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terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Hatti: Os Deuses Protetores

, em Natal - RN, Brasil
Poucas referências religiosas foram legadas para nós pela civilização hitita, os poucos textos que nos chegaram foram tábuas de treinamento de escribas que restaram após a destruição da civilização, recuperadas na capital, Hattusa. Textos sobretudo muito tardios em relação a quando estes foram compostos. São em sua maioria parte da administração do templo como a organização do culto ou relatórios sobre os trabalhos dos adivinhos. O acesso a religião hitita se dá, portanto, através das referências feitas a partir de esculturas feitas em pedra, no qual os deuses aparecem normalmente montados nas costas dos seus animais símbolos. É interessante também registrar que era comum na mitologia hitita o aparecimento de animais como pégasos (cavalos alados), grifos (leões com asas) e quimeras (cabras com peles de serpente), etc.
Sua mitologia era claramente influenciada pelos mitos mesopotâmicos, demonstrando as relações entre estas duas civilizações, porém ela manteve suas características próprias. A cidade de Arina era o maior centro religioso, onde havia um grande templo ao deus solar, Utu ou Istanu, e o deus das tempestades, Tarhun, os grandes protetores do imperador. No entanto, Gary Beckman afirma que era comum encontrar além destes deuses nacionais, versões próprias de cada um dos habitantes, ou versões de grandes centros religiosos como Nerik.
Porém entre a maior parte da população o panteão hitita se configura com Tarhun, o deus da tempestade e do trovão, que é casado com a deusa-mãe, Hannahannah, senhora dos animais. Eles tiveram dois filhos: um homem, Telepinu, deus da agricultura e fertilidade, e Inara, deusa da primavera. O mito de Telepinu inclusive é extremamente parecido com o mito de Adonis. Ele desapareceu da face da Terra e todo o mundo secou e murchou, sua mãe, desesperada, enviou animais por todo o mundo procurando pelo filho, até que uma pequena abelha encontrou o deus. Ele havia sido sequestrado pelo deus do mar e do mundo dos mortos, Aruna, que exigiu que para que ele fosse libertado o jovem deus deveria casar com sua filha, Hatepuna. Aruna era filho da deusa da cura e da magia, Kamrusepa, que é quem define a forma como o sequestro deve ser resolvido, e irmão da deusa dos juramentos e do amor, Ishara, a deusa da constelação de escorpião, cujas estrelas são seus sete filhos, os Sebitti. Também podemos citar como deuses importantes Arma ou Kaskuh, a deusa da lua, ou a deusa dos  pastores, Habantali, ou a deusa dos reis, Hanwasuit; além, é claro de Alalus, o grande deus criador que criou o universo e é substituído por Utu, seu filho como rei do universo, este é substituído pelo seu próprio filho, Kumarbi, que é substituido pelo seu póprio filho, Tarhun.
No século XIII antes de Cristo, preocupada com o sincretismo cada vez maior existente em sua religião, Puduhepa, rainha e sacerdotisa, fez a primeira reforma religiosa hitita. Em uma inscrição ela fala:  "Sol, deus de Arinna, você é meu senhor, você é rei de todas as terras. Na terra de Hatti que assumiu o nome de Utu, deus de Arinna, mas no que diz respeito à terra que fez de cedros (ou seja Arinna) assumiu o nome de Hebat".
Contudo, entre estes deuses existe uma categoria específica chamados de Lamma. Segundo Billie Jean Collins, a palavra significa "poderoso/a" ou "virtuoso/a", e eles têm um papel de protetores contra o que existe de mal na natureza. Os Lamma (lammassu) faziam parte de rituais e cerimônias envolvendo santuários portáteis que poderiam ser uma espécie de carrinho sagrado ou até um objeto sagrado ou mesmo o próprio rei. Gregory McMahon em sua tese de doutorado faz quatro distinções entre os tipos de divindade Lamma:
1) As divindades cujos nomes estão escritos nos textos, como, por exemplo, Inara é referenciada (Inara Lamma = Poderosa Inara);
2) As divindades cujo título é, somente, Lamma;
3) As divindades cujo título é Lamma, mais o nome de uma cidade, o que significa que estes deuses protegem especificamente uma cidade;
4) As divindades cujo título é formado por Lamma mais um epíteto, que pode ser uma outra palavra ou um sufixo cuja origem pode ser hitita, luwita, sumério ou mesmo acadiano. Tal relação, afirma James Rogers, indica que a origem do deus é provavelmente estrangeira e é também Rogers quem encontra 35 usos no Antigo Testamento da mesma fórmula hitita demonstrando que existe influência na composição da Bíblia da mitologia hitita.
Contudo o Lamma que nós procuramos é o Lamma Lulimi, ou o Lamma, o Efeminado, ou o Passivo, ou o Fraco, que é oposto sempre ao Lamma Innarawant, Lamma, o Másculo, o Víril, o Poderoso.  Ilan Peled afirma que a relação etmológica das palavras Lamma e Lulimi não é bem clara. Segundo ele a tradução de Lulimi como efeminado que aconteceu na década de 1930 só ocorreu após a tradução da palavra Inarawant  como "másculo, viril, poderoso", o que resultou que o deus que deveria ser oposto a ele, segundo o ritual Anniwiyani, deveria ser traduzido como efeminado, passivo e fraco. Novas pesquisas, contudo, que associam a palavra Lulimi ao verbo Lulli, prosperar, permitiram que a tradução começasse a ser revista para algo como "próspero, feminino, fértil". A ideia aqui é que o feminino ainda é o que este lamma protege, enquanto o segundo rege o mundo masculino, este deus protetor também protege os homens que são passivos nas relações sexuai, enquanto Innarawant protege aqueles que são ativos, todavia se retira do nome do deus a ideia imediata de que este feminino é por si negativo, ele só é negativo quando está em um homem, um lugar de onde ele não é natural. Cabe a mulher, e somente a mulher, segundo o pensamento hitita ser feminina e fértil. 

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Hatti: As Cartas de Amarna



As Cartas de Amarna são tábuas de argila contendo, em sua maioria, cartas diplomáticas entre os administradores egípcios e os embaixadores de diversas nações que conviveram com os egipcios durante o Novo Império, correspondências de Amenhotep III e uma miscelânea de material literário e educacional. Elas demonstram sobretudo como se davam as relações entre os egípcios e os impérios que os cercavam como a Babilônia, a Assíria, Mitanni e Hatti, a Síria e a Cananéia, além de Alashiya, o nome egípcio para a ilha de Chipre, e os Habiru, nome egípcio para os Hebreus. Elas estão organizadas segundo o sistema abaixo:
  • 001–014 Babilônia
  • 015–016 Assiria
  • 017–030 Mittani
  • 031–032 Arzawa
  • 033–040 Alashiya (Chipre)
  • 041–044 Hatti
  • 045–067 Síria
  • 068–227 Fenícia (entre 68–140 são sobre Byblos)
  • 227–380 Canaã
 As cartas foram encontradas por volta de 1887 perto da atual cidade de Amarna, nome moderno da capital fundada por Akenaton, entre 1350 e 1330 antes de Cristo, durante a XVIII Dinastia. Escritas em alfabeto cuneiforme, sistema de escrita da antiga Mesopotâmia, na língua acadiana (língua internacional do período), são conhecidos 382 tabuletas, que foram publicadas pelo assiriologista Jorgen Alexander Knudtzon entre 1907 e 1915.
Nestas cartas a referência homoerótica que aparece é o uso comum do termo kalbu, cão, para designar homens que se colocam numa situação de submissão a outros homens, a expressão pode ser utilizada para falar sobre os servos de um rei, John Burns, inclusive, elege um exemplo: Abdi-Ashratu, um rei cananita, afirma numa das cartas que é o cão da casa do faraó, seu leal e devotado vassalo. Também é Burns que nota que a palavra fenícia klb(lm), cão dos deuses, faz um paralelo com bd(lm), servo dos deuses e que esta expressão, em sentido algum, tem uma conotação pejorativa, algum senso de desonra. Porém, não em Hatti.
Nas cartas de Hatti a palavra serve para denegrir os inimigos. Nas cartas destes líderes, o faraó egípcio é sempre tratado por irmão, também entre assírios e babilônicos, eles se colocam na mesma posição que o governante do Egito. A designação kalbu é utilizada quando um rei protesta ao faraó sobre as ações de um inimigo e pede intervenção. A associação aqui é que a palavra kalbu também é utilizada para falar dos homens que são passivos nas relações sexuais com outros homens, isto é, que se submetem a outros homens, o que, já vimos, é uma situação negativa na sociedade hitita. Nestas cartas relacionadas a Hatti então o termo ganha um outro sentido por causa da diferença cultural entre eles e as outras culturas da região da Crescente Fértil.
A situação entre masculino e feminino do povo chamado de Hehites pela Bíblia, os filhos de Heth, é bastante contraditório. Apesar da mulher ser considerada um ser inferior, ela era protegida pelas leis e poderia, por exemplo, exigir o divórcio e manter sua herança (iwaru), mas explica Judith Starkston que em nenhum texto está escrito que uma esposa tomou um homem como marido, é sempre um homem quem toma uma mulher para ser sua esposa. Os casamentos monogâmicos (a única exceção são os casamentos reais) eram todos arranjados pelos pais, em que a família do noivo pagava pela noiva a kusata que, em caso de divórcio, permanecia com a mulher, mas em caso de adultério somente o homem poderia exigir a morte da própria esposa, sobretudo porque o contrato do casamento servia para produzir crianças e era necessário ter certeza que o investimento da família do noivo geraria novos descendentes para carregar-lhes o nome.
A lei hitita também permitia que mulheres tivessem empregos, e elas recebiam a metade do salários que os homens, porém podiam assumissem posições importantes como sacerdotisas e curandeiras, se fossem solteiras. Elas também podiam governar, sozinhas, como rainhas, Starkson cita as rainhas Paduhepa e Tawananna. A primeira foi esposa de Hattusili III, contemporânea de Ramsés II, e foi responsável por vários tratados com o faraó egípcio, inclusive enviando uma de suas filhas para se tornar esposa do governado do Egito. Antes de casar, a rainha fora sacerdotisa da deusa Ishara, deusa do amor e dos juramentos, e durante seu reinado ela reorganizou o panteão hitita focando em 12 deuses principais. Já Tawananna só pode governar depois que a sua sogra, que também assumiu o trono, morrera, o seu filho também assumira o trono como rei, mas ela quem governava realmente. Nos rituais, também, o mais alto cargo sacerdotal também era ocupado por uma mulher idosa, a hasawa. Esta era sacerdotisa, curandeira, feiticeira e parteira, todavia, ainda considerada inverior.









