro contato, mas relaxavam em seguida, quando finalmente seus cabelos se cobriam de sal. O sol, que brilhava distante, era o único a observar aquela praia deserta e os dois meninos que nadavam agora em direção as profundezas. Os músculos tensos das braçadas, as nádegas e as coxas rijas da natação eram os motores que os levavam para mais fundo. Nadavam até ficarem cansados e aí subiam em uma das jangadas ancoradas quando a maré estava baixa. Subiam naqueles pedaços de madeira flutuantes, presos com cordas grossas ao fundo inalcançável por eles, afinal meros meninos. Subiam impulsionados pelos braços cansados e ajudados pelo mar amigo, e deitavam na madeira levemente apodrecida por ser constantemente molhada, seus corpos também molhados e inocentes. Aquele frágil pedaço de madeira chegava a distâncias, mar a dentro, que só figuravam na imaginação fértil daqueles dois meninos, os mais velhos dos filhos de duas famílias amigas, os caçulas tinham medo do mar. Deitavam, olhando para o céu, sem se verem, apenas advinhavam a presença um do outro, enquanto a jangada balançava e o mar os ninava, alimentando sonhos. Sonhos diferentes, com certeza, porque quando se erguiam, um, sentava-se a borda, olhando a terra, com água pelos joelhos; o outro subia no pequeno banco preso a pregos aquela madeira e olhava o horizonte distante. Eu era este segundo.


(Post inspirado neste post aqui do primo Lobo)

sábado, 26 de junho de 2010

PASSADO: O Fim

Estou encerrando esta coluna aqui no blog. Desde o início do ano, e coincidência ou não, desde o início do meu namoro, não tem mais feito sentido escrever sobre o meu passado. Tem sido uma tarefa hercúlea encontrar estórias para suprir este espaço. Portanto, por vários motivos, decidi que era o momento de fechar este livro.
Primeiramete, quero deixar o passado ir, se esvair, tenho vivido nele por tempo demais, e chegou um momento que ele tem se tornado um terceiro. Uma outra pessoa além de mim que frequenta meus relacionamentos. Está na hora de deixar esta outra pessoa ir, e se ela recusar-se a se afastar que seja assassinada com a mais bela lâmina de prata. O passado é morto como Inês.
Preciso ir em frente, abandonar o sofrimento que me marcou e me construiu, abandonar para que a fecilidade possa brotar no terreno antes pisoteado por tantas e tantas pessoas. Tenho que afastá-las, porque flores não nascem embaixo de botas. Tenho que afastar essas pessoas, suas sombras, suas lembranças, que ameaçam tomar o controle. A vida é minha, não dessas sombras que intentam tomar as rédeas de minha existência.
Não preciso mais das explicações! Não preciso saber que sou carente porque meus pais não me pegavam no colo. Não preciso saber que sou heterofóbico já que fui severamente humilhado durante toda minha infância e adolescência. Não preciso saber porque meus amores me largaram, pois não preciso mais deles. Preciso me abrir para o novo e diferente, para o presente. Somente o presente.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

