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terça-feira, 19 de junho de 2012

Índia: As Muitas Esposas da Mãe de Todos

, em Natal - RN, Brasil


Sri Yellamma-devi é uma expansão da deusa Durga, que é adorada por toda a Índia, especialmente na região centro-sul como Karnataka e Andhra Pradesh. Ela é muito popular com o terceiro sexo também, e sua aparência é baseada em narrativas de Bhagavata Purana (9,16. 1-8) e, posteriormente, as tradições medievais. 
Existem várias versões da sua história, mas a descrição básica é a seguinte:

Mãe do Senhor Parasurama, Renuka, foi ao Ganges para coletar água para yajna diário do marido (o sacrifício de fogo). Uma vez lá, ela viu o rei dos gandharvas ( os músicos celestes) esportivos com apsaras, belas cortesãs celestes. Distraído com a cena, Renuka voltou um pouco atrasado com a água. Seu marido, Jamadagni, não gostou do atraso e acusou a esposa de adultério. Furioso, ele ordenou a seus muitos filhos a matarem sua esposa, mas todos eles recusaram, exceto o mais novo, Parasurama. Recebendo de seu pai grandes poderes místicos, Parasurama decidiu decapitar a mãe e todos os seus irmãos com o seu machado famoso (alguns relatos mencionam Parasurama castrar seus irmãos, em vez de matá-los). Quando Parasurama tentou decapitar Renuka, no entanto, Durga-devi, apareceu-lhe como a deusa Yellamma-a, apsara celestial, com milhares de cabeças. Incapaz de tolerar a visão de um filho matar a própria mãe, ela estava em pé diante Renuka para evitar o matricídio, mas como Parasurama estava tão determinado a cumprir a ordem de seu pai, Yellamma criou uma Renuka ilusória e Parasurama decapitou-a em seu lugar. Jamadagni foi, assim, satisfeito com a obediência de seu filho e lhe ofereceu qualquer benção. Parasurama então pediu que sua mãe e seus irmãos pudessem voltar a viver sem memória do incidente. Jamadagni, apesar de irritado, concordou e todos foram revividas. A forma ilusória, assim, permaneceu com Jamadagni enquanto o Renuka original passou a dedicar sua vida à deusa, tornando-se sua companheira inseparável.

Sri Yellamma-devi é adorada como uma expansão de Durga e é protetora dos seus devotos. Seu nome significa, literalmente, "uma mãe para todos." Ela é descrita junto com Renuka, mas é sua associação com a prática hindu antiga de manter devadasis, ou cortesãs templo, que é talvez o mais marcante. A prostituição era permitida na Índia antiga, em determinadas circunstâncias e narrativas védicas contêm muitas referências a prostitutas como parte da construção social nas grandes cidades, tais como capital do Senhor Krishna de Dvaraka, Varanasi, e Puri em Orissa. Nos últimos séculos, no entanto, a prática de manter cortesãs do templo tem sido amplamente desencorajados e só é visível dentro de certas cerimônias e rituais tradicionais, normalmente relacionadas com a adoração da deusa.
Devadasis são servas cujas vidas são completamente entregue ao deus ou deusa do templo. Elas são muitas vezes vistos na cidade carregando potes grandes em suas cabeças que contenham imagens da divindade. Elas usam marcas brilhantes de cúrcuma e vermelhão na testa e podem ser vistas cantando e dançando nas ruas. Como bailarinas do templo, devadasis mantém importantes tradições religiosas de dança, como prostitutas, elas fazem os seus serviços, disponíveis a qualquer pessoa e recebem doações que são dadas à deusa. Duas vezes por ano durante a lua cheia em Magha e Chaitra, festas e cerimônias especiais são realizadas marcada por procissões grandes de jogathis (devotas de Yellamma) que desfilam sem roupa pelas ruas. A nudez tradicional tem sido largamente reduzida, tanto para o protesto do jogathis (eles agora use roupas folgadas ou vestidos feitos de folhas de nim). A prostituição no templo não é apenas do sexo feminino, um grande número deles são homens, conhecidos como jogappas, que incluem tanto travestis femininos, vestidos como mulheres e tipos masculinos que também oferecem os seus serviços como dançarinos e prostitutos.
Há muitos templos de Sri-devi Yellamma em toda a Índia. Alguns dos mais famosos são o templo do século XI em Badami e o templo Renuka-Yellamma em Saudatti (Belgaum), ambos em Karnataka. Há também dois templos populares em Kurnool (Dandakaranya) e Hyderabad em Andhra Pradesh. Centenas de milhares de peregrinos descem no templo Saudatti durante o maior festival do ano, realizada na noite de lua cheia Magha (janeiro-fevereiro). Iniciações para o culto devadasi são realizadas naquela época. Os iniciados, homens e mulheres, são casados com a deusa e prometem dedicar suas vidas a ela. Nos tempos modernos, muitos dos devadasis vêm de famílias carentes e já não são respeitadas ou bem tratados.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Índia: O Amor de Aruna e Surya




Sri Surya é o deus do sol védico, também conhecido como Ravi ou Vivasvan. Ele é o encarregado de iluminar o universo. Em uma versão do seu mito, muito popular no sul da Índia, Surya se apaixona por seu cocheiro, Aruna, e para possuí-lo o deus se transforma em uma mulher. Contudo uma outra versão da história é diferente. No norte do país, a história é narrada da seguinte forma: Aruna, o deus do amanhecer, desejava as belas cortesãs que dançavam no palácio de Indra. Assim, ele se disfarçou como mulher para poder entrar no harém do deus, se escondendo dentro do palácio. Indra, no entanto, notara sua presença e foi imediatamente cativado pela sua beleza. Como ele estava disfarçado de mulher, Indra o tomou em sua cama e os dois fizeram amor e desta noite nasceu um filho chamado Vali. No dia seguinte, Aruna que havia dormido na cama de Indra, chegou atrasado ao seu dever de servir de cocheiro para Surya, que exigiu saber o que acontecera. Aruna descreveu o que acontecera, Surya enciumado porque, secretamente, já era apaixonado por seu cocheiro, forçou o cocheiro a fazer amor com ele, também, produzindo uma segunda criança, que ficou conhecido como Sugriva. A prole de Aruna foi mais tarde transformada em vanaras (humanos-macacos) por uma maldição lançada por Gautama Rsi.
É interessante ver como no conto de Surya a presença feminina é um integrante importante nos relacionamentos sexuais. Aruna se veste como mulher para entrar no palácio de Indra e, por isso, por estar neste estado entre os sexos, é capaz de gerar um filho para o deus. Estando já grávido de Indra, Aruna também então recebe o sêmen do deus solar e pode-lhe também gerar um filho. Este conto, no fundo, fala muito mais sobre o poder fecundador de Indra e de Surya do que de relações homoeróticas em si, mas por causa dele o culto ao deus do sol na Índia acaba envolvendo sempre a presença de relações homoeróticas dentro do próprio culto. De qualquer forma, Aruna e Surya aparecem representados sempre juntos, como um par ou um casal divino.
Existem muitos templos dedicados a Sri Surya em toda Índia, como o Mandira Brahmanya Deva e do templo Surya Narayanaswami. Outros no entanto estão em ruinas como o templo Konark, do século XIII, perdo de Puri. A arquitetura impressionante desses templos magníficos tem como decoração esculturas, comumente, sexualmente explícitas, que sempre incluem pessoas do mesmo sexo fazendo amor.

