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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Homens de Barba

, em Natal - RN, Brazil



Para quem não sabe, eu uso barba faz muito tempo. Na verdade, eu poderia dizer que sempre usei já que sendo meus pêlos faciais daquele tipo que cresce muito rápido, eu nunca pude curtir um rosto lisinho desde minha adolescência. Tirar a barba para mim sempre significou ficar com o rosto verde pelo resto do dia e antes de adormecer, já precisar tirar a barba de novo. Foi essa exigência diária que me fez adotar a barba como parte do meu visual, que aconteceu juntamente quando eu assumi a calvície, eu pensava: "Já que não tenho cabelos na cabeça, talvez a barba compense de alguma maneira". Isso, definitivamente, não agradou de imediato. Eu sofri preconceito de gays e héteros (que ironicamente concordavam na crítica: eu não era homem o bastante para usar barba), mas, logo, veio a explodir a moda hipster, com suas camisas de flanela xadrez, óculos vintage inspirados na década de 1980 e um visual desleixado com cabelos compridos e barba por fazer. A haute couture também ajudou durante os fins da década de 2000, modelos com barbas por fazer frequentava desfiles e logo estes pêlos vistos como falta de cuidado com a aparência tornaram-se moda, in, e as mesmas pessoas que me olhavam torto, além de me concederem elogios, agora tentavam cultivar seus pêlos faciais, os mesmos que combatiam a sessões à laser ou torturantes depilações com cera ou pinça. 
Como a barba tornou-se popular, então, minhas fotos com ela também passaram a ser curtidas. É interessante observar isso também. Eu tive um Fotolog anos atrás, que também era uma rede social que se baseava em curtidas e comentários sobre as fotos, aquelas que eu tirava com barba era com certeza menos curtidas do que as que eu fazia logo após afeitar-me. Contudo, de uns tempos para cá, tanto no Facebook e depois no Instagram (que fiz minha conta não faz um ano), tornou-se comum minhas fotos serem cobertas de elogios em relação a barba. São meninos recém saídos da adolescência, borbulhando com o fetiche daddy; aproveitadores que acham que tenho cara de suggar daddy, ursos e chasers, entre outros, mas, recentemente, um grupo muito estranho tem, principalmente no Instagram, curtido meus auto-retratos, que agora são chamados de #selfies. Estes postam fotos de homens barbudos e de camisetas com frases do tipo "se seu pai não tem barba, você tem duas mães" ou "se torne homem, deixe a barba crescer". Eu me assustei por diversos motivos, mas dois são os mais graves: homofobia e racismo.
1) Homofobia. Homofobia significa, na verdade, não o preconceito contra gays, como se popularizou, o preconceito é apenas o resultado da homofobia, mas ela se caracteriza pelo ato de forçar um modelo de homem para ser seguido pelas outras pessoas. Seja este modelo de comportamento afirmar que homem não chora, que é homem é sempre mais forte, que homem gosta de futebol e que homem só se sente atraído sexualmente por mulheres. No caso que analisamos aqui, então, quando se levanta a bandeira de que homem de verdade é um homem com barba se constrói mais um modelo de homem para ser seguido e novos preconceitos homofóbicos são construídos e disseminados como se este mundo já não tivesse o bastante. Eventos como o #BarbaDay no Twitter, inúmeros Tumblrs dedicados a homens com barbas, postagens no Facebook afirmando que a existência ou não de pêlos no rosto de alguém torna este ser humano especial. Tudo isso uma bobagem sem tamanho e, o mais perigoso, uma bobagem homofóbica.
Qualquer um pode considerar que levar essas "piadinhas" sobre a barba a sério é que é a verdadeira bobagem, mas um garoto de 8 anos de idade, em São Paulo, foi espancado pelo pai até a morte porque não queria cortar o cabelo curto "como um homem de verdade" (veja a notícia aqui), o cabelo curto foi definido como o cabelo masculino exatamente como hoje se define que a barba é o suprassumo da masculinidade humana: a moda assim decidiu e nós admitimos como uma verdade universal, a história, todavia, está ai para provar que décadas atrás o bigode era o grande exemplo de masculinidade, depois a depilação total e a jovialidade e ambiguidade sexual decorrentes entraram na moda, agora é a vez da barba, mas estes processos cíclicos que sempre começam dentro do mundo gay não passam de modismos que mudam ao sabor dos ventos da próxima temporada. 
2) Racismo. Além deste problema homofóbico que a elevação da barba do status de fetiche para símbolo da masculinidade do macho humano, como a juba de um leão ou a cauda de um pavão, existe o detalhe racista que passa desapercebido. Existe uma gradação entre os amantes de barba que vai daquelas barbas mais fechadas, ditas completas e sem falhas (prestem atenção nos adjetivos que levam para o sentido de perfeição) para as mais ralas (barbas falhadas) e os imberbes. Entre estes pogonófilos, aqueles sem falhas são superiores e, não por acaso, são os homens brancos aqueles que, normalmente, apresentam estes tipo de pêlos no rosto. Negros, ameríndios, orientais, hindus, mongóis (talvez a única exceção sejam os árabes) não possuem a barba perfeita. Eu não acredito em coincidências (desconfiar é um excelente exercício intelectual, vocês deveriam tentar!), por isso eu desafio qualquer um a procurar nestes grupos e comparar a quantidade de fotos compartilhadas de homens brancos versos aqueles de outras etnias, inclusive os árabes. 
Observação: Eu sei que, agora, todos vão lembrar que conhecem alguém que é negro ou de ascendência japonesa, por exemplo, aqui no Brasil, que tem uma barba fechada. Lembrem que no Brasil nós temos uma miscigenação imensa, poucos brasileiros não são mestiços, e isso transfere para um indivíduo características genéticas dos diversos grupos étnicos ao mesmo tempo. Porém, os grupos que divulgam fotos do tipo "Faça amor, não faça a barba" não utilizam fotos de modelos brasileiros, não é? 
Conclusões. Para mim, no fim das contas, elevar o homem barbado ao lugar de destaque da masculinidade humana é, além de forçar violentamente mais uma imagem aleatória de homem como um modelo a seguir, cristalizar no imaginário coletivo a figura do homem branco como o ápice da sociedade humana (já que o homem seria melhor que a mulher e o homem branco melhor do que todos os outros homens) e, sinceramente, não precisamos de mais disso. Já tivemos um nazismo uma vez, e ao contrário da barba, ele está definitivamente fora de moda.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Decora

