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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

A Nova Bossa

, em Natal - RN, Brasil
Não conhecer história é um crime imperdoável, sabe? Imperdoável! Porque ficamos repetindo coisas como se fossem criações nossas. Acreditamos que somos especiais, que somos criativos, que somos livres, quando não somos nada mais do que repetidores de programações que herdamos. Somente tendo consciência que estamos sendo programados, que existe um discurso que se finge de natural e que pretende controlar nosso pensamento, que podemos enxergar que existem algo ali que precisa ser descartado. É olhando para o passado, que podemos ver como nossos antepassados se comportavam diferente que podemos ver que existe algo errado no nosso presente.
São inúmeros os exemplos. Ver a minha coluna sobre Homohistória mostra, por exemplo, que o comportamento sobre as relações entre pessoas do mesmo sexo mudaram consideravelmente através do tempo. Podemos falar também sobre como entendemos a infância o que causa sempre polêmicas por causa de nossa invenção mais recente, a pedofilia. Eu poderia dizer até para vocês que a própria morte tem sua história porque, apesar das pessoas morrerem, a relação com este fato se processou diferentemente dependendo da época. Mas o exemplo que eu queria falar hoje é o nosso atual comportamento em relação ao amor. Antes é bom dizer: o amor ele é um fato, ele existe entre os seres humanos desde antes de aprendermos a registrar o que pensávamos e sentíamos, contudo, a forma como nos relacionamos com este sentimento variou muito desde a pré-história, passando pelas diversas civilizações da Antiguidade, a religiosidade cristã medieval que convivia com a poligamia islâmica, a alteração gritante que a invenção do casamento como sacramento causou e da alteração deste sacramento após a Peste Negra, sem deixar de citar o que o ideal burguês, depois o Romantismo, causaram no mundo ocidental, e mesmo a invenção do Capitalismo, o Imperialismo, as Grandes Guerras, o movimento hippie e a Contra-cultura, sobretudo os punks, anarquistas e o movimento gay, a Bossa Nova. O Amor tem uma história que precisa ser conhecida.
Quer um exemplo fácil? Na época década de 1950 no Brasil o discurso era exatamente o contrário do atual sobre este sentimento tão nobre. O legal, o moderno, o libertário era sofrer por amor. As músicas, a poesia, os boêmios queriam mesmo era contar que conheceram uma pequena, se apaixonaram e sofreram muito. Mas muito mesmo! E isso foi há 60 anos, à época que os pais destes jovens eram crianças. Dá para levantar uma lista de músicas sobre paixões não correspondidas, sobre dor de cotovelo, sobre amores impossíveis, estava na moda. Vinícius, o poetinha, é sem sombra de dúvida o grande destaque deste universo, ele diz: "Quem já passou por esta vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu. Porque a vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu, ai".
Contudo quem conhece a História do Amor? Quem tem menos de 30 anos hoje e lê sobre História sem ser porque vai cair no vestibular? O que eu vejo são jovens gays alienados que repetem (e eu acredito que dizem isso somente porque este é o discurso que está na moda, isto é, para parecerem descolados) que não querem amar, que o amor traz sofrimento, que é muito melhor estar sozinho do que se envolver num relacionamento. Este discurso que (acho) tem origem nesta cultura hipster irritante que vê como ruim qualquer coisa que seja comum a todos e o mainstream é querer ter alguém para esquentar seus pés numa noite fria. 
Eles, estes jovens gays que mal saíram dos cueiros, repetem que sofreram demais em seus primeiros namoros (quando você pergunta detalhadamente é sempre um único namoro anterior ou inúmeros namoricos que não duraram 3 meses) e que agora não querem mais nenhum relacionamento. Interessante é que este discurso nunca é dito por alguém com mais de 30 anos (com poucas exceções na verdade). E também que todos repetem o mesmo exato texto (o que por si só já era para desconfiar não é?). Contudo, no fim, ao conhecer alguém que desperte o mínimo de tesão (porque eles não têm a maturidade para reconhecer a diferença entre tesão, paixão e amor, até porque não experimentaram todos eles) já acreditam que estão eternamente apaixonados,  planejando seu casamento ao som de músicas da Lana Del Rey, só para descobrir que era fogo de palha e sofrer horrores. Afinal de contas, imaturos e desinformados sobre o mundo, a vida, a história e a sociedade em que vivem eles não tem a percepção de que somente repetem um discurso que venderam para eles como moderno, libertário, legal.
