Dois meses de academia e eu não percebo diferenças, mas a fita métrica, como as linhas vermelhas acima marcam, vê. Eu não tenho sobre o que falar, por isso o assunto sobre minhas medidas e a academia. Não tenho nenhuma estória para contar. Estou trabalhando como vendedor numa loja de roupas durante este fim de ano, um trabalho temporário que eu nem quero que seja permanente. Não gosto de trabalhar com vendas. Estou cantando muito porque o fim do ano é a época que todo mundo quer ver corais cantando canções de Natal, então, em dois corais, significa o dobro de apresentações. É bastante! Estou me formando no curso técnico de desenho que estou fazendo no Instituto Federal de Ciência e Tecnologia daqui. Farei uma exposição com todos os formandos com meus desenhos e já fui convidado para em maio fazer uma exposição individual. Como eu disse, não tenho estórias para contar. Também hospedei uns amigos na minha casa por um fim-de-semana por causa do Natal em Natal, assisti ao show de Roberta Sá tomando vodca com refrigerante sob a árvore de Natal e voltei sozinho para casa, apesar de um cafuçu ter se oferecido para dormir na minha casa do nada. Lembro que ele me pediu um cigarro que eu não tinha (tenho evitado fumar) e já se ofereceu para dormir comigo. Eu fiquei com medo de ser assaltado. Mas não tenho estórias para contar. Também tenho me dedicado bastante a minha igreja, fui a um retiro e me candidatei para o seminário, se aprovado ao final me tornarei sacerdote do templo. As aulas serão às segundas e sábados. Tenho também feito arte para decorar minhas paredes, tenho desenhado palavras e as colado nas paredes de minha casa, é uma mistura de pintura, desenho e poesia. E, definitivamente, era o tipo de coisa que faltava por aqui.
terça-feira, 17 de dezembro de 2013
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
Carteirinha
*Diálogo semi-ficcional (isto é, não aconteceu exatamente assim, mas foi quase).
Puxei uma conversa com um amigo no Facebook:
- Vamos ouvir o cd novo de Beyoncé comigo?, eu disse.
- Nam, tô ouvindo Pearl Jam.
- Valha, assim vou tomar sua carteirinha de viado, brinquei.
- E por acaso todos os viados precisam ser iguais?
- Precisam!, continuei brincando.
- Mas claro que não...
- ...
- Não preciso ficar ouvindo essas divas pop para ser gay...
- Amigo, 'xeu te contar. - fiquei sério naquele instante porque percebi que ele não havia levado a conversa na brincadeira - Não existe carteirinha de viado. Você pode continuar dando o cu a vontade, ninguém vai te impedir não. Inclusive todos podem dar o cu, nem precisa ser viado. Todo homem e mulher pode ter prazer através do ânus, eles não fazem por preconceito, por pura homofobia ao acreditar que isso é coisa de viado.
Ele ficou em silêncio, e eu concluí falando:
- Aff, sabe nem brincar.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Hatti: Os Deuses Protetores
Poucas referências religiosas foram legadas para nós pela civilização hitita, os poucos textos que nos chegaram foram tábuas de treinamento de escribas que restaram após a destruição da civilização, recuperadas na capital, Hattusa. Textos sobretudo muito tardios em relação a quando estes foram compostos. São em sua maioria parte da administração do templo como a organização do culto ou relatórios sobre os trabalhos dos adivinhos. O acesso a religião hitita se dá, portanto, através das referências feitas a partir de esculturas feitas em pedra, no qual os deuses aparecem normalmente montados nas costas dos seus animais símbolos. É interessante também registrar que era comum na mitologia hitita o aparecimento de animais como pégasos (cavalos alados), grifos (leões com asas) e quimeras (cabras com peles de serpente), etc.
Sua mitologia era claramente influenciada pelos mitos mesopotâmicos, demonstrando as relações entre estas duas civilizações, porém ela manteve suas características próprias. A cidade de Arina era o maior centro religioso, onde havia um grande templo ao deus solar, Utu ou Istanu, e o deus das tempestades, Tarhun, os grandes protetores do imperador. No entanto, Gary Beckman afirma que era comum encontrar além destes deuses nacionais, versões próprias de cada um dos habitantes, ou versões de grandes centros religiosos como Nerik.
