Google+ Estórias Do Mundo: Cristandade
Mostrando postagens com marcador Cristandade. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Cristandade. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Cristandade: I Carta de São Paulo Aos Coríntios

Eu sei que falar da Bíblia é mexer em vespeiro, e que eu vou acabar bem atacado aqui, porém, eu sou historiador e fiz um juramento em nome da verdade e não posso me furtar a opinar sobre um assunto que fere gravemente todos. Sei também que vão me aparecer com aquele discurso de que futebol, política e religião não se discute, para mim isso é balela, é de quem quer evitar atrito e não parecer antipático, opiniões e interpretações estão aí para serem ditas. Então, espero dar a vocês, meu leitores, alguns argumentos para rebater os argumentos de religiosos por aí. Começo, não por acaso, pelos versículos mais importantes contra os relacionamentos homoeróticos em toda a Bíblia, escrita também pelo evangelista mais importante. São Paulo é, sem dúvida, o homem que definiu as regras que a Igreja seguiria dali em diante. Uma tradução recente, de 2004, distribuida gratuitamente nas ruas das grandes cidades brasileiras, ganhei a minha na porta da UFMG aqui em Belo Horizonte, traduz o texto desta maneira:

1COR 6:9 Ou não sabeis que os injustos não herdarão o reino de Deus? 
Não vos deixeis enganar: nem fornicadores, nem idolátras, nem adúlteros, 
nem efeminados, nem homossexuais,
1COR 6:10 nem ladrões, nem gananciosos, nem beberrões, nem injuriadores, 
nem roubadores herdarão o reino de Deus.

Vou ignorar os problemas de tradução, como a inclusão de uma palavra inexistente na época que o texto foi escrito, homossexuais, e as óbvias consequências políticas da presença de uma palavra como esta dentro de um texto sagrado. O problema com a Bíblia  não é o texto sagrado, em si, é sua tradução do grego e hebraico, para o latim, primeiramente, e depois para as linguas vulgares (português, inglês, francês, italiano, etc), a tradução para estas linguas modernas é filtrada pelo posicionamento politico e intelectual do tradutor, além da distância, muitas vezes ignorada pelo tradutor do universo cultural em que São Paulo escreveu, e o nosso universo cultural atual. Traduzir como processo de escritura é muito mais um processo no qual o texto precisa ser refeito, para aproximar-se do sentido original, do que um processo de substituição de uma palavra pela sua correspondente. O texto grego, do qual é extraído o seguinte texto, diz assim (tradução minha):


1COR 6:9 h ouk oidate oti adikoi qeou basileian ou klhronomhsousin mh planasqe oute pornoi oute eidwlolatrai oute moicoi oute malakoi oute arsenokoitai
Não sabes que os injustos não receberão a parte que lhes cabe no Reino de Deus, não tome isso por errado, nem os que se prostituem, nem os idolátras, nem aquele que comete adultério, nem os molengas, nem prostitutos

1COR 6:10 oute kleptai oute pleonektai ou mequsoi ou loidoroi ouc arpageV basileian qeou klhronomhsousin
nem os ladrões, nem os ricos, nem os bêbados, nem os excessivamente maledicentes, nem os vorazes receberão a parte que lhes cabe do Reino de Deus

Compare-se os trechos em negrito. malakoi que é traduzida por efeminado, deveria ser traduzida por molenga, no sentido de "aquele que foge da batalha", "covarde", efeminado até, mas no sentido de "aquele que não cumpre as suas obrigações de homem por não participar da guerra como os outros homens". arsenokoitai já significa, ao pé da letra, "aqueles que fazem sexo com homens", contudo, para o universo grego em que Paulo vivia significava exatamente prostitutos, sobretudo os prostitutos sagrados de deusas como Afrodite e Astarté que além de se prostituírem eram sacerdotes de deusas pagãs, dado que a prostituição comum é nomeada por pornoi e também condenada. 
O problema, no entanto, é que a tradução da Bíblia é considerada, tanto nas Igrejas Católica quanto as Protestantes um momento de iluminação que só pode acontecer com um membro iniciado, as Igrejas só admitem a tradução de um membro de suas próprias fileiras, e, convenhamos, se ele aprendeu a vida toda que o malakoi deve ser traduzido como "efeminado", se ele acredita nisso, porque ele vai vasculhar a história e literatura grega? E não é dificil: existem inúmeros momentos na tradição literária grega que nos foi legada em que o sentido original de malakoi continua sendo usado e traduzido corretamente. A pergunta que deve ser feita, ao fim, é a quem interessa manter a mesma tradução da Bíblia apesar que qualquer dicionário de grego dizer que ela está enganada? Questionem-se, pelo amor de Deus!