Dois discursos para ser exato. Dois discursos que não se encaixam de jeito nenhum. Primeiro, o do amor eterno. Esse vendido por novelas e desenhos de princesas Disney que faz todos acreditarem que o amor é fácil e simples de acontecer, que você vai encontrar o príncipe em uma festa, haverá um único beijo e todos serão felizes para sempre. Nunca haverá nenhuma briga, nenhuma rusga, que o amor para ser verdadeiro tem que ser com alguém perfeito. Este discurso romântico barato alimenta o desejo que é negado constantemente pela nova moda: eu sou autossuficiente. Todos criados dentro de uma geração cujos egos estão a explodir dado como se posicionam como centros do mundo, estes jovens gays, que olham para um mundo que deveria admirá-los como divas e saciar seus desejos como deuses, querem que o amor chegue para eles sem esforço, mas se ele exige um pouco de dedicação, seus egos os fazem pular fora e responder com "ah, eu não queria mesmo"! A ironia hipster, no fundo, é perfeita para fingir que eles não desejavam nada. O ego vence no final das contas.
Mas é a desinformação, no fundo, o grande pecado, claro. Também o fato de que eles acreditam, e isso é culpa da idade mesmo, de que eles já sabem tudo o que é preciso saber. E o mal do conhecimento é que você não sabe o quanto precisa dele até possuí-lo. Até lá, o mundo pequeno em que alguém desinformado vive, as vendas que cobrem seus olhos, não permitem nem que ele sinta falta da informação que não sabe ainda que precisa. Então, esses homens gays imaturos (a maioria bem jovem, mas a verdade é que muitos trintões e quarentões também estão no mesmo barco) precisa aprender sobre o passado para reconhecer as armadilhas que o presente constrói para nós. São muitas, muitas mesmo! Esse conselho serve também para a eleição que vem aí.

(acho que eu já estou velho falando dos "jovens gays" como se fossem um grupo distinto de mim, entrei de vez na casa dos trinta agora, né?)



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Eu Sou Theodore

, em Natal - RN, Brasil


O Gato me avisou para assistir Ela (Her, Toronto, 2013) com cuidado. Ligou-me após o filme, apesar dizer que detesta spoiler, dizendo que tinha pensado em mim durante toda a fita. O enredo gira em torno de um homem solitário (Joaquin Phoenix), recém-separado, com poucos amigos e dedicado ao seu trabalho como escritor. Theodore, seu nome, vive em um futuro hipster, em que pessoas se vestem como na década de 1950 e ditam cartas para que seus computadores as imprimam como se escritas à mão fossem. Neste futuro, um sistema operacional chamado no filme de "nova consciência" é vendido e, após instalado e personalizado através de quatro perguntas, Theodore é apresentado a ela, Samantha (Scarlet Johansson). Mas Samantha é apenas uma voz, no computador. Tudo bem que ela compõe músicas para ukelêle e discute filosofia (eu avisei que era um futuro hipster), mas é com esta criatura imaterial que Theodore se relaciona, se torna amigo e, por fim, se apaixona.
Todos os amigos de Theodore apoiam o relacionamento dele com o sistema operacional. Inclusive, explica-se que aquilo tem sido comum, pessoas têm relacionamentos de amizade e amorosos com os programas. Uma cena, na minha opinião, é esclarecedora. Theodore encontra sua ex-esposa para assinar o divórcio (eles já estão separados desde o início do filme, ela aparece somente em flashbacks) e ela pergunta se ele está saindo com alguém. Ele conta sobre Samantha e que ela é um programa de computador. O diálogo que se segue é a chave para decodificar todo o filme.
