Quando voltei para Natal, eu deixei vários livros na casa do Rajeik na capital mineira. Foram três caixas de livros que eu havia dito que voltaria para buscar quando viesse defender a tese. Quase um ano se passou, e eu voltei. Como as caixas com livros são muito pesadas, é impossível levá-las comigo de avião, o preço não valia a pena, então o jeito era fazer o transporte por terra. Decidi, destarte, após alguma pesquisa, que seria mais fácil usar uma das empresas de ônibus que faz a linha BH-Natal do que usar uma empresa especializada em transporte. Foi a primeira coisa que fiz ao chegar a Belo Horizonte. Saí a tarde para deixar as caixas, acompanhado do Cara Comum, que sabia onde ficava a garagem da empresa de ônibus que, eu já havia pesquisado de Natal, seria a melhor para levar meus livros. Ele veio até a casa do Rajeik e me ajudou a descer com as caixas até o táxi que nos esperava. Conversamos o caminho todo sobre tv, travestis e internet, e ao voltar, de ônibus, decidimos que ele viria para a casa do Rajeik e eu prepararia um yakisoba para ele e o meu anfitrião. Mas antes precisávamos passar em um supermercado e comprar os apetrechos necessários para fazer o prato chinês. No centro da cidade, entramos em um supermercado, eu escolhia legumes, carnes, ele apontava mulheres vestidas como drag queens, e na hora de escolher o molho shoyo paramos ao lado de três funcionários que arrumavam as prateleiras com pacotes de arroz, feijão e macarrão. Eles discutiam alguma coisa animadamente. Eu ouvi apenas: "Quando um homem toca no outro vai dar confusão, cara!", disse um baixinho de moicano no cabelo. O outro retrucava dizendo que não era bem assim. "Homem que é homem não toca o outro não!". Eu então já levava o shoyo para o carrinho quando o baixinho de moicano perguntou ao Cara Comum: "Não é, cara, você não concorda?". O Cara Comum olhava para os empregados sem saber o que responder, eu me aproximei e segurei sua mão e dei-lhe um selinho. "Você não concorda, amor?". Os dois que discutiam enquanto colocavam sacos de feijão e arroz nas prateleiras ficaram imediatamente em silêncio. E nós empurramos o carrinho para o caixa rápido.
Continua no Pote de Ouro, do Cara Comum.
