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terça-feira, 10 de abril de 2012

Índia: O Príncipe Kliba

, em Natal - RN, Brasil



Brihannala (também escrito como Brhannada, Brihannada, Brihannata ou Vrihannala) aparece no épico hindu Mahabharata, foi o nome assumido por Arjuna que disfarçou-se como um membro do terceiro gênero por conta de uma maldição de Urvasi, uma apsara. Seu nome significa "cana grande" ou "ter uma cana grande". Sua transformação aconteceu porque ele e seus cinco irmãos, os Pandavas, foram exilados do seu reino de direito por doze anos, e o último ano deveria ser passado incógnito. Arjuna pensou então em disfarçar-se como uma mulher, porém graças a maldição lançada pela ninfa ele se transformou em um kliba. Esta maldição caiu sobre ele porque um dia que visitava seu pai Indra, Arjuna se recusou aos avanços amorosos de Urvasi que, irritada, o amaldiçoou a se tornar um kliba, homens que se vestem e se comportam como mulheres e tinham atração sexual por homens.

Arjuna apavorou-se com a maldição iminente, mas aconselhado por Krishna, ele descobriu que esta seria a melhor maneira de passar o ano final de seu exílio de forma incógnita. Quando o ano final chegou, os Pandavas decidiram que voltariam a sua cidade natal que agora era governada por Maharaja Virata. Yudhisthira, o mais velho dos irmãos, foi o primeiro a retornar a cidade e se apresentou ao rei, sem ser reconhecido, elogiando suas qualidades nobres e generosas e pedindo abrigo e emprego ao rei sob seu domínio.

Arjuna foi o terceiro irmão a entrar no palácio, mas antes vestiu-se de mulher e ao vestir-se ele foi transformado pelo poder de Urvasi em um kliba. Esta terceira classificação de gênero é conhecida como tritiya-prakriti e é descrito como a combinação da natureza do macho e da fêmea, sem, no entanto, ser nenhum dos dois. Arjuna então se apresentou como Brihannala, vestido com uma blusa feminina e um sari vermelho de seda. Ele-ela usava numerosas pulseiras de marfim, brincos de outro e colares feitos de coral e pérolas. Seu cabelo era longo e trançado e ele dançava a marcha das quatro águas. Ao mesmo tempo que seu corpo continuava incrivelmente forte e musculoso, sua feminilidade e beleza apareciam o tempo todo o que fez com o rei admirado afirmou que "seu traje feminino esconde sua glória masculina, mas ao mesmo tempo não. Você aparece apenas como a lua cheia quando eclipsada por Ketu", algo como, sabemos que esta lá, mas não dá para ver.
Apresentando-se como um(a) dançarina(o) profissional e musicista treinada(o) por Gandharvas, Brihannala explicou que era especialista em canto, decoração de cabelo e "todas as velas artes que uma mulher deveria saber". Após a exibição de suas habilidades diante de um juri, Brihannala foi testada(o) por mulheres bonitas para garantir que ele era realmente um kliba. Se ele fosse apenas um eunuco ou um neutro, os homens do palácio poderiam ter-lhe examinado eles mesmos os seus testículos. O rei satisfeito concordou que ela/ele vivesse entre as mulheres do palácio e as instruísse no canto e na dança. Logo Brihannala se tornou a(o) favorita(o) dentro da câmara feminina de tal modo que o rei o instruiu, por ser bem-nascida(o), a tornar se tutor(a) da bela princesa do reino, Uttara Kumara, ensinando-lhe as artes. Dizendo-lhe: "Brihannala tu pareces ser uma pessoa bem-nascida. Tu não pareces ser uma dançarina ordinária. Trate-a com o respeito devido a uma rainha e ganharás as riquezas de seus apartamentos". E quando os Kauravas atacaram o reino por suspeitar que os Pandavas serviam em nome do rei ali, ela/ele foi o responsável pela vitória da guerra. 
Os especialistas ainda se surpreendem hoje em dia com a naturalidade que este texto trata da transformação do Arjuna e sobretudo com a inexistência de críticas a situação que se coloca o príncipe, tanto por seus irmãos, mas sobretudo pelo rei. Choca nossa sociedade ocidental a ideia de que uma pessoa transgênero possa ser absorvida na corte do rei hindu de forma tão tranquila e sem demonstrar preconceitos. No poema épico, em momento algum se coloca a posição do kliba em situação inferior aos outros gêneros (homens e mulheres). E isso surpreende os leitores do Mahabharata desde que ele foi traduzido pela primeira vez em 1968, mas este problema é apenas culpa de nossa própria cultura na qual não cabe a transição entre gêneros desta forma.


24 comentários:

  1. Meus oráculos me dizem que muito em breve terás príncipe/marido para te ofertar ovos. Mesmo fora da Páscoa. Hahahahahaha. Hugzito, Foxxito!

