Google+ Estórias Do Mundo: China
Mostrando postagens com marcador China. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador China. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 6 de agosto de 2013

China: O Favorito do Tigre de Pedra

, em Natal - RN, Brasil


É o poeta Li Qi, da dinastia Jin (250-406 d.C.) quem canta sobre o amor entre o general Ji Long, chamado de Tigre de Pedra, e o jovem cantor chamado Zheng YingTao. Li Qi parece fascinado pela violência deste amor, o amor caótico que o Tigre de Pedra representa. Não satisfeito por dividir o seu amor com as duas esposas dele, o jovem cantor caluniou então as esposas, fazendo com que o general tivesse que matá-las, Li Qi imortalizou o conflito de ambos em seus versos: 

Yingtao tinha uma bela aparência e fragrância e foi favorecido (ze)
Resplandecentemente serviu no quarto e monopolizou os apartamentos privados.
Na câmara de ouvir foram roupas finas para trinta mil mulheres
O rei pescador de olhos castanhos não pode ser visto no espelho claro

O conto trágico de ignorar suas esposas enquanto está envolvido com um belo jovem é um pathos bem comum em toda a literatura, que inclusive se repetiu na pena de grandes escritores modernos e contemporâneos, mas a linguagem indireta, típica da poesia Tang, rende um significado opaco para os leitores ocidentais que possam não estar avisados sobre a tendência da poesia chinesa de camuflar o sexo (seja ele homoerótico ou entre um homem e uma mulher). Traduzindo o texto podemos entendê-lo assim: a câmara de ouvir está repleta de roupas (30 mil) que representam as concubinas do general que estavam sendo negligenciadas, os olhos castanhos do rei é uma sinédoque para as mulheres enquanto o próprio espelho claro é o general. O poeta condensa a beleza trágica no mínimo espaço, usando imagens densas de significado complexo.
Bret Hinsch chama atenção ainda para o significado da palavra ze, que traduzimos como favorito ou favorecido. Esta palavra tem o significado original ligado a pântano, charco; um significado literal pode ser dado para terra fértil, fertilizar, e conforme o tempo ganhou o sentido de favorecer, aquela terra que favorece seu dono, benefício. A partir daí, o significado passa a ser também o daquele homem que é protegido, enricado e também fertilizado pelo seu amante. Bret Hinsch chama atenção do sistema de patronato e prostituição que liga os homens na China Antiga. É importante lembrar que o casamento é na China um excelente meio de ascensão social tanto para homens quanto para mulheres e os homens também podia, e faziam frequentemente, se envolver com homens que podia tornar-se seus mantenedores, sustentando-os como era possível fazer com uma esposa ou concubina, levando em consideração que a China permitia na Antiguidade tanto o casamento entre dois homens como o casamento entre um homem de uma mulher (não existem registros de casamento lésbico), como também a lei permitia a poligamia e além de haver uma esposa principal era possível adotar concubinas que, não era impossível, também podiam ser homens. 
É necessário fazer um afirmação aqui: costumeiramente o casamento é apresentado como uma instituição que não mudou na história da humanidade, apresenta-se que a família nuclear (pai-mãe-filhos) é um modelo que sempre existiu. Temos visto aqui que esta é uma falácia enganadora, não precisamos contar que ainda hoje os árabes e os nativos brasileiros (algumas tribos) têm uma família que inclui um marido-várias esposas-filhos, mas é preciso sobretudo afirmar que na história da humanidade o casamento nem sempre seguiu este modelo que hoje é protegido como se fosse a base de nossa sociedade. A família é realmente o grupo básico da organização social humana dentro da história, contudo as formulações do que é uma família mudaram extremamente durante o trajeto humano na Terra. Nosso modelo social não é natural, ele foi imposto com objetivos políticos bem específicos, mas esse é um assunto para outro texto.

terça-feira, 23 de julho de 2013

China: O Vento Sul

, em Natal - RN, Brasil


As fontes dos quais se originaram os deuses que fazem parte dos mitos chineses são inúmeras, porém nós temos na China quatro bases religiosas, o culto universal dos antepassados, que constitui (ou fez até 1912 d.C.) o Estado, o confucionismo, temos deuses também de religiões específicas como o budismo e o taoísmo, e por fim uma série de religiões xamânicas que existiam antes de todas estas religiões que foram adotadas pelo Estado, estas religiões xamânicas eram toleradas pelo Estado chinês, mas não reconhecidas como religiões chinesas. É com um breve relato desse hierarquia e sua mitologia que agora vamos nos preocupar.
Além do ancestral comum que era adorado, e o culto do Estado, as pessoas tomaram o Budismo e o Taoísmo, que se tornaram as religiões populares, e os literatos também homenagearam os deuses dessas duas seitas. Divindades budistas gradualmente se instalaram em templos taoístas, e os imortais taoístas ganharam assentos ao lado do Buddhas em seus santuários. Cada um adotando o deus que lhe parecia o mais popular e mais lucrativo. Há até aqueles que chegaram a estar unidos no mesmo templo e adorar no mesmo altar os três fundadores religiosos ou figura-cabeças, Confúcio, Buda e Lao Tzu. As três religiões foram sequer consideradas como formando um todo, ou pelo menos, apesar de diferente, como ter um único e mesmo objeto: san Erh i yeh , ou han san wei i ", os três são um", ou "os três se unem para uma forma" (a citação da frase T'ai chi han san wei i de Fang Yu-lu: "Quando eles chegam ao extremo os três são vistos como um"). Nas representações pictóricas do panteão desta imparcialidade é claramente mostrada.
Um deus taoísta é Lan Caihe. Este é um dos Oito Imortais do Taoísmo. Este imortal é normalmente representado com roupas sexualmente ambíguas, sempre muito jovem, como um menino ou uma menina carregando uma cesta de bambu com flores. As histórias sobre o comportamento de Lan costumam ser considerado erráticas, em algumas fontes ele aparece vestido de azul, e se referem a ele como o imortal patrono dos trovadores. Em outra tradição ele é uma cantora cujas canções, acompanhadas de suas castanholas, preveem o futuro com precisão. Sua música é sempre acompanhada com bater de palmas e marcações com os pés no chão. Quem ouve sua música sempre se diverte e, ao ouvi-la, deve doar moedas aos mais necessitados. Sua versão masculina é bastante parecida com os outros sete imortais. Conta-se que ele, um dia, estava bêbado em uma taverna e levantara-se para ir ao banheiro, no caminho foi sequestrado por um cisne, no caminho suas roupas caíram, por isso ele é frequentemente descrito usando apenas um sapato, sempre nu no inverno, no entanto, ele também é descrito usando roupas grossas do verão.
O Taoísmo chinês é caracterizado por esta constante necessidade de manter as relações homoeróticas sob um princípio dúbio, como já vimos. Controlados de perto pelo Estado e voltado sobretudo para as camadas mais elitizadas da população, o Tao é o caminho da virtude. Um de seus textos sagrados, Os Provérbios de Lao Tzu, diz: 

Aquele que age de acordo com o Tao, torna-se um com o Tao. Aquele que segue o caminho da virtude torna-se um com a virtude. Aquele que segue um curso da vitória torna-se um com o vitória. O homem que é um com Tao, Tao também tem o prazer de  o receber. O homem que é um com a virtude, a virtude também tem o prazer de o receber. O homem que é um com o vitória, a vitória também tem o prazer de o receber.

