Ninguém nasce gay, como ninguém nasce heterossexual. E antes de vocês terem uma imensa crise de identidade, deixe-me explicar. Seres humanos nascem com uma orientação sexual, isto é, um direcionamento para o qual o seu desejo sexual será levado, este direcionamento pode ser para homens, para mulheres ou para ambos, mas isto não basta para tornar alguém gay, hétero ou bi. Deixe-me dar um exemplo: um menino nasce com sua orientação sexual voltada para homens, contudo ele é educado toda a sua vida a ser heterossexual, ele então suprime sua própria orientação que o faria gay e torna-se heterossexual porque educa seu desejo a direcionar-se para mulheres. Sim, isto é possível! É fácil de fazer? Não! Causa traumas irreversíveis fraturando a psiquê do indivíduo? Sim! Mas o ponto aqui é que um homem gay pode ser educado a ser heterossexual. E por quê? Porque heterossexualidade é uma coisa aprendida.
Existe um conceito muito útil utilizado por antropólogos e sociólogos desde 1980, ele foi cunhado por uma feminista chamada Adrienne Rich que numa análise sobre a experiência lésbica percebeu que as mulheres eram convencidas que o casamento e a orientação sexual voltada para os homens eram inevitáveis. Elas era doutrinadas pelo romance heterossexual/heteronormativo através de contos de fada, das novelas na televisão, dos filmes no cinema, que passavam a ter um papel coercitivo sobre a quem era correto dirigir o seu desejo. Rich então explicou que através destes mecanismos homens e mulheres seriam aprisionados psicologicamente à heterossexualidade e tentariam ajustar sua mente, seu espírito e seu corpo a este modo prescrito de sexualidade.
O que, de fato, acontece é que quando a heterossexualidade é considerada natural e buscamos causas da homossexualidade, como se esta fosse um desvio do padrão, nós na verdade ocultamos os mecanismos de coerção que treinam os seres humanos a gostar do sexo oposto. Desde a década de 1960, antropólogos e psicólogos reconhecem que todos os seres humanos são capazes de relacionar-se com o mesmo sexo, mas no processo de socialização infantil, isto é, na igreja, na escola e na família, nós somos adestrados (exato, como cachorros!) a nos voltar apenas ao sexo oposto.
Somos ensinados, por exemplo, que ser gay é ser doente. Que a única forma sadia de vivenciar a sexualidade é colocando-a dentro dos moldes heteronormativos, isto é, homem no papel de macho ativo e conquistador e mulher no papel de fêmea submissa e hesitante. Somos ensinados também que a heterossexualidade é o estado primeiro da humanidade, Adão e Eva, gametas masculinos e femininos, sexo reprodutivo, dão a entender que no principio tudo era heterossexual, ignora-se completamente que os primeiros animais eram todos hermafroditas e que a divisão em gêneros é tardia na história da vida do planeta. Também confundimos Sexo (biológico, macho/fêmea/hermafrodita), Gênero (social, masculino/feminino) e Sexualidade (psicológico, homo/hetero/bi/trans/assexuado) como se Masculino e Feminino fossem as únicas classificações que possam existir para todos os seres que dividem a Terra conosco.
Heterossexualidade, que não é um Sexo, nem um Gênero, não tem absolutamente nada de natural, ela é compulsória. Compulsória porque a criança é obrigada a aceitar aquele padrão que lhe é imposto e negar todas as outras possibilidades que lhe são oferecidas de antemão. Ela também não tem a maturidade necessária para questionar aquela imposição. Acredita, ao ser exposta somente ao mesmo modelo, que aquele é a única experiência em que pode desfrutar de sua sexualidade e sem pensar se quer, se deseja, repete o modelo que aprendeu com os próprios pais, com os avós, com os bisavós.
É interessante que para garantir essa heterossexualidade compulsória existem inúmeros mecanismos para evitar que alguém se desvie do caminho que lhe foi traçado. A homofobia é um destes mecanismos, o machismo outro, mas o mais antigo é definitivamente a marginalização das outras formas de experiência sexual que foi imposta pela medicalização e pela criminalização. Tornar gays, lésbicas, bissexuais e travestis doentes e/ou torná-los marginais e criminosos, ambos processos que acontecem no início do século XIX, são os marcos que definem dentro da sociedade burguesa quais os caminhos que aqueles homens queriam construir para a sua sociedade.
Isso que é interessante! Homens que viveram em 1800 continuam ditando os padrões sexuais que devemos viver para garantir para eles uma prole para que suas fábricas tenham trabalhadores aos quais eles possam pagar um xelim ao dia. Para que o sexo tenha fins reprodutivos e o mundo esteja cada vez mais apinhado de pessoas para trabalhar por pouco e gastar muito, a burguesia incute ainda um modelo de família, por exemplo, que foi inventada somente 200 anos atrás e o faz reaparecer dentro mesmo de discursos produzidos antes de Cristo, como na Bíblia, ou os mitos greco-romanos apropriados pelos estúdios Disney e o cinema americano, em que os únicos casais citados são aqueles formados por um homem e uma mulher, apagando-se por completo os casais poligâmicos (um homem e várias mulheres) porque eles não tem função social em nossa contemporaneidade.
O modelo de família e sexualidade heterossexual foi inventado. Tem data de nascimento e tem objetivo claro para sua manutenção. Acreditar que ele é natural é, no mínimo, ingenuidade. Acreditar que não podemos questioná-lo e subvertê-lo facilmente é somente preguiça de agir. Porque é fácil derrubar algo que está apoiado no ar, basta somente um empurrão.
