Google+ Estórias Do Mundo

sábado, 26 de junho de 2010

PASSADO: O Fim

Estou encerrando esta coluna aqui no blog. Desde o início do ano, e coincidência ou não, desde o início do meu namoro, não tem mais feito sentido escrever sobre o meu passado. Tem sido uma tarefa hercúlea encontrar estórias para suprir este espaço. Portanto, por vários motivos, decidi que era o momento de fechar este livro.
Primeiramete, quero deixar o passado ir, se esvair, tenho vivido nele por tempo demais, e chegou um momento que ele tem se tornado um terceiro. Uma outra pessoa além de mim que frequenta meus relacionamentos. Está na hora de deixar esta outra pessoa ir, e se ela recusar-se a se afastar que seja assassinada com a mais bela lâmina de prata. O passado é morto como Inês.
Preciso ir em frente, abandonar o sofrimento que me marcou e me construiu, abandonar para que a fecilidade possa brotar no terreno antes pisoteado por tantas e tantas pessoas. Tenho que afastá-las, porque flores não nascem embaixo de botas. Tenho que afastar essas pessoas, suas sombras, suas lembranças, que ameaçam tomar o controle. A vida é minha, não dessas sombras que intentam tomar as rédeas de minha existência.
Não preciso mais das explicações! Não preciso saber que sou carente porque meus pais não me pegavam no colo. Não preciso saber que sou heterofóbico já que fui severamente humilhado durante toda minha infância e adolescência. Não preciso saber porque meus amores me largaram, pois não preciso mais deles. Preciso me abrir para o novo e diferente, para o presente. Somente o presente.

sábado, 19 de junho de 2010

PRESENTE: Homofobia(s) III

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Rodoviária


Eu esperava meu namorado chegar a Belo Horizonte. Era cedo, nem sete horas da manhã ainda, e fazia um frio agradável, mesmo no subsolo do Terminal Rodoviário da capital mineira. Eu estava na entrada, e acendi um cigarro, tragava tranquilamente encostado em uma coluna quando um homem se aproximou. Ele havia descido de um ônibus daqueles, um ônibus qualquer vindo de não sei aonde, trazia uma pequena mochila, nada muito grande ou volumoso, e tinha cara de ser trabalhador braçal, pedreiro talvez. Foi passando por mim e em alto e bom som me repreendeu: "Mas que bichinha!". E continuou seu passo, me deixando lá, sem reação, me perguntando: "Em que momento eu assumi a minha sexualidade neste vagão?".







Boaventura

Caminhava. Saíra do meu prédio e descia a avenida em direção a Universidade Federal de Minas Gerais, quando passei por um cruzamento. Um carro esperava do outro lado da rua. Vi o motorista deter seus olhos em mim, o passageiro também. Mas não os encarei, somente continuei meu passo, estava atrasado, ia para a aula que começava as oito da manhã. Ainda pretendia tomar café da manhã na padaria próxima de casa. Foi quando o carro avançou, eu já havia atravessado o cruzamento, e ouvi atrás de mim: "Ê, bichinha!". E respirei fundo e continuei: "Afinal eu escuto isso mesmo todo dia". E respira, respira, respira.