No entanto, nos níveis mais populares, as referências religiosas eram em sua maioria baseadas na tradição xamânica pré-taoista e pré-confucionista, personalidades divinizadas. Um dos exemplos destes mitos é o deus das relações sexuais anais, Zhou-Wang. Zhou foi o último imperador da dinastia Shang (1766-1046 a.C.) e era muito dado a devassidão. Seu passatempo favorito era fazer seus escravos nadarem pelados numa piscina cheia de vinho. Quando foi derrubado, apesar da ajuda de Cai-Shen, o grande guerreiro que montava um tigre negro, e ascendeu aos céus para usufruir de sua imortalidade, não havia nada apropriado para ele reger na criação. Deste modo, os juízes celestiais criaram um posto especial para ele: deus das relações sexuais anais. Foi-lhe então concedido um templo em Henan. Zhou-Wang é um exemplo de um personagem que não vive pelo caminho do Tao, o que o faz provavelmente por ter relação com a tradição xamânica anterior ao Taoísmo, que era sobretudo matriarcal, e, portanto, não vive preso dentro dos dogmas da religião. 
Na tradição popular o mesmo problema moral não ocorre. Entre a população acostumada com as regras de sua religião xamânica, liderada por sacerdotisas que estabeleciam uma espécie de religião matriarcal, as regras morais não eram as mesmas que eram impostas a elite da sociedade chinesa, que precisava usar inúmeros subterfúgios para falar dos mesmos assuntos, usando as metáforas que citamos antes, inclusive uma última, o Vento Sul, porque o amor entre pessoas do mesmo sexo havia sido inventado em um sul mítico e teria sido trazido a China pelo vento. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

China: Não Aceite Conselhos de Homens Bonitos

, em Natal - RN, Brasil



O Período dos Reinos Combatentes ocorreu de meados do século V a.C. até a unificação da China por Qin Shi Huan em 221 a.C.. Sua data de início costuma ser discutida, mas frequentemente cita-se 475 a.C., data da tripartição do reino de Jin, ou também o Período das Primaveras e Outonos, em 403 a.C. O nome de "Reinos Combates" vem de uma obra histórica compilada no século I a.C., em que uma coletânea de textos dos dois séculos anteriores - época extremamente importante do pensamento filosófico e da ciência chinesa - é marcado pela decadência política, pelo fim da capacidade de arbítrio e soberania da Dinastia Zhou sobre os problemas internos e o início de confrontos que vai separar o império em três. A guerra se intensifica no período, o que aparece nos inúmeros tratados militares publicados à época, estes demonstram a rápida evolução na maneira como executar a guerra. É deste período, por exemplo, os tratados de Guerra como a Arte da Guerra, de Sun Tzu, além dos livros de Sun Pin e Er-Hu. Estes célebres generais ousaram estabelecer técnicas cada vez mais refinadas para a guerra. 
Uma dessas técnicas está presente no livro do filósofo Mo Tzu. Ele adverte aos governantes de todos os estados ao usar, na guerra, os parentes e os homens bonitos como oficiais de justiça, porque estes levariam a uma má gestão do Estado. Mo Tzu não está falando, na verdade, para um governante específico, ele faz uma declaração geral para os "reis e senhores de hoje". O filósofo, contudo, não é contra o amor por pessoas do mesmo gênero, assim como ele não é contra os laços familiares, o que ele critica aqui é o nepotismo e o favoritismo, que segundo ele, é uma prática generalizada nos reinos da China. 
Mo Tzu dá exemplos de como a beleza pode destruir um reino, explica Tan Chong Kee. Ele conta primeiro a história do estado de Wu, em que Xi Shi, uma das mulheres mais bonitas que se tem registro na história chinesa, é usada para distrair o rei, abrindo caminho para a conquista do reino pelo rei de Yue. O exemplo seguinte dado pelo filósofo é do senhor de Jing que queria invadir Yu, porém como o senhor de Yu tinha um sábio conselheiro, este frustrava os seus planos. Então o senhor de Jing deu de presente ao senhor de Yu um homem extremamente bonito, o que era pratica comum presentear reis com concubinas, eunucos ou jovens rapazes, o rei ficou tão encantado por este belo homem que recusou-se a ouvir os conselhos de seu antigo conselheiro, ouvindo apenas os conselhos do seu belo amante. Aproveitando a oportunidade o rei de Jing invadiu e anexou Yu. 
É interessante notar como Mo Tzu faz um paralelo entre as duas histórias, do rei de Wu e de Yu, o primeiro distraído por uma mulher, o segundo por um homem. Não existe nenhuma crítica maior ao rei de Yu por este ter se rendido aos encantos de um homem. A critica só se dá no âmbito de abandonar seus deveres como rei e governante para se dedicar somente aos prazeres oferecidos pela beleza física de outra pessoa, independente do seu gênero. Não há estigma algum específico para as relações homoeróticas, elas são criticadas, quando o são, sempre no mesmo nível que relações heteroeróticas.




terça-feira, 25 de junho de 2013

China: O Rosto de Jade

, em Natal - RN, Brasil


A complexidade das relações homoeróticas, como todas as relações humanas, inevitavelmente, levou à criação de obras poéticas imortalizando sentimentos conflitantes, não os sentimentos comuns no mundo contemporâneo de negação do desejo pela pessoa com o mesmo sexo, mas as situações de desejo e amor não correspondido que são frequentes em todo tipo de relacionamento amoroso humano. Ruan Ji, que viveu entre 210 e 263 d.C., amante de Xi Kang, foi um dos poetas mais famosos ao aplicar o pincel com um tema homoerótico. Sua principal obra, O Terraço de Jade, configura uma coleção de poesias de amor em que o tema homoerótico perpassa boa parte delas e ilustra muito bem a realidade vivida pelos homens chineses da Antiguidade. Rhuan Ji saca um arquivo de imagens com os quais os homens de seu tempo poderiam desenhar, conceituar e descrever o amor por outro homem. Vejamos um trecho de sua poesia:

Nos dias de idade, havia muitos meninos em flor -
Um Ling e Long Yang
deslumbrante com brilho glorioso.
Alegre como noves primaveras;
Flexivelmente foi como se inclinou até ao outono de geada.
Olhares errantes deu origem a belas seduções;
Discurso e fragrância, riso expulso.
Lado a lado eles compartilhavam êxtase do amor,
partilhavam travesseiros e roupas de cama.
Casais de aves em voo,
asas. emparelhados crescentes
Vermelho e pigmentos verdes gravam um voto:
"que eu nunca vou esquecer de você por toda a eternidade"
E da mesma forma que a poesia utilizava as estórias populares como referências, o estilo literário surgido dois séculos depois na China, a História, também imitou o mesmo modelo para falar sobre as relações entre pessoas do mesmo gênero. Um exemplo é Os Novos Contos do Mundo, escritos por Liu Yiqing, entre 404 e 444 d.C., uma coleção notável de anedotas e discursos famosos, mas também um grande registro de fofocas, principalmente histórias de alcova, sobre as grandes figuras da história chinesas nos três séculos anteriores. Explica Bret Hinsch, inclusive, que o livro está convenientemente dividido em temas como "Casos Amorosos de Imperadores" ou "Cartas e Livros", um capítulo inclusive é destinado para falar sobre a beleza dos homens.
O capítulo "Aparência e Comportamento", além de listar os homens mais belos da história chinesa, também fala de como as outras pessoas em torno deles se comportavam graças a beleza que eles possuíam. Hinsch ainda reforça que por este capitulo se torna claro que os homens do século V d.C. discutiam com frequência sobre a beleza masculina. No entanto, essa discussão, raramente ganha um tom sexualizado, como por exemplo ao citar o relacionamento entre o poeta Pan Yue (247-300) e Xiahou Zhan (243-291). Eles são descritos como "irmãos jurados" e que por causa disso deviam vagar juntos, são descritos também como extremamente bonitos, mas não existe nenhuma referência a alguma relação sexual entre eles, a não ser o fato de que eles são chamados pelos seus contemporâneos, deixa claro Liu Yiqing, de "rostos de jade ligado". Este motivo que aparece nas poesias de Ruan Ji e Bo Xingjian é a única referência que deixa claro que entre estes dois homens também existia uma relação sexual. No entanto, este pudor em não descrever a relação sexual não é uma crítica a relação homoerótica, mas um pudor referente a qualquer ato sexual fosse ele entre dois homens, duas mulheres ou entre um homem e uma mulher.
Esta não é, lembra Hinsch, a única passagem do Contos do Mundo com referências homoeróticas. Por exemplo temos a história de Huan Wen (312-373), um marechal da corte de Jin Ocidental, que pergunta ao seu subordinado Wang Xun sua opinião sobre a aparência do príncipe-chanceler Sima Yu. Wang Xu responde que o príncipe-chanceler tomou para si a responsabilidade do governo e é naturalmente majestoso como todo governante divino. Mas, afirmou Wang Xu, que o marechal também era admirado por todos os homens. Ele ainda reforça dizendo que, se isto não era verdade, como o vice-presidente da corte dos secretários haveria se colocado a disposição do marechal. Este trecho remonta a estrita hierarquia em que os chineses viviam encabeçada pelo imperador, seus secretários em seguida, toda a corte que vivia dentro do palácio, os marechais, generais, coronéis e tenentes, etc; contudo, o que deixa claro o texto é que essa hierarquia também deveria ser reproduzida nas relações sociais e um homem de hierarquia superior não deveria se submeter (e isto quer dizer ser passivo no ato sexual) a um homem de hierarquia inferior, porém, apesar desta regra social, o desejo e o amor constantemente faziam com que tal regra fosse ignorada.
A beleza masculina era tão valorizada que, comumente, homens tentavam métodos para se tornarem mais bonitos porque isso gerava-lhe frutos na ascensão social. Alguns inclusive são criticados por exagerarem, como o caso de Zuo Si (306 d.C.), mas como o homem perfeito era descrito como de cabelos oleosos, pele branca e nádegas pequenas e reluzentes era comum que homens usassem pó de arroz para deixar a pele mais branca, apesar que o nome de Pó Bárbaro deixe a entender que a prática não se originou entre os chineses, também usassem alguns óleos perfumados nos cabelos. A beleza dos homens podia fazê-los atrair para si o desejo de homens poderosos, de lugares hierárquicos superiores aos dele, e a partir daí melhorar sua vida, ascensionando ele socialmente para outras esferas sociais através, inclusive, do casamento. Sim, na China Antiga também era possível o casamento entre homens.