, em Natal - RN, Brasil



 Banheiro:


1) Eu, utilizando  as habilidades que meu pai me passou através de anustiantes anos de treinamento, instalei os ganchos e estou esperando a toalha de rosto que o Thomas Cícero  me prometeu.
2) Eu que fiz este porta papel higiênico. I'm a ninja, meu amigo me chamou de Senhora do Artesanato. Também fui eu que instalei ele na porta.


3) Este era o espelho do meu quarto, mas eu precisava ampliar o espaço pequeno do banheiro, então, ele foi para a parede com a ajuda de dois parafusos e uma furadeira. Eu que instalei obviamente.
4) Pimentinhas que comprei do rapaz do Centro Manassés que vendia no ônibus. Não entendo como um grupo evangélico vende amuletos contra mal-olhado, mas tudo bem.
5) Preciso trocar este assento, urgentemente.


6) Havia umas manchas no espelho. Mas o BrunoEtilico me deu a ideia de fazer um desenho apenas subindo pelo espelho. Eu desenhei espuma, com contact branco, e apliquei no vidro, funcionou.
7) Instalei essa cestinha. Precisava de um lugar para guardar os xampus que fosse acessível, e provavelmente essa foi a peça mais cara em todo o banheiro.


8) Eu que pintei. Antes era cinza, feio e triste, agora é abacate, brilhoso e feliz. E viva a tinta spray.



Cozinha:


9) Acho que preciso de uma luminária aqui, concordam? Podia ser uma tipo prato, como postes antigos de rua, mas onde se acha isso?
10) Um relógio é necessário aqui também. Difícil é encontrar algum que seja interessante e eu possa pagar.
11) Cobri os antigos azulejos com papel contact. Eu sou the queen of contacts.
12) Este armário era cinza, agora é branco. Papel contact de novo. Os puxadores se tornaram verde abacate porque a tinta spray não acabou no armário do banheiro.
13) Eu que pintei esta estante, branco. E o botijão de gás foi presente do Dramma.
14) Aqui vai ficar a mesa, quando eu a comprar. Espero que ela fique me esperando lá no Carrefour.
15) Eu reaproveitei estas cestas de metal da loja da minha mãe. Mas ainda falta uma cortina, mas todas que encontrei até agora são femininas demais. Por acaso, homens não moram sozinhos neste mundo?


16) Aqui vai ficar a geladeira. Quando eu comprar.
17) I love plants in doors. São ráfias e lírios-da-paz, mas estes últimos não floriram ainda, acho que eles precisam de adubo especial. Ah, estes lírios também absorvem energia negativa, limpando o ambiente.


Escritório:


18) Meus livros em uma estante que eu mesmo parafusei na parede. Tenho que agradecer meu pai pelas aulas básicas de marcenaria e de ajudante de pedreiro, viu?, me poupa muito dinheiro.
19) X-Men, X-Men e mais X-Men. E vem mais por aí, afinal agor também tenho que comprar Avante, Vingadores.
20) Mais X-Men sobre minha escrivaninha, e essa eu tenho desde os 25 anos, mas agora eu a cobri com Contact e parece nova. Sim, sou a Louca do Contact.


