Roberto
Natação. Água. Piscinas. A aula termina e o professor deixa-nos brincando na piscina, até que o horário da próxima turma comece. Roberto é mais velho do que eu três anos. Filho de uma colega de trabalho da minha mãe. Loiro, olhos verdes, tem aquele corpo de menino que está se transformando em homem. Músculos salientes. Sexo desenvolvendo-se. Brincamos. Ele ainda é menino, como eu era menino, para brincar. Nadamos, meu irmão mais novo também participa, por debaixo das pernas, toques acidentais. Eu seguro em suas coxas grossas como as do Gato de Capitães da Areia. Ele passa a mão na minha bunda da qual apenas a sunga separa da pele dele. Ele ri malicioso. Meu sorriso é tímido, mas quero mais. Ele também. Mergulhamos de novo, ele segura minha mão e coloca sobre seu sexo. Duro já. Rijo, grande, grosso. O meu não era tanto, o que três anos não fazem a alguém. Era quase de homem. Vamos para a borda da piscina. Fingimos conversar. Meu irmão se distrai com as outras crianças. Ele não me deixa tirar a mão. Meu irmão se aproxima e ele fala: "Vou no vestiário". Eu o sigo. Cheio de más intenções. Ele também não tem boas. Encontro-o no reservado. Porta aberta, sem sunga, me espera. Ele sabe que eu venho. Ele sabe que eu vou vir. Ele sabe que me tem e vai poder fazer o que quiser comigo. E assim o faz. Puxa-me para dentro. Puxa-me e fecha a porta. Puxa-me e puxa minha sunga para baixo. Joga-a no chão e com experiência de quem já fez isso antes aproveita a água da piscina, que ainda está no meu corpo, e a usa para facilitar a penetração. Ele me possuí, ali, de pé. Não sem pedir que eu o chupe. Coisa que não gostava, aquilo era demais para mim. O que me fez sair.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
domingo, 23 de dezembro de 2007
A Ponte
Estava mexendo nas minhas agendas antigas e encontrei este texto. Só sei que ele foi escrito antes de 2004, não preciso o dia, nem sei o porquê do clima fúnebre, mas ele merece ser perpetuado aqui.
Cheguei carregando uma garrafa de Chateaux. Claro que Charteau. Meia hora antes quando eu procurava o que beber, pensei: "por que não comprar a mais cara?". Afinal eu não queria pensar no amanhã. Não queria me preocupar com o outro dia.
Ainda não estava bêbado quando cheguei naquela ponte. Sei isso porque lembro que olhei para o fundo daquele vão e ainda senti minhas pernas fraquejarem devido a vertigem que me envolveu.
E fiquei lá, recostado sobre aquele parapeito, que deveria proteger-me da queda, com minha suave garrafa de Chateaux. Senti a suavidade do vinho levar as dúvidas e trazer as lágrimas.
Foram as lágrimas que me fizeram subir no parapeito. Talvez porque meus olhos úmidos não me deixaram ver as trevas profundas, ou por causa do álcool que corria nas minhas veias, só sei que não senti mais medo. O Chateaux acabou. A garrafa então tornou-se pesada, e meus braços se recusaram a segura-la. Ouvi-a cair.
Olhei para as estrelas. Admirei-as. Sorri um sorriso triste e larguei a coluna que eu me segurava. Senti o vento abraçando meu corpo. Um carinho frio. Pensei no passado e no presente, e quando pensei no futuro, gargalhei. A melhor gargalhada de toda minha vida.
Aí me soltei. Abracei o vento. A queda. Caí. No segundo seguinte me senti livre. No outro, me arrependi. Meu coração se encheu de esperança. Tudo pareceu tão pequeno. Nada vale isso. Para quê desistir? Para quê pular? Quando as trevas me alcançaram, eu só pensava em uma coisa: eu queria saber voar.
Cheguei carregando uma garrafa de Chateaux. Claro que Charteau. Meia hora antes quando eu procurava o que beber, pensei: "por que não comprar a mais cara?". Afinal eu não queria pensar no amanhã. Não queria me preocupar com o outro dia.
