Este Mundo Ainda Tem Jeito
Essa estória se passou em 02 de junho de 2004, na parada de ônibus que ficava em frente ao Nordestão Cidade Jardim, um grande supermercado natalense. Quem me lembrou dessa estória foi o último post do
Crônica Masculina, além, é claro, de um certo blogayro preconceituoso que anda rondando meu blog. Dedico a ele.
Eu acabara de sair da casa do Din, um amigo, já era noite, a meia-noite quase anunciava as doze badaladas, e tinha ido pegar o último ônibus que se dirigia a minha casa na parada do Nordestão Cidade Jardim. Era um domingo qualquer desses de inverno em Natal, o que quer dizer que poucas estrelas havia no céu e as nuvens se juntavam para chover sobre as fogueiras de São João. Única época que é certo chover em Natal, quando a primeira fogueira é acesa. Eu esperava o 63 sentado, cabisbaixo, pensando cá com meus botões quando um viadinho chegou na parada. Para quem não sabe, junto ao CCAB Sul, que fica quase ao lado do supermercado, tem uma boate gay: o famigerado Pagode, que eu frequentava quase que todo domingo anos atrás. Com certeza ele vinha de lá. E era muito viado, na verdade, era quase uma menina. E por milagre: eu não o conhecia. Mas educadamente ele de desejou boa noite quando se aproximou.
Bem... continuando a história... ele ficou lá esperando o ônibus dele quietinho, sem incomodar ninguém. Mas, no entanto, logo depois ele chegar e se acomodar, aproximou-se um casal com duas meninas que deviam ter entre 14 e 12 anos. A mais velha então começa a ter risinhos descontrolados ao ver o menino. Ria. Apontava. Humilhava o coitado que mantinha-se calado, olhando para o horizonte, como se nada o afetasse. Foi quando eu vi o que mais me deixou chocado. A mãe da menina virou e disse:
- Amanda, você não sabe o que é respeitar os outros? Sua sorte é que nós estamos na rua, senão eu batia na sua cara agora. Mas espere chegar em casa.
A menina, a tal Amanda, olhou incrédula para a mãe, se tivesse olhado pra mim teria visto o mesmo olhar no meu rosto, porque eu também não acreditava no que tinha ouvido. Olhei para o menino, o viadinho, e ele ouvira também e sorria de canto de boca, ela, a Amanda, então virou-se para o próprio pai, pedindo ajuda, e aí tomei meu segundo susto. O pai dela virou-se e falou:
- E quem vai bater quando chegarmos sou eu!
Amanda se calou. Eu contive um riso estupefato, o viadinho brilhava orgulhoso. De muito perto, vi a menina calar-se e buscar abrigo na barra da saia da mãe, como quem pede desculpas, como quem não sabe que cometeu um erro. Sua irmã, em silêncio estava, em silêncio permaneceu.
Essa estória permanece sempre nas minhas lembranças, mas como me lembro dela mudou muito porque eu também mudei. Lembro que saí de lá desejando sinceramente que Amanda tenha levado a surra prometida, achando que era isso que toda criança que demonstrasse algum tipo de preconceito deveria receber. Castigo! Porém, eu percebia que isso era meio que impossível pelo simples fato que crianças não são por si só preconceituosas, elas aprenderam com alguém. Aprenderam que pessoas que são diferentes delas são inferiores. Primeiro os negros, mas isso ficou bem impopular; depois os judeus, mas isso virou um crime ainda mais odioso; depois as mulheres, mas isto é atirar no próprio pé; restaram os gays, principalmente os viadinhos-efeminados que são os mais visíveis entre todos. E aí eu me lembro de Geni e o Zepelin, "ela é boa de apanhar, ela é boa de cuspir". Minha pergunta naquela época era com quem Amanda teria aprendido tanto ódio, aos 14 anos, se seus pais pareceram ser tão "esclarecidos"? É. Mas espero que Amanda tenha aprendido a lição. E os filhos dela não sejam mais preconceituosos.
Hoje minha pergunta é quando os próprios gays vão deixar de cuspir para cima? Quando vamos parar de ter preconceito com um menino que só teve o azar de não conseguir dissimular tão bem quanto nós? Por que é necessário dissimular? Por que fingir? E por que escolher seus amigos e/ou namorados somente entre estes que conseguem fingir que são "um simples amigo"? Bem, eu, graças a Deus, não faço isso! Do pecado da Amanda - e de um certo blogayro - eu estou livre.
PS: Para completar, agora falta ir lá nos sitezinho e assinar a lei que pune crim
inalmente a homofobia, vamos lá, não custa nada, porém, não sem pensar direitinho e ver que homofobia voltada contra o próprio grupo do qual você faz parte também é muito grave! E sim, a lei poderá ser usada contra outros gays que ajam com preconceito contra os seus!