As afirmações da ex-esposa sobre a incapacidade dele de lidar com a depressão dela, das exigências dele para que ela se mantivesse drogada, do afastamento dele diante da recusa dela de resolver seus problemas através do uso de medicamentos, sua percepção que Theodore não possui o amadurecimento para lidar com emoções reais, na verdade, são uma crítica de Spike Jonze, diretor e roteirista do filme, a toda geração Y e seus relacionamentos virtuais. Namoros e amizades construídas somente mediante uma rede wifi. Amigos que são incapazes de participar da vida uns dos outros quando um problema real aparece; namoros higienizados por uma total e completa ausência de contato físico entre os ditos parceiros; relacionamentos que, de fato, podem ser desligados assim que se deseja.
A crítica de Jonze me acertou em cheio. Eu sou Theodore. Sem experiências com relacionamentos reais. Catando migalhas entre aplicativos e redes sociais. Sem uma vida própria e construindo ficções de relacionamentos (amigos e amores) impossíveis de se realizar fora da rede mundial de computadores. Eu tenho 32 anos e a maturidade de um garoto de 22 anos (yes, I had been tested) porque, além de estudar, o que eu fiz mais na minha vida?
Isso talvez explique minha dificuldade em construir relacionamentos. Eu, imaturo, atrairia também garotos imaturos (eu sou realmente assediado por garotos entre 16 e 23 anos, homens mais velhos não olham para mim nem por decreto presidencial ou bula papal), os quais podem não estar interessados em relacionamentos ou, quando estão, podem se decepcionar porque eu não sou o homem maduro que eles procuram quando olham para alguém de 32 anos.
Eu sou como Theodore: vazio e incapaz de oferecer qualquer coisa na troca que é um relacionamento entre duas pessoas. Eu não fiz nada, eu não construí nada, eu não consegui nada, eu não possuo nada, eu não tenho nada do quê me orgulhar. Eu só acumulei um monte de conhecimento que se eu pensar em externar sempre vai soar como arrogante. Eu, como Theodore, sou incapaz de me relacionar com sentimentos e pessoas reais porque eu não tenho a experiência necessária. Não desenvolvi em minha vida as ferramentas que são úteis para a construção de relacionamentos humanos. Não tenho inteligência emocional, mas meu Q.I. é de 120 pontos. Não tenho a mínima experiência, não tenho a menor capacidade, não possuo nenhum talento.
Não é a toa que meu único namoro foi virtual, que todos os meus amigos só existem através do Whatsapp, Jonze conseguiu descrever minha vida ou o futuro dela, porque como seu personagem central minha inaptidão torna impossível que eu possa construir qualquer relacionamento com um ser humano. Meu futuro é um S.O. também, por mais nojento que assistindo o filme tenha me parecido a experiência, mas nenhum ser humano seria capaz de desejar ficar do meu lado. E isto é um fato.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Homens de Barba

, em Natal - RN, Brazil



Para quem não sabe, eu uso barba faz muito tempo. Na verdade, eu poderia dizer que sempre usei já que sendo meus pêlos faciais daquele tipo que cresce muito rápido, eu nunca pude curtir um rosto lisinho desde minha adolescência. Tirar a barba para mim sempre significou ficar com o rosto verde pelo resto do dia e antes de adormecer, já precisar tirar a barba de novo. Foi essa exigência diária que me fez adotar a barba como parte do meu visual, que aconteceu juntamente quando eu assumi a calvície, eu pensava: "Já que não tenho cabelos na cabeça, talvez a barba compense de alguma maneira". Isso, definitivamente, não agradou de imediato. Eu sofri preconceito de gays e héteros (que ironicamente concordavam na crítica: eu não era homem o bastante para usar barba), mas, logo, veio a explodir a moda hipster, com suas camisas de flanela xadrez, óculos vintage inspirados na década de 1980 e um visual desleixado com cabelos compridos e barba por fazer. A haute couture também ajudou durante os fins da década de 2000, modelos com barbas por fazer frequentava desfiles e logo estes pêlos vistos como falta de cuidado com a aparência tornaram-se moda, in, e as mesmas pessoas que me olhavam torto, além de me concederem elogios, agora tentavam cultivar seus pêlos faciais, os mesmos que combatiam a sessões à laser ou torturantes depilações com cera ou pinça. 