terça-feira, 15 de junho de 2010

PRESENTE: Maria Gadú e a Heterossexualidade

Tem uma ensaísta e poeta feminista americana, nascida em Baltimore, Adrienne Rich que tem um conceito muito interessante: a heterossexualidade compulsória. E tem a nova queridinha da MPB, a Maria Gadú que disse essa pérola a revista Rolling Stone recentemente: "Ninguém chega em casa falando 'mãe, sou hétero'. Então, porque tem que chegar e dizer 'mãe, sou gay'?". Elas duas se chocaram na minha cabeça. Maria Gadú repete o texto que eu escuto entre muitos gays por aí, e que, de fato, não posso discordar, porém é um discurso vazio se não há uma explicação que somente Adrienne Rich conseguiu me dar. Por que os héteros não precisam assumir-se?
Adrienne Rich explica que a heterossexualidade é uma obrigação social, isto é, que ao nascer nenhum menino ou menina é heterossexual, mas ele é obrigado a se tornar, pois desde pequeno ele é envolto em símbolos e a uma cultura que o tendem a moldar de determinada forma. Ao menino são dados certos brinquedos (bolas e carrinhos), são cobrados certos comportamentos (menino não chora, menino é agressivo, menino é agitado), são reforçados outros tantos (menino tem que ser safado, tem que mostrar coragem, tem que ser extrovertido); a menina outros brinquedos são dados (bonecas e panelas), são cobrados outros comportamentos (emotividade, calma e silêncio) e reforçados outros (castidade, discrição, comunicação). Adrienne Rich diz que então o indivíduo não tem outra possibilidade e simplesmente repete os modelos ao qual foi acostumado, os homens são empurrados às mulheres, as mulheres devem fugir dos homens e a adolescência está configurada.
Contudo, algumas pessoas, por motivos que Adrienne não sabe explicar, não conseguem ser modeladas a seguir a este impulso não-racional, e precisam juntar forças para virar-se na direção contrária. Num processo doloroso que é como ela caracteriza o outing. Segundo ela, a necessidade de assumir-se gay vem daí. Da necessidade do indivíduo de dizer que não faz parte e nem compactua com este mundo ao qual é obrigado a fazer parte. A grande diferença é que a negação desta (hetero)normatividade compulsória, a negação deste normal ao qual os indivíduos são obrigados a aceitar/ser, antes te colocaria a margem da sociedade, em um gueto, e hoje não, graças a direitos conquistados sobre o sangue de militantes.
O heterossexual, então, na explicação de Rich é aquele que não pensou sobre sua identidade. Nunca passou pela cabeça dele: "Porra, sou hétero!". Nunca houve o questionamento, a dúvida, a provação. É uma "decisão" sem "pensamento" (por isso mesmo a idéia de opção sexual não funciona). Já o gay, é exatamente o oposto. Aquele que precisa sair de sua heteronormatividade, porque todos são criados para serem héteros, e decidir qual identidade ele deve assumir, porque ele não consegue e nunca vai conseguir simplesmente aceitar aquilo que todos os outros conseguem ser simplesmente sem pensar, automaticamente, compulsoriamente. Ser gay é assumir uma identidade gay, uma vida distinta daquela que ser heterossexual deveria ser. Ser gay é sair do armário.
Então, respondendo Maria Gadu, "Ninguém chega em casa falando 'mãe, sou hétero'. Então, porque tem que chegar e dizer 'mãe, sou gay'?". Um hétero não precisa contar a ninguém o que todos esperam dele. Um cantor cantando não precisa dizer que é um cantor. Um ator atuando, em um palco, não precisa avisar-lhes que é um ator. Mas quando cantor resolver atuar ele precisa dizer: "Ei, eu sou cantor, mas hoje, deem-me licença porque vou atuar". Essa é bem a diferença. Um gay pode e deve dizer (a quem interessar, possa): "eu sou gay" porque ele não aceitou a regra e abraçou a diferença. E, definitivamente, ser diferente é tão bom. Deixem os normais para lá, porque é bem mais interessante ser diferente.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

