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sexta-feira, 23 de maio de 2014

Eu Sou Theodore

, em Natal - RN, Brasil


O Gato me avisou para assistir Ela (Her, Toronto, 2013) com cuidado. Ligou-me após o filme, apesar dizer que detesta spoiler, dizendo que tinha pensado em mim durante toda a fita. O enredo gira em torno de um homem solitário (Joaquin Phoenix), recém-separado, com poucos amigos e dedicado ao seu trabalho como escritor. Theodore, seu nome, vive em um futuro hipster, em que pessoas se vestem como na década de 1950 e ditam cartas para que seus computadores as imprimam como se escritas à mão fossem. Neste futuro, um sistema operacional chamado no filme de "nova consciência" é vendido e, após instalado e personalizado através de quatro perguntas, Theodore é apresentado a ela, Samantha (Scarlet Johansson). Mas Samantha é apenas uma voz, no computador. Tudo bem que ela compõe músicas para ukelêle e discute filosofia (eu avisei que era um futuro hipster), mas é com esta criatura imaterial que Theodore se relaciona, se torna amigo e, por fim, se apaixona.
Todos os amigos de Theodore apoiam o relacionamento dele com o sistema operacional. Inclusive, explica-se que aquilo tem sido comum, pessoas têm relacionamentos de amizade e amorosos com os programas. Uma cena, na minha opinião, é esclarecedora. Theodore encontra sua ex-esposa para assinar o divórcio (eles já estão separados desde o início do filme, ela aparece somente em flashbacks) e ela pergunta se ele está saindo com alguém. Ele conta sobre Samantha e que ela é um programa de computador. O diálogo que se segue é a chave para decodificar todo o filme.
As afirmações da ex-esposa sobre a incapacidade dele de lidar com a depressão dela, das exigências dele para que ela se mantivesse drogada, do afastamento dele diante da recusa dela de resolver seus problemas através do uso de medicamentos, sua percepção que Theodore não possui o amadurecimento para lidar com emoções reais, na verdade, são uma crítica de Spike Jonze, diretor e roteirista do filme, a toda geração Y e seus relacionamentos virtuais. Namoros e amizades construídas somente mediante uma rede wifi. Amigos que são incapazes de participar da vida uns dos outros quando um problema real aparece; namoros higienizados por uma total e completa ausência de contato físico entre os ditos parceiros; relacionamentos que, de fato, podem ser desligados assim que se deseja.
A crítica de Jonze me acertou em cheio. Eu sou Theodore. Sem experiências com relacionamentos reais. Catando migalhas entre aplicativos e redes sociais. Sem uma vida própria e construindo ficções de relacionamentos (amigos e amores) impossíveis de se realizar fora da rede mundial de computadores. Eu tenho 32 anos e a maturidade de um garoto de 22 anos (yes, I had been tested) porque, além de estudar, o que eu fiz mais na minha vida?
Isso talvez explique minha dificuldade em construir relacionamentos. Eu, imaturo, atrairia também garotos imaturos (eu sou realmente assediado por garotos entre 16 e 23 anos, homens mais velhos não olham para mim nem por decreto presidencial ou bula papal), os quais podem não estar interessados em relacionamentos ou, quando estão, podem se decepcionar porque eu não sou o homem maduro que eles procuram quando olham para alguém de 32 anos.
Eu sou como Theodore: vazio e incapaz de oferecer qualquer coisa na troca que é um relacionamento entre duas pessoas. Eu não fiz nada, eu não construí nada, eu não consegui nada, eu não possuo nada, eu não tenho nada do quê me orgulhar. Eu só acumulei um monte de conhecimento que se eu pensar em externar sempre vai soar como arrogante. Eu, como Theodore, sou incapaz de me relacionar com sentimentos e pessoas reais porque eu não tenho a experiência necessária. Não desenvolvi em minha vida as ferramentas que são úteis para a construção de relacionamentos humanos. Não tenho inteligência emocional, mas meu Q.I. é de 120 pontos. Não tenho a mínima experiência, não tenho a menor capacidade, não possuo nenhum talento.
Não é a toa que meu único namoro foi virtual, que todos os meus amigos só existem através do Whatsapp, Jonze conseguiu descrever minha vida ou o futuro dela, porque como seu personagem central minha inaptidão torna impossível que eu possa construir qualquer relacionamento com um ser humano. Meu futuro é um S.O. também, por mais nojento que assistindo o filme tenha me parecido a experiência, mas nenhum ser humano seria capaz de desejar ficar do meu lado. E isto é um fato.