Como a barba tornou-se popular, então, minhas fotos com ela também passaram a ser curtidas. É interessante observar isso também. Eu tive um Fotolog anos atrás, que também era uma rede social que se baseava em curtidas e comentários sobre as fotos, aquelas que eu tirava com barba era com certeza menos curtidas do que as que eu fazia logo após afeitar-me. Contudo, de uns tempos para cá, tanto no Facebook e depois no Instagram (que fiz minha conta não faz um ano), tornou-se comum minhas fotos serem cobertas de elogios em relação a barba. São meninos recém saídos da adolescência, borbulhando com o fetiche daddy; aproveitadores que acham que tenho cara de suggar daddy, ursos e chasers, entre outros, mas, recentemente, um grupo muito estranho tem, principalmente no Instagram, curtido meus auto-retratos, que agora são chamados de #selfies. Estes postam fotos de homens barbudos e de camisetas com frases do tipo "se seu pai não tem barba, você tem duas mães" ou "se torne homem, deixe a barba crescer". Eu me assustei por diversos motivos, mas dois são os mais graves: homofobia e racismo.
1) Homofobia. Homofobia significa, na verdade, não o preconceito contra gays, como se popularizou, o preconceito é apenas o resultado da homofobia, mas ela se caracteriza pelo ato de forçar um modelo de homem para ser seguido pelas outras pessoas. Seja este modelo de comportamento afirmar que homem não chora, que é homem é sempre mais forte, que homem gosta de futebol e que homem só se sente atraído sexualmente por mulheres. No caso que analisamos aqui, então, quando se levanta a bandeira de que homem de verdade é um homem com barba se constrói mais um modelo de homem para ser seguido e novos preconceitos homofóbicos são construídos e disseminados como se este mundo já não tivesse o bastante. Eventos como o #BarbaDay no Twitter, inúmeros Tumblrs dedicados a homens com barbas, postagens no Facebook afirmando que a existência ou não de pêlos no rosto de alguém torna este ser humano especial. Tudo isso uma bobagem sem tamanho e, o mais perigoso, uma bobagem homofóbica.
Qualquer um pode considerar que levar essas "piadinhas" sobre a barba a sério é que é a verdadeira bobagem, mas um garoto de 8 anos de idade, em São Paulo, foi espancado pelo pai até a morte porque não queria cortar o cabelo curto "como um homem de verdade" (veja a notícia aqui), o cabelo curto foi definido como o cabelo masculino exatamente como hoje se define que a barba é o suprassumo da masculinidade humana: a moda assim decidiu e nós admitimos como uma verdade universal, a história, todavia, está ai para provar que décadas atrás o bigode era o grande exemplo de masculinidade, depois a depilação total e a jovialidade e ambiguidade sexual decorrentes entraram na moda, agora é a vez da barba, mas estes processos cíclicos que sempre começam dentro do mundo gay não passam de modismos que mudam ao sabor dos ventos da próxima temporada. 
2) Racismo. Além deste problema homofóbico que a elevação da barba do status de fetiche para símbolo da masculinidade do macho humano, como a juba de um leão ou a cauda de um pavão, existe o detalhe racista que passa desapercebido. Existe uma gradação entre os amantes de barba que vai daquelas barbas mais fechadas, ditas completas e sem falhas (prestem atenção nos adjetivos que levam para o sentido de perfeição) para as mais ralas (barbas falhadas) e os imberbes. Entre estes pogonófilos, aqueles sem falhas são superiores e, não por acaso, são os homens brancos aqueles que, normalmente, apresentam estes tipo de pêlos no rosto. Negros, ameríndios, orientais, hindus, mongóis (talvez a única exceção sejam os árabes) não possuem a barba perfeita. Eu não acredito em coincidências (desconfiar é um excelente exercício intelectual, vocês deveriam tentar!), por isso eu desafio qualquer um a procurar nestes grupos e comparar a quantidade de fotos compartilhadas de homens brancos versos aqueles de outras etnias, inclusive os árabes. 