Ainda não estava bêbado quando cheguei naquela ponte. Sei isso porque lembro que olhei para o fundo daquele vão e ainda senti minhas pernas fraquejarem devido a vertigem que me envolveu.
E fiquei lá, recostado sobre aquele parapeito, que deveria proteger-me da queda, com minha suave garrafa de Chateaux. Senti a suavidade do vinho levar as dúvidas e trazer as lágrimas.
Foram as lágrimas que me fizeram subir no parapeito. Talvez porque meus olhos úmidos não me deixaram ver as trevas profundas, ou por causa do álcool que corria nas minhas veias, só sei que não senti mais medo. O Chateaux acabou. A garrafa então tornou-se pesada, e meus braços se recusaram a segura-la. Ouvi-a cair.
Olhei para as estrelas. Admirei-as. Sorri um sorriso triste e larguei a coluna que eu me segurava. Senti o vento abraçando meu corpo. Um carinho frio. Pensei no passado e no presente, e quando pensei no futuro, gargalhei. A melhor gargalhada de toda minha vida.
Aí me soltei. Abracei o vento. A queda. Caí. No segundo seguinte me senti livre. No outro, me arrependi. Meu coração se encheu de esperança. Tudo pareceu tão pequeno. Nada vale isso. Para quê desistir? Para quê pular? Quando as trevas me alcançaram, eu só pensava em uma coisa: eu queria saber voar.
sexta-feira, 21 de dezembro de 2007
AMIGO SECRETO: VILSER
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
EXTRA, EXTRA, EXTRA: Acredita Nisso?
- Alô?
- Você é corajoso, hein?
- Como?
- Deixar o telefone p'ra mim assim... no banco do ônibus bem do meu lado.
- E quem disse que eu deixei o telefone p'ra você? Eu coloquei no bolso e caiu... na cadeira. Na cadeira bem do seu lado.
- Ah, foi? Que pena! Eu esperava que você tivesse deixado p'ra mim. Bem do meu lado.
- Bem... já que você esperava... podemos pensar que foi o destino.
- O destino?
- É. Ele fez o papel cair, bem do seu lado, para que você achasse... e me ligasse.
- E eu liguei...
- É, ligou.
Sim, isso aconteceu sim. Eu deixei o telefone e não foi que o menino (lindo de morrer) ligou?!
- Você é corajoso, hein?
- Como?
- Deixar o telefone p'ra mim assim... no banco do ônibus bem do meu lado.
- E quem disse que eu deixei o telefone p'ra você? Eu coloquei no bolso e caiu... na cadeira. Na cadeira bem do seu lado.
- Ah, foi? Que pena! Eu esperava que você tivesse deixado p'ra mim. Bem do meu lado.
- Bem... já que você esperava... podemos pensar que foi o destino.
- O destino?
- É. Ele fez o papel cair, bem do seu lado, para que você achasse... e me ligasse.
- E eu liguei...
- É, ligou.
Sim, isso aconteceu sim. Eu deixei o telefone e não foi que o menino (lindo de morrer) ligou?!
sábado, 15 de dezembro de 2007
PRESENTE: Como Vinho
Horário de almoço. Família reunida (ou quase): eu, minha mãe, meus dois irmãos. Almoçamos feijão branco, arroz e atum. Termino, ergo-me, passo pela tv ligada para ninguém que exibe o Video Show em que Sarah entrevista Maria Paula sobre o novo bebê que ela aguarda. "Só três meses, não dá nem p'ra notar ainda". Passo pomada no cabelo. "Ela que percebeu que eu estava grávida". Coloco a bolsa a tira-colo. A reportagem termina. "Isso que é uma reportagem de conteúdo", comento. Cruzo a cozinha e vou escovar os dentes e, do banheiro, escuto. "Ele é o contrário do vinho, quanto mais velho, pior fica". Aguço os ouvidos. "Continua muito arrogante". Eu? Por causa de um comentário contra o Vídeo Show? Retorno, controlado: "Você é arrogante!".