Templo de Kornak


Passeio Virtual pelo templo de Kornak aqui.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Índia: Os Amores de Krishna





Sri Krishna é conhecido também como o mais belo deus. Na verdade, o nome Krishna significa "todo-atrativo" e sua beleza incomparável cativava todos os seres, homem, mulher ou o terceiro sexo. Em textos védicos, especialmente o Bhagavata Purana, Krishna é descrito como fonte e o manancial original de Vishnu. Um dos deuses originais ele representa o masculino primordial.  No entanto, ele não é adorado com gravidade e formalidade, mas, por representar o amor, é retratado não como um rei coroado, sentado no trono real, mas como um charmoso jovem, brincando nos pastos com seus amigos durante o dia e a convidar as donzelas com sua flauta a sua cama durante a noite. 
Muitos sábios e semideuses aspiravam estar ao lado do divino Krishna. Arjuna, Narada e até mesmo Shiva transformaram-se em mulheres com a finalidade de ter relações íntimas. No entanto, esta pode ser uma metáfora, já que como Krishna é a potência masculina primordial, qualquer um comparado a ele, necessariamente seria feminino. Porém no mito de  Kamadeva que era conhecido como o mais jovem deus e de também de uma rara beleza dentro da criação, o que encantava e fascinava a todos, conhecido também como o deus do sexo, e por isso extremamente sedutor também se viu completamente encantado e perplexo com a beleza incomparável de Krishna, e sem tornar-se mulher teve relacionamentos íntimos com o deus.
No Padma Purana é dito que, durante o advento do Senhor Rama, os sábios da  floresta Dandakaranya tornaram-se tão atraídos pelo lorde Krishna que desejaram casar-se com o  deus. Uma vez que o deus, no entanto, poderia aceitar apenas uma esposa, Sita, Ele abençoou os sábios para se tornar pastores nos campos em que ele jogava, permitindo que eles o tivessem também um pouco, cumprindo assim os seus desejos.
Krishna era muito brincalhão e gostava de praticar esportes; narrativas dos Puranas, bem como textos medievais, muitas vezes retratam Krishna e seus amigos (de ambos os sexos) vestidos com roupas do sexo oposto só por diversão. O deus tem muitos servos do sexo masculino (sahayakas) que meticulosamente o vestem e cuidam para ele e seus amigos íntimos possam se encontrar com as gopis ou outros jovens. Esses amigos íntimos tem, dizem, as mesmas emoções (bhava) por Krishna que as gopis e estando sempre dominados pela beleza de Krishna e o amor que sentem por ele.
Krishna é adorado por toda a Índia e em todo o mundo. Um festival que comemora o seu aparecimento, Janmastami, ocorre no oitavo dia da lua minguante no mês de Bhadrapada (agosto-setembro) e é um dos maiores festivais na Índia. Enquanto as pessoas comuns adoram Krishna para todos os tipos de bênçãos, seus iniciados o adorám com o único propósito de alcançar krishna-prema ou o puro amor de deus.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Índia: Os Dançarinos do Deva




Sri Jagannatha, senhor dos Gotipuas, é uma divindade popular de Krsna, adorado em Orissa e em todo o mundo. Ele é acompanhado por seu irmão, Sri Baladeva, tanto quanto a sua irmã, Subhadra, a personificação da potência interna do Senhor. As três divindades são adoradas com grande pompa em Jagannatha Puri, onde seu tempo original está localizado.
O templo Jagannatha tem uma longa história de danças tradicionais, tanto femininas como de travestis masculinos. Em tempos antigos, as devadasis, dançarinas dos deuses, femininos eram jovens mulheres que dedicavam sua vida apenas as deidades do templo. No seu auge, chegavam a centenas e mantinham coreografias elaboradas e inúmeras músicas que faziam parte essencial do culto diário aos deuses. As devadasis estavam divididas em vários grupos diferentes, cada um com seus códigos de conduta específicos, estilos de danças e perímetros de culto. As classes mais altas, as mahari, era composto por virgens celibatárias que dançavam privadamente para o Lorde Jagannatha nos santuários mais íntimos do templo, enquanto as classes mais baixas, dançavam nas cerimônias públicas dentro do templo e, com frequência, serviam também como cortesãs. Outra classe conhecida são as nachuni dançava diante da corte real de Orissa, entretendo os reis e outros nobres. 
O atual templo Jagannatha foi construído no século X a.C., depois de muitas devadasis serem trazidas do sul da Índia onde a tradição era mais comum. No século XII, Maharaja Chodagangadeva (1076-1147) estabeleceu grande parte do novo rito e estabeleceu regras severas para as devadasis, proibindo toda prostituição como também qualquer contato de homens com as garotas. Depois disso, no entanto, a tradição das devadasis começou a declinar e em 1360, após um ataque muçulmano, as virgens foram violadas. Puri, todavia, recuperou-se, e no início do século XVI - sobre o reinado do Maharaja Pratuparudra (1497-1540) - todo o culto original foi reestabelecido. Sri Caitanya foi recolocado no Puri ao mesmo tempo, inaugurando o reinício do culto de bhakti.
Dançarinos masculinos travestidos, conhecidos como gotipuas, também participavam da longa tradição  de Puri, especialmente popular durante o reinado do marajá Prataparudra. Na tradição gotipua, belos jovens homens eram treinados nas várias técnicas de dança como a bandha-nrtya, na qual se vestiam como as devadasis com saris coloridos e pesada maquiagem. Mas, diferente das devadasis, gotipuas se apresentavam muito mais em público e estavam ligados a grandes cerimônias que recebiam inúmeros peregrinos. As suas coreografias mais populares eram exatamente aquelas em que os gotipua tentavam seduzir a divindade do Sri Baladeva. 
Os gotipuas eram devotos do Jagannatha e viviam fora do perímetro do templo. Em tempos antigos, os gotipuas mais talentosos serviam como instrutores de dança, cortesãos masculinos, e atuavam como intermediários entre homens e as devadasis. Em um tempo em que todos os festivais, cerimônias e o próprio entretenimento estava todo centrado no templo, os mais talentosos devadasis e gotipuas eram extremamente celebrados. 
A tradição devadasi de Puri é atualmente extinta. Em 1956 só havia 9 devadasis no templo, e aos fins do século XX apenas duas, já idosas, ainda restavam. Suas coreografias e técnicas foram perdidas, no entanto, a tradição gotipua continua, e muitos pequenos grupos continuam a se apresentar em Puri e pelo estado de Orissa. Apesar do fim das devadasis, o templo Jagannatha Mandira mantem-se um dos mais populares e conhecidos da Índia. Lorde Jagannatha é especialmente piedoso com aqueles que falham e por esta razão é extremamente adorado por todos os hindus, inclusive aqueles do terceiro sexo. Todo verão, no mês de Asadha (junho-julho), acontece um grande festival conhecido como Ratha-yatra, em honra dos três deuses, que atraem milhões.
O mais importante aqui, e tem sido em todos os textos que temos feito aqui sobre a Índia é sua relação com os transexuais. Eles, sem sombra de dúvida, são tratados de uma forma distinta da nossa sociedade ocidental. Não que eles sejam tratados bem, nem sempre o são, mas há um lugar para eles, um estamento claro do qual eles não podem se mover, mas existe um lugar, enquanto nossa sociedade insiste em empurrar estes personagens para as margens, para tentar fazê-los ficar invisíveis. Na Índia tais personagens não precisam ser invisíveis, pelo contrário, existem momentos muito nobres em que eles devem receber seus louros.




