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domingo, 6 de fevereiro de 2011

Às Crianças

‎"Toda vez que você disser amém, 
na sua casa ou no seu lugar de oração, 
ao ódio pelas pessoas gays, 
saiba: uma criança estará ouvindo"
(Orações Para Bobby - Mary Griffin)


Todos os dias, os pequenos, ouvem em suas casas, na escola, na Igreja que frequentam, de seus pais, de seus irmãos mais velhos, de seus professores, dos padres e pastores, de todos aqueles que deveriam estar lá para protegê-los que aquilo que eles sentem, que eles vivem, que eles tentam controlar está errado.  Que eles são abominações, pecadores, não-naturais, imorais, pervertidos. Meu irmão disse uma vez, na mesa do jantar, que os gays deveriam ser largados numa ilha e abandonados lá para morrer. Meu pai e minha mãe concordaram. Que eles não merece a vida, a felicidade, o lugar que eles sonham conquistar no mundo. Meu vizinho, um ano mais velho que eu, repetia o que ouvia dentro da sua Igreja (evangélica) que aos gays só restava o inferno. E como criança, eu acreditei, acreditei que iria para o inferno.  Onde estavam aqueles lá que deveriam defender os pequeninos? Quantas outras crianças não passaram por isso? Quantos meninos e meninas por aí, ouvem de seus pais, irmãos, tios, padres, pastores, aqueles que deveriam estar lá para protegê-los, que condenados, a eles só pode estar destinada a morte, o afastamento, a solidão, a desesperança? Meu outro irmão um dia entrou no meu quarto e, com o dedo em riste, disse que se eu virasse gay ele mesmo me mataria. Quantas e quantas mais crianças precisarão passar por isso? Ouvir na escola que são inferiores, que são de segunda classe, de que não merecem nem terminar seus estudos?  Um colega de escola, cansado de ouvir xingamentos em sala de aula, cujos professores não faziam nada para evitar largou os estudos. Quantas crianças ainda precisarão ouvir que não pertencem aquelas famílias, que não são mais filhos de seus pais, que são a grande decepção da vida deles, que merecem a morte? Onde estão aquelas pessoas que deveriam protegê-los? Um aluno meu era espancado pelo pai porque este achava que ele era gay, ele virou-se para mim com os olhos cheios de lágrimas e me contou: "Professor, eu nem sei o que é ser gay". Quantos sonhos, quantos espíritos, serão destruídos por este ódio que comanda a vida de pessoas? Quantas vidas serão arrancadas de corações tão puros pelo simples fato de que eles não puderam escolher ser iguais aos outros? Quantos mais? Quantos serão assassinados pelas ruas, espancados com lâmpadas, xingados através de vidros de carros passantes? Quantos mais precisam ainda acreditar que não tem o mesmo direito a vida que um heterossexual "normal"? Um outro aluno meu, de 15 anos, quando descobriu que as pessoas sabiam que ele era gay enforcou-se no quarto em que dormia com uma corda de sisal. Quando ódio precisa ser ainda despejado sobre as nossas crianças? Por que eles não nos atacam, os adultos, aqueles que podem se defender e deixam as crianças em paz, deixem seus corações inteiros, vivos, alegres. São apenas crianças. Um amigo meu foi expulso de casa aos 17 anos, por ser gay, ele viveu na rua durante meses. Quantos mais ainda vão ser jogados a sua própria sorte porque aqueles que deviam protegê-los não sabem que as crianças são frágeis e aquilo que se faz a elas destrói mais do que seu corpo, destrói seu coração, seu amor-próprio, seu espírito, seu futuro? Quantas crianças mais serão mortas ainda, por dentro, sem sangue, terão seus sonhos, esperanças e espíritos esmigalhados por este ódio desenfreado? Quantas mais? Por favor, eu lhes peço, aprovem as leis contra homofobia, não por mim, mas pelas nossas crianças, nós somos aqueles que deveriam protegê-las.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Cultura, Homocultura, Subcultura