terça-feira, 12 de novembro de 2013

Hatti: Os Rituais Para Ser Homem


Um ritual hitita chamado Paskuwatti pretendia curar homens da impotência sexual. Ele foi encontrado entre vários documentos cuneiformes dos arquivos de Hattusa, a capital do império, e traduzido em 1950 por Goetze, porém foi somente em 1987 que o texto foi comentado em uma base filológica extremamente mais sólida por Hoffner. O ritual deveria ser usado quando um homem é estéril ou não tem desejos por mulheres, contudo ele tem sido interpretado como a cura para os comportamentos homoeróticos, porém, aparentemente, somente a cura para o comportamento passivo durante o ato sexual entre dois homens. O ritual não cita nada sobre se colocar na situação daquele que penetra outro homem, contudo critica a posição passiva na relação sexual como uma situação feminina. 
A posição feminina na sociedade hitita era extremamente inferior a masculina. Inclusive, existe uma fórmula, um feitiço, que era utilizado para enfraquecer os exércitos inimigos no qual se desejava que a deusa Ishtar transformasse-os, simplesmente, em mulheres. O feitiço diz: "Tome daqueles homens sua força, sua saúde robusta, suas espadas, seus machados de batalha, arcos, flehcas e adagas. E traga-os para Hatti. E coloque em suas mãos o fuso e o espelho de uma mulher. Vista-os como mulher! Coloque em suas cabeças o kuressar (espécie de enfeite de cabelo feito com um tecido/lenço). Tome deles a própria vontade". Sendo assim, enxergamos aqui uma sociedade em que a posição masculina do guerreiro (os símbolos que são retirados dos homens são todos associados a guerra) era considerada a única de algum valor, neste caso qualquer situação social que coloque um homem distante da posição de guerreiro que eles haviam construído deveria ser combatida, no caso, também a posição de passivo (e submissão) no ato sexual. É importante ver que o feitiço hitita termina desejando que eles percam toda a "própria vontade", colocar-se na posição de passivo no sexo entre homens seria colocar-se numa posição feminina e, portanto, uma posição sem vontade própria, é contra isso que o ritual Paskuwatti vai então agir: retirar o homem de um lugar subalterno ao qual ele não pertence.
Segundo o ritual os símbolos femininos por excelência são o fuso e a roca, ferramentas da tecelagem da lã, enquanto os masculinos são as armas, principalmente o arco e a flecha. E estes símbolos eram trocados pelo fiel e o sacerdote que repetia: "Eu mesmo retiro estes objetos femininos de você e te dou estes objetos masculinos de volta. Você então abandona este comportamento feminino e assume a partir de agora o comportamento de um homem" (§4). Jared Miller é quem melhor argumenta que este ritual trata-se sobretudo de fazer com que um homem deixe de ser dominado/possuído numa relação sexual com outro homem e assuma seu lugar de dominação, seu lugar natural (para a sociedade hitita) sendo homem.
Outro ritual, de Anniwiyani, também pretendia libertar um homem do desejo sexual relacionado a ser penetrado por outros homens. O texto deste ritual foi publicado pela primeira vez em 1927 por Edgar H. Sturtevant, porém somente oito anos depois temos a sua primeira tradução completa, acompanhado de um comentário filológico. O ritual evoca os deus tutelar daqueles que fazem sexo com homens, Lamma, e seu propósito final é fazer com que aquele que costuma ser passivo no sexo tenha relações com uma virgem sob a vigilância dos deuses para abandonar seu comportamento. O ritual começa assim: "Então Anniwiyani, mãe de Armati o auguro, serva de Hurlu, quando eu começo a cerimônia do Lamma, o efeminado, sigo (...)", o texto segue citando cada passo do ritual: ao cair da noite aquele que quer abandonar a posição passiva no ato sexual tem em seus pés e mãos pedaços de madeira amarrados com lã colorida, azul e vermelha, também em torno de sua cama, de sua carrugagem e do seu arco. Ele adormece com esta lã e quando acorda as cortas fora. A virgem então é trazida e é ela quem grita: "Saia daqui, Lamma, o efeminado; e que venha a nós, Lamma, o másculo". Durante a cerimônia um portal é construído em um local isolado, em torno dele são colocadas oferendas a Lamma, o efeminado, dos dois lados do portão pelos familiares daquele que agora tem a virgem na sua cama. Todos eles atravessam o portal e quando o último atravessa o portal é demolido e a estrada que leva a ele bloqueada e todos voltam a cidade, onde, na porta daquele que fez o ritual, colocam oferendas a Lamma, o másculo. 
A grande diferença entre estes dois rituais, segundo Ilan Peled, é que enquanto o primeiro ritual era pessoal, este último envolvia toda a comunidade, ele afirma que este ritual tem duas partes: uma que envolve o paciente que quer se curar e outra que envolve sua comunidade. Contudo ele também reconhece que a posição feminina neste caso também é o que está em jogo. Para o ritual de Anniwiyani a mulher não é importante nem em relação a fertilidade já que para eles a única potência capaz de gerar vida é oriunda do próprio homem (o sêmen). Inclusive o kuressar, peça utilizada no vestuário feminino, tem, segundo Peled, a origem da palavra ku(wa)liya, que significa "seja calmo, seja passivo", ou seja, faz parte do próprio ser mulher a ideia de que você tem que ser passivo e obedecer aos outros.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Hatti: Os Filhos Estuprados




Hatti é uma civilização extremamente importante que dominou a Anatólia, na atual Turquia, durante a Idade de Bronze, por volta de 3000 a.C. A Idade do Bronze substitui a Idade da Pedra Polida ou Neolítico e se caracteriza sobretudo pelo desenvolvimento da metalurgia, sobretudo do desenvolvimento de técnicas para a fundição do bronze, esta dura até por volta de 1200 a.C, quando se inicia a Idade do Ferro. Neste período ascenderam as civilização da Mesopotâmia no vale dos Rios Tigres e Eufrates, do Egito no vale do Nilo e, ao norte, de Hatti., estas são sem dúvida as três grandes civilizações que comandaram a história humana durante seus anos iniciais.  Porém elas têm muito em comum: a capital hitita se chamava Hattusa, seus habitantes falavam uma língua proto-indo-europeia chamada Luwita, enquanto a língua suméria e egípcia são semíticas, porém como o império logo se tornou grandioso era comum que se ouvisse pessoas falando, na capital, línguas dos outros povos que habitavam o império como o lídio, o cário, sidético, licio, pisídico e palaico, além da própria língua hitita, isto é, dos habitantes originais daquela terra. Eles possuíam um alfabeto hieroglífico, mas apossaram-se também da escrita cuneiforme assíria e, no fim, adotaram a numeração romana como parte do seu arcabouço cultural. Sua história se divide em basicamente três períodos: Velho Reino, de 3000 a 1400 a.C.; o Novo Reino, de 1400 a 1175 a.C., quando o imperador de Hatti rivalizava em poder com os faraós egípcios e os reis babilônicos; e, por fim, os Novos Reinos Hititas, que existem entre 1175 a 705 a.C., em que após o império se desfazer algumas cidades-estado mantém sua independência cultural até a dominação romana.
Um dos textos mais antigos oriundos desta civilização são As Leis. Não sabe-se com precisão quando os textos foram reunidos, mas eles remontam a 1600 a.C. e refere-se ao reinado de Labarna. Além deste ser um livro que relata as leis, ele também se preocupa em registrar a vida cortesã da capital através de crônicas históricas sobre o palácio e as disputas entre os vassalos do rei. Suas leis, no entanto, se caracterizam por duas ideias básicas: compensação, a vítima ganha algo para compensar o que perdeu; e retribuição, a ofensa é punida com um castigo equivalente a ela, algo parecido com o "olho por olho, dente por dente" das leis mesopotâmicas, contudo, em Hatti, a maior parte das punições tinham a ver com compensação. Mesmo as leis que puniam o assassinato, por exemplo, permitiam uma opção de compensação: "Se ele [o herdeiro] diz: 'Deixe-o morrer', ele deve morrer; se ele diz: 'Faça ele uma compensação', ele deve fazer uma compensação". Se o assassino não pudesse compensar financeiramente a família de sua vítima, uma vida como escravo sempre era uma opção. Os casos eram julgados pelo rei, autoridade máxima, ou pela rainha, ou pelos vassalos do rei, a quem este delegava o poder para julgar em seu nome. 
Entre as leis hititas existe um grupo de leis que falam sobre comportamento sexual, são as últimas catorze de um grupo de duzentas. A pena de morte só é aplicada em dois casos: bestialidade e incesto. O sexo com ovelhas, cães e porcos é punido com a morte, por exemplo, e curiosamente relações sexuais com cavalos e mulas só exigiam uma compensação ao dono do animal, porém o que mais nos interessa aqui é a lei hitita 189. Ela afirma: "Se um homem violar a sua filha que é um crime capital. Se um homem viola seu filho, que é um crime capital". Não existe nenhuma proibição com relação a relações entre pessoas do mesmo sexo além desta citação rápida em todo o livro. E esta justaposição de relações sexuais com a própria filha e filho, diz Gordon Wenham, mostram que a última união não é proibida porque se dá entre pessoas do mesmo sexo, mas porque é incestuosa . Hoffner observa que um homem que sodomiza seu filho é culpado de hurkel (relação sexual ilícita) porque o seu parceiro é o seu filho. 
Podemos ver a importância do tabu do incesto numa carta do rei Suppiluliuma a um de seus vassalos, um dos raros momentos em que um rei interferia na vida das cidades que haviam lhe jurado lealdade:

Para Hatti é um costume importante que um irmão não tenha relações sexuais com a sua irmã ou a sua prima. Não é permitido. Quem comete tal ato é condenado à morte. Mas a sua terra é bárbara, pois o homem tem regularmente relações sexuais com sua irmã ou prima. E, de vez em quando, uma irmã de sua esposa ou a esposa de um irmão, ou até uma prima chega até você, dê-lhe algo para comer ou beber. Você pode comer, beber e ficar feliz! Mas você não deve ter vontade de ter relações sexuais com ela. Não é permitido, e as pessoas são condenadas a morte como resultado desse ato. Você não deve iniciá-la de sua própria vontade, e se alguém vos engane para tal ato, você não deve ouvir dele ou dela. Você deve fazer isso. Ele deve ser colocado sob juramento para você. 

O hurkel é uma categoria interessante porque caso seu ator não seja extirpado da sociedade, através de um ritual ou mesmo assassinato, toda a sociedade hitita corria risco, por isso mesmo o rei estava proibido de fazer sexo antes de um ritual importante ou alguém que estivesse impuro era impedido de entrar nos santuários. Banhos, bodes expiatórios, banimentos, tudo isso eram formas de livrar-se de alguém que estava tão contaminado assim que poderia trazer o mal a todos que estavam ao seu redor, no entanto evitava-se a morte, sobretudo porque quando alguém cometia um hurkel e era morto seu corpo continuava contaminado e aquele que tocasse o corpo do morto para dar-lhe um destino adequado também seria novamente contaminado.




terça-feira, 15 de outubro de 2013

Fenícia: Os Sacerdotes de Astarté

, em Natal - RN, Brasil



Astarté ou Ashtoreth é uma deusa lunar fenícia, representada às vezes com chifres de vaca, símbolo comum da lua na Antiguidade, era protetora dos mortos que ascendiam ao céu para conviver com ela em forma de espíritos de luz que eram visíveis aos homens na forma das estrelas. Ela  é mencionada quinze vezes na Bíblia: três vezes relacionada a Moloch, na Escritura muitas vezes chamado de Melcom (em 1Reis 11:5, "Salomão prestou culto a Astarte, deusa dos sidônios, e a Melcom, o abominável ídolo dos amonitas", e 33, "Abandonaram-me, prostraram-se diante de Astarte, deusa dos sidônios, diante de Camos, deus de Moab, e diante de Melcom, deus dos amonitas" e 2Reis 23:13, "O rei profanou igualmente os lugares altos situados defronte Jerusalém, à direita do monte da Perdição. Salomão, rei de Israel, tinha os levantado em honra de Astarte, ídolo abominável dos sidônios, de Camos, ídolo abominável dos moabitas, e de Melcom, ídolo abominável dos amonitas"); seis vezes é apresentada apenas como o nome de uma cidade (Deut 1:4, Jos 9:10, 12:4, 13:12, 13:31 e 1Cron 6:71), o que significa que eram, provavelmente, cidades que honravam a deusa fenícia; nas referências que aparecem em Juízes 2:13 e 10:06 ("Os filhos de Israel fizeram de novo o mal aos olhos do Senhor servindo os baal e as astarot"), além do primeiro livro de Samuel 7:3-4 ("E Samuel falou a todo o povo de Israel, dizendo: 'Se voltardes de todo o vosso coração para o senhor, tirando do meio de vós os deuses estranhos e as Astarot, se vos apegardes de todo o vosso coração ao Senhor e só a ele servirdes, então ele vos livrará das mãos dos filisteus'. Os israelitas afastaram os Baals e as Astarot e serviram só ao Senhor"), 12:10, a palavra Astarot é utilizada no plural para representar todas as deusas, já que os hebreus não conheciam palavra para expressar a potência feminina de uma divindade, eles a consideravam o grande modelo de deusa a ser negado por seu monoteísmo machista. No entanto, como vemos, em nenhum momento referências ao seu culto, além de que eram realizados em lugares altos ( a citação do Segundo Livro de Reis), é expressa no texto bíblico.
São novamente escritores gregos e romanos que nos dão acesso a história desta deusa. Um escritor cristão do século IV d.C., Eusébio de Cesaréia, é um dos que relata que cidades fenícias como Aphaca e Baalbeck, no atual Líbano, mantinham seus templos funcionando, onde ocorria prostituição sagrada (sobretudo feminina, de mulheres que se mantinham na porta do templo de Astarté esperando que um homem pagasse por sexo por elas como oferenda a deusa), e que era um desafio para a nova igreja cristã combater esta prática pagã. John Barclay Burns afirma, no entanto, que a prática mais comum, que não é difícil encontrar documentos fiscais, é quando as cidades taxam os serviços dos gallis, homens santos, que participavam dos festivais em honra da lua nova; estes que eram sustentados exclusivamente pelo templo , cobravam a cidade sua participação no ritual da deusa, apesar deste registros fiscais não deixarem claro qual a participação exata destes homens santos no ritual, o livros como o escrito por Eusébio de Cesareia e Luciano de Samósata nos dão acesso ao que exatamente estes galli eram responsáveis e, porque era tão importante para a cidade garantir que eles recebessem sua parte devida.
Vejamos a descrição de Luciano de Samósata, o qual viveu entre de 125 e 190 aC., circulando entre os círculos intelectuais da Síria e Atenas. Ele escreveu De Dea Syria (A deusa síria) no qual narra suas observações particulares sobre o culto da deusa Astarte. Apesar de ser um cômico, e escrever textos filosóficos sofistas, este texto é escrito da mesma forma que Heródoto escreveu sua Histórias, o que nos faz antever qual o objetivo de Luciano em produzir este texto: escrever história. Luciano descreve grandes ídolos faliformes, sacerdotes travestidos castrados, prostituição ritual das próprias fieis da deusa e sacrifício infantil ocasional. Afirmam Strong e Garstang que esta é uma descrição historicamente valida, apoiada em escritores antigos, documentos e arqueologia. 
Por exemplo, Luciano narra assim a forma que os homens se tornavam gallis:

49 . O maior dos festivais que celebram é que se realiza na abertura da primavera, alguns chamam isso de Pira, outros a Lâmpada. Nesta ocasião, o sacrifício é realizado desta maneira. Corta-se árvores altas e as coloca-se na assembleia, então eles trazem cabras e ovelhas e gado e os penduram vivos nas árvores, eles acrescentam a estes pássaros e os decoram com ouro e prata. Depois de tudo terminado, eles carregam os deuses ao redor das árvores e atearam fogo, em um momento, tudo está em chamas. A este rito solene participam grandes multidões da Síria e de todas as regiões ao redor. Cada um traz o seu próprio deus e as estátuas que cada um tem os seus próprios deuses.

50 . Em certos dias com uma multidão no templo, e Galli em grandes números, sagrados como eles são, realizam as cerimônias dos homens, em que pegam os homens, amarram-lhe os braços e viram as costas para ser amarrados. Muitos espectadores sobram suas flautas ao mesmo tempo muitas batem tambores, outros cantam canções divinas e sagradas. Todo esse desempenho tem lugar fora do templo, e os envolvidos na cerimônia não entram no templo.

51 . Durante estes dias, eles são feitos Galli. Como o Galli cantam e celebram suas orgias, o frenesi cai em muitos deles e muitos dos que tinham vindo como meros espectadores depois são tomados pela deusa e cometem o grande ato. Vou narrar o que eles fazem. Qualquer jovem que foi resolvido no âmbito desta ação, retira suas vestes, e com um forte rajada,  grita no meio da multidão, e pega uma espada de uma série de espadas que suponho ter sido mantidas prontas desde muitos anos para este propósito. Ele levanta-se e castra-se e, em seguida, corre pela cidade, tendo em suas mãos o que ele cortou. Ele lança-o em qualquer casa à vontade, e desta casa recebe as vestes e ornamentos das mulheres. Assim eles agem durante suas cerimônias de castração.

52 . O Galli, quando mortos, não são enterrados como os outros homens, mas quando morre um Galli seus companheiros o levam para fora, para os subúrbios, e constroem sobre o esquife em que o tinham levado até cobri-lo com pedras, e após isto retornam para casa. Eles esperam, em seguida, por sete dias, após o qual eles podem entrar no templo. Eles não devem entrar antes disso, seriam culpados de blasfêmia.