terça-feira, 24 de abril de 2012

Índia: A Menina Criada Como Menino




Outro personagem importante do poema épico, Mahabharata, é Shikhandi. Ela nasceu mulher, Shikhandini, mas foi criada como um menino, pois seu pai, o rei Drupada, o rei de Panchala, pedira a deus Mahadeva para dar-lhe um filho, ao qual o deus respondeu: ".. Terás uma criança que vai ser uma fêmea e, não macho. Desiste, ó rei, não vai ser diferente". Ela fora em uma vida passada uma mulher chamada Amba, princesa do reino Kashi. Amba fora tomada pelo rei Bhishma quando ele tomou o reino do seu pai e foi disponibilizada para casar-se com o irmão mais novo dele, no entanto, ela argumentou que estava apaixonada pelo príncipe Salya e que, por isso, não podia casar-se com outro. Salya havia lutado em defesa de Amba e o reino do pai dela, porém fora derrotado. Contudo Bhishma viu força na argumentação da princesa. Ele disse: "Você deveria ter deixado isso claro quando eu te sequestrei! No entanto, isso não importa. Vou tomar providências para que você seja escoltada para o reino de Salya. Vou, inclusive, dar-te um dote como eu faria a uma irmã minha. Não tenha medo, você será capaz de se casar com seu amado". 
Amba então foi levada ao reino de Salya, contudo, ao encontrar o príncipe este recusou-se casar-se com ela, porque como havia sido derrotado por Bhishma, não se considerava digno da esposa, e achava que o rei tinha direitos sobre a princesa. Ele disse: "Ó, princesa, Bhishma, o ilustre filho de Shantanu, ganhou de mim em combate justo. Ele me derrotou na presença dos meus colegas. Após esta vergonha, não posso me casar com você. Volta para Bhishma e pede-lhe uma solução para este impasse". Ela acabou sendo levada de volta ao palácio de Bhishma, com o coração partido. Amba ao encontrar o rei, o acusou e disse-lhe que para evitar o mau carma ele deveria reparar-lhe o mal que havia lhe feito casando-se com ela. Bhishma, no entanto, recusou-se. Ela então, desesperada, acabou com a própria vida, implorando aos deuses por vingança. 
Ela então renasceu como Shikhandi. Criada como menino, treinado nas artes da guerra,. Com quinze anos, na época de casar-se, a sua noiva "logo veio a saber que [Sikhandi] era uma mulher como ela, recusando-lhe". Fugindo do pai, enfurecida por causa da sua noiva, Sikhandi se exilou na floresta, onde encontrou um Yaksha (espírito da natureza) masculino, Gandharva, e eles concordam em trocar de corpos. Agora, em um corpo masculino, Sikhandi prova para o sogro que ele é verdadeiramente masculino, quando este enviou "uma série de jovens de grande beleza" para testá-lo. Elas então informam que ele é "uma pessoa poderosa do sexo masculino", e Sikhandi torna-se um guerreiro habilidoso e famoso, desempenham um papel crucial na guerra que seu pai move contra o reino de Bhishma. Quando ele trocou de corpo, Gandharva costumava usar uma guirlanda em torno do pescoço, e havia sido profetizado que Bhishma seria assassinado por alguém que usasse uma guirlanda de flores no pescoço. Durante a guerra, Shikandi e Bhishma se reencontraram e durante uma batalha épica, o rei foi morto, porém, antes de morrer, reconhecer nos olhos de Shikhandi que ele era a reencarnação de Amba.
A intenção do conto de Shikhandi é falar sobre o conceito de reencarnação, no entanto, ele deixa escapar que Shikhandini, aquela que ela ainda é mulher, tenta casar-se com a princesa que a recusa. Ou seja, ela sente atração pela noiva. 


terça-feira, 10 de abril de 2012

Índia: O Príncipe Kliba

, em Natal - RN, Brasil



Brihannala (também escrito como Brhannada, Brihannada, Brihannata ou Vrihannala) aparece no épico hindu Mahabharata, foi o nome assumido por Arjuna que disfarçou-se como um membro do terceiro gênero por conta de uma maldição de Urvasi, uma apsara. Seu nome significa "cana grande" ou "ter uma cana grande". Sua transformação aconteceu porque ele e seus cinco irmãos, os Pandavas, foram exilados do seu reino de direito por doze anos, e o último ano deveria ser passado incógnito. Arjuna pensou então em disfarçar-se como uma mulher, porém graças a maldição lançada pela ninfa ele se transformou em um kliba. Esta maldição caiu sobre ele porque um dia que visitava seu pai Indra, Arjuna se recusou aos avanços amorosos de Urvasi que, irritada, o amaldiçoou a se tornar um kliba, homens que se vestem e se comportam como mulheres e tinham atração sexual por homens.

Arjuna apavorou-se com a maldição iminente, mas aconselhado por Krishna, ele descobriu que esta seria a melhor maneira de passar o ano final de seu exílio de forma incógnita. Quando o ano final chegou, os Pandavas decidiram que voltariam a sua cidade natal que agora era governada por Maharaja Virata. Yudhisthira, o mais velho dos irmãos, foi o primeiro a retornar a cidade e se apresentou ao rei, sem ser reconhecido, elogiando suas qualidades nobres e generosas e pedindo abrigo e emprego ao rei sob seu domínio.