E todas as humilhações que enfrentei calado passam pela minha frente. "Florzinha", minha mãe, enquanto eu ajudava ela a arrumar a casa e me detinha encantado com as plantas que ela cuidava tão carinhosamente. Acho que ali eu desisti de ser botânico. Na rua. Passo com meu pai, tenho dez anos. Um menino de calções, descalço e sujo aponta o dedo para mim e me chama de bichinha. Meu pai não diz nada com o garoto, apenas meu puxa pelo braço e reclama o caminho todo para casa do meu cabelo, do meu jeito de andar, da minha mão, da minha voz. E eu calado. Acho que ali eu desisti de ser homem. Meu irmão mais velho adentra as portas de casa exigindo que eu levasse uma surra. Eu tinha treze anos. Ele e os amigos na rua tinham-me visto passar voltando do colégio. Eu trazia muitos livros e os carregava contra o peito porque na semana anterior tinha visto na tv que essa era a melhor forma de proteger a coluna. "Mas isso é jeito de mulher carregar livros". E gritou. "Os caras da rua ficam todos rindo". Meu pai não me bateu, mas meu irmão disse que tinha vergonha de mim. E ali desisti de ter irmãos.
Humilhado. Pelos de casa. Na rua aprendi a olhar para um ponto fixo e me dirigir a ele. Não vendo olhares. Não ouvindo comentários. Eu parto com o nariz apontado para o céu. "Levanta a cabeça senão montam em você". Aprendi também a responder críticas com trabalho. Se eu fora o filho do qual se envergonhavam, me tornei e primeiro a cursar uma faculdade. Se era aquele que não merecia ser ouvido, me esforcei para ser aquele que estava sempre certo. Se era aquele que não merecia nem ser visto, me tornei aquele que mesmo sem se esforçar, ganha destaque.

Se sou arrogante, como minha mãe diz que sou? Eu acho que sim. Mas em outro sentido. Já assistiram Dogville? O filme é de um diretor dinamarquês, Lars Von Trier, o mesmo diretor de "Dançando no Escuro". Lançado em 2003, chama atenção pela simplicidade de seus cenários pois foi todo filmado dentro de um galpão na Suécia, com poucas mesas e algumas paredes, e apenas marcações no chão indicando que ali é a casa de tal personagem. Apesar das personagens fazerem constantes referências a paisagem ou ao céu, o fundo é infinito, tendo constantes alterações de luz e cor que indicam mudanças temporais e climáticas. O filme ainda tem um narrador onisciente e é o próprio Lars von Trier quem controla a câmera, garantindo cortes não convencionais e artimanhas do diretor, autor do manifesto Dogma 95, para que o público não se esqueça de que assistem uma peça de ficção, valorizando os atores. O resultado é aberto a opiniões: alguns espectadores saem maravilhados com a sensibilidade do diretor e a atuação brilhante de Nicole Kidman, e outros acham o filme longo e maçante.
A trama acontece numa cidade pequena dos Estados Unidos, no meio do nada, chamada "Dogville", situada no fim de uma estrada que vai até as Montanhas Rochosas, na época da grande depressão americana, e lá Grace (Nicole Kidman) come o pão que o Diabo amassou. Ela chega a cidade dizendo que foge de gangsters, e a princípio os moradores da cidade recusam-se a aceitá-la, até que ela começa a ajudar-lhes nas tarefas cotidianas. Mas mesmo assim sua proteção não está garantida, porque apesar de afirmarem o tempo todo o quanto são generosos, quando descobrem um cartaz dizendo que Grace é procurada pela polícia, às exigências se tornam ainda maiores, e são aceitas silenciosamente.
Um elemento interessante, no entanto, é ainda no começo quando Grace afirma ser arrogante, que foi criada para ser arrogante numa família rica, contudo conforme tudo acontece no filme, ela não demonstra em momento algum arrogância, pelo menos do jeito que a entendemos, muito pelo contrário. Além disso, ela perdoa tudo o que fazem com ela. Exatamente como eu. Todo o mal que os habitantes de Dogville fazem com ela. Exatamente como eu. Porém no final ela explica a própria arrogância.