PASSADO: Melhores Amigos

Os livros eram meus melhores amigos. E como bons amigos, eles formaram a pessoa que eu sou. Aprendi com eles a ler, a escrever e a ser muita coisa que nunca consegui viver. Foi com eles que sobrevivi a meu ostracismo. Mas tudo isso a trancos e barrancos, pois filho de pais pobres, poucos livros tínhamos em casa, quando criança li e reli mil vezes os contos dos Irmãos Grimm, um dos poucos livros que restavam na estante da sala de casa, entre livros de receita, um exemplar de História Geral de Arnaldo Souto Maior de onde saíra meu nome e Monteiro Lobato, filho do modernismo, que me apresentou em Os Doze Trabalhos de Hércules minha grande paixão: os deuses gregos. Comecei então a frequentar bibliotecas. Li tudo que encontrei pela frente sobre mitologia, em português e em francês, mesmo sem saber francês. Eu tinha doze anos e sentava com Le Bélle Letres e um dicionário e tentava decifrar aquela outra língua, como aprendera a fazer nas aulas de inglês na escola. Também conheci os quadrinhos, outra paixão, e passei a gastar todo o dinheiro que eu tinha com revistas dos X-Men e passagens de ônibus à biblioteca. Nos quadrinhos fui apresentado a belas estórias como Deus Ama, o Homem Mata, e me senti parte de algo. Os X-Men eram mutantes, diferentes, sem culpa de ter nascido assim. Para mim, os X-Men eram, como eu, todos gays.
Os primeiros livros que dediquei-me, no entanto, foram os do Romantismo e do Realismo brasileiro. E muito devo a eles. Minha adolescência foi embalada por José de Alencar, Machado de Assis e seus comparsas. Senhora, de Alencar, me marcou profundamente e me ensinou a manter a tensão e a atenção do leitor até a última página. A Mão e A Luva de Assis me convidaram a poesia em prosa e me fez cair de amores pelos contos. O Ateneu, me ensinou que as vezes os clássicos são decepcionantes. O Cortiço que a literatura podia ser bem sensual. Mas eu não parei por aí: essa leitura ávida me lançou a univesidade e um mundo novo de leituras se abriu para mim.
Livros técnicos, de historiadores de renome, como Ciro Flamarion Cardoso e Michel Foucault me deixaram profundamente devedores deles. Mas Joseph Campbell definitivamente precisa de um lugar especial na minha história literária. Ler Mitologia Primitiva me marcou física e emocionalmente, e moldou o historiador que sou hoje, me fez entender que um mundo é muito maior do que pensamos e que como historiador é minha tarefa política mostrar isso a quem desejar ver. O Queijo e os Vermes e O Massacre de Gatos tornaram-se livros que povoavam a minha imaginação fértil, e me ensinaram que o lugar da poesia na História também existe, principalmente no título. Mas a literatura não me abandonara.
Os romances históricos me fizeram delirar nos primeiros anos de faculdade. Cláudio, Portões de Fogo, Nero, Rei Davi, Ramsés, me fizeram sonhar com tempos que eu não tinha vivido e da qual sentia saudades, escritos por historiadores, estes romances me proporcionaram conhecimento e deleite, mas, sobretudo, me ensinaram a ser sútil quando os temas são duros. Entrementes, a faculdade também me apresentou os verdeiros documentos históricos, os clássicos da literatura ocidental: A Ilíada, A Odisséia, Virgílio e Cícero, os historiadores gregos e romanos, A Vida dos Doze Cézares, a poesia de Safo, a Bíblia, tornaram-se livros de cabeceira, lidos em latim e em grego, porque nada expressa melhor um autor do que a própria língua que ele escreveu. Encantado, corri aos clássicos, para lê-los, tudo culpa de Ítalo Calvino. O Amante de Madame Bovary e Capitães da Areia mexeram com minha libido, Agatha Cristie com meus brios, Dom Quixote e Ulisses, de James Joyce, com minha paciência (até hoje estão inconclusos). Além destes, descobri Oscar Wilde ao me deparar com O Retrato de Dorian Grey, o homoerotismo oculto e a sensualidade aberta me fizeram querer conhecer o resto da obra do maior escritor inglês, na minha modesta opinião, e entre tantos, lágrimas me correram aos olhos e molharam as páginas de De Profundis, e eu descobri o que era amar alguém de verdade.
Mas os clássicos chegam a um ponto que precisam ser superados. Principalmente porque chega um ponto que eles não refletem mais seu espirito. Foi quando o Marcelo Sunshine me apresentou Hell - Paris. Fiquei encantado com aquela escrita vazia, desesperançosa e machucada, com o submundo e as drogas, e o glamour, ah, o glamour! Hell me levou a um caminho diferente de tudo que eu estava lendo e a punk literature caiu no meu gosto. Litium de Patrício Júnior, Mate-me, por favor e Fugalaça da filha de Dias Gomes, Mayra, me levaram a um vórtice que definiu a forma de escrever do meu blog, da minha dissertação de mestrado, dos meus artigos. Frases curtas. Pontos no lugar de vírgulas. Frases fortes no fim de tudo. Exclamações!
Mas nem tudo podia ser tão pesado, não é? Afinal considero a tribo dos blogs que o meu participa daqueles que exalam o glamour que só a vida gay possui. Isso não foi gratuito, é a influência de Meu Reino por um Cashemere, O Diabo Veste Prada e Confissões de uma Shopaholic. Tudo tem explicações, tudo! Mas, tardiamente, só tardiamente, eu conheci o livro que transformaria minha vida e o meu blog: O Pequeno Príncipe de Saint-Exúpery mudou minha forma de olhar para o mundo e para o amor, e eu conheci o meu pequeno príncipe.
Agora, vamos ver o que o futuro nos reserva. Tudo depende de eu conseguir ou não terminar de ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago. E está bem difícil.

domingo, 4 de abril de 2010

PASSADO: E Quando Aprendi a Mentir

Eu assistia "Minha Vida Em Cor de Rosa" (download aqui) quando, pensei: "em que momento eu aprendi a mentir para sobreviver?"