Pela descrição de Luciano, por fim, podemos dizer que o papel dos Galli, se não é a prostituição, são eles que controlam o ritual masculino em relação a deusa Astarté e que este envolve orgias entre os próprios galli, que são castrados e vestem-se como mulheres, e os homens, fiéis da deusa, que participam das festas organizadas pelos homens santos. Também vemos que os galli são possuídos pela deusa durante o festival e se tornam sacerdotes no momento em que abdicam de seus pênis através da castração. Estes sacerdotes eunucos, portanto, são o único meio de contato entre a deusa e os homens que não podiam nem entrar no templo, e é por isso então que eles são custeados pela cidade, para garantir as boas vontades de Astarté não somente para as mulheres fenícias, mas para seus homens também. Como a deusa além de ser responsável pela fecundidade e da maternidade, também era responsável pela vitória na guerra e a fortuna, ter a deusa ao seu lado era imprescindível para qualquer homem fenício diante qualquer desafio em sua vida, principalmente quando se destacavam em suas navegações por mares nunca antes singrados afinal sabe-se que os fenícios navegaram por todo Mediterrâneo, alcançando do Mar do Norte a Costa do Marfim no Atlântico e também pelo Índico, comerciando com os hindus. 



terça-feira, 1 de outubro de 2013

Fenícia: Meleagro e Seus Ratinhos

, em Natal - RN, Brasil


Meleagro é um poeta grego, que escreveu em sua língua materna, mas também em fenício, por volta de 100 a.C. Ele era filho de Eucrates, nascido em Gadara, que hoje fica na Jordânia, apesar dele ter nascido em uma colônia grega, ele foi educado em Tiro, cidade fenícia, e passou sua vida em Cos, uma ilha grega, sob o reinado do rei Seleuco VI Epiphanes (entre 95-93 a.C.). Apesar de grego, aqui, o consideramos um poeta também fenício por causa de sua educação ter se dado toda em Tiro, o que, com certeza, influenciou a forma como ele passou a escrever seus epigramas, além de boa parte dos seus poemas terem sido publicados também na língua fenícia por volta de 80 a.C., na Antologia Palatina, que infelizmente não nos sobreviveu inteira. Alguns historiadores o classificam entre os cínicos, grupo filosófico que procurava a independência pessoal completa e total que para ser alcançada os seus membros tentavam reduzir suas necessidades ao mais básico para, diante da adversidade, eles não sofrerem quase nada. Ele escrevia seu conhecimento filosófico no que chamava de spoudogeloia (σπουδογέλοιος), ensaios em prosa satíricos que explicavam a filosofia em forma de ilustrações bem humoradas, estas, no entanto, foram completamente perdidas.
Já seus poemas, Meleagro escreveu muitos de teor amoroso, tanto de amor homoerótico, como aquele dedicado as mulheres. No caso dos poemas dedicados a um homem, muitos deles são dedicadas a um myiscus, em português, ratinho. Mas também existem outros amantes como Antíoco, Diocles, Thero e Alexis, são 15 ao todo.
São exemplos de seus poemas (tradução nossa):

As 12 horas da tarde
No meio da rua
Alexis!
Verão tinha tudo, mas trouxe o fruto
Para seu fim perigoso:
O sol do verão e o olhar daquele menino
Eles me afligem!

*

Socorro! Ele está desaparecido. Aquele menino selvagem, Eros, escapou!
Agora mesmo, como o dia estava quebrando, ele voou de sua cama e foi embora.
Descrição? Docemente choroso, fala sempre, rápido, irreverente,
Ri maliciosamente, asas em suas costas e carrega uma aljava.
Seu último nome? Eu não sei, por seu pai e sua mãe,
Quem eles são, na terra ou no céu, não vai admitir isso
Todo mundo odeia ele, você vê. Cuide-se, cuide-se,
Ou até mesmo agora ele vai estar tecendo novas armadilhas para seu coração
Mas uma olhada rápida para lá, vire lentamente. Você não precisa a mim, menino, enganar
Desenho seu arco tão suavemente onde você se esconde nos olhos de Zenófilo.
(AP V.177)

*

Eu não disse a você, oh, alma, se você olhar para fora, você vai ser pega
Você, coisa boba, se você vibrar tão perto de sua rede?
Não te avisei?
E agora que a armadilha é acionada
por que lutar em vão?
O amor amarrou suas asinhas,
aspergiu-lhe perfume barato, fingiu o seu desmaio no fogo
E lhe deu, na sua sede, lágrimas quentes para beber.
(AP XII. 132)

*

Essa é a mensagem, Dorkas, e quando você disse a ela
Então diga a ela, novamente, e mais uma vez, agora para se apressar.
Mas espere um minuto, espere aí, lentamente, meu Dorkas, lentamente.
Por que você está fugindo antes de você ouvir todas as suas instruções?
Diga também que eu... não diga nada. É mais viril ficar em silêncio.
Não lhe diga nenhuma maldita coisa. Diga apenas que eu... ah, diga tudo!
Tudo isso, Dorkas, tudo isso! Mas, Dorkas, por que te envio,
quando, olha, eu te segui o caminho todo até a porta?
(AP V. 182)

*

Você deixa as flores da primavera
os lírios e os demais
o que se plantar na sua pequena picada
no peito de Heliodora.

Para mostrar que na ferida de amor
tão profunda e terrível,
a doçura pode ser encontrada
isso torna a vida suportável?

Oh, por favor, sua notícia é um desperdício!
Eu sabia disso há muito tempo
Você acha que eu não provei
onde você, bêbado, demorou tanto?
(AP V. 163)

*

Se alguma coisa acontecer comigo,
Cleóbulo, meu amigo,
(Porque não me salvo -
Eu minto como uma videira em ondulação
quando jogo no jogo das meninas)
antes de enviar
minhas cinzas sob a terra
despeje vinho forte,
em seguida, grave, na urna embriagada:
"Hades, à saber, 
o Amor envia este presente a Morte"
E enterre-me e vá embora.
(AP V. 172)

*

Amanhecer odioso para os amantes, por que você sobe tão rapidamente
ao lado da minha cama, quando me deito com uma deliciosa demonstração?
Você não pode virar, correr para trás e ser a noite mais uma vez,
E parar aquele doce sorriso que derrama esta luz venenosa?
Uma vez você já fez isso antes, quando Zeus amava Alcmena.
Oh, aprendeu a correr para trás! Agora você não pode dizer que não sabe como...
(AP V 172)

*

Amanhecer odioso para os amantes, porque você rola tão lentamente
em todo o mundo triste quando sob o cobertor de outro homem
falsas demonstrações de amor e todo o calor do corpo dele ele doou como um deus?
Quando foi a minha vez de segurar seu corpo esbelto em meus braços
Você não podia esperar para lançar sua luz nojenta nos meus olhos.
(AP V. 173)

*

Oh, noite, e você oh lâmpada, somente tu estava ao lado de nossa cama
Não havia ninguém perto para que 
fossem testemunhas de nossos votos,
que ele me amaria,
e, eu, que nunca iria deixá-lo,
oh, noite, você se lembra.

Mas agora ele diz que os votos se foram com as águas de um rio,
Não demoraram mais do que as ondas quebrando,
e você, oh lâmpada, 
agora você o vê deitado
nos braços de outra pessoa.
(AP V. 8)

*

Peço-vos, Amor, em nome da minha musa, peço-vos,
Oh, deixe-me dormir e esquecer por um tempo este desejo por Heliodoro.
Meu deus, eu oro pelo seu arco, que não sabe como dar um tiro,
sem ninguém, mas o dia e a noite eu sofro e grito por mim!
Tudo bem, sem mais orações, seu filho da puta, você não vai fugir com ele.
Como minha última força, eu hei de escrever este poema para a polícia:
Foi o amor!
O Amor me matou.
(AP V.215)

Como podemos ver, a musa de Meleagro é, no entanto, não o amor romântico, mas o amor perdido, o sofrimento amoroso e a dor do afastamento de seu objeto amoroso seja pelo simples fim do encontro noturno em que eles estava juntos ou o término do relacionamento. Meleagro constantemente canta para os "ratinhos" que ele perdeu, para o amor que se foi, para o desejo não realizado e a dor que irrompe-lhe o coração, porém esta não é uma metáfora para a proibição em relação ao homoerotismo, a mesma pena que dedica-se ao fim de relacionamentos entre homens também canta o fim de amores entre homens e mulheres. É o poeta que, provavelmente, se encanta com este momento tão doloroso na vida de tantas pessoas e, por isso, que decide imortaliza-los em sua poesia. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Fenícia: A Poesia de Cartago