21) Isto era um açucareiro. Não é mais.


22) Disseram que eu tinha TOC só porque arrumei os livros a partir da cor de suas capas, mas eu só vi num blog de decoração e achei lindo.
23) Paperdolls dos Novos Mutantes. Muito amor.


24) Guaraná Jesus, lembrança de São Luis. Mas não fui eu quem fui, foi o Andarilho que me trouxe de lá.


25) Eu que recuperei esse ventilador antigo, ele era da loja da minha mãe e estava jogado num canto, ocupando espaço, em resumo, se não lixo, entulho. Também reformei as pás. Elas foram cobertas com papel contact (de novo). Eu o instalei com ajuda do meu pai.
26) Estamos em negociações para instalar o forro de PVC, por questões de higiene e segurança.

Quarto:


27) Este espelho já estava na casa quando me mudei (junto com duas cadeiras enferrujadas, uma cama de solteiro com um colchão que dava nojo e dois potes de vidro), eu estou escrevendo amor em várias línguas em torno dele. E como ele está na parte da casa reservada ao relacionamento segundo o feng shui, quem sabe ajuda em algo. Viu, Universo?


28) Estes cartazes são da Pura Mania, eles são 3D, mas eu perdi os óculos, devem estar em BH.
29) Minha cama! Seja bem vindo.
30) Sim, minha mesa de cabeceira é uma antiga caixa de som. Também era entulho juntando poeira que ninguém tinha coragem de jogar fora na casa dos meus pais, me apossei sem pedir permissão.


31) Papertoy que ganhei do Menino Bonito. Eu o batizei de JP.
32) Presente que ganhei do Bê quando ele foi para a Alemanha. Saudades, Bernardo.


33) A parte de cima do meu criado-mudo é uma tábula para cálculo do mapa astral. A vela é de citronela. Na caixinha tem coisas proibidas para expectadores menores de 18 anos.


Sala-de-Estar:


34) Antes deste lugar ser uma casa, ele era uma academia de kung fu, então eu tenho janelas Yin-Yang.
35) Local reservado para os cartões que o Bê me prometeu.
36) Eu que fiz essas prateleiras com MDF e serra tico-tico e eu que as instalei também. Parafusei as mãos francesas primeiro no MDF e depois na parede e no acabamento, cobri com mais contact.
37) Quero esconder esta tomada, mas ainda não sei como, pensei em alguma planta. Ou em fazer um bar aí embaixo numa caixa de MDF de 55x25x50.
38) Eu preciso MUITO de um tapete.


39) Eu acho que devia colocar algo nessa parede, mas não sei o quê.
40) Estas almofadas e as cadeiras eram dos meus pais, e estavam na casa dele sem uso, jogados. Por enquanto substituem um sofá, mas quando a mesa chegar as cadeiras irão para a cozinha, e como a sala é muito estreita não terei um sofá aqui, apenas as almofadas no chão, com pufes e almofadões, e por isso eu preciso MUITO de um tapete aqui.
41) Eu enconrei este criado-mudo no lixo. Com papel contact e alguns pregos, ele ficou novo em folha. Deixei o papel amassado na parte de cima de propósito, deu um efeito de couro bonito e interessante.
42) Este é meu altar. Namastê.
43) Um dia haverá uma TV ai. Um dia.
44) Meus quadros, que eu comprei a 10 reais no camelódromo de Natal e pintei com tinta spray. E viva a tinta spray! Um deles guarda um presente do BrunoEtílico.



45) Todo escritor precisa ter uma máquina de escrever em casa, não é? Essa deve ser mais velha do que eu e ainda funciona.
46) Luminária feita com uma vela e um vidrinho de cogumelos.
47) Tom of Filand é deus!


48) Os deuses olímpicos.
49) Mestra Palas Atena, deusa da verdade.
50) São José ou Saint Germain, senhor do fogo violeta.
51) Meus japa malas e rosários.
52) Presente do Bobtuso.
53) Eu encontrei este castiçal em Belo Horizonte, no lixo, anos atrás. Ele tem um puto tocando flauta transversal com asas douradas. Uma imitação baratíssima com certeza, mas serve para eu colocar as velas que acendo para meus guias.
54) Têmis, deusa da justiça.
55) Cristais (preciso de mais).
56) Meu livro de decretos, aqui estão as orações que eu faço diariamente para libertar-me do meu carma e poder ascender no caminho da luz.
57) Incensário.O incenso está guardado na gaveta do criado-mudo que achei no lixo. O número 41 abaixo.



