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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Fenícia: Os Sacerdotes de Astarté

, em Natal - RN, Brasil



Astarté ou Ashtoreth é uma deusa lunar fenícia, representada às vezes com chifres de vaca, símbolo comum da lua na Antiguidade, era protetora dos mortos que ascendiam ao céu para conviver com ela em forma de espíritos de luz que eram visíveis aos homens na forma das estrelas. Ela  é mencionada quinze vezes na Bíblia: três vezes relacionada a Moloch, na Escritura muitas vezes chamado de Melcom (em 1Reis 11:5, "Salomão prestou culto a Astarte, deusa dos sidônios, e a Melcom, o abominável ídolo dos amonitas", e 33, "Abandonaram-me, prostraram-se diante de Astarte, deusa dos sidônios, diante de Camos, deus de Moab, e diante de Melcom, deus dos amonitas" e 2Reis 23:13, "O rei profanou igualmente os lugares altos situados defronte Jerusalém, à direita do monte da Perdição. Salomão, rei de Israel, tinha os levantado em honra de Astarte, ídolo abominável dos sidônios, de Camos, ídolo abominável dos moabitas, e de Melcom, ídolo abominável dos amonitas"); seis vezes é apresentada apenas como o nome de uma cidade (Deut 1:4, Jos 9:10, 12:4, 13:12, 13:31 e 1Cron 6:71), o que significa que eram, provavelmente, cidades que honravam a deusa fenícia; nas referências que aparecem em Juízes 2:13 e 10:06 ("Os filhos de Israel fizeram de novo o mal aos olhos do Senhor servindo os baal e as astarot"), além do primeiro livro de Samuel 7:3-4 ("E Samuel falou a todo o povo de Israel, dizendo: 'Se voltardes de todo o vosso coração para o senhor, tirando do meio de vós os deuses estranhos e as Astarot, se vos apegardes de todo o vosso coração ao Senhor e só a ele servirdes, então ele vos livrará das mãos dos filisteus'. Os israelitas afastaram os Baals e as Astarot e serviram só ao Senhor"), 12:10, a palavra Astarot é utilizada no plural para representar todas as deusas, já que os hebreus não conheciam palavra para expressar a potência feminina de uma divindade, eles a consideravam o grande modelo de deusa a ser negado por seu monoteísmo machista. No entanto, como vemos, em nenhum momento referências ao seu culto, além de que eram realizados em lugares altos ( a citação do Segundo Livro de Reis), é expressa no texto bíblico.
São novamente escritores gregos e romanos que nos dão acesso a história desta deusa. Um escritor cristão do século IV d.C., Eusébio de Cesaréia, é um dos que relata que cidades fenícias como Aphaca e Baalbeck, no atual Líbano, mantinham seus templos funcionando, onde ocorria prostituição sagrada (sobretudo feminina, de mulheres que se mantinham na porta do templo de Astarté esperando que um homem pagasse por sexo por elas como oferenda a deusa), e que era um desafio para a nova igreja cristã combater esta prática pagã. John Barclay Burns afirma, no entanto, que a prática mais comum, que não é difícil encontrar documentos fiscais, é quando as cidades taxam os serviços dos gallis, homens santos, que participavam dos festivais em honra da lua nova; estes que eram sustentados exclusivamente pelo templo , cobravam a cidade sua participação no ritual da deusa, apesar deste registros fiscais não deixarem claro qual a participação exata destes homens santos no ritual, o livros como o escrito por Eusébio de Cesareia e Luciano de Samósata nos dão acesso ao que exatamente estes galli eram responsáveis e, porque era tão importante para a cidade garantir que eles recebessem sua parte devida.
Vejamos a descrição de Luciano de Samósata, o qual viveu entre de 125 e 190 aC., circulando entre os círculos intelectuais da Síria e Atenas. Ele escreveu De Dea Syria (A deusa síria) no qual narra suas observações particulares sobre o culto da deusa Astarte. Apesar de ser um cômico, e escrever textos filosóficos sofistas, este texto é escrito da mesma forma que Heródoto escreveu sua Histórias, o que nos faz antever qual o objetivo de Luciano em produzir este texto: escrever história. Luciano descreve grandes ídolos faliformes, sacerdotes travestidos castrados, prostituição ritual das próprias fieis da deusa e sacrifício infantil ocasional. Afirmam Strong e Garstang que esta é uma descrição historicamente valida, apoiada em escritores antigos, documentos e arqueologia. 
Por exemplo, Luciano narra assim a forma que os homens se tornavam gallis:

49 . O maior dos festivais que celebram é que se realiza na abertura da primavera, alguns chamam isso de Pira, outros a Lâmpada. Nesta ocasião, o sacrifício é realizado desta maneira. Corta-se árvores altas e as coloca-se na assembleia, então eles trazem cabras e ovelhas e gado e os penduram vivos nas árvores, eles acrescentam a estes pássaros e os decoram com ouro e prata. Depois de tudo terminado, eles carregam os deuses ao redor das árvores e atearam fogo, em um momento, tudo está em chamas. A este rito solene participam grandes multidões da Síria e de todas as regiões ao redor. Cada um traz o seu próprio deus e as estátuas que cada um tem os seus próprios deuses.

50 . Em certos dias com uma multidão no templo, e Galli em grandes números, sagrados como eles são, realizam as cerimônias dos homens, em que pegam os homens, amarram-lhe os braços e viram as costas para ser amarrados. Muitos espectadores sobram suas flautas ao mesmo tempo muitas batem tambores, outros cantam canções divinas e sagradas. Todo esse desempenho tem lugar fora do templo, e os envolvidos na cerimônia não entram no templo.

51 . Durante estes dias, eles são feitos Galli. Como o Galli cantam e celebram suas orgias, o frenesi cai em muitos deles e muitos dos que tinham vindo como meros espectadores depois são tomados pela deusa e cometem o grande ato. Vou narrar o que eles fazem. Qualquer jovem que foi resolvido no âmbito desta ação, retira suas vestes, e com um forte rajada,  grita no meio da multidão, e pega uma espada de uma série de espadas que suponho ter sido mantidas prontas desde muitos anos para este propósito. Ele levanta-se e castra-se e, em seguida, corre pela cidade, tendo em suas mãos o que ele cortou. Ele lança-o em qualquer casa à vontade, e desta casa recebe as vestes e ornamentos das mulheres. Assim eles agem durante suas cerimônias de castração.

52 . O Galli, quando mortos, não são enterrados como os outros homens, mas quando morre um Galli seus companheiros o levam para fora, para os subúrbios, e constroem sobre o esquife em que o tinham levado até cobri-lo com pedras, e após isto retornam para casa. Eles esperam, em seguida, por sete dias, após o qual eles podem entrar no templo. Eles não devem entrar antes disso, seriam culpados de blasfêmia.

Pela descrição de Luciano, por fim, podemos dizer que o papel dos Galli, se não é a prostituição, são eles que controlam o ritual masculino em relação a deusa Astarté e que este envolve orgias entre os próprios galli, que são castrados e vestem-se como mulheres, e os homens, fiéis da deusa, que participam das festas organizadas pelos homens santos. Também vemos que os galli são possuídos pela deusa durante o festival e se tornam sacerdotes no momento em que abdicam de seus pênis através da castração. Estes sacerdotes eunucos, portanto, são o único meio de contato entre a deusa e os homens que não podiam nem entrar no templo, e é por isso então que eles são custeados pela cidade, para garantir as boas vontades de Astarté não somente para as mulheres fenícias, mas para seus homens também. Como a deusa além de ser responsável pela fecundidade e da maternidade, também era responsável pela vitória na guerra e a fortuna, ter a deusa ao seu lado era imprescindível para qualquer homem fenício diante qualquer desafio em sua vida, principalmente quando se destacavam em suas navegações por mares nunca antes singrados afinal sabe-se que os fenícios navegaram por todo Mediterrâneo, alcançando do Mar do Norte a Costa do Marfim no Atlântico e também pelo Índico, comerciando com os hindus. 



