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domingo, 4 de outubro de 2015

Você É Linda!

, em Natal - RN, Brazil
Eu estava em uma mesa de um bar de rock, escuro e apertado, naquelas mesas minúsculas em que todos ficam obrigados a ficar respirando um hálito do outro que está na mesa. Uma banda cover tocava qualquer coisa que, sinceramente, a mim não importava. Não estava lá por eles.
Reencontrei uma amiga da faculdade, transformada, magérrima, quase não a reconheci. Na verdade, não a reconheci, ela que me reconheceu e veio até a mesa falar comigo. Foi quando ela estava sentada comigo, conversando sobre as novidades de sua vida, que uma outra amiga de faculdade apareceu no bar.
- Nossa, Misha, como você 'tá linda!
Eu interrompi com um sorriso:
- Não, gata, ela não 'tá linda, ela 'tá magra! Linda ela sempre foi.
- Preocupa não, Foxx, o grande problema das pessoas é que elas estão profundamente iludidas que o contrário de gordo é bonito/lindo, e não magro.
E tomou um gole de sua caipirinha.

domingo, 24 de maio de 2015

Roteiro Nº 01

, em Natal - RN, Brasil
Michelângelo, das Tartarugas Ninjas, estava sentado em uma mesa, usando um sobretudo e um grande chapéu, comendo uma bela pizza novaiorquina, quando do outro lado do restaurante um rapaz o observa. O ninja percebe-o, mas tenta fingir que não é para ele que os olhares são lançados, mas logo o rapaz do outro lado da mesa levanta-se e caminha em direção a ele.
- Você faz parte das Tartarugas Ninjas, não é?
- Não... - disfarça Michelângelo.
- Eu sei que é. Sou um grande fã de vocês. Posso sentar?
Michelângelo concorda, para evitar chamar mais atenção.
- Vocês são tão gostosas!
- O que?!
- É! Sempre tive uma coisa por tartarugas e vocês... são gostosas! Será que poderíamos beber um café qualquer dia? 
- Ei, cara, com todo respeito, mas eu não curto...
- Ah, desculpe... mil perdões... eu não sabia, mas será que algumas das suas irmãs não se interessaria por um café?
- Irmãs? Cara, não sei qual o seu problema, mas nós somos homens... não tenho peito, tá vendo?
- Er... vocês são répteis, não tem porque ter peito...
- Mas...
- E não tem o abdômen côncavo dos machos...
- Nós somos fêmeas?
- Eu entendo a confusão. Como a maioria das pessoas não sabe diferenciar o sexo das tartarugas, pressuporam que vocês eram machos porque lutavam e eram fortes. Vocês então acreditaram no que contaram a vocês, no esterótipo masculino que vocês se encaixavam. Típico de uma sociedade cis-hetero normativa.
- Eu sou fêmea?!

terça-feira, 2 de julho de 2013

Como Seria Um Sábado Perfeito




Tinha acabado de fazer a faxina em minha casa, e pensava que todo o glamour de morar sozinho se desfazia quando você tinha que lavar um vaso sanitário com uma esponja; já havia tomado um banho e curtia o cheiro de lavanda que emanava do piso. As plantas já estavam regadas, o lírio-da-paz está viçoso e crescendo saudável, a ráfia precisa de uma poda, a cebolinha cresce forte, pronta para ser colhida. Foi quando ele chegou no entanto que uma luz invadiu a sala. Eram aqueles olhos brilhantes na porta do apartamento. Entrou sem vergonha pela porta aberta, sorriu e eu sorri de volta. Era lindo ver como aquele sorriso que tornava os olhos dele ainda mais luminosos. Ele se aproximou cruzando a sala de estar e me beijou, porque era natural e certo. “Que tal um filme?” , sugeri, ele concordou e escolheu um DVD na estante, na minha coleção de filmes antigos. Cleópatra foi a escolha dele. Deitamos na cama, o laptop ligado a TV rodava o disco, deitei em um travesseiro, eu estava sem camisa, ele tirou o tênis e deitou no meu peito, agarrou-me como se eu fosse um urso de pelúcia, e meu braço o envolveu como nossas pernas se entrelaçaram. Cafunés e alguns beijos aconteceram enquanto Elizabeth Taylor flertava com Richard Burton e Rex Harrisson, mas um beijo ao fim do filme fez com que minha bermuda encontrasse a roupa dele no chão, e nossos corpos se unissem em um sexo carinhoso, sem pressa, em que minhas mãos puxavam aquela pele macia de encontro a minha, até explodirmos em gozo juntos, olhando um no olho do outro. Ele cansado, deitou-se novamente em meu peito, supirou fundo e sussurrou: eu te amo, eu respondi, eu te amo também.








terça-feira, 21 de maio de 2013

Intencional

, em Natal - RN, Brasil



- Amigo, com licença, você está me ofendendo dizendo isso.
- Como, Foxx?
- É, me sinto ofendido com o que você disse.
- Você está ofendido com isso? Só com isso?
- Estou.
- Ah, não era minha intenção te ofender.
- ...
- ...
- Não era sua intenção, queridinho, mas você me ofendeu.
- Ah, mas não era o que eu queria dizer, não era para você ficar ofendido. Não era meu objetivo.
- Meu querido, temos dois problemas aqui: primeiro, se seu objetivo fosse me ofender, o que eu tenho certeza que não era, então não haveria o menor sentido eu te avisar que você está me ofendendo. Se seu objetivo fosse esse, ele teria sido alcançado. E nós brigaríamos.
- Brigar não...
- Ah, claro que não...
- Você é muito sensível, Foxx.
- Ah, nem vem! Não é sensibilidade, é gentileza e boa educação que minha mãe me deu. Você me ofendeu. Fato! Não adianta mudar isso. 
- Mas não foi intencional...
- Ai, Deus! É claro que não foi intencional, como eu já deixei claro, se fosse estaríamos brigando. Porém, e este é o segundo problema: você ainda não pediu desculpas.
- ...
- Você disse que não tinha sido intencional, mas isso não é um pedido de desculpas. Isso não é a gentileza de se retratar. É óbvio, meu caro amigo, que se você tivesse tido...
- Mas eu...
- Por favor, me permita falar sem interrupções. Você não pediu desculpas, e quando cometemos um erro nós devemos antes de mais nada assumir que erramos, e é isso que quer dizer pedir desculpas, assumir que você cometeu um erro.
- Mas eu não errei porque eu nunca quis te ofender...
- Meu querido, eu já disse e vou repetir mais uma vez: se você pretendesse me ofender você não teria motivos para pedir desculpas, porque o seu objetivo, seu plano, sua ideia inicial foi me ofender e você teria a alcançado. E eu me ofendi porque o que você falou foi ofensivo a mim, não a você, a ofensa ela se dá na instância do receptor, porque você pode o quanto quiser me chamar de bichinha, por exemplo, e isso nunca me ofenderia, mas se gritar com algum cara lá na rua, ele, provavelmente, vai se ofender com a mesma palavra, porque para ele isso é ofensivo.
- Mas não foi minha intenção...
- E nem é sua intenção se desculpar porque você não enxerga que cometeu um erro, então eu que peço desculpas... eu que me desculpo por trazer a tona toda esta sua falta de educação. Ah, isto foi com intenção sim de te ofender.

terça-feira, 20 de março de 2012

Experiência Cultural

, em Natal - RN, Brasil
Este texto é uma homenagem ao Bruno, que veio me visitar aqui em Natal e sofreu bastante com a diferença cultural. Eu acabei me tornando o tradutor dele na maioria das conversas. 