Arjuna foi o terceiro irmão a entrar no palácio, mas antes vestiu-se de mulher e ao vestir-se ele foi transformado pelo poder de Urvasi em um kliba. Esta terceira classificação de gênero é conhecida como tritiya-prakriti e é descrito como a combinação da natureza do macho e da fêmea, sem, no entanto, ser nenhum dos dois. Arjuna então se apresentou como Brihannala, vestido com uma blusa feminina e um sari vermelho de seda. Ele-ela usava numerosas pulseiras de marfim, brincos de outro e colares feitos de coral e pérolas. Seu cabelo era longo e trançado e ele dançava a marcha das quatro águas. Ao mesmo tempo que seu corpo continuava incrivelmente forte e musculoso, sua feminilidade e beleza apareciam o tempo todo o que fez com o rei admirado afirmou que "seu traje feminino esconde sua glória masculina, mas ao mesmo tempo não. Você aparece apenas como a lua cheia quando eclipsada por Ketu", algo como, sabemos que esta lá, mas não dá para ver.
Apresentando-se como um(a) dançarina(o) profissional e musicista treinada(o) por Gandharvas, Brihannala explicou que era especialista em canto, decoração de cabelo e "todas as velas artes que uma mulher deveria saber". Após a exibição de suas habilidades diante de um juri, Brihannala foi testada(o) por mulheres bonitas para garantir que ele era realmente um kliba. Se ele fosse apenas um eunuco ou um neutro, os homens do palácio poderiam ter-lhe examinado eles mesmos os seus testículos. O rei satisfeito concordou que ela/ele vivesse entre as mulheres do palácio e as instruísse no canto e na dança. Logo Brihannala se tornou a(o) favorita(o) dentro da câmara feminina de tal modo que o rei o instruiu, por ser bem-nascida(o), a tornar se tutor(a) da bela princesa do reino, Uttara Kumara, ensinando-lhe as artes. Dizendo-lhe: "Brihannala tu pareces ser uma pessoa bem-nascida. Tu não pareces ser uma dançarina ordinária. Trate-a com o respeito devido a uma rainha e ganharás as riquezas de seus apartamentos". E quando os Kauravas atacaram o reino por suspeitar que os Pandavas serviam em nome do rei ali, ela/ele foi o responsável pela vitória da guerra. 
Os especialistas ainda se surpreendem hoje em dia com a naturalidade que este texto trata da transformação do Arjuna e sobretudo com a inexistência de críticas a situação que se coloca o príncipe, tanto por seus irmãos, mas sobretudo pelo rei. Choca nossa sociedade ocidental a ideia de que uma pessoa transgênero possa ser absorvida na corte do rei hindu de forma tão tranquila e sem demonstrar preconceitos. No poema épico, em momento algum se coloca a posição do kliba em situação inferior aos outros gêneros (homens e mulheres). E isso surpreende os leitores do Mahabharata desde que ele foi traduzido pela primeira vez em 1968, mas este problema é apenas culpa de nossa própria cultura na qual não cabe a transição entre gêneros desta forma.


terça-feira, 27 de março de 2012

Índia: O Filho de Duas Rainhas

, em Natal - RN, Brasil

Em algumas versões do Krittivasa Ramayana, o mais popular texto bengali, escrito pelo Lorde Ramachandra, uma encarnação de Vishnu, e no Padma Purana, existe uma narrativa interessante sobre duas rainhas que conceberam uma criança juntas, sem a presença masculina. Quando o famoso rei da Dinastia do Sol, Maharaja Dilipa, morreu, os demi perceberam que ele havia morrido sem um filho para continuar sua linhagem. Lorde Shiva então apareceu diante das duas rainhas viúvas e falou que elas teriam um filho. As rainhas então perguntaram: "Como seria possível se somos víuvas?". O deus então ordenou: "Vocês duas façam amor juntas e pela minha benção você terão um belo filho". As duas esposas do rei, com grande afeição uma pela outra, executaram a ordem de Shiva até uma delas conceber uma criança. Infelizmente, a criança nasceu sem os ossos por causa da ausência da potência masculina no corpo da criança. Uma das rainhas então chorou, gritando: "Porque Shiva nos abençou com tal criança?". As rainhas então decidiram abandonar a criança nos bancos de areia do rio Sarayu, onde foi encontrada pelo sábio Astavakra. O sábio abençoou a criança restaurando sua saúde, dando-lhe também força e beleza digna de Madana, o deus do amor, e este continuou a dinastia. Astavakra foi quem batizou a criança como Bhagiratha, aquele que nasceu de duas vulvas. 
Bhagiratha tornou-se rei e é creditado a ele trazer à Terra o rio Ganges das estrelas. Esta estória do Sri Bhagiratha Maharaja é contada no poema épico Bhagavata Purana (9.9). Três dos seus antepassados já haviam tentado e falhado em trazer o Ganges para a terra. Ele só conseguiu, no entanto, após severas austeridades pelos quais passou e que satisfizeram o Ganga-devi, deus do rio Ganges. Bhagiratha conseguiu também a resistência necessária para suportar a grande força da descida do rio sobre sua cabeça. O rio Ganges é considerado puro porque toca as flores de lótus plantadas por Vishnu e até o hoje o rio flui pelo subcontinente honrando os milhões de hindus.



terça-feira, 13 de março de 2012

Índia: O Terceiro Gênero

, em Natal - RN, Brasil


O Manusmriti fala sobre as origens biológicas do terceiro gênero, isto é, um gênero colocado entre os dois utilizados por nós, o masculino e o feminino. No capítulo III, verso 49: "uma criança masculina é produzida quando existe uma quantidade maior de semente masculina, uma criança feminina é produzida quando existe uma prevalência da semente feminina; se ambos são iguais, uma criança do terceiro sexo [napumsaka] ou duas crianças gêmeas são produzidas; se os dois são fracos ou deficientes em quantidade, a concepção não se dá". Abaixo vou listar os tipos mais comuns de terceiro gênero encontradas no Hinduísmo. Ele são estimados em, mais ou menos, meio milhão de eunucos crossdressing, associados a vários templos e deidades hindus. Apesar deles serem chamados de eunucos, no entanto, a maioria dessas pessoas (91%) não praticam a castração.


Os Aravani ou Ali
Este é o grupo mais numeroso de terceiro gênero (estimado em 150 mil pessoas). Eles vivem basicamente no sudeste da Índia e são o grupo mais típico. São formados tanto por homens que se tranformaram em mulheres como por mulheres que se transformam em homens. Tem uma importância grande no festival de Koovagam, celebrado entre abril e maio, em homenagem ao deus Aravan, e não praticam a castração.

Os Hijira
Estes são o grupo mais bem conhecido de terceiro gênero da Índia, e estima-se que sejam por volta de 50 mil. Vivem basicamente no nordeste do país, e são o único grupo que pratica a castração, um costume introduzido após a invasão muçulmana no século XX. Inclusive a castração masculina não é recomendada nos Vedas e não aprece em nenhuma outra prática hindu.  Existe uma crença de que os hijiras da Índia seriam hermafroditas (intersex) e que, neste caso, entrariam no comunidade ao nascer ou numa tenra infância, contudo as entrevistas feitas por Serena Nanda em Neihter Man Or Woman: The hijiras of India demonstraram que estes entravam no grupo voluntariamente e sempre após a adolescência.Sinha, em 1967, falando dos hijiras do norte do país, de Lucknow, afirmou que a entrada no grupo costumeiramente acontecia por causa da satisfação dos desejos homossexuais daquelas pessoas. Nanda também afirma: "Não existe a menor dúvida que no fim alguns hijiras - talvez a maioria - são prostitutos homossexuais". Eles são especialmente protegidos pela Bahuchara-devi, deusa que protege os transexuais.