Falar sobre subcultura é caminhar na corda bamba. Isto porque para alguns o conceito é rizível, para outros é o centro de explicações complexas sobre o comportamento de grupos sociais. Mas, apesar disso, todos concordam com sua definição. Uma subcultura é um tipo de cultura que se constrói sob uma cultura oficial, isto é, é uma forma de ler a realidade utilizando símbolos da cultura oficial, porém dando a eles significados próprios que só são entendidos pelo grupo no qual a subcultura foi gestada. Para alguns ela não é possível porque dentro de grupos sociais a cultura é compartilhada por todos igualmente. Um exemplo daqueles que pensam desta maneira são os marxistas clássicos. Estes não aceitam a ideia de subcultura porque dado a oposição burguesia x proletariado, e sendo a burguesia nesta situação a única produtora de cultura, revestida com o nome de ideologia. Sendo assim não existe espaço para outras subculturas e, muito menos, outras ideologias. Para este entendimento do processo social, a cultura só existe no mundo burguês e é repetida pelo proletariado, o único outro grupo social, o que garante a dominação do segundo pelo primeiro.
Os novos marxistas, para não compararmos alhos com bugalhos, do grupo renovado por E. P. Thompson, historiador inglês, já garantem que a produção cultural também é tarefa dos grupos que não estão no topo da pirâmide social. O proletariado também é capaz de produzir cultura e cultura contestadora capaz de absorver, apropriar-se, resignificar e modificar elementos da cultura burguesa ou, ultrapassando a discussão marxista, da elite dominante. Aqui, a capacidade do outro grupo reler a cultura dita oficial sobre seus próprios termos cria a possibilidade da construção de subculturas associadas a grupos sociais. E, como a sociologia e a antropologia vêm mostrando, associado a grupos cada vez menores. 
Dito isto, podemos falar em subcultura gay? Sim e não! Sim, porque é inegável a construção de uma homocultura a partir da década de 1930 na Europa e, em seguida, no Pós-Guerra americano, neste último intensamente influenciada pela contra-cultura (ler mais sobre isso aqui e aqui). Contudo temos que dizer não se pensarmos que a homocultura é um bloco único. A homocultura não é, mais, uma subcultura coesa. Afinal, se uma subcultura nasce exatamente da contestação de uma cultura hegemônica - no caso, heteronormativa - é natural que, ao tornar-se hegemônica dentro do grupo social ao qual ela se liga, haja, rapidamente, reações de contestação criando subculturas dentro da subcultura. 
É da própria contestação da hegemônia homocultural que surgem as variações da cultura gay como os Ursos (é inegável a aversão ursina ao padrão estético que se tornou hegemônico no mundo gay); os HSH ("Homens que fazem Sexo com Homens" que negam até o próprio título de homossexual ou gay); os "Sou Gay, Mas Não Sou Efeminado" (que se manifestam vivamente contra o que eles chamam de estereótipo da cultura gay); também podemos citar o grupo yupie (que criou símbolos de status associados com o poder aquisitivo, como baladas caras, moda, perfumes e jóias, integrando-se ao mercado); ou o grupo cristão (católico e evangélico que mantém suas vidas dentro de padrões que são aceitos pelos grupos religiosos que se filiam), poderíamos citar vários outros grupos, porém a ideia é que apesar destes todos, em grande parte, participarem de uma homocultura comum, eles reagem a ela construindo novas formas de ler a sociedade do qual fazem parte a partir de novos símbolos.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Então, Vamos Falar Um Pouco de História... (Parte I)

