Eu ia escrever um texto sobre o Egito, mas me dei conta que antes de começar a falar sobre relações homoeróticas no passado é preciso deixar claro um conceito antes. Uma idéia importantíssima que se não for levada em consideração toda vez que falamos de relações amorosas e sexuais entre dois homens ou duas mulheres pela História da humanidade pode destruir totalmente o seu argumento. O fato é: não existem gays na História Antiga ou na História Medieval, ou mesmo na História Moderna. Entre os homens que faziam sexo na Atenas clássica, os amantes guerreiros espartanos, os eunucos persas, os homens-mulheres do Egito, os sacerdotes de Astarté, as alunas de Lesbos, Gilgamesh e Eridu, os homens retratados no Kama Sutra, não existem gays. Não existem gays nos mosteiros medievais e nem sendo acusados pela Inquisição. Não existem gays entre os humanistas, Michelângelo e Leonardo da Vinci não são gays. Como também não os são os meninos castrati, nem os atores japoneses do teatro Kabuki.
Os primeiros homossexuais só aparecem no século XVIII como doentes a serem tratados, junto com as mulheres histéricas e os que traziam consigo um infeliz complexo de Édipo, ou sendo processados na Inglaterra como foi Sir Oscar Wilde, os primeiros gays só aparecem no primeiro raiar do século XX, na noite alemã, perseguidos nos Estados Unidos, lutando por direitos na Inglaterra, usando couro e bigodões.
Ser gay é mais do que a relação homoerótica entre duas pessoas, ser gay é uma identidade e uma cultura compartilhada por um grupo social característico do Ocidente. Sendo assim, não podemos chamar outras pessoas que membros de outra cultura e de outro tempo por uma identidade social que é utilizada nos últimos dois séculos (XX e XXI, a saber). Fazer isso é o crime capital para a História chamado anacronismo.
Fazer com que pessoas de outro tempo e espaço se comportem tal qual nós nos comportamos hoje é um erro bastante comum na verdade, que acontece porque sempre pensamos o outro através de nossa própria vivência, isso você pode chamar de egocentrismo, eu prefiro chamar de lente cultural, como diz Geertz. É comum, mas é algo que devemos combater. Em nós mesmos e esse já é um exercício.
Ao perceber de que relações sexuais, no passado, acontecerem entre dois homens ou duas mulheres isso não os torna imediatamente gays. O termo que devemos usar aqui no caso, como já utilizei antes, são relações homoeróticas por acontecerem entre pessoas iguais (homo). E porque não os torna? Porque elas se davam de forma distinta das que se dão hoje. 'Tá, eu não estou dizendo que eles enfiavam seus pênis em outros lugares mágicos, apesar que na Grécia havia o sexo interfemural (não sabe o que é isso, vai ter que esperar eu falar sobre a Grécia então), mas o relacionamento entre estas pessoas se dava diante de outras regras que não são as mesmas que seguimos hoje no mundo contemporâneo. Eles não são gays, mas posso garantir que é uma fato que sempre existiram relações homoeróticas entre homens e mulheres, os registros históricos estão aí para provar e pretendo apresentar alguns deles para vocês por aqui agora. Sigam-me os bons.
