O ano é 1963. Estou aqui nesta cela há quatro anos já. E hoje é meu último dia. Naquele dia receberia a injeção que paralisaria meus pulmões enquanto eu dormia. As grades que foram minhas únicas companheiras nestes anos não me dirão adeus quando eu partir hoje. Partir de vez. O pior é que realmente eu desejo esta morte, porque eu sei que sou culpado. Todas as noites, desde que fui trazido para cá eu tenho o mesmo sonho. O sangue dele ainda escorre pelas minhas roupas todo dia quando acordo. E se aqui houvesse um espelho, eu tenho certeza que ainda veria meus olhos dilatados pelo ácido que me permitiu fazer tudo aquilo. O pior, o pior de tudo, é porque eu realmente o amava.
Não consigo lembrar o dia que o conheci, não mais, mas o dia que o perdi. Este dia sim. Ficou registrado e passa todos os dias diante dos meus olhos. Lembro do festival, e ainda consigo sentir a grama entre meus dedos dos pés, quando estávamos lado a lado no Buena Vista Park, ele ria feliz, por minha causa, por causa das drogas que dividíamos juntos, e do sexo que descobrimos juntos. Ensinamo-nos que dois homens podiam se amar sim. Mas aquele ácido, o maldito ácido, tomou conta de mim, e transformou o amor que eu sentia numa ira desenfreada de ciúme. Para mim todos o queriam. Para mim ele queria todos. E porque não? Estamos nos tempos do amor livre. Eu sabia disso. Todos sabiam. Porque deveríamos exigir fidelidade. Isso é coisa do passado. Coisas dos nossos pais. Mas o ácido.
Foi no apartamento dele que tudo aconteceu, naquele prédio antigo de paredes de tijolos aparentes. Cheguei e ouvi barulhos. Ele tinha amigos na casa. Cigarro e bebidas por todos os lados. Pó e ácido lambidos e cheirados nos corpos das pessoas que espalhavam-se pelo chão. Alguém tocava Janis Joplin ao violão quando eu entrei, To Love Somebody, acredito eu. Ele estava lá no centro distribuindo o amor que os deuses deram a ele. Era o próprio Kama em sua nova encarnação. Homens e mulheres o tinham. Mas eu o queria para mim. Somente para mim. Ele não queria ser somente meu. Ele não era de ninguém. Liberdade, liberdade, ele gritava em nome de todos os deuses hindus. Ele me ofereceu o pó em sua própria mão. Depois álcool de sua própria boca. E quando tudo aquilo tomou conta do meu corpo e aquele corpo dele era possuído por inúmeros outros corpos, eu me descontrolei.
Aquele machado estava ali. Não sei como ele surgiu em minhas mãos. E num momento depois era o sangue dele que se espalhava pelo chão, pela minhas pernas e meus cabelos. Ele estava morto. E eu chorava ensandecido. Ele parecia Chinnamasta, mas não me concederia acesso a consciência universal. Fui preso ali mesmo, ajoelhado no sangue dele. Não tentei fugir. A corte aleguei culpa e pedi para ser castigado. Pedi pena máxima e eles não se envergonharam em me oferecer a pena de morte. Eu sentei naquela cela e esperei, desde então, por este dia. O dia que eu pagaria por ter matado aquele que eu amava. Os guardas chegaram na hora esperada. Levantei-me sem protestos e um deles elogiou-me o comportamento. Mas porque eu me apegaria aquela vida? Era hora de partir!
Em 2005, eu fiz uma sessão de regressão. Isso foi o que descobri sobre o meu passado.
Não consigo lembrar o dia que o conheci, não mais, mas o dia que o perdi. Este dia sim. Ficou registrado e passa todos os dias diante dos meus olhos. Lembro do festival, e ainda consigo sentir a grama entre meus dedos dos pés, quando estávamos lado a lado no Buena Vista Park, ele ria feliz, por minha causa, por causa das drogas que dividíamos juntos, e do sexo que descobrimos juntos. Ensinamo-nos que dois homens podiam se amar sim. Mas aquele ácido, o maldito ácido, tomou conta de mim, e transformou o amor que eu sentia numa ira desenfreada de ciúme. Para mim todos o queriam. Para mim ele queria todos. E porque não? Estamos nos tempos do amor livre. Eu sabia disso. Todos sabiam. Porque deveríamos exigir fidelidade. Isso é coisa do passado. Coisas dos nossos pais. Mas o ácido.
Foi no apartamento dele que tudo aconteceu, naquele prédio antigo de paredes de tijolos aparentes. Cheguei e ouvi barulhos. Ele tinha amigos na casa. Cigarro e bebidas por todos os lados. Pó e ácido lambidos e cheirados nos corpos das pessoas que espalhavam-se pelo chão. Alguém tocava Janis Joplin ao violão quando eu entrei, To Love Somebody, acredito eu. Ele estava lá no centro distribuindo o amor que os deuses deram a ele. Era o próprio Kama em sua nova encarnação. Homens e mulheres o tinham. Mas eu o queria para mim. Somente para mim. Ele não queria ser somente meu. Ele não era de ninguém. Liberdade, liberdade, ele gritava em nome de todos os deuses hindus. Ele me ofereceu o pó em sua própria mão. Depois álcool de sua própria boca. E quando tudo aquilo tomou conta do meu corpo e aquele corpo dele era possuído por inúmeros outros corpos, eu me descontrolei.
Aquele machado estava ali. Não sei como ele surgiu em minhas mãos. E num momento depois era o sangue dele que se espalhava pelo chão, pela minhas pernas e meus cabelos. Ele estava morto. E eu chorava ensandecido. Ele parecia Chinnamasta, mas não me concederia acesso a consciência universal. Fui preso ali mesmo, ajoelhado no sangue dele. Não tentei fugir. A corte aleguei culpa e pedi para ser castigado. Pedi pena máxima e eles não se envergonharam em me oferecer a pena de morte. Eu sentei naquela cela e esperei, desde então, por este dia. O dia que eu pagaria por ter matado aquele que eu amava. Os guardas chegaram na hora esperada. Levantei-me sem protestos e um deles elogiou-me o comportamento. Mas porque eu me apegaria aquela vida? Era hora de partir!
Em 2005, eu fiz uma sessão de regressão. Isso foi o que descobri sobre o meu passado.