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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Pérsia: Arimã e o Nascimento do Mal

, em Natal - RN, Brasil



Arimã, o Angra Mainyu ("espírito destruidor") do Avesta, é o espírito maligno na doutrina dualista do Zoroastrismo, ele se opõe a Ahura-Mazda, o senhor sábio, símbolo da luz. Sua natureza essencial é expressa em seu principal epíteto: druj, "o mentiroso" e ele representa a ganância, a ira e a inveja. Para ajudá-lo em atacar a luz, a boa criação de Ahura-Mazda, Arimã criou uma horda de demônios que incorporam inveja e todas as características negativas dos seres humanos. Ele era responsável por todo caos e sofrimento ao realizar seu ataque ao mundo, os crentes esperam ver Arimã ser derrotado na final do tempo por Ahura-Mazda. Confinado a seu próprio reino, seus demônios devorariam então uns aos outros, e sua própria existência seria encerrada.
Arimã criou as serpentes dos rios, os gafanhotos que trazem morte as plantações, as formigas, o roubo, a descrença, as lágrimas e as lamentações, o orgulho e a bruxaria e o próprio inverno, além de 99.999 doenças. Entre as criações de Arimã também teríamos o "pecado para o qual não há expiação", as relações homoeróticas. No mito de Arimã, quando ele tentou destruir o mundo, ele teria feito sexo anal consigo mesmo e desta relação homoerótica aconteceu uma explosão de poder do mal e que resultou no nascimento de uma série de grandes demônios (daevas), estes são sete: Aka Manah, Sauru (ou Shiva), Taurvi, Zairitisha, Naonhaithya (Nasataya), Aeshma e Indra.  A interpretação desta passagem tem sido no sentido de que as relações homoeróticas seriam uma forma de culto ao demônio e, portanto, pecaminoso.
Contudo essa interpretação clássica esquece de notar que, no caso do Zoroastrismo, o que era definido como culto ao demônio era o culto aos outros deuses de outras nações. É bom lembrar que os daevas que em persa significa demônios em hindu significam deuses, essa oposição linguística da mesma palavra é a chave de como devemos interpretar a forma como os persas definem sua aceitação com as relações homoeróticas. Outra chave é a presença dos deuses hindus Shiva, grande deus da destruição e renascimento; Nasataya, um dos gêmeos Ashwins Kumaras, que representavam o nascer e o pôr do sol, e Indra, senhor da guerra e do paraíso na Índia, entre os grandes demônios persas.
A questão aqui vai além da tradução de daevas para demônios ou deuses, mas para a definição do que é permitido ou não para um fiel de Ahura-Mazda. Contudo, estes mitos não fazem parte dos textos sagrados, mas sim parte da tradição oral que foi agregada a religião reformada por Zoroastro. Ela faz parte, na verdade, de uma tradição popular o que coloca uma interessante questão sobre a sociedade persa: a existência  na mesma sociedade da aceitação da existência dos eunucos entre as altas classes, eunucos esses que eram provavelmente recrutados dentro dessa mesma classe; e a conotação de pecado dada pelas classes populares às relações homoeróticas.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Pérsia: As Leis Contra os Demônios

, em Natal - RN, Brasil


A palavra Vendidad que batiza este trecho do Avesta é uma corruptela de Vî-Daêvô-Dâta, que quer dizer Dado Contra os Demônios (Daeva). Ele é composto por 22 Fargards, fragmentos dispostos como discussões entre Ahura-Mazda e Zaratustra. O primeiro fargard é o mito da criação dualista, seguido pela descrição de um inverno destrutivo que envolve um dilúvio. O segundo narra a lenda de Yima. O terceiro e do sexto ao décimo-nono trata sobre higiene. O sétimo, décimo, décimo-primeiro, décimo terceiro, e entre o vigésimo e o vigésimo-segundo, trata sobre doenças e feitiços e como lutar contra eles. O quarto e o décimo-quinto fargards discutem a dignidade da riqueza e da caridade, o casamento e comportamentos sociais inaceitáveis como agressão, quebra de contrato, e especificam as penitencias para expiar violações dos mesmos. 
O Vendidad é, portanto, um código de leis eclesiástico, é um livro de leis morais, e não um manual litúrgico, e há um certo grau de relativismo moral aparente nos códigos de conduta, sobretudo porque as diferentes partes do Vendidad variam amplamente em idade. Algumas parte são relativamente recentes, embora a maior parte do texto é muito antiga. O quinto fargard tem um trecho que nos interessa:


31. Ó, Criador do mundo material, tu és santo! Quem é o homem que é um Daeva? Quem é que é um adorador dos Daevas? O que é um amante masculino dos Daevas? O que é um amante do sexo feminino dos Daevas? Quem é uma mulher para o Daeva? Quem é tão mau como um Daeva? Quem em todo o seu ser um Daeva? Quem é que é um Daeva antes de morrer, e se torna um dos Daevas invisíveis após a morte? "Como a mulher é obediente ao seu marido, assim ele é para os Daevas." 


32. Ahura-Mazda respondeu: "O homem que se encontra com homens como homem e se deita com as mulheres, ou como mulher que se deita com outro homem, este homem que é um Daeva. Este  homem é um adorador dos Daevas [daevasnaya], um amante do sexo masculino dos Daevas, um amante do sexo feminino dos Daevas. Este homem é uma mulher para o Daeva, este homem é tão mau como um Daeva, que está em todo o seu ser um Daeva, este é o homem que é um Daeva antes de morrer, e se torna um dos Daevas invisíveis após a morte: assim ele é, se ele tem ficado com a humanidade como homem, ou como mulher". 
O culpado pode ser morto por qualquer um, sem uma ordem do Dastur [um líder religioso]. E somente por esta execução podem ser resgatados deste crime capital.


Os Daevas, que são tardiamente traduzidos como por demônios, mas cuja palavra ironicamente quer dizer "ser de luz brilhante", são, no Gathas, considerados deuses errados, falsos, que deviam ser rejeitados, mas continuavam sendo deuses. No livro escrito por Zaratustra/Zoroastro, os adoradores do daevas eram pessoas que ainda eram incapazes de diferenciar o asha (a verdade) do druj (a falsidade), a qual você conseguiria se fosse convertido a religião de Ahura-Mazda, mas apesar disso os próprios daevas não eram considerados mentirosos (dregvant).
Porém, no desenvolvimento da tradição zoroástrica, sobretudo no folclore, o significado de daevas se tornou ligado a ideia de demônios. Uma curiosidade: a seita persa dos Mahabadians, inclusive, acreditavam que a alma que não tinha falado, nem feito o bem, se tornava um ahriman ou gênios (dabestan), aqueles que ficavam aprisionados em lâmpadas realizando os desejos dos homens até cumprir a parcela de bem que não tinham feito vivos. Outros que se tornavam daevas eram muitas vezes os ímpios, excluídos do céu.
No texto do Vendidad, o significado da palavra está na transição do significado clássico para o sentido folclórico. Mas de qualquer forma o trecho não fala somente dos homens que "como mulher" se deitam com outros homens, isto é, que participam de relações homoeróticas, mas também aqueles que se deitam como homens com as mulheres, participando de relações heteroeróticas, ou seja, qualquer homem que se rende a luxúria, ao prazer sexual, ao morrer se tornará um daeva, a não ser que este seja assassinado, porque assim seu crime será perdoado.
A luxúria no Zoroastrismo é uma das forças que desequilibram o bom desenvolvimento da humanidade, junto com a cobiça e o ódio. Essas forças do mal devem ser contestadas de forma proativa, abraçando uma vida de bons pensamentos, boas palavras e boas ações. No caso da luxúria, exatamente, é manter-se numa vida de castidade em que qualquer sexo, qualquer um, tanto sexo entre um homem de uma mulher quanto o sexo entre dois homens ou duas mulheres,  deve ser evitado sob pena de morte. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Pérsia: As Respostas de Ahura-Mazda

