"Mas tudo isso não adianta de nada, se nesta selva obscura e
desvairada não se souber achar a bem-amada
- para viver um grande amor"
Vinicius de Morais
Tem desenhos, pinturas, papiros, calendários e espelhos nas minhas paredes.
Minha cortina foi feita com retalhos de tecidos coloridos e me lembra uma lona de circo.
Eu prendo a cortina com uma tira de tule.
Eu tenho aqui, em Belo Horizonte, cento e três livros em uma estante de metal.
E mais de cento e vinte revistas em quadrinhos.
São três travesseiros na minha cama.
Um candelabro antigo apoia meus livros na prateleira.
Seis cristais estão no umbral da janela.
Eu tenho um aquário com um peixe, um betha azul, chama-se Barnabe.
Tem um vaso de violetas também, que não floresce nunca.
Há um guarda-roupa de armar, e uma sapateira de caixa de maçã que eu fiz.
Tem dois cabideiros na parede também. Um para roupas chuvalhadas, outro para meus dez bonés.
Na mesa do computador, com uma luminária que fiz com uma garrafa de vinho gaúcho, também tem um cofre de vaca que o Bê me deu, junto com um coelho de borracha que o Dani me trouxe de presente.
Tem hidratante, vitaminas, perfumes, desodorante, loção adstringente, óculos, fones de ouvidos, luvas de musculação, presente do Gusta Fernandes, contonetes, máquina de cortar cabelo, minhas pulseiras e colares, tudo em uma estange de plástico.
No cesto tem roupa suja.
Tem quatro livros que peguei nas bibliotecas da UFMG.
Estão guardados em cima do guarda-roupa dois edredons, dois cobertores, vários lençois.
E três toalhas e uma manta.
Tem um porta-lápis feito com o tubo de papelão do papel higiênico, que tem pincéis, lápis de cor, lapiseiras, apontadores, lápis nº 2, canetas, uma tesoura e um estilete.
Tem um cortador de unhas e duas pinças.
Um tapete e uma cadeira de escritório que deixa minha bunda quadrada ficam em frente ao computador.
Tem o cd do Creator Alme que o Mamma Sybill me deu, do acustico do The Corrs e da Cássia Eller e da Ópera do Malandro.
Eu tenho as temporadas completas de Avatar, Glee, Wolverine and The X-Men, Sex and The City, Queer As Folk, Noah's Arc, The Big Bang Theory, Spartacus e Ugly Betty.
Tem o cd do Celtic Woman, presente do Vilser.
Tem o dvd de X-Men 2, Ben Hur, Bastardos Inglórios, Pulp Fiction, Velvet Goldmine, Era do Gelo, Encontros e Desencontros, Dia de Furia, Bent, Party Monster, Hermanoteu na Terra de Godah, 300, Cartas de Iowjima e Júlio César. Também tem Amores Imaginários, Eu Matei a Minha Mãe, The Boy of The Band, Trick, Orações para Bobby, Rock Horror Show e O Outro Lado de Hollywood.
Várias cópias dos cronistas dos séculos XVI e XVII que eu trabalho estão numa caixa de aguardente.
Em cima, tem um squeeze que o Anjo esqueceu quando veio aqui em casa.
Tem caixas de encomendas dos correios que guardam documentos e os carregadores de meus celulares.
Também jaz ali minha câmera fotográfica, e seu cabo e seu carregador.
Tem papel sulfite, branco, mas as vezes compro amarelo ou verde.
Tem oito bolsas penduradas num porta-bolsas que fiz, do lado oposto ao porta-cintos que trouxe de Natal, com quinze cintos.
Sem contar com as camisas, camisetas e regatas que uso para ficar em casa, eu tenho cinquenta e duas, mais dois cachecois, doze blusas de frio (ou seriam casacos?), sete calças jeans, três calças de alfaiataria, uma de sarja e um moletom, onze bermudas, de cumprimentos variados, várias cuecas e meias, cinco shorts (sendo dois micro) e uma mala.
Ali está um insensário que não é meu.
Tem dois guarda-chuvas que eu e uma amiga trouxemos de Inhotim.
Tudo sobre um chão de madeira, sem esquecer das paredes brancas, e um teto. E a luz fluorescente.
Tem tudo isso, mas o que eu quero, não tem.