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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Ano Bom

, em Natal - RN, Brazil

Janeiro começou com profundas transformações na minha vida. Finalmente eu me assumi, de verdade, para os meus pais. Os únicos que não tinham, ainda, ouvido da minha boca que eu sou gay. Falei, então, com todas as plavras em meio a uma discussão que, como resultado, fez com que eles me expulsassem de casa.  Falei sobre isto aqui e aqui. Então somente me restava procurar um lugar para morar, o que demorei a encontrar, somente em abril eu encontrei, mas chegamos lá.
Em fevereiro eu passei o mês entre repensar meus relacionamentos com homens, decidido que eu estava em manter-me celibatário apesar dos inúmeros conselhos para que eu não fizesse isso, demonstrei minha dúvida com um texto, este, e discutindo sobre política. Através do Twitter, a graciosa Heloísa Helena, ex-candidata a presidência, me destratou mandando-me a merda porque a acusei de ser participante de todas as agressões homofóbicas que aconteciam pelo país ao ser contra o PLC 122 que criminaliza a homofobia. Por causa disso eu dediquei um texto (este aqui) para explicar o que todo cidadão gay precisava saber antes de votar.
Já em março, decidido por causa dos conselhos das runas, do tarô, de vários amigos, eu tentei me abrir mais e conhecer pessoas, tive um Encontrinho (parte 1 e 2), tentei novamente, e obviamente ambos terminaram em nada, nem uma coceirinha boa no coração. Também foi no mês de Marte que Marco Feliciano entrou nas nossas vidas, eu assustado e chocado escrevi sobre ele aqui, e este texto foi o quarto mais lido em 2013. Eu só pensava e ainda penso o quanto este país está caminhando para uma ditadura religiosa nos moldes das teocracias muçulmanas do Oriente Médio.
Abril, no entanto, viu minha vida mudar radicalmente. Primeiro eu conheci o primeiro menino a me pedir em namoro na vida, o Mr. Creepie, foi surpreendente para mim ver alguém que demonstrava estar interessado por mim de fato. A presença dele em minha vida, de fato, modificou toda a forma como eu lidava com minha solidão o que favoreceu que outras pessoas aparecessem em minha vida também. Eu estava despreocupado e nos meses seguintes outros surgiram. Também foi em abril que eu consegui sair de casa, escapando dos problemas diários que eu enfrentava com minha família, eu pude respirar aliviado no meu próprio apartamento.
Em maio eu ainda estava falando sobre o Mr. Creepie, tentei explicar quem ele era para vocês, mas eu estava surpreendido com todas as mudanças que estavam acontecendo em minha vida, era como se Saturno tivesse deixado minha vida, finalmente. Eu recebi meu diploma de professor doutor, eu estava vivendo tranquilamente na minha casa nova, e até vários meninos estavam demonstrando interesse em mim, vários meninos inclusive mais interessantes que o Mr. Creepie, o que o fez ficar muito irritado quando descobriu que eu ficava com outras pessoas exatamente como ele também fazia. No fim do mês eu contei que terminamos tudo (aqui), não derramei nenhuma lágrima por isso.
Eu imaginei que uma nova era estava começando, foi como junho se iniciou, eu pensava que a partir dali os homens não iam simplesmente sair comigo para fazer sexo e depois nunca mais dirigir-me a palavra, eu achei que a partir dali eu teria encontros nos quais eu conheceria as pessoas melhor, elas também me conheceriam melhor, e a partir daí seria possível construir um relacionamento. Foi assim que conheci o Menino Bonito, e foi assim que nosso relacionamento se deu. E eu me apaixonei. Nos meses seguintes que continuamos a nos encontrar, rompendo todos os paradigmas anteriores, eu o conheci melhor e me apaixonei por ele; infelizmente, eu não fui correspondido, mas não vamos colocar o carro na frente dos bois. 
