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domingo, 19 de abril de 2009

PASSADO: Frutas

Noite de uma quarta-feira em Natal. Meninas de cabelos tingidos de loiros se preparam para descer a rua do Salsa dentro dos seus carros e subir em cima dos seus saltos pelo calçamento irregular em direção ao Taverna, o Salsa, o Tahiti ou A Missa. Eu e Lipe já pedimos um balde de cervejas e as estamos bebendo na praia, eu sentado na mesa de metal do Mormaço e ele no tronco de coqueiro que servia de divisória entre o espaço do bar e o passeio. Isa, também loira, mas com tatuagens nos braços e um decote voluptuoso, senta do outro lado da mesa. Ela é popular, amiga de djs, produtora de festas, amiga de bandas, e é por isso que Lipe é amigo dela, e eu sou amigo do Lipe. Ela então desliga o celular e nos fala: "Nós já estamos com o nome na lista d'A Missa, D'Vibe e Lobinha tocam hoje lá!". A fumaça cinza do Marlboro dela enche o ar. "Terminamos as cervejas e subimos". E ficamos lá vendo a quarta-feira se arrastar e aquela avenida a beira-mar se encher de jovens musculoso vestindo surf wear. Lipe baba, achando que ninguém percebe os olhares dele. Eu fumo algum cigarro mentolado. Quando uma menina se aproxima e puxa papo. Começamos a conversar ali, ela pede uns cigarros, bebe da minha cerveja e terminamos a noite entre beijos naquela mesa. Lipe me olhando chocado. Isa, intrigada.
Quando a menina se despede, dizendo me encontrar mais tarde n'A Missa, Isa joga seus cabelos cor de trigo sobre o ombro e me inquere. "Eu achava que você gostava da mesma fruta que eu". Lipe ri nervosamente. Eu levanto com calma, acendo um cigarro, ela continua a me olhar, com os cotovelos apoiados na mesa e o queixo apoiado nas mãos entrelaçadas. "Eu gosto mais da fruta que você gosta, Isa, mas a gente prova outras de vez em quando. Vou até o banheiro!".

quarta-feira, 15 de abril de 2009

PRESENTE: Por Uma Blogosfera Irresponsável, Amoral, Anárquica e Inconsequente



Tudo está para mudar. O [be] sumiu. E nem adianta me perguntar o que aconteceu. Eu não saberia responder. Ele simplesmente sumiu, como se não houvesse falado nada durante a semana passada. Como se nunca tivesse existido. Como se nunca tivesse chutado a porta que eu estava tentando fechar. Registro para contabilização futura: número 6. No entanto, desta vez, não haverá um número 7. Porque agora a porta está fechada. Com cadeados e correntes. Selada. E agora tudo vai mudar!
Eu estava sinceramente procurando alguém que pudesse me amar. Eu queria ter finalmente meu primeiro namorado. Mas isto, eu já devia saber, não vai acontecer, talvez nunca venha a acontecer, ou simplesmente não vá acontecer por enquanto (aí, você querido leitor pensará aqui que isto pode ser somente uma fase, algo do tipo "ele não encontrou a pessoa certa ainda" e vai se preparar para fazer um comentário dizendo que eu devo ter calma, dar tempo ao tempo). Mas esta dúvida não importa mais, porque agora eu decidi que vou ficar solteiro mesmo. Agora é uma decisão minha!
Não estou procurando mais, nem estou mais aberto a alguém que apareça. E caso o destino resolva brincar comigo, e coloque alguém no meu caminho, não me encontrará mais lá. Talvez encontre uma boca, um sorriso e um corpo, beijos e sexo eu continuarei distribuindo ao meu bel prazer, mas nem meu nome verdadeiro nenhuma dessas pessoas saberá mais. Apresentar-me-ei Heitor agora, darei meu antigo número de telefone que não funciona mais. Desaparecerei antes que ele possa pensar se eu valho a pena, já terei partido. Não tenho mais a menor esperança que alguém possa de fato se interessar por mim, então, se só posso ter beijos e algum sexo barato, aleluia, tenhamos beijos e sexo barato!
Tornar-me-ei frequentador de saunas e prostíbulos, em busca de sexo anônimo. No entanto, não vou procurar na internet. Internet pressupõe muito contato antes do sexo em si. Não me interessa nada mais do que um corpo, não desejo mais conhecer ninguém de verdade, nem saber seu nome. Não quero mais pensar se ele vai querer me ver uma outra vez. Agora eu não quero mais rever ninguém nenhuma outra vez. "Figurinha repetida não completa álbum".
Com isso, começo agora uma nova fase para este blog, exatamente porque começo uma nova fase para minha vida. Contentar-me-ei com o pouco que recebo e este pouco provavelmente chocará muitos de vocês. Não estou feliz seguindo por este caminho, mas quando só se tem um caminho para seguir não adianta tentar construir novas estradas. A partir de agora este blog tornar-se-á então não indicado para pessoas de moral impávida, estômago fraco e corações românticos. Romantismo e moral não serão mais encontrados aqui. Esta raposa que vos fala não deseja mais ser cativada, permancerá para sempre, porque agora este é o meu desejo, selvagem e arisca.