Porém entre a maior parte da população o panteão hitita se configura com Tarhun, o deus da tempestade e do trovão, que é casado com a deusa-mãe, Hannahannah, senhora dos animais. Eles tiveram dois filhos: um homem, Telepinu, deus da agricultura e fertilidade, e Inara, deusa da primavera. O mito de Telepinu inclusive é extremamente parecido com o mito de Adonis. Ele desapareceu da face da Terra e todo o mundo secou e murchou, sua mãe, desesperada, enviou animais por todo o mundo procurando pelo filho, até que uma pequena abelha encontrou o deus. Ele havia sido sequestrado pelo deus do mar e do mundo dos mortos, Aruna, que exigiu que para que ele fosse libertado o jovem deus deveria casar com sua filha, Hatepuna. Aruna era filho da deusa da cura e da magia, Kamrusepa, que é quem define a forma como o sequestro deve ser resolvido, e irmão da deusa dos juramentos e do amor, Ishara, a deusa da constelação de escorpião, cujas estrelas são seus sete filhos, os Sebitti. Também podemos citar como deuses importantes Arma ou Kaskuh, a deusa da lua, ou a deusa dos pastores, Habantali, ou a deusa dos reis, Hanwasuit; além, é claro de Alalus, o grande deus criador que criou o universo e é substituído por Utu, seu filho como rei do universo, este é substituído pelo seu próprio filho, Kumarbi, que é substituido pelo seu póprio filho, Tarhun.
No século XIII antes de Cristo, preocupada com o sincretismo cada vez maior existente em sua religião, Puduhepa, rainha e sacerdotisa, fez a primeira reforma religiosa hitita. Em uma inscrição ela fala: "Sol, deus de Arinna, você é meu senhor, você é rei de todas as terras. Na terra de Hatti que assumiu o nome de Utu, deus de Arinna, mas no que diz respeito à terra que fez de cedros (ou seja Arinna) assumiu o nome de Hebat".
Contudo, entre estes deuses existe uma categoria específica chamados de Lamma. Segundo Billie Jean Collins, a palavra significa "poderoso/a" ou "virtuoso/a", e eles têm um papel de protetores contra o que existe de mal na natureza. Os Lamma (lammassu) faziam parte de rituais e cerimônias envolvendo santuários portáteis que poderiam ser uma espécie de carrinho sagrado ou até um objeto sagrado ou mesmo o próprio rei. Gregory McMahon em sua tese de doutorado faz quatro distinções entre os tipos de divindade Lamma:
1) As divindades cujos nomes estão escritos nos textos, como, por exemplo, Inara é referenciada (Inara Lamma = Poderosa Inara);
2) As divindades cujo título é, somente, Lamma;
3) As divindades cujo título é Lamma, mais o nome de uma cidade, o que significa que estes deuses protegem especificamente uma cidade;
4) As divindades cujo título é formado por Lamma mais um epíteto, que pode ser uma outra palavra ou um sufixo cuja origem pode ser hitita, luwita, sumério ou mesmo acadiano. Tal relação, afirma James Rogers, indica que a origem do deus é provavelmente estrangeira e é também Rogers quem encontra 35 usos no Antigo Testamento da mesma fórmula hitita demonstrando que existe influência na composição da Bíblia da mitologia hitita.
