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segunda-feira, 11 de maio de 2009

PASSADO: "Sim, Senhor, Moço!"

Caicó, região do Seridó. Pedras e montanhas que contrastam com a vegetação sertaneja que facilmente fica verde com qualquer chuva rala que caia. Raios cortam os céus e iluminam o horizonte. É verão, por isso a noite estava quente, abro as janelas do quarto para tentar deixar o vento da madrugada entrar. Depois volto e deito com a cabeça no colo de Beto, que acaricia meus cabelos. Acabamos de chegar do Gota D'Água, um clube onde os jovens da cidade se reuniam no domingo para ouvir pagode ou forró, tomar cerveja e cheirar loló, quando ele me conta.
- Uma menina chegou lá me perguntando quem era você.
Abri os olhos para vê-lo falar, e ele passou os dedos magros e morenos pelos meus lábios.
- Ela queria saber quem você era, porque queria ficar com você.
Eu ri, envaidecido, o que ele notou, mas continuou assim mesmo.
- Eu disse que você tinha namorada.
E eu olhava para as duas pedras de ônix que brilhavam como seus olhos.
- E que sua namorada estava em Natal.
- E qual foi a reação dela?
Ele, mordido de ciúme, disse dando de ombros.
- A safada disse que não tinha problemas você ter namorada.
Eu comecei a rir e falei:
- Devia ter me apresentado a menina, ora.
Ele me dando um tapinha no ombro, continua a contar.
- Eu disse que você era fiel e que não traia sua namorada, 'tá bom?
E beijou-me os lábios, sussurrando:
- E é bom que nem o namorado também, viu, moço?
- Sim, senhor, moço!

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

PRESENTE: O Valete de Ouro

Bem, é impossível resumir quatro dias de carnaval em apenas um post, por isso, vamos por partes:


UM


Caicó estava fria. Nuvens pesadas cobriam as serras que cercam a cidade. Era uma noite incomum ali. Chovia fino. E raios caíam, anunciando o que me esperava no carnaval. Cansado, subi escadas carregando minhas malas. Levei-as até o quarto e joguei num canto. Os outros habitantes daquele apartamento jogaram suas coisas ali também. Cada um ganhara um espaço. E eu deitei e dormi. Um sono pesado que não deixou meu corpo reconhecer que estava num colchonete fino sobre o chão. O dia prometia amanhecer perigoso e assim, não tardou.
Acordei. O dia nublado. Saquei meu telefone. Liguei para Mariah. Maraiah chega. Junto trás Rafa. E os amigos deles, alguns conhecidos, outros não. Aproximam-se. Bebo. Fumo. Estou rindo, quando de repente, viro-me e o encontro. Os cabelos dele estão negros como sempre foram. Mais cumpridos do que eu estava lembrado. Repicado. Balançavam. Caíam lisos sobre os ombros magros que já foram de meus beijos. Ele ria, cercado por seus amigos. Para mim, seu sorriso não aparecera. Respiro fundo e vou até lá. Pergunto se posso falar com ele. Minha voz sai forte e decidida, mas por dentro meu coração treme de medo, treme de esperança. Ouço-me falar a ele que ainda o amo. Ouço-me dizer-lhe que ele esta errando em ficar longe de mim. Mas antes de chegar a implorar, eu desisto. Porque desisto? Porque os olhos dele estavam vazios. Ele olhava através de mim, por cima de mim. Meneava a cabeça como ele sempre fazia quando não estava interessado no que diziam a ele. Ria um sorriso simpático, mas o brilho que havia nos olhos dele que deixavam nossas fotos juntos lindas não existia mais. Ele estava nervoso sim. Constrangido também. Mas educadamente ouviu tudo o que tinha de dizer, e saiu. Sem dizer-me nada.


