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sexta-feira, 9 de maio de 2014

Quatro Elefantes Incomodam Muito Mais

, em Natal - RN, Brasil




Este vídeo me fez pensar. É o primeiro vídeo do canal Põe Na Roda, de três até agora, e fala sobre estereótipos que (graças a uma campanha que eles precisam me contar como fizeram) pipocou em todas as páginas gays do Facebook durante as últimas semanas. Minha dúvida, e talvez ela responda o porquê do vídeo ter feito tanto sucesso, é por que o estereótipo gay incomoda tanto os homens gays? Porque, convenhamos, esta é uma reclamação comum. Não é o primeiro vídeo falando sobre isso. Lembram daquele projeto tenebroso Não Gosto de Meninos que pretendia ser nosso It Gets Better e só deixou tudo pior? 
Mas façamos como Alice, comecemos pelo começo. Primeiro estabeleçamos quais são os estereótipos que o Põe na Roda levanta:

1) Barbies (me depilo, tenho barriga tanquinho, uso gola V até o umbigo, tiro camisa na balada);
2) Efeminados (falo miando, falo aloka, arrasa, só escuto Madonna/Lady Gaga, cabeleireiro);
3) Transexuais (gostaria de ter nascido mulher);
4) Promíscuos (vou dar em cima de você só porque você é homem, não esteja num relacionamento estável);

É interessante reconhecer que os Barbies (homens musculosos, depilados, que exibem seus corpos descamisados nas baladas) têm agora incomodado tanto quanto os efeminados/transexuais e o estereótipo de promiscuidade entre os homens gays, os quais são desde sempre o calo na vida de nossos homossexuais yupies, a.k.a. discretos. Estamos caminhando na segunda década do século XXI e ainda continua a batalha entre os homens gays não efeminados e os homens gays efeminados. Mas falemos de cada questão de uma vez.

I'm a Barbie girl, in the Barbie world, 
Life in plastic, it´s fantastic!

Os homens Barbies, ninguém me tira da cabeça que a origem do apelido vem da música do Acqua, já são criticados como pessoas superficiais desde que surgiram dentro de nossas boates no início da década de 1990 causando reboliço e fazendo emergir os Ursos/Bears como grupo diametralmente oposto. Como gosto de história eu sempre reconto isso: eles nasceram para se opor a imagem andrógina que era o padrão de beleza gay da Década de 1980 (para vocês terem uma ideia imaginem sempre a oposição entre eles e Cazuza, Lauro Corona, Ney Matogrosso, para dar exemplos brasileiros, mas também Freddie Mercury, Mick Jagger e David Bowie, para citar poucos). Este padrão de beleza surgiu como resposta do mercado publicitário voltado a homens gays (anúncios, primeiro, da Advocate, depois Out e outras revistas voltadas ao público LGBT masculino) à imagem da AIDS que se amarrou a seus antigos modelos. A lipodistrofia, alterações na distribuição da gordura corporal, e o hipogonadismo que reduz a massa magra, entre outras coisas, transformaram o modelo de beleza masculino/homossexual setentista e oitentista numa carta assinada assumindo que se era gay e que se tinha AIDS, dois statement que os novos yupies da década de 1990 não queriam e não precisavam fazer para se tornarem discretos membros de nossa sociedade capitalista. "Discrição" é a nova palavra-chave do mundo gay da década de 1990, junto com "Direitos Iguais" da nova militância.
No entanto, agora, quase 20 anos depois, vemos que eles não são mais o modelo de homem gay que deveríamos seguir. E isto é algo que, sem dúvida, deve-se ao movimento hipster (como falar do mundo LGBT tem sido se remeter a cultura hispter não é?). O padrão de beleza deste movimento defende homens com barba e pêlos no peito e enaltece uma vida boêmia entre cigarros e cafés e longe de academias, ou seja, os corpos magros de modelos de passarela. Oriundo da junção entre o designer, publicidade, música underground e moda criou mais um modelo apolíneo para o mundo gay que, agora como está no seu auge, tem o poder de criticar os outros que o precederam. Músculos talhados na academia não são mais tão importantes quanto uma postura blasé, afinal o carão nunca saiu de moda nos inferninhos e os hipsters só adicionaram um toque de (falsa) ironia. Roupas que pareçam únicas porque teriam sido um achado, gadgets que sejam conseguidos antes de todo mundo porque talvez ele mesmo tivesse criado, bandas que somente ele conheça porque ele frequenta os ambientes mais legais são novos símbolos de status, porque o belo hipster é aquele mais antenado, mais conectado, mais sábio do que todos que se entedia facilmente com a simplicidade da vida cotidiana dos meros mortais. Em resumo, não muda nada. Enquanto a superficialidade dos Barbies era descrita pela sua dedicação ao próprio corpo, dos hipsters pode ser encontrada na sua necessidade de parecer melhor como se estivéssemos sempre numa competição de quem pode mais.
Porém, se por um lado, os novos símbolos de status trazidos por este movimento representam um homem intelectualmente mais profundo que a imagem de plástico que o culto aos músculos e a vaidade evoca. Por outro, ele também projeta uma nova espécie de homem que se pretende menos preocupado com a aparência, menos vaidoso, menos metrossexual. O discurso hipster projeta uma nova masculinidade que resgata um modelo masculino perigoso, machista em alguns pontos, bem pouco aberto à diversidade em um sem-número de outros.