Até porque, enquanto eu estava me apaixonando, o Brasil estava virado de cabeça para baixo. Primeiro a Comissão de Direitos Humanos propôs rever a decisão do Conselho de Psicologia sobre a definição da Homossexualidade como doença. Eles queriam propor uma tentativa de cura dos gays. Este texto foi o mais lido no ano aqui no blog, as pessoas realmente estavam preocupadas com esta ascensão religiosa no Brasil o que se confirmou quando os brasileiros saíram as ruas para reinvindicar direitos como nunca aconteceu em nossa história, tudo por causa de uma #RevoltaDoBusão começada aqui em Natal. 
Mas o fato é que em julho eu estava apenas preocupado com meu Menino Bonito. Foram quatro de nove textos sobre ele, inclusive este aqui, "Uau!", foi um dos mais lidos no ano. Os outros textos eram sobre a minha série Homohistória (2), enquanto os três outros falavam sobre minha vida sem o Menino Bonito, um deles, Puta Velha, também ficou entre um dos mais lidos do ano.
Agosto, no entanto, mês do meu aniversário, foi um mês que passamos afastados. Ele decidira por investir no outro menino com quem ele saía além de mim, afinal não éramos exclusivos, e nos tornamos apenas amigos. Dediquei-me, neste mês então, a falar sobre filosofias e aventuras, amorosas ou não, tudo para evitar pensar sobre aquele que estava dentro do meu coração o tempo todo. Foi no fim de agosto que ele também descobriu o meu blog, e descobriu tudo o que eu falava sobre ele aqui, eu estava exposto, totalmente. 
Porém, setembro não trouxe novidades. Não neste aspecto, já em relação a minha casa. Eu me mudei no início do mês. Por causa de alguns problemas que eu estava tendo com minha roomate, eu juntei minhas coisinhas e fui morar na minha atual casa, uma casa de um quarto apenas, em uma vila, na rua dos meus pais. No entanto, em outubro, como o relacionamento dele não havia dado certo, ele voltara a frequentar a minha casa, porém agora sabia sobre meus sentimentos. Eu achei que agora poderia investir, tentar fazê-lo ver que eu poderia ser o cara a fazê-lo feliz. Não funcionou, o que não me impediu de continuar saindo com outros caras, inclusive pagando por sexo também, e de dedicar-me a mim também, graças a mudanças no trabalho (eu passei a trabalhar em regime de home office), eu pude voltar, neste mês, a academia.
Em novembro outros homens passaram pela minha cama além dele, mas ele resolveu encerrar tudo comigo. Disse que se continuássemos ficando eu nunca deixaria de gostar dele e não havia nenhuma chance dele vir a gostar de mim. Concentrei-me, então, a deixar minha casa um lugar confortável para mim, também viajei para esquecê-lo, tudo para no fim ele deixar de falar comigo. Contudo, meu amor por ele vai ficar guardado com o melhor que me aconteceu em 2013 e eu sou grato por tê-lo conhecido. Muito grato.
Dezembro encerrou o ano comigo sendo despedido, a minha fase como gestor de mídias sociais se encerrou e eu fiquei em dúvidas em relação ao que quero fazer com minha vida de agora em diante, possíbilidades se abriram, mas em qual delas apostar? Qual delas pode me trazer, financeiramente, um bom resultado? Qual delas pode me trazer felicidade? Deixei para resolver isto em janeiro. Este mês também encerrou minha série Homohistória, logo logo publicarei os textos em formato de livro. Já neste mês eu me dediquei basicamente aos corais que participo, inclusive estou bastante íntimo de alguns dos membros, talvez possamos ser bons amigos, e também a Igreja em que congrego, eu, inclusive, fui aceito para o seminário para tornar-me sacerdote. 2013 terminou muito melhor do que começou, com certeza.