Dois amigos gays estão na parada de ônibus quando o celular de um toca:
- Digaê, galado! Falam do outro lado da linha.
- Fala, galado.
O outro amigo fica atendo a conversa.
- Esse omi é muito arrombado mermo! Dizem novamente do outro lado da linha.
- Eita píula! O que foi que eu fiz, caba?
- Ah, a boyzinha que esse omi pegou na resenha de ontem. Esse galado é um afulibado mermo.
- Num é p'ra fazer pabulagem não, mas a doidinha era gostosa divera...
- Pois enquanto 'cê pegou só essa boyzinha, eu peguei umas três rapariga num brega lá na baixa da égua...
- Divera, boy?
- Divera, omi! Mas a gente sabe que esse omi é um cagado mermo! Enquanto a gente fica na bronha, esse omi sempre descola uma doidinha cabaço p'ra bulir...
- N'é assim também não, caba. Até porque boyzinha cabaço só rola canjerê no final. Melhor só cherar o cangote de uma doidinha no forró, ficar no sarro, do que bulir e ter aquela caninga no teu pé. Mas, mudando de assunto, eu bem que vi 'ocê se chamegando p'ra uma lá.
- Iapois, eu já tava com o grau, n'é? Já tava dando até entojo. Fiz aquele bafulê de bebida da bixiga. Ai eu imboquei num chafurdo que eu não sei como, só sei que começou porque eu tava agarrado com uma doidinha lá. Pior que a doidinha tinha namorada, boy. A sapatão ficou enfesada! Queria sair já nos catiripapos!
- E como tu saiu dessa, boy?
- Ixe, omi! Eu não ia sair batendo em mulher n'é? Ai tentei sair na maciota,  sabe? Mas pior que não deu! A sapatão me pegou e me lasquei todinho. Ai eu fui me defender, mas quem disse que eu consegui. Fiquei lesadinho! Só sei que sai de lá todo reado.
O rapaz que conversava no telefone na parada gargalhou alto naquele momento, mas também notou que o outro olhava estranho para ele. Parecia curioso com o rumo da conversa da qual ele consegui ouvir muito pouco, mas ainda conseguia.
- E o pior é que quando cheguei em casa levei um esbregue da minha mãe. E riu alto do outro lado do telefone. 
- Votz, e por quê!?
- Ah, porque além de chegar da resenha todo torado por uma sapatão, melado, eu ainda trisquei no carro do meu pai na hora de estacionar o carro na garagem.
- De subejo, lascô!
- Pois é, 'tô c'a bixiga!
Nesse momento o outro amigo começou a rir.
- Omi, tenho que desligar aqui.
- 'Tá certo, galego! Depois a gente se fala então. 
O que estava no telefone desligou o celular e virou-se para o amigo perguntando-lhe:
- Que houve?
- Ah, mesmo? - e fez uma pausa dramática - Mulhé, melhore! Pelo... Amor... diDeus! A sinhora ai dando o L pr'o KF p'ra dizer que é HT? 
- Ah, vá se rear!

TRADUÇÃO

Dois amigos gays estão na ponto de ônibus quando o celular de um toca:
Fala, cara! Falam do outro lado da linha.
- Fala, cara.
O outro amigo fica atendo a conversa.
- Esse cara é muito sortudo mesmo! Dizem novamente do outro lado da linha.
- Eita porra! O que foi que eu fiz, cara?
- Ah, a menina que esse cara pegou na festa de ontem. Esse cara é bom mesmo.
- Num é p'ra me gabar não, mas a menina era gostosa de verdade...
- Pois enquanto 'cê pegou só essa menina, eu peguei umas três prostitutas num bordelem um lugar muito longe...
De verdade, cara?
De verdade, cara! Mas a gente sabe que esse cara é um sortudo mesmo! Enquanto a gente fica na masturbação, esse cara sempre encontra uma menina virgem para desvirginar...
- N'é assim também não, cara. Até porque menina virgem só rola confusão no final. Melhor só cheirar o pescoço de uma menina no forró, ficar se agarrando, do que tirar sua virgindade e ter aquela perturbação no teu pé. Mas, mudando de assunto, eu bem que vi 'ocê dando em cima de uma lá.
Pois, eu já tava bêbado, n'é? Já tava dando até vontade de vomitar. Fiz aquela misturada de bebida da porra. Ai eu entre numa briga que eu não sei como, só sei que começou porque eu tava agarrado com uma menina lá. Pior que a menina tinha namorada, cara. A sapatão ficou com muita raiva! Queria sair já caindo de porrada!
- E como tu saiu dessa, cara?
Ah, cara! Eu não ia sair batendo em mulher n'é? Ai tentei sair como se nada estivesse acontecendo sabe? Mas pior que não deu! A sapatão me pegou e sai todo machucado. Ai eu fui me defender, mas quem disse que eu consegui. Fiquei abobalhado! Só sei que sai de lá todo machucado.
O rapaz que conversava no telefone na parada gargalhou alto naquele momento, mas também notou que o outro olhava estranho para ele. Parecia curioso com o rumo da conversa da qual ele consegui ouvir muito pouco, mas ainda conseguia.
- E o pior é que quando cheguei em casa levei um esporro da minha mãe. E riu alto do outro lado do telefone.
- Eita, e por quê!?
- Ah, porque além de chegar da resenha todo torado por uma sapatão, melado, eu ainda trisquei no carro do meu pai na hora de estacionar o carro na garagem.
- Por fim, se fudeu!
- Pois é, 'tô com ódio!
Nesse momento o outro amigo começou a rir.
Cara, tenho que desligar aqui.
'Tá certo, loiro! Depois a gente se fala então.
O que estava no telefone desligou o celular e virou-se para o amigo perguntando-lhe:
- Que houve?
- Ah, mesmo? - e fez uma pausa dramática - Mulher, melhore! Pelo... Amor... de Deus! Você ai mentindo pr'o cafuçu p'ra dizer que é hétero?
- Ah, vá se fuder!