Ser um homem feminino,
Não fere o meu lado masculino.


A música que coloco aqui como subtítulo é de 1983, de Pepeu Gomes, Masculino e Feminino, e evoca um mundo pré-AIDS. Antes da explosão da doença, a cultura gay estava baseada na contra-cultura punk e pensava em destruir os modelos de família e sociedade que regiam a sociedade, entre eles as definições de masculino e feminino. Após a epidemia, as bases do mundo gay foram completamente abaladas e a influência yuppie invadiu a vida e a cultura desta população. Yuppie é uma derivação da sigla YUP, Young Urban Professional (Jovem Profissional Urbano), e descreve um conjunto de comportamentos que construíram uma geração na década de 1990. Acredita-se que as transformações que alteraram o mundo e as relações entre o indivíduo e a sociedade na década de 1980 (fim da Guerra Fria que consolida a hegemonia capitalista, AIDS que abala as bases do movimento de contestação gay, ascensão de Ronald Reagan e Margaret Thatcher e o seu boom econômico e privatizações) resultaram numa nova mentalidade focada no indivíduo e nas satisfação dos seus anseios.
Houve um abandono de ideologias que contemplavam o coletivo, o o sucesso profissional e o consumo de bens ganharam muito mais importância. Os yuppies, bem mais conservadores, deixaram de lado todas as causas sociais lançadas por hippies e punks, focaram no seu aspecto profissional e na aquisição de bens materiais (sobretudo relacionados a moda e avanços tecnológicos, como celulares e computadores). Os gays não escaparam da new wave. A militância gay deixou de questionar os fundamentos da sociedade, a família e o casamento, as definições de masculino e feminino, questionamentos que pretendiam mudar o mundo para dedicar-se a seu próprio futuro profissional e sua ascensão social como indivíduo. Inventou-se neste momento o Gay Discreto, aquele homem que vive sua sexualidade entre quatro paredes, garante a satisfação dos seus desejos pessoais e íntimos, mas que socialmente continua mantendo a fachada de heterossexual para não prejudicá-lo, principalmente, no trabalho. Ele esconde a própria sexualidade porque sair do armário é levantar uma bandeira que, segundo a filosofia da nova década, não precisa ser carregada por ninguém. Ninguém é responsável por lutar por direitos para o outro. Concentre-se em vencer na sua vida, afirmam os jovens profissionais de 1990. A raiz da oposição aos homossexuais efeminados tem um pé nessa história, e a outra no machismo que infecta homens gays.
A origem deste texto é esta pergunta: por que homens gays discretos, isto é, não efeminados, aqueles que podem esconder sua orientação sexual, se incomodam com a existência dos efeminados? Eu, consciente de toda essa história que narrei para vocês anteriormente, só consigo entender que esse incomodo exista porque os não-efeminados consideram que, de alguma forma, a existência de sua contra-parte prejudica-lhe a satisfação de algum desejo pessoal. Digamos, que a existência dos efeminados prejudique ele profissionalmente. Comentando sobre isto no Twitter, eu consegui algumas respostas que podem ajudar a elucidar a questão. Algumas pessoas afirmaram que quando um gay efeminado age de forma irresponsável, fútil, feminina (como eu disse, o machismo é um problema), se espera que todos os gays também funcionem da mesma forma. Sendo assim, como ascender profissionalmente sendo um homem gay (mesmo não efeminado) quando se espera que todos os homens gays tenham os mesmos comportamentos e o comportamento de um homem gay é igual a de uma mulher e mulheres não têm o direito de ascensão profissional? Entende a lógica que está por trás de um simples: não curto efeminados?