, em Natal - RN, Brasil


A religião persa chamava-se Zoroastrismo, fundada por Zaratustra ou Zoroastro (em grego). É a primeira religião baseada em um monoteísmo ético, isto é, haviam duas divindades (dualismo), Ahura-Mazda (o bem) e Arimã (o mal), na qual os seguidores deviam apoiar Ahura-Mazda, seguindo seus preceitos e praticando o bem, para assim enfraquecer Arimã e o planeta chegar ao paraíso após a chegada de um messias. O Zoroastrismo influenciou profundamente o judaísmo e o cristianismo durante o período do Cativeiro da Babilônia. 
Antes do Zoroastrismo, a Pérsia cultuava inúmeros deuses classificados como Ahura (senhores) e Daevas (deuses e, mais tarde, demônios sobretudo por representarem deuses de outras nações, como os deuses hindus). Porém por volta de 1750 a.C., Zaratustra, conta a tradição, que era um sacerdote de um certo ahura, foi guiado por um ser feito de luz, Vohu Manah (o bom pensamento), até a presença de Ahura-Mazda e os cinco Amesha Spenta (os imortais sagrados), os quais lhe transmitiram uma nova mensagem religiosa. Zaratustra então começou a pregar sua religião dualista o que o fez ser perseguido e, após doze anos, ele teve que deixar a Pérsia e se fixou na região da Báctria, atual Afeganistão, sob a proteção do rei Vishtaspa e da rainha Hutosa que convertidos a religião do persa transformaram o Zoroastrismo na religião oficial do reino. Contudo foi Dario I, em 590 a.C., que reconheceu o Zoroastrismo como religião oficial do império persa. Neste período, existia entre os medos uma classe sacerdotal chamada os Magi ou Magoi que adotaram o Zoroastrismo e acabaram por incluir nele diversas práticas suas como a exposição dos cadáveres a aves de rapina, o casamento entre membros do próprio grupo, e a personalização dos Amesha Spenta que tomaram a forma de antigos deuses medos como Anahiti, deusa da fertilidade, que ocupa o lugar de Ameretat, a imortalidade; Mitra, o sol, que substituí Asha Vahishta, a verdade perfeita; Vayu, o vento, que ocupa o lugar de Khashathra Vairya, o governo desejável; Tishtrya, a chuva, que toma o lugar de Hauravatat, a plenitude; e Awmaiti, a terra, que tornar-se Spenta Ameraiti, devoção protetora; além de Tiri, o planeta Mercúrio, aparece no lugar de Vohu Manah, o bom pensamento.
Para a maioria dos historiadores, Zaratustra é na verdade um grande reformador. Ele propôs uma mudança no panteão indo-ariano no sentido do dualismo e monoteísmo, ao qual deu preferência aos Ahura, que passaram a representar aqueles que haviam escolhido o bem, enquanto os Daevas passariam a representar aqueles que haviam escolhido o mal. A lógica, no entanto, é a oposta quando pensamos a religião hindu, em que os Daevas são os principais deuses da Índia. Os principais documentos que permitem conhecer o Zoroastrismo são os Gathas, dezessete hinos atribuídos a Zaratustra, escritos por volta de 1500 a.C., que são o principal núcleo do Avesta, o livro sagrado do Zoroastrismo. Os Gathas revelam esse pensamento dualista porém num sentido ético, cabia ao homem escolher para si um comportamento bom, correto e honesto, porém, somente posteriormente, com outros textos que são agregados ao Avesta que este dualismo passa a tornar-se cosmológico, agir ao lado de Ahura-Mazda e contra Arimã torna-se a tarefa primordial que mantém nosso planeta intacto. Arimã tornar-se então um inimigo de Mazda, o que possuí a spenta mainyu (energia poistiva), que deve ser combatido, responsável pela destruição, pelas doenças, pelos desastres naturais, portador da angra mainyu (a energia negativa). Nesta lógica, haveria um dia, em que um descendente de Zaratustra, nascido de uma virgem, viria por fim realizar o Saoshyant, no qual o bem venceria definitivamente o mal e, com isso, Arimã seria finalmente derrotado. 
Sobre relações homoeróticas, na verdade, sobre relações sexuais, os Gathas não se pronunciam. Contudo, textos acrescidos posteriormente, inclusive para muitos estes textos são corrupções dos ensinamentos originais de Zaratustra. Um desses textos é o Vendidad, uma coleção de 22 fargards, isto é, preceitos religiosos escritos na forma de perguntas e respostas feitas ao próprio Ahura-Mazda, que fazia parte da tradição oral persa e foi compilado mais tarde e publicado junto com o Avesta. Neste, as relações homoeróticas são pintadas como uma mancha impossível de apagar na vida de qualquer iniciado na religião de Ahura-Mazda, um pecado imperdoável.
O Capítulo V, a partir do parágrafo 26, diz:

26. Ó, Criador do mundo material, tu és santo! Se um homem, pela força, comete o pecado não natural [relações homoeróticas], qual é a pena que ele deverá pagar?