terça-feira, 29 de novembro de 2011

O Assassino Dele

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
O vizinho dele encontrou a porta aberta do apartamento e estranhou. Totalmente aberta. Do corredor, era possível ver sangue pelo apartamento, que chegava até a esquadria e seguia pelo corredor a fora. Só neste  momento o vizinho também reparou na porta, suja de sangue, aquele sangue escuro, coagulado, como se uma mão ensanguentada a tivesse aberto. O vizinho não resistiu a curiosidade e avançou porta a dentro, mas quando ele contou essa estória depois afirmou que entrou porque o vizinho podia estar precisando de ajuda. Ele tentou chamá-lo, mas percebeu ali que apesar dele morar no prédio há anos, não sabia o nome do vizinho de porta. Com poucos passos, olhou em volta, e viu o apartamento revirado, ele pensou por um instante que pudesse ter sido alguma espécie de luta, mas um segundo olhar o fizera perceber que só podia ser um assalto. Ele sacou seu celular então, e ligou para 190, pretendia relatar tudo, e tinha assistido bastante CSI para saber, àquele ponto, que não podia tocar em nada. Mas seus olhos, estes, vasculhavam tudo. Havia muito sangue pelo chão, a tv não estava mais no seu lugar. As gavetas estavam fora do armário, os livros da estante haviam sido derrubados. O telefone da polícia atendeu. "Meu vizinho foi assaltado, a casa dele 'tá revirada...", foi quando ele chegou ao fim do cômodo, e pelo corredor, ao fundo, viu o corpo do vizinho, caído na cama, e ele não pode conter a exclamação, apesar de não ser nada religioso, "Meu Deus! O cara 'tá morto!". 
A careca do vizinho reluzia, apesar da pele macenta de quem morrera já há horas. Sua barba bem cuidada continuava intocada e sua boca entreaberta em um último suspiro, sua bochecha estava espremida no travesseiro de fronha branca. A faca com a qual ele fora apunhalado ainda estava ao lado do corpo, já seu peito era uma profusão de pele, sangue coagulado, pêlos arrancados e pedaços de carne que o vizinho só conseguia imaginar que eram do coração dele, mas provavelmente não eram. Havia uma garrafa de vinho derramada no tapete, uma mancha que nunca sairia, e duas taças, uma quebrada no chão, outra sobre o criado-mudo. "Ele tinha alguma companhia aqui", concluiu o vizinho para a telefonista da polícia que perguntava-lhe o endereço, foi quando pisou em algo e levantou o sapato de couro que sempre usava para trabalhar e encontrou uma carteira aberta, jogada, ele se abaixou num ímpeto de pega-la, mas deteve-se no último segundo lembrando que suas digitais seriam encontradas na cena do crime, mas ele pode ver que não havia nenhum dinheiro por ali. Quando ele se ergueu, seus olhos encontraram-se com o do morto. O vizinho teve um arrepio instantâneo quando se deparou com aqueles olhos sem alma. 
Mas os olhos mortos dele lembraram ao vizinho que eles tinham subido o elevador ontem juntos. O vizinho e o agora morto que estava acompanhado de um jovem muito forte e alto. A namorada do vizinho até comentou que aquele cara só poderia ser garoto de programa para "andar com aquela bicha velha". E era mesmo. O vizinho tentou lembrar do rosto do garoto de programa, mas não conseguiu, no entanto conseguiu imaginar que o jovem deve ter tentado assaltar aquela bicha e esta tentou se defender, mas o outro maior e mais forte, a dominou e a matou. O vizinho então retornou, com sua curiosidade satisfeita, até a porta e pegou o corredor, esperou lá pela polícia e quando o primeiro policial chegou e perguntou-lhe o que aconteceu, o vizinho respondeu: "Ah, essa bicha velha aí que vivia trazendo garotos de programa p'ra casa. Teve o que bem mereceu por se envolver com esse tipo de gente, mas veja, senhor policial, o risco que a gente sofre convivendo com esse tipo de pessoa... não é que eu tenha preconceito não, sabe?, mas tem que ser eles na deles e a gente na nossa". E o policial concordou. E o assassino dele nunca foi encontrado. 


(imagino que vou morrer exatamente assim)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O "Namorido" do Professor

, em Av. Afonso Pena, 603 - Centro, Belo Horizonte - MG, 30130-002, Brasil
- Professor?
Interrompeu um aluno enquanto o professor explicava alguma coisa sobre logaritimos. Paciente, o professor voltou-se ao fundo da sala, onde o jovem estava sentado, e ouvindo risinhos, falou:
- Alguma dúvida, Marcelo?
- Sim, professor, - ele falava com um sorriso malicioso dependurado na sua boca de lábios quase inexistentes - eu tenho uma dúvida sim.
- Então pergunte, ora...
O professor notara naquele instante que risinhos contidos pipocavam por toda sala, como se todos soubessem e compactuassem com a fala que Marcelo já mastigava entre os dentes, preparando-se para cuspir. 
- Pois bem, professor, é verdade... - ele deu uma risadinha neste instante - ... é verdade que o senhor almoça todas as quintas com o seu namorado?
Enquanto gargalhadas explodiam, o coração do professor acelerou rapidamente e por um instante ele sentira sua face corar. Sobretudo porque era verdade.
Toda quinta-feira, seu dia de folga nas escolas em que trabalhava, ele aproveitava para encontrar, sempre as 13h, em um shopping no centro da cidade, aquele que ele costumava referir-se como "namorido", não obstante as insistentes queixas, objeções e alegações de breguice do mesmo.
Ele lembrara-se que ontem fora quinta-feira, inclusive, e que seu "namorido", enquanto almoçavam e falavam sobre coisas bobas do seu dia a dia, em um momento, segurou-lhe as mãos por um momento e as beijou, dizendo que vê-lo no meio do expediente fazia com o resto do dia fosse muito mais fácil.
- Então, professor - escarniou agora um menina de cabelos negros e olhos curiosos - é verdade ou não?
- Sim, Bianca - recuperou-se o professor, já caminhando em direção a seu primeiro inquiridor - é verdade sim. E olha a coincidência... - e fez uma pausa dramática, posta ali, engenhosamente calculada, para que ele pudesse avaliar o resultado de sua afirmação, a classe estava em silêncio sepulcral - ...ele também se chama Marcelo.
E voltou para a frente da turma, com um sorriso no canto da boca.