Arrogante para ela é uma pessoa que perdoa tudo. Ela diz que para uma pessoa perdoar outra é necessário que ela se coloque como alguém superior a outra, só uma pessoa superior pode conceder perdão. Como Deus que pode perdoar os homens por ser superior. Nós, homens, somos todos iguais e se nós perdoamos - esquecemos àqueles males que nos foram feitos - estamos sendo arrogantes. A moral do filme é: Não seja arrogante! Não perdoe!!
Com isso, quando os moradores da cidade finalmente decidem entregá-la aos gangsters, descobre-se somente aí que Grace é a filha de um gangster e fugia do pai que pergunta a filha se ela perdoa os moradores de Dogville, e sua última fala é "Eu não sou arrogante a este ponto". E toda a cidade é massacrada, com excessão de um cachorro. Assistam.
Preciso dizer mais? Não sejam arrogantes, como eu.
E todas as humilhações que enfrentei calado passam pela minha frente. "Florzinha", minha mãe, enquanto eu ajudava ela a arrumar a casa e me detinha encantado com as plantas que ela cuidava tão carinhosamente. Acho que ali eu desisti de ser botânico. Na rua. Passo com meu pai, tenho dez anos. Um menino de calções, descalço e sujo aponta o dedo para mim e me chama de bichinha. Meu pai não diz nada com o garoto, apenas meu puxa pelo braço e reclama o caminho todo para casa do meu cabelo, do meu jeito de andar, da minha mão, da minha voz. E eu calado. Acho que ali eu desisti de ser homem. Meu irmão mais velho adentra as portas de casa exigindo que eu levasse uma surra. Eu tinha treze anos. Ele e os amigos na rua tinham-me visto passar voltando do colégio. Eu trazia muitos livros e os carregava contra o peito porque na semana anterior tinha visto na tv que essa era a melhor forma de proteger a coluna. "Mas isso é jeito de mulher carregar livros". E gritou. "Os caras da rua ficam todos rindo". Meu pai não me bateu, mas meu irmão disse que tinha vergonha de mim. E ali desisti de ter irmãos.
Humilhado. Pelos de casa. Na rua aprendi a olhar para um ponto fixo e me dirigir a ele. Não vendo olhares. Não ouvindo comentários. Eu parto com o nariz apontado para o céu. "Levanta a cabeça senão montam em você". Aprendi também a responder críticas com trabalho. Se eu fora o filho do qual se envergonhavam, me tornei e primeiro a cursar uma faculdade. Se era aquele que não merecia ser ouvido, me esforcei para ser aquele que estava sempre certo. Se era aquele que não merecia nem ser visto, me tornei aquele que mesmo sem se esforçar, ganha destaque.

Se sou arrogante, como minha mãe diz que sou? Eu acho que sim. Mas em outro sentido. Já assistiram Dogville? O filme é de um diretor dinamarquês, Lars Von Trier, o mesmo diretor de "Dançando no Escuro". Lançado em 2003, chama atenção pela simplicidade de seus cenários pois foi todo filmado dentro de um galpão na Suécia, com poucas mesas e algumas paredes, e apenas marcações no chão indicando que ali é a casa de tal personagem. Apesar das personagens fazerem constantes referências a paisagem ou ao céu, o fundo é infinito, tendo constantes alterações de luz e cor que indicam mudanças temporais e climáticas. O filme ainda tem um narrador onisciente e é o próprio Lars von Trier quem controla a câmera, garantindo cortes não convencionais e artimanhas do diretor, autor do manifesto Dogma 95, para que o público não se esqueça de que assistem uma peça de ficção, valorizando os atores. O resultado é aberto a opiniões: alguns espectadores saem maravilhados com a sensibilidade do diretor e a atuação brilhante de Nicole Kidman, e outros acham o filme longo e maçante.