PASSADO: Melhores Amigos

Os livros eram meus melhores amigos. E como bons amigos, eles formaram a pessoa que eu sou. Aprendi com eles a ler, a escrever e a ser muita coisa que nunca consegui viver. Foi com eles que sobrevivi a meu ostracismo. Mas tudo isso a trancos e barrancos, pois filho de pais pobres, poucos livros tínhamos em casa, quando criança li e reli mil vezes os contos dos Irmãos Grimm, um dos poucos livros que restavam na estante da sala de casa, entre livros de receita, um exemplar de História Geral de Arnaldo Souto Maior de onde saíra meu nome e Monteiro Lobato, filho do modernismo, que me apresentou em Os Doze Trabalhos de Hércules minha grande paixão: os deuses gregos. Comecei então a frequentar bibliotecas. Li tudo que encontrei pela frente sobre mitologia, em português e em francês, mesmo sem saber francês. Eu tinha doze anos e sentava com Le Bélle Letres e um dicionário e tentava decifrar aquela outra língua, como aprendera a fazer nas aulas de inglês na escola. Também conheci os quadrinhos, outra paixão, e passei a gastar todo o dinheiro que eu tinha com revistas dos X-Men e passagens de ônibus à biblioteca. Nos quadrinhos fui apresentado a belas estórias como Deus Ama, o Homem Mata, e me senti parte de algo. Os X-Men eram mutantes, diferentes, sem culpa de ter nascido assim. Para mim, os X-Men eram, como eu, todos gays.
Os primeiros livros que dediquei-me, no entanto, foram os do Romantismo e do Realismo brasileiro. E muito devo a eles. Minha adolescência foi embalada por José de Alencar, Machado de Assis e seus comparsas. Senhora, de Alencar, me marcou profundamente e me ensinou a manter a tensão e a atenção do leitor até a última página. A Mão e A Luva de Assis me convidaram a poesia em prosa e me fez cair de amores pelos contos. O Ateneu, me ensinou que as vezes os clássicos são decepcionantes. O Cortiço que a literatura podia ser bem sensual. Mas eu não parei por aí: essa leitura ávida me lançou a univesidade e um mundo novo de leituras se abriu para mim.
Livros técnicos, de historiadores de renome, como Ciro Flamarion Cardoso e Michel Foucault me deixaram profundamente devedores deles. Mas Joseph Campbell definitivamente precisa de um lugar especial na minha história literária. Ler Mitologia Primitiva me marcou física e emocionalmente, e moldou o historiador que sou hoje, me fez entender que um mundo é muito maior do que pensamos e que como historiador é minha tarefa política mostrar isso a quem desejar ver. O Queijo e os Vermes e O Massacre de Gatos tornaram-se livros que povoavam a minha imaginação fértil, e me ensinaram que o lugar da poesia na História também existe, principalmente no título. Mas a literatura não me abandonara.
Os romances históricos me fizeram delirar nos primeiros anos de faculdade. Cláudio, Portões de Fogo, Nero, Rei Davi, Ramsés, me fizeram sonhar com tempos que eu não tinha vivido e da qual sentia saudades, escritos por historiadores, estes romances me proporcionaram conhecimento e deleite, mas, sobretudo, me ensinaram a ser sútil quando os temas são duros. Entrementes, a faculdade também me apresentou os verdeiros documentos históricos, os clássicos da literatura ocidental: A Ilíada, A Odisséia, Virgílio e Cícero, os historiadores gregos e romanos, A Vida dos Doze Cézares, a poesia de Safo, a Bíblia, tornaram-se livros de cabeceira, lidos em latim e em grego, porque nada expressa melhor um autor do que a própria língua que ele escreveu. Encantado, corri aos clássicos, para lê-los, tudo culpa de Ítalo Calvino. O Amante de Madame Bovary e Capitães da Areia mexeram com minha libido, Agatha Cristie com meus brios, Dom Quixote e Ulisses, de James Joyce, com minha paciência (até hoje estão inconclusos). Além destes, descobri Oscar Wilde ao me deparar com O Retrato de Dorian Grey, o homoerotismo oculto e a sensualidade aberta me fizeram querer conhecer o resto da obra do maior escritor inglês, na minha modesta opinião, e entre tantos, lágrimas me correram aos olhos e molharam as páginas de De Profundis, e eu descobri o que era amar alguém de verdade.
Mas os clássicos chegam a um ponto que precisam ser superados. Principalmente porque chega um ponto que eles não refletem mais seu espirito. Foi quando o Marcelo Sunshine me apresentou Hell - Paris. Fiquei encantado com aquela escrita vazia, desesperançosa e machucada, com o submundo e as drogas, e o glamour, ah, o glamour! Hell me levou a um caminho diferente de tudo que eu estava lendo e a punk literature caiu no meu gosto. Litium de Patrício Júnior, Mate-me, por favor e Fugalaça da filha de Dias Gomes, Mayra, me levaram a um vórtice que definiu a forma de escrever do meu blog, da minha dissertação de mestrado, dos meus artigos. Frases curtas. Pontos no lugar de vírgulas. Frases fortes no fim de tudo. Exclamações!
Mas nem tudo podia ser tão pesado, não é? Afinal considero a tribo dos blogs que o meu participa daqueles que exalam o glamour que só a vida gay possui. Isso não foi gratuito, é a influência de Meu Reino por um Cashemere, O Diabo Veste Prada e Confissões de uma Shopaholic. Tudo tem explicações, tudo! Mas, tardiamente, só tardiamente, eu conheci o livro que transformaria minha vida e o meu blog: O Pequeno Príncipe de Saint-Exúpery mudou minha forma de olhar para o mundo e para o amor, e eu conheci o meu pequeno príncipe.
Agora, vamos ver o que o futuro nos reserva. Tudo depende de eu conseguir ou não terminar de ler O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago. E está bem difícil.