domingo, 12 de abril de 2009

PASSADO: "Bem-vinda a Natal, Amor!"

Eu dormia num colchonete entre as duas camas. Tati em uma, jogada, ainda com sua saia jeans, curta quase um pequeno cinto, mostrando as coxas brancas, e com uma blusa folgada. Bruno estava jogado na outra cama, somente de cuecas, com sua pele morena, quase sem pêlos. Já deviam ser por volta das duas horas da tarde quando a vi acordar, com seus cachos morenos cobrindo o rosto inchado, e assustada olhar para todos os lados. "Calma, bêbada! Estou aqui!". Ela se tranquilizou quando me viu deitado no chão. Não sabia onde estava, claro, nunca tinha ido a Terra do Nunca antes, lar do Peter Pan, que dormia no quarto dele com o namorado, naqueles dias, o Rapha. "Você apagou na rave, amor de minha vida! Queria que eu te deixasse largada naquele gramado e voltasse tranquilo para casa?!". Ela me agradeceu e reparou que eu tinha tirado-lhe os tênis, dois All Star de cano longo. E me chamou de anjo. Foi quando reparou no Bruno dormindo na outra cama.
Bruno era bonito. Ainda o é. Um moreno índio de corpo construído entre aulas de natação e horas de musculação. De olhos de amendôa e cabelos lisos e negros. Ele fazia um tremendo sucesso, e sabia disso, e talvez só se tornara meu amigo porque eu pouco ligava para tudo aquilo que estava ali apenas de cueca, dormindo. Mas Tati não. E como não sou eu quem iria destruir os sonhos dela guardei o segredo dele para mim. E quando ele acordou, ela atacou. Ele sorriu, orgulhoso. Tati era bonita, tinha acabado de chegar a Natal de Belém do Pará, tinha aquela beleza exótica que só a floresta dá a você, e estava se entregando a ele. Ele sorriu, orgulhoso, e falou: "Pena que você não tem algo essencial para mim".
Eu disparei a rir. Ela entendeu o recado. "Você também é gay?". Ele, num sorriso cínico, falou que ela estava cercados por viados por todos os lados, por isso ainda era virgem. "A gente teve que te trazer p'ra casa nos braços sabia? Nem andar a senhora conseguia!". Fui obrigado a concordar. No entanto, ela não se contentou. Encheu Bruno de perguntas. Perguntava sobre quando ele se descobriu gay, se não ficava mesmo com meninas, para ela era um absurdo ter encontrado um menino tão bonito e gay. "Ah, quer dizer que eu você não se incomoda né, maldita? Não se perde grande coisa, é? Outra coisa: e a gente não tem direito a ficar com homens bonitos não, é? Só vocês?". Rimos e nos levantamos, nos despedimos do casal que dormia ainda, afinal foram litros de martini, "Peter, o senhor me deve R$ 50,00, lembra disso?", ele coçou os olhos tentando acordar, "Eu bebi 50 reais só de martini?", eu confirmei e ele fechou a casa enquanto íamos embora. Foi no alternativo que nos levaria até o shopping que Tati fez a pergunta definitiva: "Você é ativo ou passivo?".
Bruno sorriu, eu fiquei sem respirar alguns minutos, confesso. Olhei em volta, os outros passageiros claro que haviam ouvido a pergunta, mas ele poderia ser discreto, cortar o assunto pela raiz, responder com um simples "a" ou "p", mas Bruno não pretendia ser nada discreto. "Sou passivo, completamente!", falou animado. Ela saltou sobre ele como uma vampira, sentindo o cheiro de alguém que quer continuar o assunto, e exclamando: "Sério?!", ele confirmou e detalhou os prazeres raros de ter um homem de verdade possuindo o corpo dele. Era uma viagem de apenas 15 minutos, que para mim duraram horas, enquanto eu tentava me esconder dentro daquela poltrona estranhamente confortável para um transporte público.
Foi quando ele se levantou e desceu em seu ponto, alguns antes do shopping, que ela me olhou chocada. E eu olhei em volta, outros mais nos olhavam chocados. Recuperei-me rapidamente e falei: "Bem-vinda a Natal, amor!".