terça-feira, 1 de outubro de 2013

Fenícia: Meleagro e Seus Ratinhos

, em Natal - RN, Brasil


Meleagro é um poeta grego, que escreveu em sua língua materna, mas também em fenício, por volta de 100 a.C. Ele era filho de Eucrates, nascido em Gadara, que hoje fica na Jordânia, apesar dele ter nascido em uma colônia grega, ele foi educado em Tiro, cidade fenícia, e passou sua vida em Cos, uma ilha grega, sob o reinado do rei Seleuco VI Epiphanes (entre 95-93 a.C.). Apesar de grego, aqui, o consideramos um poeta também fenício por causa de sua educação ter se dado toda em Tiro, o que, com certeza, influenciou a forma como ele passou a escrever seus epigramas, além de boa parte dos seus poemas terem sido publicados também na língua fenícia por volta de 80 a.C., na Antologia Palatina, que infelizmente não nos sobreviveu inteira. Alguns historiadores o classificam entre os cínicos, grupo filosófico que procurava a independência pessoal completa e total que para ser alcançada os seus membros tentavam reduzir suas necessidades ao mais básico para, diante da adversidade, eles não sofrerem quase nada. Ele escrevia seu conhecimento filosófico no que chamava de spoudogeloia (σπουδογέλοιος), ensaios em prosa satíricos que explicavam a filosofia em forma de ilustrações bem humoradas, estas, no entanto, foram completamente perdidas.
Já seus poemas, Meleagro escreveu muitos de teor amoroso, tanto de amor homoerótico, como aquele dedicado as mulheres. No caso dos poemas dedicados a um homem, muitos deles são dedicadas a um myiscus, em português, ratinho. Mas também existem outros amantes como Antíoco, Diocles, Thero e Alexis, são 15 ao todo.
São exemplos de seus poemas (tradução nossa):

As 12 horas da tarde
No meio da rua
Alexis!
Verão tinha tudo, mas trouxe o fruto
Para seu fim perigoso:
O sol do verão e o olhar daquele menino
Eles me afligem!

*

Socorro! Ele está desaparecido. Aquele menino selvagem, Eros, escapou!
Agora mesmo, como o dia estava quebrando, ele voou de sua cama e foi embora.
Descrição? Docemente choroso, fala sempre, rápido, irreverente,
Ri maliciosamente, asas em suas costas e carrega uma aljava.
Seu último nome? Eu não sei, por seu pai e sua mãe,
Quem eles são, na terra ou no céu, não vai admitir isso
Todo mundo odeia ele, você vê. Cuide-se, cuide-se,
Ou até mesmo agora ele vai estar tecendo novas armadilhas para seu coração
Mas uma olhada rápida para lá, vire lentamente. Você não precisa a mim, menino, enganar
Desenho seu arco tão suavemente onde você se esconde nos olhos de Zenófilo.
(AP V.177)

*

Eu não disse a você, oh, alma, se você olhar para fora, você vai ser pega
Você, coisa boba, se você vibrar tão perto de sua rede?
Não te avisei?
E agora que a armadilha é acionada
por que lutar em vão?
O amor amarrou suas asinhas,
aspergiu-lhe perfume barato, fingiu o seu desmaio no fogo
E lhe deu, na sua sede, lágrimas quentes para beber.
(AP XII. 132)

*

Essa é a mensagem, Dorkas, e quando você disse a ela
Então diga a ela, novamente, e mais uma vez, agora para se apressar.
Mas espere um minuto, espere aí, lentamente, meu Dorkas, lentamente.
Por que você está fugindo antes de você ouvir todas as suas instruções?
Diga também que eu... não diga nada. É mais viril ficar em silêncio.
Não lhe diga nenhuma maldita coisa. Diga apenas que eu... ah, diga tudo!
Tudo isso, Dorkas, tudo isso! Mas, Dorkas, por que te envio,
quando, olha, eu te segui o caminho todo até a porta?
(AP V. 182)

*

Você deixa as flores da primavera
os lírios e os demais
o que se plantar na sua pequena picada
no peito de Heliodora.

