Google+ Estórias Do Mundo: Introdução Oriental
Mostrando postagens com marcador Introdução Oriental. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Introdução Oriental. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Homohistória (Introdução - Sumário)

Apesar das manifestações contrárias, antes de continuar, preciso reforçar esta afirmação. Não existem gays antes do século XX. E não existem homossexuais antes do século XIX. Qualquer um que afirmar o contrário deve ser olhado com desconfiança. Desconfiança porque, durante muito tempo, os especialistas em História do Homoerotismo (relações sexuais com o mesmo gênero) estavam tão preocupados em afirmar que os homossexuais e gays sempre existiram que acabaram criando mitos em torno de alguns momentos da história e acabaram por apagar as diferenças entre os tempos. Apagaram também que ser gay é uma identidade, não é uma ação, condição, reação. É sobretudo assumir essa identidade que confira ser, hoje em dia, gay. 
Ser gay é um assumir-se como tal, além de uma manifestação cultural (não de cultura gay, mas de cultura ocidental e cristã) e política (já expliquei isso também). Vocês podem aqui achar que eu estou enganado, mas deixa eu explicar antes disso. Qual é a primeira coisa que você faz, ao descobrir que tem desejos homoeróticos, hoje? Não é criar a oposição eu não sou heterossexual como meus pais, meus irmãos, meus colegas da escola e sim sou gay? Ao admitir isso, com muitos traumas para alguns, facilmente para outros, mas de qualquer forma com problemas imensos quando essa mensagem precisa ser transmitida para qualquer outro membro de sua convivência (estou falando de "sair do armário"), você não admite uma opção/condição, você assume uma identidade que por mais que seja irritante, para alguns, ela vai definir muitas coisas na sua vida dali em diante. Ser gay é um estilo de vida que se volta apenas ao amor com homens (no caso masculino) ou apenas ao amor com mulheres (no caso feminino). Prestem atenção no apenas. Isso é assumir-se gay, isso é o que nunca existiu antes na história humana: homens que decidem que vão orientar toda a sua sexualidade apenas e unicamente a outros homens e mulheres que decidem fazer o mesmo apenas com outras mulheres.
Talvez a palavra "decidem" aqui deve descer rasgando na garganta da maioria de vocês, mas calma, há uma explicação de porque a escolhi. Os gays decidem sim viver essa vida de uma forma gay, eles poderiam ser "incubados", bissexuais, poderiam ser "curiosos", poderiam ser "homens que fazem sexo com outros homens", existem outras identidades que poderiam ser assumidas, mas eles (eu, vocês, nós), decidimos que preferimos o rótulo de gays, e que este, em relação aos anteriores que eu citem, por exemplo, é melhor e nos fará mais felizes.
Volto no assunto porque se isso não ficar muto bem explicado, estarei explicando outras realidades históricas e vocês entenderão que discuto o presente. E esse não é meu objetivo. Tenham sempre em mente que não estou tratando aqui, nesta coluna, de um universo binário em que a homossexualidade exclui necessariamente as experiências heterosseuxias (e vice-versa). Até o século XIX, esta oposição é inédita.
Para explicar isso, elegi alguns temas para os próximos posts. Primeiramente, tratarei sobre a Antiguidade, depois Medievo, Modernidade e Contemporaneidade, na ordem cronológica. Os temas no entanto não serão necessariamente cronológicos dentro destes grandes campos. É mais provável que sejam sincrônicos. Vou começar com o Egito, A Injúria de Hórus, falar sobre os deuses Hórus e Seth e seus relacionamentos sexuais, depois sobre o terceiro sexo egípcio e o Livro dos Mortos, em Danações Eternas, encerrando com a Tumba dos Dois Amantes. Depois trataremos da Mesopotâmia com O Amor de Eridu e Gilgamesh, sobre a epopéia de Gilgamesh, poema escrito antes de Cristo que celebra o amor entre dois homens, depois Olho Por Olho, Dente Por Dente, sobre as leis assírias sobre sexualidade, e A Deusa Inanna, texto referente aos mitos que explicam a existência de homens efeminados no mundo.  Também trataremos da Fenícia em Os Sacerdotes de Astarté, explicando sobre prostituição masculina sagrada, e para a Pérsia Os Daeva e o Castigo de Ahura Mazda, as proibições persas sobre os relacionamentos homoerósticos, e Bagoas, o eunuco, sobre como era permitido, apesar das proibições religiosas, os relacionamentos homoeróticos. Também trataremos aqui de Israel e trataremos de Sodoma e Gomorra, as condenações e proibições do Deuteronômio e Levítico, e as referências positivas em Davi e Jônatas e a grande confusão em torno de Rute e Naomi.