Falamos sempre de "cultura gay" por aqui e algumas pessoas insistem em negar sua existência, seja para negar sua participação nela, seja por considerá-la segregacional. Bem, se falarmos de história, ela existe e tem data de nascimento. Mas antes, deixa eu explicar o que é essa tão falada "cultura gay".
Homocultura, o termo correto, trata-se de uma cultura criada por um grupo social que tem suas afinidades, aproximações, que frequentam os mesmo ambientes e convivem com os mesmos símbolos, imagens, ideias, padrões, que conversam entre si. Homocultura é um tipo de cultura, no entanto, que se desenvolve a partir da contestação do padrão culturual vigente, isto é, heteronormativo. Em outras palavras, é uma cultura que contesta o modelo heterossexual de vida. Então, basicamente, se você namora, sendo homem, outro homem; se sendo mulher casa-se e constitui família com outra mulher, contestando assim o modelo heterossexual, você está, necessariamente, aceitando a homocultura e a corroborando. Mesmo que não aceite ou participe de todos os elementos, você faz parte deste universo de contestação.
Voltando a história, apesar das relações homoeróticas (entre o mesmo sexo) existirem "desde que o mundo é mundo" (posso, se alguém desejar, mostrar referências na Antiguidade, por exemplo), a homocultura é uma invenção do Pós-guerra. O que quero dizer é que até a década de 1960 (no Brasil, esta data tem que ser alterada para 1980), ter relações com o mesmo sexo não significava adotar uma cultura distinta da cultura "oficial", as relações homoeróticas se davam num espaço bem demarcado da cultura heterossexual. Usando exemplos brasileiros, as relações homoeróticas podiam se dar dentro de um ambiente "controlado": os meninos que fazem troca-troca, a Geni que dá para qualquer um, o Cintura-Fina que se prostituía entre mulheres, Madame Satã cantando nos cabarés da Lapa, havia um lugar demarcado e socialmente aceito para estes personagens circularem. 
Quando a homocultura surge, ela é uma manifestação, uma afirmação, um grito dizendo que ninguém mais vai se contentar com o gueto. Surge dentro dos bares gays e lésbicos americanos. E esse grito se torna tão alto, forte, poderoso, que as autoridades americanas preocupadas com "os bons costumes" iniciam uma onda de confrontos com estes públicos. Voltemos no tempo, imagine-se em um bar gay, em São Francisco, em 1950, a II Guerra acabou, a economia está estagnada, você preocupado em beijar alguém, quando a polícia invade o local e leva todos presos por vadiagem e atentado ao pudor. Demorou para haver reação a esta situação. Somente em 1969, quando a polícia de Nova Iorque invadiu o bar Stonewall Inn, que os homossexuais presentes reagiram, atacaram a polícia e saíram em marcha exigindo que seus direitos fossem respeitados. 
Stonewall foi um marco. Ele criou sobretudo a ideia de orgulho gay. A partir daquele momento os gays e lésbicas desistiram de se esconder, de tentar passar desapercebidos, decidiram que mereciam mostrar sua cara e contestar todo o sistema que estavam inseridos. 
Não é por acaso que isso acontece somente em 1969. A década de 1960 é marcada pela explosão de movimentos contestadores do status quo. O movimento hippie e seu amor livre, o feminismo e, mais tarde, a contra-cultura do movimento punk são as bases do que hoje chamamos de homocultura. Acham que uma coisa não tem nada a ver com a outra? Pois pense de novo. A promiscuidade associdada aos gays é só uma forma de denegrir o questionamento a monogamia heterossexual combatida pelo movimento hippie; a formação de famílias homoafetivas desestabiliza o conceito de família heterossexual centrado na figura do homem, combate feminista; a participação de transgêneros, travestis e drag queens questiona a imagem do que é homem e o que é mulher, questão base do movimento punk
A homocultura tem então estes três pilares: o amor livre, a reestruturação da família e redefinição dos papéis de homens e mulheres na sociedade. Agora, você deve estar perguntando: então de onde saíram as divas pop? A obcessão pelo corpo malhado? O papo vazio sobre moda, cabelo, maquiagem e decoração? Como o texto já está muito grande, essa explicação fica para a parte II.

