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terça-feira, 8 de maio de 2012

Índia: Os Dançarinos do Deva




Sri Jagannatha, senhor dos Gotipuas, é uma divindade popular de Krsna, adorado em Orissa e em todo o mundo. Ele é acompanhado por seu irmão, Sri Baladeva, tanto quanto a sua irmã, Subhadra, a personificação da potência interna do Senhor. As três divindades são adoradas com grande pompa em Jagannatha Puri, onde seu tempo original está localizado.
O templo Jagannatha tem uma longa história de danças tradicionais, tanto femininas como de travestis masculinos. Em tempos antigos, as devadasis, dançarinas dos deuses, femininos eram jovens mulheres que dedicavam sua vida apenas as deidades do templo. No seu auge, chegavam a centenas e mantinham coreografias elaboradas e inúmeras músicas que faziam parte essencial do culto diário aos deuses. As devadasis estavam divididas em vários grupos diferentes, cada um com seus códigos de conduta específicos, estilos de danças e perímetros de culto. As classes mais altas, as mahari, era composto por virgens celibatárias que dançavam privadamente para o Lorde Jagannatha nos santuários mais íntimos do templo, enquanto as classes mais baixas, dançavam nas cerimônias públicas dentro do templo e, com frequência, serviam também como cortesãs. Outra classe conhecida são as nachuni dançava diante da corte real de Orissa, entretendo os reis e outros nobres. 
O atual templo Jagannatha foi construído no século X a.C., depois de muitas devadasis serem trazidas do sul da Índia onde a tradição era mais comum. No século XII, Maharaja Chodagangadeva (1076-1147) estabeleceu grande parte do novo rito e estabeleceu regras severas para as devadasis, proibindo toda prostituição como também qualquer contato de homens com as garotas. Depois disso, no entanto, a tradição das devadasis começou a declinar e em 1360, após um ataque muçulmano, as virgens foram violadas. Puri, todavia, recuperou-se, e no início do século XVI - sobre o reinado do Maharaja Pratuparudra (1497-1540) - todo o culto original foi reestabelecido. Sri Caitanya foi recolocado no Puri ao mesmo tempo, inaugurando o reinício do culto de bhakti.
Dançarinos masculinos travestidos, conhecidos como gotipuas, também participavam da longa tradição  de Puri, especialmente popular durante o reinado do marajá Prataparudra. Na tradição gotipua, belos jovens homens eram treinados nas várias técnicas de dança como a bandha-nrtya, na qual se vestiam como as devadasis com saris coloridos e pesada maquiagem. Mas, diferente das devadasis, gotipuas se apresentavam muito mais em público e estavam ligados a grandes cerimônias que recebiam inúmeros peregrinos. As suas coreografias mais populares eram exatamente aquelas em que os gotipua tentavam seduzir a divindade do Sri Baladeva. 
Os gotipuas eram devotos do Jagannatha e viviam fora do perímetro do templo. Em tempos antigos, os gotipuas mais talentosos serviam como instrutores de dança, cortesãos masculinos, e atuavam como intermediários entre homens e as devadasis. Em um tempo em que todos os festivais, cerimônias e o próprio entretenimento estava todo centrado no templo, os mais talentosos devadasis e gotipuas eram extremamente celebrados. 
A tradição devadasi de Puri é atualmente extinta. Em 1956 só havia 9 devadasis no templo, e aos fins do século XX apenas duas, já idosas, ainda restavam. Suas coreografias e técnicas foram perdidas, no entanto, a tradição gotipua continua, e muitos pequenos grupos continuam a se apresentar em Puri e pelo estado de Orissa. Apesar do fim das devadasis, o templo Jagannatha Mandira mantem-se um dos mais populares e conhecidos da Índia. Lorde Jagannatha é especialmente piedoso com aqueles que falham e por esta razão é extremamente adorado por todos os hindus, inclusive aqueles do terceiro sexo. Todo verão, no mês de Asadha (junho-julho), acontece um grande festival conhecido como Ratha-yatra, em honra dos três deuses, que atraem milhões.
O mais importante aqui, e tem sido em todos os textos que temos feito aqui sobre a Índia é sua relação com os transexuais. Eles, sem sombra de dúvida, são tratados de uma forma distinta da nossa sociedade ocidental. Não que eles sejam tratados bem, nem sempre o são, mas há um lugar para eles, um estamento claro do qual eles não podem se mover, mas existe um lugar, enquanto nossa sociedade insiste em empurrar estes personagens para as margens, para tentar fazê-los ficar invisíveis. Na Índia tais personagens não precisam ser invisíveis, pelo contrário, existem momentos muito nobres em que eles devem receber seus louros.