Para mostrar que na ferida de amor
tão profunda e terrível,
a doçura pode ser encontrada
isso torna a vida suportável?

Oh, por favor, sua notícia é um desperdício!
Eu sabia disso há muito tempo
Você acha que eu não provei
onde você, bêbado, demorou tanto?
(AP V. 163)

*

Se alguma coisa acontecer comigo,
Cleóbulo, meu amigo,
(Porque não me salvo -
Eu minto como uma videira em ondulação
quando jogo no jogo das meninas)
antes de enviar
minhas cinzas sob a terra
despeje vinho forte,
em seguida, grave, na urna embriagada:
"Hades, à saber, 
o Amor envia este presente a Morte"
E enterre-me e vá embora.
(AP V. 172)

*

Amanhecer odioso para os amantes, por que você sobe tão rapidamente
ao lado da minha cama, quando me deito com uma deliciosa demonstração?
Você não pode virar, correr para trás e ser a noite mais uma vez,
E parar aquele doce sorriso que derrama esta luz venenosa?
Uma vez você já fez isso antes, quando Zeus amava Alcmena.
Oh, aprendeu a correr para trás! Agora você não pode dizer que não sabe como...
(AP V 172)

*

Amanhecer odioso para os amantes, porque você rola tão lentamente
em todo o mundo triste quando sob o cobertor de outro homem
falsas demonstrações de amor e todo o calor do corpo dele ele doou como um deus?
Quando foi a minha vez de segurar seu corpo esbelto em meus braços
Você não podia esperar para lançar sua luz nojenta nos meus olhos.
(AP V. 173)

*

Oh, noite, e você oh lâmpada, somente tu estava ao lado de nossa cama
Não havia ninguém perto para que 
fossem testemunhas de nossos votos,
que ele me amaria,
e, eu, que nunca iria deixá-lo,
oh, noite, você se lembra.

Mas agora ele diz que os votos se foram com as águas de um rio,
Não demoraram mais do que as ondas quebrando,
e você, oh lâmpada, 
agora você o vê deitado
nos braços de outra pessoa.
(AP V. 8)

*

Peço-vos, Amor, em nome da minha musa, peço-vos,
Oh, deixe-me dormir e esquecer por um tempo este desejo por Heliodoro.
Meu deus, eu oro pelo seu arco, que não sabe como dar um tiro,
sem ninguém, mas o dia e a noite eu sofro e grito por mim!
Tudo bem, sem mais orações, seu filho da puta, você não vai fugir com ele.
Como minha última força, eu hei de escrever este poema para a polícia:
Foi o amor!
O Amor me matou.
(AP V.215)

Como podemos ver, a musa de Meleagro é, no entanto, não o amor romântico, mas o amor perdido, o sofrimento amoroso e a dor do afastamento de seu objeto amoroso seja pelo simples fim do encontro noturno em que eles estava juntos ou o término do relacionamento. Meleagro constantemente canta para os "ratinhos" que ele perdeu, para o amor que se foi, para o desejo não realizado e a dor que irrompe-lhe o coração, porém esta não é uma metáfora para a proibição em relação ao homoerotismo, a mesma pena que dedica-se ao fim de relacionamentos entre homens também canta o fim de amores entre homens e mulheres. É o poeta que, provavelmente, se encanta com este momento tão doloroso na vida de tantas pessoas e, por isso, que decide imortaliza-los em sua poesia. 

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Fenícia: A Poesia de Cartago