58) Minha jibóia. Ela purifica o ar, sobretudo, de energia negativa. E é linda!
59) Eu encontrei esta vasilha jogada na oficina do meu irmão, ela estava completamente enferrujada por dentro, mas tinha esse amarelo lindo por fora. Dei uma mão de tinta por dentro, preta, mas deixei o amarelo, mesmo com manchas de ferrugem. Afinal esse amarelo foi o que me chamou atenção, se eu o lixasse e pintasse não haveria graça nenhuma. Achei lindo assim. Ela serve para guardar as minhas chaves.


Porta de Entrada:


60) Porta. Moro no número 12D de uma vila. Não temos pátio por aqui, as crianças, brincam na rua.
61) Capacho, ele diz: Pedestres podem entrar. Tem uma samambaia crescendo no chão. Não sei como ela conseguiu crescer por entre os pedaços de mármore e granito, mas está lá firme e forte. Que continue então.


62) Baguá, ele fica acima da minha porta, e impede o mal de entrar. Ele é um pequeno espelho que reflete qualquer energia negativa, desejo nefasto, entidade maligna que pretenda entrar na minha casa, da porta ele retorna, eu ajudo usando alguns decretos de banimento para manter minha casa segura também.



Bem vindos a minha casa.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Homem de Atenas

, em Natal - RN, Brasil
Eu e o Peter Pan chegamos as 3h da manhã naquela sexta-feira na Vogue. Eu já estava bebendo desde as 16h da tarde, quando abri a primeira lata de cerveja ajudando o Bobtuso a preparar a festa surpresa para o namorado dele. Decorei o salão com o tema "festa infantil", balões e pirocoptéros, chapéus de papel e línguas-de-sogra, e arrumei mesas ouvindo Beyoncé no iPod, ajudei a arrumar as comidas que os convidados traziam, três mesas de doces, brigadeiros, torta de limão, bolo de aniversário de morango e chantilly, cupcakes kosher de rum; outra estação de pratos salgados, patês, cachorro quente de soja, cachupa, nachos e batata-frita e arroz com passas. Era muita comida. Bebida também: garrafas de vodca, rum, tequila e licor de jabuticaba, mais muitas cervejas. Os convidados demoraram a chegar, o aniversariante também. Mas completamente surpreendido pela festa ele chegou, assustado e vermelho. Ficamos lá, sentados, conversando, durante toda noite, comendo até se fartar, bebendo até não aguentar. Foi quando o Peter me ligou, por volta de meia-noite já. Perguntando onde eu estava. Contei-lhe da festa surpresa, e ele crash over.
Ficamos lá até os últimos convidados saírem. Porque sou do tipo que fica até o final para ajudar na faxina. Levamos a comida e a bebida que sobrou para o apartamento do Bobtuso, ainda tomei um banho por lá e, em seguida, saímos para a boate. Era tarde, e eu não esperava nada demais, ia por insistência do Peter Pan. Ao entrar decidi que já havia bebido demais e comprei apenas fichas para refrigerantes. Gosto do sistema de fichas da Vogue, você chega e compra o que vai consumir, e vai trocando no bar, no fim, não existem filas para sair da boate, o que é sempre uma vantagem imensa. Na boate, o primeiro ambiente, com música ao vivo e uma banda de samba-reggae com dois dançarinos musculosos dançando ao lado de um cantor de pernas finas, estava lotado. Muito lotado! Achei então que a boate estava bem cheia. No entanto, no segundo ambiente, em que o dj toca, poucos dançavam na pista. Encontrei um único amigo lá e perguntei se as pessoas já haviam ido embora. Ele respondeu que não. Que a noite toda fora daquele jeito.