quinta-feira, 9 de abril de 2009

EXTRA, EXTRA, EXTRA: "Diariamente"

Ele, o [be], vai chegar daqui a pouco, vamos ver um filme aqui em casa, Um Lugar no Fim do Mundo, Shelter ou O Curioso Caso de Benjamim Burtton, um dos três, o que der vontade na hora. Mas eu fico me perguntando como chegamos aqui. Saí naquela sexta-feira tão sem vontade de sair, bocejando numa noite fria que eu insisti de ir de regata, quase sem dinheiro algum na carteira, confiando num cartão que já me deixou na mão várias vezes. "Desculpe senhor, mas a operadora está fora do ar". E agora estou esperando apenas uma mensagem confirmando o horário que ele vai entrar por aquela porta. Como chegamos aqui?
Entrei na GIS decidido a não ficar com ninguém, tantos foras me cansaram, eu queria me divertir e estava me divertindo junto com o Anselmo, meu roommate hétero, entre músicas da Rihanna, um pouco de funk, pole dance e cervejas, quando o meu amigo hétero se interessa por um menino e sua máscara cai ao chão. "Ok, não existem mais héteros no mundo! Isso eu já sabia!". Subimos então as escadas, procurando a futura vítima de Anselmo, e é nessa hora que eu o encontrei. Ele me olhou interessado, estava com dois amigos, um casal de namorados, eles conversaram algo e se dirigiram ao andar de baixo. Anselmo, no entanto, já alcançara o menino, e após me fazer levar o fora por ele, me fazendo ir lá checar se o menino se interessaria por ele, já voltara-se para outra presa. Enquanto ele paquerava, eu então desci as escadas, procurando por ele, mas prometendo a mim mesmo que não faria nada, prometia a mim mesmo que não ficaria mais com ninguém para não levar mais um fora, prometia que ia apenas observá-lo mais um pouco, prometia que não queria nem beijar na boca, prometia. Uma promessa para cada degrau. E eu pretendia cumprí-las, por isso, parei a certa distância, o bastante para observá-lo e, ocasionalmente, talvez, sabotando minhas próprias promessas, ser visto. Ele tinha um pouco mais que minha altura, usava boné e óculos, aparentava por volta de 30 anos, o peitoral largo e os braços fortes lutavam contra o algodão da camisa pólo, a calça folgada escondia-lhes as pernas grossas. Ele então se virou, e percebendo-me ali, sorriu. O sorriso mais bonito que eu já tinha visto. Largo, amistoso, caloroso. E com um gesto me convidou a me aproximar. Eu poderia ter fugido. Sumido. Fingido que não era nada comigo. Mas eu dei o primeiro passo em direção a ele e tive que continuar. Ele se apresentou: [be], eu: Foxx.
No sábado, pela manhã, ele me acordou. Uma mensagem fazia meu celular chamar. Vi no visor: 10:49. E ele dizia: "Foxx, foi muito legal ter te conhecido ontem! Vou fazer o possível para te ver hoje! Te ligo mais tarde! [be]". Surpreso, e encantado, respondi imeditatamente dizendo que seria um prazer revê-lo, enquanto pensava com meus botões que tipo de cara mandava uma mensagem assim no dia seguinte.
A tarde se passou e ele ligou, por volta de 17h da tarde, falamos coisas a toa, e ele falou que ainda estava no trabalho, quando chegasse em casa iria ver algo para nos encontrarmos, eu concordei, no entanto, ele mandou uma outra mensagem, às 18h, dizendo: "Foxx, caso a gente não se encontre hoje, amanhã você não me escapa! É que estou com uns probleminhas aqui em casa, mas farei o possível para te ver! Beijo, [be]". Fiquei a esperar-lhe, mas Anselmo e Ronie me convidaram para sair, "Umas cervejinhas no Banzai, apenas, vamos lá?". E eu concordei, mandando uma mensagem para ele avisando que se ele quisesse poderia me encontrar lá.
Ele não foi, mas novamente no domingo me acordou, por volta do meio dia: "Olá Foxx! Desculpe-me por ontem! Tava cheio de compromissos chatos aqui em casa! Mais tarde tento te ligar para combinarmos algo! Beijão! Boa tarde!". E ligou mesmo, já quase 21h do domingo, e conversamos por quase duas horas, sobre nossas vidas, detalhamos os assuntos conversados na boate: meu doutorado, o trabalho dele, minha idade, a idade dele, minha casa e meus amigos, a casa dele e os amigos dele, minha abreviada carreira de dançarino e a abreviada carreira de go-go boy dele,