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  2. espetacular! adoro qdo vc compartilha estes aspectos culturais ... ainda vou estudar um pouco disto tudo ...

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    1. que bom que vc gosta, Paulo, infelizmente essa coluna é a que menos recebe comentários, parece q pouca gente gosta delas.

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  3. Meu amigo, eu realmente adoro e “procuro” entender sobre esses assuntos. São muito profundos... ao menos para o meu Bhagavad-Tico e o meu Gita-Teco (rsrsrs). Eu vivo dizendo que ler Kant é complicado, então...

    Abração.

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    1. qualquer dúvida, meu querido Lucas, basta perguntar q eu tentarei explicar.

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  4. Parabéns pelo post. Seu blog está me cativando com este tipo de post, mesmo eu não sendo um cara culto.

    Grande abraço.

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    1. que bom q vc gosta, de verdade, como vc pode ver são poucos os comentários então eu fico pensando que as pessoas não gostam... é bom ver q tem qm goste tb.

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  5. FOXX, nao sei se vc já postou sobre o assunto, acho que me lembro, e também já vi um documentário e vi que sao muitas as klibas nao é? E sao muito, muito excluidas da sociedade e o preconceito é ENORME, nao é?

    E pela própria cultura entao nao deveria existir tal preconceito?? Bacanerrimo!!! Espero que um dia voltemos a um ponto assim.

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    1. o preconceito não é ENORME, Otávio, eles tem seu lugar na sociedade, porém a sociedade hindu é uma sociedade de castas, cada grupo tem o seu lugar específico e não pode se mover, por ex: aos klibas são reservados certas profissões como a prostituição, artes e cabeleireiros e maquiadores (não mto diferente de nossa sociedade, convenhamos), eles então devem viver assim, não podem por exemplo tentar ser advogados. existe um lugar social em que eles são bem-vindos, mas não podem escapar dele (de novo, não mto diferente de nossa sociedade).

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  6. Pela maldição da ninfa, li o texto como um mito.
    Porém, Arjuna teria vivido como alguém do terceiro gênero por realmente o ser ou pela maldição? E por que os dois irmão não se transformaram também?
    Interessante tudo isso.

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    1. é um mito, Junnior.
      a maldição é apenas para Arjuna que é quem renega o amor da ninfa, ele então utiliza da maldição para cumprir o ano incógnito do seu exílio. ele une o útil ao agradável, digamos assim. os outros irmãos já escolheram outros disfarces.

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  7. Gostei muito do texto, e concordo com vc com a naturalidade que era tratado essa forma de comportamento e que hoje é tratada com preconceito e tabus

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    1. pois é, a grande função da história é desnaturalizar as coisas. muita gente repete por ai que ter preconceito é natural, mas não é. as pessoas são educadas a ter preconceito por causa da sociedade em que vivem e se foram educadas a ter podem ser educadas a não ter.

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  8. Ahhh... que bom que curtiu os heróis, menino! O Joel Ciclone ficou ótimo mesmo... concordo! Hugzão!

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  9. É muita história boa, meu filho. Vc escreve de maneira a não parecer um texto didático evitando assim um post chato.

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    1. que bom q vc gosta, Wans, de verdade!
      fico feliz.

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  10. Olá FOXX! Gostei muito do teu blog!
    Parabéns! Me tens como teu seguidor também!

    Um abraço :3

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  11. Como sempre tudo lindo, excelente, ótimo! Dúvidas que me restam: antes de ter que se “disfarçar” Arjuna era de que gênero? Macho ou fêmea? Por quem ele nutria desejo? O que aconteceu, terminado o ano “incógnito”? E, por fim... essas dúvidas fazem sentido? (kkkkk)

    Beijos, meu lindo!

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    1. bem, antes de tudo, Arjuna era homem macho. hehehe. Ele gostava de mulheres no poema, mas durante sua transformação ele passa a se interessar por homens, e é essa a maldição em si da ninfa, porque seu corpo, na verdade, não é alterado em nada, ele continua homem (fisicamente falando). Ao terminar o ano ele assume quem é, a maldição acaba, e ele se casa com a filha de Krishna.

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  12. Se puder, experimenta. O vinho! Achei bacana!

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  13. Mahabharata é sensacional, tem tantos aspectos para serem estudados, eu sou suspeito para falar sobre ele ^^

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    1. pois é, eu falando sobre cultura indiana aqui há tempos e só agora q o senhor comenta...

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  14. Esse post reavivou meus desejos de me tornar travestchy... rs

    FOX, vc sempre escrevendo posts maravilhosos! Continue sempre com essa coluna, que eu adoro e na qual aprendo sempre!

    Beijos, querido!

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" Gosto de ouvir. Aprendi muita coisa por ouvir cuidadosamente."

Ernest Hemmingway