HOMEM GAY = HOMEM EFEMINADO 
HOMEM EFEMINADO = MULHER
MULHER = MULHER NÃO VALE NADA   
HOMEM GAY = NÃO VALE NADA

O incômodo dos Discretos se torna entendível porque nenhum deles quer passar a imagem de que não vale nada. Eu, sinceramente, os entendo, contudo também afirmo que a batalha deles está mal direcionada. Eles combatem os efeminados com intensa determinação, todavia deviam dedicar-se a combater o machismo que faz com que uma mulher seja considerada tão impura que parecer-se com ela torna um homem inferior. Não é possível vencer no nosso mundo lutando por si só, na verdade é uma ilusão nossa acreditar que nossas vitórias pertencem somente a nós, esquecendo todos que abriram caminho antes para permitir que estivéssemos ali. Por isso eu convoco todos a lutar por um mundo melhor não somente para si, mas para a comunidade, e não é preciso participar de nenhuma parada gay para isso, uma primeira (e grande) batalha precisa ser vencida antes, contra si mesmo. Combata dentro de você todo o machismo que existe. Não enxergue mulheres como seres inferiores e também não veja os homens efeminados como seres inferiores porque estes manifestam algo de feminino. Combata em si essa tendência a dizer que você não gosta de alguém porque eles têm características mais femininas, isso não é um gosto pessoal, é um preconceito. É machismo! Gosto pessoal é quando você prova e não gosta, quando você vê e sem conhecer não gosta você é apenas uma criança fazendo cara feia para os legumes no prato que sua mãe colocou. Comam, quem sabe não é saboroso.






sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Mais Discreto, Mais Discurso de Ódio

, em Natal - RN, Brazil



Outro dia no Facebook um amigo mostrou uma postagem deste blog aqui: Mais Discreto. Eram postagens intituladas "Gay: Estou ficando muito afeminado (sic), o que fazer?" e "Dicas de como não ser um gay afeminado (sic)". As dicas propostas pelo blogueiro que assina Gay Discreto são coisas como não gesticule (pobres italianos); não ande rebolando (me ofendi com esta porque tenho uma má formação no quadril que me faz andar rebolando); não demonstre que é fã de uma banda ou cantora (será que pode torcer por time de futebol?); não sente de forma irregular (não tenho ideia do que seja isso); seja discreto ao ver um homem bonito (é para matar de rir!). Ele também tem uma página no Facebook com 269 curtidas, em que as postagens do blog são divulgadas, mas que também membros da página marcam encontros entre "machos discretos" que terminam com a frase: "Não curto afeminados (sic), nada contra". Li então a descrição do blog e o rapaz mostrava toda a sua boa vontade: "Att: Não tenho nada contra gaus afeminados (sic), esse blog funciona apenas como auto-ajuda para quem precisa ser discreto". Eu, sinceramente, fiquei revoltado!
É muito preconceito junto e que o Gay Discreto obviamente não entende o tamanho do mal que está provocando. Um mal digno de Marco Feliciano, arrisco-me dizer! No entanto, apesar dele acreditar que não há nenhum tipo de preconceito no blog (por acaso ele acha que as dicas dele são baseadas em pesquisas da Organização Mundial de Saúde?), os comentários chegam a doer no coração. Tem comentarista psicólogo: "Vou sofrer mais preconceito, discriminação, pra arrumar emprego é difícil, pra arrumar uma pessoa legal é difícil. Um gay afeminado (sic) ele não é que nem qualquer outro, ele quer chamar atenção devido a sua carência e vontade de aparecer mais que os outros". Tem pastor: "Uma gay afeminada é ridicula, tosca, palhaça, ele próprio fere sua dignidade ao ser afeminado (sic), e você vem falar que isso é preconceito? Ser afeminado (sic) é feio e deve ser repreendido SIM!!". Tem o direto: "Existe os gays e as gays. Que bom se todas as gays tivessem vergonha na cara e se comportassem como homem, pq os gay não renegue seu sexo! Ser afetado é feio e falho!". PS: Só para registro, segundo a política do Blogger os comentários são de responsabilidade do autor do blog também.