FELIZ DIA DOS PROFESSORES (ATRASADO)



PS: Ali do lado, a esquerda, na sessão OUTROS MUNDOS está o link do meu Tumblr. É um espaço para exercitar minhas habilidades como fotógrafo e desenhista. Eu pensei em explorar isso aqui no blog, mas isso roubaria espaço para os textos e os comentários. Então, passem por lá também, será um prazer.  

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Diferentes

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Para  Beto.


Eles estavam sentados num sábado, a tarde. Quer dizer, na verdade, o mais novo, de pele morena estava deitado no sofá, com a cabeça no colo do outro, este sim estava sentado. Este outro era mais velho, branco, dez anos de diferença os separavam. Qualquer um que os observasse, repararia apenas nas diferenças. Os anos de idade eram óbvios, o contraste das peles também, até mesmo a pele lisa do mais novo, em oposição aos pêlos do mais velho, pêlos e barba. O mais novo também era mais magro, com aquelas barrigas que são naturalmente definidas, enquanto o mais velho sustentava, desde muitos anos, uma pequena barriga. Ele, o mais velho, estava sentado, zapeando os canais da tv, até que parou em um canal que exibia Grease, Olívia Newton-John e John Travolta cantavam Summer Nights. Foi nesse momento, que ele deixou o controle da televisão de lado, e sua mão pousou na cabeça do namorado ali deitado, ensaiando alguns cafuné. O mais novo fechou os olhos naquele momento. E quando abriu, lançou os olhos castanhos dentro dos olhos do namorado mais velho que ele. O mais velho disse-lhe então um eu te amo calmo, sem pressa, cotidiano, o mais novo sorriu em retribuição e sussurrou um eu te amo também. E naquele momento todas as diferenças que um observador veria desapareceram.



PS: Estarei no Rio de Janeiro a partir do dia 20 de agosto agora, fico por quatro dias. Quem quer me encontrar?

sábado, 23 de julho de 2011

Único

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Dedicado ao Tato


Ele terminara de gargalhar alto, de uma piada de gosto extremamente duvidoso, sentado no banco do motorista daquele carro e, meio sem ar, arrematou:
- Não sei como você me ama nesses momentos...
Um silêncio se instalou naquele instante. Aquele silêncio que sucede uma gargalhada. Em que as pessoas estão recuperando o ar. Foi quando o outro, sentado no banco do passageiro, que não tinha nem esboçado um sorriso por causa da piada, após olhar rapidamente para o namorado, voltou seu olhar fixamente para a estrada, e falou:
- Eu te amo porque você é único. "Porque no meio de tanta gente eu encontrei você", porque no meio de seis bilhões e meio de pessoas no mundo, você é a única que conseguiu me amar... e não... não pense que eu só te amo em retribuição ao amor que você me tem (o que, convenhamos!, já não seria pouca coisa), mas eu te amo porque você é único - nesta palavra notava-se a intensidade de sua voz -, não entende? Único, - falou de voz embargada - especial!  Tão especial que conseguiu ver através dos meus defeitos, ou melhor, viu meu defeitos e os amou também. Você me ama. E eu te amo porque você é essa pessoa única. A única... a única que eu poderia amar. A única capaz...
Só aí olhou novamente para o motorista, seu namorado, e o viu olhando fixamente para a estrada. Imóvel, praticamente. Viu, então, uma lágrima brotar e rolar pela pele castigada pelo aparelho de barbear, ele então esticou sua mão e pousou na do motorista que segurava, firme, a direção do carro. E eles não precisaram dizer mais nada.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Romantismo

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Acordaram tarde naquele domingo, acordaram juntos sob o mesmo cobertor, verde, na cama de solteiro. Não se importavam com a falta de espaço, até preferiam porque estava frio lá fora, mas, sobretudo, porque gostavam do contato do corpo um do outro. Das pernas que se enroscavam, do braço em torno do pescoço, do sexo de um em contato com a bunda do outro. Gostavam. Mas acordaram e um dos dois levantou e vestiu apenas uma cueca. E, apesar do frio, saiu do quarto quase desnudo, deixando o outro ainda tão sonolento que quando o de cuecas retornou com café quente, torradas, queijo, granola e duas laranjas, aquele que ficara não percebera o tempo do outro ausente. Eles então sentaram, um de cuecas, daquelas brancas, de algodão, e abertura na frente; o outro nu. Comeram na cama, alheios ao mundo lá fora, porque nem as cortinas abriram. O sol entrava então filtrado pela cortina multicor. Conversaram banalidades de domingo, o de cucas ligou o computador e colocou num site de TV por internet, e eles terminaram de comer assistindo algum seriado do Warner Channel, que servia, na verdade apenas como som ambiente para as opiniões compartilhadas por aqueles dois, namorados, nos dias em que acordavam juntos, principalmente nos fins de semana que nenhum tinha que correr para o trabalho, e era possível se deixar ficar mais naquele quarto. 
E voltaram para cama., sonolentos, após o desejum. O que estava nu voltou primeiro, foi ele quem abriu a coberta e chamou o outro para junto de si. O de cuecas abandonou sua vestimenta antes de se aninhar nos braços do namorado, estendido na cama, estreita, porém perfeita para eles dois. Recebeu um beijo perfumado com café e laranja nos cabelos quando encaixou a bunda no sexo do outro. O namorado, rapidamente, adormeceu de novo. O que estava antes de cuecas continuou assistindo o Warner Channel no computador ligado, mas o som oriundo do computador agora continuava sendo apenas  pano de fundo para o ronco baixinho do outro ao seu lado, que aos poucos lhe ninava e o levava a compartilhar o sono e até os sonhos com o namorado, dormindo ali, apertado ao seu lado, na cama de solteiro. 

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Luz e Sombra

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Ele está de pé, sozinho, quando ergueu sua taça. Escolhera um vinho cor de sangue que se debatia nas paredes de cristal da taça antiga que recebera de herança de sua mãe. Ele erguera  taça às sombras, num brinde nefasto, que o cercavam como Fúrias, suas únicas companheiras da comemoração que se arrastava. Ele se levantou, brindou com as sombras e se deixou cair na poltrona, bebendo toda a taça num único gole e logo reabastecendo com a garrafa esverdeada que deixara largada no chão. Em seguida, ele tateou a pequena mesa ao lado, pois temia ver as luzes da sala acesa, procurando os cigarros. Acendeu um entre os dentes, vendo, depois de muito tempo, a primeira luz, agora oriunda do isqueiro. A chama iluminou, muito rapidamente, a sala completamente vazia, mas não de móveis, livros ou quadros, nem de plantas ou mesmo o aquário cuja bomba era o único som a rivalizar baixinho com a música de Renato Russo que ele decidira ouvir na sua festa solitária.  Todos os objetos naquela sala haviam sido comprados por ele mesmo, os livros todos lidos na sua solidão acadêmica, as fotos só mostravam seu rosto, apesar de sorridente, solitário, as lembranças que povoavam aquela sala eram unicamente dele. Aquela chama, vaga, iluminou a vida vazia dele, vazia de companhia. Por isso ele preferira aquela noite no escuro. E, a partir de agora, decidira, acenderia o cigarro de olhos fechados. 