Observação: Eu sei que, agora, todos vão lembrar que conhecem alguém que é negro ou de ascendência japonesa, por exemplo, aqui no Brasil, que tem uma barba fechada. Lembrem que no Brasil nós temos uma miscigenação imensa, poucos brasileiros não são mestiços, e isso transfere para um indivíduo características genéticas dos diversos grupos étnicos ao mesmo tempo. Porém, os grupos que divulgam fotos do tipo "Faça amor, não faça a barba" não utilizam fotos de modelos brasileiros, não é? 
Conclusões. Para mim, no fim das contas, elevar o homem barbado ao lugar de destaque da masculinidade humana é, além de forçar violentamente mais uma imagem aleatória de homem como um modelo a seguir, cristalizar no imaginário coletivo a figura do homem branco como o ápice da sociedade humana (já que o homem seria melhor que a mulher e o homem branco melhor do que todos os outros homens) e, sinceramente, não precisamos de mais disso. Já tivemos um nazismo uma vez, e ao contrário da barba, ele está definitivamente fora de moda.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Politicagem Hipster

, em Natal - RN, Brazil
É impressão minha ou a esquerda virou mainstream? Desde a eleição de Lula e o aparecimento do fenômeno hipster na cultura pop, o cúmulo do niilismo sobre o niilismo, temos visto a ascensão de um novo tipo de intelectual de classe média, meio fotógrafo, sempre publicitário (mesmo que nunca tenha pisado em uma faculdade, mas ostenta o título nas mídias sociais acompanhado com um adjetivo irônico), o Comentador de Direita. Comentador, apenas, porque é nos seus comentários nas Mídias Sociais (Facebook, Twitter, LinkedIn, blogs); e nunca, mas nunca mesmo, na produção de ensaios e discussões mais aprofundadas e maiores do que uma única lauda; que ele manifesta suas opiniões sobre o mundo, a sociedade, a política, isto é, o mundo real. O Comentador de Direita surge em detrimento do Sindicalista de DCE e os Socialistas de Beira de Piscina que estão cada vez mais fora de moda.
É interessante ver como, todavia, estes grupos têm coisas em comum. Ambos são formados por jovens estudantes ingressando no mundo acadêmico e descobrindo seu poder transformador no mundo ou, pelo menos, alguém que passou por esta fase e continuou lá. Contudo, os de esquerda, nossos intelectuais old fashion, tão populares nos anos anteriores a eleição de Luís Inácio Lula da Silva como presidente, foram formados em um ambiente intelectual de repressão política e sérias restrições econômicas. Oriundos de um Brasil extremamente pobre, a transformação/salvação brilhava nas páginas do Manifesto Comunista como um farol, as promessas utópicas de Karl Marx, reforçadas pela excelente análise sobre o modo de produção capitalista, eram o escape ideal para imaginar que este país poderia sim ser o país do futuro. Além disso, a vaidade intelectual também cobria muitos. Em um universo intelectual em que ser inteligente era dominar as ciências humanas, que Psicologia, História, Antropologia e Ciência Política eram as disciplinas da elite pensante do país, era nos centros estudantis destas faculdades que tudo acontecia.