sábado, 8 de maio de 2010

PRESENTE: Homofobia(s) II

, em Belo Horizonte - MG, Brasil
Prólogo

Belo Horizonte é uma cidade extremamente tranquila. Uma metrópole pacata onde ainda se vê um ritmo de interior. A lei municipal 8.176/2001 também ajuda nisto. A capital mineira foi a segunda cidade do Estado a contar com uma lei que coíbe a discriminação por orientação sexual, a primeira foi Juiz de Fora (lei 9791/2000), ao sudeste do Estado. A época, nove anos atrás, em todo o país, 72 municípios também já possuíam leis semelhantes que garantinham proteção aos homossexuais através de dispositivos legais, tais como: Fortaleza, lei 8211/1989; Olinda, em sua lei orgânica; Salvador, lei 5275/1997; Natal, lei 152/1997; Maceió, lei 4667/1997; Campinas, lei 9809/1998 e Alfenas lei 3277/2001, além de três Estados: Rio de Janeiro, com a lei 3406/2000 e São Paulo, com a lei estadual 10.948/2001 e Alagoas, lei 23/2001; e o Distrito Federal com a lei 2615/2000. Veja os outros aqui.
Hoje o quadro muda para não muito diferente. Somente Recife, entre as capitais, teve uma lei semelhante aprovada (16780/2002), mas cidades como Londrina (lei 8812/2002), Novo Hamburgo (lei 1549/2007), Colatina (ES) (lei 5304/2007), Blumenau (lei 7153/2007) e São João Del Rey (MG) (lei 4172/2007) também aprovaram leis que protegem seus cidadãos homossexuais. E por serem cidades "de interior" merecem duplo aplauso. Entre os Estados, Rio Grande do Sul (lei estadual 11872/2002) e
Minas Gerais (lei 14170/2002) seguem logo o exemplo, logo em seguida a Paraíba (lei 7309/2003) e Santa Catarina (lei 12574/2003), também o Pará (com a renovação de sua constituição) e o Piauí (lei 5431/2004), e os últimos o Mato Grosso do Sul (3157/2005) e o Maranhão (8444/2006).
Isto é para lembrar que existem sim leis que nos protegem, mas precisamos conhecê-las para reivindicá-las. E, principalmente, que devemos saber os momentos de utilizá-las ao nosso favor. Agressão, física ou verbal, não deve passar impune, caso qualquer um de nós passe por estes problemas devemos sempre nos dirigirmos as autoridades competentes e registrar um boletim de ocorrência, tal como eu não fiz. Deixe que eu conte a vocês três momentos, muito raros em Belo Horizonte, repito, mas que aconteceram e eu não fiz nada...



Pampulha
As tardes costumo correr na lagoa, quando a preguiça não me segura em casa, ou um projeto, um trabalho, um livro, ou a chuva, não me impedem de sair de casa. Sempre a tarde. Prefiro o fim do dia. O pôr-do-sol sobre o espelho d'água da lagoa e as curvas das construções de Niemeyer. Tudo fruto da mente insana de um prefeito que virou presidente da república, JK, insana.
Eu já voltava do meu trajeto de 17km, quando cruzo com três garotos, nenhum devia ter mais que 17 anos, nenhum devia ter já chegado ao Ensino Médio. Negros. Usavam permudas e chinelos de dedos, um ostentava um abadá de alguma micareta perdida por aí. Observei-os de longe e percebi logo o que preparava-se para acontecer. Você está acostumado já. Já sabe como eles se preparam para o primeiro golpe, e já trava o abdômen para recebê-lo. O primeiro soco é sempre doce e meloso.
Em tom de deboche, um deles me cantou. "Gostosinha, a menininha né?". Eu não sorri, mas olhei diretamente nos olhos dele. Outro me cerca. "Por essa eu me apaixonava". E ri, gostosamente, como quem descobre uma bela piada. O terceiro não fica de fora: "Ah, me dá um beijo, vai? Só umzinho!". E eu tento continuar o passo, mas eles tentam me deter. Nada que eu não pudesse escapar, nada que eu ainda não pudesse sair dali. Afasto-me alguns passos dele e outro continua a falar: "Ah, beija ele mesmo! Vai!!". Eles riem entre si, satisfeitos em humilhar outra pessoa que não poderia se defender, é quando então eu paro, olho para trás, e sibilo: "Desculpa, mas você é realmente muito feio p'ra eu te beijar, sabe?". E saí, continuando pela orla da lagoa, já indo de volta pra casa. E agora os outros dois riam do que em silêncio ficou, mas não de mim.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