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Fantasias Patéticas II

Obviamente, como são fantasias, nada neste post realmente aconteceu, ok? Avisados?



Sexo Rotineiro


Caímos cansados na cama, minha mão sobre a barriga suada dele, e dessa vez sou eu quem me aconchego em seu braço. Ele olha para o teto e eu para o seu corpo e, de repente, percebo que já conheço cada centimetro daquela pele. A curva que sobe para seu peitoral e a que temperatura seu mamilo ficar entrumescido, que minha língua deslizando em "S" por sua nuca lhe causa arrepios e que ele tem cócegas no cotovelo. Percebo que sei que ele corta o cabelo somente uma vez por mês, e que mesmo assim está sempre lindo, que ele detesta o cheiro de Sundown, e que ele já leu todos os livros de Virgínia Woolf. Naquele instante, me dou conta que sei que ele gosta de filmes pornôs, principalmente daqueles que mostram grandes gozadas, e que ele não acredita em absolutamente nada de astrologia, mas sempre ri quando eu digo que os aquarianos são assim mesmo, indiferentes ao mundo místico, mas que combinam perfeitamente com leão. Sei que me irrito quando ele diz que eu o sufoco demais, que sou muito dramático, e quando resolve me levar para acampar no meio do nada só para estar em contato com a natureza. Que também me irrito quando ele age por teimosia, às vezes acho que só mesmo para me irritar. Percebo que tem milhares de roupas dele na minha casa, e minhas na dele, que tem livros meus que vou precisar amanhã por lá e que faz tempo que tenho duas escovas de dente. Ele também. Percebo que ele me dá sempre uma nova edição do Pequeno Príncipe, e é por causa dele que minha coleção está aumentando, e também que já viajamos tanto pelo Brasil que está dificil decidir que cidade conhecer no próximo feriado em outubro. Noto que todos os meus amigos e os dele são nossos amigos hoje. Lembro que ele não gosta que eu fume, mas fuma também de vez em quando. "De vez em quando pode", repete ele. Sei que episódio de Chaves o faz rir e que se deixa-lo ele vai assistir somente Friends, todos os dias. Percebo que eu o conheço, bem, mas não completamente, e sei que agora quando ele me sorri com essa cara safada é porque ele quer repetir o sexo de novo e que agora quer ser ativo.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Fantasias Patéticas I

Obviamente, como são fantasias, nada neste post realmente aconteceu, ok? Avisados?


Encontros Casuais

Estávamos juntos na casa de um amigo em comum, um jantar de aniversário, eu sentado do lado dele, mãos entrelaçadas, olhares íntimos, beijos rápidos. Quando ela sentou em nossa frente, de cabelos longos e olhos brilhantes e curiosos, falou, sem pensar muito:
- Vocês dois parecem tão apaixonados!
Nós sorrimos, apresentações foram feitas e ela, curiosa como era, perguntou:
- Como vocês se conheceram?
E eu deixei, com um sorriso, enquanto acendia um cigarro, que ele mesmo contasse.
- Ah, foi bem casual mesmo. Eu estava no lugar certo, na hora certa - e sorriu para mim - eu fui a Americanas, sabe? Com um amigo e ele estava lá, comprando coisas para ir ao cinema, não é? - perguntou ele para mim, o que ascenti com a cabeça - Ele ia ao cinema sozinho. Eu o olhei, ele até notou que eu estava olhando, e eu fiquei louco de vontade de falar com ele, não sei o que aconteceu, não é que tenha sido amor a primeira vista, mas eu senti uma vontade imensurável de conhecê-lo melhor. Coincidentemente, eu fui para a fila do caixa e ele apareceu atrás de mim, e eu não podia perder a oportunidade e puxei assunto, uma idiotice qualquer sobre a capa de uma revista, e ele foi bem monossilábico.
- Ora, eu sou tímido! Interrompo.
- Agora eu sei disso, na hora, eu pensei que estava era te incomodando. Achei que seu namorado poderia estar p'ra chegar e você tinha medo dele te ver conversando com um estranho qualquer.
Ruborizo com as declarações, mas me concentro no cigarro para ninguém perceber.
- Pois bem, eu, apesar de tudo parecer contrário, insisti. Ele contou que ia ao cinema, e eu me ofereci para ir junto. Pior que eu tinha marcado com uns amigos, só quando eu entrei no cinema que mandei uma mensagem para eles dizendo que tinha conhecido alguém maravilhoso totalmente ao acaso e que eles me desculpassem.
- Ah, isso causou revolta em alguns, eu soube depois. Comento, após baforar o cigarro.
- Pois então vimos o filme e eu tentei segurar a mão dele no cinema, com o coração saltando, e ele deixou. - ele então me sorri apaixonado - Depois fomos tomar um chopp num bar perto da casa dele que ele sabia que estava aberto, e aí começamos a nos conhecer, fomos ficando e, algum tempo depois, namorando. Faz um ano desde então.

sábado, 24 de julho de 2010

ESPECIALMENTE: Banho

Por Sebek



Estava no banho. Em meio as espumas lembranças da noite de ontem... o desejo, o tesão, a paixão a primeira vista. Não, mas eu não posso e ele está tão longe de mim... Água, shampoo, cabelos ensaboados, enxaguados...desliga o chuveiro. Toalha tocando o corpo másculo e normal, nada definido, apenas um homem comum, com poucos atrativos, poucos sonhos e poucas esperanças, muitos medos e decepções... que perda de tempo pensar nele, vou parar de pensar nisso... Telefone toca! Alô! Era ele. Como você está? - Não dormi! Deve ter passado a noite com outro! Tá ae? Cade você? Sim, porque não dormiu? Passei a noite em claro! Em claro? Sim, em claro! Virando de um lado pro outro! Mas você é um pegador, um tarado, um demônio! Nem anjo, nem demônio, apenas mais um apaixonado insone, excitado, querendo estar do seu lado!