DOIS


Noite. Na praça. Cercado por barulhos ensurdecedores. Com lama nos pés. Sentado na mesa comigo estão Andarilho e Pry. Eles comem. Eu só observo a noite. Nem quente nem fria. Olho as pessoas que passam. Homens bonitos. Alguns exibem os torsos desnudos. Mulheres loiras. Cabelos lisos, enxarcados de suor. Elas vestem camisetas de blocos. Devem ter dançado muito sobre os caixotes. Ele chega. Bem vestido como sempre. Usa um colar que eu dei a ele. Não consigo não conter um sorriso. E nem um pensamento: foi de propósito? Se não foi, será que é o subconsciente dele tentando demonstrar algo? Eu grito que sou tolo. Mas ninguém houve meu grito. Por que ninguém houve? Por quê? Quando volto a mim, percebo que ele notou meu interesse. E aí ele vai embora. Deixa-me lá com um olhar de pena. E se vai. E eu quero chorar. Quero. O Andarilho não deixa. Ele diz que eu sou melhor que isso. Que vou conseguir superar e encontrar alguém que realmente me dê valor. Eu nego. Digo que é impossivel. E ele se irrita. Levanta-se e vai embora. Com raiva. Fico lá, abandonado a noite. Sentado na calçada. A mesma que Beto apresentou-me a seus amigos. Que disse pela primeira vez na minha frente: este é meu namorado.


TRÊS


Chovia. Ao fundo o açude Itans contrastava com as montanhas que se jogavam em seu espelho. Pedras sertanejas rasgavam a terra seca. Em cima das pedras, um casarão onde uma música conhecida rasgava aquela paz tão bucólica. Gente e mais gente. Conhecidos muitos. Muitos de Caicó. Muitos outros de Natal. A luz do dia entrava prateada e banhava aquelas pessoas pelo alpendre. Ele estava lá. Dançando. Dançando como ele me conquistou. Ele me conquistou numa festa, de repente me lembrei o porquê daquela música ser tão familiar. Era a música que tocava quando ele me conquistou. Dançando. Feliz. Como ele estava feliz. Toda vez que eu me virava. Ele saltava, pulava. Ele estava feliz. O Andarilho estava irritado comigo. Ele sabia que eu estava sofrendo e dizia que ele não merecia isso. Não merecia meu sofrimento. Não merecia minhas lágrimas. Não merecia.


QUATRO


Uma tarde suave. Ana e eu conversamos sentados junto a Caixa. Não venta, mas não faz calor. As nuvens cobrem o céu com um manto plúmbeo. Falamos sobre relacionamentos. E ela fala que notou minha tristeza. Que meus olhos estão cinzentos como o céu. E que achou meu ex muito estranho. Disse-me que notou que ele fingia alegria quando me via. Disse que ele costumava estar parado, triste, bem quieto. Mas quando percebia que eu olhava, mudava de atitude. Dançava, pulava, tornava-se o Beto que eu conheci. Pry ouve a conversa. Acaba dizendo que percebeu o mesmo. Rafa diz-me que ele sempre, mesmo comigo, dizia que nunca tinha esquecido o ex. Nigue diz que eu deveria esquecê-lo de vez, porque ele não me amava como eu o amo. Não chorei.


CINCO


Noite. Última. Céu sem estrelas e sem lua. Vamos à Ilha carnavalizar. Noite quente, apesar de uns pingos de chuva que teimam em cair. Tenho medo de chover. Conheço pessoas novas. Riu ao lado delas. Danço ao lado delas. Bebo. Fumo. Sonho. Curo-me. Hora de ir embora. Pergunto a Pry se devo falar com Beto. Ela acha que sim. E vou falar com todos. Ele é o primeiro. Tchau, já vou. Tento abraça-lo. Ele não deixa. Tento beijar seu rosto, muito menos. Afasto-me. Ele conheceu Pry aquela noite. E a abraça-a e chora porque ela já vai. Trocam telefones. E o ódio toma conta de mim. E eu descubro que um amor não morre, ele se transforma. No caso dele tornou-se indiferença. E no meu caso agora se transformou em ódio. Adeus meu valete! Você está definitivamente enterrado. Agora minhas lágrimas de ácido não são mais por ele, são apenas por mim mesmo.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

EXTRA, EXTRA, EXTRA: Viajando?