domingo, 24 de outubro de 2010

Get Better

Quando adolescente, eu tinha medo de sair de casa. Tinha medo de ouvir aonde eu passava: "viadinho", "bichinha". Eu já ouvia isso na escola, ouvia entre meus vizinhos, ouvia em casa dos meus pais e irmãos, então eu preferia ficar em frente a tv. A tv não me dizia que eu estava errado, que eu era alguém que ia queimar no inferno, que eu era criminoso. Na verdade ela dizia, mas não dizia para mim, era para qualquer outro personagem efeminado que aparecia na tela, um costureiro, um cabeleireiro, alguém num programa de humor, eram eles e eu podia fingir que nada daquilo era comigo. Eu podia.
Mas um dia eu cresci, e eu vi que eu não podia mais me esconder atrás da tela daquele aparelho e evitar viver a minha vida. Eu não podia simplesmente ignorar que aquele mal estava sendo feito, a mim, a outros, fiz faculdade, cresci, beijei vários e muitos e fiz sexo com outro tanto, e vivi plena e feliz a sexualidade que os outros acham que é errada. Mas não é! É a minha e nada que eu faça em minha vida é errado porque é minha vida, meus caminhos e minhas escolhas, e cada caminho que eu tome será sempre o correto porque eu aprendei com ele, pelos erros e pelos acertos. Não cabe a ninguém, absolutamente ninguém, nem meu pai ou minha mãe, nem o padre ou a Bíblia, nem o próprio Deus dizer como eu devo viver a minha vida. 
Crescido, me tornei professor, e sim eu vi acontecer de novo e de novo tudo aquilo que eu vi acontecer comigo. Mas não, não fiquei parado, não fiquei quieto, nem fiquei em silêncio. Defendi alunas minhas que foram vistas aos beijos no banheiro da escola, denunciei um pai que espancava o filho dizendo q ele era "viadinho", falei em alto e bom som que condenar um menino que havia se suicidado ao descobrir que era soro positivo aos quinze anos era, para dizer o mínimo, antiético da parte de profissionais que deveriam estar lá para ensinar. Também ajudei meninos que estavam em momentos de transformação, assumindo sua identidade sexual, deixando de ser meninos para se tornarem meninas. Às vezes o que eles precisam é apenas de um bom modelo a seguir. Também xinguei a Globo Minas em alto e bom som (via e-mail) quando eles criticaram crianças dizendo que meninos brincam com brincadeiras de meninos, e continuo repetindo aqui: cadê a porra de sua responsabilidade social, Rede Globo?, hoje, estou terminando e me formando no curso que a Universidade Federal de Minas Gerais oferece de Educação Sem Homofobia. Aqui o site.
Mas porque disso tudo? Porque todos os meninos têm o direito de sonhar que um dia serão felizes, amados, que poderão amar e ser amados em retorno. Todos os meninos têm esse direito. Têm o direito de sonhar. E principalmente porque ser gay não é só se interessar por homens, é ter atitude política, atitude de protesto e de descontrução de todas essas formas heteronormativas que balizam nossa sociedade. Bichas, uni-vos! E sim, isso vai melhorar, tudo vai melhorar, se cada um fizer a sua parte.