29 comentários:

  1. Vi o marcador HomoHistória e bem que pensei que você poderia escrever um livro sobre essa questão do homoerotismo na história. Eu nem gosto da Índia, mas essas histórias mudaram um pouco a visão que tinha de lá (apesar de continuar não gostando, ehhehe)

    bjs

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    1. assim que tiver textos o suficiente pretendo reunir todos em um livro sim, moço.

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  2. A religião dos povos apresenta-se muitas vezes com características próprias.
    São representadas por danças e roupagens que escondem outras facetas menos visíveis.
    Sempre existiram pessoas ou grupos que se afirmam pelas suas próprias crenças e que arrastam multidões pelo que defendem ou representam.
    Um bom artigo de história universal.

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  3. eu sou um grande apaixonado por mitologia, mas minha "menina dos olhos" sempre foi a Grega. Gosto tanto de aprender com vc aqui sobre a indiana.
    bjao

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    1. sabe q no meu doutorado eu estudo mitologia grega não é?

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    2. Sabia não. Temos que conversar mais. ;) alias, tenho que ouvi-lo mais.

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    3. será um prazer, ó o msn aew: le.foxx@hotmail.com

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  4. Mitologia é mesmo um tema fascinante. E cá pra nós: tb adoro "receber" um louro... hahaha! Bjz!

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  5. lindo! incrível com a história é rica em casos sobre as questões de gênero mas como fazemos questão de ignorar..triste..

    também acho que você deveria fazer uma compilação e publicar, ia vender horrores!!!

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    1. farei isso mesmo, Melo, espero que vc compre também. =)

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  6. E me corrija se eu estiver errado, a Índia deve ser o únio lugar do mundo no qual as transexuais têm esse diferencial, né? Como a cultura e a tradição influenciam nos comportamentos modernos, né não?

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    1. até onde eu saiba, Junnior, é só na índia mesmo. mas convenhamos, eu não sei de nada hehehe

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  7. Eu fui pesquisar na net sobre esse festival, o Ratha-Yatra... muito interessante! E no YouTube também tem muitos vídeos. Só não consegui achar alguma coisa sobre os gotipuas (é isso?) os transexuais. Será uma barreira do YT ou atualmente eles não são mais tão numerosos?

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    1. acho que vc não procurou direito, Cesinha.
      ó aqui: http://www.youtube.com/watch?v=u5HA7gA1SQU

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    2. Lindo esse vídeo, Foxx... engraçado, eu devo ter digitado "gotipuas" de forma errada, pois não havia aparecido essa quantidade que aparece agora.

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    3. acontece, doutor, acontece... hehehe

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  8. Pior que não fui ao MET, acredita? Acabei ficando e METendo em casa... hahahahahahahaha! Bjoxx, Foxxx!

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  9. Eu queria saber como a gente pode tah fazendo pra ser uma gotipua... Não é pra mim não, é pra um vizinho meu... Não tem nenhuma rádio que sorteia passagem pra festa ou algum programa tipo o do Celso Portiolli com concurso pra melhor gotipua ir pra festa não????

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    1. vizinho... sei... conte essa estória direito, gato.

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  10. Maravilha esses seus relatos. Fascinantes! Não sei se você conhece um pouco sobre Candomblé. Existe um orixá, Logun Edé, um orixá masculino, mas que metade do ano age com a doçura e a benevolência de Oxum (um orixá feminino) e a outra metade como Oxóssi (orixá masculino), sério e solitário. É deveras interessante também.

    Abraços.

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    1. eu conheço sim, tb falarei dos orixás, no tempo certo. =)

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  11. É uma cueca feia, sem dúvidas... Mas pelo que corre em Blogsville tu a preencheria MUITO BEM...ui! Hehehehe! Hugzão, Foxxão!

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  12. Eu tbm queria Saber Aonda Eu estava! mais pelo horário eu estava na Clinica! =/

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  13. A Índia é repleta de histórias lindas, exemplos, etc. ^^ Muito legal o post. Bjs

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  14. Pois é. Eu que não sei dançar, porque se eu soubesse iria querer ter nascido transexual na Índia... rs

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" Gosto de ouvir. Aprendi muita coisa por ouvir cuidadosamente."

Ernest Hemmingway