Google+ Estórias Do Mundo: Machismo
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domingo, 30 de agosto de 2015

Gostosa

, em Natal - RN, Brasil
Estava caminhando em direção ao ponto de ônibus, ia para a igreja, mas antes tinha que recarregar meu cartão do ônibus. Usava uma bata indiana e uma calça jeans justa. Quando um primeiro motoqueiro passou e gritou:
- Gostosa!
Eu me assustei. E ainda mais quando um segundo passou, um quarteirão depois.
- Gostosa!
Publiquei então num grupo que estou junto com o Gato de Cheshire no Whatsapp:
- Dois motoqueiros acabaram de me chamar de gostosa aqui.
- Deve ter sido para te ofender, não?
- Sim, provavelmente. Para reforçar o meu lugar de bichinha e o lugar deles de macho. Mas eu sempre tenho uma dúvida: o quanto isso tem de desejo deles?
- Bem, na verdade não acho que tenha a ver com desejo. Mas para reforçar o lugar deles de macho acima do seu lugar de bichinha.
- Sim. Como todo homem que grita gostosa para uma mulher pretende somente reforçar seu lugar de macho no grupo, não para elogiá-la. Mas, tenho outra dúvida, porque ele não escolheu dizer viadinho e sim gostosa?
- É mais humilhante. Misoginia na veia! Você é menos que um homem que quer dar para outro homem, você é mulher mesmo!
- Então gostosa é inferior a viadinho?
- Para um homem, certamente sim.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Presença de Anitta

, em Natal - RN, Brasil




No início de dezembro, a funkeira Anitta e  a roqueira Pitty foram ao programa Altas Horas discutir sobre a notícia que 48% dos jovens acreditam que seja errado uma mulher sair sem o namorado. A discussão ficou polarizada: Anitta defendendo que as mulheres conseguiram os mesmos direitos (civis) e que agora querem tomar o lugar dos homens, se comportando como eles e impedindo que os "instintos masculinos" de proteger a mulher possam ser exercidos; e Pitty falando que estamos longe de conseguir direitos porque se alguém ainda pensa que um mulher não tem o direito de sair sozinha, as mulheres não tem, portanto, nenhuma igualdade com os homens. Eu, obviamente, apoio Pitty na discussão, porém eu entendo o lugar de onde Anitta fala.
Paulo Freire, o pedagogo, diz que o mais difícil em modificar uma sociedade é fazer o oprimido entender que o discurso do opressor não é verdadeiro. No caso, fazer Anitta reconhecer que ela está repetindo o discurso machista como se fosse dela. Que ela está repetindo o machismo e não nota. Que ela está tão imersa num mundo machista que ela passou a considerar natural, passou a considerar que este é o mundo real, as imposições que sua vida de oprimida faz contra ela. O controle do seu corpo feito por outros, o controle de suas ações ditado por outros, o controle de sua sexualidade definido de fora são realidades tão esmagadoras para Anitta que ela não consegue ver além. Te entendo, Anitta, vem cá para eu te dar um abraço.
Mas o que isso é interessante para gente? Não é muito diferente com inúmeros homens gays. Nós absorvemos o discurso de opressão também, isto é, a homofobia e a repetimos em nossa vida diária. Vejamos exemplos: todos lembram de Clodovil, não é? Clodovil nunca, em sua vida, assumiu ser gay, ele considerava isto algo de foro íntimo e sentia-se extremamente envergonhado quando era colocado contra a parede. Clodovil também afirmou em uma entrevista ter certeza que iria para o inferno e torturava-se costumeiramente por isso. Ele absorveu o discurso dos outros sobre ele e ninguém precisava lembrá-lo sobre seu pecado infame, o próprio Clodovil martirizava-se. Caso extremo? Mas bastante comum. 
Mas existem outros exemplos mais simples também. Como quando definimos um modelo de homem. Que ser homem significa ter barba, ser másculo, ter voz grave, etc. Nós repetimos um modelo de homem que nem é o do homem heterossexual já que vários homens heterossexuais são imberbes, podem ser mais delicados, podem ter vozes agudas, ou seja, criamos um modelo de homem que não é atingido por ninguém, nem os homossexuais, nem os heterossexuais, e forçamos as pessoas a seguirem este modelo, como também forçamos nosso cérebro a entender que este modelo é um padrão de beleza e, daí, surge a aversão representada pelo "não sou e não curto afeminados" dos aplicativos sociais. 
Nós absorvemos o discurso que nos oprime, a homofobia, e a aplicamos em nossa vida como se ela fosse real. O discurso do opressor torna-se aquele que define para você sua realidade. Se você não sabe se você absorveu a homofobia, façamos o seguinte teste:

1) O que é homofobia?
a) atacar uma pessoa, motivado pelo preconceito em relação a ser gay.
b) o preconceito em relação a gays, lésbicas, bissexuais e transexuais.
c) a mesma coisa que machismo, só que para homens.

2) O que você considera um ataque homofóbico?
a) agressão física.
b) repressão/agressão verbal.
c) repressão/agressão verbal e agressão física.

3) O que é um homem?
a) o contrário da mulher.
b) uma criatura geneticamente definida por genes XY.
c) uma construção cultural.

Se você não marcou a terceira resposta em todas as perguntas acima, camarada, temo lhe informar que você foi dominado. E está na hora, tal qual a Anitta, de você começar a observar o mundo fora da sua caixinha. Sugiro uma viagem ou fazer uns amigos bem diferentes dos quais você tem convivido ou, quem sabe, seguir algumas dicas do Ken Hanes no seu Guia Prático para a Vida Gay. O livro é ótimo, pequeninho, e ele dá umas dicas bem interessantes, são 463 ao todo, eu escolhi algumas que podem ajudar nesta situação, como:

5. Convide um ativista da campanha de prevenção da Aids para almoçar com você.
17. No momento em que nossa cultura estabelece como ato de desobediência civil o fato de alguém confessar-se publicamente gay, ser gay é uma atitude política. Aceite, pelo menos por enquanto, a ideia de que seu comportamento sexual é uma espécie de militância.
18. Não deboche de drag queens, dos travestis e dos gays exageradamente frescos. Pense onde estaríamos sem eles.
85. Se você for vítima de agressão física, ou mesmo de insultos, reúna testemunhas, chame seu advogado, e mova um processo contra o agressor.
91. Quando passar por algum lugar onde um gay está sendo humilhado ou agredido, não finja que não viu nada, não banque o indiferente. Se não puder ajudá-lo pessoalmente, vá buscar ajuda, chame a polícia, faça qualquer coisa.
138. Os direitos gays são seus direitos. Faça tudo que estiver ao seu alcance para ampliá-los e reforçá-los. Apoie a causa.
142. Saiba que, ao iludir as pessoas, tentando passar por heterossexual, estará sinalizando para o mundo que não é uma boa coisa ser gay.
170. Não confunda masculino com macho.
189. Se você acha os outros gays muito chatos, olhe-se no espelho. Procure descobrir as coisas de que você não gosta em si mesmo e está vendo neles.
268. Não esconda de crianças que você é gay.
334. Procure enturmar-se com pessoas de várias idades, com estilos de vida diferentes do seu. Pessoas diferentes de você podem enriquecer sua vida.
416. Nunca use as expressões "comportamento de homem" e "homem de verdade". É pura homofobia. 