Talvez este seja o último texto do Estórias do Mundo, neste caso adeus, ou talvez eu volte em 2014 cheio de novas estórias para contar, neste caso até logo. Eu não sei ainda, depende se ainda há alguma estória minha para contar. Mas feliz ano novo a todos!

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Quando Queremos Estar Errados

, em Natal - RN, Brasil


Eu estava no trabalho quando chamei o jogador de rugby para conversar no bate-papo do Facebook, ele me disse que estava precisando falar comigo por uma SMS na noite anterior. Ele havia dito a mesma coisa semanas antes e dito que tinha a ver com o Mr. Creepie, e eu me preocupei: "como assim eles se conhecem?". Eu havia contado ao jogador tudo o que havia acontecido com o Mr. Creepie, ele estava a par, mas parece que o meu ex-ficante resolveu que também queria contar a sua versão da história para o jogador. "Estamos conversando", foi a única coisa que o jogador disse, mas me tranquilizou, "Olha, eu por mim não vejo problema por você está ficando com outros caras". Porém algo estranho continuou no ar porque a partir daquele momento todos os meus convites eram imediatamente recusados. Bares, cinemas, boates, sexo, nenhum dos meus convites foram aceitos novamente. As mensagens e conversas via Whatsapp também se reduziram a quase nada, ele esfriou.
Recebi sua mensagem dizendo que ele gostaria de falar comigo quando estava em um bar com amigos, perguntei se era alguma coisa importante, mas ele garantiu que não, por isso, ao acessar o Facebook no trabalho, após uma reunião de 1:30h, chamei-o para a tal conversa. Ele falou sobre várias coisas, perguntou sobre os outros caras que eu estava vendo e me disse: "É que eu tenho conversado bastante com o Mr. Creepie", eu disse que imaginava que isso ainda estaria acontecendo e que a imagem que ele deveria estar passando de mim para ele não era nada boa. "Mas tem mais: nós estamos saindo". Eu parei por um segundo e não acreditava no que estava lendo. Perguntei para confirmar: "Você e o Mr. Creepie estão ficando?", ele confirmou e disse que tudo estava muito confuso.
"Confuso?", falei, "não, nada está confuso, meu querido. Eu agradeço de verdade cada segundo que você passou do meu lado, mas acho que não dá para continuar assim. Eu não posso ficar com alguém que está ficando com o Mr. Creepie. Torço por sua felicidade... de verdade". Ele agradeceu meus votos, mas eu precisava falar algo mais. "Eu só preciso te dizer uma coisa: você está deixando de ficar comigo para ficar com uma pessoa que só resolveu dar em cima de você para me ferir de alguma forma. Tome muito cuidado!". Ele tentou argumentar que o Mr. Creepie não estava com ele somente para me ferir, eu sinceramente espero que ele esteja certo, e eu errado.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Fim