terça-feira, 11 de junho de 2013

China: A Árvore do Travesseiro Compartilhado

, em Natal - RN, Brasil



Provavelmente o conto mais romântico de amor homoerótico, como afirma James Neill, é a história entre o governador de Chu, Wang Zongxian, e o jovem filósofo Pan Zhang. Ela se originou na Era Zhou, entre 770 e 256 a.C., é com certeza uma das histórias de amor mais antigas do mundo. Podemos narra-la assim: 

Quando Pan Zhang era jovem, ele tinha uma bela [mei] aparência e uma grande reputação como acadêmico e filósofo, além disso ele era educado e sabia tratar bem as pessoas e por isso todos os que o conheciam se tornavam extremamente afeiçoados a ele. Wang Zhongxian, governador do estado de Chu, ouvido falar de sua reputação, quis conhecê-lo e para isso solicitou seus escritos. O governador leu avidamente os textos filosóficos de Pan Zhang e decidiu que gostaria de conhecer este jovem tão hábil e cheio de talentos. Decidiu convocá-lo então para que o jovem o ensinasse seus conhecimentos sobre o mundo.   
Porém, quando eles se conheceram, imediatamente se apaixonaram. Foi amor à primeira vista e, sendo o amor correspondido, logo o governador tomou o jovem Pan Zhang como marido, e passou a compartilhar com o filósofo o mesmo cobertor e travesseiro com intimidade sem limites um para o outro. Wang e Pan tiveram uma vida feliz, amaram-se ternamente até o dia em que a morte chegou. Morreram juntos porque não conseguiriam mais viver separados e todos lamentaram por eles. 
Quando Wang e Pan foram enterrados juntos no pico da Montanha Lofu no seu túmulo cresceram de repente duas árvores com ramos longos e galhos frondosos. Os galhos estavam todos entrelaçados, parecia que as árvores abraçavam uma a outra! Todos consideraram aquilo um milagre. E as árvores foram chamadas de "Árvore do Travesseiro Compartilhado". 

Este exemplo romântico, como afirma Neill, é um exemplo que nos mostra, estritamente, como o amor homoerótico não estava destinado apenas ao amor fora do casamento ou apenas o divertimento das classes mais abastadas, o motivo da árvore que cresce sobre as tumbas é um motivo que sempre aparece nos mitos chineses que também se relacionam a casamentos entre homens e mulheres os quais são exemplos de amor incondicional. Isto denota que o amor entre dois homens e duas mulheres estava colocado no mesmo exato lugar que o amor entre um homem e uma mulher na China Antiga. Existe a clara consciência de que estes amores e a permanência de suas uniões é distinta daquelas que acontecem entre gêneros diferentes. 
Outro conto do mesmo período fala sobre o tímido oficial Zhuang Xin e seu senhor Xiang Cheng. A história é narrada assim:

Zhuang Xin queimava de amor pelo seu senhor Xiang Cheng a tal ponto que chegou a ele e pediu: "Posso segurar sua mão?". O senhor, assustado com aquela proposta, nada disse. Desesperado, Zhuang Xin contou ao seu senhor a história de outro governador, que havia também sido amado em segredo pelo seu barqueiro, que cantava: "Que dia maravilhoso é este, que posso dividir meu barco com o senhor, meu príncipe! Indigno eu sou deste meu desejo, quando eu senti tamanha vergonha? Meu coração está perplexo sem fim, eu tenho que conhecê-lo melhor, meu príncipe. Existem árvores nas montanhas, e galhos nas árvores. Eu desejo agradar-te e tu não sabes". Encantado pela canção do barqueiro, o governador aceitou seu amor. Depois que Xiang Cheng ouviu a história que Zhuang Xin contava sobre o governador, ele decidiu segurar em sua mão e também aceitou o seu amor.

O que aparece, neste caso, é basicamente o problema do status de servo que Zhuang Xin tem em relação a Xiang Cheng, seu senhor, que o impede de tomar qualquer medida primeiro em relação ao seu objeto de amor. Contudo, Zhuang a toma, ao pedir que o senhor segure-lhe a mão, o choque do senhor que fica em silêncio é, ainda, por causa do atrevimento do servo de condição social inferior a ele tomar a liberdade de agir primeiro. Xiang Cheng estava indignado! Porém quando o servo conta-lhe a história do príncipe e do barqueiro, seu coração se comove e ele aceita o amor. Este conto nos mostra que a tradição literária era usada não somente para ilustrar a consciência dos chineses em relação ao amor homoerótico, mas que também serve para o servo dizer o que ele está sentindo, comunicando seu dilema para o seu senhor Xiang, que os contos de amor homoeróticos que pertenciam a tradição literária chinesa tinham o objetivo de além de demonstrar a existência deste tipo de amor naquela sociedade, poderiam participar dos rituais de galanteio entre os amantes.

terça-feira, 28 de maio de 2013

China: O Exemplo de Long Yang

, em Natal - RN, Brasil



A poesia chinesa levanta uma imensa dificuldade para qualquer pesquisa sobre relações homoeróticas quando se pesquisa o chinês clássico que é a indiferenciação, muito comum nos idiomas do leste e sudeste asiático, do gênero gramatical. Assim, os poemas da Dinastia Tang (entre 618-910 d.C.) podem ser facilmente lidas como voltadas para um homem ou para uma mulher, porque seu gênero neutro permite que esta decisão seja feita de acordo com o desejo do leitor. Além disso, boa parte da poesia chinesa foi escrita por homens que assumiam uma voz poética feminina, isto é, eles construíam uma persona que narrava-lhes o poema. Muitos poemas são, por exemplo, retratos de meninas que acabaram de tornar-se mulheres que eram preparadas para o casamento ou de esposas abandonadas por seus maridos ou amantes. Outra complicação na tentativa de separar os temas homoeróticos na literatura chinesa é que a maior parte da histórias registradas tinham como objetivo alcançar o leitor que frequentava a elite culta do Império, entre o quais qualquer discussão sobre sexo era considerada vulgar, essas referências, quando são feitas, aparecem somente através de alusões veladas. 
O Ensaio Poético na Suprema Alegria é um bom exemplo desta natureza alusiva da escrita chinesa sobre a sexualidade. Este manuscrito procurou apresentar a "suprema alegria" (sexo) em cada forma conhecida do autor, Bo Xingjian, que viveu entre 775 e 826 d.C.. Este, como explica Louis Crompton, em seu Homossexuality and Civilization, utiliza metáforas como chamar o pênis de "caule de jade", a vagina de "precioso portão", o clítoris de "joia do terraço", o próprio sexo é descrito somente como "uma brincadeira entre as nuvens e a chuva". As referências homoeróticas começam ai, e este é o poema mais antigo a mencioná-las: Bo Xingjian chama as relações homoeróticas como "nuvens de cabeça para baixo" e dedica um capítulo inteiro para celebrar os amantes masculinos dos diversos imperadores da dinastia Han, apresentado entre os capítulos que tratam do sexo em mosteiros budistas e o sexo entre camponeses. Tal localização já nos dá um certo julgamento dado pelo autor para as relações homoeróticas, algo entre o proibido (sexo entre os religiosos/monges budistas) e o não-indicado para aquela elite (a falta de refinamento camponês).
De qualquer forma, Bo Xingjian faz referências que necessitavam de um conhecimento prévio da tradição literária chinesa para falar sobre homoerotismo como às mangas cortadas no palácio imperial ou ao semblante de jade, ou dizia que eles eram como o senhor Long Yang. No conto sobre Long Yang, por exemplo, o rei de Wei Yang e Long compartilhavam um barco de pesca. Em determinado momento o senhor Long Yang começou a chorar, fazendo o rei perguntar-lhe porque ele estava chorando. "Porque eu peguei um peixe", respondeu Long Yang. "Mas por que isso faz você chorar?", perguntou o rei. O senhor Long Yang respondeu: "Quando eu peguei o peixe, no começo, eu estava extremamente satisfeito. Mas depois eu procurei um peixe maior, então eu queria jogar de volta o primeiro peixe que eu tinha pego. Devido a este ato de maldita cobiça, eu devo vou ser expulso de sua cama!", entre lágrimas, Long Yang continuava a falar, "Há inúmeras belezas neste mundo, meu senhor. Ao ouvir da minha boca que tenho este terrível defeito sei que tu vais procurar outra beleza mais encantadora que a minha para receber seu favor, e com certeza eles vão beijar às bainhas de suas vestes, para que possam rapidamente se tornarem seus preferidos. Estou agora ao seu lado, meu senhor, já sou um peixe já capturado! E com meu defeito, torno-me peixe pequeno. No entanto existem peixes melhores no rio. Também vou ser jogado de volta! Como posso não chorar?". Profundamente emocionado com as palavras de Long Yang, o rei de Wei anunciou ao mundo: "Qualquer um que ouse falar de outras belezas será executado juntamente com toda sua família", pois a única beleza que o interessava era a de Long Yang.
Infelizmente o que restou do texto de Bo Xingjian foi muito pouco para sabermos o que o autor pretendia defender neste capitulo. Vejamos abaixo o trecho que nos foi legado pelo tempo, traduzido a partir da versão de Bret Hinsch:

(...) arrebatadores retentores e mangas cortadas no palácio imperial.
E assim, lá onde semblante de jade ligado
Durante anos de brilhantes pérolas.
Alguns amavam seu belo refinamento;
Outros foram divididos pela extrema inveja.
(...)
Caso contrário, eles eram como Senhor Long Yang
(...) Que aponta em uma flor (...)
Mizi Xia compartilhou um pêssego com seu senhor.
No primeiro Han, Gaozu favoreceu Jiru
E o imperador Wu favoreceu Han Yan
Nos tempos antigos, os retentores do imperador Hui usavam bonés com penas vistosas,
Caixilhos de conchas e pintavam seus rostos.



Brent Hinsch ainda aifrma, em seu Passions of the Cut Sleev, que como os amores entre pessoas do mesmo gênero são comuns na literatura Zhou, e por isso mesmo, porque essas estórias eram conhecidas por todos, eles raramente citavam o conto todo, a não ser que tivessem um objetivo muito específico com aquela história em si. Contudo Hinsch, psicólogo com doutorado em estudos da Ásia, afirma que pelas relações homoeróticas terem sido colocadas juntamente com as outras formas sexuais que aparecem no livro de Bo Xingjian, este trecho ganha extrema importância porque garante um lugar comum e natural para este tipo de relacionamento sexual dentro do panorama sexual chinês. Diz ele que a linguagem por si só é extremamente neutra, ela não julga, não prega, nem denigre a imagem dos homens mencionados. Também diz o psicologo que ele escreve sem paixão ou envolvimento pessoal, apenas com o desejo de construir uma enciclopédia dos relacionamentos sexuais humanos, e nesta enciclopédia não poderia faltar, de maneira alguma, também os relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero. 

terça-feira, 14 de maio de 2013

China: O Deus Coelho

, em Natal - RN, Brasil


Tu Er Shen é uma divindade do panteão chinês que administra o amor e o sexo entre os homens homossexuais, seu nome significa literalmente "deus-coelho". O "Conto do Deus Coelho" consta no Zi Bu Yu, este é uma coletânea de contos reunidas por Yuan Mei durante a Dinastia Qing cujo nome significa "aquilo que Confúcio não falou" e reunia uma tradição oral que era parte do confucionismo, mas não estava dentro do esquema pregado pelo seu fundador, e ele conta que Tu Er Shen era originalmente um homem chamado Wu Tianbao, um soldado, que se apaixonou pelo jovem, inteligente e bonito inspetor imperial da província de Fujian. Wu Tianbao tentou combater seus desejos pelo inspetor, mas como era responsável por proteger o inspetor, ele o acompanhava para todos os lugares na província, foi impossível não ver seus sentimentos crescerem ainda mais. Mesmo quando ele não era necessário, Wu fazia questão de estar presente, o que não passou despercebido pelo inspetor, porém ele não sabia nada do que se passava dentro do coração do outro. Um dia, porém, ele foi pego espiando o inspetor tomar seu banho. Ele foi carregado pelos guardas até os pés do inspetor que o fez confessar o que ele estava fazendo ali, não após uma surra com varas de bambu. Wu Tianbao então admitiu que estava apaixonado pelo inspetor, que tomado de nojo, condenou Wu Tianbao à morte por espancamento. Contudo, ao chegar ao submundo, os funcionários da Morte consideraram que sua sentença fora um injustiça porque seu único crime era ter amado, para compensar-lhe então a injustiça, Wu Tianbao foi transformado em um deus para, a partir dali, proteger os amantes do mesmo sexo e protegê-los das injustiças. No seu templo, que depois de morto forçou os homens de sua antiga província a construir aparecendo aos anciões na forma de um coelho, é o lugar para apaziguar as brigas entre casais do mesmo sexo, ou daqueles que amam alguém do mesmo sexo e não são correspondidos, queimando insenso.
Este mito explica o costume comum a província de Fujian em que um homem e um jovem podiam se casar (qi), atestado por autores como Shen Defu e Li Yu (que escreveram ainda no século XVII). Neste sistema de casamento, o homem mais velho na relação desempenhava o papel masculino e era chamado de Qixiong, que podemos traduzir como amor adotivo. Este era quem pagava o dote para a família do homem mais novo, chamado de Qidi (amor novo), e é bom ficar claro que os mais virgens também tinham preços mais elevados. Li Yu descreveu a cerimônia como exatamente a mesma do casamento entre homens e mulheres. O Qidi que se mudava para a casa do Qixiong, onde ele seria completamente dependente deste último e deveria ser tratado como um genro pelos pais do Qixiong, como estes tratariam uma nora que também seria levada para a casa da família do marido. Este casal também podia adotar crianças, que seriam educadas pelo Qidi, contudo a cada 20 anos eles deveriam ter relações sexuais com alguma mulher a fim de terem filhos.Porém durante a dinastia Qing (entre 1644 e 1912), o culto ao deus Tu Er Shen passou a ser perseguido. 
Não obstante, em todo o império chinês, a gíria para se dirigir aos homens que tem comportamentos homossexuais era tuzi (coelhos). As imagens de Wu Tianbao mostravam sempre o mostravam nos braços de outro homem, apesar que se registra, a partir do século XVIII, o contrabando de novas imagens do deus coelho que mostrava apenas dois homens abraçando um ao outro, um com o cabelo grisalho e o outro bem mais jovem.