Contudo o Lamma que nós procuramos é o Lamma Lulimi, ou o Lamma, o Efeminado, ou o Passivo, ou o Fraco, que é oposto sempre ao Lamma Innarawant, Lamma, o Másculo, o Víril, o Poderoso. Ilan Peled afirma que a relação etmológica das palavras Lamma e Lulimi não é bem clara. Segundo ele a tradução de Lulimi como efeminado que aconteceu na década de 1930 só ocorreu após a tradução da palavra Inarawant como "másculo, viril, poderoso", o que resultou que o deus que deveria ser oposto a ele, segundo o ritual Anniwiyani, deveria ser traduzido como efeminado, passivo e fraco. Novas pesquisas, contudo, que associam a palavra Lulimi ao verbo Lulli, prosperar, permitiram que a tradução começasse a ser revista para algo como "próspero, feminino, fértil". A ideia aqui é que o feminino ainda é o que este lamma protege, enquanto o segundo rege o mundo masculino, este deus protetor também protege os homens que são passivos nas relações sexuai, enquanto Innarawant protege aqueles que são ativos, todavia se retira do nome do deus a ideia imediata de que este feminino é por si negativo, ele só é negativo quando está em um homem, um lugar de onde ele não é natural. Cabe a mulher, e somente a mulher, segundo o pensamento hitita ser feminina e fértil.
Contudo o Lamma que nós procuramos é o Lamma Lulimi, ou o Lamma, o Efeminado, ou o Passivo, ou o Fraco, que é oposto sempre ao Lamma Innarawant, Lamma, o Másculo, o Víril, o Poderoso. Ilan Peled afirma que a relação etmológica das palavras Lamma e Lulimi não é bem clara. Segundo ele a tradução de Lulimi como efeminado que aconteceu na década de 1930 só ocorreu após a tradução da palavra Inarawant como "másculo, viril, poderoso", o que resultou que o deus que deveria ser oposto a ele, segundo o ritual Anniwiyani, deveria ser traduzido como efeminado, passivo e fraco. Novas pesquisas, contudo, que associam a palavra Lulimi ao verbo Lulli, prosperar, permitiram que a tradução começasse a ser revista para algo como "próspero, feminino, fértil". A ideia aqui é que o feminino ainda é o que este lamma protege, enquanto o segundo rege o mundo masculino, este deus protetor também protege os homens que são passivos nas relações sexuai, enquanto Innarawant protege aqueles que são ativos, todavia se retira do nome do deus a ideia imediata de que este feminino é por si negativo, ele só é negativo quando está em um homem, um lugar de onde ele não é natural. Cabe a mulher, e somente a mulher, segundo o pensamento hitita ser feminina e fértil.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Bang Bang
Saímos juntos pela primeira vez numa terça-feira à noite. Nós três cantamos no mesmo coro. Eles cantam no naipe dos baixos, eu não diria que são os únicos baixos gays do planeta, mas com certeza isso é bem raro. Sentamos em um bar de mesas de plástico em torno de um cajueiro em uma rua movimentada de Neópolis. Falávamos sobre música, cerveja, namoros e decoração. Ríamos de besteiras e esquecíamos de problemas. Era bom sair com novas pessoas, eu preciso mesmo refazer meu grupo de amigos já que os antigos se afastaram e os novos são (pela idade mesmo) novos demais. Brindamos a isso: novos amigos.
Estávamos então distraídos quando um homem se levantou na mesa ao lado. "Está acontecendo uma assalto no bar ao lado", disse. Havia um outro bar alguns metros adiante abarrotado de mesas douradas também de plástico. Um motoqueiro apontava uma arma em direção aos clientes. Foi quando o homem que se ergueu sacou também sua arma. O amigo dele que estava sentado ali já havia corrido para o outro bar e gritava para o motoqueiro: "Parado, polícia!". O primeiro tiro foi disparado pelo ladrão. Todos correram do bar que eu estava. Havia, inclusive, um casal com uma criança pequena. Os policiais responderam os tiros. Três ou quatro disparos já havia sido feitos quando percebi que eu havia corrido também e que, por milagre, havia lembrado de pegar minha bolsa que estava no chão.
Via as pessoas correndo sem rumo, eu sabia, no entanto, que tinha que colocar algo entre mim e os disparos que continuavam. Entrei então no banheiro feminino, atrás de mim vieram meus amigos baixo e barítono, um casal (gay) de namorados e uma moça. As balas continuavam lá fora e a porta de madeira foi fechada com o ferrolho de metal. Um dos meninos gays sentou no vaso sanitário e se apegou com Deus em orações, o namorado tentava acalmá-lo com uma mão em seu ombro. Eu vi que havia um cigarro aceso na minha mão que resolvi apagar para não incomodar ninguém.