, em Natal - RN, Brasil
Porto de Cartago


Como já dissemos, Cartago era a capital do maior império fenício. Ela teria sido fundada por homens vindos da cidade de Tiro por volta do século XX antes do nascimento de Cristo, mas por volta de 814 a.C., já havia se tornado um grandioso império marítimo espalhando colônias pela norte da África, Sicília, Península Itálica, Sardenha e Espanha, existem registros que navegadores cartagineses alcançaram ainda a Portugal, Bretanha e o Atlântico Norte, onde não fixaram colônias, mas faziam comércio com celtas, bretões e vikings. No século V a.C., o império cartaginês ameaçou o controle do mediterrâneo pela marinha ateniense, e entre 264 e 214 a.C., pelo mesmo motivo, iniciaram-se as Guerras Púnicas, contra o império romano, que terminou com o território de Cartago destruído e salgado para que nada crescesse ali novamente, ou seja, Cartago foi inimiga dos principais impérios europeus da Antiguidade pelo mesmo motivo, ambos necessitavam controlar o Mar Mediterrâneo, porém este já pertencia aos fenícios.
Como um rico império, as artes se desenvolveram a contento, contudo, infelizmente, o que nos restou desses textos são aqueles a capital púnica legou de poetas que escreviam em latim (língua internacional da época do Império Romano), porém entre estes temos vários que narravam em sua poesia relações homoeróticas. Podemos citar, por exemplo, Nemessiano (por volta de 283 d.C.).
Marcus Aurelius Olimpius Nemesianus, ou somente Nemessiano, é um poeta que escrevia em latim, nascido em Cartago, por volta de 283 d.C. Fenício de nascimento, mas educado em Roma, era um poeta popular na corte do imperador romano Carus, apesar de comumente ser considerado pouco original, e escrevia poemas sobre a arte da pesca, Halieutica; sobre esportes aquáticos, Nautica; e sobre a caça, Cynegetica; deste último, no entanto, apenas um fragmento de 325 linhas foi preservado, apesar disso, seu latim é tão clássico que este enxerto foi usado como em escolas de poesia durante toda a Idade Média. Existem no entanto quatro bucólicas, poemas de tema pastoral, e um Elogio a Hércules, que também são atribuídos a ele.
É nos seus poemas pastorais, as bucólicas, que aparecem as referências homoeróticas. Nemessiano seguiu, na verdades, os passos de Virgílio (já falamos de sua falta de originalidade) com suas éclogas, que são poemas cujos personagens normalmente são pastores em forma de diálogo ou, às vezes, um solilóquio, que registram a equivalência entre o desejo sexual entre homens e mulheres e entre dois homens. Ele fala através de uma série alternada de discursos no qual Mopso, a quem Meroe solteira evita, discute com Lícidas, cujo amor o jovem Iolas despreza.
Tal comparação é extremamente comum nas pastorais, como explica João Beato. Nemessiano quem diz: "Cante cada um o que é objeto do seu amor. As canções também aliviam o males do amor"  (Ecl 4,19). No entanto, afirma João Beato, que se o amor de Mopso e Meroe se reveste dos elementos da poesia pastoril, o mesmo não sucede com o amor de Lícidas e Iolas. A diferença é que enquanto o amor entre Mopso e Meroe pode ser eterno, Lícidas e Iolas tem pouco tempo porque a beleza (formosus) de Iolas vai abandoná-lo quando sua barba crescer, pois a beleza dos meninos "é uma dádiva efêmera" (Ecl 4,27). Por fim, Lícidas aconselha: "Todo aquele que ama os rapazes, não se apresse e aprenda a amar longa e pacientemente. Não menospreze a circunspecção dos tenros anos e suporte até o fim as desventuras. Se é que algum deus ouve os enamorados em suas angústias" (Ecl 4,57-60).
Nota-se que o modelo de amor homoerótico colocado pelo poeta fenício ainda é o padrão idealizado que coloca um homem que ocupa a posição dominante como mais velho (esta posição dominante está tanto na situação de ativo na relação sexual como também na igualdade entre Lícidas e Mopso, os dois estão no lugar  masculino do relacionamento), enquanto o mais jovem está numa posição submissa e também feminina (afinal Iolas e Meroe estão na mesma posição dentro do poema, como objetos de desejo que podem ou não ceder seus favores, que precisam ser conquistados por seus amantes). É importante notar que este formato de "homem mais velho com um jovem" é considerado por todos os historiadores como um modelo-ideal, como uma situação em que este comportamento era sim considerado apropriado e que, o mesmo, também só poderia continuar (para manter-se aceitável) se o relacionamento se encerrasse aos primeiros sinais de barba no rosto do jovem Iolas. Contudo, acredita-se que apesar desta ser a regra, ela era comumente ignorada, relatos que envolvem homens mais velhos sendo passivos para jovens ou de garotos da mesma idade tendo relações sexuais também são comuns em várias outras referências, sinalizando que apesar deste modelo-ideal, os relacionamentos entre homens podiam ser bem mais subversivos.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Fenícia: Os Servos do Rei