A trama acontece numa cidade pequena dos Estados Unidos, no meio do nada, chamada "Dogville", situada no fim de uma estrada que vai até as Montanhas Rochosas, na época da grande depressão americana, e lá Grace (Nicole Kidman) come o pão que o Diabo amassou. Ela chega a cidade dizendo que foge de gangsters, e a princípio os moradores da cidade recusam-se a aceitá-la, até que ela começa a ajudar-lhes nas tarefas cotidianas. Mas mesmo assim sua proteção não está garantida, porque apesar de afirmarem o tempo todo o quanto são generosos, quando descobrem um cartaz dizendo que Grace é procurada pela polícia, às exigências se tornam ainda maiores, e são aceitas silenciosamente.
Um elemento interessante, no entanto, é ainda no começo quando Grace afirma ser arrogante, que foi criada para ser arrogante numa família rica, contudo conforme tudo acontece no filme, ela não demonstra em momento algum arrogância, pelo menos do jeito que a entendemos, muito pelo contrário. Além disso, ela perdoa tudo o que fazem com ela. Exatamente como eu. Todo o mal que os habitantes de Dogville fazem com ela. Exatamente como eu. Porém no final ela explica a própria arrogância.
Arrogante para ela é uma pessoa que perdoa tudo. Ela diz que para uma pessoa perdoar outra é necessário que ela se coloque como alguém superior a outra, só uma pessoa superior pode conceder perdão. Como Deus que pode perdoar os homens por ser superior. Nós, homens, somos todos iguais e se nós perdoamos - esquecemos àqueles males que nos foram feitos - estamos sendo arrogantes. A moral do filme é: Não seja arrogante! Não perdoe!!
Com isso, quando os moradores da cidade finalmente decidem entregá-la aos gangsters, descobre-se somente aí que Grace é a filha de um gangster e fugia do pai que pergunta a filha se ela perdoa os moradores de Dogville, e sua última fala é "Eu não sou arrogante a este ponto". E toda a cidade é massacrada, com excessão de um cachorro. Assistam.
Preciso dizer mais? Não sejam arrogantes, como eu.
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
PASSADO: Coisas de Menino II
André
André era meu vizinho. Morava a 3 casas da minha. Moreno, todos os dias passava em frente a minha casa indo para as aulas de futebol. Diariamente. Voltava coberto de areia, mais tarde que os outros meninos porque gostava de fazer alguns abdominais após o treino para manter a barriga estreita e pequena. Nesta hora, eu estava na escola, sempre na escola, estudava de manhã, como meu irmão mais novo, enquanto meus pais trabalhavam. Mas a noite, eu e André nos encontrávamos. Haviam brincadeiras. Nós nos escondíamos. E a mão de André corria para os meus glúteos e ele apertava forte. E meus lábios deslizavam para os seus. Mas ele não me beijava com paixão. Eram coisas rápidas, toques excitantes, penetrações sem gozo, beijos roubados. Reservávamos coisas mais calorosas para as manhãs de sexta. Meus últimos horários nas sextas-feiras, naquele ano, eram de arte e ensino religioso. Arte no qual eu não aprendia nada, ensino religioso que eu nunca entendi o porquê de estar lá. Consciente, eu faltava. Fugia do colégio durante o intervalo e corria para casa. Corria para chegar a tempo de assistir Cavaleiros do Zodíaco, mas também para aproveitar meu tempo sozinho em casa. Normalmente eu chegava a tempo de ver André voltar da aula de futebol, suado, coberto de areia, ele passava na frente de casa e eu corria para vê-lo. Vê-lo e avisá-lo que eu estava sozinho. Ele sorria. Corria em casa e tomava um banho. E logo chegava a minha casa. Às vezes, quando eu demorava, naquelas sextas, ele já me esperava sentado sobre a sombra de uma árvore que ficava a frente de minha casa. Fingia-se de despreocupado, mas eu sabia que ele me esperava. As manhãs de sexta então eram ocupadas. Entre os gozos e abraços de André.