terça-feira, 15 de junho de 2010

PRESENTE: Maria Gadú e a Heterossexualidade

Tem uma ensaísta e poeta feminista americana, nascida em Baltimore, Adrienne Rich que tem um conceito muito interessante: a heterossexualidade compulsória. E tem a nova queridinha da MPB, a Maria Gadú que disse essa pérola a revista Rolling Stone recentemente: "Ninguém chega em casa falando 'mãe, sou hétero'. Então, porque tem que chegar e dizer 'mãe, sou gay'?". Elas duas se chocaram na minha cabeça. Maria Gadú repete o texto que eu escuto entre muitos gays por aí, e que, de fato, não posso discordar, porém é um discurso vazio se não há uma explicação que somente Adrienne Rich conseguiu me dar. Por que os héteros não precisam assumir-se?
Adrienne Rich explica que a heterossexualidade é uma obrigação social, isto é, que ao nascer nenhum menino ou menina é heterossexual, mas ele é obrigado a se tornar, pois desde pequeno ele é envolto em símbolos e a uma cultura que o tendem a moldar de determinada forma. Ao menino são dados certos brinquedos (bolas e carrinhos), são cobrados certos comportamentos (menino não chora, menino é agressivo, menino é agitado), são reforçados outros tantos (menino tem que ser safado, tem que mostrar coragem, tem que ser extrovertido); a menina outros brinquedos são dados (bonecas e panelas), são cobrados outros comportamentos (emotividade, calma e silêncio) e reforçados outros (castidade, discrição, comunicação). Adrienne Rich diz que então o indivíduo não tem outra possibilidade e simplesmente repete os modelos ao qual foi acostumado, os homens são empurrados às mulheres, as mulheres devem fugir dos homens e a adolescência está configurada.
Contudo, algumas pessoas, por motivos que Adrienne não sabe explicar, não conseguem ser modeladas a seguir a este impulso não-racional, e precisam juntar forças para virar-se na direção contrária. Num processo doloroso que é como ela caracteriza o outing. Segundo ela, a necessidade de assumir-se gay vem daí. Da necessidade do indivíduo de dizer que não faz parte e nem compactua com este mundo ao qual é obrigado a fazer parte. A grande diferença é que a negação desta (hetero)normatividade compulsória, a negação deste normal ao qual os indivíduos são obrigados a aceitar/ser, antes te colocaria a margem da sociedade, em um gueto, e hoje não, graças a direitos conquistados sobre o sangue de militantes.
O heterossexual, então, na explicação de Rich é aquele que não pensou sobre sua identidade. Nunca passou pela cabeça dele: "Porra, sou hétero!". Nunca houve o questionamento, a dúvida, a provação. É uma "decisão" sem "pensamento" (por isso mesmo a idéia de opção sexual não funciona). Já o gay, é exatamente o oposto. Aquele que precisa sair de sua heteronormatividade, porque todos são criados para serem héteros, e decidir qual identidade ele deve assumir, porque ele não consegue e nunca vai conseguir simplesmente aceitar aquilo que todos os outros conseguem ser simplesmente sem pensar, automaticamente, compulsoriamente. Ser gay é assumir uma identidade gay, uma vida distinta daquela que ser heterossexual deveria ser. Ser gay é sair do armário.
Então, respondendo Maria Gadu, "Ninguém chega em casa falando 'mãe, sou hétero'. Então, porque tem que chegar e dizer 'mãe, sou gay'?". Um hétero não precisa contar a ninguém o que todos esperam dele. Um cantor cantando não precisa dizer que é um cantor. Um ator atuando, em um palco, não precisa avisar-lhes que é um ator. Mas quando cantor resolver atuar ele precisa dizer: "Ei, eu sou cantor, mas hoje, deem-me licença porque vou atuar". Essa é bem a diferença. Um gay pode e deve dizer (a quem interessar, possa): "eu sou gay" porque ele não aceitou a regra e abraçou a diferença. E, definitivamente, ser diferente é tão bom. Deixem os normais para lá, porque é bem mais interessante ser diferente.

sábado, 8 de maio de 2010

PRESENTE: Homofobia(s) II

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Prólogo

Belo Horizonte é uma cidade extremamente tranquila. Uma metrópole pacata onde ainda se vê um ritmo de interior. A lei municipal 8.176/2001 também ajuda nisto. A capital mineira foi a segunda cidade do Estado a contar com uma lei que coíbe a discriminação por orientação sexual, a primeira foi Juiz de Fora (lei 9791/2000), ao sudeste do Estado. A época, nove anos atrás, em todo o país, 72 municípios também já possuíam leis semelhantes que garantinham proteção aos homossexuais através de dispositivos legais, tais como: Fortaleza, lei 8211/1989; Olinda, em sua lei orgânica; Salvador, lei 5275/1997; Natal, lei 152/1997; Maceió, lei 4667/1997; Campinas, lei 9809/1998 e Alfenas lei 3277/2001, além de três Estados: Rio de Janeiro, com a lei 3406/2000 e São Paulo, com a lei estadual 10.948/2001 e Alagoas, lei 23/2001; e o Distrito Federal com a lei 2615/2000. Veja os outros aqui.
Hoje o quadro muda para não muito diferente. Somente Recife, entre as capitais, teve uma lei semelhante aprovada (16780/2002), mas cidades como Londrina (lei 8812/2002), Novo Hamburgo (lei 1549/2007), Colatina (ES) (lei 5304/2007), Blumenau (lei 7153/2007) e São João Del Rey (MG) (lei 4172/2007) também aprovaram leis que protegem seus cidadãos homossexuais. E por serem cidades "de interior" merecem duplo aplauso. Entre os Estados, Rio Grande do Sul (lei estadual 11872/2002) e
Minas Gerais (lei 14170/2002) seguem logo o exemplo, logo em seguida a Paraíba (lei 7309/2003) e Santa Catarina (lei 12574/2003), também o Pará (com a renovação de sua constituição) e o Piauí (lei 5431/2004), e os últimos o Mato Grosso do Sul (3157/2005) e o Maranhão (8444/2006).
Isto é para lembrar que existem sim leis que nos protegem, mas precisamos conhecê-las para reivindicá-las. E, principalmente, que devemos saber os momentos de utilizá-las ao nosso favor. Agressão, física ou verbal, não deve passar impune, caso qualquer um de nós passe por estes problemas devemos sempre nos dirigirmos as autoridades competentes e registrar um boletim de ocorrência, tal como eu não fiz. Deixe que eu conte a vocês três momentos, muito raros em Belo Horizonte, repito, mas que aconteceram e eu não fiz nada...