, em Natal - RN, Brasil



Moloch era o deus de Cartago e todas as colônias que esta cidade havia criado. Todos aqueles que eram descendentes dos cartagineses era também cultuadores de Moloch. Seu nome significa rei. Cartago se localizava no norte da África, onde hoje fica a Tunísia e foi um poderoso império marítimo porque controlava o estreito que existe entre a África e a ilha da Sicília, na Itália. Cartago, como várias outras culturas que existiam na costa norte da África, compartilhava uma história de acomodação do comportamento homoerótico e transgênero.
Cartago fora fundada por fenícios do século XX a.C., vindos do antigo Líbano para o Marrocos, a altura do século IX a.C, eles já havia se tornado um grande e importante império que passou a competir com o Império Romano causando as duas Guerras Púnicas que em 146 a.C., em sua última batalha, destruíram a cidade de Cartago completamente. Nesta migração eles trouxeram junto seus sacerdotes transgêneros, servos e concubinas. Sua cultura politeísta que incluía um deus supremo, Baal, e uma deusa suprema, Baalit, chamada em Cartago de Tanit, os templos desta deusa eram sempre cheios de sacerdotes cortesãos, isto é, que se prostituíam em nome da deusa, e também travestidos.
Moloch também era um deus do fogo. E a maior parte das informações sobre seu culto estão na parte judaica da Bíblia. São oito referências que proíbem os judeus e não-judeus de prestarem culto ao deus fenício. São citações como: "Não darás nenhum dos teus filhos para ser sacrificado a Moloch; e não profanarás o nome de teu Deus, Eu sou o Senhor" (Lev 18:21) ou "Todo israelita ou estrangeiro que sacrificar um dos seus filhos a Moloch, será punido de morte. O povo da terra o apedrejará. Eu voltarei o meu rosto contra ele e o cortarei do meio de seu povo, porque manchou o meu santuário e profanou o meu santo nome, dando um de seus filhos a Moloch. Se o povo da terra não se importar por esse homem ter dado um de seus filhos a Moloch, e se não o matar, eu voltarei meu rosto contra ele e contra a sua família" (Lev 20:02-04). Em Jeremias temos uma referência parecida: "Ergueram-se altares a Baal no vale de Ben-Enom, para ai queimarem os filhos e as filhas em honra de Moloch" (32:35). São basicamente citações que falam sobre a principal característica do culto de Moloch: os sacrifícios humanos e, especificamente, os que mais agradavam ao deus, o sacrifício de crianças.
Outras referências a Moloch que temos são de origem grega e latina que falam das crianças sendo consumidas pelo fogo em Cartago. Cleitarco, Diodoro da Sicília e Plutarco mencionaram a queima de crianças como oferenda ao deus também chamado de Baal Hammon. Comentaristas, no entanto, reconhecem que estas descrições são muito exageradas já que Cartago era a cidade inimiga e, engajados numa propaganda pós-guerra, era necessário fazer seus arqui-inimigos se tornarem cruéis e menos civilizados como afirmam Astin, Walbank e Frederiksen em Rome and the Mediterranean to 133 B.C..
Traduzimos, a partir da versão de Paul G. Fly, uma referência retirada do comentário de Cleitarco a República de Platão:

Não está em seu meio uma estátua de bronze de Saturno (era costume entre os romanos de traduzirem os nomes dos deuses de outros povos, Saturno será comparado a Moloch nestes textos), suas mãos estendidas sobre um braseiro de bronze, no qual as chamas engolem uma criança. Quando as chamas caem sobre o corpo, o contrato de membros e a boca aberta parece estar rindo até que o corpo desliza silenciosamente para o braseiro. Assim é que o "sorriso" é conhecido como "riso sardônico", uma vez que eles morrem de rir.

