Apesar das manifestações contrárias, antes de continuar, preciso reforçar esta afirmação. Não existem gays antes do século XX. E não existem homossexuais antes do século XIX. Qualquer um que afirmar o contrário deve ser olhado com desconfiança. Desconfiança porque, durante muito tempo, os especialistas em História do Homoerotismo (relações sexuais com o mesmo gênero) estavam tão preocupados em afirmar que os homossexuais e gays sempre existiram que acabaram criando mitos em torno de alguns momentos da história e acabaram por apagar as diferenças entre os tempos. Apagaram também que ser gay é uma identidade, não é uma ação, condição, reação. É sobretudo assumir essa identidade que confira ser, hoje em dia, gay.
Ser gay é um assumir-se como tal, além de uma manifestação cultural (não de cultura gay, mas de cultura ocidental e cristã) e política (já expliquei isso também). Vocês podem aqui achar que eu estou enganado, mas deixa eu explicar antes disso. Qual é a primeira coisa que você faz, ao descobrir que tem desejos homoeróticos, hoje? Não é criar a oposição eu não sou heterossexual como meus pais, meus irmãos, meus colegas da escola e sim sou gay? Ao admitir isso, com muitos traumas para alguns, facilmente para outros, mas de qualquer forma com problemas imensos quando essa mensagem precisa ser transmitida para qualquer outro membro de sua convivência (estou falando de "sair do armário"), você não admite uma opção/condição, você assume uma identidade que por mais que seja irritante, para alguns, ela vai definir muitas coisas na sua vida dali em diante. Ser gay é um estilo de vida que se volta apenas ao amor com homens (no caso masculino) ou apenas ao amor com mulheres (no caso feminino). Prestem atenção no apenas. Isso é assumir-se gay, isso é o que nunca existiu antes na história humana: homens que decidem que vão orientar toda a sua sexualidade apenas e unicamente a outros homens e mulheres que decidem fazer o mesmo apenas com outras mulheres.
Talvez a palavra "decidem" aqui deve descer rasgando na garganta da maioria de vocês, mas calma, há uma explicação de porque a escolhi. Os gays decidem sim viver essa vida de uma forma gay, eles poderiam ser "incubados", bissexuais, poderiam ser "curiosos", poderiam ser "homens que fazem sexo com outros homens", existem outras identidades que poderiam ser assumidas, mas eles (eu, vocês, nós), decidimos que preferimos o rótulo de gays, e que este, em relação aos anteriores que eu citem, por exemplo, é melhor e nos fará mais felizes.
Volto no assunto porque se isso não ficar muto bem explicado, estarei explicando outras realidades históricas e vocês entenderão que discuto o presente. E esse não é meu objetivo. Tenham sempre em mente que não estou tratando aqui, nesta coluna, de um universo binário em que a homossexualidade exclui necessariamente as experiências heterosseuxias (e vice-versa). Até o século XIX, esta oposição é inédita.
Para explicar isso, elegi alguns temas para os próximos posts. Primeiramente, tratarei sobre a Antiguidade, depois Medievo, Modernidade e Contemporaneidade, na ordem cronológica. Os temas no entanto não serão necessariamente cronológicos dentro destes grandes campos. É mais provável que sejam sincrônicos. Vou começar com o Egito, A Injúria de Hórus, falar sobre os deuses Hórus e Seth e seus relacionamentos sexuais, depois sobre o terceiro sexo egípcio e o Livro dos Mortos, em Danações Eternas, encerrando com a Tumba dos Dois Amantes. Depois trataremos da Mesopotâmia com O Amor de Eridu e Gilgamesh, sobre a epopéia de Gilgamesh, poema escrito antes de Cristo que celebra o amor entre dois homens, depois Olho Por Olho, Dente Por Dente, sobre as leis assírias sobre sexualidade, e A Deusa Inanna, texto referente aos mitos que explicam a existência de homens efeminados no mundo. Também trataremos da Fenícia em Os Sacerdotes de Astarté, explicando sobre prostituição masculina sagrada, e para a Pérsia Os Daeva e o Castigo de Ahura Mazda, as proibições persas sobre os relacionamentos homoerósticos, e Bagoas, o eunuco, sobre como era permitido, apesar das proibições religiosas, os relacionamentos homoeróticos. Também trataremos aqui de Israel e trataremos de Sodoma e Gomorra, as condenações e proibições do Deuteronômio e Levítico, e as referências positivas em Davi e Jônatas e a grande confusão em torno de Rute e Naomi.
Numa segunda parte trataremos do universo greco-romano. Primeiro, falando da Grécia, trataremos em O Mito Grego, do mito em que a Grécia é onde surgiram os gays e homossexuais, e depois trataremos dos contos míticos gregos sobre Zeus, Apolo, Herácles, Possêidon, Dionísio e Artêmis e seus casos homoeróticos, depois nos voltaremos a autores gregos para falar de como certas cidades entendiam os relacionamentos homoeróticos falaremos de Atenas, Esparta, Tebas, Corinto e Lesbos, para apresentar cinco modelos distintos. Sobre Roma, falarei de poetas para explicar como os romanos passam, influenciado pelos gregos a adotar o Amor Grego, mas também falarei das reações romanas a essa invasão cultura com A Moral de Cícero, mas não sem falar das críticas de Suetônio aos Homens e Mulheres de César e também as Críticas de Tácito. Por fim, encerro aqui falando da Igreja de Paulo, com um texto sobre a Carta de São Paulo aos Coríntios, já publicada, e a Carta de São Paulo Aos Romanos.
Por enquanto é isso, ainda tenho que preparar os textos sobre Índia, China e Japão, também preparar sobre a Idade Média, Renascimento, mas o texto sobre Romantismo já está pronto. Mas vou organizar tudo direitinho aqui.