Pampulha
As tardes costumo correr na lagoa, quando a preguiça não me segura em casa, ou um projeto, um trabalho, um livro, ou a chuva, não me impedem de sair de casa. Sempre a tarde. Prefiro o fim do dia. O pôr-do-sol sobre o espelho d'água da lagoa e as curvas das construções de Niemeyer. Tudo fruto da mente insana de um prefeito que virou presidente da república, JK, insana.
Eu já voltava do meu trajeto de 17km, quando cruzo com três garotos, nenhum devia ter mais que 17 anos, nenhum devia ter já chegado ao Ensino Médio. Negros. Usavam permudas e chinelos de dedos, um ostentava um abadá de alguma micareta perdida por aí. Observei-os de longe e percebi logo o que preparava-se para acontecer. Você está acostumado já. Já sabe como eles se preparam para o primeiro golpe, e já trava o abdômen para recebê-lo. O primeiro soco é sempre doce e meloso.
Em tom de deboche, um deles me cantou. "Gostosinha, a menininha né?". Eu não sorri, mas olhei diretamente nos olhos dele. Outro me cerca. "Por essa eu me apaixonava". E ri, gostosamente, como quem descobre uma bela piada. O terceiro não fica de fora: "Ah, me dá um beijo, vai? Só umzinho!". E eu tento continuar o passo, mas eles tentam me deter. Nada que eu não pudesse escapar, nada que eu ainda não pudesse sair dali. Afasto-me alguns passos dele e outro continua a falar: "Ah, beija ele mesmo! Vai!!". Eles riem entre si, satisfeitos em humilhar outra pessoa que não poderia se defender, é quando então eu paro, olho para trás, e sibilo: "Desculpa, mas você é realmente muito feio p'ra eu te beijar, sabe?". E saí, continuando pela orla da lagoa, já indo de volta pra casa. E agora os outros dois riam do que em silêncio ficou, mas não de mim.

quarta-feira, 11 de março de 2009

PASSADO: Crônica da Vida Cotidiana II

Este Mundo Ainda Tem Jeito

Essa estória se passou em 02 de junho de 2004, na parada de ônibus que ficava em frente ao Nordestão Cidade Jardim, um grande supermercado natalense. Quem me lembrou dessa estória foi o último post do Crônica Masculina, além, é claro, de um certo blogayro preconceituoso que anda rondando meu blog. Dedico a ele.





