Ser duas pessoas causa problemas. Ter duas identidades causa tumultos. Porque tem horas que você deveria agir como uma, mas age como outra, tem horas que devia ser uma, mas acaba sendo outra. É o que há comigo, entre o Heitor Renard e o Foxx. Contemos o caso em detalhes. Que fique claro, o Heitor Renard que protagoniza a série A ... VIDA DE HEITOR RENARD sou eu. Heitor é aquilo que eu não gosto de ser, mas sou obrigado a ser pelas circunstâncias que vivo. Heitor é o garanhão que leva facilmente qualquer um para cama, levanta-se, veste sua roupa e vai embora. Não olha para trás, e enquanto desce a escada apaga o número do fulaninho da agenda. É o que repete orgulhosamente que "figurinha repetida não completa album". Heitor é a minha vingança com todos os homens que fizeram o mesmo comigo. Que me usaram e me jogaram fora. Através dele faço o mesmo a outros.
O Foxx, a raposa que esconde meu nome verdadeiro, é o extremo oposto. O Foxx é o menino que espera a ligação, que se magoa todas às vezes que é desprezado e usado, é a vítima que o Heitor cria. Minha promessa aqui, então, desde abril, é que a partir daquela data sufocaria o Foxx e deixaria Heitor Renard lidar com minha vida sentimental e sexual. O Foxx continuaria lidando com o meu doutorado e com meus amigos, coisas que ele sabe fazer; Heitor trataria daquilo que o Foxx não sabe lidar, ou melhor, aquilo que quando o Foxx assume sempre faz com que eu sofra.
Simples? Não né? Por isso algumas confusões às vezes acontecem. Sempre quando o Foxx resolve se meter nos assuntos que ele não conhece. Temos dois casos recentes, dois homens maravilhosos que o Heitor apresentou a todos nós, mas o Foxx resolveu cuidar deles. O primeiro, com nome de artista mineiro barroco, que chegou-se a mim elogiando meu sorriso, pagando uma bebida num bar indie, e salvando uma noite em que o carão reinava. Artista plástico e dono de uma exportadora, ele me deu uma carona até em casa, e falamos de arte, musicais da Broadway, cinema realista alemão, taxas de conversão de dollar, e não fizemos sexo, porque o Foxx gritava dentro de minha cabeça: "Se você fizer sexo, ele nunca mais vai querer te ver de novo", e ele foi para casa dizendo que tava subindo pelas paredes, que eu o deixei louco de tesão, e eu o fiz prometer que me ligaria no dia seguinte. Ele sumiu. Não ligou, eu liguei, ele atendeu desconfiado e prometeu ligar-me em seguida porque estava "um tanto ocupado naquele momento". Eu desliguei o telefone e apaguei o número dele da agenda do celular. Nunca mais o vi.
Terça feira última, antes do feriado de independência, o Foxx agiu de novo. Heitor nos apresentou um novo príncipe. Bonito, publicitário, dançarino de dança de salão nas horas vagas, dono de uma loja de roupas num dos shoppings mais badalados da cidade, o Foxx o encontrou na Pampulha, um programa de domingo para famílias, caminhar pela orla e conversar sentados nos bancos ou na grama. O Heitor o encontraria aqui em casa, não daria tempo para conhecê-lo, somente o jogaria na cama e pronto, para quê conhecer as belíssimas qualidades de alguém que provavelmente sumiria? Porém o Foxx conheceu e se encantou e o primeiro beijo deles soou como um conto de fadas naquele gramado. A lua alta no céu, banhando de prata a lagoa, os olhos deles se encontraram, o menino cujo nome significa moreno sorriu um sorriso de marfim e o Foxx se inclinou para beija-lo. Foi um beijo simples, delicado, que outros se seguiram. O moreno sussurou ao Foxx que ele era um tesão, apertou suas pernas, repetindo o elogio, e foi quando a raposinha que protege minha real identidade decidiu que não iria fazer sexo com ele. Heitor gritou "não", dentro de minha cabeça! Dizia "aproveita que esse cara vai sumir depois". "Que chance você terá com ele de novo?" Mas o Foxx acreditava, o papo estava bom, já era 20h e eles haviam se conhecido as 16:30, só saíriam de lá uma hora depois, e ele tinha dito: "não tenho nada que possa ser melhor a fazer do que ficar com você aqui". O Foxx acreditava piamente que ele gostaria de um segundo encontro, no terceiro o sexo poderia acontecer. Perfeito. Ele, no entanto, não prometera ligar quando se despediram. O Foxx esperou um dia, ligou na quinta feira convidando-o para uma festa na universidade, ele disse que já tinha compromisso, e se despediram; no sábado, nova ligação mas desta vez não atendida, que é retornada minutos depois. "Quem é que 'tá falando?", o Foxx admite que era ele. O moreno atendeu desconfiado e prometeu ligar-me em seguida porque estava "um tanto ocupado naquele momento". Desta vez foi o Heitor que desligou o telefone e apagou o número dele da agenda do celular. Ele havia apagado o telefone do celular dele, por isso não sabia quem havia telefonado. Nunca mais o vi.
Por isso que digo, cada um tratando de seus respectivos assuntos. Trabalho, vida acadêmica, família e amigos, deixa que o Foxx cuida. E muito bem. Vida amorosa e sexual são o departamento do senhor Heitor Renard. Voltando agora com mais certeza de que ele é o único que pode me proteger desse mundo lá fora.