Estava ainda no meu primeiro guaraná quando reencontrei um menino que deu em cima de mim semanas atrás quando eu ainda estava com o blogueiro que contei aqui (é, o verbo está certo, "estava"). Eu havia o dispensado quando ele, bem direto, me pediu um beijo. Eu beijei-lhe a bochecha e disse que era o único beijo que eu poderia dar-lhe. Ele se aproximou, dessa vez, e perguntou: "Estou com mais sorte hoje?". Eu sorri e como não tenho mais nenhum compromisso o beijei. Ele tem um sorriso bonito. Ele é negro, magro, com uma bunda bonita, boa de apertar. Tinha no máximo 19 anos. Um menino que ficava admirando minha barba e sorria quando encontrava a minha barriga com a ponta dos seus dedos finos. Foi quando ele encontrou os pêlos do meu peito que falou: "Gosto de homem assim, que parece homem!". E me beijou, me empurrando contra a parede, o que aproveitei para colocar minha mão por dentro de sua calça e sentir a pele coberta por uma fina penugem de suas nádegas. Ele, porém, foi embora logo. Seu amigo chegou dizendo que eles já estavam indo, "É tarde, João, temos que ir", e eu olhei no relógio: 4h. Ele me puxou até a porta da boate para um último beijo e saiu com seu amigo.
Foi quando eu voltei para a frente do palco. Peguei outro guaraná e fiquei conversando com o Peter Pan e ouvindo a música que a banda de samba-reggae que tocava, tentando observar a ligação entre a coreografia dos dançarinos e a letra da música, que notei inexistente. Lembrei das minhas aulas de dança, quando me foi ensinado que a coreografia devia contar uma estória, lembrei de inclusive bandas de samba-reggae como o É o Tchan que faziam isso com qualidade sim. Criando novos passos e absorvendo elementos de outras danças de salão para dentro da coreografia, agora eu observava aqueles dois homens, muito bonitos sem dúvida, dançando ali, mas percebia que não havia absolutamente nada de novo no que eles faziam. Conversando sobre isso com o Peter comprei uma Fanta e do bar eu observei um menino sambando do lado do palco, de costas para mim. Um corpo bonito, uma bunda redonda e bem feita, que ele rebolava. De fato, prendeu minha atenção.
Foi quando ele virou-se para mim e sorriu. Eu respondi fazendo o mesmo e um sorriso como tréplica soou como um convite para que eu me aproximasse. Sentei-me do seu lado e tentávamos conversar, mas o barulho da banda não permitia e eu o convidei para sentarmos no terceiro ambiente da boate, um videobar com cadeiras de metal e um único banheiro unissex. Sentamos e ele falou que era tímido e contou que tinha 21 anos e se chama Israel. "Então, se você é tímido quer dizer que eu que tenho que tomar a iniciativa para te beijar?". Ele sorriu e respondeu que sim. E eu puxei sua nuca para perto de mim e nossos lábios se tocaram pela primeira vez. Foi um beijo que começou suave e foi pegando fogo. Quando o incêndio se instalou ele sentou no meu colo, e minhas mãos buscaram sua bunda instintivamente, ele passava a mão no meu cabelo, e eu mordia seu lábio inferior, ele então me segurou a cabeça com as duas mãos e eu vi sua pele indígena contrastando com a minha pele branca e seus olhos de um castanho profundo me olhando. Ele sorriu. Um sorriso bonito e largo. Eu o beijei de novo, e ele rebolava no meu colo. Foi quando o amigo dele apareceu do nosso lado o chamando para ir, nos levantamos e ele me puxou pela mão até seus amigos os quais me apresentou e me pediu que o levasse até a porta também. Na volta eu olhei no relógio e vi que já eram 5h da manhã e reencontrei o Peter que conversava com um amigo nosso em comum. "Vamos embora, Peter?".
No carro, ao fechar o cinto, virei-me para o Peter e falei: "Será que eu devia adotar a pedofilia, não, minto, a pederastia?". Ele apenas me olhou esperando mais informação. "É que pedofilia é você ficar com pessoas menores de idade, não é?". Ele concordou. "Pois então, a pederastia é o que os homens de Atenas faziam aos 30 anos que sempre eram ativos com os meninos entre 18 e 20 anos". Ele gargalhou, mas reclamou. "Ah, não, mais competição p'ra mim?". Agora era minha vez de rir. "Ora, desde que eu adotei esse visual com cabelo raspado e barba, essa faixa etária tem dado tanto em cima de mim... eu os evito, por causa de um preconceito meu, de pensar que um relacionamento com alguém tão novo não vai dar certo". Ele mantinha-se em silêncio. "Eu quero um namorado que tivesse maturidade o suficiente para saber que, por exemplo, ele deseja ficar comigo, sabe?, que não ficasse fazendo joguinhos de conquista". Ele nem ligara o carro ainda me ouvindo falar. "Fora que não tenho paciência p'ra alguém que não sabe o que quer, né?". Peter continuava em silêncio, apenas girou a chave do carro e saímos, eu olhei pelo vidro e perguntei ao dia que começava a nascer: "Será que vale a pena eu voltar a tentar conquistar alguém, me dar a esse trabalho, e investir nestes meninos?".