Eu acabara de sair da casa do Din, um amigo, já era noite, a meia-noite quase anunciava as doze badaladas, e tinha ido pegar o último ônibus que se dirigia a minha casa na parada do Nordestão Cidade Jardim. Era um domingo qualquer desses de inverno em Natal, o que quer dizer que poucas estrelas havia no céu e as nuvens se juntavam para chover sobre as fogueiras de São João. Única época que é certo chover em Natal, quando a primeira fogueira é acesa. Eu esperava o 63 sentado, cabisbaixo, pensando cá com meus botões quando um viadinho chegou na parada. Para quem não sabe, junto ao CCAB Sul, que fica quase ao lado do supermercado, tem uma boate gay: o famigerado Pagode, que eu frequentava quase que todo domingo anos atrás. Com certeza ele vinha de lá. E era muito viado, na verdade, era quase uma menina. E por milagre: eu não o conhecia. Mas educadamente ele de desejou boa noite quando se aproximou.
Bem... continuando a história... ele ficou lá esperando o ônibus dele quietinho, sem incomodar ninguém. Mas, no entanto, logo depois ele chegar e se acomodar, aproximou-se um casal com duas meninas que deviam ter entre 14 e 12 anos. A mais velha então começa a ter risinhos descontrolados ao ver o menino. Ria. Apontava. Humilhava o coitado que mantinha-se calado, olhando para o horizonte, como se nada o afetasse. Foi quando eu vi o que mais me deixou chocado. A mãe da menina virou e disse:
- Amanda, você não sabe o que é respeitar os outros? Sua sorte é que nós estamos na rua, senão eu batia na sua cara agora. Mas espere chegar em casa.
A menina, a tal Amanda, olhou incrédula para a mãe, se tivesse olhado pra mim teria visto o mesmo olhar no meu rosto, porque eu também não acreditava no que tinha ouvido. Olhei para o menino, o viadinho, e ele ouvira também e sorria de canto de boca, ela, a Amanda, então virou-se para o próprio pai, pedindo ajuda, e aí tomei meu segundo susto. O pai dela virou-se e falou:
- E quem vai bater quando chegarmos sou eu!
Amanda se calou. Eu contive um riso estupefato, o viadinho brilhava orgulhoso. De muito perto, vi a menina calar-se e buscar abrigo na barra da saia da mãe, como quem pede desculpas, como quem não sabe que cometeu um erro. Sua irmã, em silêncio estava, em silêncio permaneceu.
Essa estória permanece sempre nas minhas lembranças, mas como me lembro dela mudou muito porque eu também mudei. Lembro que saí de lá desejando sinceramente que Amanda tenha levado a surra prometida, achando que era isso que toda criança que demonstrasse algum tipo de preconceito deveria receber. Castigo! Porém, eu percebia que isso era meio que impossível pelo simples fato que crianças não são por si só preconceituosas, elas aprenderam com alguém. Aprenderam que pessoas que são diferentes delas são inferiores. Primeiro os negros, mas isso ficou bem impopular; depois os judeus, mas isso virou um crime ainda mais odioso; depois as mulheres, mas isto é atirar no próprio pé; restaram os gays, principalmente os viadinhos-efeminados que são os mais visíveis entre todos. E aí eu me lembro de Geni e o Zepelin, "ela é boa de apanhar, ela é boa de cuspir". Minha pergunta naquela época era com quem Amanda teria aprendido tanto ódio, aos 14 anos, se seus pais pareceram ser tão "esclarecidos"? É. Mas espero que Amanda tenha aprendido a lição. E os filhos dela não sejam mais preconceituosos.
Hoje minha pergunta é quando os próprios gays vão deixar de cuspir para cima? Quando vamos parar de ter preconceito com um menino que só teve o azar de não conseguir dissimular tão bem quanto nós? Por que é necessário dissimular? Por que fingir? E por que escolher seus amigos e/ou namorados somente entre estes que conseguem fingir que são "um simples amigo"? Bem, eu, graças a Deus, não faço isso! Do pecado da Amanda - e de um certo blogayro - eu estou livre.


PS: Para completar, agora falta ir lá nos sitezinho e assinar a lei que pune criminalmente a homofobia, vamos lá, não custa nada, porém, não sem pensar direitinho e ver que homofobia voltada contra o próprio grupo do qual você faz parte também é muito grave! E sim, a lei poderá ser usada contra outros gays que ajam com preconceito contra os seus!

quarta-feira, 30 de julho de 2008

PRESENTE: Se Não Pode Vencê-los, Junte-se a Eles?