- Alô?
- Oi, Foxx!
- Pode falar, amigo? - olhei no relógio e era quase meia-noite.
- Posso. Respondeu ele tímido, do outro lado do telefone.
- Tem certeza?
- Oxi, tenho. Que houve?
- Aconteceu uma coisa aqui...
- Omi, fale logo que já 'tô aqui agoniado...
- Lembra do Mr. Creepie, né? Ele colocou as garras de fora...
- Vixi, que foi que ele fez?
- Deixa eu te contar do início para você me dizer se ele tem alguma razão nisso...
- Humm...
- Você sabe que nós não estávamos namorando, não é?
- Sim, inclusive acho que você tava meio que enrolando o menino com essa estória de não assumir compromisso com ele...
- É exatamente este o ponto que quero chegar: eu não tinha nenhum compromisso com ele.
- Sim, de fato, vocês apenas ficavam.
- Então como eu não tinha nenhum compromisso com ele, eu me senti na liberdade de conhecer outras pessoas e teve um menino que eu estava conversando...
- Conversando?
- É, conversando!
- Conversando nada, seu malandrinho, dando mole para o menino, isso sim...
Eu ri, nesse momento, e admiti.
- Ok, era isso mesmo. Dando mole sim. E assim... esse menino me ligou uma noite, de madrugada, era por volta de 2h da madrugada. Eu estava com o Mr. Creepie e ele me perguntou quem era. Eu respondi que era um amigo, porque de fato ele era apenas um amigo, nós nunca nem chegamos a ficar, um amigo que normalmente me ligava de madrugada quando saía para beber, não era a primeira vez...
- Ok...
- Ai tem uma coisa que eu não sei se sonhei ou se aconteceu de verdade: depois dessa ligação, eu voltei a dormir, mas eu tive a nítida impressão que o Mr. Creepie levantou e olhou meu celular, mas não posso afirmar nada...
- Então, ignoremos a sua paranóia... 
- Sim, vamos nos ater aos fatos: quando acordamos o Mr. Creepie me perguntou se havia alguma outra pessoa em quem eu estava interessado, e se eu estava sem tesão nele porque já fazia algumas semanas que nós não fazíamos mais sexo (ele havia calculado pelo menos 20 dias). Eu, sinceramente, achei que não devia contar nada sobre o outro menino com quem eu conversava, não tínhamos nenhum compromisso, não havia porque ficar falando coisas que provavelmente só o deixariam magoado, até porque o outro menino também não era nada sério, pois nem nos tínhamos visto pessoalmente ainda...
- Entendi...
- Só sei que fomos conversando no ônibus que me levaria ao trabalho e ele para poder pegar um outro ônibus para a casa dele (ele teria que pegar dois ônibus de qualquer jeito), e até chegamos a conclusão ali que o grande problema do nosso relacionamento era que ele me exigia coisas que eu não estava pronto para dar, e eu exigia coisas que ele não estava pronto para ceder... que era necessário termos paciência um com o outro.
- Ok, mas em que momento ele mostrou as garras.
- Eu estava no trabalho quando recebi uma mensagem do menino com quem eu falava no telefone me perguntando quem era o Mr. Creepie, que ele havia entrado em contato com ele pelo Facebook. Eu soube logo o que estava acontecendo, que ele estava investigando quem era o menino que me ligava de madrugada. Eu achei que por mais que eu tivesse dado chances para ele, esses comportamentos compulsivos sempre retornariam, e eu ia brigar, e ele pedir desculpas, e nós nunca nos moveríamos para frente porque ele estava sempre cometendo os mesmos erros que me incomodavam e prometendo mudar...
- Ai, amigo, você sabe que ninguém muda, né?
- Mas eu tinha que tentar, não tinha? 
- Tinha...
- Pois, ele fez mais do que só investigar. Como ele investigou, eu liguei para ele dizendo que isso era a gota d'água, que tínhamos tido uma conversa séria sobre isso horas antes e ele estava fazendo novamente as mesmas coisas... terminei então o que nem havíamos começado, ele falou que não era assim, e começou a pedir desculpas, que precisávamos falar pessoalmente, eu disse que não, não precisávamos. 
- Eita...
- Ele então, por telefone, concordou que era melhor ficarmos separados, por fim, terminou inclusive dizendo que eu era uma pessoa especial e que queria manter minha amizade e, que, quem sabe, quando eu me tornasse alguém mais maduro, nós poderíamos tentar de novo.
- Maduro?
- É, e eu concordei com ele, porque nesse quesito "relacionamento", eu sou mesmo imaturo. Mas quem disse que ele ia manter a palavra? Só sei que a próxima notícia dele foi ele me enviando uma mensagem, no Facebook, dizendo "adeus, Foxx", e me bloqueando na rede social. Soube depois que nas mídias dele, Twitter, Ask.Fm, ele começou uma saraivada de indiretas e diretas a mim, dizendo que a vingança era boa e que a raposa agora não passava de uma estola.
Ouvi risos do outro lado do telefone nesse momento.
- E o que ele fez, amigo?
- Bem, ele entrou em contato com o menino que eu estava falando no telefone e mentiu. Falou que éramos namorados, que na hora que ele ligou nós estávamos fazendo sexo, que eu estava enganando ele e o menino. O menino me ligou puto! Acreditou, obviamente, em todas as palavras dele e não gostou nada do que eu teria feito. E quem gostaria não é? Afinal, de repente, ele havia se tornado meu amante. 
- Foi só isso que ele fez?
- Só isso? Você acha pouco?
Risos foram ouvidos antes a resposta.
- Claro que acho, por toda a sua história com esse menino, podia ter terminado bem pior. Mas, de fato, que bom que terminou e esse foi o maior mal que ele te causou: o fim de uma paquera. E você aproveitou não é? Você viveu essa estória como queria. Saiu de uma situação sem experiência nenhuma com essa espécie de psycho e aprendeu sua lição, inclusive, agora podendo reconhecer o que havia de psycho nos seus próprios comportamentos anteriormente. Você aprendeu, viveu isso, pena que não durou mais porque eu realmente estava torcendo por você, porque qualquer que te conhece sabe o quanto você desejava que isso desse certo...
- Sim, desejava...
- Pois é, agora só resta ir em frente, e torcer que o próximo que apareça seja um pouco melhor...