Ahura Mazda respondeu: "Cem chibatadas com o Aspahe-astra, 800 chibatadas com o Sraosho-Charana."


27. Ó, Criador do mundo material, tu és santo! Se um homem voluntariamente comete o pecado não natural, que é a pena para ele? Qual é a expiação por ele? O que é a limpeza do mesmo?


Ahura Mazda respondeu: "Por esse ato, não há nada que possa pagar, nada que possa reparar, nada que possa limpar a partir dele, é uma ofensa para a qual não há expiação, para todo o sempre."


28. Quando é assim?


"É assim que se o pecador for um professor da religião de Mazda, ou aquele que tem sido ensinado nela. Mas, se ele não é um professor da religião de Mazda, nem aquele que tem sido ensinado nela, em seguida, seu pecado é tirado dele, se ele faz a confissão da religião de Mazda e resolve nunca cometer novamente tais atos proibidos."

29. A religião de Mazda na verdade, ó Spitama Zaratustra!, tira dele que faz a confissão os laços com seu pecado, que tira (o pecado de) quebra de confiança, leva embora (o pecado de) assassinando um dos fiéis, que tira (o pecado de) enterrando um cadáver, que tira (o pecado) de obras para as quais não há expiação, ele tira o pior pecado da usura, que tira todo o pecado que pode ser pecado.

30. Da mesma forma a Religião da Mazda, ó Spitama Zaratustra! purifica os fiéis de todo o mal pensamento, palavra e ação, como um vento impetuoso limpa a planície. Então, vamos todos os atos que ele pratica, doravante, ser bom, ó Zaratustra!, uma expiação completa para o seu pecado é efetuada por meio da religião de Mazda.


No entanto, o castigo que se apresenta aqui é o mesmo para diversos pecados sexuais. Vejamos, por exemplo para a masturbação, no capítulo oitavo:

26. Ó, Criador do mundo material, tu és santo! Se um homem involuntariamente emite sua semente, que é a pena que ele deverá pagar? 
Ahura Mazda respondeu: "Cem chibatadas com o Aspahê-astra, 800 chibatadas com o Sraoshô-karana".
27. Ó, Criador do mundo material, santo tu és! Se um homem voluntariamente emite sua semente, que é a pena para ele? Qual é a expiação por ele? O que é a limpeza do mesmo? 
Ahura Mazda respondeu: "Por esse ato, não há nada que possa pagar, nada que possa reparar, nada que possa limpar a partir dele, é uma ofensa para a qual não há expiação, para todo o sempre. "

É, portanto, apenas uma questão sobre vida sexual. A discussão aqui é sobre como se manter puro, e isto envolve manter-se distante de qualquer relação sexual, seja ela com uma pessoa do mesmo gênero, de um gênero diferente ou mesmo masturbando-se.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Pérsia: Os Homens de Confiança de Ciro