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Urocyon cinereoargenteus

, em Belo Horizonte - MG, Brasil





Já que ninguém foi lá no Tumblr. Pelo menos ninguém se deu ao trabalho de comentar por lá. Então resolvi presenteá-los com as fotos aqui também. E também porque não tenho muito o que falar mesmo.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Cada Um Tem Sua Teoria

, em Belo Horizonte - MG, Brasil




- Sabe porque você está solteiro, Foxx? Disse ele com o dedo em riste.
- Não. Respondi, sorrindo.
- Quer saber? Disse soltando a fumaça do cigarro entre os dentes de um sorriso irônico.
- Por favor. Pedi eu.
- Pois então - e parou para um trago no seu Dunhill vermelho, ou só para aumentar a minha curiosidade - eu acho que é porque você é muito inteligente.
- Como assim?
- Bem... - e soltou anéis de fumaça - as pessoas devem se sentir intimidadas dado a sua inteligência, e ninguém gosta de estar com alguém que nos deixa tão intimidado...
- Mas... - tentei argumentar, mas ele continuava a falar enquanto batia o polegar no filtro para derrubar as cinzas do cigarro.
- Em resumo: ninguém namoraria alguém que o fizesse se sentir burro.
- Nossa! Então eu sou desses pedantes que humilham os outros? Choraminguei.
- Não! Claro que não! Mas não tem como conversar com você sem que você demonstre ser o homem inteligente que você é. Faz parte de você, ora. É quem você é.
- Mas... - esperei agora para saber se ele pretendia continuar falando, porém meu amigo levava o cigarro a boca e eu continuei - p'ra uma pessoa saber que eu sou inteligente assim ele não teria que me conhecer?
- E você acha que precisa mais de cinco minutos de conversa p'ra descobrir o quanto você é foda?



quinta-feira, 21 de julho de 2011

sábado, 9 de abril de 2011

Homem De Verdade

, em Belo Horizonte - MG, Brasil


- Olha, na minha opinião, tudo o que você disse dele, você também é. Bonito, inteligente, interessantérrimo. E, concordo com minha namorada, charmosíssimo! Porque ela fala isso de você. 
Disse com um cigarro aceso entre os dedos, e o isqueiro verde na outra mão.
- Ah, é?
- É. "O Foxx é muito charmoso". Sempre diz... 
E sorriu.
- Mas como eu dizia, os adjetivos que você usou para descrevê-lo podem todos serem utilizados para você, contudo, tem gente, que não gosta de pessoas iguais a elas. Tive uma namorada assim uma vez. Ela não me fazia nenhum elogio, as amigas dela diziam o quanto eu era bonita, interessante, e bla, bla, bla, mas ela nunca me dizia. Por quê? Porque isso incomodava a ela. Feria-lhe os brios. Estar com alguém que estava no mesmo nível dela a incomodava porque feria o seu orgulho.
- ...?
Antes de continuar, tomou um gole da cerveja, e falou:
- É isso mesmo! Ela me trocou por uma fulaninha qualquer aí... mas falávamos de você. O que quero dizer é que pessoas como nós. Eu e você. Precisamos de alguém que nos banque.
- "nos banque"?
- É. Um cara p'ra te namorar, por exemplo, tem que ser muito homem. Ele tem que ter muita confiança nele para ficar do teu lado, de cabeça erguida, e não se sentir ofuscado. Você é leonino, cara! Você brilha sem esforço, e é bonito, inteligente, interessantérrimo e charmoso. 
- Como diz sua namorada.
- Como diz minha namorada.
Repetiu sorrindo.
- Acho, sinceramente, que o seu "problema" é esse. 
Disse fazendo as aspas com os dedos que seguravam o cigarro.
- Você não encontrou esse cara que te banque. Mas, de certa maneira, isso é de se esperar, homem de verdade 'tá em falta no mercado.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

De Coração Aberto


Tenho ouvido criticas e mais criticas ultimamente. Reclamam do personagem que eu criei. Aqui no blog e na vida. Alguns comentários perguntam porque não mostro o meu rosto, porque não dou minha cara a tapa; outros dizem que sou chato e que este blog só serve para eu bancar de vítima. Que este blog só serve para eu reclamar. Dizem que preciso de tratamento psiquiátrico, que meus traumas de infância definem toda minha vida. Que preciso urgente de terapia. Dizem que vivo de auto-piedade, e que não tenho auto-estima. Aparecem rótulos e definições. Dizem: "Você devia parar de fazer isso", "Você não devia ser assim". 
E eu tento. Juro que tento. Controlo meus sentimentos, controlo meus medos e frustrações, me calo. Jogo tudo para debaixo do tapete, porque os sentimentos, os medos, as frustrações continuam lá. E elas doem. Doem inclusive fisicamente, porque nosso coração precisa mostrar que está dolorido e machucado, e se as lágrimas não caem, a dor se torna física. Caímos doentes. Dores em membros fantasmas. Mas estou impossibilitado de falar porque os amigos e os leitores cansaram de ouvir que "está tudo na mesma", e eu também cansei de falar. Não que eu fizesse drama e apenas fingisse ser a vítima da situação, mas do que adianta eu agora dizer q era vítima mesmo? Quem aqui vai acreditar? Ninguém! 
Mas ficar calado dói. O que quero sim é rasgar as máscaras e aparecer nú, em pêlo, para todos. Quero chorar e ver minhas lágrimas molhando meu rosto e minha barba. E foda-se se você e qualquer outro acham agora que eu só quero aparecer, garantir atenção, bancar o coitadinho, foda-se! Desculpem, mas mesmo sabendo que muitos sofrem mais do que eu, e eu sei, não sou nenhum parcóvio!, como Caetanto já disse uma vez: "cada um sabe a dor e a delícia de ser quem é". Infelizmente nenhum de vocês consegue entender porque me dói tanto estar sozinho. Infelizmente meu canto não tem eco e, no fim, mesmo gritando à multidão eu continuo sozinho. 
E como me dói estar sozinho... e como me dói a certeza de que isso não vai mudar... mas isso vocês não querem ouvir, porque é só o Foxx reclamando da vida, fazendo drama e bancando a vítima. "Vai se tratar, Foxx". Eu sei. Eu sei.