Já Diodoro da Sicília (20.14) escreveu:

Havia em sua cidade uma imagem de bronze de Saturno estendendo suas mãos, palmas para cima e inclinada para o chão, de modo que cada uma das crianças, quando colocado nelas rolava e caia uma espécie de cova aberta cheia de fogo.

É Diodoro também que relata que os parentes estavam proibidos de chorar a morte de suas crianças, porém é o historiador romano também que nota que o comum era o sacrifício de crianças de classes sociais menos abastadas, tanto que quando Agatócles é derrotado, os nobres cartagineses acreditaram que haviam ofendido os deuses e substituíram as crianças dos sacrifícios por seus próprios filhos, foram desta vez 200 crianças mortas das melhores famílias da cidade.
Em Plutarco, no Das Supertições, temos:

"... mas com pleno conhecimento e compreensão que eles mesmos oferecem os seus próprios filhos, e aqueles que não tiveram filhos iriam comprar pequenos de pessoas pobres e cortar-lhe as gargantas como se fossem cordeiros ou aves jovens, enquanto isso a mãe fica sem nenhuma lágrima ou gemido, mas se ela proferir um único gemido ou deixar cair uma única lágrima, deve desistir do dinheiro e o sacrifício do seu filho foi inútil; no entanto, toda área em torno da estátua era preenchida por um barulho de flautas e tambores que deviam abafar os gritos de lamentação, não deixando que estes chegassem aos ouvidos do povo.

Outra característica do culto a Moloch era a prostituição sagrada. Existe uma referência bíblica que fala sobre isso: "e o cortarei do meio do seu povo com todos aqueles que se prostituem como ele, prestando culto a Moloch" (Lev 20:05). Nota-se que a principal proibição judaica é o sacrifício das crianças em nome de Moloch, mas eles também citam outra parte do culto ao deus fenício: a realização da prostituição ritual em nome do deus, seja agindo como o prostituto ou prostituta ou pagando pelos serviços de um dos servos do deus. Neste caso, estes servos também podiam ser crianças que eram doadas ao templo, porém, no lugar delas serem atiradas ao fogo, estas se tornavam servos do deus, e cresciam como prostitutos do templo.
Era comum em diversas religiões ligadas a fertilidade o que é chamado de Hierogamia, o casamento mágico entre o deus e o seu fiel, isto se dava sempre através do sexo com um sacerdote ou de uma sacerdotisa ou mesmo um sacerdote transgênero. No caso de Moloch, considerado o depositário da potência masculina da fecundação, encontramos sacerdotes masculinos e transgêneros. O ritual normalmente se dava somente com a relação sexual, sobretudo anal, entre o sacerdote e o fiel. Muitos historiadores afirmam, no entanto, que tudo isto não passava de uma oferenda ao deus, que não havia prazer nenhum em pagar por este tipo de prostituição, pois ela se daria somente no contexto religioso. Não haveria uso fora desta situação muito particular para estes servos do deus.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