PS: Esta semana, eu publiquei um artigo numa revista científica portuguesa. Se alguém se interessar por conhecer o lado profissional do Foxx, aqui está o link: Homoerotismo e Homossexualismo: a historicidade de um conceito. O artigo trata de como o conceito de homossexual e de gay foram criados em determinados momentos de nossa história, e por isso não possam ser naturalizados, ao contrário das ações - do amor, do sexo entre pessoas do mesmo gênero - que existem desde os primeiros passos da história humana e, portanto, a palavra mais indicada para falar deles é homoerotismo. Se interessou? Lê lá.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
EXTRA, EXTRA, EXTRA: Onde Nenhuma Raposa Jamais Esteve 3
Sim, eu falei que eram dois textos, mais quem disse que coube. Então, número três.
Meio-dia. "Já cheguei no metrô". 40 minutos. 20. 18 minutos. 5. Ele desce as escadas. Negro. Forte. Mãos nos bolsos. Peito largo. Braço grosso. Sorriso no canto da boca. Eu abro meu sorriso. Ele só indica que devemos entrar no trem. Eu entro, ele finalmente fala. Sotaque macio. De malandro. De quem sabe os caminhos. De quem pretende contorná-los.
Vamos para a Urca. Conversas. Inteligentes intimidades. Eu digo que ele é facil, ele rebate que tenho medo de altura. "Vamos dar uma volta no bondinho?". Eu soco o braço dele. Ele ri. Estranho conhecer tão bem alguem que você está vendo pela primeira vez agora. Piadas. Acusações. Freud. Foucault. Homoerotismo. "Ainda hoje a burguesia vai foder com o proletariado". Ele ri encabulado. O carioca malandro ri, encabulado pela rapozinha potiguar.
"Não me olha assim". Não? Por que? Rio Sul. Bar do Bigode. Cerveja. Conversas. Alunos da Unirio ocupando as mesas ao lado. Fabi, amiga dele. "Eu dou o cu sim". Ela irrompe. Narra verdades sexuais que fez apenas com o único namorado. Nós rimos. Mais cerveja. Petiscos. "Se importam se eu fume?". "Só se você não me der um trago". Mais sexo permeia a mesa, viagens, futuros, passados. Falamos sobre bobagens, amores e entulho. Mas sob a mesa, a perna dele toca a minha. Eu sorrio. Pele com pele. Os olhinhos dele se apertam, índios, sorrindo com as sobrancelhas. E agora, somente agora, ele decide que me quer. Enquanto eu o queria quando ele desceu as escadas, de mãos nos bolsos e sorriso no canto de boca. Quando o encarava timido dentro do vagão do trem e nossas mãos se esbarravam naquela barra resfriada pelo ar condicionado.

Agora Lapa. No ônibus, planejamos nosso futuro. Ele olha nos meus olhos, eu desejo sua boca. Ele propõe irmos ao Cabaré Casanova: "A gente fica lá se curtindo", mas eu não aguento mais beber. Só o que vier dele. Fugimos dali. Hotel barato. Putas entrando com clientes. Uma sorri para mim quando entramos. Ele nem vê. Concentrado no quarto que estava. Entra, tranca a porta e se joga na cama, mexendo no radio. "Rádio?". Deito sobre ele, beijo-o, e a partir dali o controlo. Arranco-lhe as roupas. Arranco as minhas. Ele pergunta como quero e sou atendido. "Gosto de ser primeiro passivo e depois ativo". E ele também me obedece quando sua pele de ébano me preenche e lentamente me incendeia. "Deixa eu fazer uma coisa...". E é a vez de ele enlouquecer. Mas como é bom enlouquecê-los, e depois interrompê-los, vê-los loucos de desejo, vê-los pedindo mais, mas era a hora de eu consumi-lo. Abençoados pela boêmia, eu o possui. Naquela noite, ele deu o próprio corpo a mim. E olhares de ternura. E beijos de desejo. E aquela noite, somente por ela, tornamo-nos um.
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