terça-feira, 7 de maio de 2013

Quem É Ele?

, em Natal - RN, Brasil



Ele é alto, bem magro, acho que ele gostaria de ser comparado às modelos que estampam a capa da Vogue, mas as modelos femininas, não os masculinos. Toda foto dele me parece uma propaganda do Brazil's Next Top Model, ele sempre posa, e não anda, desfila, caminha à galope. Ele é efeminado e, apesar do que muitos pensam, eu não considero isso um defeito, é uma característica dele, que somado a magreza e o universo de moda que ele convive o torna ainda mais parecido com um personagem saído de alguma página cheia de glamour de um catálogo da Victoria's Secret.
Ele estuda design. E é dessa geração que saiu do armário aos 14 anos, por isso usar peças femininas no guarda-roupa é normal, pois desafiar conceitos de sexualidade é o tipo de coisa que ele mais fez na sua adolescência recém abandonada, mas também é uma expressão artística que o universo da moda permite e estimula. Filho de uma família tradicional e rica, educado a manter os cotovelos longe da mesa e usar o garfo de peixe e a taça para água, comendo croissants trazidos diretamente da França no café da manhã sob uma toalha de linho grego, não conviveu com homofobia dentro da própria casa porque sua família estava habituada a frequentar a elite intelectual paulistana, convivendo com inúmeros artistas gays. Seu sobrenome figura em livros de heráldica, com brasão e árvore genealógica.
Seus olhos de índio são o que ele tem de mais bonito, sua mania de controle, de acreditar que pode dar sermão em seus amigos, o mais irritante. Ele é bem carente, e existe um sério problema de auto-estima e auto-imagem que eu ainda não enxerguei de onde surgiram. Ele não se vê bem do outro lado do espelho e, sinceramente, não aceita bem nenhuma crítica, toma-as como ofensas pessoais rapidamente. Teimoso, não enxerga que críticas são degraus para nos tornarmos melhores, para ele são apenas pedras que criam ondulações na superfície do lago tranquilo que é a vida dele.
Ele me pediu em namoro no primeiro encontro e eu respondi que precisávamos nos conhecer mais; de lá para cá, ele repetiu inúmeras vezes o pedido aguardando ansiosamente que eu aceite, e apesar de eu pedir que ele espere mais, ele já se considera meu namorado e faz exigências como tal. Ele exige me ver, notícias e telefonemas com uma autoridade que somente um namorado poderia ter, não ficantes como ainda somos. Essa postura me assusta e me afasta, fico a me perguntar se ele não vai ficar ainda mais intenso quando começarmos a namorar. Estou com dois pés atrás. Inclusive, eu já pensei três vezes em pedi-lo em namoro, em duas, no dia que eu decidira encontra-lo para fazer o pedido formal, ele explodiu em crises de ciúme indevidas, me mostrando sua pior faceta. Na terceira, ele pediu flores para acompanhar o pedido, e eu dei três vasinhos com ervas aromáticas, e não fiz o pedido. Não fiz por medo! Mr. Creepie acha que eu estou esperando o pior, e é verdade, não estou acostumado com o melhor, nem quando me servem numa bandeja de prata.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Gelo Fino