Os Jogappa
O grupo menos conhecido de terceiro gênero da Índia que habitam o sul do país (Karnataka e Andhra Pradesh) e intimamente associado a prostituição. Contudo eles também são grandes dançarinos e participam do culto no templo como devadasis, isto é, servos da deusa, que no caso é Yellamma-devi, deusa extremamente popular em Durga. O  grupo inclui tanto homens que se travestem de mulher como mulheres que se travestem de homens e também não praticam a castração.

Os Sakhi-Behki
Este grupo, que vem se reduzindo ultimamente, era muito comum na região de Bengala, Orissa e Uttar Pradesh. Estas pessoas não são necessariamente transgênero ou homossexuais, em alguns casos são, porém na maioria dos membros deste grupo se vestem como mulheres para reforçar a identidade de sakhis (namorada) de Krishna e para atingir a emoção espiritual conhecida como sakhi-bhava. Recentemente, eles passaram a ser condenados sobretudo porque alguns membros do grupo realizavam shows públicos nos quais para mostrar seu amor a Krishna um sakhi-bekhi tinha relações sexuais com um cudadharis (um homem vestido como Krishna coroado com penas de pavão). Hoje em dia, a maioria dos sakhi-bekhis se veste apenas na privacidade da sua casa, sendo mais discretos, se vestindo como Sri Radha, a consorte de Krishna, mas alguns também tem se vestido como Caitanya, uma imagem que reúne Radha e Krishna juntos e são conhecidos como gauranga-nagaris. Nenhum desses grupos, no entanto, pratica castração.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Índia: As Formas dos Deuses.

, em Natal - RN, Brasil
Ardhanarisvara

Nas narrativas tradicionais hindus, é muito comum as estórias de deuses e mortais que mudam de sexo. Inclusive em muitas oportunidades eles têm encontros sexuais em diferentes gêneros nos quais encarnam. Neste caso, homossexuais e transgêneros têm sido comumente identificados com as várias formas das deidades hindus, contudo, em muitos casos o problema dessas identificações vem do desconhecimento de como funciona a religião hindu, de suas características intrínsecas. Um exemplo é o caso de Ardhanarisvara, a imagem considerada hermafrodita de Shiva. Porém, neste caso de Ardhanarisvara o que acontece é que temos numa imagem que consiste em Shiva, deus parte da tríade mais importante do Hinduismo (Brahma, o cirador, Shiva, o transformador, e Vishnu, o preservador) e sua consorte, Parvati, representando a união das energias masculina e feminina na criação. Ardhanarisvara não é um deus distinto de Shiva e Parvati é a representação da união dessas duas energias na criação porque para o hinduísmo toda energia é dotada de masculino e feminino, então cada Deus possui também a sua consorte feminina que o complementa, sendo Shakti, a consorte feminina de Brahma, e Mohini a consorte, a contraparte feminina, de Vishnu. Sendo assim, não é um deus que pode ser associado as relações homoeróticas, apenas uma imagem representando a duplicidade da energia divina.

Aravan

Outro caso é de Aravan, um herói com quem Krishna se casou após tornar-se uma mulher. O simples fato da necessidade da transformação de Krishna, o deus supremo do hinduismo, filho de Shiva, nascido de uma virgem rainha, nasceu então com uma vida de príncipe e após sua morte elevou-se como deus, comprova que o tipo de relação existente aqui não é homoerótica. Aravan já era um mortal (também conhecido como Iravan), que é cultuado na região ao sul da Índia. Ele é o principal personagem do poema épico, Mahabharata, que narra a guerra Kurukshetra e sua morte no décimo-oitavo dia da guerra. Contudo, bravo e honrado, Aravan era amado dos deuses e como ele pediu que antes de sua morte ele conhecesse o amor e estivesse casado, Krishna apiedado transformou-se em mulher e casou-se com ele um dia antes de sua morte. 

Ayyappa

Um terceiro caso é de Ayyappa, deus das estradas e protetor dos viajantes, filho de Shiva e de Mohini, a consorte de Vishnu. Para muitos dos leitores, acostumados com a personificação dos deuses do universo ocidental, essa estória soaria como uma traição da esposa de Vishnu, contudo, os três grandes deuses do hinduismo, Brahma, Shiva e Vishnu não podem ser considerados seres com gênero definido, na verdade, como são energias, eles mudam de ambivalência frequentemente, podemos dizer na verdade que Vishnu é a vibração masculina da energia protetora, é quando Vishnu protege ativamente o planeta como guerreiro, já Mohini seria a forma de vibração feminina da mesma proteção, quando ele gera e nutre, por exemplo. Sendo assim, não existe mudança de sexo ou relação homoerótica entre Shiva e Vishnu para gerar Ayyappa, ele é gerado quando as duas energias são colocadas juntas. 

Bahuchara-devi

Bahuchara-devi é uma deusa que um dia sua caravana foi atacada e ela para evitar ser morta cortou seus seios e disfarçou-se de homem entre os guerreiros lutando para sobreviver. Odiosa dos homens que atacaram, tornou todos eles impotentes, condenando-lhes a apenas uma vida: castrar-se e tornarem-se eununcos ou nasceriam por sete vidas como homens impotentes. Seus sacerdotes a partir daí se tornaram também sempre eunucos. Já o caso de Bhagavati-devi é uma deusa que tem uma festa cujos homens devem ir travestidos de mulher para a adoração por causa de uma estória em que vaqueiros que não queriam ser reconhecidos e queriam prestar homenagem a deusa se disfarçaram de mulheres para ir ao templo, neste dia a própria deusa apareceu diante deles para receber suas oferendas dado a sua discrição em relação a fé. Em ambos os casos, aqui, as deusas, por causa de um elemento de seu mito, foram tomadas como padroeiras de uma parte da população hindu, Bahuchara como padroeira dos eunucos e castrados e Bhagavati, daqueles que se travestem.

Bhagavati-devi

Chandi e Chamunda são duas deusas guerreiras. Inicialmente eram demônios masculinos chamados Chanda e Munda, que realizaram grandes coisas a fim de agradar Brahma. Tanto agradaram o grande deus que este um dia apareceu diante deles e concedeu-lhes um desejo. Estes pediram para se tornarem grandes guerreiros, fortes o suficiente para dominar o mundo e conquistar os céus. Brahma concedeu-lhes o desejo, porém, como os dois eram demônios, logo se tornaram cada vez mais gananciosos e tentaram tomar as casas de Brahma, Shiva e Vishnu. Ficou então decidido que a deusa Durga cuidaria deles. Lutou ferozmente até vencê-los. Durga então os transformou em mulheres, já que não podia tomar o poder que Brahma havia lhes concedido, mas agora como mulheres eles não ameaçariam mais os deuses. 


Chandi e Chamunda

Gangamma-devi é a irmã mais nova de de Vishnu, a deusa da mentira e do disfarce. Ao nascer na Terra, ela era a mulher mais bonita em todo o planeta e usava o nome Ganga. O rei dos demônios então ao vê-la desejou-a para si. A deusa então para escapar dos planos do demônio de aprisiona-la em seu palácio usava sua maya (capacidade de criar ilusões) para disfarçar-se, contudo, somente ao se disfarçar de homem que o demônio não conseguiu encontra-la. Nestes dois últimos mitos, por exemplo, as transformações que são basicamente colocadas pela literatura especializada como travestismo não tem absolutamente nenhuma ligação com a sexualidade dos personagens, por isso também considero que não existem relações homoeróticas nestes contos.

