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terça-feira, 2 de outubro de 2012

Observemos!

, em Natal - RN, Brasil
Natal tem experimentado uma novidade neste último ano que retornei: o deslocamento das festas gays para região norte da cidade. Para entender o que isso significa é necessário conhecer um pouco da Cidade do Sol. A capital potiguar é dividida em regiões administrativas batizadas com os nomes dos pontos cardeais. A Zona Sul é a mais rica e, portanto, a que reúne os bares mais caros, as boates consideradas melhores, os endereços mais quentes, em resumo, citando Cazuza. Ponta Negra, Neópolis, Candelária e Lagoa Nova reúnem a fina flor da sociedade natalense. Já a Zona Leste é a mais antiga da cidade e se divide em uma região pobre (Rocas, Mãe Luíza), bairros com o metro quadrado caríssimo como Tirol e Petrópolis e uma região que congrega a cena underground da cidade. Bairros como a Ribeira e a Cidade Alta reúnem bares de rock, boates indie, sambas de raiz, bares antigos, sebos, becos batizados com nomes estranhos e cafés modernos nos quais se encontram os intelectuais e pseudo-intelectuais natalenses. A Zona Oeste, no entanto, é bem popular. Com uma população de baixo poder aquisitivo, comparada com a região mais pobre da Zona Leste, e com índices de criminalidade parecidos, senão superiores. É uma região de bairros tradicionais como o Alecrim e a Cidade da Esperança, que tem o maior foco no comércio popular de rua, e regiões residenciais como o Nossa Senhora de Nazaré, Felipe Camarão e Dix-Sept Rosado. 
A Zona Norte localiza-se do outro lado do rio Potenji que corta Natal. Era uma antiga região dormitório da cidade que cresceu basicamente por meio de conjuntos habitacionais com preços populares, contudo, de uma década para cá, essa população ascendeu a classe média e ganhou maior poder aquisitivo. Logo a ZN ganhou sua própria região de comércio, o bairro de Igapó, e começou a atrair para aquela região da cidade cuja malha de transporte coletivo só tem ônibus que saem de lá e levam as empregadas domésticas para a casa dos patrões um investimento intenso para fixar o dinheiro dos moradores lá mesmo. Os moradores da Zona Norte não queriam mais deslocar-se para outras regiões da cidade para gastar o dinheiro deles. Restaurantes e bares, pequenas e grandes lojas começam a abrir por toda a região planejada anteriormente para ser apenas residencial o que culmina com a inauguração do Norte Shopping, seu primeiro grande shopping com cinema, Carrefour, McDonalds, C&A e Colcci do outro lado do rio. 
Os habitantes do Santarém, Pajuçara, Parque das Dunas, Salinas e Redinha não queriam mais se deslocar até o outro lado da cidade, principalmente, para se divertir. A conclusão lógica, sobretudo a noite, seria deslocar-se as opções de lazer noturna para aquela região da cidade; contudo, sobretudo no meio gay, esta opção era encarada com grande preconceito. Algum empresário abrir uma boate na Zona Norte era enfrentar de cara o preconceito que as outras regiões da cidade tem com a ZN. É mais fácil um morador da Zona Sul ou Leste deslocar-se para uma cidade próxima como Macaíba, Parnamirim ou Tibau do Sul, na famosa praia da Pipa, do que ele resolver ir a uma boate que ficasse localizada na Zona Norte. Apesar disso, tenho visto, surpreso, a explosão de festas gays na região.
São festas, não abriu nenhum lugar novo por lá. Elas têm um mesmo padrão: organizadas como uma private, elas se lançam em grupos no Facebook e são organizadas por amigos que alugam uma casa de praia na Redinha ou Santa Rita, o material básico de som e luz e contratam um DJ que está começando. Com nomes em inglês (End of the world, Open Minds), e claramente inspiradas em pool parties, cobram um entrada que varia entre R$ 10,00 e R$ 15,00 que dá direito durante toda a noite a, normalmente, caipirinhas feitas com a cachaça mais barata do mercado, mas que permitem também que você traga sua própria bebida de casa (eles fornecem o gelo), ou seja, com a mínima possibilidade de dar prejuízo aos organizadores. O público é composto basicamente por moradores da Zona Norte, meninos de uma geração que foi nascida e criada na região, de pais que compraram sua primeira casa própria por ali nos conjuntos habitacionais e melhoraram de vida. São meninos jovens, bonitos e estudados, ligados em moda e tecnologia e frequentadores ávidos de academias. Meninos e meninas que também se descobriram gays cedo e lidam com sua sexualidade de uma forma natural. Em todas as festas, existe sempre na entrada um grande recipiente lotado de camisinhas e gel lubrificante e, como as festas se realizam em casas, os quartos são abertos para que os participantes possam utilizá-los. Pequenas orgias acontecem, meninos que fazem sexo com seis ou sete na mesma noite também, alguns que saem com a fama de terem pelo menos dado, beijado ou chupado cada um dos membros da festa são comuns.  
Estas festas são um espaço novo que estes jovens da Zona Norte estão conquistando. Já ouço algumas pessoas no meio gay argumentarem que preferem as festas nas casas de praia do que o ambiente tão batido das boates da cidade "no qual sempre estão as mesmas pessoas". O argumento que me relembra o boom de raves que vivi na minha casa dos vinte anos aqui em Natal. Reconheço também, sobretudo entre os meninos e meninas mais jovens que moram na Zona Sul e Leste tem tido cada vez mais participação nas festas, trazidos sempre por amigos, e que acabam gostando daquele clima de liberdade sexual que paira nestas casas de praia. Falta, de fato, profissionalismo. É tudo ainda muito amador, são apenas meninos brincando de fazer festas para seus amigos, contudo enxergo aí o início de uma mudança para a cidade. A cena gay de Natal está mudando, observemos.