, em Natal - RN, Brasil



Não, eu sei que todos se irritarão com este comentário, mas não estou feliz. Estou bem melhor, sem dúvida. Mas feliz ainda não dá para dizer porque parece ainda que caminho sobre gelo fino. As coisas têm melhorado. Conhecer o Mr. Creepie tem sido interessante, é realmente surpreendente ver alguém tão dedicado a demonstrar interesse por mim, é estranho todo o excesso dele, principalmente porque todo mundo sempre me ensinou que isso é interesse demais para alguém que me conhece tão pouco, mas não vou negar que me faz um bem danado ver que alguém nutre algum sentimento por mim. Eu estava há tanto tempo acostumado a ser considerado ou o passatempo para sexo ou o amigo assexuado que é refrescante, a palavra é bem essa mesmo, é refrescante esta situação nova. É como um sopro de ar novo na minha vida sentimental toda, e não por acaso, ao mesmo tempo que isso tem acontecido, outras pessoas também começaram a aparecer, principalmente através do Facebook em que nunca na estória deste país fui tão cutucado por pessoas completamente estranhas e, na maioria dos casos, bem interessantes. Outro dia um menino até me parou na rua e não foi para me convidar para fazer sexo em uma rua escura. É chocante ver tudo isso acontecer. Alguma coisa mudou.
Ao mesmo tempo, também, consegui sair de casa. Ainda não fiz minha mudança completa, mas o apartamento já está alugado. Estarei dividindo o apartamento com uma amiga do templo que frequento. Já levei para o apartamento metade das minhas coisas (principalmente livros), falta as outras que estou levando aos poucos, além de que estou comprando coisas para minha casa, escolhendo bobagens como copos e panelas e poder fazer isso me dá uma sensação ótima. Estou pesquisando, por exemplo, caixas plásticas para guardar minhas revistas em quadrinhos (quero aquelas de frutas, vazadas, sabem?), e o procurar isso para a minha casa é extremamente prazeiroso. São essas pequenas coisas que sempre me fizeram falta. Quando eu falava aqui que eu me sentia infeliz é porque eu não tinha essas coisas: eu não tinha um convite para almoçar com alguém durante a semana, eu não passava diante de lojas e comprava uma conha para sorvete vermelha porque combina com minha cozinha. Repito, as coisas têm melhorado. Estou bem melhor, sem dúvida. Mas não estou feliz, eu prefiro esperar para anunciar a minha felicidade quando ela estiver mais sedimentada, quando ela não possa ainda se desfazer como pó de um dia para o outro, porque ainda parece que caminho sobre gelo fino. Em resumo, eu tenho ainda medo que essas conquistas sejam apenas uma ilusão e que derretam na minha mão como gelo sob o calor escaldante de Natal.