Gente. Estou indo. Carnaval em Caicó. Taí o mapinha para vocês verem aonde estou me metendo. Claro que vocês saberão de tudo. Não se preocupem. Agora já tenho coisas para contar. Eu estava muito curioso sobre tudo o que vai acontecer. Que maneiras vocês conhecem para que alguém saiba o que vai acontecer? Como saber o futuro? Tarot, claro!!
Se vocês não sabem, eu sei jogar tarot e baralho cigano. Saquei minhas cartas e perguntei. Vou dizer tudo o que as cartas me disseram aqui, e quinta feira, quando eu retornar, saberemos o que as cartas acertaram e o que elas erraram. Fiz, em resumo, duas perguntas. Primeiro, perguntei: "Vou voltar com Beto?". E depois: "Como será Caicó?".

"Vou voltar com Beto?"
Não! Não neste carnaval! Apesar das cartas dizerem que existe uma possibilidade longinqua. Que o único problema é ele não confiar na minha fidelidade e a presença de uma mulher que atiça a desconfiaça dele.

"Como será Caicó?"
As cartas me disseram que é um erro ir a Caicó. Que eu deveria ficar em casa me dedicando ao meu trabalho. Disseram que é um desperdício de dinheiro e de tempo. Mas que também tem um lado positivo. Esta viagem vai me libertar de um certo Valete de Ouro, um homem mais novo do que eu, que na verdade não sabe o que quer (vocês tem dúvidas de quem as cartas estão falando?). Disseram-me que finalmente conseguirei enterrar este cadáver, que sofrerei muito com isso, mas se eu não passar por isso tornar-me-ei meu pior inimigo.
Eu tinha falado em lado positivo né? Mas convenhamos, tem coisa melhor do que me libertar do meu Valete? Mas também, em Caicó, vou conhecer um (não vale rir) Rei de Paus, um amigo talentoso, inteligente e competente, que tendo os mesmos objetivos que eu, ficará ao meu lado por muito tempo. Ele será mais velho ou bem próximo a minha idade (realmente cansei dos meus lolitos). Aparecerá depois que eu conseguir me livrar do Valete. E será, simplesmente, inesquecível.


E aí? O que vocês me dizem?