Em que momento começamos a mentir? Em que momento descobrimos que estamos errados e que nossos pensamentos devem ficar somente para nós? Em que momento da infância, sim da infância porque desde pequeno eu olhava mais para os meninos, nunca para as meninas, em que momento da infância eu aprendi, nós aprendemos, que para sermos amados por nossos pais, irmãos, tios e primos precisamos nos conter? Em que momento abrimos a porta do armário e entramos para nunca mais sair? Quando isso aconteceu?
Tento lembrar e não me recordo de um momento. Lembro, não obstante, de vários pensamentos que me atravessaram o cérebro infantil, também brincadeiras com amigos que não podiam ser mencionadas, também beijos roubados que deviam ficar em segredo, mas desde o primeiro é como eu já soubesse. Devia tudo ficar em segredo porque era errado. Foi antes então, antes de tudo começar, eu já estava trancado dentro do armário, abraçado aos meus joelhos, e uma lágrima rolava pelo meu rosto, porque naquela idade eu tinha medo do escuro.
Mas quem me disse que era errado e quando? Quando alguém segurou minha mão e disse: não pode! Não deve! Eu lembro de vários momentos que eu escutei de meu pai e de meus irmãos mais velhos que eu estava errado, mas aí era tarde, eu também achava que estava errado. Que meu amor e meu sexo eram pecado. E me culpava. Grandemente! Então eu aprendi antes: quando? Quando isso aconteceu? Em que momento eu fui tragado por aquele armário? Em que momento fiquei ali dentro sozinho e perdido, completamente perdido, e completamente só, logo eu que tenho medo de ficar sozinho, quando aconteceu? Quando?
Eu não consigo lembrar. Perco-me em lembranças. Mas esta única, esta única lembraça do momento em que eu me distanciei de todos porque não podia ser eu mesmo, esta única me escapa. Em que momento eu aprendi a mentir pra sobreviver? Eu não lembro!

quarta-feira, 10 de março de 2010

PASSADO: Diálogos Inesquecíveis III

, em Natal - RN, Brasil
Estava sentado na sala de tv de minha casa em Natal, vendo qualquer coisa que passava entre os canais da tv aberta, numa tarde, em um fim de semana, quando meu irmão mais velho, deitado no chão, sem fixar os olhos em mim, regugita palavras que ele ruminava.
- Você devia tirar esse piercing!
- Ahnnn?
Viro para ele sem muito entender do rompante. "De onde surgia aquilo?" era o que eu secretamente me perguntava. Meu piercing na orelha causara reboliço, eu sei. Meu pai lançara um: "Você pode até ser, mas precisa dizer p'ra todo mundo?", que me deixou com vontade de revelar-lhe bem mais. Mas era uma coisa muito boba para causar tanta mudança na minha vida.


- É! Painho não gosta, você devia tirar...
- Eu devia tirar?! Quando você foi p'ra Bahia e voltou com um aplique, o que eu disse?
- Ahnnn?
- Painho também não gostou, mas eu falei com ele que era besteira, que você não tinha virado viado por causa disso.
Meu irmão agora parecia visivelmente sem jeito.
- E o que isso tem a ver?
- E quando você fez sua primeira tatuagem? O que foi que ele disse? E quando você começou a fazer capoeira, o que foi que ele disse hein?
Agora ele silenciara. Fitava a tv sem saber que resposta poderia dar, poderia falar, poderia emitir.
- Tem uma pequena diferença entre eu e você: eu fico contra painho a seu favor, você não tem essa mesma coragem. Nunca teve, e nunca terá!
- Nada a ver, nada a ver, Foxx.
E um silêncio se instalou novamente na sala, somente a tv emitia algum som, vez ou outra interrompido por algum barulho que conseguia chegar da rua, de carros, de crianças brincando, ou somente o vento farfalhando.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

PASSADO: Anna Karenina, capítulo 4

, em Natal - RN, Brasil
"E decidira ser impossível viver assim, ser preciso encontrar uma explicação qualquer para a vida, de sorte que esta se lhe não apresentasse como uma ironia maligna e diabólica e não o levasse a estourar os miolos."