segunda-feira, 2 de março de 2009

PASSADO: Outra Vida

O ano é 1963. Estou aqui nesta cela há quatro anos já. E hoje é meu último dia. Naquele dia receberia a injeção que paralisaria meus pulmões enquanto eu dormia. As grades que foram minhas únicas companheiras nestes anos não me dirão adeus quando eu partir hoje. Partir de vez. O pior é que realmente eu desejo esta morte, porque eu sei que sou culpado. Todas as noites, desde que fui trazido para cá eu tenho o mesmo sonho. O sangue dele ainda escorre pelas minhas roupas todo dia quando acordo. E se aqui houvesse um espelho, eu tenho certeza que ainda veria meus olhos dilatados pelo ácido que me permitiu fazer tudo aquilo. O pior, o pior de tudo, é porque eu realmente o amava.
Não consigo lembrar o dia que o conheci, não mais, mas o dia que o perdi. Este dia sim. Ficou registrado e passa todos os dias diante dos meus olhos. Lembro do festival, e ainda consigo sentir a grama entre meus dedos dos pés, quando estávamos lado a lado no Buena Vista Park, ele ria feliz, por minha causa, por causa das drogas que dividíamos juntos, e do sexo que descobrimos juntos. Ensinamo-nos que dois homens podiam se amar sim. Mas aquele ácido, o maldito ácido, tomou conta de mim, e transformou o amor que eu sentia numa ira desenfreada de ciúme. Para mim todos o queriam. Para mim ele queria todos. E porque não? Estamos nos tempos do amor livre. Eu sabia disso. Todos sabiam. Porque deveríamos exigir fidelidade. Isso é coisa do passado. Coisas dos nossos pais. Mas o ácido.
Foi no apartamento dele que tudo aconteceu, naquele prédio antigo de paredes de tijolos aparentes. Cheguei e ouvi barulhos. Ele tinha amigos na casa. Cigarro e bebidas por todos os lados. Pó e ácido lambidos e cheirados nos corpos das pessoas que espalhavam-se pelo chão. Alguém tocava Janis Joplin ao violão quando eu entrei, To Love Somebody, acredito eu. Ele estava lá no centro distribuindo o amor que os deuses deram a ele. Era o próprio Kama em sua nova encarnação. Homens e mulheres o tinham. Mas eu o queria para mim. Somente para mim. Ele não queria ser somente meu. Ele não era de ninguém. Liberdade, liberdade, ele gritava em nome de todos os deuses hindus. Ele me ofereceu o pó em sua própria mão. Depois álcool de sua própria boca. E quando tudo aquilo tomou conta do meu corpo e aquele corpo dele era possuído por inúmeros outros corpos, eu me descontrolei.
Aquele machado estava ali. Não sei como ele surgiu em minhas mãos. E num momento depois era o sangue dele que se espalhava pelo chão, pela minhas pernas e meus cabelos. Ele estava morto. E eu chorava ensandecido. Ele parecia Chinnamasta, mas não me concederia acesso a consciência universal. Fui preso ali mesmo, ajoelhado no sangue dele. Não tentei fugir. A corte aleguei culpa e pedi para ser castigado. Pedi pena máxima e eles não se envergonharam em me oferecer a pena de morte. Eu sentei naquela cela e esperei, desde então, por este dia. O dia que eu pagaria por ter matado aquele que eu amava. Os guardas chegaram na hora esperada. Levantei-me sem protestos e um deles elogiou-me o comportamento. Mas porque eu me apegaria aquela vida? Era hora de partir!




Em 2005, eu fiz uma sessão de regressão. Isso foi o que descobri sobre o meu passado.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

EXTRA, EXTRA, EXTRA: O príncipe Arthur e a Raposa 2





PARTE 1, aqui.

Longe da raposa, o príncipe tentou viver sua vida. Um dia, inclusive, num baile no castelo, na corte, conheceu um belo vilão. Apesar dele não ter esquecido o Foxx que fugira, ele estava decidido a tentar e aceitou a corte que o vilão lhe propunha, porém a tentativa fora inútil, o príncipe Arthur estava encantado por ele. Foxx, a raposa.
Sendo assim, por meses, pela floresta branca, o jovem procurou seu objeto de devoção tomado de paixão. De estima. De admiração. O carinho e a generosidade daquela raposa que, não obstante seu medo de humanos, o ajudou, haviam feito com que ele desejasse, sinceramente, sua companhia.
Incansável em sua busca, Arthur vasculhou cada centímetro da floresta e, um dia, ao lado de uma fonte a reencontrou. "Sabias que te procuro por entre espinhos há tempos?", e sorriu. A raposa, no entanto, rosnou: "Que fazes a perseguir-me?". Surpreendido pela reação violenta da raposa Foxx, o príncipe olhou tristemente para o chão. Esta, comovida, falou: "Desculpe-me se sou rude. É que temo por minha vida. Um príncipe de terras mais distantes desta floresta, de cabelos negros como a noite e olhos de carvão, me feriu um dia gravemente". O príncipe Arthur então fixou aqueles enormes olhos de esmeralda, cercados por cílios de seda, em Foxx e disse-lhe: "Eu sou diferente dele", e abriu os braços, ajoelhando-se no chão, pedindo um abraço que, tímido, a raposa deu, "Por favor, Foxx, acredite". A raposa sentiu, então, o calor daquele abraço e a verdade de suas palavras, aconchegou-se então e relaxou.
Todavia, no segundo posteiror, de um salto ela se afastou. "É impossível!", dizia Foxx, "sou uma raposa, tu és um príncipe". O príncipe sorriu e falou que sabia que as raposas podiam se tornar humanas na lua cheia. Foxx tremeu e, baixinho, repetiu vários e vários "não". Preocupado, Arthur abraçou o Foxx e perguntou-lhe o que se passava, sem deixar de acariciar-lhe embaixo das orelhas, a raposa então respirou fundo e deitou aconchegada em seu colo quando uma lágrima rolou pelo seu pêlo macio. "Minha forma humana é terrível, meu príncipe, se tu a ver, com certeza deixará de me amar". Arthur levantou-se indignado. "Por que monstro me tomas?", gritava ele. A raposa apenas se encolheu, temerosa.
Foi quando Arthur percebeu. "É isto que temes, não é minha raposa? Que quando eu conhecer tua verdadeira forma, faça como todos e te abandone?". Entre lágrimas, Foxx confirmou com um aceno, o príncipe, então, novamente ajoelhou-se diante da raposa e a abraçou. "Eu sou diferente! Eu sou!".
A raposa sorriu e acreditou, aconchegada no colo do príncipe, os dois esperaram, juntos, a lua cheia. E foi numa noite clara e quente que esta chegou. Arthur estava ansioso, e quando um clarão ofuscou-lhe a visão, ele sorriu com suas pedras de marfim, porém, quando a luz se desfez e seus olhos se depararam com uma forma fantasmagórica e bruxuleante, o sorriso deu lugar a repulsa. Foxx, a raposa, agora um homem, tentou tocá-lo, abraçá-lo, porém o toque que antes ele tanto ansiava, agora feria-lhe as carnes. Vertigens subiram-lhe a cabeça. E no momento que a raposa tantou beijar-lhe, ele fugiu, balbuciando um desculpe. "Eu realmente achei que não ia me sentir assim". E correu. O mais rápido e o mais distante que conseguira. De volta a proteção do seu castelo. Deixando a raposa Foxx lá, na floresta branca, presa naquela forma repugnante, incapaz de retornar. A raposa, então, coube apenas chorar. "Eu sei que você não pretendia, meu príncipe, mas você foi só mais um. Igual a todos os uns".