domingo, 30 de novembro de 2014

O Ritual do Macho Man

, em Natal - RN, Brasil
Era tarde da noite já, eu voltava da igreja, havia pego o primeiro ônibus que me deixava mais ou menos perto de casa, isto é, uns 10 minutos de caminhada entre o ponto e a porta de minha residência por impaciência de esperar mais e, por isso, passei diante de um bar, como já havia feito milhares de outras vezes antes, mas desta vez, eu notei que um dos garçons reparou em mim. Ele era magro e alto, tinha uma bela bunda que se destacava dentro da bermuda jeans que eles usavam. Sim, ali naquele bar de esquina que ocupava parte da avenida com suas mesas, os garçons serviam os clientes de bermudas e chinelos. Ele tinha uns olhos verdes cor-de-mar, mas do mar de Natal, um verde pálido porque todas as cores aqui são meio pálidas, afinal o branco da luz do sol suprime tudo.
Eu, como não fujo de olhares, sustentei até ele baixar os olhos. Passei ao lado dele e ele estava de cabeça baixa, vencido no seu jogo de macho, mas percebo agora que não segui meus próprios conselhos para pegar hétero: fazer o papel da virgem constrangida que baixa os olhos e tem a face coberta pelo rubor da ingenuidade (eu, na verdade, nunca faço isso e depois reclamo que ninguém chega em mim, quando é que eu dou oportunidade para alguém? Se me interesso e a pessoa corresponde pelo menos com um sorriso, eu não fico esperando o outro agir, mas voltando...). Por curiosidade, dois paços a frente dele eu olhei para trás e ele me acompanhava e riu neste momento, comentando com o colega que estava próximo dele algo, mas somente quando viu que eu estava distante o bastante para não conseguir ouvir. Eles então riram juntos e o deboche seguiu-se de um assovio. E outro, e outro.
Caminhando, sem olhar para trás, eu fiquei pensando na lógica maluca dessas pessoas. Pelo menos comigo, homens não se sentem seguros a me insultar sozinhos, e muito menos para mim. Deve ser algo que faz parte do ritual de socialização do homem heterossexual (nunca participei dessas coisas, então, não sei se é): fazer uma piada para seus confrades sobre aqueles outros que estão, hierarquicamente, abaixo deles, no caso gays, mas também mulheres. Eu sempre penso que a piada não tem, de fato, o objetivo de ferir seu alvo, somente de reforçar os laços entre aqueles homens e o seu lugar como um igual dentro do grupo. Não que a piada deixe de ser homofóbica porque não tem o objetivo de atingir o homossexual, ela continua sendo porque seu núcleo é de que existe em homens mais homens e outros menos homens, cabendo ao primeiro o controle sobre o segundo tipo.
Por outro lado, a piada que eles resolvem fazer é flertar comigo. A visível timidez dele (ele baixou os olhos) é superada no instante em que ele consegue um amigo, coisinha típica de machos adolescentes, e aliado a um amigo ele pode assoviar para mim para todo o bar ver, para todo o bar ouvir. O comportamento é obviamente fundado em mais machismo. No conceito de que homem de verdade deve estar sempre sexualmente disposto e, aqui no Nordeste, isto inclui também "não negar fogo" caso uma bicha (moi!) se insinue. E não importa para eles se eu somente havia passado a caminho da minha casa, o mesmo imaginário que faz de todo homem heterossexual um garanhão disposto ao sexo faz de todo homem homossexual um promíscuo disponível para se tornar objeto (neste sistema todo homossexual é necessariamente passivo e quer ser dominado por um macho heterossexual). Como mulheres, nós existimos para sermos objeto de prazer do "homem de verdade", mas enquanto a elas cabe o dever de negar, em defesa de sua honra, até que o homem de verdade a seduza, aos homens gays, por definição homens sem honra, é inconcebível que recusem ao sexo independente de quem seja seu parceiro.
É uma lógica doente, sinceramente. Estes homens acreditam-se detentores de poder sobre o corpo tanto de mulheres quanto de homens gays, mas como reagir a isso? Nós, as vitimas? Ah, e antes que alguém diga que ele na verdade estava interessado, que era uma cantada: primeiro, você está sofrendo de Síndrome de Estocolmo, aquela em que os sequestrados/torturados desenvolvem sentimentos pelos criminosos que os agridem, por isso você não enxerga o machismo que te banha todos os dias; segundo, se ele tivesse somente interessado em mim, qual a necessidade do amigo participar do seu flerte? Ele apenas repetiu um ritual para reforçar os laços com os outros machos do bando que acontecerá novamente toda vez que algum viado ou qualquer mulher (que não seja ligada a ele por parentesco de primeiro grau, isto é, avós, mães e irmãs) passar na frente do bar; terceiro, bora largar esse romantismo?