Gangamma

Concluindo: as possibilidades dos deuses hindus de assumirem outro sexo é comumente ligada a relações homoeróticas, porém não deviam. Estas possibilidades de transformação na verdade não tem nenhuma relação com a sexualidade e sim ou a representações do poder feminino ou apenas momentos do mito dos personagens que explicam parte do rito. Que explicam porque a presença do terceiro sexo, por exemplo, é comum dentro do rito de um determinado deus, porém, diretamente, não representam relação direta com o homoerotismo, na verdade, seu mito é apenas apropriado por grupos que se relacionam com o homoerotismo. 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

ESPECIAL SÃO VALENTIM: Índia: O Kamasutra, o Livro do Desejo


O Kama Sutra é um dos textos mais antigos do mundo a tratar do kama ou desejo (de todos os tipos), no entanto dentro da cultura hindu ele é um dos quatro textos normativos da vida espiritual. O Kama Sutra é o texto mais antigo e mais importante na tradição Kama Shastra da literatura sânscrita. Ele foi compilado pelo filósofo Vatsyayana por volta do século IV, de textos ainda mais antigos, e descreve práticas homoeróticas em diversos lugares, também como a participação no sexo de outros gêneros além do binômio masculino e feminino com que lidamos hoje. 
Neste texto são descritos técnicas em que os membros do masculinos e femininos do terceiro sexo (tritiya-prakriti), tanto quanto as mulheres, fazem o sexo oral. Nesta parte é bom dizer que o sexo oral realizado por homens é proibido aos brâmanes (KS 2.9.37). Na segunda parte, no Nono Capítulo do Kama Sutra descreve especificamente dois tipos de homens que nós reconheceríamos hoje como os homossexuais mais masculinos e aqueles efeminados, contudo a tradução vitoriana de Richard Francis Burton, de 1883, do texto simplifica ambos sobre a alcunha de eunucos. O capítulo descreve suas aparências, os tipos efeminados que se vestem como mulheres, enquanto os mais masculinos mantém o corpo musculoso e cultivam barbas e bigodes, etc.. A tradução vitoriana diz: "Existem dois tipos de eunucos, aqueles que são disfarçados de homens e aqueles que estão disfarçados de mulheres". O texto também descreve suas profissões como massagistas, barbeiros e prostitutos. É interessante notar que na versão vitoriana boa parte das informações sobre homoerotismo e travestismo foram excluídas da tradução, partes estas que foram recuperadas do texto apenas com a tradução de 1994 de Alain Daniélou.
Logo no início do capítulo, o texto ensina como os eunucos realizam o sexo oral: "Sob o pretexto de lavagem, um eunuco deste tipo abraça e chama para si mesmo as coxas do homem que é lavado, e depois deste toca as articulações das coxas e seus jaghana, ou a parte central de seu corpo [chacra localizado no períneo]. Então ele encontra o lingam do homem ereto, ele pressiona-o com a mão e o debulha para entrar neste estado. Se depois disto, e depois de conhecer sua intenção, o homem não diga ao eunuco a proceder, em seguida, este continuará com a sua intenção, e o fará por vontade própria". O texto, a seguir, conta os oito passos necessários para fazer um bom sexo oral e para recebê-lo, pois o Kama Sutra considera que há participação dos dois envolvidos. Diz o texto: 

"As seguintes oito coisas são, então, feitas pelo eunuco após as outras. A união nominal. Mordendo os lados. Pressionando fora. Pressionando dentro. Beijo. Fricção. Chupando a manga. Engolindo. No final de cada uma dessas coisas o eunuco manifesta seu desejo de parar, cabe ao outro que manifeste seu desejo para que ele continue". 

A partir daí ele descreve cada por menor de cada uma das oito coisas pertencentes a técnica do Auparishtaka que deve ser feita pelo eunuco.

"(1) Quando segurando o lingam com a mão e coloca-lo entre os lábios, o eunuco o move sobre sua boca, ele é chamado de união 'nominal'. (2) Quando para o fim do lingam [isto é, o prepúcio] com os dedos reunidos como um broto de uma planta ou flor, pressiona o eunuco os lados dele com os lábios e os dentes também é chamado de 'morder os lados'. (3) Quando, sendo desejado a prosseguir, o eunuco pressiona o lingam com os lábios fechados e juntos, beija-o como se o tivesse puxando para dentro da boca é chamado de 'pressionando fora'. (4) Quando, sendo solicitado a continuar, ele colocou o lingam mais em sua boca e apertá-lo com os lábios e, em seguida, leva-lo para fora, ele é chamado de 'pressionando dentro'. (5) Quando, segurando o lingam com a mão, o eunuco beija-o como se ele estivesse beijando o lábio inferior, ele é chamado de 'beijo'. (6) Quando, depois de beija-lo, ele toca com a língua em toda parte, e passa a língua sobre o fim de tudo. É chamado de 'fricção'. (7) Quando, da mesma forma, ele coloca a metade de tudo na boca, e beija-o com força e o suga, isso é chamado de 'chupando a manga'. (8) E, por último, com consentimento do homem, o eunuco coloca o lingam inteiro em sua boca, e pressiona-o até o fim, como se tivesse indo a engoli-lo, é chamado de 'engolir'."

O livro também prescreve o casamento entre homens. De acordo com o Kama Sutra: "Existem também cidadãos deste terceiro sexo, que algumas vezes se apaixonam completamente por outro igual a ele e tem completa fé neste outro, que devem se casar juntos" (KS 2.9.36). No Jayamangala do Yashodhara, um importante comentarista do século XII do Kama Sutra, também fala: "Os cidadãos que tem este tipo de inclinação [homoerótica], que renunciam mulheres e podem viver sem elas de bom grado porque amam outro igual a eles, casam-se juntos, vinculados por uma profunda amizade e confiança".
O Kama Sutra também se refere as svairini, que, como já dissemos, são consideradas "mulheres independentes que frequentam outras como elas" (2.8.26) ou em outra passagem: "a mulher liberada, ou svairini, é aquela que recusa um marido e tem relações em sua própria casa ou na casa de outros" (6.6.50). No famoso comentário, Jaymangala, explica: "uma mulher conhecida por sua independência, sem barreiras sexuais, que age pelo seu desejo, é chamada de svairini. Ele faz amor com outras do seu tipo. Ela é acaricia sua parceira até o ponto em que se unem, quando elas se beijam" (J 2.8.13). As variadas formas de sexo lésbico são descritas em detalhes na Segunda parte, Oitavo Capítulo do Kama Sutra. Aqui, infelizmente, eu não tenho como mostrar para vocês o que está escrito, porque não tive acesso a nova tradução do Daniélou, apenas a de Sir Burton.
Mas ele conclui: "O que um homem deve ou não fazer, portanto, diz respeito ao local e para o tempo e com a prática que deve ser realizada, como também quanto ao fato de que é agradável a sua natureza e a si mesmo, e então ele pode ou não praticar estas coisas de acordo com as circunstâncias".




segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Índia: Os Vinte Tipos de Panda

, em Natal - RN, Brasil
Os Narada Smriti, textos escritos por volta de 400 a.C., listam vinte tipos de panda, isto é, homens que são impotentes com as mulheres.  A impotência masculina poderia, diz o texto, ser física, psicológica ou porque o homem não deseja as mulheres, e em qualquer um destes casos, estes homens deveriam ser preteridos pelas mulheres que procuravam um casamento. O teste para reconhecer se um homem era impotente devia ser realizado por uma mulher que devia tocar-lhe o pênis, se o órgão sexual não respondesse aos estímulos provocados por ela, este homem não deveria ser apto a casamento. Lista-se nos textos vinte tipos de panda, destes dezesseis se relacionam ao homoerotismo.
O primeiro tipo, e o mais comum tipo que aparecer nos textos védicos são os Napumsaka ou Napums, esta palavra se refere aqueles que não são "completamente homens" e descreve tipicamente homens que são efeminados ou dos quais se questiona a masculinidade. Os comentários modernos dos Vedas inclusive têm identificado os homossexuais diretamente com os Napumsaka. O segundo tipo que podemos comentar é o Mukhebhaga. Este é descrito como aquele que usa sua boca (mukhe) para receber o pênis, exatamente como a mulher utiliza sua vagina (bhaga). Isto refere-se diretamente ao homem que participar de atos sexuais com outros homens e que dedica-se ao sexo oral. Alguns comentadores modernos do texto têm proposto recentemente que esta palavra na verdade se refere aos homens que se dedicam unicamente ao sexo oral, de qualquer forma, isto é, com homens e mulheres, o Narada Smriti (12.15) declara que estes homens são incuráveis e que nunca abandonarão suas práticas.
O terceiro e o quarto também são citados pelo Sushruta Samhita, um conjunto de textos médicos escritos em 600 a.C., o primeiro citado é o Asekya (3.2.38). Este é descrito como o homem que engole o sêmem de outro homem. O Smriti Ratnavali ainda usa a palavra "devotar-se" para descrever o intenso desejo que estes homens mantém por esta prática, e segundo os textos médicos do Sushruta Samhita isto seria causado pela deficiência do potência masculina durante a gestação do feto. O quarto tipo também mencionado nos textos médicos do Sushruta é o Kumbhika. Esta palavra refere-se aqueles que usam suas nádegas (kumbha) para receber o pênis, ou seja, refere-se diretamente aos homens que têm comportamento passivo durante as relações sexuais homoeróticas, mas os comentadores modernos têm reconhecido esta palavra como se referindo aqueles que se relacionam apenas através de sexo anal, tanto com homens como com mulheres, ou seja, também aqueles que são ativos na relação sexual, porém preferem o sexo anal. 
Além destes panda, podemos também citar os Anyapati, os quais os comentadores modernos interpretam como algum homem que podia estar intensamente apaixonado por um outro homem ou por uma mulher, e ao estar apaixonado sua potência amorosa era então direcionada apenas para o objeto do seu amor. Neste caso, os Anyapati não são considerados incuráveis e ainda são indicados como "bons para casar" pelo Narada Smriti (12.18). Da mesma forma, os Paksa são homens que são considerados "meio potentes" (às vezes potente e às vezes não), a palavra pode se referir aqueles que são potentes às vezes com homens e às vezes com mulheres, e mais raramente ela pode ser entendida como alguém que às vezes tem sua potência sexual intacta, e às vezes não. No caso destes, o Narada Smriti (12.14) indica que este homem seja colocado por um mês em teste, se ele neste período demonstrar-se impotente alguma vez, ele não deve ser desposado por mulher nenhuma. Também podemos falar dos Sevyaka, os quais teriam se tornado impotentes por causa do excesso de sexo com mulheres, mas também referia-se aos homens que haviam cansado das mulheres e se dedicavam agora ao sexo com homens, e muitos tradutores modernos inclusive tem traduzido a palavra como algo muito próximo do que chamamos de homossexual. O Sushrata Samhita chama estes de Saugandhika. O caso dos Sevyaka era considerado pelo Narada Smriti (12.15) como incurável também.
Outro tipo é o Moghabiha que se torna impotente quando ele tenta se unir a uma mulher. Os textos védicos afirma que isto pode acontecer por fatores psicológicos, como uma excessiva timidez (e neste caso o chamam de Salina), mas que normalmente acontece porque este homem secretamente deseja outros homens. No caso de sua impotência ser causada por fatores psicológicos, às mulheres é indicado pelo Narada Smriti que deem-lhe uma chance por um ano (12.16), se ela não conseguir unir-se a ele após um ano deve abandona-lo (12.17).
O décimo-primeiro tipo de panda seria o Sandha. Na literatura védica este termo designa um terceiro gênero. Homens que são "meio homens, meio mulheres". No Sushruta Samhita (3.2.42) e no texto do século XIV, Vacaspati, diz que estes falam, andam, riem e tem outros comportamentos como as mulheres. Este texto do século XIV ainda afirma que eles eram castrados e eram considerados "mulheres sem vagina". O mesmo significado tem a palavra Kliba ou Klibaka, mas esta palavra também servia para designar homens fracos, covardes, não masculinos, efeminados, de masculinidade questionável, ou seja, basicamente um xingamento. Por fim, também temos os Baddha e Vadhri, dois tipos de terceiro gênero, estes são homens sem testículos ou cujos testículos foram retirados, segundo o Narada Smriti (12.14), mas que mantinham o pênis com suas funções ainda. 
Para encerrar, os Nastriya referem-se a mulheres que não são completamente femininas. Com frequência descrevem aquelas mulheres que são inférteis, porém é mas comum referir-se a lésbicas que são muito masculinas ou mulheres transgêneros que se tornaram homens, isto é, "homens sem pênis". Quatro tipos básicos são mencionados nos textos védicos: 1) Mulheres que não mestruam; 2) Homens sem pênis; 3) Mulheres com orgãos sexuais tanto masculinos quanto femininos; e 4) Mulheres que se comportam como homens. Também é interessante notar que entre os panda também se incluí as Svairini. Esta palavra é um termo comum, no Kama Shastra para referir-se a mulheres homossexuais, mas também pode referir-se a mulheres consideradas independentes demais. O Narada Smriti (12.49-52) menciona quatro tipos: 1) A esposa que deixa o marido; 2) A viúva que abandona sua família; 3) A estrangeira ou escrava, e 4) a mulher que foi estuprada. A pergunta final é: então as mulheres indianas podiam escolher casar com uma mulher também, já que os conselhos para um bom casamento incluem evitar estas mulheres ou o texto está apenas dando um conselho para que elas não sejam uma svairini também? Como meu conhecimento de sânscrito é negativo, eu convido alguém ai a pesquisar isso.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Índia: As Virgens do Manu Smriti

, em Natal - RN, Brasil


O Manu Smriti, um dos mais antigos códigos de condutas que foram propostas para serem seguidas pelos Hindus, também menciona as práticas homoeróticas para regulá-las. Estas práticas eram consideradas parte de qualquer outra prática sexual, apesar de não ser sempre bem aceita, mas elas existiam e deviam ser reguladas pela lei. Existindo, inclusive, algumas punições para os comportamentos homoeróticos, contudo quando estes aconteciam contra outras situações sociais. 