terça-feira, 30 de abril de 2013

China: Os Estuprados Por Dragões

, em Natal - RN, Brasil






A maior parte dos mitos chineses que falam sobre experiências homoeróticas têm personagens jovens ou meninos, uma exceção é o conto O Fazendeiro e o Dragão. Apenas dragões consistentemente tem relações sexuais com homens mais velhos. No conto, um agricultor de 60 anos de idade chamado Ma passeava ao longo de um campo, quando, de repente, ouviu trovões, o céu ficou cinza e uma tempestade começou a se formar. Ele sentiu um mal pressentimento e um arrepio nas costas e pensou que os céus estavam irados com ele, ele então se abaixou, ajoelhado, com a  cabeça colada ao chão, e ficou imóvel, tentando esconder-se. Em vez da ira do céu, no entanto, foi um dragão que voava por ali e resolvera pousar. Chegando ao chão, o dragão encontrou Ma deitado, com as nádegas para cima. Excitado, o dragão resolveu que possuiria Ma ali mesmo. Ele penetrou-lhe, com violência, enquanto mordia-lhe a cabeça. Depois de terminado, o dragão subiu aos céus envolvido com trovões e relâmpagos, o fazendeiro foi deixado sozinho no chão, com todo o corpo coberto com o líquido fedorento deixado pelo dragão. Inicialmente, o agricultor não ousou mencionar a ninguém o que havia lhe acontecido, porém os ferimentos causados pelo pênis do dragão e as mordidas do animal começaram a doer muito, ele então teve que procurar um médico e revelar o que lhe acontecera.
 Os dragões são bestas mitológicas descritas pela combinação de diversos animais: olho de tigre, corpo e pescoço de serpente coberto por escamas de peixe, patas de águia, chifres de veado, orelhas de boi, bigodes de carpa, cabeça de camelo, apesar que os dragões também possuíam a capacidade para mudar de forma, tornar-se invisível e até brilham no escuro. Embora muito raras, existem variações do dragão chinês "padrão": algumas esculturas e estátuas de dragões foram encontradas com asas brotando por trás de suas pernas da frente, enquanto outros foram apresentados como tendo o corpo de uma carpa, barriga de uma tartaruga, e a cabeça de um cavalo. Muitas representações mostram também o dragão com uma pérola flamejante sob seu queixo, outro símbolo de boa sorte e prosperidade.
Os dragões são animais sagrados que participaram com Pan Ku, o deus criador, da criação do mundo. Eles representam a energia que destrói, mas também permite o nascimento. Eles aparecem comumente como um símbolo auspicioso. A origem exata do dragão na cultura chinesa permanece indefinida, embora suas primeiras representações possam ser rastreadas até os totens feitos por várias antigas tribos chinesas. Contrariamente à versão européia e medieval, os dragões chineses não cospem fogo, nem foram pensados ​​para ser bestas inteiramente más. Eles eram vistos como sendo sábios e carinhosos, possuindo personalidade e poderes mágicos. Dragões só se transformariam em animais ferozes se eles se irritaram.
Estes animais se dividem em quatro espécies: os dragões de fogo, vermelhos, que protegem os elementos naturais, inclusive, o vento, o fogo, o céu e um raio, e tem uma personalidade extrovertida e facilmente procuram brigas; os dragões da terra, verdes, responsáveis por vigiar os tesouros da terra, as plantações e as montanhas, estes são bondosos e sempre tentam ajudar os outros; os dragões de metal, que são dourados, e guardam os metais e pedras preciosas, estes são sovinas, egoístas e não costumam se preocupar com os sentimentos alheios; e os dragões de água, que são azuis e guardam a chuva, cachoeiras, poços e mares, e toda a água, são os mais sábios. Dawn R. Cole afirma que essa preponderância dos dragões de água sobre os outros é porque a água era de importância primordial para a sobrevivência na China Antiga, por isso era entre eles que haviam os quatro grandes governantes: o Dragão do Mar Leste, o Dragão do Mar Sul, o Dragão do Mar Oeste e o Dragão do Mar Norte, que governavam o mundo.
O dragão é, então, para os chineses a personificação do yang, o princípio masculino. E Allan J. Stover diz: "Os símbolos são uma introdução ao pensamento sem palavras, e formam uma linguagem de analogia pelo qual podemos explorar a interioridade do universo". Ele também afirma que cada símbolo tem o seu significado inerente, mas este é sempre um significado geral, o símbolo somente adquire um significado específico quando está em utilização dentro de um certo processo cultural, como o mito. Em outras palavras, podemos dizer que o sentido de masculino que o dragão possuí é seu significado geral, contudo dentro do mito em que ele sodomiza um velho, o dragão ganha um significado específico.
A primeira questão a se colocar sobre o mito do velho Ma e o dragão é a situação de estupro/violência em que se dá o contato homoerótico, o dragão não seduz do fazendeiro, ele apenas toma-o, goza e parte; não existe carinho da besta pelo senhor, não existe nenhum amor, apenas um impulso sexual que precisa ser obedecido. Este é o princípio masculino personificado pelo dragão, sem a presença do yin, a potência feminina, o dragão toma aquilo que sente vontade sem levar em consideração o outro. O dragão, completamente macho, é incapaz de se colocar no lugar do outro, de demonstrar empatia por aqueles que estão em seu entorno, tal dom, tal característica receptiva/passiva é parte de nossa natureza yin, natureza esta que o dragão não possui.
A segunda questão é a vergonha que impede o velho Ma de procurar ajuda imediata para os ferimentos que o dragão lhe causaram, a dor precisa se tornar insuportável para o velho contar a alguém que havia sido sodomizado por um dragão. O estupro per si pode ser o motivo, mas uma leitura apressada poderia dizer que o fazendeiro teria vergonha da relação homoerótica, porém se procurarmos a literatura que fala sobre a reação das mulheres que eram vítimas de estupro na China Antiga veremos que elas muitas vezes cometiam suicídio dado a vergonha que representava terem sido violadas por um homem estranho. A situação de Ma é a mesma, a vergonha pelo estupro é sem dúvida a tônica que o impede de pedir ajuda, pois o coloca numa situação enfraquecida e completamente passiva/feminina/yin, que ofende sua masculinidade de forma muito pior que a própria relação homoerótica.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

China: Os Amantes dos Xian

, em Natal - RN, Brasil


Existem várias histórias populares chineses sobre encontros homoeróticos. Entre elas podemos citar as mitos dos Xian. Os Xian são espíritos-animais que muitas vezes escolhem como parceiros sexuais homens, velhos, jovens ou meninos. Alguns mitos mostram-nos pedindo permissão ao Senhor das Fadas para ficarem com seus amantes por algum tempo, o que poderia ser por anos, por exemplo, passando muito tempo afastado do reino das fadas. Eles raramente recebiam esta permissão, contudo isso não os impedia de manter seus casos com humanos, porém quando o rei os descobria exigia que eles voltassem ao reino, com isso abandonando seus amantes, dando a esses contos sempre finais melancólicos. Um exemplo é o conto: "A Raposa e o Estudioso".
Neste conto um acadêmico, sem atração pelas mulheres, vivia sozinho em uma casa grande. Em uma noite, um homem vestido de preto entrou na sua casa e o convidou para sexo. O homem vestido de preto era, em outra encarnação, o marido daquele estudioso, que era sua esposa. Eles se amavam profundamente e juraram amor além daquela vida. Mas seus votos foram feitos durante uma guerra, e a bela esposa (agora o estudioso) fora capturado pelos rebeldes, contudo, para evitar o estupro, ela suicidou-se para manter-se fiel a seu marido. O marido, no entanto, seguiu os rebeldes para salva-la e, para isso, ele teve que abandonar o exército do rei.
Por causa da castidade da esposa, que estava disposta a matar-se para preservá-la, ela foi autorizada pelo imperador do mundo inferior a reencarnar como homem, mas o marido, que seguiu os rebeldes e não mostrou lealdade ao rei foi obrigado a reencarnar como raposa. Apesar disso, a raposa queria manter seu relacionamento com sua esposa ainda nesta nova vida, então ele praticou alquimia e tornou-se homem, o que lhe permitiria buscar a sua esposa entre as cidades humanas. 
Depois de ouvir o homem vestido de preto (na verdade, a raposa), o estudioso vagamente lembrou-se de sua vida passada. O estudioso então perguntou a raposa como eles poderiam manter qualquer relacionamento sexual agora se ambos eram do sexo masculino. A raposa sorriu e respondeu: "Isto não deve ser nenhum problema, desde que nós nos amamos, nada mais importa. Não importa se somos dois homens ou um homem e uma mulher, ainda poderíamos amar um ao outro". O estudioso então concordou e abriu sua roupa e eles compartilharam momentos íntimos com o homem-raposa.
A raposa passou a vir a casa do homem a cada dois dias, sempre marcando com sua garra uma coluna na entrada da casa. Uma noite, porém, a raposa disse ao estudioso: "Esta é a nossa última noite juntos. Amanhã você pode verificar quanto tempo nos amamos em um dos pilares desta casa". Na manhã seguinte, o estudioso acordou e verificou os pilares, em um havia 365 marcas, a raposa tinha conseguido manter seu relacionamento com sua ex-mulher, agora um homem, por mais de um ano, o tempo que o feitiço usado por ela permitia.
Outro conto de teor homoerótico que envolve espíritos-animais é o Fazendeiro e o Porco. Neste mito havia um fazendeiro a região do Amarelo que tinha um porco que ele criou desde filhote, sempre o tratando com muito carinho, porém o fazendeiro vendeu o porco para um açougueiro. Após o animal ser abatido, sua alma não pode descansar e foi para o imperador do mundo inferior e reclamou do agricultor. O porco disse: "Eu não posso reclamar de ter encarnado como porco, nem de ter sido massacrado porque este era o meu destino, mas o meu senhor teve carinho comigo, ele não deveria ter me enviado para o açougueiro por dinheiro". O imperador decidiu que o porco estava certo e permitiu que ele se vingasse do agricultor. O porco mordeu então o agricultor em suas nádegas, em um sonho, e quando o fazendeiro acordou ele sentiu uma intensa coceira no anus fazendo com que ele precisasse desesperadamente de alguém para sodomizá-lo, a fim de parar a coceira.
No entanto, quanto mais sexo ele fazia, mais crescia a coceira e ele não conseguia encontrar nada nem ninguém que a fizesse parar, tentou inclusive estacas de bambu para a tarefa. Até que um dia, o fazendeiro estava bêbado e seu anus começou a coçar, ele entrou então no açougue e pegou uma faca afiada, usada para matar os porcos, e tentou usar a lâmina para parar a coceira, ele se cortou e sangrou até a morte. 
Em ambos os contos, princípios budistas como a reencarnação e a retribuição cármica são representados pelas relações entre homens e animais. Segundo os ensinamentos budistas, há um ciclo de mortes e renascimentos nos quais a consciência do indivíduo se expande progressivamente chamado de Moksha que pode (e deve) ser transcendido por meio da prática do Nobre Caminho Óctuplo, isto é, uma prática que acelaria o processo de consciência do indivíduo sobre seu corpo, mente e espírito e envolve, primeiro, a compreensão correta das Quatro Nobres Verdades de maneira a entender as coisas como elas realmente são e por isso querer se libertar e ajudar outros a fazerem o mesmo; em segundo lugar o pensamento correto, desenvolvendo qualidades de bondade amorosa; em terceiro lugar a fala correta, abstendo-se de mentir ou usar palavras ásperas; em quarto, a ação correta, promovendo a vida e a generosidade; em quinto lugar, o meio de vida correto, compreendendo o próprio corpo e olhando os outros com compaixão e igualdade; em sexto, esforço correto para se autodisciplinar obtendo a quietude da mente; em sétimo, a atenção correta, tomando consciência de todas as ações do corpo, da língua e da mente; e por fim a concentração correta, em que a mente chega ao estado contemplativo que precede o nirvana.