Os disparos do lado de fora cessaram e um silêncio tenso se instalou. Foi meu amigo baixo que abriu a porta, o menino que rezava, apavorado, pedia que perguntássemos se tudo tinha terminado. Saimos, o baixo me perguntou: "Pedimos a conta?". Eu respondi procurando minha carteira já. "Ainda tem mais da metade da cerveja na garrafa que está na mesa, mas podemos pedir a conta...". O baixo riu então e falou que deveríamos, portanto, terminar a cerveja e se acalmar antes de sair. Sentamos novamente, enchemos nossos copos e comentamos sobre o ocorrido e, logo, a rua estava apinhada de curiosos e três ou quatro viaturas. "Olha, eu acho que não precisamos sair daqui não, hoje, agora, não existe lugar mais seguro em Natal".
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Sentenças
Eu estava sentado no batente da porta da sala de um amigo, a porta que dava para o pátio da vila em que ele mora em Ponta Negra. Da janela dele era possível ver o mar verde de Natal até onde ele toca o horizonte. O dono da casa estava sentado à mesa do outro lado da sala, um outro amigo estava sentado no lado oposto aquela távola redonda. Foi este que puxou a conversa:
- Entre vocês, gays, têm algum problema se o namorado ficar com uma mulher?
O dono da casa respondeu:
- Olha, comigo, traição é traição. Pouco importa se com homem ou com mulher. Não muda em nada o fato de que ele me traiu.
Eu respondi em seguida:
- Comigo depende. Depende do contrato da relação. Porque se nós combinamos que não haveria outras pessoas na relação isso deveria ser respeitado, porém, p'ra mim, eu não exigira que um namorado meu não ficasse com nenhuma outra pessoa. Fidelidade e exclusividade para mim não são importantes.
Eles me olhavam curiosos neste ponto. Então eu continuei.
- Eu teria facilmente um relacionamento aberto. O que eu exigira, com certeza, seria lealdade, que, por exemplo, caso acontecesse algo com outra pessoa ela me contasse e não mentisse para mim, porque eu vejo que uma base muito mais interessante para um relacionamento não seria a fidelidade, mas a lealdade. E lealdade é diferente de fidelidade.
- De fato, não é a mesma coisa.
Concordou o dono da casa.
- Cada cabeça uma sentença, não é?
Encerrou o outro.
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Moçoró
Mossoró, com dois S, não com Ç, é a única exceção entre as palavras de origem indígena que não usam o ç, caiçara, paçoca, Paraguaçu, maniçoba, caçula, Iguaçu, Pajuçara, também é o nome da capital do Sertão, pelo menos é como eles dizem, a segunda maior cidade potiguar, no meio da caatinga, sobre o sol mais quente que você pode experimentar na vida. Quando, por decreto de lei, coisas do Brasil, a grafia das palavras indígenas foi modificada definindo que não se usaria o SS e sim o Ç, um abaixo-assinado impediu que a cidade tivesse seu nome mudado. Eu já havia visitado Mossoró uma vez, a trabalho, fui fazer uma palestra lá sobre a presença portuguesa no território norte-riograndense, lembro que um menino me perguntou sobre a origem das piadas sobre portugueses durante a palestra, mas agora resolvi ir desanuviar a cabeça.
Eu fui demitido. Na verdade, a empresa fechou, e todos foram demitidos. Também levei o chute na bunda homérico do Menino Bonito que, realmente, me deixou abalado. Eu precisava sair de Natal um pouco, ver outras coisas, andar em novo ambiente e respirar novos ares. Um amigo então, numa conversa no Facebook, me convidou para passar o fim de semana por lá. Ofereceu-me sua casa e seu colo. Aceitei e num sábado de manhã, as 6h, eu estava em um ônibus no Terminal Rodoviário Lavoisier Maia em direção a capital sertaneja. São 4 horas de viagem e eu desci no centro da cidade, numa praça de árvores jovens com poucas pessoas, afinal era sábado, sob um sol escaldante. A temperatura, segundo os termômetros, não passava de 32º, porém o sol na sua pele queimava como 55º, e a ausência de vento, em lugares fechados ou mesmo na rua, com certeza nos fazia acreditar que já passava dos 40º.