, em Natal - RN, Brasil


Além de Bagoas, houveram outros grandes eunucos na história da Pérsia. Todos muito bem educados. Podemos citar, usando o exemplo que Andrew Chugg retira de Diógenes Laércio, Hermias, que fora educado por Aristóteles, na Grécia, onde fora enviado por seus pais, adolescente, e já castrado. O que demonstra que a "imposição" destes jovens na situação de eunuco era um investimento familiar em seu futuro. Esta imposição funcionava exatamente como o casamento era colocado para as mulheres. Era uma forma de ascender socialmente, Hermias, inclusive, tornou-se governador da satrapia de Atarneus, na região da Jônia (atual Turquia), e se rebelou contra o grande rei Ciro tornando-se independente do império persa durante um curto período de tempo. 
Apesar da traição de Hermias, na Ciropedia, escrita por Xenofonte, historiador grego, que está a mais detalhada descrição dos eunucos persas. Diz ele: "Ciro sabia que os homens precisam amar os filhos ou esposas ou favoritos dos quais eles se encantam: enquanto eunucos, que são privados de todos os entes queridos, certamente colocam em mais alta conta de quem poderia enriquecer-los ou ajudá-los se eles foram feridos ou terem sua honra abalada. E para receber tais benefícios o eunuco sempre está disposto a pensar que ele poderia oferecer mais ao mundo. Além disso, o eunuco, sendo degradados aos olhos de outros homens, é levado a procurar a ajuda de algum senhor ou mestre. Sem tal proteção não há um homem no mundo que não se ache no direito de sobrepujar um eunuco. Segundo Ciro, não havia qualquer razão para supor que o eunuco não seria o mais fiel de todos os servos. Quanto à noção comum de que um eunuco deve ser fraco e covarde, Ciro não estava disposto a aceitá-la ... nenhum homem se mostrar mais fiel do que eunucos quando ruína cai sobre seus senhores. Na força física, talvez, os eunucos podem parecer não estarem na mesma vantagem, mas o aço é um grande nivelador e torna o homem fraco igual ao forte na guerra. Mantendo isso em mente, Ciro resolveu que seus assistentes pessoais, desde os seus porteiros, deveriam ser todos eunucos."
São muitos os exemplos de eunucos ligados ao poder imperial. Primeiro o outro Bagoas, grão-vizir de Artaxerxes Ochus, que em 338 a.C., com a morte do imperador, reinou no império até subir ao trono Dario I, que para muitos não passava de uma marionete nas mãos do eunuco. Um outro exemplo da participação política destes personagens é Artoxares que viveu entre os reinos de Artaxerxes I e Dario II, um século depois deste primeiro Bagoas. De acordo com Ctésias, este último com apenas 20 anos participou do exército contra o rebelde sátrapa Megabyzus, que derrotado foi enviado exilado para o Golfo Pérsico. Por causa de sua participação na guerra, Artoxares tornou-se sátrapa da região da Armênia. Ele também, após a morte de Artaxerxes e do fim da guerra civil entre os seus filhos que resultou na vitória de Dario II, quem Artoxares apoiava, o eunuco tornou-se uma das pessoas mais influentes da corte persa de meados do século V a.C. Porém, corrompido pelo poder, o eunuco conspirou contra o rei e foi executado por ordem da rainha Parysatis. 
Um exemplo desta fidelidade foi de Batis, eunuco que governava a cidade de Gaza, quando Alexandre, o Grande, tentou tomar a cidade. De acordo com um fragmento de Hegesias, citado por Chugg, Batis fingiu se render ao conquistador grego só para ter uma chance de se aproximar dele e esfaqueá-lo. Apesar de ainda sair ferido, Alexandre sobreviveu ao atentado e, para dar o exemplo, matou o eunuco e amarrou o corpo em seu carro, arrastando-o em torno das muralhas da cidade como Aquiles fez com Heitor. Ou Hermotimo, de 480 a.C., que fora o favorito de Xerxes. Este tornou-se segundo guardião (algo como padrinho) dos inúmeros filhos do rei, um papel que só era reservado a outros reis. Este tornou-se eunuco ainda criança quando foi vendido para o palácio do rei o que não impediu que ele se torna-se um cruel soldado como demonstrou nas Guerras Médicas contra os gregos, inclusive participando da famosa Batalha de Salamina. Xerxes inclusive tinha uma guarda pessoal formada apenas por eunucos, como lembra Don Benjamin.
Inclusive, Don Benjamim acredita que os eunucos seriam melhor entendidos se fossem pensados como funcionários reais extremamente comprometidos com seus reis. Tão comprometidos que abdicavam de sua virilidade como prova disso. Eles são representados pela arte sempre sem barba, transportando os armas de seus governantes, segurando guarda-sóis, afastando-lhe as moscas ou abanando-lhe. Eles acompanhavam os governantes em caçadas e dirigiam seus carros, além de serem responsáveis pelo seu guarda-roupa. Eunucos também são retratados como músicos tocando liras e harpas; como escribas escrever cartas para seus governantes, registrando pilhagem e prisioneiros de guerra, e elaboração da anais no campo de batalha.
Acrescentamos, no entanto, que o fato de um homem persa tornar-se um eunuco não queria dizer que ele dedicaria sua vida as relações homoeróticas, os registros falam de alguns, porém também existem inúmeros relatos de eunucos que, inclusive, eram casados com mulheres. Ser eunuco na Pérsia não passava de um trabalho.



terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Pérsia: Bagoas, o Príncipe dos Eunucos