MORAL DA ESTÓRIA: Não existem finais felizes para contos de fadas com raposas.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

PASSADO: O Príncipe Arthur e a Raposa





Era uma vez, na floresta branca, uma raposa chamada Foxx caminhava distraída, pensando nas dores que a afligiam, foi quando ao longe ela ouviu gemidos e se aproximou curiosa, como são todas as raposas, e, de longe, escondida em meio a espinhos, a raposa viu um belo príncipe de olhos cor de pedra e cabelos cor de mel. Ele estava caído e ferido, tinha as roupas rasgadas pelos espinhos daquela floresta e seus pés inchados mostravam marcas de moridas de serpente e que ele estava há muitos dias perdido, procurando uma saída de seu tormento, mas não encontrava.
A raposa se apiedou do príncipe e quis ajudar-lhe. Avançou, saindo de seu esconderijo, mas quando ficou as vistas dele, lembrou-se que último príncipe que encontrara nesta situação, após ver-se curado pelo zelo constante do animal, tentara transformar-lhe em mais um dos seus trófeus de caça, lembrando disso a raposa parou. Mas o príncipe já tinha-lhe visto e com uma voz doce, implorou: "Ajuda-me". A raposa farejou o ar, e não notou perigo, mas na vez anterior também não havia pressentido nada, até ver-se atada numa coleria e com uma faca preparada para curtir-lhe a pele. "Não", respondeu Foxx, "tentarás matar-me". O príncipe com nome de rei, Arthur, jurou que não, mas a raposa virou-lhe as costas e sumiu.
Porém a raposa sentiu-se mal em abandoná-lo e, por isso, a noite, retornou. Certificando-se que ele dormia, deixou-lhe água e comida, e cuidou-lhes dos ferimentos, com cuidado para que ele não acordasse, e tão pouco o deixou lá sozinho, todas as noites, escondida, ela ficava a velar-lhe o sono, protegendo-o de feras e bestas que tentassem maltrata-lo enquanto jazia lá, desprotegido. Durante várias noites isso se repetiu. E todos os dias o príncipe acordava e via seus ferimentos com ungüento e a comida e a água diante dele, e ele se perguntara se havia sido a raposa quem trazia-lhe estas coisas, pois não vira mais ninguém por lá, mas ao mesmo tempo ele duvidava, como podia ser ela, se ela o havia dado as costas?
E na floresta, como a raposa sabia, mas o príncipe não, haviam outras feras. Uma serpente de olhos claros rondava o local, a mesma serpente que havia mordido os pés do príncipe o impossibilitando de andar. Numa bela tarde, ela, sibilando, o encontrou já mais forte e quase recuperado, e o saldou. "Oissss, belosss prinsssscepessss". O príncipe Arthur se alegrou em finalmente ouvir uma voz e ao deparar-se com aquele olhos da cor do céu o encarando, ele, inocente, perguntou se fora ela quem cuidara dele. Inteligente, notando a chance de dar o seu verdadeiro bote, a serpente respondeu: "Sssssim. E tambem fui eusss quem mordi-te. Pessssço perdão! Masss assssusssstasssse-me quando pissssasssse em meu ninho. Fiquei preocupada contigo e resssssolvi procurar-te". Ele agradeceu. E, a partir daquele dia, sempre a tarde, a serpente passou a encontrar-se com Arthur, deixando-o sempre que o sol se punha dizendo que ía porcurar os remédios para o ferimento e a comida e água para o príncipe.
No entanto, um dia, quando a serpente já achava que Arthur estava forte e saudável, o suficente para tornar-se seu manjar mais caro, ela se enrolou sobre ele. Arthur achando que era um abraço, uma demonstração de afeição que ele também já sentia pela serpente, permitiu que ela se enroscasse sobre ele. Ela logo começou a comprimir-lhe. "Serpente", dizia o príncipe, "teus carinhos me ferem". E serpente sorriu: "Massss todo amorrrr não feressss?". Ela apertava-lhe mais, e o ar já escapava dos pulmões do jovem de olhos cor de ardósia quando a raposa já estava para chegar, quando esta chegou e viu o príncipe enroscado no abraço mortal daquela serpente, ela saltou do esconderijo em que sempre esperava o príncipe adormecer e com mandíbulas poderosas agarrou a serpente e jogou-lhe longe: "Afasta-te animal infernal! Aqui não terás pasto!". Logo o príncipe entendeu que fora enganado e agradeceu sua verdadeira benfeitora, oferecendo afagos que a raposa não sentia desde o outro príncipe que tornara-se em seu captor.
Contudo, Foxx aprendeu a desconfiar. Apesar daquele dia em diante desejar, intensamente, a presença e os carinhos do príncipe, mantinha sempre entre os dois uma distância que ela considerava segura. O príncipe entendia o medo da raposa e não tentou forçar-lhe nada, esperou que ela aprendesse que ele era confiável. Mas um dia, o príncipe ficou curado, e feliz, convidou a raposa a ir a seu reino e conhecer seu castelo, mas a raposa ficou com medo, apavorada, porque o príncipe anterior a tentara mutilar também em seu castelo, ela fugiu e ainda para mais longe. O príncipe, triste, mas entendendo o Foxx retornou para sua casa, porém, nunca mais esqueceu a raposa.

domingo, 30 de março de 2008

PRESENTE: A árvore, a raposa e a flor

Texto escrito com a sábia ajuda do Râzi nas palavras finais da árvore.