, em Natal - RN, Brasil
Porto de Cartago


Como já dissemos, Cartago era a capital do maior império fenício. Ela teria sido fundada por homens vindos da cidade de Tiro por volta do século XX antes do nascimento de Cristo, mas por volta de 814 a.C., já havia se tornado um grandioso império marítimo espalhando colônias pela norte da África, Sicília, Península Itálica, Sardenha e Espanha, existem registros que navegadores cartagineses alcançaram ainda a Portugal, Bretanha e o Atlântico Norte, onde não fixaram colônias, mas faziam comércio com celtas, bretões e vikings. No século V a.C., o império cartaginês ameaçou o controle do mediterrâneo pela marinha ateniense, e entre 264 e 214 a.C., pelo mesmo motivo, iniciaram-se as Guerras Púnicas, contra o império romano, que terminou com o território de Cartago destruído e salgado para que nada crescesse ali novamente, ou seja, Cartago foi inimiga dos principais impérios europeus da Antiguidade pelo mesmo motivo, ambos necessitavam controlar o Mar Mediterrâneo, porém este já pertencia aos fenícios.
Como um rico império, as artes se desenvolveram a contento, contudo, infelizmente, o que nos restou desses textos são aqueles a capital púnica legou de poetas que escreviam em latim (língua internacional da época do Império Romano), porém entre estes temos vários que narravam em sua poesia relações homoeróticas. Podemos citar, por exemplo, Nemessiano (por volta de 283 d.C.).
Marcus Aurelius Olimpius Nemesianus, ou somente Nemessiano, é um poeta que escrevia em latim, nascido em Cartago, por volta de 283 d.C. Fenício de nascimento, mas educado em Roma, era um poeta popular na corte do imperador romano Carus, apesar de comumente ser considerado pouco original, e escrevia poemas sobre a arte da pesca, Halieutica; sobre esportes aquáticos, Nautica; e sobre a caça, Cynegetica; deste último, no entanto, apenas um fragmento de 325 linhas foi preservado, apesar disso, seu latim é tão clássico que este enxerto foi usado como em escolas de poesia durante toda a Idade Média. Existem no entanto quatro bucólicas, poemas de tema pastoral, e um Elogio a Hércules, que também são atribuídos a ele.
É nos seus poemas pastorais, as bucólicas, que aparecem as referências homoeróticas. Nemessiano seguiu, na verdades, os passos de Virgílio (já falamos de sua falta de originalidade) com suas éclogas, que são poemas cujos personagens normalmente são pastores em forma de diálogo ou, às vezes, um solilóquio, que registram a equivalência entre o desejo sexual entre homens e mulheres e entre dois homens. Ele fala através de uma série alternada de discursos no qual Mopso, a quem Meroe solteira evita, discute com Lícidas, cujo amor o jovem Iolas despreza.
Tal comparação é extremamente comum nas pastorais, como explica João Beato. Nemessiano quem diz: "Cante cada um o que é objeto do seu amor. As canções também aliviam o males do amor"  (Ecl 4,19). No entanto, afirma João Beato, que se o amor de Mopso e Meroe se reveste dos elementos da poesia pastoril, o mesmo não sucede com o amor de Lícidas e Iolas. A diferença é que enquanto o amor entre Mopso e Meroe pode ser eterno, Lícidas e Iolas tem pouco tempo porque a beleza (formosus) de Iolas vai abandoná-lo quando sua barba crescer, pois a beleza dos meninos "é uma dádiva efêmera" (Ecl 4,27). Por fim, Lícidas aconselha: "Todo aquele que ama os rapazes, não se apresse e aprenda a amar longa e pacientemente. Não menospreze a circunspecção dos tenros anos e suporte até o fim as desventuras. Se é que algum deus ouve os enamorados em suas angústias" (Ecl 4,57-60).
Nota-se que o modelo de amor homoerótico colocado pelo poeta fenício ainda é o padrão idealizado que coloca um homem que ocupa a posição dominante como mais velho (esta posição dominante está tanto na situação de ativo na relação sexual como também na igualdade entre Lícidas e Mopso, os dois estão no lugar  masculino do relacionamento), enquanto o mais jovem está numa posição submissa e também feminina (afinal Iolas e Meroe estão na mesma posição dentro do poema, como objetos de desejo que podem ou não ceder seus favores, que precisam ser conquistados por seus amantes). É importante notar que este formato de "homem mais velho com um jovem" é considerado por todos os historiadores como um modelo-ideal, como uma situação em que este comportamento era sim considerado apropriado e que, o mesmo, também só poderia continuar (para manter-se aceitável) se o relacionamento se encerrasse aos primeiros sinais de barba no rosto do jovem Iolas. Contudo, acredita-se que apesar desta ser a regra, ela era comumente ignorada, relatos que envolvem homens mais velhos sendo passivos para jovens ou de garotos da mesma idade tendo relações sexuais também são comuns em várias outras referências, sinalizando que apesar deste modelo-ideal, os relacionamentos entre homens podiam ser bem mais subversivos.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Fenícia: Os Servos do Rei

, em Natal - RN, Brasil



Moloch era o deus de Cartago e todas as colônias que esta cidade havia criado. Todos aqueles que eram descendentes dos cartagineses era também cultuadores de Moloch. Seu nome significa rei. Cartago se localizava no norte da África, onde hoje fica a Tunísia e foi um poderoso império marítimo porque controlava o estreito que existe entre a África e a ilha da Sicília, na Itália. Cartago, como várias outras culturas que existiam na costa norte da África, compartilhava uma história de acomodação do comportamento homoerótico e transgênero.
Cartago fora fundada por fenícios do século XX a.C., vindos do antigo Líbano para o Marrocos, a altura do século IX a.C, eles já havia se tornado um grande e importante império que passou a competir com o Império Romano causando as duas Guerras Púnicas que em 146 a.C., em sua última batalha, destruíram a cidade de Cartago completamente. Nesta migração eles trouxeram junto seus sacerdotes transgêneros, servos e concubinas. Sua cultura politeísta que incluía um deus supremo, Baal, e uma deusa suprema, Baalit, chamada em Cartago de Tanit, os templos desta deusa eram sempre cheios de sacerdotes cortesãos, isto é, que se prostituíam em nome da deusa, e também travestidos.
Moloch também era um deus do fogo. E a maior parte das informações sobre seu culto estão na parte judaica da Bíblia. São oito referências que proíbem os judeus e não-judeus de prestarem culto ao deus fenício. São citações como: "Não darás nenhum dos teus filhos para ser sacrificado a Moloch; e não profanarás o nome de teu Deus, Eu sou o Senhor" (Lev 18:21) ou "Todo israelita ou estrangeiro que sacrificar um dos seus filhos a Moloch, será punido de morte. O povo da terra o apedrejará. Eu voltarei o meu rosto contra ele e o cortarei do meio de seu povo, porque manchou o meu santuário e profanou o meu santo nome, dando um de seus filhos a Moloch. Se o povo da terra não se importar por esse homem ter dado um de seus filhos a Moloch, e se não o matar, eu voltarei meu rosto contra ele e contra a sua família" (Lev 20:02-04). Em Jeremias temos uma referência parecida: "Ergueram-se altares a Baal no vale de Ben-Enom, para ai queimarem os filhos e as filhas em honra de Moloch" (32:35). São basicamente citações que falam sobre a principal característica do culto de Moloch: os sacrifícios humanos e, especificamente, os que mais agradavam ao deus, o sacrifício de crianças.
Outras referências a Moloch que temos são de origem grega e latina que falam das crianças sendo consumidas pelo fogo em Cartago. Cleitarco, Diodoro da Sicília e Plutarco mencionaram a queima de crianças como oferenda ao deus também chamado de Baal Hammon. Comentaristas, no entanto, reconhecem que estas descrições são muito exageradas já que Cartago era a cidade inimiga e, engajados numa propaganda pós-guerra, era necessário fazer seus arqui-inimigos se tornarem cruéis e menos civilizados como afirmam Astin, Walbank e Frederiksen em Rome and the Mediterranean to 133 B.C..
Traduzimos, a partir da versão de Paul G. Fly, uma referência retirada do comentário de Cleitarco a República de Platão:

Não está em seu meio uma estátua de bronze de Saturno (era costume entre os romanos de traduzirem os nomes dos deuses de outros povos, Saturno será comparado a Moloch nestes textos), suas mãos estendidas sobre um braseiro de bronze, no qual as chamas engolem uma criança. Quando as chamas caem sobre o corpo, o contrato de membros e a boca aberta parece estar rindo até que o corpo desliza silenciosamente para o braseiro. Assim é que o "sorriso" é conhecido como "riso sardônico", uma vez que eles morrem de rir.

Já Diodoro da Sicília (20.14) escreveu:

Havia em sua cidade uma imagem de bronze de Saturno estendendo suas mãos, palmas para cima e inclinada para o chão, de modo que cada uma das crianças, quando colocado nelas rolava e caia uma espécie de cova aberta cheia de fogo.

É Diodoro também que relata que os parentes estavam proibidos de chorar a morte de suas crianças, porém é o historiador romano também que nota que o comum era o sacrifício de crianças de classes sociais menos abastadas, tanto que quando Agatócles é derrotado, os nobres cartagineses acreditaram que haviam ofendido os deuses e substituíram as crianças dos sacrifícios por seus próprios filhos, foram desta vez 200 crianças mortas das melhores famílias da cidade.
Em Plutarco, no Das Supertições, temos:

"... mas com pleno conhecimento e compreensão que eles mesmos oferecem os seus próprios filhos, e aqueles que não tiveram filhos iriam comprar pequenos de pessoas pobres e cortar-lhe as gargantas como se fossem cordeiros ou aves jovens, enquanto isso a mãe fica sem nenhuma lágrima ou gemido, mas se ela proferir um único gemido ou deixar cair uma única lágrima, deve desistir do dinheiro e o sacrifício do seu filho foi inútil; no entanto, toda área em torno da estátua era preenchida por um barulho de flautas e tambores que deviam abafar os gritos de lamentação, não deixando que estes chegassem aos ouvidos do povo.