, em Natal - RN, Brasil


Bagoas, ou Bagoi (em persa), é o nome do eunuco mais famoso da história da Humanidade. Ele não era, no entanto, muito conhecido até o lançamento do famoso romance, O Menino Persa, de Mary Renault, que rapidamente atingiu as listas de best sellers. Referências ao eunuco nos documentos da Antiguidade são poucas. Na verdade, há apenas três, confinadas nos escritos dos historiógrafos romanos Quinto Cúrcio e Plutarco, e o general grego Ptolomeu.
A referência mais antiga é de Quinto Cúrcio e diz: "Entre os presentes estava Bagoas, um eunuco de qualidade singular na flor da juventude, a que Dario estava familiarizado (adsuetus) e logo Alexandre também se familiarizou. Foi principalmente por suas súplicas que Alexandre perdoou Nabarzanes" (CQ 6.5.23). Cúrcio está falando aqui sobre o assassinato de Dario por Nabarzanes, este mata o rei persa, e se prostra de joelhos rendido a Alexandre. O traidor persa oferece então inúmeros presentes ao conquistador grego, inclusive as esposas do rei e seus eunucos, isto é, todo seu harém. Cúrcio deixa claro em outro trecho dos seus dez livros sobre a vida de Alexandre, o Grande, que os haréns persas eram abastecidos de concubinas e de eunucos que, ao contrário do que se costuma dizer nas histórias que chegaram a nós advindas do mundo árabe, não era protetores das mulheres e que não eram castrados para evitar que eles traíssem os sheiks com suas inúmeras esposas, os eunucos persas participavam dos haréns como parte das esposas do imperador. Os reis persas como Dario, Xerxes, Ciro e Artaxerxes, todos, tinham entre suas esposas, isto é, casados de certa forma porque o casamento real era apenas com a primeira esposa, as outras eram concubinas e os homens eram seus eunucos, mas em situação de igualdade com as concubinas.
É importante lembrar, no entanto, que os eunucos persas são castrados na adolescência ainda. Isso impedia a mudança do corpo causada pelos hormônios da adolescência transformando o corpo desses homens numa versão de aparência sempre infantilizada, digamos assim, imberbe e de aparência feminina e delicada. Estes eram educados com esmero. Aprendendo o protocolo e regras da corte persa, uma das mais rígidas do mundo antigo; mas também aprendendo a ler, escrever, matemática, tornando-se normalmente administradores dos bens do rei. Contudo, no caso de Bagoas, ele também era um exímio dançarino. 
É Plutarco quem conta essa parte da história. Cúrcio afirmou que o regicida entregou Bagoas de presente para Alexandre, como dissemos, mas este deixa o seu harém na Hircânia, a beira do mar Cáspio, enquanto parte para tomar a região da Carmênia, uma satrapia já dentro do atual Irã. É na Carmênia, meses depois, que acontece a segunda aparição de Bagoas. Ela acontece quando o exército de Alexandre recebe suprimentos oriundos da Hircânia e eles comemoram as Bacanálias em nome de Dioniso. Plutarco narra o encontro em Vida dos Varões Ilustres: "Diz-se que enquanto estava bêbado, ele (Alexandre) observou o concurso de dança, no qual, em meio ao coro, estava seu amante Bagoas dançando e, depois de ter sido declarado vencedor, voltou do teatro e sentou-se com ele. Vendo isso, os macedônios o aplaudiram e gritaram pedindo um beijo, até que Alexandre, jogando os braços em torno dele o beijou amorosamente". (Alex. 67.8).
Bagoas era o preferido de Dario III. No entanto, ao conhecer Alexandre ele não havia ainda começado uma carreira política na corte persa, como inúmeros outros eunucos haviam feito antes. Seu poder se limitava apenas a receber favores diretos do rei. Este favoritismo, obviamente, despertou inveja, o que fazia com que se dissesse sobre ele, tanto na época de Dario, quanto com Alexandre, que "um eunuco havia governado a Pérsia antes e agora governava outro", em referência a um outro eunuco também chamado Bagoas, que se tornou grão-vizir do imperador Artaxerxes III, por volta do século IV a.C. Cúrcio inclusive conta que chegando Alexandre a capital persa, a Babilônia, o sátrapa Orsines dá ao novo imperador e a todos os seus amigos presentes inimagináveis. "Para Bagoas, o eunuco, que serve Alexandre com seu próprio corpo, nenhuma honra é paga". (QC 10.1.26). Bagoas se sente humilhado. Orsines o chama de prostituto. O eunuco então usa sua influencia e recruta uma série de falsos testemunhos que destroem a reputação do sátrapa e forçam Alexandre a retira-lo da posição que ele tinha, fazendo-o cair em desgraça. 
Discute-se entre os historiadores se os eunucos tinham a mesma situação social de escravos ou se eles estavam equiparados legalmente as mulheres. Questiona-se sobretudo como esses meninos são expostos a esta situação de castração: eles seriam vendidos por sua família? Tais discussões estão sempre atreladas a um preconceito machista de que somente uma família em situação de desespero permitira que um filho homem seu fosse colocado nesta situação de desvirilização. Todavia, não é o que parece. A situação de todos os eunucos que aparecem na história persa é sempre de homens que tinham um excelente status social o que poderia perfeitamente ser desejável para uma família. Seria um excelente forma de, por exemplo, manter-se ativo no ambiente cortesão da capital persa criando seu filho desde muito cedo para ocupar um lugar de destaque como eunuco do imperador ou de um sátrapa de uma cidade ou mesmo de um comerciante rico, por exemplo. 