Fiquei hospedado no conjugado que meu amigo mora ali no centro. Um quarto/sala com um banheiro dividindo os dois espaços. Ele explicou que no vizinho havia uma família com três crianças. E pediu desculpas pelo prédio sujo xingando o dono todas as vezes que saímos pelo corredor a fora. Eu não liguei em segundo algum. Diferente do atendimento em todos os lugares que saímos na cidade, almoçamos em uma churrascaria que o garçom se recusou a limpar a mesa que decidimos sentar, nós precisamos insistir; no jantar, num restaurante baiano, o garçom insistia em arrumar as cadeiras enquanto havia pessoas sentadas nas mesas; no bar que fomos a noite de nome pretensiosamente francês a conta veio errada, cobrando, obviamente, a mais do que consumimos; no café da manhã, em uma lanchonete, eu terminei todo meu prato antes do suco de abacaxi que eu pedi chegar, elas haviam simplesmente esquecido; no clube de águas termais (Mossoró é famosa pelas suas fontes de água quente no meio do semi-árido brasileiro) que fomos no domingo para conseguir uma cerveja era necessário levantar-se e buscar no bar porque nenhum garçom via que estávamos chamando; no jantar, a noite, a conta demorou, simplesmente, 25 minutos para chegar. Porém, notamos, a questão é sem dúvida o treinamento destas pessoas. Sugiro que o SENAC monte seus cursos por lá, porque, obviamente, os mossoroenses precisam urgentemente descobrir que é preciso mais do que ficar parado para ser garçom.
Contudo, eu me diverti bastante. É interessante notar que, por exemplo, eu não vi ninguém fumando em nenhuma balada que frequentei na cidade, pelo menos não com menos de 40 anos. Também foi surpreendente ver uma escola de artes bancada pela prefeitura na cidade, teatro de rua rolando no sábado à noite no Memorial da Resistência e apresentações de corais acontecendo na rua com pessoas sentadas pela calçada para assistir. Soube que um evento de anime ainda estava ocorrendo simultaneamente em outro lugar da cidade, Na Estação da Cultura, mesmo com a Caminhada para Jesus acontecendo ali ao lado. Um ambiente de arte e cultura envolvia todos. Quase me deu vontade de morar por ali. Quase.
Também era divertido ver o quanto eu chamava atenção. Os mossoroenses, os sertanejos potiguares, tal como os seridoenses, de outra região do Estado, tem um padrão físico muito particular. Os sertanejos potiguares têm corpos atarracados, largos nos ombros e baixos, de cabeça achatada e larga, morenos e olhos negros e curiosos; os seridoenses, a região do Seridó fica mais ao sul, têm ombros menos largos, são mais altos, de olhos claros e cabelos de loiros a castanho-claro, são galegos ou holandeses em sua maioria, contudo sua cabeça é grande e redonda, um tanto quanto desproporcional normalmente. Estas são as características dos índios que moravam naquelas regiões, os Moçoró e os Caicó, respectivamente. Eu não tenho nenhuma dessas características, apesar dos ombros largos e do tórax um tanto quanto massudo, eu sou bem mais alto, meus traços de índio potiguara ficam nos olhos, nos cabelos e na pele que facilmente fica bronzeada, mas meu corpo é de luso-holandês, daqueles do Mar do Norte que nascem loiros e ganham seus cabelos castanhos quando amadurecem. Em resumo, eu chamava atenção, e ou era por isso ou porque eu era o único na cidade usando barba.