terça-feira, 2 de abril de 2013

China: O País das Mulheres

, em Natal - RN, Brasil


Na tradição cultural chinesa confucionista, a mulher era considerada um ser inferior ao homem. Segundo os Anacletos de Confúcio, sua inferioridade chegava ao ponto de além de não precisarem de nenhum esmero em sua educação, ela não precisava nem ser batizada, sendo as meninas comumente chamadas apenas como "Filha Número 1", "Filha Número 2" e assim por diante. Criada para o casamento, a mulher chinesa deveria obedecer seu marido e dar-lhes filhos. A primeira mulher a desafiar esse status quo foi a imperatriz Wu, que introduzindo o budismo na China, por volta de 200 d.C., rompeu com as tradições confucionistas que mantinham a submissão das mulheres. Durante seu período de reinado, ela ordenou que os historiadores escrevessem biografias sobre grandes mulheres da China, e repetia que o governante ideal do império é aquele que governa como uma mãe que administra os dotes de seus filhos.
Apesar disso, uma lenda sempre conviveu com esta situação de submissão patriarcal: o País das Mulheres. Este situava-se no sul do Tibete, ou numa ilha isolada no Pacífico. Ele, acreditava-se, estava inacessível para uma viagem normal, explicava-se que a água ao redor da ilha não permitia que os barcos flutuasse e eles sempre afundavam. Apenas viajantes ocasionais chegavam vivos as praias ou fronteiras do país e estes contaram que ele era habitado apenas por mulheres. Sua comunidade seria completamente funcional, sem a presença de homens e, portanto, também as relações sexuais aconteciam somente entre mulheres. Elas ficavam grávidas ou por dormir ao ar livre, e neste caso seriam engravidadas pelo vento sul que sopraria através de seus corpos, ou por tomar banhos em piscinas de água. Às vezes, no entanto, tinham meninos, estes quando nasciam acabavam por morrer antes da idade de três anos.
Contudo este mito pode ter um fundo de verdade, as mulheres da tribo Mosuo. O livro do argentino Ricardo Coler, O Reino das Mulheres, fala sobre este último reduto do matriarcado que se localiza ainda hoje na fronteira chinesa com o Tibete. Entre os Mosuo, por volta de 25 mil pessoas, as filhas são mais desejadas que os meninos, o lar é tutelado por uma matriarca que, arduamente, organizam as finanças do lar, criam seus filhos, que vivem com elas. Elas tem a liberdade para ter inúmeros parceiros, inclusive ao mesmo tempo, e raramente os parceiros vivem com as mulheres em suas casas. Segundo Coler, um dos aspectos mais interessantes é o que ele chama de "casamentos erráticos". Estes casamentos tem como única base a validação do afeto entre o noivo e a noiva, quando este afeto acaba, o casamento pode ser facilmente desfeito, eles referem-se um ao outro como "amigos". Como o casal nunca viveu junto, não existe partilha de bens ou simplesmente a ideia de custódia dos filhos, pois ambos pertencem somente a mulher. Na tribo Mosuo não existe uma palavra para dizer pai, a propriedade é transferida da mãe para a filha, e os filhos são tratados como habitantes da casa, apenas. Estes, mesmo depois de casados, continuam vivendo nas casas maternas, os encontros entre os noivos se dão sempre na casa da mulher. Em sua sociedade a prostituição e o estupro são conceitos desconhecidos.
Acrescenta Jacques Gauthier que a amizade feminina é muito importante nesta sociedade. Ela também conta que as meninas aos 13 anos passam por uma iniciação em que ganham seu próprio quarto e com isso tem o direito de receber amantes em seu quarto, os quais são escolhidos normalmente por ela, mas às vezes são os homens quem tomam o primeiro passo. Os filhos gerados destas uniões na verdade não costumam conhecer o pai, a única presença masculina na vida destas crianças é dos tios que vivem na casa da mãe. São poucos os casos de relacionamentos que são chamados de "abertos", porque todos sabem do relacionamento do homem e da mulher, já que normalmente os encontros sexuais são fortuitos e sem a pretensão de casamento, este amante fixo, no entanto, não exige fidelidade, a mulher pode ter outros amantes, porém o fixo tem primazia sobre os outros.
O governo chinês, desde a Revolução Comunista de Mao Tse Tung, tem tentado mudar o modo de vida dos Mosuos. Se pretende que eles assumam a vida familiar burguesa, isto é, mononuclear, com a casa somente para o casal e seus filhos legítimos, expulsando da casa essa familia ampliada que envolve todos os tios e tias. Tais tentativas no entanto tem fracassado grandemente, e eles têm mantido seus costumes ancestrais. 