domingo, 17 de dezembro de 2006

PRESENTE: Diário de viagem: do paraíso ao inferno


Viajei. Como vocês sabem. E vou contar agora pra vocês tudo o que aconteceu. Acordei na sexta feira, animadíssimo. Eu ía rever meu bb. Nós moramos em cidades diferentes. Em estados diferentes. Eu em Natal, Rio Grande do Norte, e ele em Souza, na Paraíba, onde ele faz faculdade. Neste fim de semana marcamos de nos reencontrar em Caicó, a cidade natal dele. Aproveitar. Ficar juntos. Nos amar muito.
Saí de casa às 9h da manhã e cheguei lá à tarde. Ele estava me esperando na rodoviária. Acompanhado de dois amigos dele, depois fomos para a pousada que ele havia reservado para mim, e lá, desde duas semanas atrás, senti os suaves lábios dele, a delicadeza com que ele me abraça e o carinho das palavras dele no meu ouvido. Sinceramente, quando eu o vi, meu coração se acelerou, e quando ele me abraçou, eu não queria mais sair dos braços dele.
Saímos a noite. Conheci os lugares que ele gosta de frequentar na cidade. Conheci melhor os amigos dele. Conheci o ex-namorado dele. O meu grande inimigo, um grande fantasma que ronda nossa relação, apesar dele afirmar que ele não tem mais nenhuma influência sobre ele, mas eu sinto, que sempre estou sendo comparado a Jonatan. Não dormimos juntos neste dia. Ele não se sente bem. Fica preocupado com o que vão falar sobre ele. Uma cidade conservadora. Uma cidade de gays conservadores. Ele é muito conservador.
Contudo no outro dia, é ele quem me acorda. A melhor coisa do mundo: a primeira coisa que eu vi ser o sorriso lindo do meu bb. Mas também notei uma carinha séria, que imaginei que era alguma preocupação em relação a faculdade dele (sei que ele está com dúvidas sobre se quer continuar no curso de Direito que ele faz). Aí passamos a manhã do sábado sozinhos, trancados no quarto, vendo a MTV, e namorando. Beijos. Abraços. E por fim, ele me abraça por trás. Ele nunca havia feito isso, ficar deitado comigo e abraçado. Foi bom. Senti-me protegido. Senti-me amado.
Neste instante, eu senti algo endurecendo atrás de mim. Notei o tesão dele crescendo, e então virei meu rosto e o beijei com paixão. Senti o calor subir, e comecei a fazer movimentos mais cadenciados com meus quadris. Comecei a me esfregar nele. E ele começou a demonstrar o desejo que estava sentindo por mim. Sua mão passeava por meu corpo e parou no elástico do calção do meu pijama pedindo permissão. E eu dei. Encaminhei a mão dele para dentro do meu calção. E ele achou o caminho da minha bunda. Tocou-a. Acariciou-a. E eu me assustei.
Assustei-me quando vi ele tirando meu calção e arrancando o cinto dele numa velocidade inimaginável. Acho que se o ziper e o botão não tivessem colaborado, aquela bermuda não existiria mais.
Ele tentou me penetrar. Falou-me depois que ele perdeu totalmente o controle. Tentou. Forçou. Mas a inexperiência dele, somada ao tamanho do instrumento e das caracteristicas da minha bunda (aqui, só entre a gente, eu sou muito apertado) atrapalharam. Era necessária algum tipo de lubrificação. Eu tinha KY na bolsa. Quando levantei e fui buscar. Ele disse que era melhor parar por ali. Esperar mais um pouco. Que não era hora ainda. Apesar do meu desejo, de ser possuído por ele, o que para mim iria com certeza parecer que havia sido minha primeira vez, afinal só uma vez eu desejei tanto alguém na minha vida, como bom e compreensivo namorado que sou, eu disse que tudo bem. "Vamos esperar você estar pronto".
Ainda brincamos mais nos outros dias, avançamos alguns passos. Vamos passo a passo. Aproveitei ainda mais Caicó sabendo que nosso namoro estava evoluindo, crescendo, amadurecendo. Então, na segunda feira, quando eu ía para casa, fui esperando um belo futuro para mim e para o meu bb. Comecei a planejar, sonhar com nosso futuro juntos. Sonhar com tudo que poderíamos passar juntos.
Mas ele estava estranho quando foi me deixar na rodoviária. Desta vez não consegui não notar. E isso ficou martelando na minha cabeça quando pela primeira vez, desde que nos conhecemos, passamos um dia todo sem nos falar. Dois dias. No terceiro ele me ligou. Disse que tinha um assunto sério, e falou que percebeu que não gosta mais de mim como antes. Percebeu que não me ama mais, percebeu que agora o carinho que ele sente por mim é de um amigo. Ele me contou que percebeu isso desde a primeira vez que nos revemos. E aí terminamos. E eu que estava no paraíso, cercado pelas harpas celestiais, fui lançado no mais tenebroso dos ínferos. Estou coberto de cinzas, lama e lágrimas. Sem forças para me erguer. Terminou. Mesmo eu estando amando. Amando Herberth mais do que tudo nesta vida.