Por exemplo, o verso 370, do capítulo VIII, que refere-se as relações sexuais entre uma mulher mais velha e uma virgem fala: "... uma mulher que poluí uma donzela (virgem) deve imediatamente ter (sua cabeça) raspada ou dois dedos cortados, e deve ser feita cavalgar (até a cidade) em um burro", sugerindo um severo castigo. Ao mesmo tempo, o verso 367, do capítulo VIII, que se refere  ao ato sexual entre duas virgens sugere uma punição menor: "... uma donzela que poluí (outra) donzela deve ser multada em duzentas (panas), pagar o dobro da sua taxa (nupcial), e receber dez (chibatadas com uma) vara". Estas disposições, retiradas do seu contexto podem parecer homofóbicas, mas, de fato, elas se preocupam não com o gênero dos parceiros sexuais, mas com a perda da virgindade que prejudicaria seu casamento futuro da donzela. Outro exemplo, a punição pelo ato sexual forçado entre um homem e uma mulher não muda muito quanto isso, vejamos o verso 367, também no capítulo VIII: "... se alguém através da força e insolência contamina uma donzela, dois de seus dedos devem ser imediatamente cortados e ele pagará uma multa de 600 (panas)", que parece ainda mais severo que o castigo prescrito para o mesmo ato entre duas virgens. 

O sexo entre mulheres não virgens geravam uma multa muito pequena, enquanto a relação homoerótica entre dois homens era censurada por uma prescrição de que, por exemplo, dois homens sempre tomassem banho usando suas roupas, nunca ficando nu diante do outro, sob a pena de "comer cinco produtos de uma vaca e manter-se uma noite acordado", e caso havendo relações sexuais propriamente ditas, a pena seria modificada pela perda de seu lugar na casta, como dizem Vanita e Kidwai.  No verso 68, no capítulo XI, fala ainda "causar injúria a um sacerdote, cheirar vinho ou outras coisas que não podem ser cheiradas, desonestidade, e a união sexual com outro homem são coisas que tradicionalmente causam a mudança de casta". No mesmo capítulo, no verso 175, a expiação dos brâmanes que realizavam atos homoeróticos é um banho: "um homem nascido duas vezes que tem relações sexuais com um homem ou com uma mulher em uma carroça puxada por bois, deve tomar um banho, em água, a luz do dia, vestido com suas roupas". Aqui, deve-se perceber, que as proscrições são especificamente para os brâmanes, não há nenhuma referência no Manu Smriti de punição para o comportamento homoerótico entre os homens de outras castas.

A discrepância do tratamento, diz Kanika Goswami, é devido ao status diferenciado entre homens e mulheres em uma sociedade em que a mulher era considerada o mesmo (ou até inferior) a terra, seu gado e seus outros bens. De qualquer forma, a maioria das questões sexuais tratadas por este livro de leis são de cunho heteroerótico, e suas punições são bem mais severas. Por exemplo, "um homem que não é um brâmane deveria sofrer a morte por adultério [samgrahana]". Isto pode indicar que os comportamentos homoeróticos não eram considerados um problema, caso não acontecessem entre os brâmanes ou envolvendo mulheres virgens. A necessidade, todavia, de um maior número de regras para o comportamento heteroerótico demonstram como esta forma de comportamento sexual precisava de um controle social mais intenso, por ser, obviamente, a base da constituição da sociedade e da propriedade, graças ao casamento.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Índia: A Natureza e o Rigveda

, em Belo Horizonte - MG, Brasil



Os hindus tem vários textos sagrados e diferentes grupos sociais dão diferentes importâncias a cada um desses textos, além de que cada grupo tem interpretações distintas dos significados destes textos sagrados, contudo os Vedas (o conhecimento), escritos por volta de 1500 a.C., são os mais antigos textos escritos em sânscrito que nos restaram. Estes textos são considerados pela tradição hindu como incriados, isto é, como textos que sempre existiram e se revelam aos sábios que conseguiram chegar a um certo patamar da evolução espiritual. Os Vedas são basicamente constituídos por mantras que representam hinos, orações, encantos, formulas rituais, endereçados a vários deuses e deusas sendo os mais citados: Rudra, Varuna, Indra e Agni. Estes estão colecionados em antologias chamadas Samhitas que são quatro: Rigveda, a antologia de poesia e hinos; Yajurveda, a antologia de orações; Samaveda, a antologia de músicas e Atarvaveda, a antologia de ritos, encantos e formulas mágicas.
Entre os quatro o mais antigo é o Rigveda, o conhecimento dos hinos, consiste em 1028 hinos e é o único que tem passagens que tratam das relações homoeróticas. Os historiadores Ruth Vanita e Saleem Kidwai, no seu pioneiro livro Same-sex love in India, afirmam que não existem referências explicitas ao homoerotismo em nenhum dos Vedas, porém quando no Rigveda se diz que perversidade/diversidade é tudo aquilo que a natureza é, ou que aquilo que parece não-natural também é natural (vikruti evam prakriti, em sânscrito), muitos especialistas tem acreditado reconhecer aí uma constância cíclica das dimensões homoeróticas e transsexuais da vida humana, como todas as outras formas que distam do padrão. Em outras palavras, como o hinduísmo acredita que o diferente também é normal, pelo menos é o que os textos sagrados pregam, os especialistas contemporâneos tem entendido que os textos sagrados hindus seriam inclinados a aceitar as relações homoeróticas como parte da natureza humana também.
O hinduísmo é ainda mais complacente com os denominados Tritiya-prakriti, o terceiro gênero, não totalmente homem nem mulher, que são mencionados tanto nos Vedas como nos Puranas, apesar de não serem claramente definidos, deixando seu significado pairando entre o homem efeminado, às vezes também somente o covarde, mas também aqueles homens que não sentem desejo sexual pelas mulheres. Contudo, Devdutt Pattanaik diz que, não obstante, estes comportamentos homoeróticos serem conhecidos por todos na Índia, eles não eram aprovados, o que discorda Amara Das Wilhelm, historiadora que escreveu Tritiya-prakriti: People of the third sex, publicado nos Estados Unidos em 2003. Esta acredita que a posição destes membros do terceiro sexo e dos praticantes de atos homoeróticos era muito positiva na sociedade arcaica hindu, pois, diz ela, que os antigos Vedas ensina a tolerar a diversidade de tipos sexuais dentro de toda a sociedade. É o reconhecimento de que aquilo que é natural é muito mais amplo e diverso do que o binário macho-fêmea de nossa contemporaneidade.