quarta-feira, 10 de março de 2010

PASSADO: Diálogos Inesquecíveis III

, em Natal - RN, Brasil
Estava sentado na sala de tv de minha casa em Natal, vendo qualquer coisa que passava entre os canais da tv aberta, numa tarde, em um fim de semana, quando meu irmão mais velho, deitado no chão, sem fixar os olhos em mim, regugita palavras que ele ruminava.
- Você devia tirar esse piercing!
- Ahnnn?
Viro para ele sem muito entender do rompante. "De onde surgia aquilo?" era o que eu secretamente me perguntava. Meu piercing na orelha causara reboliço, eu sei. Meu pai lançara um: "Você pode até ser, mas precisa dizer p'ra todo mundo?", que me deixou com vontade de revelar-lhe bem mais. Mas era uma coisa muito boba para causar tanta mudança na minha vida.


- É! Painho não gosta, você devia tirar...
- Eu devia tirar?! Quando você foi p'ra Bahia e voltou com um aplique, o que eu disse?
- Ahnnn?
- Painho também não gostou, mas eu falei com ele que era besteira, que você não tinha virado viado por causa disso.
Meu irmão agora parecia visivelmente sem jeito.
- E o que isso tem a ver?
- E quando você fez sua primeira tatuagem? O que foi que ele disse? E quando você começou a fazer capoeira, o que foi que ele disse hein?
Agora ele silenciara. Fitava a tv sem saber que resposta poderia dar, poderia falar, poderia emitir.
- Tem uma pequena diferença entre eu e você: eu fico contra painho a seu favor, você não tem essa mesma coragem. Nunca teve, e nunca terá!
- Nada a ver, nada a ver, Foxx.
E um silêncio se instalou novamente na sala, somente a tv emitia algum som, vez ou outra interrompido por algum barulho que conseguia chegar da rua, de carros, de crianças brincando, ou somente o vento farfalhando.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

PASSADO: Martins

, em Martins, RN, Brasil

Eu estava na faculdade ainda. Tinhamos aula de museologia e arqueologia, e, com isso, estavámos já acostumados a visitar cidades do interior do Estado para visitar museus, arquivos e, sobretudo, sítios arqueológicos. Foi assim que conheci boa parte das cidades do interior do Rio Grande do Norte. E uma delas foi Martins. A visita foi a um sítio arqueológico: a Casa de Pedra. Esta localiza-se num pequeno vale, dentro de uma fazenda, sendo a cristalização mais antiga, no Brasil, de um afloramento marítimo de calcário, isto é, o afloramento de uma rocha que antes estava submersa quando no período Pré-Cambriano (cerca de 4,5 bilhões de anos atrás), o sertão brasileiro era um pequeno oceano. Consiste de uma caverna de 100m de comprimento, divida em recintos menores, cuja maior sala tem 216 m² e o teto está a 10 metros. Com paredes em mármore, é a segunda maior caverna do país. Esta caverna foi habitada por índios e pelas populações de caçadores-coletores, pré-históricas, anteriores a estes datando de 9,5 mil anos.


Martins, no entanto, uma cidade fundada, ainda no século XVIII, no topo de uma serra, a Serra da Conceição, chamada um dia pela alcunha de Cidade da Imperatriz, localizada mil metros acima do nível do mar, tem seu clima distinto do que se esperaria do sertão nordestino: faz frio. Um frio gostoso, acolhedor, daquele que você pode curtir com um casaco leve, um bom vinho e uma boa companhia. Apaixonei-me pela cidade, pela linda vista de pedras expostas, dos afloramentos de mármore branco e rosa, do céu repleto de estrelas que víamos do mirante, do bom vinho.