Outra característica do culto a Moloch era a prostituição sagrada. Existe uma referência bíblica que fala sobre isso: "e o cortarei do meio do seu povo com todos aqueles que se prostituem como ele, prestando culto a Moloch" (Lev 20:05). Nota-se que a principal proibição judaica é o sacrifício das crianças em nome de Moloch, mas eles também citam outra parte do culto ao deus fenício: a realização da prostituição ritual em nome do deus, seja agindo como o prostituto ou prostituta ou pagando pelos serviços de um dos servos do deus. Neste caso, estes servos também podiam ser crianças que eram doadas ao templo, porém, no lugar delas serem atiradas ao fogo, estas se tornavam servos do deus, e cresciam como prostitutos do templo.
Era comum em diversas religiões ligadas a fertilidade o que é chamado de Hierogamia, o casamento mágico entre o deus e o seu fiel, isto se dava sempre através do sexo com um sacerdote ou de uma sacerdotisa ou mesmo um sacerdote transgênero. No caso de Moloch, considerado o depositário da potência masculina da fecundação, encontramos sacerdotes masculinos e transgêneros. O ritual normalmente se dava somente com a relação sexual, sobretudo anal, entre o sacerdote e o fiel. Muitos historiadores afirmam, no entanto, que tudo isto não passava de uma oferenda ao deus, que não havia prazer nenhum em pagar por este tipo de prostituição, pois ela se daria somente no contexto religioso. Não haveria uso fora desta situação muito particular para estes servos do deus.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Fenícia: O Senhor das Mulheres

, em Natal - RN, Brasil

Os fenícios, religiosamente, adoravam rochas e árvores que consideravam objetos divinos. As pedras sagradas chamados metil, ou seja, morada de Deus, muitas vezes eram pedras duras e negras com formas cônicas ou ovo, muitas vezes meteoritos caídos do céu. Árvores sagradas eram às vezes árvores reais, outras colunas de bronze ornamentadas, terminando em um cone. Estes ficavam em lugares altos, principalmente topo de montanhas, mas também templos erguidos em forma de pirâmide de degraus Cada cidade fenícia tinha seus próprios deuses, mas apesar disso todos os fenícios acreditava em um deus chamado de Baal (senhor) e uma deusa chamada Baalit (senhora). Este deus era um benfeitor iluminado que dispersava a vida entre os homens. Ele representava o sol, e era retratado às vezes como um ser humano, às vezes como um homem com cabeça de touro, acreditava-se que ele era caprichoso e sanguinário e para satisfazê-lo era comum os sacrifícios humanos, sobretudo de crianças. A deusa, baalit (senhora), chamada também de Astarté, esta era a deusa da lua, da primavera e da fertilidade.
No entanto, cada cidade tinha seu deus protetor Baal-Melkart era o deus de Tiro, era retratado com um grande guerreiro e excelente navegador, mas no seu templo ele era adorado na forma de uma imensa esmeralda. Em Cartago, o baal da cidade se chamava Moloch, que era representado com um colosso de bronze e também gostava de sacrifícios humanos. Já em Biblos, o grande deus chamava-se Adônis, esta palavra é a versão grega do nome do deus que deveria ser algo como Adão ou Adon, e é, basicamente, através de fontes gregas que sabemos a maior parte do culto a este deus. 
Por exemplo, o nascimento de Adônis é envolto em confusão para aqueles que esperam uma única versão autorizada. Walter Burkert, famoso mitólogo, explica que os helenos decididamente patriarcais e envoltos com uma forma de pensamento que organizava o mundo através da genealogia, deram como primeiros pais do deus Biblos e Chipre, indicadores fiéis de onde seu culto surgiu, mesmo lugar de onde veio o culto de Afrodite.
Existem várias versões para seu nascimento, a comumente mais aceita é que Afrodite (nome grego de Astarté) fez com que Mirra cometesse incesto com o seu pai, Ciniras, rei da Síria, por vingança. A ama de Mirra ajudou-a a realizar o plano e deitar-se com seu pai, no escuro; no entanto, quando Ciniras percebeu que estava com sua filha, graças a uma lâmpada deixada acesa, ele ficou furioso e a expulsou de casa, perseguindo-a. Mirra fugiu de seu pai e Astarté transformou a jovem na árvore da mirra. A jovem no entanto ficou grávida do próprio pai, e transformada em árvore, continuou sua gravidez até que um belo menino nasceu do tronco da árvore. Este mito explica inclusive o porquê da árvore sagrada de Adônis ser a mirra.
Após nascer, a versão grega diz que Cibele é a responsável por criar a criança, esta uma deusa frígia, e quando este torna-se adulto, um grande caçador, Astarté apaixona-se imediatamente por ele, a deusa então abandona seu marido e vive junto com o caçador entre as florestas e cavernas do atual monte Líbano, porém Baal enfurecido, ao descobrir o amante da esposa, transformou-se em um javali e atacou o jovem que ferido, esvaiu-se em sangue. O líquido vermelho que jorrava de suas veias transformou-se em anêmonas ao misturar-se com as lágrimas da deusa.  
Ao descer ao reino dos mortos, Mot, o deus da morte, apaixonou-se por Adônis também e quando Astarté desceu aos ínferos para buscá-lo e trazê-lo de volta a vida, o deus só permitiu sobre uma condição: que ele permanecesse quatro meses do ano junto a ele no inferno, contrariada Astarté teve que aceitar as condições do deus, porém sua tristeza era tão grande quando ele partia de volta a sua vida com Mot que toda a vida definhava, era o período do inverno.
Além da relação com Mot é interessante saber que Adônis era um deus que era cultuado sobretudo por mulheres, em rituais secretos. Os rituais de Adônis se davam quando o verão estava no seu auge, em Biblos. No templo havia um caixão aberto, que esperava os moradores da cidade encontrarem uma estátua de madeira pintada com um grande sangramento na sua lateral, local onde o javali-Baal havia ferido o jovem deus. A estátua era trazida, colocada no caixão, o esquife era velado  e enterrado nos chamados Jardins de Adônis. Os homens traziam galhos verdes de mirra que era deixados para serem secados ao sol, Baal, enquanto as mulheres em massa, gritavam, chorava, raspavam suas cabeças, corriam pelas ruas com roupas esfarrapadas, batendo no peito, gemendo de dor e arranhando o próprio rosto como se fossem as esposas, a baalit, que agora perdia seu grande amor. Explica Walter Burkert, em seu livro Religião Grega, que o clímax do culto é o luto pelo deus morto.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

China: O Favorito do Tigre de Pedra

, em Natal - RN, Brasil


É o poeta Li Qi, da dinastia Jin (250-406 d.C.) quem canta sobre o amor entre o general Ji Long, chamado de Tigre de Pedra, e o jovem cantor chamado Zheng YingTao. Li Qi parece fascinado pela violência deste amor, o amor caótico que o Tigre de Pedra representa. Não satisfeito por dividir o seu amor com as duas esposas dele, o jovem cantor caluniou então as esposas, fazendo com que o general tivesse que matá-las, Li Qi imortalizou o conflito de ambos em seus versos: 

Yingtao tinha uma bela aparência e fragrância e foi favorecido (ze)
Resplandecentemente serviu no quarto e monopolizou os apartamentos privados.
Na câmara de ouvir foram roupas finas para trinta mil mulheres
O rei pescador de olhos castanhos não pode ser visto no espelho claro

O conto trágico de ignorar suas esposas enquanto está envolvido com um belo jovem é um pathos bem comum em toda a literatura, que inclusive se repetiu na pena de grandes escritores modernos e contemporâneos, mas a linguagem indireta, típica da poesia Tang, rende um significado opaco para os leitores ocidentais que possam não estar avisados sobre a tendência da poesia chinesa de camuflar o sexo (seja ele homoerótico ou entre um homem e uma mulher). Traduzindo o texto podemos entendê-lo assim: a câmara de ouvir está repleta de roupas (30 mil) que representam as concubinas do general que estavam sendo negligenciadas, os olhos castanhos do rei é uma sinédoque para as mulheres enquanto o próprio espelho claro é o general. O poeta condensa a beleza trágica no mínimo espaço, usando imagens densas de significado complexo.
Bret Hinsch chama atenção ainda para o significado da palavra ze, que traduzimos como favorito ou favorecido. Esta palavra tem o significado original ligado a pântano, charco; um significado literal pode ser dado para terra fértil, fertilizar, e conforme o tempo ganhou o sentido de favorecer, aquela terra que favorece seu dono, benefício. A partir daí, o significado passa a ser também o daquele homem que é protegido, enricado e também fertilizado pelo seu amante. Bret Hinsch chama atenção do sistema de patronato e prostituição que liga os homens na China Antiga. É importante lembrar que o casamento é na China um excelente meio de ascensão social tanto para homens quanto para mulheres e os homens também podia, e faziam frequentemente, se envolver com homens que podia tornar-se seus mantenedores, sustentando-os como era possível fazer com uma esposa ou concubina, levando em consideração que a China permitia na Antiguidade tanto o casamento entre dois homens como o casamento entre um homem de uma mulher (não existem registros de casamento lésbico), como também a lei permitia a poligamia e além de haver uma esposa principal era possível adotar concubinas que, não era impossível, também podiam ser homens. 
É necessário fazer um afirmação aqui: costumeiramente o casamento é apresentado como uma instituição que não mudou na história da humanidade, apresenta-se que a família nuclear (pai-mãe-filhos) é um modelo que sempre existiu. Temos visto aqui que esta é uma falácia enganadora, não precisamos contar que ainda hoje os árabes e os nativos brasileiros (algumas tribos) têm uma família que inclui um marido-várias esposas-filhos, mas é preciso sobretudo afirmar que na história da humanidade o casamento nem sempre seguiu este modelo que hoje é protegido como se fosse a base de nossa sociedade. A família é realmente o grupo básico da organização social humana dentro da história, contudo as formulações do que é uma família mudaram extremamente durante o trajeto humano na Terra. Nosso modelo social não é natural, ele foi imposto com objetivos políticos bem específicos, mas esse é um assunto para outro texto.