terça-feira, 20 de novembro de 2012

Pérsia: Os Homens e os Meninos

, em Natal - RN, Brasil


A origem da pederastia, isto é, do relacionamento homoerótico entre um homem adulto e um menino na antiga Pérsia foi um assunto debatido desde a Antiguidade. Heródoto, historiógrafo grego, afirmava que os persas tinham aprendido aquele hábito com os gregos: "Os persas assimilam facilmente os costumes estrangeiros. Dominados os Medos, começaram a adotar os trajes destes por considerá-los mais belos que os seus. Nas guerras, envergavam couraças à maneira egípcia. Entregam-se com ardor aos prazeres de todo gênero de que ouvem falar, e adquiriram com os Gregos o amor aos jovens" (Livro I, CXXXIV). No entanto, Plutarco afirma que os persas já conheciam o chamado "amor grego" desde muito antes do contato com os gregos, já que nas primeiras guerras médicas os persas já tem entre suas fileiras inúmeros eunucos. Apesar destes autores antigos, Richard Francis Burton (1821-1890), historiador inglês do século XIX, o primeiro a traduzir os contos árabes para a língua inglesa, era da opinião de que os persas haviam absorvido o costume das populações que habitam o vale do Tigre-Eufrates. A questão de como começou, no entanto, é uma discussão inútil sendo bem mais interessante reconhecer quais as formas sociais mais comuns em que se davam, na Pérsia, as relações homoeróticas.
Stephen Murray explica em seu Homossexualities que na região de Khorasan, no nordeste da Pérsia, região habitada sobretudo pelos Parsis, o costume da pederastia era bastante comum. Porém, ao contrário do que acontecia na Grécia e Roma em que as relações eróticas entre homens e meninos eram recobertas com um significado pedagógico no qual o jovem seria iniciado pelo homem mais velho nas tarefas masculinas, na Pérsia este relacionamento não tem nenhuma outra finalidade além de conseguir prazer sexual com meninos. O Amado (aquele que é penetrado na relação e o mais jovem) não é, ao contrário da Grécia, idealizado, este não precisava ser nobre e virtuoso, muito pelo contrário, era muitas vezes escravo de guerra, ou fora vendido pelos pais para servir sexualmente ao seu senhor. O que importava era que estes meninos fossem bonitos. Plutarco, inclusive, afirma em A Vida de Alexandre que um dos generais compra dois meninos de excepcional beleza para dar de presente a um amigo na Grécia.
Este jovem continuava servindo aos homens até sua barba crescer, quando isto acontecia seu Amante (o homem mais velho) então fornecia-lhe uma mulher, normalmente do seu próprio harém, com a qual o antigo Amado tornava-se agora homem de fato. Notamos aqui que, apesar da pederastia persa ser distinta da grega, sobretudo, por causa da ausência de idealizações sobre o parceiro passivo da relação, ela também tem o caráter de transição social para o jovem menino que precisa passar por aquele momento para tornar-se homem, obviamente isso vale para os meninos livres, mas não para aqueles vendidos ou aprisionados como escravos. Esses meninos livres precisam passar por esta iniciação para tornarem-se homens aptos a casar. Sua experiência infantil passiva, no entanto, será apagada de sua vida e nunca mais será comentada. Sua honra como homem dependerá agora de todo o seu comportamento como homem adulto o que incluía, também, relacionar-se sexualmente com jovens garotos sendo agora ativo.