Numa segunda parte trataremos do universo greco-romano. Primeiro, falando da Grécia, trataremos  em O Mito Grego, do mito em que a Grécia é onde surgiram os gays e homossexuais, e depois trataremos dos contos míticos gregos sobre Zeus, Apolo, Herácles, Possêidon, Dionísio e Artêmis e seus casos homoeróticos, depois nos voltaremos a autores gregos para falar de como certas cidades entendiam os relacionamentos homoeróticos falaremos de Atenas, Esparta, Tebas, Corinto e Lesbos, para apresentar cinco modelos distintos. Sobre Roma, falarei de poetas para explicar como os romanos passam, influenciado pelos gregos a adotar o Amor Grego, mas também falarei das reações romanas a essa invasão cultura com A Moral de Cícero, mas não sem falar das críticas de Suetônio aos Homens e Mulheres de César e também as Críticas de Tácito. Por fim, encerro aqui falando da Igreja de Paulo, com um texto sobre a Carta de São Paulo aos Coríntios, já publicada, e a Carta de São Paulo Aos Romanos.
Por enquanto é isso, ainda tenho que preparar os textos sobre Índia, China e Japão, também preparar sobre a Idade Média, Renascimento, mas o texto sobre Romantismo já está pronto. Mas vou organizar tudo direitinho aqui.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Homohistória (Introdução)

Eu ia escrever um texto sobre o Egito, mas me dei conta que antes de começar a falar sobre relações homoeróticas no passado é preciso deixar claro um conceito antes. Uma idéia importantíssima que se não for levada em consideração toda vez que falamos de relações amorosas e sexuais entre dois homens ou duas mulheres pela História da humanidade pode destruir totalmente o seu argumento. O fato é: não existem gays na História Antiga ou na História Medieval, ou mesmo na História Moderna. Entre os homens que faziam sexo na Atenas clássica, os amantes guerreiros espartanos, os eunucos persas, os homens-mulheres do Egito, os sacerdotes de Astarté, as alunas de Lesbos, Gilgamesh e Eridu, os homens retratados no Kama Sutra, não existem gays. Não existem gays nos mosteiros medievais e nem sendo acusados pela Inquisição. Não existem gays entre os humanistas, Michelângelo e Leonardo da Vinci não são gays. Como também não os são os meninos castrati, nem os atores japoneses do teatro Kabuki. 
Os primeiros homossexuais só aparecem no século XVIII como doentes a serem tratados, junto com as mulheres histéricas e os que traziam consigo um infeliz complexo de Édipo, ou sendo processados na Inglaterra como foi Sir Oscar Wilde, os primeiros gays só aparecem no primeiro raiar do século XX, na noite alemã, perseguidos nos Estados Unidos, lutando por direitos na Inglaterra, usando couro e bigodões. 
Ser gay é mais do que a relação homoerótica entre duas pessoas, ser gay é uma identidade e uma cultura compartilhada por um grupo social característico do Ocidente. Sendo assim, não podemos chamar outras pessoas que membros de outra cultura e de outro tempo por uma identidade social que é utilizada nos últimos dois séculos (XX e XXI, a saber). Fazer isso é o crime capital para a História chamado anacronismo.
Fazer com que pessoas de outro tempo e espaço se comportem tal qual nós nos comportamos hoje é um erro bastante comum na verdade, que acontece porque sempre pensamos o outro através de nossa própria vivência, isso você pode chamar de egocentrismo, eu prefiro chamar de lente cultural, como diz Geertz. É comum, mas é algo que devemos combater. Em nós mesmos e esse já é um exercício.
Ao perceber de que relações sexuais, no passado, acontecerem entre dois homens ou duas mulheres isso não os torna imediatamente gays. O termo que devemos usar aqui no caso, como já utilizei antes, são relações homoeróticas por acontecerem entre pessoas iguais (homo). E porque não os torna? Porque elas se davam de forma distinta das que se dão hoje. 'Tá, eu não estou dizendo que eles enfiavam seus pênis em outros lugares mágicos, apesar que na Grécia havia o sexo interfemural (não sabe o que é isso, vai ter que esperar eu falar sobre a Grécia então), mas o relacionamento entre estas pessoas se dava diante de outras regras que não são as mesmas que seguimos hoje no mundo contemporâneo. Eles não são gays, mas posso garantir que é uma fato que sempre existiram relações homoeróticas entre homens e mulheres, os registros históricos estão aí para provar e pretendo apresentar alguns deles para vocês por aqui agora. Sigam-me os bons.