Fenícia: O Senhor das Mulheres

, em Natal - RN, Brasil

Os fenícios, religiosamente, adoravam rochas e árvores que consideravam objetos divinos. As pedras sagradas chamados metil, ou seja, morada de Deus, muitas vezes eram pedras duras e negras com formas cônicas ou ovo, muitas vezes meteoritos caídos do céu. Árvores sagradas eram às vezes árvores reais, outras colunas de bronze ornamentadas, terminando em um cone. Estes ficavam em lugares altos, principalmente topo de montanhas, mas também templos erguidos em forma de pirâmide de degraus Cada cidade fenícia tinha seus próprios deuses, mas apesar disso todos os fenícios acreditava em um deus chamado de Baal (senhor) e uma deusa chamada Baalit (senhora). Este deus era um benfeitor iluminado que dispersava a vida entre os homens. Ele representava o sol, e era retratado às vezes como um ser humano, às vezes como um homem com cabeça de touro, acreditava-se que ele era caprichoso e sanguinário e para satisfazê-lo era comum os sacrifícios humanos, sobretudo de crianças. A deusa, baalit (senhora), chamada também de Astarté, esta era a deusa da lua, da primavera e da fertilidade.
No entanto, cada cidade tinha seu deus protetor Baal-Melkart era o deus de Tiro, era retratado com um grande guerreiro e excelente navegador, mas no seu templo ele era adorado na forma de uma imensa esmeralda. Em Cartago, o baal da cidade se chamava Moloch, que era representado com um colosso de bronze e também gostava de sacrifícios humanos. Já em Biblos, o grande deus chamava-se Adônis, esta palavra é a versão grega do nome do deus que deveria ser algo como Adão ou Adon, e é, basicamente, através de fontes gregas que sabemos a maior parte do culto a este deus. 
Por exemplo, o nascimento de Adônis é envolto em confusão para aqueles que esperam uma única versão autorizada. Walter Burkert, famoso mitólogo, explica que os helenos decididamente patriarcais e envoltos com uma forma de pensamento que organizava o mundo através da genealogia, deram como primeiros pais do deus Biblos e Chipre, indicadores fiéis de onde seu culto surgiu, mesmo lugar de onde veio o culto de Afrodite.
Existem várias versões para seu nascimento, a comumente mais aceita é que Afrodite (nome grego de Astarté) fez com que Mirra cometesse incesto com o seu pai, Ciniras, rei da Síria, por vingança. A ama de Mirra ajudou-a a realizar o plano e deitar-se com seu pai, no escuro; no entanto, quando Ciniras percebeu que estava com sua filha, graças a uma lâmpada deixada acesa, ele ficou furioso e a expulsou de casa, perseguindo-a. Mirra fugiu de seu pai e Astarté transformou a jovem na árvore da mirra. A jovem no entanto ficou grávida do próprio pai, e transformada em árvore, continuou sua gravidez até que um belo menino nasceu do tronco da árvore. Este mito explica inclusive o porquê da árvore sagrada de Adônis ser a mirra.
Após nascer, a versão grega diz que Cibele é a responsável por criar a criança, esta uma deusa frígia, e quando este torna-se adulto, um grande caçador, Astarté apaixona-se imediatamente por ele, a deusa então abandona seu marido e vive junto com o caçador entre as florestas e cavernas do atual monte Líbano, porém Baal enfurecido, ao descobrir o amante da esposa, transformou-se em um javali e atacou o jovem que ferido, esvaiu-se em sangue. O líquido vermelho que jorrava de suas veias transformou-se em anêmonas ao misturar-se com as lágrimas da deusa.  
Ao descer ao reino dos mortos, Mot, o deus da morte, apaixonou-se por Adônis também e quando Astarté desceu aos ínferos para buscá-lo e trazê-lo de volta a vida, o deus só permitiu sobre uma condição: que ele permanecesse quatro meses do ano junto a ele no inferno, contrariada Astarté teve que aceitar as condições do deus, porém sua tristeza era tão grande quando ele partia de volta a sua vida com Mot que toda a vida definhava, era o período do inverno.
Além da relação com Mot é interessante saber que Adônis era um deus que era cultuado sobretudo por mulheres, em rituais secretos. Os rituais de Adônis se davam quando o verão estava no seu auge, em Biblos. No templo havia um caixão aberto, que esperava os moradores da cidade encontrarem uma estátua de madeira pintada com um grande sangramento na sua lateral, local onde o javali-Baal havia ferido o jovem deus. A estátua era trazida, colocada no caixão, o esquife era velado  e enterrado nos chamados Jardins de Adônis. Os homens traziam galhos verdes de mirra que era deixados para serem secados ao sol, Baal, enquanto as mulheres em massa, gritavam, chorava, raspavam suas cabeças, corriam pelas ruas com roupas esfarrapadas, batendo no peito, gemendo de dor e arranhando o próprio rosto como se fossem as esposas, a baalit, que agora perdia seu grande amor. Explica Walter Burkert, em seu livro Religião Grega, que o clímax do culto é o luto pelo deus morto.