E foi exatamente no mirante, com as estrelas por testemunha, que virei para servir-me uma taça de vinho, e vi que eu era o único sozinho. Todos ali estavam acompanhados. Namorados, noivos, maridos, esposas. Meus olhos marejaram rápido e prometi a mim mesmo que um dia voltaria a Martins, acompanhado, e que teria alguém para colocar o braço em torno do meu corpo, e me abraçar naquele frio gostoso. Mas também prometi que só voltaria ali se estivesse acompanhado. Nunca retornei. Ainda lembro do frio que senti no topo daquela serra, olhando para o horizonte numa noite estrelada. Lembro de ter sonhado de olhos abertos. Lembro também que quando deitei-me abracei o travesseiro como se este pudesse me abraçar de volta e dormi encolhido. Esperando um dia diferente. Mas eu nunca retornei.


Estou indo a São Paulo, chego esta quinta feira pela manhã. Alguém quiser me ver, deixa contato.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

PRESENTE: Solteiro, Sozinho ou Solitário?

É! Sempre falam que é melhor estar sozinho do que mal acompanhado, não é? Quem inventou esta frase nunca se sentiu realmente sozinho. Tem também um funk que fala solteiro sim, sozinho nunca, pois é, uma outra imagem da palavra sozinho. E tem uma terceira gradação: solitário. Vamos explicar então o que é cada um:

solteiro
adj.1. Que não casou.
Estar solteiro é um estado, um adjetivo, uma característica de sua vida naquele instante que pode alterar-se num olhar que te atravessa o coração, ou numa trombada de carros na esquina. Para muitos, estar solteiro é o grande ponto de suas vidas. Momento de festas, pegações, farras e muito sexo, descompromissado, sem sentido, com qualquer um. Porque não? Se você está solteiro, o mundo é um playground, divirta-se! E para todos é divertido! É aquilo que se quer... vamos sair, vamos comemorar nossa solteirice!

sozinho
adj.
1. Absolutamente só. 2. Único; abandonado.
Mas, aí, tem a outra coisa: estar sozinho. Também um adjetivo. Teoricamente adjetivos são estados. São características e, como tais, mutáveis. Alguém que está sozinho é alguém que não encontrou seu pares, que não encontrou alguém, que não encontrou sua cara metade, mas um dia há de encontrar. É a característica da maioria das pessoas do mundo. Mesmo as que se acham somente solteiras, a maioria, mesmo com sexo desenfreado, com vida cercada de pessoas, se encontra sozinha. Abandonada. Algumas porque não encontraram uma companhia que se encaixe em suma unicidade, porque nós somos seres únicos e, portanto, sozinhos, porém algumas vezes nossa unicidade torna-nos aptos a conhecer alguém única como nós. Ser gay tem como príncipio ser sozinho, até que encontremos alguém que também sozinhos por serem únicos, nos descubram, e aí nos tornamos completos.

completo(s)
adj.
1. A que não falta nada.
4.
Que não admite mais, cheio.

solitário
substantivo masculino2. Aquele que vive na solidão; anacoreta.
Este, no entanto, não é um adjetivo, um estado, é um substantivo, é um ser. E um ser é aquele que é. Dizem que eu confundo solteirice com solidão. Não. Não confundo. Eu sei perfeitamente a diferença de um para o outro. Ser solteiro é estar momentaneamente sem alguém. Ser solitário é saber que você nunca estará com alguém. É ter uma certeza intrísseca. Desculpem-me, meus caros, por avisar-lhes disto, mas muitos de nós já temos esta certeza. Seremos sempre solitários. E não quer dizer que estaremos sozinhos e abandonados, mas que apesar das companhias, do sexo, dos beijos em boates por aí, dos amigos que façamos pelo mundo, continuaremos em solidão. E não é porque somos tão especiais que um Deus onipresente reserva-nos algo. É porque, e essa é uma verdade inexorável a aceitar, é porque alguns de nós só teremos um copo de uísque e alguns cigarros para acalentar nossas noites. Todavia, seremos felizes, porque, realmente, a felicidade não está em outros, ou melhor dizendo, fora de nós, ela existe quando desistimos de procurar aquilo que não nos convém.

felicidade
substantivo feminino1. Concurso de circunstâncias que causam ventura.
2.
Estado da pessoa feliz. 3. Sorte. 4. Ventura, dita. 5. Bom êxito.a felicidade eterna: a bem-aventurança.



Sabe de uma coisa, eu sou solitário sim, completamente sozinho. Mas também sou gostoso, é por isso que as fotos ilustram este post, a gente então tem duas opções: ficar chorando porque está sozinho ou ligar o foda-se. De vez em quando, a carência bate, e acabo chorando, admito, mas, na maior parte do tempo, eu ligo o foda-se!


foda-se
verbo transitivo e pronominal
2. Cal. Deixar ou ficar em mau estado, destruído ou prejudicado.


* Definições retiradas do Dicionário Priberam da Língua Portuguesa