Foi em Santa Rita que tudo aconteceu. Santa Rita é uma praia que apesar de ficar a somente vinte minutos de Natal permanece deserta durante todo ano, com excessão do verão, quando as casas de praia que ocupam a orla ficam cheias de crianças e adolescentes mimados, meninos que se exibem a meninas que também tem seus hormônios em ebulição. No verão, a praia é ocupada por jogos de volei e amores imaturos, por isso prefiro ocupar a casa que meu pai construiu no inverno. É uma casa imensa! Duas suítes no primeiro andar, mais duas no térreo, acomodações ainda para mais dez pessoas no térreo e talvez mais dez subindo as escadas.
Nós ocupamos a suíte ao sul, naqueles dias de julho. Estávamos na cama, eu e ela, cama que eu havia dividido com o Sérgio momentos antes, quando ela falou: "Ele me disse que hoje não saíria daqui se não fizesse sexo com você". Eu me virei a ela e estava óbvio que eu queria mais explicações. "É! O Sérgio apostou comigo que hoje ia te comer". Eu ri, sem saber se ficava ofendido ou não com a pretensão daquele dançarino de corpo perfeito que estivera na minha cama antes. Anna, no entanto, sabia que deveria estar ofendida, ofendida e enciumada. Agora ela me queria na cama com ela. Porque Sérgio me tivera, e agora bebia e fumava com nossos outros amigos no térreo. Ela sentia-se na vez dela. Era a vez dela me ter naquela cama.
Avançou sobre mim e não nego que os beijos me atiçaram. E conforme meu corpo se ascendia, meus pensamentos fervilhavam. Um momento de escolha se aproximava e vórtice parecia me deixar tonto. "Eu sou gay, não sou? Então o que estou fazendo aqui, com ela, excitado?", eu me perguntava. Não havia dúvidas quando o Sérgio me beijou e me trouxe pela mão até aquela cama, agora quando ela montava em mim e tirava a própria blusa. eu pensava se deveria estar ali com ela ou não. Uma constatação foi tomada ali, com Anna e graças a ela, definitivamente, mulher não é a minha praia.

domingo, 24 de janeiro de 2010

PASSADO: Anna Karenina, capítulo 3

, em Natal - RN, Brasil

"O pior é a malícia, sim, a malícia da inteligência. A fraude da inteligência"


Ficamos! Ali e várias outras vezes, e descobri quem era Anna. Mulher fogosa apesar dos olhos mortos e da pele fria. Olhava para as pessoas com aquele ar de quem não se importava com ninguém e caminhava como se não houvesse mulher mais bonita do que ela em toda cidade. Dançava como raras pessoas conseguem, aulas de balé e de dança de salão, vivera dois anos na Itália, e jurava, com lábios trêmulos, que nunca se prostituíra lá, apesar de ter trabalhado como dançarina "exótica". Ninguém acreditava. Ninguém acreditava porque era a Itália e porque era Anna. E porque Anna tinha dinheiro. Muito, pagava tudo para quem estivesse com ela. Mas não se vestia com luxo, na verdade, se vestia como uma putinha daquelas mais baixas que você possa imaginar. E não, não imagine as putinhas de Lolita Pille. Um dia me apareceu com uma minissaia branca e uma bota até o joelho para passear no shopping. Ela era olhada, admirada, temida, homens a cercavam e ela fingia-se de inocente nestes momentos, brincava com eles, como se fosse somente uma menina. Um dia me colocou contra a parede: "Por que ainda não fizemos sexo? Parece que você tem medo". Olhei-a de cima a baixo e confirmei: "Sim, tenho medo de você, de quem eu posso ser estando com você, mas principalmente você é uma mulher que assusta qualquer homem". E foi quando a chamei pela primeira vez de Anna Karenina, e ela sorriu, maliciosamente, por trás dos olhos mortos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

PASSADO: Anna Karenina, capítulo 2

, em Natal - RN, Brasil
"E eu que procurava milagres, pesaroso de não ter visto nenhum que me convencesse! Um milagre material ter-me-ia conquistado. E sem ver o único milagre possível, o milagre permanente e que nos rodeia por todos os lados!"