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Macaé

Eu estava saindo do trabalho no final da tarde, já havia virado a esquina da rua em que fica o prédio de escritórios onde fica a agência de comunicação no qual sou gerente, gestor de mídias e designer, quando o meu telefone começou a tocar Mika cantando em francês. Olhei o visor e ele mostrava a foto do Facebook do Gato de Cheshire, atendi.
- Oi, meu querido.
- Oi, Foxx, tudo bom? Liguei para saber como foi o encontro, já faz uma semana não?
Eu havia comentado com o Gato e com o Cara Comum pelo Skype, pedindo conselhos sobre como me comportar em um encontro, já que os últimos que eu havia relatado aqui, o Gato havia me criticado por causa das coisas que eu havia falado e dito. Ele me fez uma lista, de coisas a não fazer e de coisas para não dizer neste encontro em que eu ia conhecer pessoalmente um menino que havia me mandando mensagem através do site de relacionamento Ursos.com.br, que congrega os ursos e seus admiradores (chamados por lá de caçadores), ele era um dos caçadores, e havíamos conversado através do Skype e marcado para o dia seguinte um encontro.
- Bem, o encontro foi na casa dele, como eu te disse, cheguei lá por volta das 19:30h e tomamos vinho, conversando sobre coisas banais.
- E só?, perguntou o Gato, afoito por mais detalhes.
- Não, na verdade tem uns detalhes bem interessantes. Ele fez tudo o que você disse para eu não fazer.
O Gato riu do outro lado do telefone e me pediu maiores esclarecimentos.
- Bem, amigo, no primeiro encontro falávamos sobre dificuldades em encontrar relacionamentos, eu fazia exatamente como você me disse para fazer: "quando falar de relacionamentos, falar num sentido geral, sem parecer que está se referindo a pessoa", ele então respondeu que com ele com certeza as coisas seriam diferentes, e pegou um anel que estava sobre a mesa onde ficava o computador dele e colocou no meu dedo.
- Como é que é?, assustou-se o Gato.
- Isso mesmo. Mas eu entendi que foi apenas um gesto galante, de quem quer conquistar...
- Em resumo, você não saiu correndo.
- Claro que não, seria, no mínimo, hipócrita da minha parte se, depois de tudo que defendo, eu fugisse de alguém que finalmente demonstra algum interesse por mim.
- Sim, você tem razão. Mas depois deste encontro: houve outros?
- Sim, houve um segundo. Desta vez eu voltei a casa dele. Jantamos e ficamos juntos por lá. Eu acabei dormindo com ele. E, depois disso, ele mandou uma mensagem dizendo que meu cheiro estava na cama, entre os lençóis, e que ficaria rapidamente mal acostumado com minha presença na vida dele.
- Isso por mensagem no celular?
- Exato! Quando cheguei no trabalho, que fui direto da casa dele, chegou a mensagem.
- Ok! - comentou o Gato com um tom de cautela - e teve mais alguma coisa? Vocês se encontraram de novo depois?
- Bem, ele está fazendo o curso de astrologia em que estou dando aula...
- Curso?
- É, eu estou ministrando um curso de astrologia cármica. E ele está fazendo o curso.
- Ele soube do curso por você? Perguntou o Gato.
- Sim, soube por mim. 
- E este curso só tem você como ministrante? Inquiriu o Gato.
- Sim, somente eu.
- Ok. O Gato respondera num tom de bastante preocupação, e concluiu com uma pergunta: - Ele faz o quê da vida?
- Ele estuda design. Trabalha com design de moda. 
- Então ele não trabalha com nada que envolva astrologia... concluiu o Gato.
- Não, com moda.
- Ok. Continue, por favor. Pediu o Gato.
- Aí, ontem, ele me mandou uma mensagem no celular, e depois outra no Facebook, a primeira dizia que ele havia descoberto meu blog e estava lendo, e agora ele entendia a minha hesitação em nosso relacionamento. Depois no Facebook mandou uma mensagem em que, trocando em miúdos, dizia: "Se você permitir que eu te faça feliz, mudarei toda sua estória". 
O Gato ficou em silêncio por alguns instantes digerindo as informações. Até que uma pergunta seca emergiu do telefone:
- Como ele descobriu o seu blog?
- Ele não quis me contar. Disse que era melhor que o FBI quando quer descobrir algo. 
O Gato riu nervoso.
- Amigo, eu... é raro algo me deixar com medo, mas... eu 'tô com medo.
- Is it creep, isn't? Mas ao mesmo tempo é alguém que realmente demonstra algum interesse por mim, coisa que é completamente rara de acontecer...
- Amigo, - o Gato me interrompeu - não! Você não pode aceitar isso apenas porque... - ele então parou por um segundo, dava para ver que ele estava pensando naquele exato momento em como continuar a frase -... pensando bem, no seu caso, realmente, você não pode esnobar não. Sua vida é cagada demais para você se dar a esse luxo. Agora, conhece a música Macaé da Clarice Falcão?