terça-feira, 19 de março de 2013

China: A Dualidade Taoísta

, em Natal - RN, Brasil



Robert Ingersoll afirma, em Sociologia do Mito, que o Taoismo tem como sua principal característica a crença na natureza cíclica do universo e suas mudanças incessantes, provavelmente inspirados no movimento dos astros e as estações do ano, tal ideia é congruente com os arquétipos do yin e yang, a definição de duas forças complementares que, opostas, fazem parte uma da outra se complementando. Afirma Ingersoll que o Taoísmo se baseia profundamente na existência de um todo único composto de duas metades entrelaçadas e opostas (o yin/yang, claro/escuro, inverno/verão, bom/ruim, seco/úmido e homem/mulher) por isso não é de surpreender que encontremos entre os mitos taoistas várias referências a personagens de sexualidade dúbia. O Tao pressupõe que dentro de toda criatura existe a complementaridade dos dois opostos yin e yang, e que as atitudes humanas devem estar sempre de acordo com essa natureza dual que forma as criaturas, sendo que os homens devem buscar o equilíbrio desta natureza yin (feminina) e yang (masculina).
O Taoismo é considerado uma religião politeísta. Suas divindades, embora unificadas pela ideia da prática do Tao (o caminho), são muitas vezes retratados como parte de uma hierarquia celestial que espelha a burocracia da China imperial. De acordo com a crença religiosa taoista, as divindades poderiam ser promovidos ou rebaixados de suas funções, aos quais eram especialmente designados. Algumas divindades também são seres humanos exaltados, heróis, que por causa de grandes ações que haviam realizado ascendiam. Sendo criaturas, os deuses também viviam o Tao e como tal possuíam em seus corpos uma complementaridade que une também o masculino e o feminino.
Um exemplo dos deuses taoístas de sexualidade dupla é o ambíguo, Lan Caihe, um dos Oito Imortais (ou Baxian) do Taoísmo, estes são heróis muito populares que representam aspectos da vida: a juventude e velhice, a pobreza e fortuna, a nobreza, cordialidade, feminilidade e masculinidade. Sua idade e sexo normalmente são apresentados de forma extremamente ambígua, não se localizando se trata-se de um menino ou uma menina, ou um homem velho ou uma jovem. Lan era um músico, de qualquer forma, que carrega castanholas de bambu com as quais marcam o tempo de seu canto e, através de sua música, também é capaz de prever o futuro. Bondoso, um dia ele recebeu por uma apresentação que estava fazendo de música e em seguida Li-Tieguai, um dos Oito Imortais, disfarçado como mendigo pediu ajuda. Lan não se recusou a ajudar e deu o dinheiro que tinha conseguido com suas apresentações musicais ao mendigo, também lavou-lhe as feridas e colocou-lhe unguentos nos furúnculos. Li-Tieguai então concedeu-lhe a imortalidade. Tornou-se padroeiro dos floristas e é responsável por fazer as nuvens ao deitar seu corpo quente e nu na neve, fazendo-a derreter e evaporar, mas sua principal função é cuidar daqueles que estão empobrecidos.
Um outro exemplo é Yu, o Grande. Este semi-deus, protetor contra as enchentes e inundações, era hermafrodita e imperador da China que teria reinado entre 2200 e 2100 a.C.. Sua lenda conta que quando  fora governador, um grande dilúvio tomou a terra. No começo, o pai de Yu, Gun, um antigo deus da terra, foi designado pelo imperador Shun para domar as águas furiosas. Em nove anos, Gun construiu barragens por todo o reino na esperança de conter as águas, mas estas colapsaram em todos os lugares e por causa do seu fracasso, Gun fora executado por Shun, mas em outra versão, Gun foi salvo pelo demônio Gong Gong, grande inimigo do Alto Governante do Universo, com o qual se associou, algumas interpretações entendem esta associação como uma relação homoerótica entre o demônio e Gun.
O imperador recrutou então Yu para suceder o pai que seguiu um plano diferente, não criou novas barragens, mas abriu canais fluviais novos que serviram para escoar as águas e irrigar os campos, alargando inclusive um canal que levaria direto ao rio Amarelo, chamada Porta de Yu (Yu-bu). Yu, apesar de hermafrodita, era casado, porém, por causa de sua batalha contra o dilúvio, ficou apenas quatro dias casado, e durante os treze anos da enchente, ele visitou a família três vezes, quando sua esposa estava em trabalho de parto, quando seu filho, Qi, aprendeu a falar e quando ele fez treze anos. Em cada vez, Yu recusava-se a passar pela porta, dizendo que a inundação deixou incontáveis desabrigados e por causa disso ele não se permitia descansar.
A principal questão é que para a religião chinesa é exatamente essa dualidade que está presente em todos os seres. O feminino faz parte do masculino tanto quanto o masculino é parte constituinte do feminino, é uma questão filosófica que se distancia completamente da construção das ideias de masculinidade e feminilidade do mundo ocidental hodierno em que separamos em classificações estanques, em que nada do masculino pode conviver com o feminino. Essa definição na China Antiga não funciona. Ser homem ou ser mulher na China não são modelos opostos de vida, em que o que um deles faz o outro também não pode fazer, são na verdade modelos complementares em que se integram formando um único indivíduo. Poderíamos dizer que na China os gêneros não são opostos, mas complementares.




terça-feira, 5 de março de 2013

China: A Manga do Imperador

, em Natal - RN, Brasil



A segunda expressão utilizada pela literatura chinesa antiga para se referir as relações homoeróticas é o termo duànxiù que quer dizer algo como "rasgando/cortando a manga" e refere-se ao ato do imperador Ai'di, da Dinastia Han, que cortou a manga do seu roupão, sobre a qual dormia seu adorado amante, Dong Xian, para não acordá-lo. Como Ai'di, vários outros imperadores tinham amantes masculinos. Tornar-se favorito do imperador era de uma imensa concorrência, como afirmam Francisco Moreira Filho e Daniela Madrid, porque esta posição na corte favorecia o prestigiado com riqueza e status. 
A Dinastia Han durou de 206 a.C.até 220 de.C., foi precedida pela dinastia Qin e seguida pela divisão da China em três reinos: Wei, Shu e Wu. Liderada pelo clã de Liu, o período da Dinastia Han é considerado o período de ouro da história chinesa. Durante este período, a China tornou-se oficialmente um estado confucionista, e o artesanato da seda e o comércio floresceram, ampliando sua influência sobre a Coréia, Mongólia e Vietnã, além de haver intensas trocas comerciais e culturais com a Índia e Tibete, e, um pouco menos, com a Pérsia. A Dinastia Han também foi notável por sua aptidão militar. As expedições militares a oeste, além do Mar Cáspio, tornaram possível o tráfego mercantil através da Ásia Menor e pela Pérsia, desenvolvendo o comércio inclusive com os romanos. Este trajeto que ficou conhecido como a Rota da Seda. Sua primeira capital foi em Chang'an (atual Xian), de onde partia a rota da seda, no centro da China; em 25 d.C., a capital mudou para Luoyang, as margens do rio Luo, tributário do rio Amarelo, após o breve reinado da dinastia Xin, cujo único imperador foi Wang Mang. O longo período, mais de 400 anos, que os chineses viveram sobre o governo da Dinastia Han possibilitou a miscigenação dos diversos grupos étnicos que viviam na região e unificou os dialetos locais numa língua única.
No século I depois de Cristo, a luta contra os "bárbaros do oeste", como eram chamados os homens que viviam nas estepes mongóis-siberianas, os Hunos, se intensificaram. Os Hunos oscilaram no status de vassalos dos chineses a populações que atacavam as cidades fronteiras do império, porém, por volta de 220 d.C., os Hunos atacaram violentamente o império chinês, foram 75 anos de ataques que fragmentaram a China de tal maneira que três reinos  (Wei, Shu e Wu) surgiram no lugar do império unificado, iniciando a Idade Média chinesa.
Entre os imperadores desta era de ouro, temos as Memórias de um Historiador, de Sima Qian (136-86 d.C.), historiógrafo, que reservou um capítulo especial da sua história do império para documentar a vida dos imperadores Han e seus amantes do sexo masculino, e graças a este precente, como afirma o professor de literatura chinesa da Universidade de Stanford, Tan Chong Kee, herdamos uma rica história oficial do amor masculino durante a história imperial chinesa. Dos 27 imperadores, dezenove são bem conhecidos pelos seus favoritos, dez são da Dinastia Han:

206-195 a.C. - Imperador Gao'di e Jiru
194-188 a.C. - Imperador Hui'di e Hongru
179-156 a.C. - Imperador Wen'di e quatro favoritos: Deng Tong, Zhao, Tan e Beigong Bozi
156-141 a.C. - Imperador Jing'di e Zho Ren
140-87 a.C.   - Imperador Wu'di e quatro favoritos: Han Yan, Han, Yue e Yan Nian
86-74 a.C.     - Imperador Zhao'di e Jin Shang
73-49 a.C.     - Imperador Xuan'di e Zhang Pengzu
48-33 a.C.     - Imperador Yuan'di e dois favoritos: Gong Kong e Shi Xian
32-07 a.C.     - Imperador Cheng'di e três favoritos: Zhang Fang, Zhang e Chunyu
06a.C.-1d.C. - Imperador Ai'di e Dong Xian