além de micos meus e dele. Uma conversa agradabilissima coroada por uma mensagem, assim que desligamos o telefone: "Dizem que somos responsáveis por aquilo que conquistamos, você me conquistou, agora eu sou problema seu! Boa noite! Beijo! [be]". Respondida imediatamente: "Sacanagem citar o Pequeno Príncipe comigo! Logo pelo ponto fraco?".
Novamente é ele quem me acorda na segunda-feira, desejando-me um bom dia e uma boa semana via SMS. A tarde, sou eu quem mando-lhe uma mensagem dizendo que estou a pensar nele, e ele, as 16:48, responde: "Só que eu contei até agora, já pensei em você 3586 vezes! Beijão! [be]". Eu respondo então que ele anote todas as vezes que pensar em mim porque cada vez que pensar eu lhe dou um prêmio. Ele então me liga, perguntando que prêmio é esse, eu faço mistério, e ele promete cobrar então. Rimos juntos, novamente, ao telefone. Ele então promete-me ligar novamente a noite, o que faz, e conversamos e rimos juntos enquanto a chuva batia em minha janela por quase duas horas, conversa na qual ex-namorados e sexo foram citados, e-mails trocados e algumas experiências relatadas.
Na terça-feira mensagens pelo celular e e-mail são trocados. Ele começa a me chamar de "meu gatinho", e eu começo a derrubar qualquer obstáculo para ele chegar mais próximo de mim. Conto sobre ele aos meus amigos e sou bem claro como segundo ele mesmo somente os leoninos sabem ser. Digo-lhe, num e-mail, que quero um namoro, que quero um relacionamento, e ele ao contrário de se assustar concorda comigo apenas frisando que não podemos dar passos maiores que a perna. "
Desejo o mesmo em relação a você! Mas prefiro ir com calma, pois sei que estou com a minha essência meio estremecida em função de tantas coisas 'pesadas' que vivi no meu último relacionamento!". Eu entendo e ele me agradece por ser tão compreensivo. No entanto, naquela terça-feira ele não consegue ligar para mim.
Não obstante, ainda é meia-noite quando ele me manda uma mensagem explicando seus motivos. "Estou com dificuldades para te ligar! O pessoal aqui em casa tá esperando ligação! Vim para rua e os telefones públicos estão todos com defeito! Te ligo amanhã! Saudades!". Eu respondi e ainda tentei ligar para ele, mas como ele contou-me pela manhã, ele já estava dormindo. Mas na quarta-feira, ainda as 06:37 da manhã, ele me mandou uma mensagem contando tudo em detalhes: "Bom dia, gatinho! Desculpe por ontem! Te mandei mensagem e apaguei! Tenho reunião hoje as 7:30, ninguém merece! Tento te ligar no meu invervalo. Beijão! [be]". Como eram 6 da manhã, não me preocupei em responder, voltei a dormir e como eu estava meio gripado, acabei acordando apenas as 14:18, quando ele enviou a terceira mensagem do dia, já preocupado: "Foxx, falhei em alguma coisa com você? Me fale para eu me retratar! Sinto falta de suas mensagens!". Eu não pude conter o sorriso. Aquele homem lindo, bem resolvido e maduro preocupado se eu não estava interessado nele?! Como se isso fosse possível! Levantei e mandei uma mensagem curta: "A única coisa que você está fazendo é me conquistando, quer se retratar nisso?". Horas depois ele respondeu: "Confesso que fiquei inseguro com seu sumiço hoje! Mas quando recebi sua mensagem, eu melhorei! Amanhã vou aí na sua casa te ver!"
Hoje, na quinta-feira, novamente, eram 7:11 da manhã quando ele me acordou e o sol já brilhava em Belo Horizonte, ele dizia: "Bom dia! Que este dia seja tão especial como tens sido para mim!". E eu acordei radiante, joguei-me na piscina e nadei por duas horas, me estendendo ao sol por mais alguns minutos, para agora retornar e esperar a mensagem que vai dizer o horário que ele vai chegar para vermos Um Lugar no Fim do Mundo, Shelter ou O Curioso Caso de Benjamim Burtton, um dos três, o que der vontade na hora.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