Mas aí chegamos ao novo milênio, elegemos Lula em 2002, a internet se espalhou por todo este país varonil, em 2006 o Twitter dá o ar de sua graça, Steve Jobs lançou o iPhone em 2007, e tudo mudou na senda dos intelectuais brasileiros. De repente, não mais do que de repente, aquele nerd (ser associal que somente sabia sobre computadores, sci-fi e e língua élfica) tornou-se o novo modelo de intelectual. Repetiu-se: smart is the new sexy. Mas é um novo modelo de inteligência. Diz-se mais inteligente que o antigo, mas que abandona todo o conhecimento filosófico e histórico construído pela tradição ocidental em nome do novo, da descoberta, da invenção. Este novo intelectual de conhecimento meramente técnico programa computadores e constrói códigos e pode, do dia para noite, tornar-se um milionário ao vender uma de suas ideias que desenvolveu na garagem da sua mãe para uma gigante internacional. 
Este novo intelectual, que não é capaz de relações sociais (inclusive manifestando isso através de síndromes como Tourette, Bipolaridade, entre outras) porque é inteiramente analfabeto em métodos de avaliação do mundo que está ao redor dele dado que passou a própria adolescência e toda a sua formação acadêmica construindo um universo só para ele, torna-se o novo modelo e é imitando este novo nerd que surgem nossos personagens. Eles nasceram e cresceram em outro um ambiente, em um país cujo novo estado econômico e uma democracia nunca antes experimentada criaram uma juventude yuppie anacrônica que visava, somente, seu sucesso no futuro.
Óculos quadrados, camisetas com personagens de filmes sci-fi, quadrinhos e livros de fantasia em uma mão e um smartphone na outra, esta é a descrição destes Comentadores de Direita que só existem, como nerds, atrás de suas telas. Fora do ambiente virtual estes homens e mulheres não existe, porque incapazes de avaliar o mundo como ele realmente é, estes Comentadores precisam da segurança e do recorte que o mundo virtual garante a eles. Segurança porque, escondidos atrás de seus nicks, eles se tornam quem desejam ser, elencam personagens que se fazem sucesso entre seus amigos ou seguidores permanecem, mas se não são facilmente substituídos e transformados em outros, podem ser homens ou mulheres ou mesmo uma Sailor Moon independente do sexo de quem está entre a cadeira e o teclado. Recorte porque estes novos intelectuais de direita não aprenderam, porque nunca ouviram falar nisso, que existem, no mínimo, duas verdades para cada fato, e que uma não exclui a outra. O raciocínio binário não comporta esta percepção da realidade, mas o mundo real não é binário, não é preto ou branco, ele tem uma gama de cores, padronagens e, me desculpem, salmão não é apenas um peixe e o pufe fica melhor perto da ráfia. 
O conhecimento, e era isso que se aprendia dentro das faculdades de ciências humanas que, agora, são tão mainstream, é que o mundo é absurdamente mais complexo do que 140 caracteres podem responder, que discursos irônicos não conseguem transmitir nenhuma verdade e que críticas de verdade só podem ser feitas quando se demonstra o começo, o entremeio e um modo de resolver o problema. E eu ofereço um: parem! Simplesmente parem! Primeiro porque inteligência sem capacidade emocional de lidar com a realidade é um problema sério que precisa ser tratado e não estimulado porque faz garotos espinhentos se tornarem milionários do dia para noite, a maioria deles continua sendo homens espinhentos sem pódio de chegada ou beijo de namorada. Segundo porque inteligência sem capacidade crítica de lidar com a informação não é inteligência é treinamento especializado e até peixes dourados em aquários podem ser treinados para fazer alguns truques, aprender a programar não é nada mais do que ensinar a alguém um imenso truque, saber, no entanto, avaliar este conhecimento para reconhecer o que ele significa em um nível maior dentro da história da Humanidade é que significa alguma coisa. Neste caso, o mesmo vale para os antigos Sindicalistas e Socialistas, Karl Marx sucks! Antes de comentarem sobre o mundo, criticá-lo, é bom entendê-lo e isso somente com bastante pesquisa e bastante experiência na maior variedade possível de atividades, então, antes de ironizar qualquer coisa, acho que é bom experimentá-la de peito aberto. Vale mais a pena!