O Deuteronômio é quinto e último livro do Pentateuco e da Torá, que precede o primeiro dos livros históricos da Bíblia medieval cristã, e seu nome significa "segunda lei", e foi batizado assim pela Septuagina, a primeira versão da Bíblia, demonstrando que o livro é um código de leis que complementa os Dez Mandamentos instituído por Moisés, cuja principal característica é ser um tratado religioso que define as regras para viver o Pacto entre Javé e o povo de Israel. Foi composto por um conjunto de manuscritos de datas diferentes que volta de 640 a 600 a.C, durante o reinado de Josias de Judá, reino ao norte de Israel, ganhou extrema importância dentro da comunidade israelita. Ele, que conta da entrega das Tábuas a Moisés até a chegada as planícies de Moab, é escrito na forma de discursos que utilizam a história de Israel para testar a realidade e a verdade do próprio código, este método é a forma mais comum de escrita do Velho Testamento.
Uma dessas regras corresponde à uma proibição: "O varão que tenha os testículos esmagados (daka') ou o seu membro viril cortado, não poderá ser admitido na assembléia (qahal) do Senhor" (Deuteronômio 23:1-2). Neste mesmo capítulo, o Deuteronômio também exclui da comunidade israelita, além dos eunucos, os filhos bastardos e os estrangeiros. Para, no entanto, entender o porquê disso é necessário focar no contexto patriarcal no qual ele é escrito. Este trecho do livro fala das qualificações necessárias para se ingressar na assembléia política, religiosa, militar e judicial e, por extensão, a definição do que seria necessário para se tornar um cidadão ativo politicamente nos reinos de Judá e Israel, apesar de se referirem ao período anterior das Doze Tribos. No caso dos eunucos, um homem castrado não poderia se considerar um homem completo e, portanto, seria relocado socialmente para uma posição inferior entre os gêneros, junto com as mulheres. Alguns pesquisadores propõe, contudo, que esta exclusão pretende apartar da assembléia da cidade os sacerdotes de outros deuses que não Javé.
Esta proibição se torna um problema, todavia, quando Jerusalém caiu nas mãos do rei babilônio, Nabucodonosor II, em 598 a.C., e os homens de Israel se tornam escravos e, muitos destes, são transformados em eunucos nas cortes e haréns da Babilônia. Quando Ciro II, rei da Pérsia, em 537 a.C., invadiu a Babilônia, ele libertou o povo judeu que pode retornar a Jerusalém, e muitos retornaram a cidade eunucos. Pela lei do Deuteronômio então seriam destituídos de sua cidadania e, com isso, da participação política e religiosa na cidade, porém, no livro de Isaías - um dos livros proféticos da Bíblia, escrito entre 700 e 400 a.C. - é instituído um mecanismo de fuga desta regra. Diz o livro: "O estrangeiro que por sua própria vontade se uniu ao Senhor, não deve dizer: Javé me excluirá de seu povo. Tampouco deve dizer o eunuco (saris): Não sou mais que uma árvore seca. Porque assim disse o Senhor: Os eunucos que observem meus sábados, que escolhem o que me agrada e são fiéis ao meu pacto, concederei a eles ver gravado seu nome dentro do meu templo e de minha cidade; isso é melhor que ter filhos e filhas!" (Isaías 56:3-6). A partir de Isaías então se cria um mecanismo que reescreve as leis do Deuteronômio para se adaptar a uma nova realidade existente na vida social judia, demonstrando que o livro sagrado era constantemente adaptado para atender as solicitações sociais de cada período da história dos reinos de Judá e Israel.
Também no Deuterônomio existe um trecho que diz: "A mulher não se vestirá de homem, nem o homem se vestirá de mulher: aquele que o fizer será abominável diante do Senhor, seu Deus" (22:5). Este trecho é por muitos considerado uma proibição do crossdressing, o que particularmente considero uma interpretação extremamente superficial do trecho. Este trecho é apresentado juntamente na parte que aconselha o bom judeu a ajudar um jumento ou boi caído na estrada, que se encontrar uma ave com um ninho numa árvore ou no chão pegaria os ovos, mas libertaria a mãe; também aconselha a não semear várias espécies no mesmo campo, também não usar vestes de tecidos diferentes e a construir um parapeito no teto de sua casa. Os comentadores ligados a queer theory costumam relacionar este trecho a manutenção do papel masculino na sociedade patriarcal israelita, mas também fazem referência aos ritos de fertilidade praticados pelos povos que estavam ao redor de Israel à época do reino de Judá. Novamente para manter a sua própria identidade em comparação com os outros povos, Israel proibia dentro do seu território a realização dos ritos de outras religiões, entre eles, a hierogamia. A hierogamia se trata do casamento ritual do sacerdote com a deusa, para tanto, por exemplo, no rito de Astarté, comum entre os fenícios e filisteus, um sacerdote se travestia com as roupas da deusa e fazia sexo com outro sacerdote em nome dela realizando assim o casamento ritual e, com isso, garantia-se a fecundidade da terra pela boa vontade da deusa. A preocupação israelita ainda é construir uma imagem de si mesmo que se distancie ao máximo dos comportamentos comuns às populações que viviam ao seu redor.
Também no Deuterônomio existe um trecho que diz: "A mulher não se vestirá de homem, nem o homem se vestirá de mulher: aquele que o fizer será abominável diante do Senhor, seu Deus" (22:5). Este trecho é por muitos considerado uma proibição do crossdressing, o que particularmente considero uma interpretação extremamente superficial do trecho. Este trecho é apresentado juntamente na parte que aconselha o bom judeu a ajudar um jumento ou boi caído na estrada, que se encontrar uma ave com um ninho numa árvore ou no chão pegaria os ovos, mas libertaria a mãe; também aconselha a não semear várias espécies no mesmo campo, também não usar vestes de tecidos diferentes e a construir um parapeito no teto de sua casa. Os comentadores ligados a queer theory costumam relacionar este trecho a manutenção do papel masculino na sociedade patriarcal israelita, mas também fazem referência aos ritos de fertilidade praticados pelos povos que estavam ao redor de Israel à época do reino de Judá. Novamente para manter a sua própria identidade em comparação com os outros povos, Israel proibia dentro do seu território a realização dos ritos de outras religiões, entre eles, a hierogamia. A hierogamia se trata do casamento ritual do sacerdote com a deusa, para tanto, por exemplo, no rito de Astarté, comum entre os fenícios e filisteus, um sacerdote se travestia com as roupas da deusa e fazia sexo com outro sacerdote em nome dela realizando assim o casamento ritual e, com isso, garantia-se a fecundidade da terra pela boa vontade da deusa. A preocupação israelita ainda é construir uma imagem de si mesmo que se distancie ao máximo dos comportamentos comuns às populações que viviam ao seu redor.