PRESENTE: Yuurei ou Número 05


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Eram 18h da tarde, e eu ainda tinha que encontrar o HMG, do Rapazes de Fino Trato, no centro, para, com ele, encontrarmos o Goiano, o Oz, e o Latinha no Pátio Savassi, onde eles jantavam. Era um fim de tarde agradável, e enquanto eu descia as escadas do meu prédio, percebi que só tinha notas grandes na carteira, como eu iria de ônibus era aconselhável trocar o dinheiro. Encaminhei-me a padaria próxima de casa, na conveniência, comprei uma garrafa de Sprite e um Tic-Tac. Foi quando reparei nele. De regata justa, e corpo definido, cabelos longos até os ombros e piercing na sobrancelhas, os olhos denotavam a ascendência oriental, os pêlos nos braços provavelmente alguma raiz mediterrânea. Mestiço, sem sombra de dúvida. Ele me olhava envergonhado. E eu achei que o conhecia de algum lugar. Sorri, ele sorriu também, encabulado, era verdade. Eu abri a garrafa de Sprite e me aproximei. Cumprimentos, apresentações, ofereci o refrigerante, ele explicou que não morava ali, estava esperando apenas uma amiga que vinha buscá-lo para uma festa, a amiga morava ali, perguntou o que eu pretendia naquela noite, expliquei que amigos de fora da cidade haviam chegado e iria encontrá-los. Ele sorriu. Eu sorri. "Você pode me passar seu telefone, a gente pode marcar algo, depois?", perguntei. Ele respondeu que sim, e me passou o telefone. Parti, então, para encontrar o Goiano, o Oz, o Latinha, o HMG, e também o Bê, do Under Construction, e o Beto, um d'Os Menino do Blog. Não obstante meu pensamento ter ficado naquela padaria, sorrindo, enquanto eu atravessava a rua.



