Dizemos sempre que os livros são melhores que os filmes, mas desta vez não podemos falar o mesmo sobre A Culpa É Das Estrelas que estreou mês passado (e eu esperei tanto tempo para publicar minha crítica para ninguém reclamar de spoiler). O livro de John Green e o filme de Josh Boone são obras completamente distintas, apesar de compartilharem os mesmos personagens e mesmo assim completamente incomparáveis. O livro, intimista, foca-se na história da jornada de morte por causa de um câncer da jovem de 18 anos, Hazel Grace. Dividimos os pensamentos da protagonista e não dá para evitar o sentimento "tamu junto aê, gata" que se forma. Hazel é irônica, sincera e egocêntrica (in a good way), porque afinal de contas a personagem narradora não é onicisciente e nós, leitores, só sabemos o que Hazel nos conta. Pelos olhos dela vemos o mundo e ela então se torna nossa melhor amiga.
O filme, e por isso ter uma linguagem completamente diferente, nos apresenta a mesma história através de outra perspectiva. Hazel não é mais ossa única ligação com aquela realidade e, sem seu filtro, ela perde força, principalmente por causa do que Augustus "Gus" Walters tem a nos oferecer. Seu sorriso torto (que Ansel Elgort não conseguiu reproduzir como eu imaginei, mas que ficou lindo do mesmo jeito), as tiradas inteligentes e as declarações de amor sem vergonha me obrigaram a dizer: "Sorry, Hazel, você tem câncer, mas eu vi primeiro!". A verdade é que o livro é sobre a Hazel, o filme sobre o Gus. São a mesma história, mas é tão injusto comparar um com o outro quanto comparar a lasanha da sua mãe com a da sua avó.
Porém, eles mantiveram outra coisa em comum. Tanto o livro quanto o filme me fizeram chorar muito. Também de formas diferentes. Quando Hazel escreve um elogio fúnebre para Gus (é um filme sobre adolescentes morrendo com câncer, todo mundo morre, é óbvio) e diz que entre 0 e 1 existe uma infinidade de números (0,1; 0,12; 0, 123) que é menor que a infinidade de números comportada entre 0 e 2, entre 0 e 100, entre 0 e 1 milhão. Ela conclui: "Alguns infinitos são maiores que os outros" e agradece ao infinito que Gus a proporcionou dentro de seus dias numerados. Numa torrente, eu lembrei de Shakira cantando que pedimos o eterno a míseros mortais, lembrei do Tato, do Anjo e do Menino Bonito, mas também de todos os homens que gastaram horas/minutos de suas vidas comigo e concederam-me um eterno/infinito entre nossas momentos contados. Como não chorar?
Ma também chorei quando Hazel e Gus beijam-se no quarto de Anne Frank. Celebrando a vida. É uma cena linda no livro por causa de seus significado poético, no filme, são os lábios convidativos de Elgort que o tornaram inesquecível. Obviamente eu já estava apaixonado pelo Gus aquela altura (coisa que não me aconteceu no livro, eu disse que são muito diferentes), afinal no filme ele é transformado, simplesmente, no homem mais sedutor, quer dizer, o tipo de homem que ME seduz muito fácil ao condensarem suas falas em 1:30 de fita. Acho que esta é a grande transformação que o personagem passa entre o livro e o filme, tudo que sabemos no livro sobre Gus é oriundo do filtro que Hazel faz, ela diluí o personagem nela mesma, no filme não. Nosso contato (e impacto) com o Gus é direto. Eu me peguei querendo estar no lugar dela, da Hazel. Sim, ela anda com uma cânula para poder respirar, um dreno no pulmão por causa de um edema, mas eu a invejei por causa do Gus. Fui mórbido?
Por fim, o último momento lacrimejante é quando ouvimos o elogio fúnebre que Gus escreveu para Hazel (ela é a protagonista, mas como eu já disse este não é um filme sobre alguém com câncer, mas sobre alguém morrendo de câncer, ela diz inclusive nas primeiras páginas do livro, e na cena que apresenta a personagem no filme: "a depressão não é um efeito colateral do câncer, é um efeito colateral de estar morrendo". A Culpa É Das Estrelas é um livro e filme sobre morrer, get over it!). Eu ouvi o elogio, ele fala muito sobre a própria Hazel, declama suas qualidades e termina (e voltei ao livro para lembrar) dizendo: "Eu a amo. Sou muito sortudo por amá-la, Van Houten. Não dá para escolher se você vai ou não vai se ferir neste mundo, meu velho, mas é possível escolher quem vai ferí-lo. Eu aceito minhas escolhas. Espero que a Hazel aceite as dela". Fico arrepiado de reler. Eu chorei muito no cinema, pensei ali sobre quem escreveria uma elegia, panegírico, nota fúnebre, para mim. Quem se sentiria ferido porque eu parti? Pensei sim na minha morte, em como Gus e Hazel marcaram a vida um do outro, e eu pensava: quem eu marquei? No que eu marquei? Como marquei? Quem se levantaria ao lado do caixão e diria algo para os vivos? Que estória contaria? Que qualidade exaltaria? Que lágrimas derramaria? Nós não temos consciência do quanto tocamos os outros e nem sabemos o quanto é bom dizer as pessoas que elas nos tocaram, antes que seja tarde. Mas também chorei porque, e esta sempre foi minha filosofia de vida, sofrer nesta vida é inevitável, tentar evitar o sofrimento normalmente é inútil, porém quando nós aceitamos e vivemos a vida este mal-fadado sofrer passa por nós sem muitas lágrimas. Deixe ele vir. Deixe-o passar por nós.