terça-feira, 23 de julho de 2013

China: O Vento Sul

, em Natal - RN, Brasil


As fontes dos quais se originaram os deuses que fazem parte dos mitos chineses são inúmeras, porém nós temos na China quatro bases religiosas, o culto universal dos antepassados, que constitui (ou fez até 1912 d.C.) o Estado, o confucionismo, temos deuses também de religiões específicas como o budismo e o taoísmo, e por fim uma série de religiões xamânicas que existiam antes de todas estas religiões que foram adotadas pelo Estado, estas religiões xamânicas eram toleradas pelo Estado chinês, mas não reconhecidas como religiões chinesas. É com um breve relato desse hierarquia e sua mitologia que agora vamos nos preocupar.
Além do ancestral comum que era adorado, e o culto do Estado, as pessoas tomaram o Budismo e o Taoísmo, que se tornaram as religiões populares, e os literatos também homenagearam os deuses dessas duas seitas. Divindades budistas gradualmente se instalaram em templos taoístas, e os imortais taoístas ganharam assentos ao lado do Buddhas em seus santuários. Cada um adotando o deus que lhe parecia o mais popular e mais lucrativo. Há até aqueles que chegaram a estar unidos no mesmo templo e adorar no mesmo altar os três fundadores religiosos ou figura-cabeças, Confúcio, Buda e Lao Tzu. As três religiões foram sequer consideradas como formando um todo, ou pelo menos, apesar de diferente, como ter um único e mesmo objeto: san Erh i yeh , ou han san wei i ", os três são um", ou "os três se unem para uma forma" (a citação da frase T'ai chi han san wei i de Fang Yu-lu: "Quando eles chegam ao extremo os três são vistos como um"). Nas representações pictóricas do panteão desta imparcialidade é claramente mostrada.
Um deus taoísta é Lan Caihe. Este é um dos Oito Imortais do Taoísmo. Este imortal é normalmente representado com roupas sexualmente ambíguas, sempre muito jovem, como um menino ou uma menina carregando uma cesta de bambu com flores. As histórias sobre o comportamento de Lan costumam ser considerado erráticas, em algumas fontes ele aparece vestido de azul, e se referem a ele como o imortal patrono dos trovadores. Em outra tradição ele é uma cantora cujas canções, acompanhadas de suas castanholas, preveem o futuro com precisão. Sua música é sempre acompanhada com bater de palmas e marcações com os pés no chão. Quem ouve sua música sempre se diverte e, ao ouvi-la, deve doar moedas aos mais necessitados. Sua versão masculina é bastante parecida com os outros sete imortais. Conta-se que ele, um dia, estava bêbado em uma taverna e levantara-se para ir ao banheiro, no caminho foi sequestrado por um cisne, no caminho suas roupas caíram, por isso ele é frequentemente descrito usando apenas um sapato, sempre nu no inverno, no entanto, ele também é descrito usando roupas grossas do verão.
O Taoísmo chinês é caracterizado por esta constante necessidade de manter as relações homoeróticas sob um princípio dúbio, como já vimos. Controlados de perto pelo Estado e voltado sobretudo para as camadas mais elitizadas da população, o Tao é o caminho da virtude. Um de seus textos sagrados, Os Provérbios de Lao Tzu, diz: 

Aquele que age de acordo com o Tao, torna-se um com o Tao. Aquele que segue o caminho da virtude torna-se um com a virtude. Aquele que segue um curso da vitória torna-se um com o vitória. O homem que é um com Tao, Tao também tem o prazer de  o receber. O homem que é um com a virtude, a virtude também tem o prazer de o receber. O homem que é um com o vitória, a vitória também tem o prazer de o receber.

No entanto, nos níveis mais populares, as referências religiosas eram em sua maioria baseadas na tradição xamânica pré-taoista e pré-confucionista, personalidades divinizadas. Um dos exemplos destes mitos é o deus das relações sexuais anais, Zhou-Wang. Zhou foi o último imperador da dinastia Shang (1766-1046 a.C.) e era muito dado a devassidão. Seu passatempo favorito era fazer seus escravos nadarem pelados numa piscina cheia de vinho. Quando foi derrubado, apesar da ajuda de Cai-Shen, o grande guerreiro que montava um tigre negro, e ascendeu aos céus para usufruir de sua imortalidade, não havia nada apropriado para ele reger na criação. Deste modo, os juízes celestiais criaram um posto especial para ele: deus das relações sexuais anais. Foi-lhe então concedido um templo em Henan. Zhou-Wang é um exemplo de um personagem que não vive pelo caminho do Tao, o que o faz provavelmente por ter relação com a tradição xamânica anterior ao Taoísmo, que era sobretudo matriarcal, e, portanto, não vive preso dentro dos dogmas da religião. 
Na tradição popular o mesmo problema moral não ocorre. Entre a população acostumada com as regras de sua religião xamânica, liderada por sacerdotisas que estabeleciam uma espécie de religião matriarcal, as regras morais não eram as mesmas que eram impostas a elite da sociedade chinesa, que precisava usar inúmeros subterfúgios para falar dos mesmos assuntos, usando as metáforas que citamos antes, inclusive uma última, o Vento Sul, porque o amor entre pessoas do mesmo sexo havia sido inventado em um sul mítico e teria sido trazido a China pelo vento. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

China: Não Aceite Conselhos de Homens Bonitos

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O Período dos Reinos Combatentes ocorreu de meados do século V a.C. até a unificação da China por Qin Shi Huan em 221 a.C.. Sua data de início costuma ser discutida, mas frequentemente cita-se 475 a.C., data da tripartição do reino de Jin, ou também o Período das Primaveras e Outonos, em 403 a.C. O nome de "Reinos Combates" vem de uma obra histórica compilada no século I a.C., em que uma coletânea de textos dos dois séculos anteriores - época extremamente importante do pensamento filosófico e da ciência chinesa - é marcado pela decadência política, pelo fim da capacidade de arbítrio e soberania da Dinastia Zhou sobre os problemas internos e o início de confrontos que vai separar o império em três. A guerra se intensifica no período, o que aparece nos inúmeros tratados militares publicados à época, estes demonstram a rápida evolução na maneira como executar a guerra. É deste período, por exemplo, os tratados de Guerra como a Arte da Guerra, de Sun Tzu, além dos livros de Sun Pin e Er-Hu. Estes célebres generais ousaram estabelecer técnicas cada vez mais refinadas para a guerra. 
Uma dessas técnicas está presente no livro do filósofo Mo Tzu. Ele adverte aos governantes de todos os estados ao usar, na guerra, os parentes e os homens bonitos como oficiais de justiça, porque estes levariam a uma má gestão do Estado. Mo Tzu não está falando, na verdade, para um governante específico, ele faz uma declaração geral para os "reis e senhores de hoje". O filósofo, contudo, não é contra o amor por pessoas do mesmo gênero, assim como ele não é contra os laços familiares, o que ele critica aqui é o nepotismo e o favoritismo, que segundo ele, é uma prática generalizada nos reinos da China. 
Mo Tzu dá exemplos de como a beleza pode destruir um reino, explica Tan Chong Kee. Ele conta primeiro a história do estado de Wu, em que Xi Shi, uma das mulheres mais bonitas que se tem registro na história chinesa, é usada para distrair o rei, abrindo caminho para a conquista do reino pelo rei de Yue. O exemplo seguinte dado pelo filósofo é do senhor de Jing que queria invadir Yu, porém como o senhor de Yu tinha um sábio conselheiro, este frustrava os seus planos. Então o senhor de Jing deu de presente ao senhor de Yu um homem extremamente bonito, o que era pratica comum presentear reis com concubinas, eunucos ou jovens rapazes, o rei ficou tão encantado por este belo homem que recusou-se a ouvir os conselhos de seu antigo conselheiro, ouvindo apenas os conselhos do seu belo amante. Aproveitando a oportunidade o rei de Jing invadiu e anexou Yu. 
É interessante notar como Mo Tzu faz um paralelo entre as duas histórias, do rei de Wu e de Yu, o primeiro distraído por uma mulher, o segundo por um homem. Não existe nenhuma crítica maior ao rei de Yu por este ter se rendido aos encantos de um homem. A critica só se dá no âmbito de abandonar seus deveres como rei e governante para se dedicar somente aos prazeres oferecidos pela beleza física de outra pessoa, independente do seu gênero. Não há estigma algum específico para as relações homoeróticas, elas são criticadas, quando o são, sempre no mesmo nível que relações heteroeróticas.




terça-feira, 25 de junho de 2013

China: O Rosto de Jade

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A complexidade das relações homoeróticas, como todas as relações humanas, inevitavelmente, levou à criação de obras poéticas imortalizando sentimentos conflitantes, não os sentimentos comuns no mundo contemporâneo de negação do desejo pela pessoa com o mesmo sexo, mas as situações de desejo e amor não correspondido que são frequentes em todo tipo de relacionamento amoroso humano. Ruan Ji, que viveu entre 210 e 263 d.C., amante de Xi Kang, foi um dos poetas mais famosos ao aplicar o pincel com um tema homoerótico. Sua principal obra, O Terraço de Jade, configura uma coleção de poesias de amor em que o tema homoerótico perpassa boa parte delas e ilustra muito bem a realidade vivida pelos homens chineses da Antiguidade. Rhuan Ji saca um arquivo de imagens com os quais os homens de seu tempo poderiam desenhar, conceituar e descrever o amor por outro homem. Vejamos um trecho de sua poesia:

Nos dias de idade, havia muitos meninos em flor -
Um Ling e Long Yang
deslumbrante com brilho glorioso.
Alegre como noves primaveras;
Flexivelmente foi como se inclinou até ao outono de geada.
Olhares errantes deu origem a belas seduções;
Discurso e fragrância, riso expulso.
Lado a lado eles compartilhavam êxtase do amor,
partilhavam travesseiros e roupas de cama.
Casais de aves em voo,
asas. emparelhados crescentes
Vermelho e pigmentos verdes gravam um voto:
"que eu nunca vou esquecer de você por toda a eternidade"
E da mesma forma que a poesia utilizava as estórias populares como referências, o estilo literário surgido dois séculos depois na China, a História, também imitou o mesmo modelo para falar sobre as relações entre pessoas do mesmo gênero. Um exemplo é Os Novos Contos do Mundo, escritos por Liu Yiqing, entre 404 e 444 d.C., uma coleção notável de anedotas e discursos famosos, mas também um grande registro de fofocas, principalmente histórias de alcova, sobre as grandes figuras da história chinesas nos três séculos anteriores. Explica Bret Hinsch, inclusive, que o livro está convenientemente dividido em temas como "Casos Amorosos de Imperadores" ou "Cartas e Livros", um capítulo inclusive é destinado para falar sobre a beleza dos homens.
O capítulo "Aparência e Comportamento", além de listar os homens mais belos da história chinesa, também fala de como as outras pessoas em torno deles se comportavam graças a beleza que eles possuíam. Hinsch ainda reforça que por este capitulo se torna claro que os homens do século V d.C. discutiam com frequência sobre a beleza masculina. No entanto, essa discussão, raramente ganha um tom sexualizado, como por exemplo ao citar o relacionamento entre o poeta Pan Yue (247-300) e Xiahou Zhan (243-291). Eles são descritos como "irmãos jurados" e que por causa disso deviam vagar juntos, são descritos também como extremamente bonitos, mas não existe nenhuma referência a alguma relação sexual entre eles, a não ser o fato de que eles são chamados pelos seus contemporâneos, deixa claro Liu Yiqing, de "rostos de jade ligado". Este motivo que aparece nas poesias de Ruan Ji e Bo Xingjian é a única referência que deixa claro que entre estes dois homens também existia uma relação sexual. No entanto, este pudor em não descrever a relação sexual não é uma crítica a relação homoerótica, mas um pudor referente a qualquer ato sexual fosse ele entre dois homens, duas mulheres ou entre um homem e uma mulher.
Esta não é, lembra Hinsch, a única passagem do Contos do Mundo com referências homoeróticas. Por exemplo temos a história de Huan Wen (312-373), um marechal da corte de Jin Ocidental, que pergunta ao seu subordinado Wang Xun sua opinião sobre a aparência do príncipe-chanceler Sima Yu. Wang Xu responde que o príncipe-chanceler tomou para si a responsabilidade do governo e é naturalmente majestoso como todo governante divino. Mas, afirmou Wang Xu, que o marechal também era admirado por todos os homens. Ele ainda reforça dizendo que, se isto não era verdade, como o vice-presidente da corte dos secretários haveria se colocado a disposição do marechal. Este trecho remonta a estrita hierarquia em que os chineses viviam encabeçada pelo imperador, seus secretários em seguida, toda a corte que vivia dentro do palácio, os marechais, generais, coronéis e tenentes, etc; contudo, o que deixa claro o texto é que essa hierarquia também deveria ser reproduzida nas relações sociais e um homem de hierarquia superior não deveria se submeter (e isto quer dizer ser passivo no ato sexual) a um homem de hierarquia inferior, porém, apesar desta regra social, o desejo e o amor constantemente faziam com que tal regra fosse ignorada.
A beleza masculina era tão valorizada que, comumente, homens tentavam métodos para se tornarem mais bonitos porque isso gerava-lhe frutos na ascensão social. Alguns inclusive são criticados por exagerarem, como o caso de Zuo Si (306 d.C.), mas como o homem perfeito era descrito como de cabelos oleosos, pele branca e nádegas pequenas e reluzentes era comum que homens usassem pó de arroz para deixar a pele mais branca, apesar que o nome de Pó Bárbaro deixe a entender que a prática não se originou entre os chineses, também usassem alguns óleos perfumados nos cabelos. A beleza dos homens podia fazê-los atrair para si o desejo de homens poderosos, de lugares hierárquicos superiores aos dele, e a partir daí melhorar sua vida, ascensionando ele socialmente para outras esferas sociais através, inclusive, do casamento. Sim, na China Antiga também era possível o casamento entre homens.


terça-feira, 11 de junho de 2013

China: A Árvore do Travesseiro Compartilhado

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Provavelmente o conto mais romântico de amor homoerótico, como afirma James Neill, é a história entre o governador de Chu, Wang Zongxian, e o jovem filósofo Pan Zhang. Ela se originou na Era Zhou, entre 770 e 256 a.C., é com certeza uma das histórias de amor mais antigas do mundo. Podemos narra-la assim: 

Quando Pan Zhang era jovem, ele tinha uma bela [mei] aparência e uma grande reputação como acadêmico e filósofo, além disso ele era educado e sabia tratar bem as pessoas e por isso todos os que o conheciam se tornavam extremamente afeiçoados a ele. Wang Zhongxian, governador do estado de Chu, ouvido falar de sua reputação, quis conhecê-lo e para isso solicitou seus escritos. O governador leu avidamente os textos filosóficos de Pan Zhang e decidiu que gostaria de conhecer este jovem tão hábil e cheio de talentos. Decidiu convocá-lo então para que o jovem o ensinasse seus conhecimentos sobre o mundo.   
Porém, quando eles se conheceram, imediatamente se apaixonaram. Foi amor à primeira vista e, sendo o amor correspondido, logo o governador tomou o jovem Pan Zhang como marido, e passou a compartilhar com o filósofo o mesmo cobertor e travesseiro com intimidade sem limites um para o outro. Wang e Pan tiveram uma vida feliz, amaram-se ternamente até o dia em que a morte chegou. Morreram juntos porque não conseguiriam mais viver separados e todos lamentaram por eles. 
Quando Wang e Pan foram enterrados juntos no pico da Montanha Lofu no seu túmulo cresceram de repente duas árvores com ramos longos e galhos frondosos. Os galhos estavam todos entrelaçados, parecia que as árvores abraçavam uma a outra! Todos consideraram aquilo um milagre. E as árvores foram chamadas de "Árvore do Travesseiro Compartilhado". 

Este exemplo romântico, como afirma Neill, é um exemplo que nos mostra, estritamente, como o amor homoerótico não estava destinado apenas ao amor fora do casamento ou apenas o divertimento das classes mais abastadas, o motivo da árvore que cresce sobre as tumbas é um motivo que sempre aparece nos mitos chineses que também se relacionam a casamentos entre homens e mulheres os quais são exemplos de amor incondicional. Isto denota que o amor entre dois homens e duas mulheres estava colocado no mesmo exato lugar que o amor entre um homem e uma mulher na China Antiga. Existe a clara consciência de que estes amores e a permanência de suas uniões é distinta daquelas que acontecem entre gêneros diferentes. 
Outro conto do mesmo período fala sobre o tímido oficial Zhuang Xin e seu senhor Xiang Cheng. A história é narrada assim:

Zhuang Xin queimava de amor pelo seu senhor Xiang Cheng a tal ponto que chegou a ele e pediu: "Posso segurar sua mão?". O senhor, assustado com aquela proposta, nada disse. Desesperado, Zhuang Xin contou ao seu senhor a história de outro governador, que havia também sido amado em segredo pelo seu barqueiro, que cantava: "Que dia maravilhoso é este, que posso dividir meu barco com o senhor, meu príncipe! Indigno eu sou deste meu desejo, quando eu senti tamanha vergonha? Meu coração está perplexo sem fim, eu tenho que conhecê-lo melhor, meu príncipe. Existem árvores nas montanhas, e galhos nas árvores. Eu desejo agradar-te e tu não sabes". Encantado pela canção do barqueiro, o governador aceitou seu amor. Depois que Xiang Cheng ouviu a história que Zhuang Xin contava sobre o governador, ele decidiu segurar em sua mão e também aceitou o seu amor.

O que aparece, neste caso, é basicamente o problema do status de servo que Zhuang Xin tem em relação a Xiang Cheng, seu senhor, que o impede de tomar qualquer medida primeiro em relação ao seu objeto de amor. Contudo, Zhuang a toma, ao pedir que o senhor segure-lhe a mão, o choque do senhor que fica em silêncio é, ainda, por causa do atrevimento do servo de condição social inferior a ele tomar a liberdade de agir primeiro. Xiang Cheng estava indignado! Porém quando o servo conta-lhe a história do príncipe e do barqueiro, seu coração se comove e ele aceita o amor. Este conto nos mostra que a tradição literária era usada não somente para ilustrar a consciência dos chineses em relação ao amor homoerótico, mas que também serve para o servo dizer o que ele está sentindo, comunicando seu dilema para o seu senhor Xiang, que os contos de amor homoeróticos que pertenciam a tradição literária chinesa tinham o objetivo de além de demonstrar a existência deste tipo de amor naquela sociedade, poderiam participar dos rituais de galanteio entre os amantes.