Estou decidindo em 2008 voltar a ser puta ou não. Estou decidindo agarrar-me aquela frase: "
enquanto não acho o certo, me divirto com os errados". Contudo, minha experiência na área me causou alguns certos problemas. Bem, admito, já fui puta! Com certeza esta era a minha definição em 2001. Acabara de aceitar em mim meu desejo por homens. O que é aceitar? Como todos já sabem, na minha série, "
Coisas de Menino", eu sempre tive relacionamentos com meninos, vários, muitos até. Mas sempre vinha uma culpa. Eu achava errado. Achava estranho. Achava que não deveria estar fazendo aquilo. Culpa pós-gozo. Sempre após tudo, após o sexo, após o gozo, após, uma culpa me cobria e eu pensava que não deveria. Não podia. E não faria mais. Mas acabava fazendo.
Em 2001. Primeiro conheci a internet. Papos no Uol. E-mails trocados. MSN explode. Fotos. Encontros. Pessoas. E eu conheci Felipe. Felipe se tornou meu primeiro amigo gay. Ao lado dele, eu comecei a poder comentar que homem lindo eu tinha visto naquela tarde, começar a falar sobre o desejo que eu sentia e começar a colocar isso para fora, o que antes eram coisas confessáveis apenas a um diário, escrito em código porque minha mãe tinha - e ainda tem - a terrível mania de mexer nas minhas coisas. E uma coisa é certa, quando você fala, e se ouve falando, que é disso que você gosta, que é isso que você quer, que é isso que te interessa, a ficha cai melhor e, com isso, comecei a perceber que meus desejos e atos não tinham nada de errado.
Se você só tem um caminho, ele não pode ser errado. Isto eu aprendi no reiki. Outro elemento que me ajudou a esta auto-aceitação. Que é diferente e bem mais importante do que assumir, do que "sair do armário", é se aceitar. Porque sair do armário é uma ato que você faz para fora, para os outros, normalmente porque você cansou de pequenas mentiras, porque não se importa mais. Mas antes dele, bem antes dele, e mais importante que ele, vem o aceitar quem você é, como é, do jeito que é, não considerar que isso seja um defeito ou um problema. Aceitar que este é você. Total e integralmente. Aceitar que tudo isso é o que nos torna uno conosco. Um ser total, diria Jung. Não apagar partes de si. Não se esconder sobre desculpas. Apenas, ser.
Ainda não sai do armário. Quem me conhece pessoalmente agora provavelmente não vai conter um sorriso sarcástico, afinal eu não tenho como esconder. Citando
Queer as a Folk, eu sou um tanto óbvio. "
Emmett, Emmett", podem dizer. Mas o que quero dizer é que foi nesta época que me aceitei completamente. Mandei a culpa, e um pouco da preocupação com o que os outros iriam pensar, para o inferno. Foda-se, modo on. Então eu me soltei, e o adolescente que havia dentro de mim, apesar dos 20 anos, pôde sair. Coincidentemente, eu nunca estive tão bonito quanto naquele ano. Eu dançava e fazia musculação: tinha 1,70, 65kg, 75cm de cintura e 92 de quadril. Juntou-se então uma vontade de tirar o atraso e uma aparência que ajudava. Bem, me tornei uma puta.
Saia de casa todo final de semana. Boates, saunas e encontros na internet. E me acostumei mal a sempre ficar com mais de um menino por noite. 2002 e 2003, não foi diferente, junto com Felipe ainda começamos uma lista de nossos ficantes. Anotávamos local, nome, dia e ainda concedíamos uma nota. Muito adolescente não? Inclusive, tirei a idéia de uma revista Capricho, na revista ainda indicava conseguir uma foto da "vítima". Isso me permitiu calcular uma média mensal de 15 meninos. 15 beijos (ou outras coisas) diferentes, levando em consideração que por mês temos, normalmente, quatro semanas, calculem. 15 / 4 = 3 a 4 meninos por semana. Pulando, claro, o Carnatal em que a média com certeza chegava a 15 ou 20, ou mais... mais aí é micareta. Não conta como dia normal.
Agora isso era bom? Para mim, na época, era. Eu não estava preparado para viver um relacionamento. Um namoro. Viver com uma única pessoa e dividir minha vida com ela. Eu era uma criança descobrindo o mundo e havia muita coisa para experimentar, para viver, e eu tinha (e ainda tenho) uma sede de vida muito grande. Foi uma fase que eu precisava viver. Foi algo que eu precisava fazer. O que me conseguiu uma, também, uma imagem extremamente negativa.
No mundo GLS, ao contrário do mundo hetero, um homem não pode ser promíscuo. Ele não pode ter vários relacionamentos sejam estes sexuais ou não, afinal você é considerado promíscuo se beijar ou se fuder com todos, tanto faz. Mas por quê isso? Talvez porque se espere o comportamento de um gay idêntico ao de uma mulher? Uma mulher respeitável como as matronas romanas: "Uma boa mulher é aquela que não se sabe nada sobre ela", já cantava Ovídio, no
A Arte de Amar. Ou talvez porque a imagem de promiscuidade estar tão arraigada aos gays, que sê-lo te torna ainda mais gay? Tem um artigo da DOM latejando na minha cabeça ainda e causando esses pensamentos desconexos. Mas eu pessoalmente não vejo problema nisso. Não consigo condenar uma pessoa que está solteira, por sair pegando a festa toda: ele está é certo. Faça. Beije. Coma. Dê. Lembrei de um texto de Luís Fernando Veríssimo por falar nisso. Agora, se você está namorando: "fecha o cu, viado!". Mas conversando com o
Just a Boy, ele lembrou de uma coisa importante: e o outro? Afinal, sendo promíscuo, pegando meia festa, será que não magoamos essas pessoas que ficamos? Será que elas não esperavam mais de nós? Será que o mal de ser puta é sair por ai magoando pessoas, pessoas boas, interessantes e inteligentes, que não mereciam ser descartadas como copos de papel?
Sei que o grande perigo de se divertir com os errados, é que o certo, pode estar entre eles, e você acabar deixando-o passar. Outro perigo é que o certo pode se assustar, com sua fama, porque os amigos dele vão falar, ou com seu comportamento que ele mesmo pôde já ter observado. Ou seja, temos aqui a famosa faca de dois gumes: fatal para o inimigo, afinal quem não gosta de ver uma noite render, e perigosissima também para o espadachim, por que pode sim te condenar a solidão. E aí:
To be or not to be?