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Liguei para ele no dia seguinte. Ressacado de uma noite na Josefine e desejando que ele não quisesse me encontrar naquele dia. Mas a etiqueta me mandava ligar. E conversamos, ele realmente não podia me encontrar naquele domingo, porque morava em Sabará, 40 minutos de Belo Horizonte, me garantiu, porque tinha que trabalhar cedo no outro dia, em Belo Horizonte, contou-me de seus trinta anos, e falou que também tinha me reconhecido, mas não sabia de onde. Eu lembrara. Quando entrei na Josefine lembrara que o conheci ali no dia do meu aniversário, em agosto do ano passado. Um japinha que ficou me olhando e quando eu me aproximei ele se assustou e acabou me dando um fora. Ele lembrou, e explicou que naquela época estava namorando, não podia ter nada comigo. Saíra sozinho naquela noite. Não podia trair o namorado. Parabenizei-o pelo comportamento. E também falamos sobre emprego, mitos em bibliotecas, livros, meu mestrado e quase quarenta e cinco minutos depois desligamos o telefone, marcando nos encontrar no próximo final de semana, em uma piscina no CEU ou um cinema no Shopping Cidade. "Vamos ver".



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Decidido o cinema, nos encontramos no Shopping Cidade e logo compramos um ingresso para "Quem quer ser um milionário?". Sentamos num café e o papo fluiu com naturalidade, sem silêncios constrangedores, apenas com sorrisos confortadores. Ele era ainda mais bonito do que eu lembrava, ainda mais inteligente do que demonstrara e tinha um sorriso, ah, aquele sorriso, por aquele sorriso eu já suspirava. No cinema, eu peguei na mão dele, que ele segurou com força, depois ele colocou o braço em meus ombros e me deu um beijo na orelha e cheirou meu cabelo. Saímos do cinema, mas ele não quis esticar pela noite que acabara de deitar-se sobre a cidade, ainda eram 18h, ele preferiu ir embora, caminhamos juntos até a parada e ele falou que precisava me contar algo. "Eu acabei de sair de um relacionamento, não sei muito bem o que quero". Eu sorri e sabia o que aquilo significava. No fundo sabia, mas mesmo assim esperei por ligações dele que nunca mais vieram. Inclusive liguei, mas ele não se deu nem ao trabalho de atender. Devia pensar se não fora claro o suficiente. Foi sim. Fora número 05. E contando.

quinta-feira, 26 de março de 2009

PASSADO: A Corda E o Banco

Ele estava ali, naquele quarto, no escuro de uma noite de outubro. Era um domingo. Prostrado diante de uma corda de sisal, pendurada nos caibros de maderia do telhado, e um banco pequeno no chão. Chamava-se Paulo Alberto, tinha dezesseis anos, tinha um trabalho para entregar na escola quando o sol nascesse, mas nada estava pronto, só que ele não se importava mais com nada, pois já se considerava morto. Ele sabia que estava morto. Ele sabia que sua vida acabara.
Para um observador desatento, Paulo era um adolescente suburbano comum. Jogava futebol a tarde com os amigos e torcia para o Palmeiras, frequentava a escola ou pelo menos algumas aulas, gostava especialmente das de História, tinha uma namorada e não era nem mais virgem. Um adolescente bem comum, diria-se. Mas tudo o que Paulo não se sentia era comum. Não desde que descobrira os prazeres que o corpo de outro homem poderia lhe dar. Paulo não era comum e se envergonhava disso. Envergonhava-se profundamente.
Alguém comum não passaria pelo que ele estava passando desde a sexta-feira quando recebera o resultado daquele exame. Quando o médico deu-lhe com olhos gelados uma sentença de morte. Ele, aquele menino crescido, queria apenas alguém com quem conversar naquela noite. Precisava urgentemente após a notícia que destruíra sua vida. Mas ele não tinha com quem conversar. Com quem se abrir? A quem contar que agora tinha AIDS? Ele sabia que não era o único. Na sua escola mesmo haviam pessoas como ele. Alunos e professores. Não deviam ser doentes como ele, porque agora ele era doente. Mas eram como ele. Porém Paulo não sabia como conversar com eles. Antes ele tentara o que sempre soubera fazer, tentara seduzí-los, pois Paulo era bonito. No auge da juventude do seu corpo, no auge da beleza que só a juventude pode garantir, era fácil conseguir o sexo de outros homens. Bastava duas palavras e um sorriso sacana. Paulo, então, tinha esses homens para si. E, às vezes, eles ainda lhe davam presentes. Mas ali, naquela noite, em que uma dura verdade fora jogada em seu colo, não tinha com quem se abrir. Estava sozinho, no seu medo e sua dor, isolado.
Agora descobrira que estava doente. Algum dos homens com quem se deitara passara-lhe uma doença sem cura e agora ele só via uma saída. Aquela corda e aquele banco. Não podia contar a todos que tinha AIDS! Como explicar como contaminara-se? Como explicar que, às vezes, ele gostava de sentir outro homem dentro de suas carnes? Como explicar para sua namorada, que contara-lhe na sexta-feira que estava grávida, que agora ele iria morrer de uma doença de viado? E que ela podia morrer também! Paulo estava apavorado.
Sua avó bateu na porta do quarto e disse qualquer coisa que ele não entendeu. Estava na casa dela desde que recebera a notícia, se escondeu lá. Lembrou até que um de seus professores morava ali perto. Podia procurá-lo? Mas como dizer aquelas coisas que queimavam nos seus lábios quando ele tentava pronunciar, como? Como?! Ele levantou-se e socou a parede, praguejando contra si e contra o destino cruel em que ele se inscrevera. "Viados! Todos!", e ele mesmo também. Sentara no canto, chorando, e pensando que também era viado, gay, bicha e ia morrer por causa disso. E chorou mais. Foi chorando que subiu naquele banco. Foi chorando que colocou a corda no seu pescoço e pulou. E foi chorando que sua avó, tempos depois, encontrou seu corpo azul, pendurado no teto da casa. Sem ar. Morto.




