Google+ Estórias Do Mundo: China: O Exemplo de Long Yang

terça-feira, 28 de maio de 2013

China: O Exemplo de Long Yang

, em Natal - RN, Brasil



A poesia chinesa levanta uma imensa dificuldade para qualquer pesquisa sobre relações homoeróticas quando se pesquisa o chinês clássico que é a indiferenciação, muito comum nos idiomas do leste e sudeste asiático, do gênero gramatical. Assim, os poemas da Dinastia Tang (entre 618-910 d.C.) podem ser facilmente lidas como voltadas para um homem ou para uma mulher, porque seu gênero neutro permite que esta decisão seja feita de acordo com o desejo do leitor. Além disso, boa parte da poesia chinesa foi escrita por homens que assumiam uma voz poética feminina, isto é, eles construíam uma persona que narrava-lhes o poema. Muitos poemas são, por exemplo, retratos de meninas que acabaram de tornar-se mulheres que eram preparadas para o casamento ou de esposas abandonadas por seus maridos ou amantes. Outra complicação na tentativa de separar os temas homoeróticos na literatura chinesa é que a maior parte da histórias registradas tinham como objetivo alcançar o leitor que frequentava a elite culta do Império, entre o quais qualquer discussão sobre sexo era considerada vulgar, essas referências, quando são feitas, aparecem somente através de alusões veladas. 
O Ensaio Poético na Suprema Alegria é um bom exemplo desta natureza alusiva da escrita chinesa sobre a sexualidade. Este manuscrito procurou apresentar a "suprema alegria" (sexo) em cada forma conhecida do autor, Bo Xingjian, que viveu entre 775 e 826 d.C.. Este, como explica Louis Crompton, em seu Homossexuality and Civilization, utiliza metáforas como chamar o pênis de "caule de jade", a vagina de "precioso portão", o clítoris de "joia do terraço", o próprio sexo é descrito somente como "uma brincadeira entre as nuvens e a chuva". As referências homoeróticas começam ai, e este é o poema mais antigo a mencioná-las: Bo Xingjian chama as relações homoeróticas como "nuvens de cabeça para baixo" e dedica um capítulo inteiro para celebrar os amantes masculinos dos diversos imperadores da dinastia Han, apresentado entre os capítulos que tratam do sexo em mosteiros budistas e o sexo entre camponeses. Tal localização já nos dá um certo julgamento dado pelo autor para as relações homoeróticas, algo entre o proibido (sexo entre os religiosos/monges budistas) e o não-indicado para aquela elite (a falta de refinamento camponês).
De qualquer forma, Bo Xingjian faz referências que necessitavam de um conhecimento prévio da tradição literária chinesa para falar sobre homoerotismo como às mangas cortadas no palácio imperial ou ao semblante de jade, ou dizia que eles eram como o senhor Long Yang. No conto sobre Long Yang, por exemplo, o rei de Wei Yang e Long compartilhavam um barco de pesca. Em determinado momento o senhor Long Yang começou a chorar, fazendo o rei perguntar-lhe porque ele estava chorando. "Porque eu peguei um peixe", respondeu Long Yang. "Mas por que isso faz você chorar?", perguntou o rei. O senhor Long Yang respondeu: "Quando eu peguei o peixe, no começo, eu estava extremamente satisfeito. Mas depois eu procurei um peixe maior, então eu queria jogar de volta o primeiro peixe que eu tinha pego. Devido a este ato de maldita cobiça, eu devo vou ser expulso de sua cama!", entre lágrimas, Long Yang continuava a falar, "Há inúmeras belezas neste mundo, meu senhor. Ao ouvir da minha boca que tenho este terrível defeito sei que tu vais procurar outra beleza mais encantadora que a minha para receber seu favor, e com certeza eles vão beijar às bainhas de suas vestes, para que possam rapidamente se tornarem seus preferidos. Estou agora ao seu lado, meu senhor, já sou um peixe já capturado! E com meu defeito, torno-me peixe pequeno. No entanto existem peixes melhores no rio. Também vou ser jogado de volta! Como posso não chorar?". Profundamente emocionado com as palavras de Long Yang, o rei de Wei anunciou ao mundo: "Qualquer um que ouse falar de outras belezas será executado juntamente com toda sua família", pois a única beleza que o interessava era a de Long Yang.
Infelizmente o que restou do texto de Bo Xingjian foi muito pouco para sabermos o que o autor pretendia defender neste capitulo. Vejamos abaixo o trecho que nos foi legado pelo tempo, traduzido a partir da versão de Bret Hinsch:

(...) arrebatadores retentores e mangas cortadas no palácio imperial.
E assim, lá onde semblante de jade ligado
Durante anos de brilhantes pérolas.
Alguns amavam seu belo refinamento;
Outros foram divididos pela extrema inveja.
(...)
Caso contrário, eles eram como Senhor Long Yang
(...) Que aponta em uma flor (...)
Mizi Xia compartilhou um pêssego com seu senhor.
No primeiro Han, Gaozu favoreceu Jiru
E o imperador Wu favoreceu Han Yan
Nos tempos antigos, os retentores do imperador Hui usavam bonés com penas vistosas,
Caixilhos de conchas e pintavam seus rostos.



Brent Hinsch ainda aifrma, em seu Passions of the Cut Sleev, que como os amores entre pessoas do mesmo gênero são comuns na literatura Zhou, e por isso mesmo, porque essas estórias eram conhecidas por todos, eles raramente citavam o conto todo, a não ser que tivessem um objetivo muito específico com aquela história em si. Contudo Hinsch, psicólogo com doutorado em estudos da Ásia, afirma que pelas relações homoeróticas terem sido colocadas juntamente com as outras formas sexuais que aparecem no livro de Bo Xingjian, este trecho ganha extrema importância porque garante um lugar comum e natural para este tipo de relacionamento sexual dentro do panorama sexual chinês. Diz ele que a linguagem por si só é extremamente neutra, ela não julga, não prega, nem denigre a imagem dos homens mencionados. Também diz o psicologo que ele escreve sem paixão ou envolvimento pessoal, apenas com o desejo de construir uma enciclopédia dos relacionamentos sexuais humanos, e nesta enciclopédia não poderia faltar, de maneira alguma, também os relacionamentos entre pessoas do mesmo gênero. 

10 comentários:

  1. Um estudo interessante sobre a cultura chinesa.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. que bom que achou interessante, Luís.

      Excluir
  2. gente, esta alcunha eu não conhecia ... CAULE DE JADE!!! kkkkkkkkkk

    ResponderExcluir
  3. Legal ! Gosto muito desses seus textos !
    Abraço !

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. que bom! poucas pessoas realmente gostam desta coluna por aqui. É bom ver que meu trabalho não é em vão.

      Excluir
  4. Meu querido... nunca é em vão colocar conhecimento na cabeça das pessoas... hehehe! E "bora marcar" esse open-house?!? Hahaha! Bjs!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fred, pela quantidade de comentários aqui, às vezes acho que as pessoas simplesmente não leem quando estou falando sobre história... é um tanto desanimador...

      sobre o open-house, eu sou um tanto traumatizado em organizar festas, depois da última que preparei ainda em BH e simplesmente não apareceu ninguém, ou as pessoas avisaram que não poderiam ir (ai tudo bem), ou simplesmente não vieram, eu fiquei bem magoado para tentar de novo...

      Excluir
    2. Bom... primeiro: eu leio sempre! Segundo: se me convidar eu não falto! Terceiro: ri alto com teu comment sobre o Shoosha-Cover lá no TPM. Quarto: Bom feirado, meu raposudo favorito! Beijos!

      Excluir
  5. Interessante história Foxx, nada nessa vida é vão. Me deu até vontade de ler a poesia chinesa.
    Abraços Foxx!

    ResponderExcluir

" Gosto de ouvir. Aprendi muita coisa por ouvir cuidadosamente."

Ernest Hemmingway