26 comentários:

  1. Descobri que tenho um lado conservador quando foram mencionadas as orgias, mas depois lembrei de ter lido que existem camisinhas disponíveis logo na entrada.

    Mas prevejo que esses os meninos da zona norte não vão ficar nada felizes quando o resto da cidade resolver "invadir" a festa deles...

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    1. adorando meus novos leitores anônimos <3

      pois é, tem muita camisinha disponível. é um povo conscient, apesar de bem jovem.

      sobre a invasão, ela já está acontecendo, o problema talvez seja qndo eles tentarem "tomar" as festas né?

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  2. Que bom que essas festas gays estão aumentando, sinal de que mais gays estão fora do armário.

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    1. concordo, com mais público, mais festas.

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  3. Sim, tudo muda neste mundo de meu Deus ... principalmente qdo a turma da grana descobre q o meio gay é um filão sem fim para se ganhar dinheiro ... isto está provado ... burros seriam se não explorassem este segmento ... não acho q isto tenha muito haver com mudança de comportamentos mas, pode ajudar muito na quebra de preconceitos e paradigmas ...

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    1. chama capitalismo né? e o capitalismo sempre destrói preconceitos quando descobre que pode lucrar com isso. acabou com a escravidão porque precisava de mercado consumidor e trabalhadores assalariados, tb vai acabar com a homofobia para poder vender carros, viagens e jóias para casais que não precisam se preocupar com filhos.

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  4. To tentando postar aqui, mas a internet da facul nao ajuda mesmo. Já perdi duas vezes o que escrevi.

    Olha, aqui na minha cidade é tao diferente... Para entrar na balada é pelo menos 25 reais e isso só para entrar, e na balada que eu mais ia, só para entrar é 50 reais.. mais bebida... Por isso nao tenho mais saido tanto.. Nao tenho mais dinheiro e comecei a trabalhar e vi que nao cresce em árvore.. é difícil ganhar... mas o povo aqui ainda n percebeu isso.

    Tenho saudades de festas como estas que vc falou. Que liberdade, diversao... Nossa, muito bom. E vc, vai frequentar???

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    1. Frequentar é uma palavra muito forte, Otávio. Ir de vez em quando, é melhor, qndo eu quiser rir um pouquinho da facilidade com que as pessoas fazem sexo. E sabe o que foi melhor? Eu estava em um lugar em que todo mundo tava fazendo sexo e se pegando e nem tive crise de pânico.

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  5. Sejam movidas pela evolução ou por intere$$eS financeiros - mudanças que surgem para melhorar as coisas - são sempre bem-vindas, nzé?

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  6. E participemos, né???

    Achei tão animado.. Qdo for a antal quero ir numa festa na Zona Norte.. Um Lusho!!!

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    1. na última q eu fui eu bebi tanto, que a noite passou rápido, e eu nem fiquei bêbado e nem com ressaca. Vodca is God!

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    2. A festa é primaria, coisa feita de criança pra criança.. Mas vende vodka barata q n te deixa bebado... O nome disso???

      Magia e encantamento....

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    3. a garrafa de vodca foi 16 reais, bebi a noite toda e fiquei ótimo e sem ressaca...

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  7. Vou mudar pra Natal a-go-ra! #MENTIRA!

    Bom, tudo muda, não é?

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    1. ah, droga, já tinha até me animado por aqui. hehehe

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  8. Aqui para mim desloco para a cidade central Belo Horizonte e achamos baladas baratas e cara para todos os gostos e as regiões com muito ambientes gays. Dá para se divertir muito, mas ir de vez em quando e tem lugares de badalo e mais sociais sempre bom variar também. Este segmento tem crescido e é bom sem dúvida.

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    1. eu conheço BH, morei lá por 4 anos, e inclusive vou passar o feriado do dia 12/10 lá novamente.

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    2. Oh legal, quem sabe nos esbarramos em alguma balada por ai

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  9. Oi ... Como Curitiba está precisando dessas mudanças. Aqui encontrasse sempre as mesmas "caras" quando saímos. Faltam opções. Gostei da ideia das festinhas. Abraços !!

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  10. A peruca (made in 25 de março) da Aguilera tá phoda mesmo... virge!!!! Hahahahaha!

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  11. Essa "festinha" é bem do tipo que eu passaria a quilômetros de distância. Por n motivos. E pode me chamar de conservador...

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  12. VIXE, fiquei perdido na Cidade do Sol, rsrsrs! Zona sul, norte... já não basta SP?!

    Agora... essas festas têm cara daquelas de repúblicas americanas... Acho legal essa dinâmica de marcar on-line ou por boca, mas misturar molecada, bebida e sexo? Hum... sei não...

    Abraços!

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    1. é bem república americana mesmo, Peter, a comparação é ótima. agora não vejo problema misturar ESSA molecada com bebida e sexo, eles são bem responsáveis pelo que deu pra ver. já vi grupos bem mais preocupantes.

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  13. Isso é muito legal. O público de Salvador ainda se encontra refém das boates, com preços nada populares, mas o Beco dos Artistas está se revigorando e tornando-se deliciosamente underground.

    É sempre uma delícia ler os seus textos.

    Beijos,

    Menino G.

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  14. bacana essa mudança. sempre sai coisa boa daí.

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" Gosto de ouvir. Aprendi muita coisa por ouvir cuidadosamente."

Ernest Hemmingway