Esta estória é baseada em fatos reais. Paulo realmente existiu, foi meu aluno, e realmente se matou quando descobriu que tinha AIDS, apenas eu, na escola, sabia que ele fazia sexo com homens, apesar da namorada que mantinha. Este texto é em memória dele, para que ele nunca seja esquecido.

segunda-feira, 23 de março de 2009

PRESENTE: Through the Looking Glass

Todo dia eu o vejo, todo dia ele esta lá. Dessa janela que posso ver seu mundo, mas do qual ele não pode me ver. É a única coisa que nos separa e me impede completamente de lhe tocar, de lhe falar, por ela só posso observar, esse vidro, esse fio de prata que nos divide, separa e ao mesmo tempo une, porque só por causa da luz que a atravessa que eu ainda o posso ver, nosso único contato, alguns minutos por dia, eu calado, vendo-o do outro lado. Estranhamente, ele está sempre sozinho. E me pergunto: ele é tão bonito, lindo, demonstra inteligência com todos os livros que vejo espalhados por lá. Olhando de certos ângulos, dá para ver mais do mundo dele. A cama de edredom verde, desenhos na parede, quase dá para ver seu criado-mudo, e livros e caixas jogados no chão. Acho que reconheci Dom Quixote e também Eva Luna. Um computador no quarto. Ele vê filmes, séries de tv e documentários. Não tem uma TV no quarto dele. E ele usa uma lanterna para ler no escuro às vezes. Mas eu tenho pena dele. Ele está lá sempre tão sozinho, dentro daquele mundinho só dele. Ele realmente merecia alguém. Alguém para dividir aquele mundo, para rir dos mesmos filmes e chorar das mesmas séries, para discutir os mesmos livros e se cansar das mesmas músicas. Mas, ao que parece, ninguém consegue ama-lo, somente eu que o vejo por trás deste vidro conseguiria. Só que tristemente ele está lá do outro lado do fio de prata. Eu não consigo toca-lo. E, pior, que as vezes dá para perceber o quanto ele quer um abraço. Dá para vê-lo deitado, abraçado ao travesseiro. O quanto ele não adoraria um cafuné. Eu sei, quem não gostaria? Mas ele não tem quem o faça por ele. Eu gostaria de fazê-lo, mas não posso. Não posso tocar este cara que me aparece todos os dias no espelho. Mas ele merecia mais... bem mais...