Tome Jeito de Homem

Começo minha crítica pelo mais óbvio: qual, pelo amor de Deus, o problema em ser efeminado? Qual o problema com o feminino? O que tem de tão ruim em ser comparado a mulher? Mas, além disso, ser efeminado é um conceito que somente existe porque nós temos um modelo do que significa ser homem. E homem significa ser homem heterossexual. Significa comportar-se como um homem que se sente atraído por mulheres. Mas o que é isso? O que é um Homem? Sendo preconceituoso ao nível deste blog eu diria que seria ter uma voz grave, uma postura viril e máscula, gostar de futebol e gostar de mulher. Falarei apenas de dois deles para o texto não ficar muito longo. Tratemos primeiro da voz, de um elemento genético. Homens, seres portadores dos cromossomos X e Y, tem até quatro tipos de voz: as graves (baixos), as médio-graves (barítonos), as agudas (tenores) e as muito-agudas (contra-tenores). Estes timbres vocais existe porque cada homem tem uma formação única de garganta, das pregas vocais e sua capacidade respiratória. Então não existe isto de voz de homem. Não existe uma voz masculina e sim vários tipos que vão do mais grave a uma voz quase feminina (o Kurt, de Glee, é um contra-tenor, por exemplo). 
Sobre a postura viril e máscula, sobre como é se comportar como homem, falamos agora de um elemento cultural. O que é caracterizado como uma postura masculina em uma cultura é distinta em outra, e se pensarmos isto dentro da História podemos enxergar os comportamentos mais dispares do que o que consideramos hoje como uma postura masculina. Exemplos pipocam: homens russos beijam-se na boca quando se encontram, homens árabes andam de mãos dadas pelas ruas, homens brasileiros apertam as mãos e dão um tapinha nas costas quando se encontram, americanos apenas apertam as mãos, japoneses não tem nenhum contato físico. Homens já foram proibidos de pisar na cozinha de casas, eles depois passaram a cuidar das crianças, hoje existem homens que ficam em casa enquanto suas esposas trabalham fora. Então, se a diversidade é a única regra, porque insistir em um modelo do que é um homem? Quem tem o direito de dizer que tal ato é ou não masculino se todos eles são decididos de modo completamente arbitrário?

De Boas Intenções, o Inferno Está Cheio

Minha segunda crítica tem a ver com os objetivos deste moço, o Gay Discreto. Ele afirma que quer ajudar quem é efeminado, mas qual a diferença da ajuda que este blogueiro presta daquela que a Marisa Lobo, a psicóloga cristã, oferece a todos os gays? Fico preocupado com as pessoas a quem ele atinge, as feridas psicológicas que ele pode criar em jovens adolescentes que procuram na internet respostas para suas angústias ou em homens gays que sofrem preconceito e não tem ideia dos direitos que possuem. O Gay Discreto é um porta-voz da homofobia que recebemos da nossa sociedade e que redirecionamos para o grupo que, afinal de contas, mais nos representa, pois se encaixa mais no estereótipo. Dentro do nosso grupo este preconceito funciona como um escudo que nos protege de ataques porque atacamos primeiro o membro do grupo que é mais visível e o abandonamos ali, ferido, para que os predadores se detenham nele e nos permitam seguir em frente. O blog Mais Discreto ensina somente isto: ataque a gazela mais fraca e deixe-a para os leões.
Se ele pretendesse, de fato, ajudar estas pessoas que são efeminadas e o procuram através do e-mail (é assim que o blog dele funciona), o caminho deveria ser, primeiro, reforçar a auto-estima destas pessoas. Mostrar que apesar do preconceito, que não obstante ter todo o mundo contra você todos os dias de sua vida, que elas também têm valor, o que passaria, sem dúvida, por combater os comentários que dizem que efeminados não têm educação, ou postura, que são ridículas e desagradáveis, entre outros adjetivos. Deveria ele desmistificar e desmentir as coisas que são ditas e fazer, principalmente, não que o homossexual efeminado mude, mas aqueles que têm preconceito, que não dão o emprego, que não namoram, que não aceitam, mudem suas posturas. 
Em segundo lugar, o blogueiro deveria mostrar os direitos que as pessoas têm em seus ambientes de trabalho, escolas, etc. Conscientizar. Se alguém sofre preconceito por ser efeminado, seja gay ou não (e, provavelmente, o Gay Discreto não sabe que também existem homens heterossexuais efeminados), deve buscar na justiça as medidas cabíveis para o caso. Diversas cidades e estados brasileiros já têm leis e delegacias especializadas para lidar com este tipo de crime, e ajudar alguém a superar o preconceito não é ensiná-la a se esconder para evitar tornar-se um alvo, é demonstrar como se proteger através dos artifícios legais que temos a nossa disposição tal como a denúncia, por isso termino este texto convidando todos vocês a denunciar o blog por discurso de ódio ao Blogger, basta clicar  aqui, e todos nós fazemos nossa parte.