Um dia, no prado, uma bela flor nasceu. Delicada e alva como uma nuvem no céu. Delicada, ela deu bom dia ao mundo e sorriu. "Bom dia", uma árvore frondosa, de muitos anos, longos e numerosos ramos, respondeu. "O que há de bom?", perguntou uma raposa deitada ali perto, lambendo as patas. "Ah, o dia! O céu azul! O sol, ah, o sol!", respondeu a flor, esticando-se e espreguiçando-se, deixando o sol a tocar. "Além disso, todo dia é um dia novo. Tudo pode acontecer", continuou a esperançosa flor. "É, basta esperar, que um dia algo de bom há", disse a árvore, com ar de severidade e experiência. "É? Então vamos esperar", disse a raposa jocosamente. E deitou-se ao pé da árvore, coçando as orelhas, às vezes, a bocejar.
O dia passou. E conforme a luz do sol esvaía-se, a flor entristeceu, viu que seus sonhos esperançosos morreram, murchou e secou. Caindo ao chão. A raposa novamente adormeceu e a árvore decidida continou a esperar, no outro dia, com os passarinhos, no entanto, outra flor nasceu. "Bom dia". "Bom dia", a árvore prontamente respondeu. "O que há de bom?", a raposa com um sorriso irônico questionou. "Ah, o dia! O céu azul! O sol, ah, o sol! Além disso, todo dia é um dia novo. Tudo pode acontecer!". "É mesmo?", perguntou de novo o astuto animal acaricianço a própria calda, mas quem respondeu foi a árvore. "É, basta esperar, que um dia algo de bom há". E a raposa, incrédula, propôs: "Então vamos esperar".
O dia passou. E conforme a luz do sol esvaía-se, a flor entristeceu, seus sonhos não borboletearam por ela e murchou e secou. Caindo ao chão. A raposa, agora pendurada num galho da árvore, adormeceu e árvore vigiou durante toda noite esperando algo de bom acontecer e, no outro dia, uma nova flor nasceu. "Bom dia!". "E o que há de bom?", respondeu a raposa irritada. "Ah, o dia! O céu azul! O sol, ah, o sol! Além disso, todo dia é um dia novo. Tudo pode acontecer!". A raposa gargalhou e, saltando da árvore, vociferou: "Há unica coisa que vejo acontecer é lindas flores como você sonharem, entristecererem, murcharem e morrerem". A flor se assustou, mas mesmo assim tentou responder: "Mas se você esperar...". A raposa sacudiu a cabeça e respondeu: "Cansei de esperar, vou caçar, e você?". E virou-se perguntando para a velha árvore, enrugada e triste, presa no mesmo lugar que disse-lhe: "Eu vou esperar, um dia algo de bom há!". A raposa virou-se desdenhosa pretendendo partir, foi quando a grande árvore disse-lhe: "Ah, raposa, raposa, várias de vocês já naceram e morreram e eu continuo aqui e aqui permanecerei! Para mim, você e as flores pouca diferença têm. Só que as flores, menos vivendo uma fração de sua vida, vivem, vicejam, alegram, cumprem sua função. E aproveitam cada minuto que têm. Você, com seus longos anos, sem pensar na morte, ocupa-se de sofrer com essas bobagens que vocês chamam de problemas. Essas coisas que eu só vejo passar. Porque, raposinha, tudo passa: o mal e o bom que há!".


Moral da estória: Você é uma árvore? Uma raposa? Ou uma flor?

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Diálogo Imaginário



- Oi.
- Oi?
- Sabe quem 'tá falando?
- Não, desculpa - pausa olhando o número no celular - Não, não sei quem é.
- Sou eu. Cheguei finalmente.
Coração acelerado.
- Não acredito.
- Pois acredite sim. Eu estou aqui. Vem me ver?
- Claro. Onde? Vamos ver um filme?
- Ah, não queria ficar numa sala escura com você.
- Pois tudo o que quero é ficar no escurinho com você.
- Safado!
Risos, em ambos os lados da linha.
- Um cineminha e comer algo depois, que tal?
Segundos pensando.
- 'Tá!
Alívio.
- Que horas?
Pausa olhando as horas no celular. Calculo rápido de quanto tempo gasto no ônibus. Queria ir em casa tomar um banho, mas não agüento esperar mais por este encontro.
- Daqui a uma hora? Cinema e comida tailandesa?
- Tailandesa?! Não sabia que você gostava.
- Adoro!
- 'Tá, te encontro lá.
Uma hora de agonia. Uma hora de vontade de ver o tempo voar e ele se arrasta. E esse ônibus que não se mexe. Peguei o primeiro que passou, mas outros três que também passavam lá já nos ultrapassaram. Cheguei. Entrei no shopping. O celular toca. Cadê? Cadê?
- Oi, já cheguei. Você 'tá onde?
- Perto dos banheiros do térreo.
- 'Tô indo aí.
Não espero a escada rolante. Passos apressados. Cheguei.
- Oi.
- Oi.


Texto antigo, só para atualizar aqui, enquanto não me inspiro em nada para falar sobre meu passado.

domingo, 23 de dezembro de 2007

A Ponte

Estava mexendo nas minhas agendas antigas e encontrei este texto. Só sei que ele foi escrito antes de 2004, não preciso o dia, nem sei o porquê do clima fúnebre, mas ele merece ser perpetuado aqui.


Cheguei carregando uma garrafa de Chateaux. Claro que Charteau. Meia hora antes quando eu procurava o que beber, pensei: "por que não comprar a mais cara?". Afinal eu não queria pensar no amanhã. Não queria me preocupar com o outro dia.
Ainda não estava bêbado quando cheguei naquela ponte. Sei isso porque lembro que olhei para o fundo daquele vão e ainda senti minhas pernas fraquejarem devido a vertigem que me envolveu.
E fiquei lá, recostado sobre aquele parapeito, que deveria proteger-me da queda, com minha suave garrafa de Chateaux. Senti a suavidade do vinho levar as dúvidas e trazer as lágrimas.
Foram as lágrimas que me fizeram subir no parapeito. Talvez porque meus olhos úmidos não me deixaram ver as trevas profundas, ou por causa do álcool que corria nas minhas veias, só sei que não senti mais medo. O Chateaux acabou. A garrafa então tornou-se pesada, e meus braços se recusaram a segura-la. Ouvi-a cair.
Olhei para as estrelas. Admirei-as. Sorri um sorriso triste e larguei a coluna que eu me segurava. Senti o vento abraçando meu corpo. Um carinho frio. Pensei no passado e no presente, e quando pensei no futuro, gargalhei. A melhor gargalhada de toda minha vida.
Aí me soltei. Abracei o vento. A queda. Caí. No segundo seguinte me senti livre. No outro, me arrependi. Meu coração se encheu de esperança. Tudo pareceu tão pequeno. Nada vale isso. Para quê desistir? Para quê pular? Quando as trevas me alcançaram, eu só pensava em uma coisa: eu queria saber voar.