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

PRESENTE: Aventuras aventurescas

Após uma tediosa aula de Historiografia da Produção dos Espaços, ergui-me da sala e peguei minha mala que já havia preparado com três dias de atecedência. Ergui-me. Espreguicei-me. E Leilane me perguntou se eu estava chegando ou de partida. Gentilmente respondi que viajaria hoje ainda. "Estou indo agora pra rodoviária, Lê". Encaminhei-me até o ponto de ônibus, percebendo que teria muito tempo pra chegar na rodoviária, tinha comprado as passagens mais cedo para as 19h, tinha reservado as cadeiras 47 e 48. Lembrei então que ainda teria que encontrar Henrique no shopping. "Bom, assim eu aproveito e compro umas revistas e uma escova de dente". A gente sempre esquece algo quando arruma a mala. Peguei o circular do Campus, e sentei-me numa cadeira no meio do ônibus, liguei meu mp3 que tocava Chemical Brothers, e esperei o circular chegar ao ponto final ao lado do shopping que eu havia marcado, algumas horas antes com Henrique.
No shopping, dirigi-me primeiro a banca de revistas. Vasculhei a parte de quadrinhos procurando algo de interessante. Nenhuma das que costumo colecionar, X-Men, mas algumas relacionadas a mega saga que está sendo publicada agora, Dinastia M, mas pensei bem. Eu ía gastar tanto dinheiro nesta viagem, pra que uma revista que no fundo não me serviria de nada, que eu leria em 15 minutos ou 30 no máximo. Afinal dentro da minha bolsa estava Hell, e eu queria terminar aquele livro ainda aquela semana. Resolvi esperar Henrique apenas ouvindo música, o mp3 passeava agora entre músicas de Miss Eliot e Sean Paul. Sentei a uma distância que podia observar a parada que Henrique iria descer e fiquei observando o movimento, as pessoas indo e vindo, algumas belezas estranhas, outras pessoas nada belas, todas seguindo sua vida, conforme a luz do sol se despedia.
Atrazado meia hora, Henrique chegou. Ansioso, precisando de um cigarro, como ele sempre chega quando desce de um ônibus. "Não temos tempo amigo, quem mandou chegar tarde". Logo o outro ônibus que nos levaria a rodoviária chega. Eu percebo que estou com fome. Comento isso. Cronomêtramos o tempo para tentar comer algo antes de embarcar. E já estamos dentro do ônibus. Sentamos um de frente para o outro. Mas logo uma cadeira fica vaga e sentamos um de lado para o outro. A duas cadeiras do cobrador. Ainda na frente do ônibus. Vamos rindo e conversando. Alguns telefonemas são atendidos. Confirmamos que estamos indo. Recebemos a notícia que teremos que pagar mais caro pela pousada porque todas as outras estão lotadas. Ao mesmo tempo que nos entristecemos porque teremos que pagar mais caro, ficamos felizes porque agora sabemos que a cidade está lotada de gente de fora.
Chegamos na rodoviária. Localizamos nossa plataforma de embarque e olhamos para o relógio. Ainda dá tempo de um lanche e de tirar dinheiro para a viagem. Mas antes quero dar uma passada no banheiro. Banheiro. Espelho. Nota mental: meu cabelo continua caindo. Elogio mental: nem tô tão gordo assim. Vamos tirar dinheiro. R$ 150, 00. Acho que dá pra nós dois durante o fim de semana. Qualquer coisa levo meus cartões. Vamos comer. Eu peço um enroladinho (adoro salcicha) e um nescau prontinho, Henrique pede um pastel de forno e um refrigerante. Ele que paga. Adoro que paguem pra mim. Mas fui eu que comprei as passagens. Ele nem tem coragem de recusar. Comendo ainda, percebemos que as pessoas já estão entrando no ônibus. Terminamos nosso lache e subimos para encontrar nossos lugares.