Quando me aproximei de meus amigos, eles me perguntaram o que havia acontecido. Jonathan já havia corrido atrás de Anna, que saíra em disparada após bofetear-lhe a face com uma impetuosidade de mulher traída. Eu não sabia explicar. Ao meu redor, outros também me olhavam sem acreditar e sem entender o que acontecia. Afoguei minhas preocupações em outras cervejas, quando Jonathan voltou. E voltou me puxando para junto dele, exibindo os músculos do braço e as tatuagens, mas antes dele beijar-me novamente, perguntei o que tinha acontecido e, rindo, ele respondeu: "É que ela queria ficar com você!".
Disparei a rir, sinceramente surpreso, sinceramente lisongeado. E ele continuou a falar: "Mas eu disse que você, com certeza, preferia ficar comigo". E apertou minha bunda com as mãos calejadas pelas barras da musculação. Eu o beijei de novo, mas desta vez comentei no seu ouvido: "Não tenha tanta certeza que você seria o escolhido". Ele riu, meio sem acreditar, e me desafiou, duvidando que eu ficaria com ela também. Coincidentemente ela se aproximou, com o mesmo olhar morto, foi quando ele sorriu para ela e soltou: "Ele disse que também ficaria com você, se você quisesse...".



sábado, 12 de dezembro de 2009

PASSADO: Anna Karenina, capítulo 1

, em Natal - RN, Brasil
"Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira."


Era forró que tocava no ar quando eu vi Anna a primeira vez. Na verdade não a vi, primeiro, eu vi Jonathan que estava ao lado dela. A imensa tatuagem no braço dele, que começava no antebraço e se perdia por dentro da manga da camisa justa que usava, ressaltando-lhe os músculos, chamou-me muita atenção. Eles conversavam entre cervejas e um cigarro que tamborilava entre os dedos de unhas vermelhas que ela ostentava. Ele era moreno, de profundos olhos vivos e negros, ela tinha uma pele branca, cujos seios não muito grandes perdiam-se num corpete negro. O cabelo dela estava preso e o colo todo a mostra reluzia as cores que escapavam do palco.
Eu estava próximo a eles, observava e fui notado. Eles conversaram algo e eu notei que ela dissera um veemente não para alguma proposta dele, e me lançara um olhar morto, daqueles que só pessoas que já sofreram muito têm. O olhar morto e meio cheio de desespero. Assustado, reuni-me aos meus amigos que bebiam no bar, e fiquei por lá por um tempo, quando notei o Jonathan sozinho, agora, me rondando. Ele me olhava, ao encontrar meus olhos sorria, eu sorri também, e com a coragem que somente o álcool poderia me dar, aproximei-me. Ele se apresentou com aquela voz de barítono, contou da banda de pop rock que cantava, falou mais algumas palavras, e quando me enlaçou com aqueles braços tatuados me beijou.
Foi quando uma mão se colocou entre nós, uma mão branca com unhas vermelhas se pôs entre nós. Eu olhei sem entender o que acontecera, e Anna olhava para Jonathan com fúria, apesar dos olhos mortos que ostentava, e uma tapa explodiu na cara dele, de uma mão branca e unhas vermelhas.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