Também era divertido ver o quanto eu chamava atenção. Os mossoroenses, os sertanejos potiguares, tal como os seridoenses, de outra região do Estado, tem um padrão físico muito particular. Os sertanejos potiguares têm corpos atarracados, largos nos ombros e baixos, de cabeça achatada e larga, morenos e olhos negros e curiosos; os seridoenses, a região do Seridó fica mais ao sul, têm ombros menos largos, são mais altos, de olhos claros e cabelos de loiros a castanho-claro, são galegos ou holandeses em sua maioria, contudo sua cabeça é grande e redonda, um tanto quanto desproporcional normalmente. Estas são as características dos índios que moravam naquelas regiões, os Moçoró e os Caicó, respectivamente. Eu não tenho nenhuma dessas características, apesar dos ombros largos e do tórax um tanto quanto massudo, eu sou bem mais alto, meus traços de índio potiguara ficam nos olhos, nos cabelos e na pele que facilmente fica bronzeada, mas meu corpo é de luso-holandês, daqueles do Mar do Norte que nascem loiros e ganham seus cabelos castanhos quando amadurecem. Em resumo, eu chamava atenção, e ou era por isso ou porque eu era o único na cidade usando barba.
Meu amigo ria dos olhares que eu ganhava. Os amigos dele também. Falavam que eu estava fazendo muito sucesso. Uma amiga comentou no domingo quando voltou da piscina à mesa que estávamos. "Nossa! Como você faz sucesso!", e riu, eu perguntei porque ela falava aquilo. "Quando você saiu da piscina pelo menos dois caras te acompanharam com os olhos de uma ponta a outra". Eu corei e olhei para a piscina. "Só falta algum deles vir conversar comigo agora, não é?". Ela sorriu, meu amigo comentou: "Eu acho que eles pensam que nós dois temos algo...". E gargalhou. "Pelo menos é o que aquele de óculos branco ali, naquela mesa, deve estar pensando, porque ele não tira os olhos de você, mas não faz nada...". E todos riram, eu também. E ele piscou o olho e lembramos da noite que tivemos na cama dele, em que nossas peles se tocaram pela primeira vez. "Você é meu homem!", ele me disse num gemido.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Hatti: As Cartas de Amarna
As Cartas de Amarna são tábuas de argila contendo, em sua maioria, cartas diplomáticas entre os administradores egípcios e os embaixadores de diversas nações que conviveram com os egipcios durante o Novo Império, correspondências de Amenhotep III e uma miscelânea de material literário e educacional. Elas demonstram sobretudo como se davam as relações entre os egípcios e os impérios que os cercavam como a Babilônia, a Assíria, Mitanni e Hatti, a Síria e a Cananéia, além de Alashiya, o nome egípcio para a ilha de Chipre, e os Habiru, nome egípcio para os Hebreus. Elas estão organizadas segundo o sistema abaixo:
- 001–014 Babilônia
- 015–016 Assiria
- 017–030 Mittani
- 031–032 Arzawa
- 033–040 Alashiya (Chipre)
- 041–044 Hatti
- 045–067 Síria
- 068–227 Fenícia (entre 68–140 são sobre Byblos)
- 227–380 Canaã
As cartas foram encontradas por volta de 1887 perto da atual cidade de Amarna, nome moderno da capital fundada por Akenaton, entre 1350 e 1330 antes de Cristo, durante a XVIII Dinastia. Escritas em alfabeto cuneiforme, sistema de escrita da antiga Mesopotâmia, na língua acadiana (língua internacional do período), são conhecidos 382 tabuletas, que foram publicadas pelo assiriologista Jorgen Alexander Knudtzon entre 1907 e 1915.
Nestas cartas a referência homoerótica que aparece é o uso comum do termo kalbu, cão, para designar homens que se colocam numa situação de submissão a outros homens, a expressão pode ser utilizada para falar sobre os servos de um rei, John Burns, inclusive, elege um exemplo: Abdi-Ashratu, um rei cananita, afirma numa das cartas que é o cão da casa do faraó, seu leal e devotado vassalo. Também é Burns que nota que a palavra fenícia klb(lm), cão dos deuses, faz um paralelo com bd(lm), servo dos deuses e que esta expressão, em sentido algum, tem uma conotação pejorativa, algum senso de desonra. Porém, não em Hatti.