Entramos. Rindo. Conversando. Encontramos nossos lugares e quando olho pra baixo encontro uma menina sentada em um deles. Henrique não sabe o que fazer. Eu muito menos. Ela olha pra nós como se não soubesse o que está acontecendo. A senhora ao nosso lado olha pra mim e em seu olhar está a explicação de tudo. A empresa vendeu assentos em pé, esta menina não tem um lugar marcado. Ela deveria viajar em pé, ou sentar-se caso alguém desistisse. Mas eu não queria me estressar. Henrique sentou-se do lado da menina. Eu sentei atrás. Cadeira 51. O rapaz que estava sentado do meu lado, então, vendo a situação ofereceu-se pra trocar de lugar com Henrique. Eu declinei num primeiro instante, eu tinha esperança que a menina se tocasse, mas ela não pretendia, então eu pedi ao rapaz que trocasse de lugar, se ele não se incomodasse. "Claro que não".
Lugares trocados já a caminho de nosso destino. Primeira parada ainda dentro de Natal. Sobem algumas pessoas que ocupam os ultimos lugares vazios. A maioria fica de pé. Todas se deslocam pro fundo do ônibus. Segunda parada ainda em Natal, aí mais algumas pessoas sobem, desta vez ficando em pé na parte dianteira do ônibus. O cobrador ainda não passara recolhendo e checando as passagens. E eu já havia me tranquilizado porque os donos das cadeiras que ocupávamos indevidamente com certeza não apareceriam. Eu já estava com o texto ensaiado pra expulsar aquela menina do lugar dela. "Sua rashinha..." era como começava. Ia baixar a bicha com certeza! Uma bicha barraqueira!!
Só que de repente, ouvimos um estampido. Eu olho pra fora. Achava que era um pneu. Uma pedra. Um traque e quando olho pra dentro do ônibus vejo as pessoas se jogando no chão. Meu primeiro pensamento foi como as pessoas são bobas, provavelmente eram crianças brincando na rua, mas em seguida eu vejo um cara, magro, de estatura mediana, negro, com cavanhaque, armado com um revolver. Logo por trás dele se formam mais outros vultos, tão magros quanto, mas de pele mais clara, um com outra arma de fogo, e outro armado com o que eu viria a perceber depois que era uma faca.
Não consigo raciocinar muito bem. Mas vejo Henrique escondendo o celular e a carteira dele dentro da cueca. Repito o gesto inconscientemente. Ouço pela primeira vez a voz do ladrão ordenando que passemos tudo. Carteiras, bolsas, celulares. Ele gritam. Agitam as armas. Dizem que alguém vai morrer ali se ninguém cooperar. As pessoas passam os celulares. Carteiras. Eu fico quieto. Não consigo me mexer. Só imagino que se ele chegar perto da gente, vai desconfiar de nem eu, nem Henrique termos celulares nem carteiras. Fico com medo dessa possiblidade e começo a inventar desculpas que nenhuma parece ser convincente. Imagino que Henrique pode dar a carteira dele. Sei que ele não tem muito dinheiro na carteira. Ao contrário de mim. Nosso dinheiro estava comigo. Meus cartões, caso perdessemos o dinheiro, estava comigo. Mas ele se recusa. Mas também logo percebo que por causa das pessoas em pé, os ladrões não podem chegar muito próximo da gente, eles apenas mandam que passemos tudo, e eu finjo que sou invisível.
As carteiras, bolsas e celulares acabam. Mas os ladrões não querem descer. Dizem pro motorista continuar andando. Agora eles pedem relogios e joias. Olho pro meu pulso e só tenho algumas pulseiras de contas. Nem lembro da existência de meu piercing nesta hora. Mas pensando bem eu não consigo tirar quando estou calmo, imagino nervoso como o ar estava ali. Pai nosso que estás no céu. O ônibus cheirava a tensão. Santificado seja o vosso nome. E ar ficava mais pesado conforme se ouvia baixinho, múrmurios de choros, gritos de crianças apavoradas e orações. Venha nós ao vosso reino. E os ladrões andam por cima das costas das pessoas que se abaixam amedrontadas nas cadeiras. Seja feita a vossa vontade. Agora que o único ladrão que estava sem arma de fogo fala pela primeira vez. Assim na terra como no céu. Grita pra que um rapaz passe-lhe a aliança. O rapaz apanha. O primeiro ladrão. O negro. Grita que eles têm que descer. Eles correm para frente do ônibus. Levam sacolas cheias. As pessoas ainda se mantêm tensas. Eles descem. O ônibus parte.
E do ônibus, contra os ladrões, são disparados três tiros. Pelo rapaz que trocou de lugar com Henrique. Do lado da minha janela. Eu vi a arma. E fiquei encantado pelo fogo do disparo. Parece que o tempo parou naquele instante.