PASSADO: Homofobia(s) I

, em Natal - RN, Brasil

Paula



Aquele menino de cabelos cacheados nasceu em um bairro pobre da periferia de Natal. Região perigosa àquela época, mais perigosa hoje em dia. Nossa Senhora de Nazaré. Margeado por um lado pela fartura de Lagoa Nova, um bairro de bons, com ruas asfaltadas e casas de muros altos, e, por outro, pela pobreza do Bom Pastor, onde a linha férrea cruzava por cima de um riacho poluído pelo esgoto que descia das casas pelo meio-fio das ruas. Era um bairro de imensos terrenos baldios onde nasciam mamonas e meninos corriam descalços em ruas de barro vermelho. Hoje vilas ocuparam os terrenos, a prefeitura instalou esgoto e espalhou o sólido calçamento. O riacho não existe mais. Antes os meninos faziam guerras de estilingue e faziam lanternas para quando faltasse luz, hoje eles se matam com armas de fogo e assaltam pessoas quando a luz se afasta em ruas escuras. Neste bairro ele cresceu e se formou. Cresceu um menino quase menina com seus cabelos de cachos pequenos que balançavam quando ele corria pelas ruas. E como Pombinha, cabia a ele, um único destino. Um destino marginal.
Foi neste bairro que o destino de Paulo o permitiu crescer. Cresceu ofendido pelos meninos que o destino dele o forçou a conviver preso naquele bairro que crescia tal como ele mesmo, que de menino se transformava aos poucos em homem, ou mulher? Ele sofria com essa dúvida, devia ser homem, tinha corpo de homem, mas queria ser mulher, nascera para ser mulher, tinha certeza, apesar do corpo. Mas, este mesmo destino que fizera nascer menino, ali, naquele bairro pobre da periferia de Natal, o surpreendeu um dia, quando um outro, tão diferente, tão marginal quanto ele, ao qual ele não gostava muito de envolver-se porque com medo e asco de sua própria imagem refletida no outro, preferia evita-lo. Não obstante, estavam expostos ao mesmo tratamento, de suas famílias, de seus vizinhos, daqueles outros meninos que corriam descalços no mesmo barro vermelho que eles. Este, de nome bíblico, Isaac, apareceu um dia na casa da mãe com um namorado, e toda vizinhança comentou e foi olhar. Paulo, também surpreso, foi olhar e, inflou-se de coragem e também resolveu se mostrar, e amigo do Isaac ele se tornou. Apoiado por Isaac, Paulo assumiu o seu destino e tornou-se Paula.
E os cabelos cresceram, as roupas mudaram, e ele se tornou manicure, através de remédios os seios passaram a crescer. Adotou o nome por causa de um personagem de novela que ele admirava. E ele passou a não atender mais por ele, somente ela. Agora tornara-se definitivamente Paula e passara a marcar encontros com homens através da lan house do bairro. Gastava seu dinheiro de manicure com roupas curtas e horas na internet. Sempre ia encontrar com eles na esquina de uma avenida, e enquanto ela esperava e, às vezes, algum conhecido passava, cumprimentava-o com um aceno quando não mandava um beijo. Um destes homens deve tê-lo matado numa noite de setembro. Talvez um conhecido mesmo, talvez um desconhecido da internet. E Paula foi encontrada estirada, pobre Paula, no chão, com o vestido roto e os cabelos vermelhos, mas não era tintura, era mesmo sangue, que escorrera de seu corpo para o chão, e alcançara seu cabelo. E ninguém nunca soube quem tinha matado Paula, porque não precisa, "era só um traveco de nada".

domingo, 8 de novembro de 2009

PASSADO: A Face

Este texto foi escrito para mim por um ex, o Txi. Um ex-ficante. Nós tentamos um namoro em junho de 2006, porém não o considero como um ex-namorado. Apesar de ter sido ótimo termos ficado juntos, mas, convenhamos, um mês não é um namoro. Tudo se encerrou, disse ele, porque teríamos nos tornado mais amigos do que namorados. Na minha opinião foi porque ele realmente estava apaixonado por um colega que lutava karatê com ele na seleção do Estado, o Júlio. Hoje, três anos depois, talvez traumatizado pela impossibilidade do amigo hétero apaixonar-se por ele, podemos encontra-lo dentro de alguma igreja, sufocando seu desejo.


A Face


Eu o observo... Tão atentamente, que minha mente voa pela arquitetura de seu rosto.
Vejo a perfeição e as curvas delineadoras desta jóia reluzente.
Os olhos de um oriental, que expressam a sabedoria milenar de idas vidas...
Duas pedras de ébano jazem naqueles olhos expressivos, que parecem clamar por meus afagos.
E então vejo a delicadeza de seu nariz que desce suavemente , assim como uma duna, cuja areia a cobre como um véu.
Perco-me nestes lábios... Que me seduzem, me envolvem e me levam à distâncias cósmicas de prazer, numa trama intrínseca de amor e paixão, em puro fervor...
E a barba que cresce feito grama verde num belo jardim, do queixo másculo até ao principio de suas orelhas pequenas.
Ele então me beija, dando-me a prova de que aquela fantasia pertencia só a mim.