Nas cartas de Hatti a palavra serve para denegrir os inimigos. Nas cartas destes líderes, o faraó egípcio é sempre tratado por irmão, também entre assírios e babilônicos, eles se colocam na mesma posição que o governante do Egito. A designação kalbu é utilizada quando um rei protesta ao faraó sobre as ações de um inimigo e pede intervenção. A associação aqui é que a palavra kalbu também é utilizada para falar dos homens que são passivos nas relações sexuais com outros homens, isto é, que se submetem a outros homens, o que, já vimos, é uma situação negativa na sociedade hitita. Nestas cartas relacionadas a Hatti então o termo ganha um outro sentido por causa da diferença cultural entre eles e as outras culturas da região da Crescente Fértil.
A situação entre masculino e feminino do povo chamado de Hehites pela Bíblia, os filhos de Heth, é bastante contraditório. Apesar da mulher ser considerada um ser inferior, ela era protegida pelas leis e poderia, por exemplo, exigir o divórcio e manter sua herança (iwaru), mas explica Judith Starkston que em nenhum texto está escrito que uma esposa tomou um homem como marido, é sempre um homem quem toma uma mulher para ser sua esposa. Os casamentos monogâmicos (a única exceção são os casamentos reais) eram todos arranjados pelos pais, em que a família do noivo pagava pela noiva a kusata que, em caso de divórcio, permanecia com a mulher, mas em caso de adultério somente o homem poderia exigir a morte da própria esposa, sobretudo porque o contrato do casamento servia para produzir crianças e era necessário ter certeza que o investimento da família do noivo geraria novos descendentes para carregar-lhes o nome.
A lei hitita também permitia que mulheres tivessem empregos, e elas recebiam a metade do salários que os homens, porém podiam assumissem posições importantes como sacerdotisas e curandeiras, se fossem solteiras. Elas também podiam governar, sozinhas, como rainhas, Starkson cita as rainhas Paduhepa e Tawananna. A primeira foi esposa de Hattusili III, contemporânea de Ramsés II, e foi responsável por vários tratados com o faraó egípcio, inclusive enviando uma de suas filhas para se tornar esposa do governado do Egito. Antes de casar, a rainha fora sacerdotisa da deusa Ishara, deusa do amor e dos juramentos, e durante seu reinado ela reorganizou o panteão hitita focando em 12 deuses principais. Já Tawananna só pode governar depois que a sua sogra, que também assumiu o trono, morrera, o seu filho também assumira o trono como rei, mas ela quem governava realmente. Nos rituais, também, o mais alto cargo sacerdotal também era ocupado por uma mulher idosa, a hasawa. Esta era sacerdotisa, curandeira, feiticeira e parteira, todavia, ainda considerada inverior.
A lei hitita também permitia que mulheres tivessem empregos, e elas recebiam a metade do salários que os homens, porém podiam assumissem posições importantes como sacerdotisas e curandeiras, se fossem solteiras. Elas também podiam governar, sozinhas, como rainhas, Starkson cita as rainhas Paduhepa e Tawananna. A primeira foi esposa de Hattusili III, contemporânea de Ramsés II, e foi responsável por vários tratados com o faraó egípcio, inclusive enviando uma de suas filhas para se tornar esposa do governado do Egito. Antes de casar, a rainha fora sacerdotisa da deusa Ishara, deusa do amor e dos juramentos, e durante seu reinado ela reorganizou o panteão hitita focando em 12 deuses principais. Já Tawananna só pode governar depois que a sua sogra, que também assumiu o trono, morrera, o seu filho também assumira o trono como rei, mas ela quem governava realmente. Nos rituais, também, o mais alto cargo sacerdotal também era ocupado por uma mulher idosa, a hasawa. Esta era sacerdotisa, curandeira, feiticeira e parteira, todavia, ainda considerada inverior.
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