Ai'di é o exemplo de mais profundo amor, um arquétipo literário de um homem mais velho e de status elevado que se apaixona por um jovem bonito. Mas existem outros arquétipos encarnados pelos imperadores, o de dois homens masculinos e guerreiros, como o caso de Wu'di e Han Yan. Wu foi um dos maiores imperadores da China, tornou-se imperador aos 16 anos e governou até os 70, expandiu o império a seu maior tamanho, também reformou o ano chinês, fazendo-o começar em janeiro, o sistema de educação e criou uma moeda única para o império chinês. E este grande imperador era apaixonado por outro homem. Han Yan e Wu se conheceram quando eram jovens, Yan era membro da corte do estado de Han, neto do governador, e Wu o jovem filho do imperador Jing. Estudaram juntos, e apesar de Yan não ser um menino bonito, se apaixonaram. Porém, de acordo com Sima Qian, Yan tinha entre 1,80 a 2m, o que fazia dele uma figura de destaque no mundo antigo onde a média de altura mantinha-se entre 1,50 e 1,60m. Yan também era hábil no hipismo, arco-e-flecha, táticas de caça e batalhas dos homens do Norte. Tudo isto fazia com que Wu o admirasse profundamente. Logo, Yan tornou-se o único homem a circular no palácio imperial, além de eunucos, e principalmente o único a frequentar a cama do imperador. 
Infelizmente, conta ainda o historiógrafo chinês, Yan deixou sua posição ao lado do imperador subir-lhe a cabeça. Um dia, durante uma expedição de caça imperial, Wu pediu que Yan seguisse na frente. Quando então, Jiangdu, irmão de Wu, viu o carro imperial se aproximando de longe, pensou que este trazia o imperador, então ele desceu do cavalo e ajoelhou-se ao lado da estrada para cumprimenta-lo. Yan, no entanto, que vinha no carro, não parou e nem reconheceu o irmão do imperador. Quando Jiangdu percebeu que não era seu irmão no carro, ele ficou furioso com o desprezo de alguém de um escalão tão inferior a ele, indo imediatamente queixar-se a sua mãe sobre o incidente o que só plantou no coração da imperatriz o rancor contra Yan.
A imperatriz então logo acusou Yan de também dormir com as concubinas do imperador e ordenou sua morte. Wu pediu a mãe para anular a ordem, mas ela recusou. Tang Chong Kee afirma que não estamos testemunhando nenhum puritanismo sexual aqui. Dormir com uma concubina do imperador é uma ofensa grave porque põe em causa a linhagem imperial. Como se poderia ter certeza se o filho nascido de uma concubina seria realmente filho do imperador? Se havia dúvida como o próximo imperador seria escolhido? Yan teria ofendido o imperador da forma mais grave possível, a velha imperatriz sabia que essa seria a única forma de acusa-lo de um crime imperdoável. Tang Chong Kee afirma que isso também demonstra o quanto Wu amava Yan, afinal em face de por em dúvida sua própria linhagem, ele tentou defender o amado e ficou inconsolável com a sua morte. "Era como se ele não se importasse se era seu filho ou de Yan que o sucederia como imperador", nas palavras de Kee. Após a morte de Yan, o imperador Wu ainda tomou como amantes seu tio, Han; seu primo, filho deste último, Yue; e o famoso músico Yan Nian, sendo que quando o músico tornou-se seu amante, ele também tomou a irmã dele, Li, como concubina.
Acrescentaríamos, além disso, um fato importante: o amor de Wu por Yan, imenso como o professor de Stanford afirmou, não impedia de forma alguma que Wu mantivesse concubinas com as quais ele tinha relações sexuais comuns e constantes, com o objetivo de manter a linhagem imperial. Em todo o mundo antigo, o relacionamento homoerótico não exclui de forma alguma um relacionamento heteroerótico eventual, como o contrário também é verdade. Na realidade precisamos pensar todo o mundo antigo, da Europa a Ásia, como uma realidade que não separa as pessoas em estanques e incomunicáveis comportamentos hetero ou homoeróticos, todas as pessoas podem circular por essas expressões sexuais sem, necessariamente, apegar-se a nenhum título, inclusive também não é correto chama-los de bissexuais por isso.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

China: O Pêssego Mordido

, em Natal - RN, Brasil



Na literatura chinesa existem poucas referências homoeróticas em comparação, por exemplo, com as tradições gregas ou japonesas, as poucas alusões que existem são sempre feitas fazendo uma relação/comparação com a Idade de Ouro imperial, a Dinastia Han. Um dessas referências que são constantemente relembrados e reatualizados pela poesia e literatura é o Yútáo ou "a sobra do pêssego/pêssego mordido". A história é citada pela primeira vez na obra legalista do filósofo chinês Han Fei. 
Han Fei Zi viveu entre 280 e 233 a.C., era membro da aristocracia chinesa, membro da família real do Estado de Han, primo do imperador, e sintetizou as teorias de filósofos confucionistas Li Si, Gongsun Yang, Shen Dao e Shen Buhai para constituir a doutrina do legalismo, mas sua grande influência é, sem dúvida, do taoismo. Esta doutrina pregava que as pessoas são naturalmente más e sempre agem para evitar uma punição e para obter ganhos, esta seria a natureza humana, sendo assim, a lei deveria punir severamente qualquer ação indesejada, enquanto ao mesmo tempo recompensar aquelas pessoas que a seguem. Segundo Han Fei, o governante que seguisse o legalismo seria capaz de controlar o estado através de três conceitos: sua posição de poder, shi; certas técnicas, shu, e as leis, fâ.  
Diz ele:

Nos tempos antigos, Mizi Xia tornou-se o favorito [chang] do governante de Wei e vivia com ele no palácio. Contudo, de acordo com as leis do estado de Wei, qualquer pessoa que secretamente fizesse uso do transporte do governador seria punido com os pés amputados. Quando a mãe de Mizi Xia caiu doente, alguém entrou no palácio durante a noite para contar-lhe isto, ele então forjou uma ordem do governador e tomou o carro do governador e foi encontrar sua mãe. Quando o governador descobriu o que aconteceu, não fez nada, apenas o elogiou dizendo: "Que grande filho! Para ver sua mãe doente esqueceu de todo o perigo de ter seus pés cortados!" Outro dia, Mizi Xia estava passeando em um pomar e, mordendo um pêssego e encontrando-o doce, desistiu de comer a fruta e deu-lhe ao seu governante para que ele pudesse desfrutar da doçura do fruto. "Como é sincero seu amor por mim!", exclamou o governante, "Você esqueceu o seu próprio apetite apenas para me dar coisas boas para comer!". Porém, mais tarde, quando o amor do governante por Mizi Xia esfriou e ele desapareceu dos seus olhos, ele foi acusado de uma série de crimes contra seu senhor. "Depois de tudo", disse o governante, "uma vez ele roubou o meu carro e outra vez me deu um pêssego meio comido para comer!". Mizi Xia não estava agindo diferente do que sempre agira, comportamento que havia sido elogiado nos primeiros dias e mais tarde apareciam como acusações porque o amor do príncipe havia se tornado ódio.
Se você ganhar o amor do governante, a sua sabedoria será apreciada, e ele vai apreciar os seus favores, mas se ele te odeia, não somente sua sabedoria será rejeitada, mas você será considerado um criminoso e empurrado de lado. O animal chamado dragão pode ser domado e treinado ao ponto de você montar em suas costas. Mas o lado inferior da sua garganta tem escamas com um pé de diâmetro que pode se enrolar para trás a partir do corpo, e o risco de que ele venha a escová-las contra você é sempre grande e sempre certeza de morte. O governante de homens também tem sempre as suas escamas eriçadas. 

A referência de Han Fei, no entanto, em momento algum discute a moralidade do relacionamento entre Mizi Xia e o governador de Wei, ele apenas usa a relação de ambos como exemplo para tratar da maldade intrínseca ao governador que só era amenizada pelo amor que ele sentia por Mizi Xia. É, de fato, o contrário. O exemplo serve para tratar da maldade e da falta de compromisso com a moralidade que o governador possuí por ser um homem como qualquer outro, Han Fei afirma que somente enquanto o governador estava interessado em obter vantagens amorosas do jovem Mizi Xia, ele evitava tratá-lo mal, contudo quando o amor do governador pelo favorito se esvaiu, toda a boa vontade para com ele também se desfez. Ele conclui com um conselho para Mizi Xia e para todo aquele ou aquela que é amado por um homem poderoso: saiba que todo homem é sempre um dragão pronto para envenená-lo quando lhe convier.