Eu não gosto de homem que gosta de homem. Pronto! Falei! Agora explico: eu gosto de V-I-A-D-O. Porque homem gosta de mulher, 'tá? Encubados, enrustidos, hétero-que-come-bichas, não, não estou falando disso. Eles não estão incluídos nem na lista de possibilidades porque de problemático já basta eu. Estou falando é daqueles bem resolvidos, alguns até assumidos, todos com seu objeto de desejo bem acertado, sem problemas de perversão. Falo dos que se comportam como héteros, mas que gostam de homem. Estou falando que se é para manter o lugar social que se mantenha todo ele.
Comecei a falar difícil? Lugar social? Calma, eu explico! Lugar social é aquilo que a sociedade espera de um sujeito quando este ocupa um determinado lugar dentro dela mesma. É o comportamento que a sociedade exige quando você se propõe a ocupar um determinado papel. Existe o papel de pai, existe o papel de mãe, de homem casado, de mulher casada, de padre, de bombeiro, de policial, de bandido. Imagine-se num grande teatro, e cada um tem que interpretar o papel que escolheu, e o diretor é carrasco, ele não permite que você altere em nada o personagem que escolheu vivenciar.
Entre estes papeis, entre estes personagens, entre estes lugares sociais, um dos mais claros em todas as sociedades históricas e pré-históricas é definido pelo gênero, existe o papel masculino e o papel feminino, e fazendo uma rápida generalizada, observamos o primeiro associado ao papel de proteção e liderança, e o segundo de fragilidade e manutenção. E, caso alguém pense em contra-argumentar dizendo que existiram sociedades matriarcais durante, sobretudo, a pré-história européia, aviso: não existem provas históricas de que tal regime de fato existiu. Estatuetas de idolatria de deusas não configura um matriarcado, no máximo, uma posição de igualdade entre homens e mulheres cujo ciclo celta do Rei Arthur é um bom exemplo.
Não obstante, como a História e a Antropologia estão ai para provar, estes papeis masculinos e femininos não se confundem com os tipos sexuais até o século XIX (Ah, não confundir: gênero, masculino e feminino; sexo, heterossexual e homossexual). A partir dos oitocentos, graças aos escritos de homens com obras tão diversas tal qual Freud e o Marquês de Sade, o heterossexual masculino - o homem - e o homossexual feminino - a lésbica - foram aproximados, também o heterossexual feminino - a mulher - e o homossexual masculino - o pederasta. Hoje, no entanto, quando os gays assumiram orgulhosamente sua própria existência, eles passaram a exigir o mesmo lugar do heterossexual masculino, o mesmo papel que era reservado ao homem, isto é, o mesmo comportamento, a mesma imagem, a mesma vida. É um movimento perceptível a necessidade de voltar a ser homem, mas sem negar seus próprios desejos. Isto, por um motivo óbvio: o homossexual masculino não quer ser apontado, ridicularizado, humilhado, o que algumas gerações atrás usavam o "armário" para se proteger, hoje assumir o comportamento/ lugar social hetero masculino é o escudo. Quando antes ninguém queria ser descoberto, hoje quer se ouvir durante o outting que você nem parece ser gay. Não se nega o desejo - este quase foi perdoado pelo discurso politicamente correto que vivemos hoje - mas se nega o lugar social, aquilo que a sociedade espera da bichinha, o famoso estereotipo.
Vocês acham que é pura coincidência que personagens gays em séries de tv, novelas e filmes possam todos ser confundidos com heteros? Isto não é a mídia tentando destruir um preconceito. É a mídia encontrando um preconceito que ela pode usar. E por que isso me irrita? Porque eu não consigo aceitar que o papel do heterossexual masculino seja o tipo padrão. Em outras palavras, por que para um homem ser homem ele tem que ser um homem hetero? Por que os homens heteros são os modelos que nós devemos imitar? Por que eles são como nós deveríamos ser? Por que o jeito deles viverem é o jeito correto? É isso? Então, se for meus amigos, não é nos comportando como eles que vamos acertar, a gente tem é que pegar mulher. E aí, lanço o desafio, quem vai ser o primeiro a tentar?