EXTRA, EXTRA, EXTRA: O PRÍNCIPE E A RAPOSA: O Derradeiro Fim

Havia, ao lado do poço, a ruína de um velho muro de pedra. Quando voltei do trabalho, no dia seguinte, vi, de longe, o principezinho sentado no alto, com as pernas balançando. E eu o escutei dizer a alguém:

- Você não se lembra então? Não foi bem aqui o lugar?

Uma outra voz devia responder-lhe, porque replicou em seguida:

- Não; não estou enganado. O dia é este, mas não o lugar...

Prossegui o caminho para o muro. Continuava a não ver ninguém. No entanto o principezinho replicou novamente:

- ... Está bem. Você verá onde começa, na areia, o sinal dos meus passos. Basta esperar-me. Estarei ali esta noite.

Eu me achava a vinte metros do muro e continuava a não ver nada. Meu principezinho disse ainda, após um silêncio:

- O teu veneno é do bom? Estás certa de que não vou sofrer muito tempo?

Parei, o coração apertado, sem compreender ainda.

- Agora, vai-te embora - disse ele - ... eu quero descer!

Então baixei os olhos para o pé do muro, e dei um salto! Lá estava, erguida para o principezinho, uma dessas serpentes amarelas que nos liquidam num minuto. Enquanto procurava o revólver no bolso, dei uma rápida corrida. Mas, percebendo o barulho, a serpente se foi encolhendo lentamente, como um repuxo que morre. E, sem se apressar demais, enfiou-se entre as pedras, num leve tinir de metal. Cheguei ao muro a tempo de receber nos braços o meu caro principezinho, pálido como a neve.

- Que história é essa? Você conversa com as serpentes agora?

Desatei o nó do lenço que envolvia-lhe o pescoço. Umedeci-lhe as têmporas. Dei-lhe água. E agora, não ousava perguntar-lhe coisa alguma. Olhou-me gravemente e passou-me os bracinhos no pescoço. Sentia-lhe o coração bater de encontro ao meu, como o de um pássaro que morre, atingido pela carabina. Ele me disse:

- Estou contente de você ter descoberto o defeito do maquinismo. Vais poder voltar para casa...

- Como você soube disso?

- Eu vinha justamente anunciar-lhe que, contra toda expectativa, havia realizado o conserto!

Nada respondeu à minha pergunta, mas acrescentou:

- Eu também volto hoje para casa...

Depois, com melancolia, ele disse:

- É bem mais longe... bem mais difícil...

Eu percebia claramente que algo de extraordinário se passava. Apertava-o nos braços como se fosse uma criancinha; mas tinha a impressão de que ele ia deslizando verticalmente no abismo, sem que eu nada pudesse fazer para detê-lo. Seu olhar estava sério, perdido ao longe:

- Tenho o teu carneiro. E a caixa para o carneiro. E a mordaça...

Ele sorriu com tristeza. Esperei muito tempo. Pareceu-me que ele ia se aquecendo de novo, pouco a pouco:

- Meu querido, você teve medo...

É claro que tivera. Mas ele sorriu docemente.

- Terei mais medo ainda esta noite...

O sentimento do irreparável gelou-me de novo. E eu compreendi que não podia suportar a idéia de nunca mais escutar aquele riso. Ele era para mim como uma fonte no deserto.

- Meu bem, eu quero ainda escutar o teu riso...

Mas ele me disse:

- Fazemos aniversário esta noite. Minha estrela se achará justamente em cima do lugar onde nos encontramos meses atrás...

- Meu bem, não será um sonho mau essa história de serpente, de encontro marcado, de estrela?

Mas não respondeu à minha pergunta. E disse:

- O que é importante, a gente não vê...

- A gente não vê...

- Será como a flor. Se você ama uma flor que se acha numa estrela, é doce, de noite, olhar o céu. Todas as estrelas estão floridas.

- Todas as estrelas estão floridas. Repeti.

- Será como a água. Aquela que me deste parecia música, por causa da roldana e da corda... Lembra como era boa?

- Lembro...

- Você vai olhar, de noite, as estrelas. Onde eu moro é muito pequeno, para que eu possa te mostrar onde se encontra a minha. É melhor assim, minha estrela será então qualquer das estrelas. Você vai gostar de olhar todas elas... serão, todas, tuas amigas. E depois, eu vou fazer-te um presente...

Ele riu outra vez.

- Ah! meu pedacinho de gente, meu amor, como eu gosto de ouvir esse riso!

- Pois é ele o meu presente... será como a água...

- Que você quer dizer?

- As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro, mas todas essas estrelas se calam. Você, porém, terá estrelas como ninguém...

- Que quer dizer?

- Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E você terá estrelas que sabem rir!

E ele riu mais uma vez.

- E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), você se sentirás contente por me ter conhecido. Você será sempre meu amigo. Terá vontade de rir comigo. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto... e teus amigos ficarão espantados de te ouvir rir olhando o céu. Você explicará então: "Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!" E eles te julgarão maluco. Será uma peça que te prego...

E riu de novo.

- Será como se eu te houvesse dado, em vez de estrelas, montões de guizos que riem...

E riu de novo, mais uma vez. Depois, ficou sério:

- Esta noite... tu sabes... não venhas.

- Eu não te deixarei.

- Eu parecerei sofrer... eu parecerei morrer. É assim. Não venha ver. Não vale a pena...

- Eu não te deixarei.

Mas ele estava preocupado.

- Eu digo isto... também por causa da serpente. É preciso que não te morda. As serpentes são más. Podem morder por gosto...

- Eu não te deixarei.

Mas uma coisa o tranqüilizou:

- Elas não têm veneno, é verdade, para uma segunda mordida...

Essa noite, não o vi pôr-se a caminho. Evadiu-se sem rumor. Quando consegui apanhá-lo, caminhava decidido, a passo rápido. Disse-me apenas:

- Ah! Você veio...

E ele me tomou pela mão. Mas afligiu-se ainda:

- Isso é um erro. Você vai sofrer. Eu parecerei morto e não será verdade...

Eu me calava.

- Você entende? É longe demais.

Eu me calava. E ele perdeu um pouco de coragem. Mas fez ainda um esforço:

- Será bonito, sabe? Eu também olharei as estrelas. Todas as estrelas serão poços com uma roldana enferrujada. Todas as estrelas me darão de beber...

Eu me calava.

- Será tão divertido! Você terá quinhentos milhões de guizos, eu terei quinhentos milhões de fontes...

E ele se calou também, porque estava chorando...

- É aqui. Deixa-me dar um passo sozinho.

E sentou-se, porque tinha medo. Eu sentei-me também, pois não podia mais ficar de pé.

Ele disse:

- Pronto... Acabou-se...


Texto novamente adaptado de O Pequeno Príncipe de Antoine Saint-Exúpery.
Sim, terminamos de novo, agora definitivamente.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

EXTRA, EXTRA, EXTRA: O PRINCIPE E A RAPOSA: Voltamos!

"Eu sei que vou chorar
A cada ausência tua eu vou chorar
Mas cada volta tua há de apagar
O que esta ausência tua me causou
Eu sei que vou sofrer a eterna desventura de viver
A espera de viver ao lado teu"
______________________________________________

Eu, inconsequente, mandão, ciumento.
Você, desligado, mandão, ciumento (mas não adimite, ops!)
Sou passional
Você,racional!
Somos diferentes e ao mesmo tempo iguais. Eu não consigo comprender...
... e quem compreende?!

A distancia, nos afasta e nos junta, ao mesmo tempo.
A saudade é dolorosa, os reencontros curam todas as feridas.
Seu nome é o primeiro e ultimo que digo todos os dias,
e o mais engraçado entre nós, é que nos doamos mutuamente sem esperar
nada em troca.
Apenas amamos.

Separados, estaremos
Juntos, estaremos felizes.

Vamos viver o hoje, o agora! Vamos viver este instante!
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Ps. Não deixarei a raposa fugir assim tão facíl.
É minha e ponto final!!!

Tato

Ps²: Então, o Tato se arrependeu, e decidimos tentar mais uma vez.
Foxx